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Wallerstein: Crise dos “emergentes” ou do Sistema?
Wallerstein aponta: "Novas turbulências sugerem: vivemos época de bifurcação. Em declínio, capitalismo será superado – por algo bem melhor ou bem pior que ele..."
Por Immanuel Wallerstein
Não faz muito tempo, os “especialistas” e os investidores viam os “mercados emergentes” – um eufemismo para China, Índia, Brasil e alguns outros – como salvadores da economia-mundo. Eram eles que iriam sustentar o crescimento e, portanto, a acumulação de capitais, quando os EUA, a União Europeia e o Japão declinavam, em seu papel tradicional de pilastras do sistema capitalista global.
Por isso, é chocante que, nas duas últimas semanas de janeiro, o Wall Street Journal (WSJ), o Financial Times (FT), o Main Street, a agência Bloomberg, o New York Times (NYT) e o Fundo Monetário Internacional tenham, todos, soado o alarme sobre o “colapso” destes mesmos mercados emergentes; e que tenham advertido, em especial, sobre a deflação, que poderia ser “contagiosa”. Tive a impressão de que estão em pânico, quase indisfarçável.
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2/11/2014
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A ressurreição de Marx
O artigo abaixo foi publicado originalmente na revista americana Foreign Policy. Leo Panitch é um renomado historiador e economista. Nascido no Canadá, Panitch colabora com jornais e revistas de todo o mundo, e leciona Ciência Política na Universidade de Toronto.
Por Leo Panitch
A crise econômica gerou um ressurgimento do interesse em Karl Marx. As vendas mundiais de O Capital dispararam (uma editora alemã vendeu milhares de cópias em 2008, contra 100 do ano anterior), o que dá a medida de uma crise ampla que colocou o capitalismo global – e seus sacerdotes – em uma confusão ideológica.
No entanto, mesmo que a fé em ortodoxias neoliberais tenha implodido, por que ressuscitar Marx? Para começar, Marx estava muito à frente de seu tempo ao prever a bem sucedida globalização do capitalismo das últimas décadas. Ele previu com precisão muitos dos fatores decisivos que dariam origem à crise econômica atual: o que ele chamou de “contradições” inerentes a um mundo composto de mercados competitivos, produção de mercadorias e especulação financeira.
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ERick
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1/31/2014
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Europa e a máquina do tempo
Por Erick da Silva
Lendo alguns jornais da Europa, tive uma inusitada sensação. Pareceu por um momento que uma máquina do tempo havia me transportado de volta ao passado. Mais precisamente aos anos de 1990, quando as noticias da América Latina eram dominadas por temas como "ajuste fiscal", "pacote do FMI", "crescimento do desemprego", "queda no PIB" e etc. A diferença é que estas notícias, que outrora versavam sobre os países latino americanos, agora se referiam ao velho continente.
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1/21/2014
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As sementes do fascismo no século 21
Por William I. Robinson
Em Policing the Crisis, clássico estudo conduzido, em 1978, pelo famoso socialista e teórico cultural Stuart Hall e alguns colegas, os autores mostram que a reestruturação do capitalismo, uma resposta à crise da década de 1970 – a última grande crise mundial do capitalismo até a de 2008 –, produziu, no Reino Unido e em todo o mundo, um “estado excepcional”. Significava um processo de ruptura com os mecanismos de controle social, então consensuais, e um autoritarismo crescente. Eles escreveram:
“Este é um momento extremamente importante. Esgotado o repertório da hegemonia por meio do consentimento, destaca-se cada vez mais a tendência ao uso rotineiro das características mais repressivas do Estado. Aqui, o pêndulo no exercício da hegemonia inclina-se, de forma decisiva. De um período em que consentimento suplantava a coerção, passa-se a outro em que a coerção volta a ser a forma natural e rotineira de assegurar o consentimento. Esse deslocamento interno do pêndulo da hegemonia – de consentimento para coerção – é uma resposta do Estado à crescente polarização (real e imaginária) das forças de classes. É, exatamente assim, que uma “crise de hegemonia” se expressa… O lento desenvolvimento de um estado de coerção legítimo, o nascimento de uma sociedade de “lei e ordem”… Todo teor da vida social e política é transformado (neste momento). Um novo ambiente ideológico, claramente distinto, é urdido. (Policing the Crisis, pp. 320-321).”
Esta é também uma descrição exata da atual conjuntura. Estamos testemunhando a transição de um estado de bem-estar social para um estado de controle social, em todo o mundo. Estamos diante de uma crise global sem precedentes, dada sua magnitude, seu alcance global, a extensão da degradação ambiental e da deterioração social e a escala dos meios de violência. Nós realmente estamos enfrentando uma crise da humanidade, entramos em um período de grandes agitações, de mudanças e incertezas. E esta crise é distinta dos episódios anteriores de crises mundiais – a de 1930 ou a de 1970 – precisamente porque o capitalismo mundial é fundamentalmente distinto, no início do século 21.
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9/20/2013
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Wallerstein: Levantes aqui, ali e em toda parte
O sociólogo Immanuel Wallerstein descreve cinco traços comuns aos movimentos políticos que tomam as ruas do mundo. Ele aponta que eles se inserem em um cenário de uma transição estrutural: de uma economia mundial capitalista que está se esgotando para um novo tipo de sistema. Este novo sistema pode ser melhor ou pior. Essa seria a batalha real.
Por Immanuel Wallerstein
O levante, agora persistente, na Turquia foi seguido por uma revolta ainda maior no Brasil, que por sua vez foi acompanhada por manifestações menos noticiadas, mas não menos reais, na Bulgária. Obviamente, esses protestos não foram os primeiros, e muito menos os últimos de uma série realmente mundial de revoltas nos últimos anos. Há muitas maneiras de analisar este fenômeno. Eu o vejo como um processo contínuo de algo que começou com a revolução mundial de 1968.
É claro que todas as revoltas são particulares em seus detalhes e na correlação de forças interna em cada país. Mas existem certas similaridades que devem ser notadas, se quisermos dar sentido ao que está acontecendo e decidir o que todos nós, como indivíduos e como grupos, deveríamos fazer.
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7/21/2013
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Emir Sader: “O capital” no mundo contemporâneo
Por Emir Sader
A ideologia que saiu triunfante com o fim da Guerra Fria e a vitória do bloco ocidental promoveu a identidade do capitalismo com dinamismo, modernização, racionalidade, bem estar.
As teses do “fim da história” foram acompanhadas da expectativa de um capitalismo sem crises, de que a “new economy” seria a expressão teórica. Uma ilusão que durou pouco, cruzou a década de 1990, até desembocar numa nova recessão com o fim do boom da informática em 2000.
Porém, as ilusões terminaram definitivamente com a emergência da crise atual do capitalismo, surgida em 2008 e que se prolonga há 5 anos, sem horizonte para seu fim.
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6/06/2013
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Tarso Genro - Uma colaboração nossa para combater a crise: a européia
Por Tarso Genro
O esforço feito pelas agências financeiras privadas para promover o aumento dos juros, através do controle seletivo da informação - via colunistas financeiros, editorialistas convictos ou devidamente convencidos, cronistas políticos que repetem a “voz do dono”, para lembrar o velho selo da RCA Victor - configurou-se como uma profecia autorealizada. O medo comum da inflação e a constatação da demora, na retomada de taxas de crescimento mais altas - proveniente das pessoas de boa fé - também ajudou a criar o clima para a realização da “profecia”.
Quero arriscar um palpite sobre porque as taxas de juro subiram e assim geraram um novo crescimento da dívida pública que, de uma parte, agradou as “agências de risco” e o sistema financeiro privado, em geral, e, de outra, brindou a oposição neoliberal com argumentos contra a gestão financeira do Governo da Presidenta Dilma, embora a decisão fosse de responsabilidade exclusiva do Banco Central.
Como é sabido, na crise infernal em que está metida a União Européia, os “socorros” em curso, de bilhões e bilhões de euros, estão sendo dirigidos não para recuperar as empresas antes produtivas, que empregavam milhões de trabalhadores, mas para recapitalizar os bancos. Os recurso também estão sendo repassados aos governos, mas para eles pagarem os bancos, não para investimentos do Estado. Esta política anti-crise está combinada com as demissões de servidores públicos, extinção de direitos, redução drástica da proteção social e sucateamento de médias e pequenas empresas. Na Espanha, 400 mil delas já foram fechadas ou informalizadas.
O sistema financeiro privado europeu, em consequência, não vai utilizar o dinheiro novo, é obvio, para dotar os Estados europeus mais débeis de meios para investir em programas de desenvolvimento econômico e social. Nem vai usar os recursos novos para financiar a retomada da indústria em crise, porque bancos não emprestam sem garantias plenas de retorno. Qual o destino, então, do dinheiro “novo”? A resposta parece óbvia: financiamento da dívida dos países mais sadios, economicamente, - em crescimento ou em vias de retomar o crescimento - que precisam rolar suas dívidas de maneira serena, para não desestabilizar a confiança dos investidores externos e internos. Especulação.
Como a grande massa deste dinheiro “novo” vem para este financiamento, o aumento da taxa de juros torna os nossos papéis, no mercado financeiro global, mais rentáveis e atraentes (para os bancos que os comprarem), o que resulta em repassar mais recursos do nosso país para o sistema financeiro utilizar, a seu gosto, na crise européia. Como conseqüência, o “temor da inflação” - meticulosamente alardeado a partir da síndrome do tomate - pelo aumento da taxa de juros, desdobra-se numa drenagem de mais recursos nacionais para o sistema financeiro manobrar, na Europa capitalista em crise.
É fácil constatar que ocorreu um movimento político, apoiado pelos meios de comunicação dominantes na mídia nacional, para forçar uma situação de apreensão com o processo inflacionário e assim estimular o aumento da taxa de juros, remédio preferido de dez, entre dez economistas “liberais”, que são ouvidos como “especialistas” em dar conselhos a governos quando estão na oposição, mas foram um fracasso rotundo quando tiveram algum tipo de influência em decisões econômicas governamentais. Nove, entre dez deles, hoje, são executivos de grandes bancos ou trabalham para agências financeiras privadas, como consultores ou gerentes.
Os recursos que se vão, com o aumento dos juros, sequer são para mitigar a situação de desespero dos gregos, espanhóis, cipriotas, portugueses ou trabalhadores dos países atingidos pela crise, mas passam a integrar a engrenagem da rentabilidade dos bancos, que comandam - junto com a sra. Merkel - as desastradas políticas anti-crise da UE. É a engrenagem da derrota final da social-democracia sem fundos, que entregou a gestão do Estado ao capital financeiro credor.
O aumento da taxa juros estabelece, portanto, uma solidariedade objetiva da economia brasileira com as políticas recessivas anti-crise da União Européia, conseguida através de uma articulação política do sistema financeiro global: o aumento da taxa de juros transfere um adicional de recursos, que será diretamente manipulado pelo sistema, para ajudá-lo a gerir a crise européia nos mesmos moldes em que a mesma vem sendo enfrentada.
Fomos colocados, portanto, sob a mesma orientação dos países "pressionados" (ou tutelados) - tutela que o Banco Central incorporou - pela gloriosa “Tróika”, que gerencia as reformas que devastam as condições de vida das classes trabalhadoras e das classes médias na Europa. O aumento da taxa de juros, que aparentemente é uma forma de proteger o país da inflação, como inclusive acreditam algumas pessoas de boa fé, pode gerar um novo ciclo de apreensão inflacionária no país, que não revertido, sacrificará novamente as nossas taxas de crescimento, o que já nos custou demasiadamente caro numa outra era.
O Brasil tem reservas para enfrentar os ataques que ainda virão, contra a nossa moeda. O componente principal da globalização financeira é a socialização dos prejuízos, que ataca tanto os direitos das camadas mais débeis dos países em crise, como os países em ascenção econômica e social como o nosso que se tornam, assim, territórios econômicos a serem extorquidos. O preço da crise européia, sobre nós, é a taxa de juros para melhorar a perfomance dos grandes bancos encalacrados na crise. O preço do projeto de uma nação mais justa, mais democrática e mais igual, para nós, é ter maestria para resistir e crescer, distribuindo renda e criando empregos de qualidade.
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ERick
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4/21/2013
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Slavoj Žižek - Rabinovitch no Chipre
Confira abaixo artigo inédito, traduzido por Rogério Bettoni, enviado pelo autor para a Boitempo publicar em seu Blog.
Por Slavoj Žižek
Recordemos a cena clássica dos desenhos animados em que um gato chega à beira do precipício e continua caminhando, ignorando o fato de que não há chão sob suas patas; ele só começa a cair quando olha para baixo e se vê pairando sobre o abismo. Não é assim que o povo do Chipre se sente hoje em dia? As pessoas sabem que o Chipre nunca mais será o mesmo, que logo adiante haverá uma queda catastrófica no padrão de vida, mas o impacto total dessa queda ainda não foi sentido devidamente; então, por um curto período, as pessoas se dão ao luxo de continuar vivendo normalmente, como o gato que caminha tranquilo no ar. E não podemos condená-las: esse adiamento do colapso total também é uma estratégia de sobrevivência – o verdadeiro impacto acontecerá em silêncio, quando o pânico tiver acabado. Por isso é que agora, quando a crise no Chipre desapareceu em grande medida da mídia, devemos falar e escrever sobre ela.
Há uma piada famosa, contada na última década da União Soviética, sobre Rabinovitch, um judeu que quer emigrar. O funcionário do departamento de emigração pergunta o motivo, e ele responde: “Há dois motivos. O primeiro é o medo de que os comunistas percam o poder na União Soviética, e o novo governo coloque sobre nós, judeus, toda a culpa pelos crimes comunistas – e daí haverá mais pogroms…” O funcionário interrompe, dizendo: “Mas isso é uma bobagem, nada vai mudar na União Soviética, o poder dos comunistas vai durar para sempre!” “Pois então, esse é o segundo motivo”, responde Rabinovitch tranquilamente.
É fácil imaginarmos uma conversa semelhante entre um gestor financeiro da União Europeia e um Rabinovitch cipriota – Rabinovitch reclama: “Há duas razões para estarmos em pânico. Primeiro, temos medo de que a UE simplesmente abandone o Chipre e deixe nossa economia ruir…” O gestor financeiro o interrompe: “Você pode confiar na UE: nós os controlaremos com firmeza e diremos o que devem fazer!” E Rabinovitch responde tranquilamente: “Bem, essa é a segunda razão”.
Esse impasse representa perfeitamente o cerne da triste situação do Chipre: eles não podem sobreviver prosperamente sem a Europa, mas também não o podem com a Europa – as duas opções são piores, como diria Stalin. Recordemos a piada cruel de Ser ou não ser (1942), de Ernst Lubitch: quando questionado sobre os campos de concentração na Polônia ocupada, o responsável oficial nazista, apelidado de “Campo de Concentração Erhardt”, responde: “Nós concentramos, os poloneses acampam”. O mesmo não vale para a atual crise financeira europeia? A forte Europa Setentrional, voltada para a Alemanha, é responsável pela concentração, enquanto o Sul, enfraquecido e vulnerável, acampa. Desse modo, surgem no horizonte os contornos de uma Europa dividida: a região Sul será cada vez mais reduzida a uma zona com força de trabalho mais barata, fora da rede segura do bem-estar social, um domínio próprio para a terceirização e o turismo. Em suma, a lacuna entre o mundo desenvolvido e os retardatários avançará dentro da própria Europa.
Essa lacuna se reflete nas duas principais histórias sobre o Chipre, que lembram duas histórias anteriores sobre a Grécia. Há o que podemos chamar de história alemã: o gasto livre, as dívidas e a lavagem de dinheiro não podem continuar indefinidamente etc. E há a história do Chipre: as medidas brutais da UE resultam em uma nova ocupação alemã que destitui o Chipre de sua soberania. As duas histórias estão erradas, e as demandas que implicam são absurdas: o Chipre, por definição, não pode liquidar sua dívida, enquanto a Alemanha e a UE não podem simplesmente continuar injetando dinheiro para preencher o buraco financeiro cipriota. As duas histórias escondem o fato principal de que há algo errado com o sistema inteiro, no qual as especulações bancárias incontroláveis podem levar um país inteiro à falência. A crise do Chipre não é uma tempestade no copo d’água de um país marginal pequeno, mas um sintoma do que acontece com todo o sistema da UE.
Por isso a solução não é apenas uma regulação maior para evitar a lavagem de dinheiro etc., mas (pelo menos) uma mudança radical no sistema bancário inteiro – para dizer o indizível, algum tipo de socialização dos bancos. A lição das quebras no mundo inteiro desde 2008 é clara: a rede inteira de fundos e transações monetárias, desde depósitos individuais e fundos de aposentadoria até o funcionamento de todos os tipos de derivativos, terá de ser controlada socialmente, modernizada e regulada. Pode soar utópico, mas a verdadeira utopia é a ideia de que podemos, de alguma maneira, sobreviver com mudanças pequenas e cosméticas.
Nesse aspecto, devemos evitar uma armadilha fundamental: a necessária socialização dos bancos não é um compromisso entre o trabalho assalariado e o capital produtivo contra o poder das finanças. Colapsos e crises financeiras são lembretes óbvios de que a circulação do Capital não é um circuito fechado capaz de sustentar plenamente a si próprio, isto é, que essa circulação visa a realidade da produção e da venda de bens que satisfazem às necessidades das pessoas. No entanto, a lição mais sutil dos colapsos e das crises financeiras é que não há como retornar a essa realidade – toda a retórica do “passemos do espaço virtual da especulação financeira de volta às pessoas reais que produzem e consomem” é profundamente equivocada, é a ideologia em sua forma mais pura. O paradoxo do capitalismo é que não podemos jogar fora a água suja das especulações financeiras e guardar o bebê saudável da economia real: a água suja efetivamente é a “linhagem” do bebê saudável.
Isso significa apenas que a solução da crise do Chipre não está no Chipre. Para que o país tenha uma chance, alguma coisa terá de mudar alhures.
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ERick
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4/10/2013
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Por que os fundamentalistas de livre mercado acreditam que 2013 será o melhor ano de todos
Por Slavoj Žižek
A edição de natal da revista britânica The Spectator publicou um editorial chamado “Por que 2012 foi o melhor ano de todos?” (disponível aqui, em inglês). O texto criticava a ideia de que vivemos em “um mundo perigoso e cruel, em que as coisas estão ruins e ainda pioram”. Eis o parágrafo de abertura: “Talvez não pareça, mas 2012 foi o ano mais formidável na história mundial. Essa afirmação soa algo extravagante, mas pode ser corroborada pelos fatos. Nunca houve menos fome, menos doenças ou mais prosperidade. O ocidente permanece em um marasmo econômico, mas a maioria dos países em desenvolvimento está progredindo e as pessoas estão saindo da pobreza a uma velocidade jamais registrada. Felizmente o número de mortos pela guerra ou por doenças naturais também está baixo. Estamos vivendo na idade do ouro.”
Essa mesma ideia tem sido fomentada de modo sistemático em uma série debestsellers, que vai de Rational Optimist, de Matt Ridley, a Better Angels of Our Nature, de Steven Pinker. Também há uma versão mais prática que se costuma ouvir na mídia, principalmente nos países fora da Europa: crise, que crise? Vejamos os chamados países do BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China –, ou países como Polônia, Coreia do Sul, Singapura, Peru, até mesmo vários Estados da África subsaariana: todos estão progredindo. Os perdedores são a Europa Ocidental e, até certo ponto, os Estados Unidos – então não estamos lidando com uma crise global, mas simplesmente com a mudança do progresso, que se afasta do Ocidente. Um símbolo poderoso dessa mudança não seria o fato de que, recentemente, muita gente de Portugal, país em crise profunda, está voltando para Moçambique e Angola, ex-colônias de Portugal, mas dessa vez como imigrantes econômicos, e não como colonizadores?
Até mesmo com respeito aos direitos humanos: a situação na China e na Rússia não é melhor agora do que há 50 anos? Descrever a crise existente como um fenômeno global, como dizem, é uma típica visão eurocentrista advinda dos esquerdistas que geralmente se orgulham de seu antieurocentrismo. Nossa “crise global”, na verdade, é um mero abalo local em uma história mais ampla do progresso geral.
Mas é preciso conter nossa alegria. A pergunta que deve ser feita é: se a Europa, sozinha, está em declínio gradual, o que está substituindo sua hegemonia? A resposta é: “o capitalismo de valores asiáticos” – o que, obviamente, não tem nada a ver com o povo asiático e tudo a ver com a tendência nítida e atual do capitalismo contemporâneo em limitar ou até mesmo suspender a democracia.
Essa tendência não contradiz de modo nenhum o tão celebrado progresso da humanidade – ela é sua característica imanente. Todos os pensadores radicais, de Marx aos conservadores inteligentes, eram obcecados por esta questão: qual é o preço do progresso? Marx era fascinado pelo capitalismo, pela produtividade sem precedentes que ele desencadeava; mas Marx também frisava que esse sucesso engendra antagonismos. Devemos fazer o mesmo hoje: ter em vista a face obscura do capitalismo global que fomenta revoltas.
As pessoas se rebelam não quando as coisas estão realmente ruins, mas quando suas expectativas são frustradas. A Revolução Francesa ocorreu apenas quando o rei e os nobres começaram a perder o poder; a revolta anticomunista de 1956 na Hungria eclodiu depois que Imre Nagy já era primeiro-ministro há dois anos, depois de debates (relativamente) livres entre os intelectuais; as pessoas se rebelaram no Egito em 2011 porque houve certo progresso econômico sob o governo de Mubarak, dando origem a uma classe de jovens instruídos que participavam da cultura digital universal. E é por isso que o pânico dos comunistas chineses faz sentido: porque, no geral, as pessoas hoje estão vivendo melhor do que há quarenta anos – os antagonismos sociais (entre os novos ricos e o resto) explodem e as expectativas são muito mais elevadas.
Eis o problema com o desenvolvimento e o progresso: são sempre desiguais, dão origem a novas instabilidades e antagonismos, geram novas expectativas que não podem ser correspondidas. No Egito, pouco antes da Primavera Árabe, a maioria vivia um pouco melhor do que antes, mas os padrões pelos quais mediam sua (in)satisfação eram muito mais altos.
Para não perder o elo entre progresso e instabilidade, é preciso realçar sempre como aquilo que, à primeira vista, parece ser a realização incompleta de um projeto social na verdade sinaliza sua limitação imanente. Existe uma história (apócrifa, talvez) sobre o economista keynesiano de esquerda John Galbraith: antes de uma viagem à URSS no final da década de 1950, ele escreveu para seu amigo anticomunista Sidney Hook: “Não se preocupe, não me deixarei seduzir pelos soviéticos nem voltarei para casa dizendo que eles têm socialismo!”. Hook respondeu imediatamente: “Mas é isso que me preocupa – que você volte dizendo que a URSS não é socialista!”. O que Hook temia era a defesa ingênua da pureza do conceito: se as coisas derem errado com a construção de uma sociedade socialista, isso não invalida a ideia em si, mas significa apenas que não a executamos apropriadamente. Essa mesma ingenuidade não é detectada nos fundamentalistas de mercado da atualidade?
Durante um recente debate televisivo na França, quando o filósofo e economista francês Guy Sorman afirmou que a democracia e o capitalismo necessariamente andam juntos, não pude me negar fazer esta óbvia pergunta: “Mas e a China?”, ao que ele me repreendeu: “Na China não há capitalismo!” Para o pós-capitalista fanático Sorman, um país não é verdadeiramente capitalista se não for democrático, exatamente da mesma maneira que, para os comunistas democráticos, o stalinismo simplesmente não era uma forma autêntica de comunismo.
É assim que os atuais apologistas do mercado, em um sequestro ideológico sem precedentes, explicam a crise de 2008: não foi o fracasso do livre mercado que a provocou, mas sim a excessiva regulação estatal; o fato de que nossa economia de mercado não foi um verdadeiro Estado de bem-estar social, mas esteve, em vez disso, nas garras desse Estado. Quando rejeitamos as falhas do capitalismo de mercado como infortúnios acidentais, acabamos em um “progress(ism)o” que encara a solução como um uso mais “autêntico” e puro de uma noção, tentando assim apagar o fogo com gasolina.
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ERick
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3/04/2013
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Slavoj Zizek
A fome na Grécia
Distribuição diária de alimento em Atenas.
A foto mostra um pouco da dimensão real dos efeitos da crise do capitalismo na Grécia.
As "soluções" de austeridade impostas pela troika agravaram a grave situação do povo grego, que bravamente resiste.
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Immanuel Wallerstein: Transtornos globais a médio prazo
Por Immanuel Wallerstein
Fazer previsões a curto prazo (para um ou dois anos) é um jogo tonto. Há demasiadas guinadas e giros no mundo real político / econômico / cultural. Mas podemos tentar fazer afirmações plausíveis para o médio prazo (uma década ou mais) baseados num marco teórico trabalhável, combinado com uma análise sólida e pragmática de tendências e limitações.
O que é que sabemos do sistema-mundo em que estamos vivendo? Primeiro de tudo, que se trata de uma economia-mundo capitalista, cujo princípio básico é a incessante acumulação de capital. Segundo, que é um sistema histórico que, como todos os sistemas (desde o universo como um todo até os mínimos sistemas nanoscópicos), tem vida. Surge à existência, vive sua vida “normal”, de acordo com regras e estruturas que cria e, logo, em certo ponto, o sistema se afasta demais do equilíbrio e entra em uma crise estrutural. Terceiro, que nosso atual sistema-mundo tem sido um sistema polarizador, em que existe uma brecha que cresce, constante, entre os Estados e no interior dos mesmos.
Agora estamos em uma crise estrutural assim, e temos estado nela por uns 40 anos. Continuaremos nesta crise por outros 20 a 40 anos. Este é o tempo aproximado que dura uma crise estrutural em um sistema histórico social. O que ocorre em uma crise estrutural é que o sistema bifurca-se, o que essencialmente significa que emergem dois modos diferentes para finalizar a crise estrutural quando coletivamente se “elege” uma das alternativas.
A principal característica de uma crise estrutural é uma série de flutuações caóticas fortíssimas de tudo -os mercados, as alianças geopolíticas, a estabilidade das fronteiras estatais, o emprego, as dívidas, os impostos. A incerteza, no curto prazo, se torna crônica. E a incerteza tende a congelar a tomada de decisões econômicas, o que, por certo, piora a situação.
Eis aqui algumas das coisas que podemos esperar no médio prazo. Quase todos os Estados enfrentam, e seguirão enfrentando, um aperto entre a redução de arrecadações e o incremento dos gastos. O que quase todos os Estados estão fazendo é reduzir os gastos de duas formas. Uma tem sido cortar (ou inclusive eliminar) muitíssimas das redes de segurança construídas no passado para ajudar as pessoas comuns a lidar com as múltiplas contingências que enfrenta. Mas há um segundo modo também. Quase todos os Estados estão cortando as transferências de dinheiro às entidades estatais subordinadas - as estruturas federativas, se o Estado é uma federação, e os governos locais. O que isto faz é simplesmente transferir a necessidade de incrementar impostos a estas unidades subordinadas. Se isso se mostra impossível, podem ir à falência, o que elimina outras partes das redes de segurança social (notavelmente, as pensões).
Isso tem um impacto imediato nos Estados. Por um lado, os debilita, conforme mais e mais unidades buscam cindir-se se o considerarem vantajoso economicamente. Mas por outro lado, os Estados são mais importantes que nunca, conforme as populações buscam refúgio nas políticas protecionistas (manter nossos empregos, não os seus). As fronteiras estatais sempre mudaram. Mas há a perspectiva de que mudem com muito maior frequência agora. Ao mesmo tempo, as novas estruturas que vinculam os Estados existentes (ou suas subunidades) - como a União Europeia (UE) e a nova estrutura sul-americana (Unasul) - continuarão florescendo e desempenhando um papel geopolítico crescente.
Os malabarismos entre os múltiplos lugares do poder geopolítico se tornam muito mais instáveis em uma situação em que nenhum desses lugares estará em posição de ditar regras interestatais. Os Estados Unidos foram eventualmente um poder hegemônico com pés de barro, mas que segue sendo poderoso o suficiente como para provocar danos por torpeza. A China parece ter a posição econômica emergente mais forte, mas é menos forte do que ela mesma ou os outros pensam. O grau no qual se aproximam Europa ocidental e Rússia segue sendo uma pergunta aberta, e segue estando na agenda em ambos os lados. O modo com que a Índia jogará as suas cartas continua sendo algo que, em grande medida, a própria Índia ainda não decidiu. O que isto significará para as guerras civis como a da Síria até agora tem a ver com como os interventores estrangeiros se cancelam mutuamente e como os conflitos se organizam, mais do que nunca, em torno de grupos de identidade fratricidas.
Reiterarei minha postura largamente arguida. Ao final da década veremos alguns realinhamentos importantes. Um é a criação de uma estrutura confederada que vincule o Japão a uma China (reunificada) e a una Coreia (reunida). O segundo é uma aliança geopolítica entre esta estrutura confederada e os Estados Unidos. Terceiro é uma aliança de facto entre a Unão Europeia e a Rússia. O quarto é a proliferação nuclear a uma escala significativa. Um quinto é um protecionismo generalizado. O sexto é uma deflação mundial generalizada, que pode assumir duas formas - seja uma redução nominal dos preços ou inflações rampantes, que têm a mesma consequência.
Obviamente, estes não são resultados felizes para quase ninguém. O desemprego mundial aumentará, não vai cair. E as pessoas comuns sentirão os beliscões de forma muito severa. As pessoas já mostraram que estão prontas para responder lutando de múltiplas formas, e esta resistência popular crescerá. Encontrar-nos-emos no meio de uma vasta batalha política para determinar o futuro do mundo.
Aqueles que têm riqueza e privilégios hoje não se sentarão, sem fazer nada. Será mais e mais claro para eles que não podem assegurar seu futuro através do sistema capitalista existente. Buscarão implementar um sistema que não se baseie em um papel central do mercado, mas sim em uma combinação de força bruta e enganação. O objetivo chave é assegurar que o novo sistema garanta a continuação de três características principais para o atual sistema - hierarquia, exploração e polarização.
Por outro lado, haverá forças populares por todo o mundo que buscarão criar uma nova classe de sistema histórico, um que ainda não existiu, baseado em uma democracia relativa e uma relativa igualdade. É quase impossível prever o que isso significará em termos das instituições que o mundo poderia criar. Aprenderemos na construção deste sistema, nas décadas vindouras.
Quem ganhará esta batalha? Ninguém pode prever. Será o resultado de uma infinidade de ações nanoscópicas empreendidas por uma infinidade de nano-atores em uma infinidade de nano-momentos. E em algum ponto a tensão entre as duas soluções alternativas se inclinará definitivamente a favor de uma ou outra. Isto é o que nos dá esperança. O que cada um de nós fizer em cada momento sobre cada um dos pontos imediatos conta. Alguns chamam isso de “efeito borboleta”. O bater das asas de uma borboleta afeta o clima de um extremo ao outro no mundo. Neste sentido, hoje todos somos pequenas borboletas.
O que é que sabemos do sistema-mundo em que estamos vivendo? Primeiro de tudo, que se trata de uma economia-mundo capitalista, cujo princípio básico é a incessante acumulação de capital. Segundo, que é um sistema histórico que, como todos os sistemas (desde o universo como um todo até os mínimos sistemas nanoscópicos), tem vida. Surge à existência, vive sua vida “normal”, de acordo com regras e estruturas que cria e, logo, em certo ponto, o sistema se afasta demais do equilíbrio e entra em uma crise estrutural. Terceiro, que nosso atual sistema-mundo tem sido um sistema polarizador, em que existe uma brecha que cresce, constante, entre os Estados e no interior dos mesmos.
Agora estamos em uma crise estrutural assim, e temos estado nela por uns 40 anos. Continuaremos nesta crise por outros 20 a 40 anos. Este é o tempo aproximado que dura uma crise estrutural em um sistema histórico social. O que ocorre em uma crise estrutural é que o sistema bifurca-se, o que essencialmente significa que emergem dois modos diferentes para finalizar a crise estrutural quando coletivamente se “elege” uma das alternativas.
A principal característica de uma crise estrutural é uma série de flutuações caóticas fortíssimas de tudo -os mercados, as alianças geopolíticas, a estabilidade das fronteiras estatais, o emprego, as dívidas, os impostos. A incerteza, no curto prazo, se torna crônica. E a incerteza tende a congelar a tomada de decisões econômicas, o que, por certo, piora a situação.
Eis aqui algumas das coisas que podemos esperar no médio prazo. Quase todos os Estados enfrentam, e seguirão enfrentando, um aperto entre a redução de arrecadações e o incremento dos gastos. O que quase todos os Estados estão fazendo é reduzir os gastos de duas formas. Uma tem sido cortar (ou inclusive eliminar) muitíssimas das redes de segurança construídas no passado para ajudar as pessoas comuns a lidar com as múltiplas contingências que enfrenta. Mas há um segundo modo também. Quase todos os Estados estão cortando as transferências de dinheiro às entidades estatais subordinadas - as estruturas federativas, se o Estado é uma federação, e os governos locais. O que isto faz é simplesmente transferir a necessidade de incrementar impostos a estas unidades subordinadas. Se isso se mostra impossível, podem ir à falência, o que elimina outras partes das redes de segurança social (notavelmente, as pensões).
Isso tem um impacto imediato nos Estados. Por um lado, os debilita, conforme mais e mais unidades buscam cindir-se se o considerarem vantajoso economicamente. Mas por outro lado, os Estados são mais importantes que nunca, conforme as populações buscam refúgio nas políticas protecionistas (manter nossos empregos, não os seus). As fronteiras estatais sempre mudaram. Mas há a perspectiva de que mudem com muito maior frequência agora. Ao mesmo tempo, as novas estruturas que vinculam os Estados existentes (ou suas subunidades) - como a União Europeia (UE) e a nova estrutura sul-americana (Unasul) - continuarão florescendo e desempenhando um papel geopolítico crescente.
Os malabarismos entre os múltiplos lugares do poder geopolítico se tornam muito mais instáveis em uma situação em que nenhum desses lugares estará em posição de ditar regras interestatais. Os Estados Unidos foram eventualmente um poder hegemônico com pés de barro, mas que segue sendo poderoso o suficiente como para provocar danos por torpeza. A China parece ter a posição econômica emergente mais forte, mas é menos forte do que ela mesma ou os outros pensam. O grau no qual se aproximam Europa ocidental e Rússia segue sendo uma pergunta aberta, e segue estando na agenda em ambos os lados. O modo com que a Índia jogará as suas cartas continua sendo algo que, em grande medida, a própria Índia ainda não decidiu. O que isto significará para as guerras civis como a da Síria até agora tem a ver com como os interventores estrangeiros se cancelam mutuamente e como os conflitos se organizam, mais do que nunca, em torno de grupos de identidade fratricidas.
Reiterarei minha postura largamente arguida. Ao final da década veremos alguns realinhamentos importantes. Um é a criação de uma estrutura confederada que vincule o Japão a uma China (reunificada) e a una Coreia (reunida). O segundo é uma aliança geopolítica entre esta estrutura confederada e os Estados Unidos. Terceiro é uma aliança de facto entre a Unão Europeia e a Rússia. O quarto é a proliferação nuclear a uma escala significativa. Um quinto é um protecionismo generalizado. O sexto é uma deflação mundial generalizada, que pode assumir duas formas - seja uma redução nominal dos preços ou inflações rampantes, que têm a mesma consequência.
Obviamente, estes não são resultados felizes para quase ninguém. O desemprego mundial aumentará, não vai cair. E as pessoas comuns sentirão os beliscões de forma muito severa. As pessoas já mostraram que estão prontas para responder lutando de múltiplas formas, e esta resistência popular crescerá. Encontrar-nos-emos no meio de uma vasta batalha política para determinar o futuro do mundo.
Aqueles que têm riqueza e privilégios hoje não se sentarão, sem fazer nada. Será mais e mais claro para eles que não podem assegurar seu futuro através do sistema capitalista existente. Buscarão implementar um sistema que não se baseie em um papel central do mercado, mas sim em uma combinação de força bruta e enganação. O objetivo chave é assegurar que o novo sistema garanta a continuação de três características principais para o atual sistema - hierarquia, exploração e polarização.
Por outro lado, haverá forças populares por todo o mundo que buscarão criar uma nova classe de sistema histórico, um que ainda não existiu, baseado em uma democracia relativa e uma relativa igualdade. É quase impossível prever o que isso significará em termos das instituições que o mundo poderia criar. Aprenderemos na construção deste sistema, nas décadas vindouras.
Quem ganhará esta batalha? Ninguém pode prever. Será o resultado de uma infinidade de ações nanoscópicas empreendidas por uma infinidade de nano-atores em uma infinidade de nano-momentos. E em algum ponto a tensão entre as duas soluções alternativas se inclinará definitivamente a favor de uma ou outra. Isto é o que nos dá esperança. O que cada um de nós fizer em cada momento sobre cada um dos pontos imediatos conta. Alguns chamam isso de “efeito borboleta”. O bater das asas de uma borboleta afeta o clima de um extremo ao outro no mundo. Neste sentido, hoje todos somos pequenas borboletas.
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1/20/2013
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A ilha da utopia
Por Daniel Aarão Reis
Era uma vez uma ilha, perdida nos mares do Grande Norte, situada além do que a imaginação possa conceber. Era tão fria que a chamavam Iceland, terra do gelo. Em nossa língua, Islândia. Viviam nela cerca de 300 mil habitantes: um lugar próspero, rico para os padrões da época, uma gente bonita e saudável. Com um regime democrático estável, controlado pela população, dispunha de excelentes sistemas de saúde e de educação, boa alimentação, baixa criminalidade, alta esperança de vida, desenvolvimento econômico sustentável, regulado por diversas agências públicas.
Nada indicava que algo de mal poderia ocorrer naquela Terra da Promissão. No entanto, trágicos fatos ali tiveram lugar e sua recordação talvez possa ajudar a refletir sobre a crise que angustia o mundo atual.
Quando e como exatamente esta história aconteceu? Os arqueólogos mais reputados, com base em evidências e documentos, atestam que as coisas começaram a degringolar na virada no século XX para o século XXI, há centenas de anos...
Disseminaram-se, então, pela ilha, trazidas por mercadores estrangeiros, fantásticas promessas. Baseavam-se em três palavras-chave: desregulamentar, privatizar, internacionalizar. Se fossem capazes de enveredar por este caminho, os ilhéus se tornariam muito ricos, e em pouco tempo.
Persuasivos eram aqueles mercadores, e o povo resolveu segui-los. Os bancos públicos foram privatizados, e as empresas internacionais, autorizadas a explorar os recursos naturais. As agências reguladoras, enfraquecidas, definharam. Os dinheiros agora circulavam em abundância, a Bolsa de Valores galopava e a construção civil alcançava níveis frenéticos. Houve espantosos fenômenos, como o fato de os bancos privatizados contraírem empréstimos equivalentes a dez vezes ao que então se chamava o PNB, ou seja, a soma de todos os bens e serviços produzidos no país.
Vozes prudentes murmuravam: aquilo não podia dar certo.
E não deu.
Num belo dia, no ano de 2008, estourou a crise. Medonha. Os bancos faliram. A Bolsa despencou. Cessaram as atividades econômicas. O desemprego disparou. A ilha descobriu-se endividada até o último fio de cabelo.
Vieram então homens probos e pediram calma. Numa língua ininteligível, explicaram tudo: os antecedentes e os consequentes. As coisas se resolveriam através de uma nova palavra mágica: austeridade. Instituições e bancos internacionais ajudariam. Os problemas seriam equacionados, embora fosse necessário apertar os cintos. Claro, muitos perderiam casas, haveres, empregos, futuro e tudo o mais. As dívidas, porém, seriam pagas, e a honra, salva. O pacote, embrulhado com laço de fita e aprovado pelo Parlamento, virou lei. Em 2009, a fatura parecia liquidada.
Entretanto, as gentes não mais se deixaram persuadir.
Queriam entender melhor como pudera uma terra tão próspera tornar-se em menos de dez anos uma nação de mendigos. Não haveria responsáveis?
Foram às ruas, com apitos e bumbos, batendo talheres em panelas vazias. Pulando e gritando, cercaram o Parlamento, atirando ovos e tomates nos representantes. Não houve polícia capaz de segurar aquela ira.
Corria o ano de 2010 quando a pressão das multidões organizadas impôs um referendo. A Lei do Parlamento foi recusada por 93% dos votos. A dívida, contraída por alguns, não seria paga por todos. Era preciso zerá-la e recomeçar.
E teve início a investigação sobre as responsabilidades. Altos executivos e gerentes dos bancos foram para a cadeia. Os banqueiros que puderam, fugiram, como ratos de um barco à deriva. Ao mesmo tempo, decidiu-se redigir uma nova Constituição, capaz de proteger a nação de outros aventureiros.
Por toda parte, organizavam-se as gentes. Em cada distrito, uma assembleia. Participativa e consciente de que a Coisa Pública deveria ser tratada com atenção e cuidado. Entre pouco mais de 500 candidatos, sem prévia filiação partidária (os antigos partidos tornaram-se suspeitos), elegeram-se 25 representantes. Foram eles que, ouvindo as assembleias locais, autônomas em relação ao Estado e aos partidos, construíram uma nova Carta Magna, a ser aprovada em outro referendo popular. Regulação e controle, palavras esquecidas, retornaram, devidamente valorizadas. A primeira consequência foi a renacionalização dos bancos, baseada no conceito de que o dinheiro de todos é muito importante para ser deixado em mãos de poucos.
Aquele povo mostrou que, por vezes, como dizia E. Morin, o improvável acontece. Demitiu-se um governo. Refez-se o Parlamento. Exercitou-se a autonomia. Foi escrita uma nova Constituição, preocupada com as pessoas e não com os dinheiros. E a prosperidade voltou, atestada por bons resultados em 2011 e 2012.
Uma revolução. Pacífica e democrática.
Mas realizada há tantos séculos e numa terra tão longínqua... Talvez por isso se fale tão pouco dela e dos maravilhosos eventos que aconteceram na bela Islândia. Uma ilha da utopia.
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Dilma: “Recessão leva à xenofobia e ao desespero"
A presidenta Dilma Rousseff manifestou apoio, nesta terça-feira 11, à sugestão do presidente francês, François Hollande, para a criação de um conselho de segurança econômica e social, nos moldes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU).
Dilma afirmou que a recessão e a desordem fiscal podem ter consequências sociais e políticas graves, como a descrença na política, o abandono da democracia, a xenofobia e o desespero pela falta de futuro.
Os dois chefes de Estado participaram, em Paris, do evento “Fórum pelo Progresso Social: o Crescimento como Saída da Crise”, coorganizado pelo Instituto Lula e pela Fundação Jean Jaurès.
Em seu discurso, Dilma disse que “é preciso de muita cooperação, diálogo e que se assuma um compromisso com o crescimento, o emprego, a justiça social e o meio ambiente, para que se possa criar um caminho sustentável para saída da crise”.
Citando o exemplo do Brasil, Dilma pediu a “superação” da “visão incorreta que contrapõe, de um lado, as medidas de incentivo ao crescimento e, de outro, os planos de austeridade”. “Esse é um falso dilema. A responsabilidade fiscal é tão necessária quanto são imprescindíveis medidas de estímulo ao crescimento, pois a consolidação fiscal só é sustentável em um contexto de recuperação da atividade econômica”, afirmou.
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12/11/2012
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Crise do capitalismo: E se não houver saída alguma?
Por Immanuel Wallerstein
A maior parte dos políticos e dos “especialistas” tem um costume arraigado de prometer tempos melhores à frente, desde que suas políticas sejam adotadas. As dificuldades econômicas globais que vivemos não são exceção, neste quesito. Seja nas discussões sobre o desemprego nos Estados Unidos, os custos alarmantes de financiamento da dívida pública na Europa ou os índices de crescimento subitamente em declínio, na Índia, China e Brasil, expressões de otimismo a médio prazo permanecem na ordem do dia.
Mas e se não houver motivos para elas? De vez em quando, emerge um pouco de honestidade. Em 7/8, Andrew Ross Sorkin publicou um artigo no New York Times em que oferecia “uma explicação mais direta sobre por que os investidores deixaram as bolsas de valores: elas tornaram-se uma aposta perdedora. Há toda uma geração de investidores que nunca ganhou muito”. Três dias depois, James Mackintosh escreveu algo semelhante no Financial Times: os economistas estão começando a admitir que a Grande Recessão atingiu permanentemente o crescimento… Os investidores estão mais pessimistas”. E, ainda mais importante, o New York Times publicou, em 14/8, reportagem sobre o custo crescente de negociações mais rápidas. Em meio ao artigo, podia-se ler: “[Os investidores] estão desconcertados por um mercado que não ofereceu quase retorno algum na última década, devido às bolhas especulativas e à instabilidade da economia global.
Quando se constata que muito poucos concentraram montanhas incríveis de dinheiro, pergunta-se: como o mercado de ações pode ter se tornado “perdedor”? Durante muito tempo, o pensamento básico sobre os investimentos afirmava que, a longo prazo, o ganho com ações, corrigido pela inflação, era alto – em especial, mais alto que o dos papéis do Estado (bônus). Esta era a recompensa pelos riscos derivados da grande volatilidade, a curto e médio prazo, das ações. Os cálculos variam, mas em geral admite-se que, no século passado, o retorno das ações foi bem mais alto que o dos bônus, desde, é claro, que a aplicação fosse mantida.
Não se leva tanto em conta que, no mesmo período de um século, os lucros das ações corresponderam mais ou menos a duas vezes o aumento do PIB – algo que levou alguns analistas a falar num “efeito Ponzi”. Ocorre que os maravilhosos ganhos com ações ocorreram, em grande parte, no período a partir do início dos anos 1970, a era do que é chamado de globalização, neoliberalismo e ou financeirização.
Mas o que ocorreu de fato, neste período? Deveríamos notar, de início, que o período pós-1970 seguiu-se à época de maior crescimento (por larga margem) na produção, produtividade e mais-valia global, na história do economia-mundo capitalista. É por isso que os franceses chamam este período de trente glorieuses – os trinta anos (1943-1973) gloriosos. Em minha linguagem analítica, foi uma fase A do ciclo Kondratieff. Quem possuía ações neste período deu-se, de fato, muito bem. Assim como os empresários em geral, os trabalhadores assalariados e os governos, no que diz respeito às receitas. Parecia que o capitalismo, como sistema-mundo, teria um poderoso impulso, após a Grande Depressão e as destruições maciças da II Guerra Mundial.
Porém, tempos tão bons não duraram para sempre, nem poderiam. Por um motivo: a expansão da economia-mundo baseou-se em alguns quase-monopólios, nas chamadas indústrias-líderes. Duraram até serem solapados por competidores que conseguiram, finalmente, entrar no mercado mundial. Competição mais acirrada reduziu os preços (sua virtude), mas também a lucratividade (seu vício). A economia-mundo mergulhou numa longa estaganção nos trinta ou quarenta anos inglórios seguintes (1970s – 2012 e além). Este período foi marcado por endividamento crescente (de quase todo mundo), desemprego global em alta e retirada de muitos investidores (talvez a maior parte) para os títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
Tais papéis são seguros, ou pelo menos mais seguros, mas não muito lucrativos, exceto para um grupo cada vez menor de bancos e hedge funds que manipularam as operações financeiras em todo o mundo – sem produzir valor algum. Isso nos trouxe aonde estamos: um mundo incrivelmente polarizado, com os salários reais muito abaixo de seus picos nos anos 1970 (mas ainda acima de seus pisos, nos 1940) e as receitas estatais significativamente rebaixadas, também. Uma sequência de “crises da dívida” empobreceu uma sequência de zonas do sistema-mundo. Como resultado, o que chamamos de demanda efetiva contraiu-se em toda parte. É ao que Sorkin se referia, quando afirmou que o mercado de ações já não é atrativo, como fonte de lucros para acumular capital.
O núcleo do dilema tem a ver com as contraiçẽos centrais do sistema. O que maximiza os ganhos, a curto prazo, para os produtores mais eficientes (margens de lucro ampliadas), oprime os compradores, a longo prazo. À medida em que mais populações e zonas integram-se completamente à economia-mundo, há cada vez menos margem para “ajustes” ou “renovações” – e cada vez mais escolhas impossíveis para investidores, consumidores e governos.
Lembremos que a taxa de retorno, no século passado, foi o dobro do aumento do PIB. Isso poderia se repetir? É difícil de imaginar – tanto para mim, quanto para a maior parte dos investidores potenciais no mercado. Isso gera as restrições com que nos deparamos todos os dias nos Estados Unidos, Europa e, breve, nas “economias emergentes”. O endividamento é alto demais para se sustentar.
Por isso, temos, por um lado, um apelo político poderoso à “austeridade”. Ela significa, na prática, eliminar direitos (como aposentadorias, qualidade da assistência médica, gastos com educação) e reduzir o papel dos governos na garantia de tais direitos. Porém, se a maioria das pessoas tiver menos, elas gastarão obviamente menos – e quem vende encontrará menos compradores – ou seja, menor demanda efetiva. Portanto, a produção será ainda menos lucrativa (reduzindo os ganhos com ações); e os governos, ainda mais pobres.
É um círculo vicioso e não há saída fácil aceitável. Pode significar que não há saída alguma. É algo que alguns de nós chamamos crise estrutural da economia-mundo capitalista. Produz flutuações caóticas (e selvagens) quando o sistema chega a encruzilhadas, e surgem lutas duríssimas sobre que sistema deveria substituir aquele sob o qual vivemos.
Os políticos e “especialistas” preferem não enfrentar esta realidade e as escolhas que ela impõe. Mesmo um realista, como Sorkin, termina sua análise expressando a esperança que que a economia terá “um impulso”; e a sociedade, “fé a longo prazo”. Se você pensa que será suficiente, posso me oferecer para vender-lhe a Ponte de Brooklin.
Tradução: Antonio Martins/Outras Palavras
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8/26/2012
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Ignacio Ramonet: Uma forma particular de sadismo
Por Ignacio Ramonet
Sadismo? Sim, sadismo. Como chamar de outra forma a complacência com aquilo que humilha as pessoas e as faz sofrer? Durante estes anos de crise, temos assistido — na Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e outros países da União Europeia (UE) — à impediosa aplicação do ritual de punição “austeritária” exigido pela Alemanha, o que tem provocado um crescimento exponencial dos flagelos sociais (desemprego, pobreza, mendicância, suicídios).
Apesar disso, Angela Merkel e seus aliados continuam a afirmar que sofrer é bom e que, ao invés de suplício, o ato deveria ser considerado um instante de prazer… Segundo eles, cada nova expiação nos purificará, nos regenerará e nos aproximará do fim da tormenta. Essa filosofia da dor não se inspira no Marquês de Sade, mas sim nas teorias de Joseph Schumpeter, um dos pais do neoliberalismo, segundo o qual todo sofrimento social responde a um necessário objetivo econômico; e será errado, em consequência, amenizar o suplício, mesmo que ligeiramente.
Eis que Angela Merkel entra em cena como Wanda, a dominadora, encorajada por um coro de fanáticas instituições financeiras (Bundesbank, Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional…) e por todos os eurocratas sectários habituais (José Luís Barroso, Von Rompuy, Olli Rehn, Joaquin Almunia…). Todos apostam na existência de um masoquismo popular, que empurraria os cidadãos não apenas à passividade, mas a clamar por mais punições e mortificações — ad maiorem Europa gloriam [Para maior glória da Europa, trocadilho com ad maiorem Dei gloriam, lema dos jesuítas (Nota da Tradução]. Sonham realmente em administrar os povos por meio daquilo que a polícia chama de “golpe do boa-noite cinderela” — isto é, fazer uso de substâncias capazes de eliminar total ou parcialmente a consciência das vítimas, deixá-las sem forças para, enfim, torná-las marionetes nas mãos de seus agressores. Mas devem tomar cuidado, porque as massas começam a rugir.
Na Espanha, por exemplo, onde o governo conservador aplica políticas selvagens de austeridade ao limite do sadismo, as manifestações de descontentamento social se multiplicam. Neste momento, o país se encontra (com a Grécia) no coração da crise financeira mundial. O presidente do governo, Mariano Rajoy, e sua equipe econômica têm dado, ao longo dos últimos meses, a impressão de avançar sem bússula. Dirigem a crise bancária com uma evidente falta de jeito, notadamente por deixar ocorrer a falência do Bankia e por praticar o negacionismo mais limítrofe, a propósito do plano de resgate europeu dos bancos espanhóis, que o ministro da economia local, Luis de Guindos, apresenta como a concessão de uma simples linha de crédito, que não afeta em nada o déficit público.
De fato houve, depois, a Cúpula Europeia de 28 e 29 de Junho — uma pressão conjugada da França, Itália e Espanha a fim de aceitar que o novo Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM, na sigla em inglês) possa emprestar diretamente aos bancos europeus em dificuldade (notadamente os espanhóis), sem que essa ajuda onere a dívida soberana dos Estados. Em contrapartida, contudo, os Estados deverão aplicar políticas severas de ajuste e austeridade exigidos pela UE, e ceder uma parte de sua soberania em matéria orçamentária e fiscal.
Berlim quer se beneficiar do choque causado pela crise, e de sua posição dominante, para alcançar um velho objetivo: integração política da Europa de acordo com as condições alemãs. ”Nosso projeto hoje — declarou Merkel num discurso no parlamento alemão, o Bundstag — é atingir o que não foi feito (quando o euro foi criado) e acabar com o ciclo vicioso da dívida infinita e da não-aplicação das regras. Eu sei que isso é duro, doloroso. É uma tarefa hercúlea, porém indispensável”.
Se o chamado “salto federal” ocorrer, e se a Europa avançar rumo a uma maior união política, isso significará, para cada Estado-membro da UE, renunciar a novos elementos de sua soberania nacional. Uma instância central poderia intervir diretamente para ajustar o orçamento público e fixar os tributos de cada Estado, em nome dos compromissos europeus. Quais países estão dispostos a abandonar sua soberania nacional? Porque, se ceder certos aspectos da soberania é inevitável, em um processo de integração como a União Europeia, é necessário dizer também que não se deve confundir federalismo com neocolonialismo…
Nos países da UE atualmente sujeitos aos planos de resgates, essas perdas de soberania já são uma realidade. Sobre a Espanha, o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, também disse que a “troika” (BCE, Comissão Europeia e FMI) irá controlar a reestruturação do sistema bancário. Será que isso mudará depois da decisão adotada na Cúpula Europeia de 28 e 29 de Junho últimos?
Isso é provável porque, como têm apontado os economistas Niall Ferguson e Nouriel Roubini: “A estratégia de recapitalizar os bancos, forçando os Estados a tomar emprestado dos mercados nacionais de bônus — ou do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF) — foi desastrosa para a Irlanda e Grécia, pois isso causou uma explosão da dívida pública e tornou os Estados ainda mais insolventes. E, ao mesmo tempo, os bancos tornaram-se eles mesmos um risco incontrolável, na medida em que passaram a deter uma parcela ainda maior da dívida pública”.
Se isso não funcionou, por que persistir com essas políticas “de austeridade” por tantos anos? A inquietação das sociedades tem conseguido retardar o sadismo econômico encarnado pela Alemanha. Mas por quanto tempo?
Tradução: Hugo Albuquerque
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O que há de escandaloso no escândalo Libor?
Por Immanuel Wallerstein
Desde 4 de julho, lemos nos maiores jornais do mundo e nas declarações de deputados, dirigentes de bancos centrais e autoridades judiciais que há um “escândalo” a envolver uma coisa chamada Libor. Antes disso, poucas pessoas, para além do grupo que se interessa por bancos, tinham ouvido falar da Libor. Subitamente, disseram-nos que os maiores bancos da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos, da Suíça, da Alemanha, de França, e provavelmente de um grande número de outros países, estavam envolvidos em ações supostamente “fraudulentas”.
Além disso, explicaram-nos que não se tratava de uma questão de centavos. Derivados financeiros de centenas de trilhões de dólares baseiam-se na taxa Libor. A acusação era de que os bancos “manipulavam” esta taxa, obtendo não só lucros astronómicos; só que, por outro lado, as pessoas que estavam pagando hipotecas e empréstimos, ou os estudantes que estavam pagando empréstimos, pagaram mais do que deveriam. Resumindo: os bancos obtiveram, de fato, lucros enormes à custa de outros, que tiveram perdas pesadas.
Tudo isso suscitou muitas questões. (1) Como isso foi possível? (2) Por que as autoridades reguladoras não interromperam uma prática que agora dizem ser tão fraudulenta; ou seja: quem sabia o quê e quando? E (3) alguma coisa pode ser feita para garantir que isto não aconteça novamente?
Vamos começar com a definição da taxa Libor. É uma abreviação de London Interbank Offered Rate (Taxa Interbancária Praticada em Londres). Não é muito antiga: a versão definitiva é de 1986. Na época, a British Bankers Association (Associação dos Banqueiros Britânicos) pediu que os “maiores bancos” compartilhassem informação diária sobre as taxas de juros que pagariam, se tomassem empréstimos de outros bancos. Depois de eliminados os valores extremos, determinava-se uma taxa média, modificada diariamente. A ideia era que, se os bancos se sentissem confiantes sobre o estado da economia, a taxa seria mais baixa; se estivessem inseguros, a taxa seria mais alta.
Quando a imprensa mundial usou a palavra “escândalo” para falar sobre a Libor, ficou claro que o tema tinha sido debatido muito antes, em ambientes menos visíveis. Parece que o Wall Street Journal tinha divulgado um estudo, em 29 de maio de 2008 (sim, em 2008!), sugerindo que alguns bancos estavam subestimando os custos dos empréstimos. Outros imediatamente disseram que o estudo era impreciso ou, se correto, que os bancos tinham agido de forma inadvertida. Análises acadêmicas subsequentes sugeriram, contudo, que a acusação de subestimação dos custos era de fato verdadeira.
A questão é que quando um banco está a lidar com 50 trilhões de dólares em valores teóricos, uma pequena subestimação de taxas gera imediatamente um aumento significativo dos lucros. Assim, a tentação era óbvia. Acontece que, já no início de 2007, tanto o Federal Reserve quanto o Banco da Inglaterra suspeitaram dessa subnotificação. Nenhum fez muita coisa.
Agora dizem-nos que essas taxas, longe de serem confiáveis ou estáveis, são na verdade meras “suposições”. Desde que o Lehman Brothers entrou em colapso, os bancos em todo o mundo deixaram de realizar empréstimos entre si. Como disse o New York Times, num artigo de 19 de julho de 2012: “As taxas precisas têm pouca base real”. Em 2011, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos começou uma investigação criminal. Graças a fugas de informação, sabemos agora que houve trocas de e-mails entre banqueiros que falavam alegremente da subestimação das taxas, e encorajavam a fazê-lo. Por que não? Estavam a ganhar muito dinheiro.
No meio disto tudo, o Independent publicou uma reportagem de duas páginas sobre os paraísos fiscais, e a quantidade incrível de dinheiro que sai dos países do Sul global para esses lugares, privando-os assim de valores que provavelmente seriam mais que suficientes para financiar as transformações econômicas e a redistribuição de rendimentos que estes países afirmam querer pôr em prática. Ao contrário das manipulações da Libor, os paraísos fiscais são perfeitamente legais.
Então, onde está o escândalo? As duas práticas – manipulação da Libor e transferência de dinheiro para os paraísos fiscais – são absolutamente normais numa economia-mundo capitalista. A finalidade do capitalismo, afinal de contas, é a acumulação de capital – quanto mais, melhor. Um capitalista que não maximiza os ganhos, de uma forma ou de outra, será mais tarde ou mais cedo eliminado do jogo.
O papel dos Estados nunca foi controlar ou limitar estas práticas, mas fazer vista grossa pelo máximo de tempo possível. Uma vez ou outra, as práticas – dos capitalistas e dos Estados – são momentaneamente expostas. Algumas pessoas vão para a cadeia, ou são forçadas a devolver os lucros tecnicamente ilegais. E os políticos falam de reformas – procurando adotar, com grande alarde, o nível mais baixo de “reforma” que puderem.
Mas isto não é um escândalo, porque o que se chama de “escândalo” é, na verdade, o coração do sistema. Algum dia vai isto mudar? Sim, claro. Um dia, o sistema deixará de existir. Claro que isso abre outra questão. O próximo sistema será melhor? É possível, mas não é certo.
Enquanto isso, chamar a manipulação da Libor de escândalo é desviar as atenções do fato de que se trata de mais uma forma normal de acumular capital. Em 1992, James Carville, estrategista da campanha do então candidato Bill Clinton à Presidência dos EUA, saiu-se com um dito que ficou famoso: “É a economia, estúpido”. Frente aos chamados escândalos, deveríamos dizer “É o sistema, estúpido”.
(*) Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net
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Fanáticos do mercado perdem de novo na Islândia
Por Paulo Moreira Leite
Há dois motivos para se prestar atenção à política da Islândia mas a maioria das pessoas só costuma prestar atenção num deles.
A primeira ministra é Jóhanna Sigorarddóttir, primeira chefe de governo assumidamente homossexual do planeta. Mãe de dois filhos, divorciada, quando a união entre pessoas do mesmo sexo foi legalizada a primeira ministra oficializou o casamento com uma escritora.
O outro motivo para se prestar atenção na Islândia é político. Seu presidente, o socialista Olafur Ragnar Grimsson, que foi reeleito ontem com mais de 52,7% dos votos, é uma das personalidades mais relevantes da crise econômica mundial.
Enquanto os demais governos europeus caem como dominó, repudiados por eleitores que se recusam a pagar a conta de uma crise criada pelo cassino financeiro, Grimsson recebeu o quinto mandato consecutivo. Sua margem de votos equivale a uma vitória em primeiro turno.
A razão é simples. Recusando-se a sacrificar a população em nome da saúde dos bancos, em duas ocasiões Grimsson vetou uma lei que pretendia obrigar o país a pagar a conta pelos prejuízos do cassino financeiro de 2008, que levou o principal banco do país à falência.
Governos muito mais poderosos e influentes, da Inglaterra e da Holanda, cobravam a conta a população dos 400 000 habitantes da Islândia. Abrigo de um sistema de bem-estar social típico dos países nórdicos, com uma boa renda per capta e uma das sociedades mais equilibradas do planeta, nas décadas anteriores a Islandia fora transformada num paraíso neo-liberal, abandonando a atividade industrial tradicional, em torno da pesca, para se transformar num paraíso financeiro e fiscal sob encomenda para grandes bancos europeus.
A ideia para enfrentar a crise depois da quebra de 2008 era o modelito dos fanáticos do mercado, aplicado na Grécia, na Espanha, em Portugal e Itália: cortar investimentos sociais e aumentar impostos, elevando o desemprego e aumentando as receitas dos bancos.
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| O presidente islandês Olafur Ragnar Grimsson |
Com seu veto, Grimsson abriu caminho para um referendo sobre o tema – venceu a proposta de não pagar a dívida e arrumar a economia, com prioridade a investimentos que gerassem empregos e crescimento. Seus adversários levantaram o previsível espantalho da crise sem fim mas se deram mal, como demonstra a votação de ontem.
Essa trajetória inovadora explica a reação preventiva dos mercados quando, no final de 2011, então primeiro ministro grego Georges Papandreou resolveu fazer um referendo sobre o plano de austeridade imposto pela União Europeia. Papandreou foi obrigado a renunciar ao cargo em menos de uma semana. O capítulo seguinte da história nós sabemos: o país foi entregue a um homem de confiança do Goldman Sachs, que, após duas eleições apertadas e pouco conclusivas, transferiu o governo para um candidato conservador.
A cena atual na Grécia é previsível: o pacote de austeridade é tão rico em sacrifícios e pobre em perspectivas reais que dias depois da vitória, quando fez campanha a seu favor, o novo governo já pede uma revisão de suas condições. A comparação com a Islândia mostra que há opção.
Você já deve ter lido um bom número de articulistas que se queixam que faltam governantes duros, com coragem de pedir sacrifícios da população. Eles gostam de acusar esses governos de populistas. É puro xingatório de quem apoia políticas que não tem voto — mas prefere se esconder atrás de um conceito político que já teve momentos de maior prestígio no passado.
O sucesso único de Grimsson mostra o contrário. Não faltam autoridades dispostas a servir aos interesses financeiros e entregar a população à própria sorte. São uma unanimidade – ou quase.
A reeleição de Grimsson apenas confirma uma lição óbvia das democracias: a população rejeita políticos que viram as costas na hora da dificuldade.
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Postado por
ERick
em
7/04/2012
1 comentários
Tags
Crise do Capitalismo,
Economia,
Esquerda,
Europa,
Islândia,
Pós-neoliberalismo,
União Européia
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