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Os chocolates, a metafísica e a patrulha contra os gordos


Uma belíssima reflexão de Matheus Pichonelli, que reproduzimos abaixo, que diz muito sobre nossa sociedade. Trocamos o prazer à mesa pelos cálculo de nutrientes, comprimidos e shakes milagrosos. É como substituir o orgasmo pela mera atividade reprodutiva.
Quem assistiu ao filme Paraíso, de Mariana Chenillo, sabe o que o escritor Michael Pollan quer dizer quando analisa a diferença entre comer comida e comer nutrientes na sociedade atual. Meio drama, meio comédia, o filme produzido por Gael Garcia Bernal é um retrato bem acabado das ansiedades do nosso tempo. Conta a história de um casal que vive de fato no paraíso até resolver se mudar para a cidade grande e se deparar com uma espécie de pecado original. Até ali, um parece feito para o outro: são companheiros, saem para dançar, têm uma vida sexual ativa, compartilham os mesmos hábitos e gostos e chamam um ao outro de Gordo e Gorda.

Capitão América – O Soldado Invernal: o fascismo é um vírus eletrônico



"Em tempos nos quais se discute a espionagem estadunidense via rede de computadores e o envio de drones para eliminar alvos na "guerra contra o terror", o filme acaba sendo uma metáfora da grande questão que paira sobre a humanidade deste tempo: em quem confiar? E, principalmente, que uso os depositários desta confiança farão dela?" pergunta Renato Ferreira Machado, em sua resenha crítica sobre o filme "Capitão América - O Soldado Invernal".

Cidadão Boilesen


Documentário de 2009, dirigido por Chaim Litewski, Cidadão Boilesen, através de diversos depoimentos, o documentário revela as ligações de Henning Albert Boilesen (1916-1971), presidente do famoso grupo Ultra, da Ultragaz, com a ditadura militar. Seu apoio financeiro, assim como de muitos outros empresários, ao movimento de repressão violenta e também a sua participação na criação da temível Oban – Operação Bandeirante, espécie de pedra fundamental do Doi-Codi. Expõe uma faceta, por vezes negligenciada, da brutal história recente brasileira.

Assista abaixo o documentário na íntegra:

Matamos Amarildo



Por Matheus Pichonelli

Quando o Capitão Nascimento, com o coturno na garganta do traficante “Baiano”, entregou a escopeta nas mãos do Soldado Mathias e determinou a execução do bandido com um balaço no rosto, as salas de cinema do Brasil vibraram como torcida em final de campeonato. Como em uma arquibancada, houve quem se levantasse e aplaudisse a cena de pé, algo inusitado para uma sessão de cinema. O Brasil que pedia direitos humanos para humanos direitos estava vingado.

"O Capital" de Costa-Gavras




"As pessoas acham que o dinheiro é um instrumento. Enganam-se. O dinheiro é o seu amo. Quanto melhor o serve, melhor ele o trata". Diálogo do filme "O Capital", de Costa-Gavras, que estreia na sexta-feira (04/10) no Brasil.

Os cidadãos do século XXI são escravos do capitalismo; sofrem com os problemas e celebram os triunfos. Esta é a história da ascensão de um escravo do sistema que se transforma em mestre: o executivo Marc Tourneuil (Gad Elmaleh) se aventura no mundo feroz do capitalismo, tornando-se o CEO de um grande banco.

Ele trava uma perigosa luta contra o conselho de diretores quando começa a ter controle unilateral do poder, demitindo muitos dos funcionários e fechando um acordo corrupto com um fundo de investimentos americano.
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E se os Vingadores não fossem sexistas?


Uma coisa que sempre me incomodou é a maneira machista e sexista de retratar as mulheres no universo dos "super-heróis" dos quadrinhos norte-americanos. Evidente que temos honrosas e belíssimas exceções, mas a regra geral é de uma sensualização excessiva das mulheres heroínas. Infelizmente,  na transposição dos quadrinhos para o cinema, esta tônica machista não só não é corrigida, como muitas vezes reforçada.

A capa da adaptação dos "Vingadores" para o cinema é um bom exemplo dessa maneira sexista de retratar a mulher.  Contrapondo essa visão, a paródia acima mostra como seria a capa do filme se todos os heróis fossem retratados na mesma forma que a heroína.
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Para que serve a tortura?


Por Urariano Mota


Nesta quinta-feira, Contardo Calligaris na Folha de São Paulo deu à sua coluna o mesmo título desta agora. Diz ele:
“O saco plástico do capitão Nascimento funciona. Os ‘interrogatórios’ brutais do agente Jack Bauer, na série “24 Horas”, funcionam. E, de fato, como lembra ‘A Hora Mais Escura’, de Kathryn Bigelow, que acaba de estrear, o afogamento forçado e repetido de suspeitos detidos em Guantánamo forneceu as informações que permitiram localizar e executar Osama bin Laden.
Nos EUA, na estreia do filme, alguns se indignaram, acusando-o de fazer apologia da tortura. Na verdade, o filme interroga e incomoda porque nos obriga a uma reflexão moral difícil e incerta: a tortura, nos interrogatórios, não é infrutuosa -se quisermos condená-la, teremos que produzir razões diferentes de sua inutilidade”.
Antes de mais nada, vale ressaltar que há muito o cinema norte-americano naturaliza a tortura, a injustiça, a exclusão. Desde Hollywood ele tem sido sentinela avançado do modo capitalista, na propaganda dos valores da formação do homem norte-americano. De passagem, lembro um filme de Ford (sim, do grande Ford) em que John Wayne ouve a seguinte frase do empregado do hotel: “você e o cachorro sobem, mas o índio não”. O que dizer de 007, por exemplo, em sua cruzada contra os comunistas? O que falar dos mexicanos e índios, sempre pintados como bandidos desde a nossa infância? O que dizer da ausência de interioridade nos personagens negros que apareciam em seus filmes, sempre em posição subalterna ou de pianista para o amor do casal romântico?
O fundamental é que no fim do texto Calligaris conclui:
“Uma criança foi sequestrada e está encarcerada em um lugar onde ela tem ar para respirar por um tempo limitado. Você prendeu o sequestrador, o qual não diz onde está a criança sequestrada. Infelizmente, não existe (ainda) soro da verdade que funcione. A tortura poderia levá-lo a falar. Você faz o quê?”.
Esse é um recurso de justificativa da tortura é manjado. Seria algo como:
- Você é capaz de matar uma criança?
- Não, claro que não.
- E se a criança fosse uma terrorista?
- Crianças não são terroristas.
- E se ela estivesse domesticada, com lavagem cerebral, que a tornasse uma terrorista?
- Ainda assim, de modo algum eu a veria como uma terrorista.
- E se essa criança trouxesse o corpo cheio de bombas?
- Eu preferiria morrer a matá-la.
- E se essa criança, com o corpo de bombas, entrasse para explodir uma creche?
- Não sei.
- E se nessa creche estivessem os seus filhos e as pessoas que você ama?
- Neste caso…
E neste caso estariam justificados os fuzilamentos de meninos que atiram pedras em tanques de Israel. E neste caso, num desenvolvimento natural, estaria justificado até o assassinato dos que lutam contra a opressão, porque mais cedo ou mais tarde se tornarão terroristas. E para que não vejam nisto um exagero, citamos as palavras de Kenneth Roth, da Human Rights Watch: `Os defensores da tortura sempre citam o cenário da bomba-relógio. O problema é que tal situação é infinitamente elástica. Você começa aplicando a tortura em um suspeito de terrorismo, e logo estará aplicando-a em um vizinho dele` “.
É monstruoso, é um atestado absoluto do desprezo pela pessoa, que na mídia se discuta hoje não a moralidade da tortura, mas a sua eficiência. Esse deslocamento de humanidade – que sai da moral para descer no mais útil -  é sintomático de que não basta mais ser brutais em segredo, na privacidade, escondido. Não. Há de se proclamar que princípios fundamentais da barbárie sejam fundamentos de cidadania. Assim como os defensores  da ditadura têm a petulância de vir a público dizer que apenas se matavam terroristas, portanto, nada de mais; assim como o cão hidrófobo que leva o nome de Bolsonaro – e nesse particular, ele é da mesma raça e doença dos fascistas em geral – zomba sobre os cadáveres de socialistas, agora nas tevês, no cinema, passam à justificação moral da tortura.
Perigo à vista. Nós, os humanistas, temos adotado até aqui uma atitude passiva, ordeira, o que é um claro suicídio. Esse ar de bons-moços que andam pela violência como Cristo sobre as águas, além de suicídio, porque nos afundaremos todos,  é, antes do desastre,  um recolhimento da ética para os fundos que defecam.
Entendam. Longe está este colunista da valentia e poderosas forças. Mas nós que não sabemos atirar balas ou socos,  temos que agir com as armas que a dura vida nos ensinou: escrevendo. E como temos sido omissos.
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A Palestina vai ao Oscar. E é detida no aeroporto


Por Baby Siqueira Abrão


Emad Burnat, diretor de "5 Broken Cameras" [5 câmeras quebradas], filme indicado ao Oscar de melhor documentário estrangeiro, foi detido na noite de 19 de fevereiro ao desembarcar no aeroporto de Los Angeles, Califórnia, para participar da festa do cinema de Hollywood. Ele, a esposa Soraya e o filho Gibril, de 8 anos – que também participam do filme –, foram levados para uma área fechada nas dependências do aeroporto e submetidos a interrogatório. Segundo as autoridades de imigração, Emad não tinha em seu poder o “convite apropriado para o Oscar”, seja lá o que isso for.
Emad enviou uma mensagem, pelo celular, a Michael Moore, o polêmico documentarista de "Tiros em Columbine", "Fahrenheit 11 de setembro" (filme que questiona a versão oficial do atentado ao World Trade Center) e um dos diretores da Academia de Hollywood. Moore denunciou a detenção a seus 1,4 milhão de seguidores no Twitter e acionou o pessoal da Academia, que por sua vez contatou advogados para cuidar do caso. “Pedi a Emad que repetisse meu nome várias vezes aos oficiais da imigração e que lhes desse meus números de telefone”, disse Moore. “Parece que eles não conseguiam entender como um palestino podia ter sido indicado ao Oscar”, completou, irônico.
Moore também deixou claro que faria o que estivesse a seu alcance para impedir a deportação que ameaçava a família Burnat. E foi bem-sucedido, porque uma hora e meia depois eles foram libertados. “Mas só poderão ficar em Los Angeles uma semana, até o Oscar”, esclareceu Moore. E, de novo com ironia, acrescentou: “Bem-vindos aos Estados Unidos!”
Para Emad, a detenção não é nenhuma novidade. “Quando se vive sob ocupação militar, sem nenhum direito, esse é um acontecimento diário”, declarou.

Em cena, a ocupação militar da Palestina
No documentário, Emad mostra câmeras destruídas - Foto: Reprodução
O filme "5 Broken Cameras" é o resultado de sete anos de trabalho de Emad, que comprou a primeira câmera quando Gibril nasceu e passou a registrar tudo o que acontecia em sua vila natal, Bil’in, na Cisjordânia, sob ocupação militar de Israel. Ajudado pelo israelense Guy Davidi, que esteve ao lado da resistência de Bil’in desde os primeiros dias, foi responsável pelo pós-roteiro de "5 Broken Cameras" e figura como codiretor, Emad fez um documento fundamental para a compreensão, pelo público externo, do cotidiano palestino sob ocupação. O título do filme faz referência às cinco câmeras que o exército israelense inutilizou ao atingi-las com tiros. Numa dessas ocasiões o equipamento salvou a vida do diretor – a câmera deteve a bala atirada na direção da cabeça de Emad.

Cineasta por acaso – e por necessidade
Emad Burnat nunca pensou em se tornar cineasta. Foi a necessidade de registrar a ocupação – para proteger os vizinhos, pois os soldados, receosos de um dia enfrentar o Tribunal Penal Internacional, evitam agir com muita violência diante das câmeras –, de mostrar ao mundo, pela internet, a realidade na Palestina, até poucos anos atrás oculta pela narrativa sionista, e de ter provas para apresentar aos tribunais de Israel, aos quais o exército conta histórias implausíveis mas levadas a sério, que levaram Emad a filmar.
Ele comprou sua primeira câmera em 2005, ano do nascimento de Gibril, para gravar seu crescimento e a vida em família. Mas era impossível limitar-se a temas domésticos numa vida sob ocupação militar. As incursões noturnas dos soldados, os ataques aos moradores durante as manifestações não violentas, as prisões, as invasões dos colonos, a construção do primeiro muro e seu desmantelamento em 2011, bem como a execução do segundo muro, tudo era muito impactante no cotidiano de Bil’in e merecia ser registrado.
Essa opinião era compartilha por Guy Davidi, professor de cinema, que em 2005 passou a ir com frequência à vila palestina e chegou a morar lá por alguns meses, para sentir como era viver sob ocupação. Guy produziu alguns curtas sobre Bil’in, onde filmou, entre 2005 e 2008, "Interrupted streams" [Fluxos interrompidos], sobre o confisco das fontes de água palestinas por Israel. Muitas vezes Emad e Guy filmavam juntos as manifestações, os ataques dos soldados, as detenções. Corriam os mesmos riscos. Tornaram-se amigos.
Foi ao longo desses anos que Emad começou a pensar em reunir seu material num longa-metragem sobre a resistência em Bil’in. Estimulado pela família, pelos amigos e por Guy, ele conseguiu tocar o projeto. Só não esperava o sucesso que se seguiu ao lançamento. Cineasta por intuição, Emad ganhou o respeito e a admiração de seus pares ao redor do mundo.

Referência ao Brasil e vários prêmios
Uma das cinco câmeras quebradas exibe um adesivo da bandeira brasileira, símbolo também presente na porta da casa da família Burnat, em Bil’in – um modo de demonstrar o carinho que eles sentem por nosso país. Soraya, esposa de Emad, é palestina criada no Brasil. O casal e os filhos mais velhos falam um português impecável e sem sotaque.
"5 Broken Cameras" é o primeiro filme palestino a concorrer a um Oscar. Além de muito elogiado pela crítica, vem tendo uma trajetória de sucesso em todo o mundo. Em 2012, foi indicado para o Asian Pacific Screen Award e ganhou o prêmio de melhor documentário no Jerusalem Film Festival; o de melhor diretor de documentário no Sundance (também foi indicado para o Grande Prêmio do Júri desse festival), nos Estados Unidos, e o Busan Cinephile, do Busan International Film Festival, da Coreia. Em 2011 recebeu o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio Especial do Público no International Documentary Film Festival Amsterdam (IDFA), na Holanda. A. O. Scott, crítico do The New York Times, considerou-o uma “comovente e rigorosa obra de arte”.
Ele tem razão. No documentário, com sensibilidade, Emad funde sua vida e a de sua família com a história da ocupação de Bil’in. É uma história comum à maioria dos milhões de palestinos que nasceram nos hoje dezenas de vilarejos – eram mais de 500 antes que os sionistas os tomassem à força, nos anos 1940 – que circundam as 11 cidades da Cisjordânia, compondo as regiões distritais daquela parte do Estado da Palestina.
Com texto de Guy Davidi e narrado por Emad, o filme nos conduz pelas belas paisagens de Bil’in, mostrando a chegada dos agrimensores israelenses para a medição das terras que seriam confiscadas; as reuniões entre os moradores e o pessoal do grupo Anarquistas Contra o Muro, de Israel, que conseguiu o mapa com o traçado do muro e se uniu aos bilainenses para boicotá-lo; os primeiros enfrentamentos com o exército israelense; as prisões, a progressão dos desafios e da violência; a consolidação da resistência; e o apoio internacional à luta não violenta de Bil’in.
Há cenas geniais, como a do grupo de moradores que barra o avanço dos soldados na área urbana da vila com instrumentos de percussão improvisados, numa “bateria” ruidosa e criativa. Há também cenas difíceis, em que Emad se vê obrigado a filmar a prisão dos irmãos e de um vizinho, um menino; e cenas trágicas, como o assassinato de Bassem Abu-Rahmah, o Fil, até aquele momento um dos líderes da resistência e um dos protagonistas do filme. A sequência é dolorosa, embora o público seja poupado das tomadas mais dramáticas.
Filho de Emad entrega um ramo de oliveira a um soldado israelense
O documentário leva o público a participar do cotidiano de Bil’in e a vivenciar um pouco do que significa estar submetido a uma ocupação militar. Trata-se de documento histórico, denúncia viva dos abusos cometidos pelo exército sionista. Por isso mesmo, a cena em que o pequeno Gibril, mal se sustentando em seus primeiros passos, oferece um ramo de oliveira a um dos soldados israelenses – que o aceita, com um sorriso culpado e sem jeito – surpreende e enternece. Num momento assim não há como deixar de questionar o mal que os sionistas têm feito aos seres humanos que vivem de um lado e de outro do muro. Não fossem eles, provavelmente palestinos de todas as religiões teriam continuado a conviver  em harmonia na Palestina histórica. Os inimigos e a discórdia vieram de fora. Será possível neutralizá-los e resgatar a antiga harmonia, dessa vez juntando ao antigo grupo os cidadãos de Israel, como propõem palestinos e israelenses que defendem a existência de um único Estado, democrático e secular, com direitos iguais para todos?

O impacto nos jovens de Israel
É difícil responder a essa indagação sem levar em conta as alianças do sionismo e seu papel decisivo nas finanças internacionais, na indústria bélica e na tecnologia nuclear. O movimento praticamente domina os setores estratégicos sobre os quais se desenrola o teatro do mundo. É ele que cuida do caixa, do lucro, da produção e do roteiro do espetáculo. Por isso, o combate não se restringe à ação dos sionistas na Palestina. Ele se espalha cada vez mais, controlando governos, territórios e ramos de atividades nos cinco continentes.
Mas é em Israel que seu controle se estende a toda a sociedade. Lá, o sistema educacional garante apoio e submissão aos princípios sionistas nesta e nas futuras gerações. Assim, quem nasce em Israel aprende, desde a infância, que os palestinos são “árabes que vivem em território israelense” – e inimigos. A maior parte dos livros didáticos faz pouca referência à Palestina – nos mapas, por exemplo, Cisjordânia e Gaza são mostradas como território de Israel – e a sua história. A grande maioria dos jovens israelenses não sabe que seu país ocupa outro, e tem de seu exército uma visão heroica e romântica, fabricada pela propaganda sionista.
Contribui para essa ilusão um programa muito comum nos feriados e nos fins de semana em Israel: os pais costumam levar os filhos pequenos a locais onde são expostos equipamentos de guerra, que as crianças podem experimentar, e veículos nos quais elas entram e fingem controlar. Tudo sob o olhar complacente da família e diante das explicações de jovens soldadas e soldados. Para entender como essa indústria da violência funciona, assista ao vídeo produzido pelo israelense Itamar Rose.
Não é de admirar, portanto, que as crianças de Israel desenvolvam a ideia de que a solução de seus problemas – ou daquilo que lhes é ensinado como “problema” – passa pela via militar. Foi para desfazer essa crença que Guy Davidi decidiu mostrar "5 Broken Cameras" a um grupo de jovens em Israel e filmar suas reações. Suas expressões, durante a exibição do documentário, dizem muito sobre a revelação de como é a vida dos palestinos: indicam surpresa, choque, consternação, revolta, compaixão.
Jovem palestino é retirado de sua casa por soldados israelenses
Diante dessa experiência, Davidi resolveu elaborar um projeto maior: levar "5 Broken Cameras" ao público israelense em sessões que permitam reflexões e debates sobre a ocupação, a violência imposta aos palestinos de maneira direta e aos israelenses de modo indireto, o dia a dia dos cidadãos dos dois lados do muro, o próprio muro, o questionamento ao papel do exército e à ideologia dos soldados – que, como eu mesma pude comprovar nas muitas conversas que travei com eles, têm dos palestinos e dos árabes uma imagem deturpada, assimilada em uma existência inteira de educação dirigida e controlada. Conheça a surpreendente experiência de Guy Davidi com os jovens israelenses (link removido).
Será que a arte pode promover compreensão e tolerância, aproximando duas populações separadas pela agenda bélica e expansionista das autoridades sionistas? Será que a mudança necessária pode começar da base de ambas as sociedades, as únicas instâncias portadoras de legitimidade para isso? É uma aposta ousada, a dos diretores de "5 Broken Cameras". Aguardemos os resultados.

Quer assistir a 5 Broken Cameras?
A jornalista Baby Siqueira Abrão tem uma cópia do filme para exibir ao público brasileiro, com legendas em inglês. Se você quiser assisti-lo, reúna os amigos e entre em contato pelo e-mail babyabrao@hotmail.com. Ela levará a cópia até vocês, fará a tradução simultânea e, havendo interesse, pode contar sua experiência como correspondente na Palestina e moradora de Bil’in. A exibição, de acordo com pedido expresso de Emad Burnat, é gratuita.
O trailer oficial está aqui: http://www.kinolorber.com/5brokencameras/.
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Em filme sobre Bin Laden, Hollywood ajuda a 'normalizar' a tortura


Por Slavoj Zizek

Aqui está como, em uma carta ao jornal LA Times , a cineasta Kathryn Bigelow justificou a representação, no filme "A Hora Mais Escura" (o título em inglês é “Zero Dark Thirty”), de métodos de tortura usados pelos agentes do governo norte-americano para capturar e matar Osama Bin Laden:

"Aqueles de nós que trabalham com arte sabem que representação não é aprovação, elogio. Se o fosse, nenhum artista estaria apto a pintar atos desumanos, nenhum autor poderia escrever sobre eles, e nenhum diretor de cinema poderia se aprofundar em assuntos espinhosos de nosso tempo", escreveu ela ao jornal.

Sério? Ninguém precisa ser um moralista, ou ingênuo sobre as urgências da luta contra o ataques terroristas, para pensar que torturar um ser humano é, em si mesmo, algo tão destruidor que representá-lo de maneira neutra – isto é, neutralizar este caráter destruidor – é por si uma maneira de apoiá-lo.

Imagine um documentário que nos apresente o Holocausto de um jeito desinteressado e tranquilo, como uma enorme operação logística-industrial, focando nos problemas técnicos envolvidos (transporte, descarte de corpos, prevenção do pânico entre os prisioneiros que seriam postos nas salas de gás). Tal filme traria também consigo uma fascinação profundamente imoral com o assunto, ou estaria baseado numa neutralidade obscena em seu modo para gerar consternação e horror nos espectadores. Onde Bigelow se encaixa aqui?

Sem sombra de dúvida, ela está aliada a uma normalização da tortura. Quando Maya, a heroína do filme, presencia pela primeira vez uma simulação de afogamento, fica um pouco chocada, mas rapidamente aprende as artimanhas; mais adiante no filme ela chantageia friamente um prisioneiro árabe , "se você não cooperar, nós lhe mandaremos para Israel". Sua perseguição fanática atrás de Bin Laden ajuda a neutralizar escrúpulos morais comuns. 

Ainda mais ameaçador é seu parceiro, um agente da CIA jovem e barbado que domina perfeitamente a arte de passar desembaraçosamente da tortura para a gentileza uma vez que a vítima está completamente desamparada (acendendo seu cigarro e lhe contando piadas). 

Existe algo extremamente perturbador como, mais para frente, o este agente muda de um torturador vestindo jeans para um bem-vestido burocrata de Washington. Isto é normalização mais pura e eficiente – existe um pequeno mal-estar, mais pela sensação da tortura que pela ética, mas o trabalho tem de ser feito. 

A consciência de que esta sensação ruim sofrida pelo torturador é o principal custo humano da tortura deixa claro de que não se trata de uma propaganda conservadora barata: a complexidade psicológica é representada para que liberais possam se divertir com o filme sem se sentirem culpados. É por isso que “A Hora Mais Escura” é bem pior que “24 Horas” (série de TV), em que Jack Bauer, pelo menos, rompe com o serviço secreto no último episódio.

O debate se simulação de afogamento é o ou não tortura deve ser vista como um explícito irracionalismo: por que, se não causa dor ou medo de morrer, este afogamento faz falar terroristas suspeitos resistentes? A recolocação da palavra "tortura" no campo da "técnica aprimorada de interrogação" é a extensão da lógica politicamente correta: violência brutal praticada pelo Estado é publicamente aceitável quando a linguagem muda.

A defesa mais obscena feita do filme é a alegação de que Bigelow rejeita o moralismo barato, e de maneira sóbria apresenta a realidade da luta contra o terrorismo, levantando questões difíceis e que, assim, nos fazem pensar (ainda, alguns críticos adicionam, a diretora "desconstrói" clichês femininos – Maya não mostra sentimentalismo, ela é dura e dedicada em sua tarefa, como um homem). 

Mas, com a tortura, alguém pode não "pensar". Um paralelo com o estupro se faz, aqui, necessário por si mesmo: e se um filme mostrasse um estupro brutal neste mesmo jeito neutro, alegando que devemos evitar o moralismo barato e começarmos a pensar sobre o estupro em toda sua complexidade? 

Em nossas entranhas, fica a mensagem de que existe algo terrivelmente errado nisto. Eu gostaria de viver numa sociedade onde o estupro seja simplesmente inaceitável e que aquele que o relativize seja visto como um babaca excêntrico, não em uma sociedade onde alguém precise argumentar contra isto. O mesmo serve para tortura: um sinal de progresso ético está no fato da tortura ser "dogmaticamente" rejeitada como repulsiva, sem nenhuma necessidade de argumentação. 

Então o que dizer a respeito do argumento "realista": tortura sempre existiu, então não é melhor falar sobre isto publicamente? Este é, exatamente, o problema. Se a tortura sempre esteve aí, por que aqueles que estão no poder agora nos contam abertamente? Só há uma resposta: para normalizar, diminuir nossos padrões éticos.

Tortura salva vidas? Talvez, mas com certeza perdem-se almas – e a justificativa mais absurda é dizer que um verdadeiro herói está pronto para renunciar sua alma para salvar as vidas desta ou deste compatriota. 

A normalização da tortura vista em "A Hora Mais Escura" é um sinal do vácuo moral de que estamos gradualmente nos aproximando. Se há alguma dúvida sobre isto, tente imaginar um grande filme de Hollywood representando a tortura de um jeito similar 20 anos atrás. É impensável.

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2012: A imagem do cinema brasileiro


Por Bruno Carmelo


Em 2012, até o meio de novembro, o cinema brasileiro tem apresentado bilheterias fraquíssimas. Apenas dois filmes ultrapassaram a marca de um milhão de espectadores (Até Que a Sorte nos Separe e E Aí… Comeu?, embora Gonzaga – De Pai pra Filho esteja chegando lá), enquanto outros que esperavam atingir a marca fracassaram amargamente (XinguHelenoParaísos Artificiais).
Encontrar as razões para estes resultados seria necessário e interessante, mas este artigo propõe refletir sobre um elemento menor, pontual, mas bastante representativo do mercado de cinema: os elementos de venda do filme, ou melhor, os cartazes dos filmes nacionais lançados nos últimos doze meses. Considerando que muitos espectadores ainda decidem o filme que vão ver nos próprios multiplexes, diante dos cartazes, estas imagens servem como boas metáforas da imagem que o filme quer passar de si mesmo. Ou seja, o cartaz mostra não necessariamente o que o filme é, mas qual produto ele gostaria de ser, e qual público ele pretende seduzir.
Certamente, todos os cartazes não podem ser reduzidos às mesmas estratégias, mas é possível perceber algumas tendências gerais. Os cartazes dos filmes mais populares têm apostado em uma simplicidade extrema. Em termos de design, são pôsteres sem profundidade de campo, com os personagens mostrados de corpo inteiro, colados um ao lado do outro, de modo a preencher o espaço. O fundo é apenas uma tela: estas são imagens literalmente superficiais. Não se conta a trama, nem o espaço ou o tempo. Mostra-se apenas o que se julga atrair o público mais amplo: caras, bocas, mulheres belas, atores famosos.

É o caso de As Aventuras de Agamenon, o Repórter (terceiro maior sucesso do ano),Até Que a Sorte nos Separe (o líder) e o ainda inédito Os Penetras. No caso deste último, um primeiro cartaz, levemente mais complexo e com iluminação contrastada, mostrava os dois personagens abraçados, com um fundo desfocado. Ele foi trocado mais tarde por outro cartaz, de leitura direta, sem imagem ao fundo, com luz chapada e personagens vistos praticamente de corpo inteiro. Este enquadramento, pelo menos da cintura para cima, é útil para mostrar as formas do corpo, quando estas são importantes (a corpulência cômica de Hassum em Até Que a Sorte nos Separe, as curvas sedutoras de Mariana Ximenes em Os Penetras). E que a ordem entre os corpos não confunda o espectador: estes cartazes são feitos para agradar, para não forçarem o pensamento. Não há ambiguidade em uma imagem deste tipo.
Isto já não ocorre com grandes produções nacionais que pretendiam alcançar um grande público, mas tiveram resultados abaixo do esperado. Não se pode estabelecer uma relação de causa e consequência (os filmes fracassaram porque foram vendidos de tal maneira), mas coincidentemente muitos deles apostaram na mesma estrutura de imagem: XinguHeleno e outros colocaram os rostos de seus personagens principais na metade superior da imagem, com elementos do espaço logo abaixo. Percebe-se: 1) O rosto do elenco global e/ou belo, ocasionalmente com uma figura conhecida (a representação de Gonzaga), 2) O tom do filme, sua época ou gênero representado pela sugestão de cenário na metade inferior. Parece que, pelo menos em 2012, o “cinema comercial de qualidade” apostou nesta combinação clássica de rostos (apelo popular) com paisagens e contexto histórico ou geográfico (apelo “artístico”).
Já os filmes direcionados a um circuito restrito lançaram a mão das convenções e foram, como é de se esperar, radicais como sua proposta estética. Muitos deles inclusive colocaram seus personagens de costas, evitando o olhar do espectador.Febre do Rato surpreendeu pela imagem do personagem em um gesto pouco legível.GirimunhoHistórias Que Só Existem Quando ContadasSudoeste e Vou Rifar Meu Coração preferem dar mais importância ao espaço do que aos personagens, meros anônimos espremidos nos cantos do enquadramento. A maior importância, no caso, vem das metáforas, das sugestões, das cores e texturas. De certa maneira, quanto mais se sublimou a representação humana, mais se caminhou às produções propícias aos circuitos dos festivais.
Se as considerações acima podem ser esperadas ou mesmo óbvias (filmes populares apelam para a leitura imediata dos corpos; filmes de circuito restrito evocam metáforas e sensações), a estrutura torna-se mais complexa diante de algumas produções cujos cartazes são incompreensíveis: eles não dizem de que trata o filme, a qual público ele se destina, em qual gênero ele se encaixa. O material promocional de Astro – Uma Fábula Urbana em um Rio de Janeiro Mágico não mostra se a obra é uma animação, se é infantil, dramático, cômico. Menos Que Nada cola rostos flutuantes pelo ar sem criar nenhuma relação entre eles, assim como o evangélico Três Histórias, Um Destino, que lembra as capas de romances de banca de jornal. Pelo menos, no caso deste último, o produto contava principalmente com o boca a boca nos centros de culto para conquistar seu público, não dependendo tanto do cartaz, trailer e instrumentos tradicionais de publicidade.
Seria interessante comparar estas imagens com as dos outros anos, ou então colocá-las em ranking, da maior à menor bilheteria, mas constatemos apenas que em 2012 os filmes tentaram se vender pela relação muito curiosa à figura humana: nas grandes produções populares, o humano é claramente visível, disponível, mas também fetichizado, erotizado ou ridicularizado. Os corpos são fornecidos ao olhar para consumo direto, pelos nomes famosos, pela posição central e majoritária na imagem. Já os filmes menos comerciais, que apostam nos conflitos humanos, são aqueles que justamente esconderam as identidades de seus humanos, sugerindo apenas sua presença, sua relação com o espaço.
O cinema popular apelou para imagens pouco inteligentes, mas ansiosas por agradar – são imagens da oferta, que antecedem o desejo do consumidor. Já o cinema dito alternativo combinou o design complexo com um sentido incompleto – são imagens da procura, que só se completarão caso o espectador já tenha uma vontade prévia de desvendar símbolos do tipo.
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Venezuela - Sean Penn na campanha de Hugo Chavez


O ator norte-americano Sean Penn engajado na campanha do Hugo Chavez na Venezuela!
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O dia em que Dorival encarou a guarda



O premiado curta O dia em que Dorival encarou a guarda, lançado em 1986, foi dirigido por Jorge Furtado  e José Pedro Goulart. A obra é uma adaptação do oitavo episódio do livro O Amor de Pedro por João, de Tabajara Ruas.
Em uma prisão militar, o detento Dorival tenta convencer os guardas a permitir que ele tome um banho. Mas o preso esbarra na negativa dos guardas, embora estes não consigam justificar para Dorival a razão que o impede de tomar o banho. Todo homem tem seu limite, e Dorival resolve enfrentar a tudo e a todos para conseguir o que quer. A história da luta desigual de um homem contra um sistema sem lógica e sem humanidade.
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Ilha das Flores


No ano de 1990, Jorge Furtado, diretor dos longas Houve uma vez dois verões (2002), O homem que copiava (2003), Meu tio matou um cara (2004) e Saneamento Básico (2007), levou o Urso de Prata de melhor curta no Festival de Berlim pelo aclamado Ilha das Flores, lançado um ano antes.
Estruturado como o mais básico dos telecursos, Ilha das Flores mapeia a trajetória de um tomate na sociedade de consumo, em uma amarga demonstração da lógica capitalista. Numa série de vinhetas secas e irônicas, nas quais a encenação de um registro documental é intercalada com animações e imagens, desde a plantação até ser jogado fora, percorre um longo caminho, expondo a "cadeia alimentar" que rege a nossa sociedade.
Concebido para "ser compreendido até por um marciano", o filme alia um competente roteiro, onde o texto, como de praxe nos filmes de Furtado, é o trunfo. Este é inequivocamente um dos melhores curtas já produzidos.
Confira abaixo o filme:


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Os homens que não amavam as mulheres



Quem era e o que fazia Stieg Larsson, o homem do Millennium, autor da ácida crítica contra o capitalismo moderno e uma de suas pátrias, a Suécia.

Por Ruy Braga

Em 2008, a trilogia de ficção policial intitulada Millennium (Os homens que não amavam as mulheres, A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo de ar) vendeu cerca de 21 milhões de exemplares em mais de quarenta países, alavancando seu autor, o jornalista sueco Stieg Larsson, à condição de segundo best-seller mundial. 

Infelizmente, Larsson não viveu para conhecer sua inesperada fama: morreu de um ataque cardíaco fulminante aos 50 anos, em 2004, pouco depois de entregar os originais para seu editor.

Desde então, muito tem sido debatido a respeito da áspera violência, especialmente sexual, contida em seus livros. Os debates apontam para uma anomalia: como explicar que a Suécia, um país conhecido por ser uma espécie de paraíso na terra, onde supostamente imperariam a paz social e a tolerância racial, pudesse servir como pano de fundo para tanta sordidez praticada contra mulheres por indivíduos poderosos que, pra piorar, são acobertados por autoridades governamentais corruptas? Uma mirada no homem por detrás da trilogia insinua uma resposta.

Antes de Millennium, Stieg Larsson notabilizou-se como o principal especialista nos grupos neonazistas suecos. Tendo sido criado por um avô comunista que durante a Segunda Guerra Mundial foi aprisionado devido a seu ativismo, não causou surpresa que o jovem Larsson tivesse decidido juntar-se às manifestações estudantis contra a Guerra do Vietnã durante o final dos anos 1960 e início dos anos 1970. A relação do jornalista com a luta política evoluiu na direção da fundação da Liga Comunista dos Trabalhadores, uma organização que durante décadas atuou sob a bandeira da IV Internacional Comunista. 

Militando na Liga, Larsson desenvolveu uma forte intervenção nas lutas antirracistas e antifascistas de sua terra natal. Quando a extrema direita sueca começou a crescer no início dos anos 1980, Larsson ajudou a fundar aStoppa Rasismen (“Parem com o racismo”), uma organização política de combate conhecida por enfrentar fisicamente as manifestações neonazis. Em 1991, no mesmo ano em que os partidos ultranacionalistas suecos que albergavam grupos neonazis alcançavam inéditos resultados eleitorais (desde 1928, ao menos), Larsson publicava seu primeiro livro, Os extremistas da direita. Em resposta, um jornal neonazista publicou um artigo onde constava o nome completo de Stieg Larsson, sua foto e uma pergunta: “Devemos permitir que este homem continue fazendo seu trabalho ou devemos fazer algo a respeito?”






Stieg Larsson

Apenas quatro anos depois de terem pintado um alvo em suas costas, oito de seus camaradas foram assassinados pelos neonazis. Larsson decidiu então fundar a revista Expo a fim de expor as atividades dos extremistas de direita e denunciar a complacência com que as autoridades governamentais tratavam o crescimento do neonazismo sueco. Desde então, Larsson investiu todas as suas energias para transformar o jornalismo investigativo em uma ferramenta de luta contra o ultranacionalismo de direita. Apesar deste trabalho absorvê-lo completamente, afastando-o da militância cotidiana na Liga Comunista, ele nunca abandonou o programa marxista revolucionário: em seu testamento, deixou todos seus bens para o partido que ajudou a fundar.

Por meio de seu trabalho, Larsson revelou o avesso do modelo sueco. Seus livros desafiaram a visão de um país pacífico e tolerante, estimulando inúmeros debates a respeito das raízes sociais da violência política em uma sociedade altamente desenvolvida, mas que, contraditoriamente, apresenta um longo histórico de simpatias nazistas e onde as estatísticas de violência contra as mulheres são incrivelmente altas. Este foi o ponto de vista privilegiado em sua afamada trilogia: a opressão e a violência contra as mulheres. A protagonista dos livros, Lisbeth Salander, uma personagem a um só tempo vítima e heroína das histórias, resolve as tramas com a ajuda de Mikael Blomkvist, um jornalista de meia-idade comprometido em denunciar, por meio da revista Millennium, os capitalistas suecos e a corrupção governamental que os acoberta.

Salander representa o arquétipo do oprimido que sabe que não pode confiar no Estado em sua luta por justiça. Conta apenas com suas próprias forças e com a ajuda de um jornalista esquerdista. Na verdade, Blomkvist representa a transposição literária do próprio Larsson para as páginas da trilogia. Não por acaso, como lembra Barry Forshaw em The Man Who Left Too Soon: the Biography of Stieg Larsson (O homem que nos deixou muito cedo: a biografia de Stieg Larsson -Londres, John Blake, 2010), o jornalista trabalhava o dia todo na Expo, dedicando- se aos livros durante suas noites de insônia. Ou seja, a literatura foi a continuação de sua luta política por outros meios. Seus personagens revelam uma realidade social enrijecida e opressora, produto da violência política contra os oprimidos, especialmente imigrantes e mulheres. Uma violência que ele conhecia bem de perto…

De Silvio Berlusconi a Nicolas Sarkozy, já nos acostumamos a assistir altas lideranças europeias contemporizando com partidos ou grupamentos ultranacionalistas, na tentativa de angariar votos à direita. Além disso, políticas de criminalização dos imigrantes somadas a leis cada dia mais restritivas dos direitos sociais dos trabalhadores europeus prepararam o terreno para a escalada da intolerância racial num continente aterrorizado pelo aprofundamento da crise econômica. Como resultado, líderes ultranacionalistas ameaçam ganhar eleições majoritárias em países tão importantes como a França. Aparentemente, Itália, Holanda, Hungria e Polônia seguem o mesmo caminho. Em poucas palavras: o continente está brincando com fogo.

Ao contrário do establishment europeu, cada dia mais inclinado a ceder à direita, Stieg Larsson decidiu levar até as últimas consequências a lição do velho bolchevique que inspirou a criação de seu partido: “Não se discute com o fascismo. Combate-se!” (Leon Trotsky).


Fonte: Blog da Boitempo, com o título “O continente que brincava com fogo”

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George Lucas, criador de Star Wars, é acusado por vizinhos de promover “luta de classes"



O cineasta norte-americano George Lucas, criador da saga Guerra nas Estrelas, está sendo acusado por seus vizinhos no interior da Califórnia por “fomentar a luta de classes”.


Isso porque o produtor destinou alguns terrenos de sua propriedade, conhecida como “Rancho Skywalker”, no condado de Marin (ao norte de São Francisco) para moradias populares. Não é de hoje que Lucas está em guerra contra seus vizinhos, que já haviam conseguido barrar a construção de um novo estúdio no local.


Segundo Lucas, seus planos para estabelecer um estúdio de cinema e pós-produção em seu terreno criariam postos de trabalho, o que é ainda mais importante em temos de crise, sem que houvesse qualquer impacto sobre o meio ambiente e a tranqüilidade da região. Lucas vive no rancho em 1978, e as disputadas comerciais começaram há 25 anos. Os vizinhos chegaram a acusar o produtor de tentar recriar um “império do mal”.


Porém, decidiu jogar a toalha em abril, quando percebeu que os vizinhos tentariam postergar o projeto na justiça indefinidamente. Por fim, decidiu destinar esses terrenos para construir casa populares de interesse social. Ao invés de acalmar os ânimos, ele apenas provocou uma nova onda de protestos, capitaneados pela líder da Associação de Vizinhos de San Rafael, Carolyn Lenert.


“É simplesmente lamentável que essas pessoas possam considerar casas populares como uma forma de luta de classes, porque essas casas são para bombeiros, policiais e professores”, disse Miles Perkins, porta-voz de Lucas Films, produtora de George Lucas.
Lucas explicou suas intenções em uma carta aberta. “O nível de amargura e a ira expressada pelos residentes mostra que, mesmo dedicando mais tempo, nunca seremos capazes de ter uma relação construtiva com nossos vizinhos”.


A associação de moradores considerou as declarações de Lucas como “lamentáveis”, em mensagem enviada à agência de notícias France Presse. “Nunca houve nenhuma comunicação direta de George Lucas pessoalmente ou via a Lucas Films” a respeito da mudança do projeto.


“Nos encanta trabalhar e viver no condado de Marin, mas os moradores da região lutaram contra esse projeto durante 25 anos, e já foi o suficiente”, afirma o produtor. “Temos várias propostas para construir um estúdio em municípios vizinhos que não nos consideram o Império do Mal, e vamos aproveitá-las”.


Fonte: Opera Mundi

Glauber Rocha - Maranhão 66



Maranhão 66 é um documentário de curta-metragem brasileiro de 1966, dirigido por Glauber Rocha.

A pedido do então governador eleito e amigo José Sarney (então com 35 anos), Glauber Rocha produziu um documentário sobre a cerimônia da posse do político em ascensão da UDN/ARENA em 1966, dois anos depois do golpe militar de 1964. A posse de Sarney, em 1966, marcava o início da domínio político de sua família no Maranhão.

Ante o discurso de posse de Sarney e a celebração da multidão com o novo governo, o documentário expõe a miséria da população maranhense. Enquanto Sarney, em um exercício retórico, se comprometia solenemente a acabar com as mazelas do estado, o filme mostrava as mesmas: casas miseráveis, hospitais infectos, vítimas da fome ou da tuberculose.

Glauber retirou dois planos dos negativos de Maranhão 66 para sobrepor em Terra em Transe. Foi utilizado para um comício do personagem Filipe Vieira (vivido por José Lewgoy), governador da província de Alecrim, no fictício país chamado Eldorado. Vieira era um político demagogo que se elegeu à custa do voto dos camponeses e operários e que, após assumir o governo, ordenou o fuzilamento dos líderes populares.

Foi também no set de Maranhão 66 que Eduardo Escorel, então técnico de som, leu pela primeira vez o roteiro de Terra em Transe, filme em que assinaria a montagem.

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Cobrança do ECAD por música no cinema é uma imoralidade legal



Por Jorge Furtado


O que há de comum entre os filmes “Os pássaros” (Alfred Hitchcock), “Onde os fracos não tem vez” (irmãos Cohen), "Pauline na praia" (Eric Rohmer), “Um dia de cão” (Sidney Lumet), "Dez", de Abbas Kiarostami e “A Bruxa de Blair” (Daniel Myrick e Eduardo Sánchez) é que eles não têm música. 
 
Pois acreditem: se qualquer um destes filmes for exibido em qualquer cinema brasileiro, o dono da sala tem que pagar ao ECAD - uma entidade privada - 2,5% do bruto da bilheteria. O dinheiro, supostamente arrecadado para pagar direitos autorais dos músicos inexistentes nestes filmes estrangeiros, sai do bolso do espectador e do dono da sala e vai direto para o ECAD. Este é um exemplo extremo do absurdo em vigor no país, graças a uma lei bizarra nascida na ditadura militar e ratificada em 1998, possivelmente com as melhores intenções, por Fernando Henrique Cardoso e seu Ministro da Cultura, Francisco Wefort. 
 
Quando uma produtora de cinema contrata um músico para fazer a trilha de um filme, ou compra fonogramas ou direitos autorais de uma música já existente, paga aos músicos, aos autores e proprietários dos direitos musicais ou fonográficos, o valor por eles estipulado. Os contratos prevêem a exibição sincronizada da música com o filme, em várias mídias e suportes. Não há justificativa razoável para que apenas os músicos – e não o diretor do filme, o autor do roteiro, o produtor, os atores, fotógrafo, montador, cenógrafos, figurinistas, maquiadores - voltem a receber na exibição do filme, sob o pretexto de pagamento de direitos autorais. 
 
Mesmo que a cobrança da taxa do ECAD sobre os ingressos de cinema fosse eticamente aceitável, não é possível que este dinheiro vá parar nas mãos de algum músico autor ou intérprete da trilha do filme, pelo simples fato de que o ECAD não tem a mínima idéia de quem são os autores das trilhas, se é que o filme tem alguma trilha. 
 
Para onde vai o dinheiro que o ECAD arrecada por ano no achaque legalizado aos espectadores (que pagam ingressos cada vez mais caros) e aos proprietários das salas de cinema (que enfrentam todas as dificuldades do mundo para manterem seus negócios), é segredo não revelado pelo site da entidade, mas o valor desta pilhagem amparada em lei pode ser calculado. A Ancine (Agência Nacional de Cinema) divulgou os dados parciais de 2010, foram 136 milhões de ingressos de cinema vendidos no país, com faturamento bruto de 1,3 bilhão de reais. Se não me falha a calculadora, 2,5% disso dá 32 milhões e 500 mil reais.
 
Filmes são criações coletivas. Os defensores do sistema cartorial do ECAD – uma entidade privada – alegam que falta aos diretores, autores, montadores, atores, organizarem-se para pleitear sua parte do butim. É um argumento que transforma em lema o sarcasmo da frase do Millôr: “Se é para locupletar-se, então que nos locupletemos todos”. Se a tese fosse levada a sério, a atividade de exibição pública de filmes no Brasil seria extinta.
 
É mais do que justo que os compositores recebam direitos autorais pela execução de suas músicas no rádio, em shows ou mesmo em salões de baile que cobram ingressos (onde as pessoas vão para dançar e ouvir música), mas a lei em vigor, que obriga os espectadores e os proprietários das salas de cinema a entregar seu dinheiro a uma entidade privada que não presta contas a ninguém é uma excrescência jurídica, que se mantém de pé graças ao lobby das grandes gravadoras, ao exército de advogados do ECAD e a leniência, covardia, má intenção ou pura ignorância da sólida maioria dos nossos congressistas.
 
PELA TRANSPARÊNCIA DAS CONTAS DO ECAD. PELO FIM IMEDIATO DO PAGAMENTO AO ECAD DA INDEFENSÁVEL E IMORAL TAXA SOBRE OS INGRESSOS DE CINEMA.

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Ator que viveu Tarzan é preso por ter animais selvagens ilegais em casa



De acordo com a agência Associated Press, as autoridades removeram dois tigres (Bo e Little Bo) e uma pantera da residência do ator que interpretou Tarzan no cinema no fim dos anos 60 e no começo da década de 70. 
Ele ganhou reconhecimento atuando em um filme espanhol "Tarzan en La Gruta del oro" (King of the Jungle em Inglês) ao lado de Kitty Swan, filmado no Suriname , América do Sul, Flórida, África, Espanha e Itália. Durante as filmagens, os produtores ficaram sem dinheiro e teviveram que começar a filmar novamente. Sipek, trabalhando sob o nome de Steve Hawkes, afirmou a companhia cinematográfica não poderia pagar as enormes taxas de licenciamento de Edgar Rice Burroughs (criador do Tarzan)e se estabeleceu o nome "Zan" para o personagem.
Posteriormente, após esta curiosa estreia, Steve viria atuar em outros filmes do rei das selvas. Esta sequencia de filmes, pelo jeito deve ter marcado profundamente o ator, que passou a viver como um "rei da selva".
Tarzan - Steve SipekSteve Sipek não mora exatamente na selva africana, mas sua casa está em uma área rural em West Palm Beach, na Flórida, conhecida por ser cercada por animais selvagens. Isso não quer dizer, contudo, que os moradores podem colocar uma coleira neles e chamá-los de “meu pet”.
Sipek foi preso na última segunda, 27, pela posse ilegal de animais Classe 1 (que representam um grande perigo para as pessoas) como bichos de estimação.
Em 2004, o ator já tinha ido parar nas manchetes quando um de seus tigres, Bobo, fugiu e teve que ser morto a tiros (a foto ao lado, dele com a noiva, foi tirada logo após os dois tentarem sem sucesso salvar o animal). Não aprendeu nada com o Tarzan…


Censo aponta que 15 mil tchecos se consideram "Cavaleiros Jedi"


Censo realizado na República Tcheca revelou um dado surpreendente sobre as crenças religiosas dos tchecos: mais de 15.000 pessoas se registraram como cavaleiros Jedi, uma fé que vem dos filmes Star Wars.
15 mil pessoas pode não ser um número significativo ao ponto de colocar a "religião Jedi" entre as maiores, mas é um número significativo, sem entrar no mérito com relação o quanto isto tem de 'brincadeira" e de devoção real. 
Na série Star Wars, os cavaleiros Jedi formam uma ordem de indivíduos que tinham a habilidade de tocar e trabalhar em conjunto com a Força, afastando seu Lado Negro. Tornar-se um Jedi requeria o mais profundo comprometimento e mente astuta. Eles eram os guardiões da paz da República Galáctica interplanetária.  
Quanto ao resto da população tcheca, 1.083.899 disseram ser católicos romanos e 707.649 disseram que não acreditam em Deus. Além disso, 5 milhões de pessoas simplesmente não disseram nada (deixaram a coluna vazia). Em Praga, a capital, 3.977 cavaleiros Jedi se registraram – 0,31% da população da cidade.

Informações:  OddityCentral e AFE

Michael Moore "Viver entre os 1%"





Por Michael Moore


Amigos,

Há 22 anos, que se completam nesta terça-feira, estava com um grupo de operários, estudantes e desempregados no centro da cidade onde nasci, Flint, Michigan, para anunciar que o estúdio Warner Bros, de Hollywood, comprara os direitos de distribuição do meu primeiro filme, “Roger & Me”. Um jornalista perguntou: “Por quanto vendeu?”

“Três milhões de dólares” – respondi com orgulho. Houve um grito de admiração, do pessoal dos sindicatos que me cercava. Nunca acontecera, nunca, que alguém da classe trabalhadora de Flint (ou de lugar algum) tivesse recebido tanto dinheiro, a menos que um dos nossos roubasse um banco ou, por sorte, ganhasse o grande prêmio da loteria de Michigan. 

Naquele dia ensolarado de novembro de 1989, foi como se eu tivesse ganho o grande prêmio da loteria – e o pessoal com quem eu vivia e lutava em Michigan ficou eufórico com o meu sucesso. Foi como se um de nós, finalmente, tivesse conseguido, tivesse chegado lá, como se a sorte finalmente nos tivesse sorrido. O dia acabou em festa. Quando se é trabalhador, de família de trabalhadores, todos cuidam de todos, e quando um se dá bem, ou outros vibram de orgulho – não só pelo que conseguiu ter sucesso, mas porque, de algum modo, um de nós venceu, derrotou o sistema brutal contra todos, sem mercê, que comanda um jogo cujas regras são distorcidas contra nós.

Nós conhecíamos as regras, e as regras diziam que nós, ratos das fábricas da cidade, nunca conseguíamos fazer cinema, ou aparecer em entrevistas na televisão ou conseguíamos fazer-nos ouvir em palanque nacional. A nossa parte deveria ser ficar de bico calado, cabeça baixa, e voltar ao trabalho. E, como que por milagre, um de nós escapara dali, estava a ser ouvido e visto por milhões de pessoas e estava ‘cheio de massa’ – santa mãe de deus, preparem-se! Um palanque e muito dinheiro... agora, sim, é que os de cima vão ver!

Naquele momento, eu sobrevivia com o subsídio de desemprego, 98 dólares por semana. Saúde pública. O meu carro morrera em abril: sete meses sem carro. Os amigos convidavam-me para jantar e sempre pagavam a conta antes que chegasse à mesa, para me poupar ao vexame de não poder dividi-la.

E então, de repente, lá estava eu montado em três milhões de dólares. O que eu faria do dinheiro? Muitos rapazes de terno e gravata apareceram com montes de sugestões, e logo vi que, quem não tivesse forte sentido de responsabilidade social, seria facilmente arrastado pela via do “eu-eu” e muito rapidamente esqueceria a via do “nós-nós”.

Em 1989, então, tomei decisões fáceis:

1. Primeiro de tudo, pagar todos os meus impostos. Disse ao sujeito que fez a declaração de rendimentos, que não declarasse nenhuma dedução além da hipoteca; e que pagasse todos os impostos federais, estaduais e municipais. Com muita honra, paguei quase um milhão de dólares pelo privilégio de ser norte-americano, cidadão deste grande país.

2. Os 2 milhões que sobraram, decidi dividir pelo padrão que, uma vez, o cantor e activista Harry Chapin me ensinou, sobre como ele próprio vivia: “Um para mim, um para o companheiro”. Então, peguei metade do dinheiro – e criei uma fundação para distribuir o dinheiro.

3. O milhão que sobrou, foi usado assim: paguei todas as minhas dívidas, algumas que eu devia aos meus melhores amigos e vários parentes; comprei um frigorífico para os meus pais; criei fundos para pagar a universidade das sobrinhas e sobrinhos; ajudei a reconstruir uma igreja de negros destruída num incêndio, lá em Flint; distribuí mil perus no Dia de Ação de Graças; comprei equipamento de filmagem e mandei para o Vietnã (a minha ação pessoal, para reparar parte do mal que fizemos àquele país, que nós destruímos); compro, todos os anos, 10 mil brinquedos, que dou a Toys for Tots no Natal; e comprei para mim uma moto Honda, fabricada nos EUA, e um apartamento hipotecado, em Nova York.

4. O que sobrou, depositei numa conta de poupança simples, que paga juros baixos. Tomei a decisão de jamais comprar ações. Nunca entendi o cassino chamado Bolsa de Valores de Nova York, nem acredito em investir num sistema com o qual não concordo.

5. Sempre entendi que o conceito do dinheiro que gera dinheiro criara uma classe de gente gananciosa, preguiçosa, que nada produz além de miséria e medo para os pobres. Eles inventaram meios de comprar empresas menores, para imediatamente as fechar. Inventaram esquemas para jogar com as poupanças e reformas dos pobres, como se o dinheiro dos outros fosse dinheiro deles. Exigiram que as empresas sempre registassem lucros (o que as empresas só conseguiram porque despediram milhares de trabalhadores e acabaram com os serviços de saúde pública para os que ainda tinham empregos). Decidi que, se ia afinal ‘ganhar a vida’, teria de ganhá-la com o meu trabalho, o meu suor, as minhas ideias, a minha criatividade. Eu produziria produtos tangíveis, algo que pudesse ser partilhado com todos ou de que todos gostassem, como entretenimento, ou do qual pudessem aprender alguma coisa. O meu trabalho, sim, criaria empregos, bons empregos, com salários decentes e todos os benefícios de assistência médica.

Continuei a fazer filmes, a produzir séries de televisão e a escrever livros. Nunca iniciei um projecto pensando “quanto dinheiro posso ganhar com isso?”. Nunca deixei que o dinheiro fosse a força que me fizesse fazer qualquer coisa. Fiz, simplesmente, exatamente o que queria fazer. Essa atitude ajuda a manter honesto o meu trabalho – e, acho, ao mesmo tempo, que resultou em milhões de pessoas que compram bilhetes para assistir aos meus filmes, assistem aos programas que produzo e compram os meus livros.

E isso, precisamente, enlouqueceu a direita. Como é possível que alguém da esquerda tenha tanta audiência no ‘grande público’?! Não pode ser! Não era para acontecer (Noam Chomsky, infelizmente, não vai aparecer no Today View de hoje; e Howard Zinn, espantosamente, só chegou à lista dos mais vendidos do New York Times depois de morto). Assim opera a máquina dos meios de comunicação. Está regulada para que ninguém jamais ouça falar dos que, se pudessem, mudariam todo o sistema, para coisa muito melhor. Só liberais sem personalidade, que vivem de exigir cautela e concessões e reformas lentas, aparecem com os nomes impressos nas páginas de editoriais dos jornais ou nos programas da televisão aos domingos.

Eu, de algum modo, encontrei uma brecha na muralha e meti-me por ali. Sinto-me abençoado, podendo viver como vivo – e não ajo como se tudo fosse garantido para sempre. Acredito nas lições que aprendi numa escola católica: que se tens sucesso, maior é a tua responsabilidade por quem não tenha a mesma sorte. “Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.” Meio comunista, eu sei, mas a ideia é que a família humana existe para partilhar com justiça as riquezas da terra, para que os filhos de Deus passem por esta vida com menos sofrimento.

Dei-me bem – para autor de documentários, dei-me super bem. Isso, também, faz enlouquecer os conservadores. “Você está rico por causa do capitalismo!” – gritam. Hummm... Não. Não assistiram às aulas de Economia I? O capitalismo é um sistema, um esquema ‘pirâmide’ que explora a vasta maioria, para que uns poucos, no topo, enriqueçam cada vez mais. Ganhei o meu dinheiro à moda antiga, honestamente, fabricando produtos, coisas. Nuns anos, ganho uma montanha de dinheiro, noutros anos, como o ano passado, não tenho trabalho (nada de filme, nada de livro); então, ganho muito menos. “Como é que você diz que defende os pobres, se você é rico, exatamente o contrário de ser pobre?!” É o mesmo argumento de quem diz que, “Você nunca fez sexo com outro homem! Como pode ser a favor do casamento entre dois homens?!"

Penso como pensava aquele Congresso só de homens que votou a favor do voto para as mulheres, ou como os muitos brancos que foram às ruas, marchar com Martin Luther Ling, Jr. (E lá vem a direita, aos gritos, ao longo da história: “Hei! Você não é negro! Você nem foi linchado! Por que está a favor dos negros?!”). Essa desconexão impede que os Republicanos entendam por que alguém dá o próprio tempo ou o próprio dinheiro para ajudar quem tenha menos sorte. É coisa que o cérebro da direita não consegue processar. “Kanye West ganha milhões! O que está a fazer lá, em Occupy Wall Street?!”. Exatamente – lá está, exigindo que aumentem os impostos a ele mesmo. Isso, para a direita, é definição de loucura. Todo o resto do mundo somos muito gratos que gente como ele se tenha levantado, ainda que – e sobretudo porque – é gente que se levantou contra os seus interesses pessoais financeiros. É precisamente a atitude que a Bíblia, que aqueles conservadores tanto exaltam por aí, exige de todos os ricos.

Naquele dia distante, em novembro de 1989, quando vendi o meu primeiro filme, um grande amigo meu disse o seguinte: “Eles cometeram um erro muito grave, ao entregar tanto dinheiro a um sujeito como tu. Essa massa fará de ti um homem perigosíssimo. É prova do acerto do velho dito popular: ‘Capitalista é o sujeito que te vende a corda para se enforcar a ele mesmo, se achar que, na venda, pode ganhar algum dinheiro.”

Atenciosamente,

Michael Moore

MMFlint@MichaelMoore.com

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