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Como decisões cartográficas podem distorcer a percepção sobre o mundo
Decisões cartográficas podem fazer enorme diferença na forma como percebemos o mundo. Embora fossem vistos como objetivos e imparciais no momento de sua criação, retrospectivamente torna-se evidente como mapas são subjetivos, ideologicamente orientados e, de muitas maneiras, fantasiosos
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Nigéria: como Ocidente alimenta os terroristas
Dois fatores favorecem ao grupo que sequestrou duzentas meninas: a pilhagem do país por transnacionais petroleiras e assassinatos praticados pelos EUA, por meio de drones. Estes dois fatores ajudam a entender o cenário que levam a grupos terroristas como o Boko Haram a terem suas forças ampliadas.
Por Lindsay German
É quase inacreditável que mais de duzentas garotas possam ter sido ser sequestradasde uma escola no norte da Nigéria — em ação realizada pelo grupo terrorista Boko Haram — e ameaçadas em um vídeo, exibido no mundo inteiro, sendo vendidas como escravas por seus capturadores. A descrença é ampliada pelas notícias de hoje de que, ao longo da noite, mais oito meninas foram sequestradas por homens armados, supostamente do Boko Haram, no nordeste da Nigéria. A tragédia toca o coração de todos, evocando um sentimento de asco não só pelo perigo e a perda da própria liberdade, mas pelo pressuposto de que para jovens garotas, seu destino deve ser o casamento forçado e a servidão, não a educação.
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5/09/2014
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Lula na África
A bela foto acima do Ricardo Stuckert (Instituto Lula), registra um dos momentos da visita de Lula nesta terça (06/05), na região de Malanje, no interior de Angola.
Lula conheceu iniciativas de agricultura familiar no Pólo Agro-Industrial de Capanda, um centro de formação do Senai no município de Cacuso e uma usina de produção de açúcar, etanol e energia de biomassa. O projeto Kukula Ku Maxi (“crescer juntos” em Kimbundo), atende 700 famílias de pequenos agricultores e já tirou 2500 pessoas da pobreza.
20 anos do genocídio em Ruanda: o maior massacre da humanidade desde a 2ª Guerra Mundial
No dia 7 de abril de 1994, começaram os 100 dias mais ferozes da história da Ruanda, e talvez da humanidade inteira depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Por mais de três meses, perpetrou-se um massacre sistemático que o mundo não soube prever nem enfrentar, muito menos parar.
A evolução contínua da Al-Qaeda 3.0
As organizações ligadas a Al-Qaeda e suas ideias estão prosperando em praticamente todo o mundo árabe como nunca antes, devido ao fracasso da Primavera Árabe em criar governos reformistas competentes. A contrarrevolução, seja mantendo velhos autocratas no poder ou colocando novos autocratas, já está criando a próxima geração da Al-Qaeda.
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1/06/2014
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Slavoj Zizek: O fracasso socialista de Mandela
Por Slavoj Zizek
Nas últimas duas décadas da vida, Nelson Mandela foi festejado como modelo de como libertar um país do jugo colonial sem sucumbir à tentação do poder ditatorial e sem postura anticapitalista. Em resumo, Mandela não foi Robert Mugabe, e a África do Sul permaneceu democracia multipartidária com imprensa livre e vibrante economia bem integrada no mercado global e imune a horríveis experimentos socialistas. Agora, com a morte dele, sua estatura de sábio santificado parece confirmada para toda a eternidade: há filmes sobre ele (com Morgan Freeman no papel de Mandela; o mesmo Freeman, aliás, que, noutro filme, encarnou Deus em pessoa). Rock stars e líderes religiosos, esportistas e políticos, de Bill Clinton a Fidel Castro, todos dedicados a beatificar Mandela.
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12/11/2013
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Leonardo Boff: Por que no meio da dor os negros, dançam, cantam e riem
Por Leonardo Boff
Milhares de pessoa em toda a África do Sul misturam choro com dança, festa com lamentos pela morte de Nelson Mandela. É a forma como realizam culturalmente o rito de passagem da vida deste lado para a vida do outro lado, onde estão os anciãos, os sábios e os guardiães do povo, de seus ritos e das normas éticas. Lá está agora Mandela de forma invisível mas plenamente presente acompanhando o povo que ele tanto ajudou a se libertar.
Momentos como estes nos fazem recordar de nossa mais alta ancestralidade humana. Todos temos nossas raízes na África, embora a grande maioria o desconheça ou não lhe dê importância. Mas é decisivo que nos reapropriemos de nossas origens, pois elas, de um modo ou de outro, na forma de informação, estão inscritas no nosso código genético e espiritual.
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12/11/2013
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Documentário: Mandela - o homem por trás da lenda
"Mandela - o homem por trás da lenda", documentário dirigido por Joël Calmattes, para o canal NatGeo, nos trás um bom apanhado sobre a história de Nelson Mandela.
Longe de ser um documentário que aprofunde sobre o significado, as contradições e a importância para a história da África do Sul de Mandela, é um bom registro sobre este grande líder e figura humana.
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ERick
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12/06/2013
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O mundo perde Nelson Mandela
"Durante a minha vida, me dediquei à luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca, e lutei contra a dominação negra. Eu defendi o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e conseguir realizar. Mas, se preciso for, é um ideal para o qual estou disposto a morrer."
Nelson Mandela, na abertura de sua declaração de defesa no Julgamento de Rivonia, em Pretória, em 20 de abril de 1964
O “Madiba”, cuja vida é inspiração de dias melhores, morreu aos 95 anos em sua casa, em Joanesburgo
Slavoj Zizek: "Giro em falso"
Por Slavoj Zizek
Com o golpe militar no Egito – em junho de 2013, o Exército, apoiado pelo núcleo duro dos manifestantes que derrubaram o regime de Mubarak dois anos atrás, depôs o presidente democraticamente eleito e o governo –, é como se o círculo de algum modo houvesse se fechado: os manifestantes que derrubaram Mubarak, pedindo democracia, agora celebram um coup d’état militar que abole a democracia. O que está havendo?
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8/29/2013
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Robert Fisk: Algo morreu no Egito
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| Foto: Manu Brabo/AP |
O massacre no Cairo marca um ponto de viragem trágico, do qual levará anos para o Egito se recuperar. Como poderá os muçulmanos confiar nas urnas novamente?
Por Robert Fisk
O cadinho egípcio partiu-se. A "unidade" do Egito – essa cola abrangente, patriótica e essencial que tem mantido unida a nação desde o derrube da monarquia em 1952 e do governo Nasser – derreteu-se no meio de massacres, tiroteios e da fúria provocada pela repressão contra a Irmandade Muçulmana. Uma centena de mortos – 200, 300 "mártires" – o resultado não faz diferença: para milhões de egípcios, o caminho da democracia foi desviado no meio do fogo e da brutalidade. Que muçulmano em busca de um Estado baseado na sua religião confiará mais alguma vez nas urnas?
As raízes da crise egípcia
Por Emir Sader
A chamada “primavera árabe” foi, de forma afoita, chamada por alguns de uma revolução. Foi muito importante, principalmente porque quebrou um eixo fundamental da política dos EUA para a região – a ditadura de Mubarak. Não por acaso o país ocupa o segundo lugar na lista de receptores de apoio militar dos EUA, só superado por Israel.
Mas como fenômeno político, foi a vitória de uma luta antiditatorial. Permitiu que novas forças laicas aparecessem, somadas à força mais tradicional da oposição à ditadura – os islâmicos, organizados na Irmandade Muçulmana.
A Pangeia com as fronteiras atuais
Esta imagem mostra as fronteiras terrestres que o Brasil teria com a África se os continentes voltassem a ser unidos hoje, como eram milhões de anos atrás no período da Pangeia. Porto Alegre seria ao lado da Namíbia, Fortaleza seria perto de Lagos, na Nigéria, e o Rio de Janeiro de Luanda, capital de Angola. Mas o Atlântico, que hoje separa os dois continentes, como diz Lula "deve servir para nos unir e não para nos separar".
Imagem de: Massimo Pietrobon
Fonte: Lula (Facebook)
Todos amam Mandela
Por Gary Younge
Pouco antes de Nelson Mandela deixar a presidência da África do Sul em 1999, a inquietação racial era um negócio lucrativo. Na biblioteca pública de Sandton, uma área nobre de Joanesburgo, eu assisti a uma palestra de um consultor, John Gambarana - especializado em ajudar pessoas a emigrarem - que advertia uma centena de pessoas, quase todos brancos, do caos e das mutilações que viriam no futuro. Segurando um exemplar do livro de Lester Venter 'Quando Mandela Partir: a Vinda da Segunda Revolução Africana', ele disse: "pessoal, este livro é uma mensagem para que vocês acordem. A má notícia que ele traz é que [quando Mandela deixar a presidência] a merda vai acertar o ventilador. A boa notícia é que provavelmente nenhum ventilador estará funcionando."
Menos de uma década depois de ser libertado, até aos olhos daqueles que viviam de disseminar o medo entre a população, Mandela deixou de ser um bicho-papão terrorista para ser o salvador da nação.
Agitação na Tunísia e no Egito: início ou fim das revoluções?
Por Immanuel Wallerstein
Na Tunísia, em dezembro de 2010, um único indivíduo acendeu o rastilho de uma revolução popular contra um ditador corrupto, uma revolta que foi prontamente seguida no Egito, contra um autocrata igualmente corrupto. O mundo árabe estava atónito e a opinião pública mundial ganhou imediatamente simpatia por estas expressões "modelares" das lutas ao redor do planeta por autonomia, dignidade e um mundo melhor.
Hoje, três anos depois, ambos países estão atolados em ferozes lutas políticas, a violência interna cresce e ninguém sabe onde tudo isto vai parar, e em benefício de quem. Há aspetos particulares em cada país, alguns dos quais se refletem em revoltas pelo mundo árabe e árabe-islâmico, e outros que podem ser comparados ao que está a acontecer na Europa - e, até certo ponto, no mundo.
O que aconteceu? Comecemos com o levantamento popular inicial. Como ocorre muitas vezes, foram jovens corajosos que o começaram, em protesto contra o poder arbitrário dos poderosos -- local, nacional, internacionalmente. Nesse sentido, eram anti-imperialistas, anti-exploração e profundamente igualitários. Comparam-se em muito com as manifestações que se espalharam pelo mundo entre 1966 e 1970, a que por vezes chamamos hoje de revolução mundial de 1968. Como naquela época, os protestos tocaram numa corda profunda dentro do país e atraíram vasto apoio popular, muito para além do pequeno grupo que os iniciaram.
O que aconteceu em seguida? Uma revolução antiautoritária generalizada é uma coisa muito perigosa para os que detêm a autoridade. Quando as medidas de repressão iniciais não funcionaram, muitos grupos procuraram domesticar as revoluções unindo-se a elas, ou fingindo que o faziam. Tanto na Tunísia quanto no Egito, o exército entrou em cena, recusando-se a disparar sobre os manifestantes, mas também procurando controlar a situação após a deposição dos dois ditadores.
Em ambos os países, existia há muito um forte movimento islâmico, a Irmandade Muçulmana. Ela fora banida na Tunísia e era cuidadosamente controlada e restringida no Egito. As revoluções permitiram-lhes emergir de duas maneiras. Ofereceram assistência social aos pobres que sofriam com a negligência do Estado. E decidiram formar partidos políticos para conquistar a maioria nos Parlamentos e controlar a redação das novas Constituições. Na primeira eleição de cada país, a Irmandade Muçulmana emergiu como o partido político mais forte.
Atrás deles, havia basicamente quatro grupos a disputar a arena política. Além do partido da Irmandade Muçulmana - Ennahda na Tunísia e Partido da Liberdade e Justiça no Egito -, surgiram três outros atores políticos: as forças laicas mais ou menos à esquerda, as forças salafistas, na extrema direita, lutando pela adoção de uma versão muito mais rigorosa da sharia que a desejada pelos partidos da Irmandade; e os apoiantes, ainda fortes, mas quase clandestinos, dos antigos regimes.
Tanto a Irmandade Muçulmana quanto as forças laicas estão muito divididas internamente, em especial sobre as estratégias que desejam seguir. Os partidos da Irmandade Muçulmana enfrentam os mesmos dilemas com que se defrontaram, nos últimos anos, os partidos de centro-direita na Europa. Os seus países têm severos e persistentes problemas económicos que provocam o crescimento, ou fortalecimento, dos partidos da extrema-direita, o que ameaça a capacidade dos partidos do centro-direita ‘mainstream’ vencerem futuras eleições. Nesta situação, surgem, por todo o lado, aqueles que pretendem conquistar os eleitores da extrema-direita adotando algumas das suas posições e uma postura de "linha dura" em relação à esquerda ou às forças laicas. E há os chamados "moderados", que defendem um movimento para o centro e a reconquista dos votos neste campo.
As forças de esquerda, ou laicas, reúnem por seu lado uma ampla gama de grupos: setores verdadeiramente de esquerda (porém múltiplos) e democratas de classe média, que procuram encorajar laços económicos mais próximos às grandes forças de mercado na Europa e na América do Norte. Nas questões económicas, esses grupos de classe média estão muito próximos, na verdade, daquilo que as forças islamistas moderadas propõem.
Enquanto isso, as forças ainda leais aos antigos regimes corruptos mantêm controlo sobre uma instituição chave: a polícia. É a polícia que dispara sobre as manifestações das forças laicas. Quando estas protestaram contra o assassinato de Chokri Belaid, um importante líder laico, o primeiro-ministro da Tunísia, Hamadi Jebali, um islamista moderado, respondeu que estava igualmente chocado com o assassinato. Diante disso, os grupos laicos responderam que os partidos islamistas, e especialmente a sua linha-dura, são, de qualquer forma, indiretamente responsáveis, por terem criado o ambiente propício a que o assassinato ocorresse.
Além disso, a Tunísia e o Egito não são países isolados. Os seus vizinhos no mundo árabe e além deste vivem também uma grande agitação. A intromissão geopolítica de forças externas é muito grande. Ambos os países são relativamente pobres e precisam de ajuda financeira externa para combater o crescente e persistente desemprego, que se torna ainda mais severo devido à perda das entradas com o turismo, uma fonte central de receita.
Para onde se encaminha tudo isto? Existem apenas duas direções possíveis. Uma é o fim da revolução, pelo menos por enquanto. Os dois países poderiam ter governos de direita fortemente entrincheirados, apoiados (talvez até controlados) pelos militares, com Constituições socialmente conservadoras e políticas externas cautelosas. Outra, é o começo de uma revolução, na qual o espírito inicial de 1968 reconquiste forças, e tanto a Tunísia quanto o Egito se tornem novamente marcos de transformação social para si próprios, para o resto do mundo árabe e para todo o planeta.
Por enquanto, parece que as forças que pressionam pelo fim da revolução estão na frente. Mas, neste mundo caótico, é cedo demais para fechar o pano e pensar que já não há espaço para uma força revolucionária renovada nos dois países.
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3/18/2013
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A nova corrida pela África
Por Márcio Sampaio de Castro
Nos anos que se seguiram à queda do Muro de Berlim e ao “Fim da História”, nos dizeres do ideólogo neoliberal Francis Fukuyama, o continente africano foi abandonado à sua própria sorte. Regimes como o apartheid sul-africano, retoricamente criticado, mas na prática tolerado pelas potências ocidentais e encarado como um mal necessário frente à ameaça comunista, caíram por falta do discreto apoio antes recebido. Países como Angola, Moçambique, Zimbábue e Ruanda – de triste memória, foram esquecidos.
Somente a Nigéria, por suas significativas reservas de petróleo, mereceu alguma atenção naquele período.
Quando a máquina de guerra francesa desembarcou no Mali, no início de 2013, com o surrado discurso de defesa do Ocidente contra os terroristas da Al-Qaeda, muita gente se perguntou: o que realmente os franceses desejam em um país com um dos menores IDHs do mundo? É preciso observar o que ocorreu no continente africano durante o vácuo que se seguiu ao fim da Guerra Fria para iluminar alguns elementos que levem a possíveis respostas para esta pergunta.
Este espaço pós-Guerra Fria foi ocupado por Muammar Kaddafi e seu projeto de pan-africanismo e, principalmente, pelos investimentos chineses no continente, que saltaram de 10 bilhões de dólares em 2000 para 107 bilhões de dólares a partir de 2008. Em comum, os dois novos atores jamais desenvolveram a prática de perguntar a seus parceiros comerciais como eles conduziam suas políticas internas, limitando-se, principalmente no caso chinês, a trocar investimentos em agricultura e infraestrutura por recursos naturais, como petróleo, zinco, ouro, diamante e cobre. O melhor exemplo desse movimento é Angola. Com a parceria dos chineses, o país, com o fim da guerra civil que lhe rasgou ao meio ao longo de três décadas, tornou-se progressivamente, a partir de 2002, uma das economias com crescimento mais vertiginoso no mundo, atingindo nos últimos cinco anos uma média de expansão de seu Produto Interno Bruto da ordem de 9% ao ano.
Atentos a este movimento de expansão chinesa no “continente esquecido”, os EUA e seus aliados adotaram algumas medidas para recuperar o terreno perdido. Em 2007, além das costumeiras ações de caridade empreendidas por ONGs dos mais diversos matizes ou das tradicionais promessas de financiamentos em troca de compromissos com os valores da democracia de mercado, surgiria o Africom, o Comando Militar da África, como fruto de uma proposta de ação mais incisiva na região.
Seus idealizadores não contavam, contudo, que os países do continente, liderados por Kaddafi, se recusassem a fornecer uma sede para o órgão diretamente ligado ao Pentágono. Em meados de 2009, a então secretária de Estado, Hillary Clinton, visitou sete países (Quênia, África do Sul, Angola, Congo, Nigéria, Libéria e Cabo Verde), pleiteando um local para a instalação do quartel general do novo Comando. De todos os interlocutores, entre sorrisos diplomáticos e tilintar de copos, ouviu a mesma resposta: não.
Como agora se sabe, os dias de Kaddafi estavam contados e, coincidência ou não, a morte do ditador sepultou o discurso pan-africano e os investimentos líbios, como a aquisição em julho de 2010 de um satélite de comunicações pela União Africana, financiado em grande parte pelo Fundo Soberano da Líbia. Rapidamente após a morte do ditador as consultorias militares, treinamentos e ações humanitárias prestadas por homens uniformizados se espalharam por países como Djibuti, Uganda, Somália, Sudão do Sul, Argélia, Quênia, Etiópia e Congo. O Africom, que se movia com dificuldade no continente, tem agora atuação destacada no combate ao terrorismo, às calamidades humanitárias, etc., etc.
Nesta queda de braço em nome da democracia e da liberdade, 30 mil chineses fugiram às pressas da Líbia em 2011, e a China, além de perder seus investimentos, deixou de ter acesso à maior reserva de petróleo do continente, precisará recomeçar do zero, observando de longe o progresso das empresas dos países que apoiaram a queda do antigo ditador. Assim como outros emergentes, registre-se.
A última volta do parafuso também envolve as operações na região do Saara, onde a França do socialista François Hollande revive suas experiências coloniais em nome da defesa da civilização ocidental. O governo norte-americano mantém conversas bem adiantadas com o governo do Níger, rico em urânio, para a instalação de uma base de drones (aviões não-tripulados) no país vizinho ao Mali, com o alegado objetivo de monitorar possíveis ações terroristas.
Vale a pena destacar que toda aquela região do Saara vem se revelando rica, não só em urânio, mas também em petróleo, maganês, bauxita e o nada desprezível diamante. O “continente esquecido” como um todo produz hoje mais de 8 milhões de barris de petróleo por dia. Uma produção equiparável à Arábia Saudita. O Congo sozinho possui 80% das reservas mundiais de cobalto, fundamental para a indústria eletrônica. As reservas de gás natural na região do chifre africano se revelam a cada dia mais promissoras e os chamados metais raros, fundamentais para a indústria de ponta, também apresentam reservas nada desprezíveis na região subsaariana.
Com pouco mais de cem anos de diferença, a África revive hoje a corrida das potências coloniais do final do século XIX. À época, dizia-se que o fardo do homem branco era levar a civilização aos “povos atrasados”; em troca, explorava-se aquilo que a economia do período demandava. Atualmente, a guerra ao terror e os enxovalhados valores humanitários disfarçam muito mal aquilo que os números escancaram à luz do dia.
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3/16/2013
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Mali: desafio à civilização que temos que rejeitar
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| Soldado francês com máscara de caveira no Mali |
Por Antonio Negri
A intervenção francesa no Mali reflete uma crise política que tende a generalizar-se na África saariana e subsaariana depois da “Primavera Árabe” do Magreb. “Manifesta-se o lado perigoso da Primavera Árabe”, escreve
Mas, é isso que, realmente, impulsiona à rebelião os novos guerrilheiros nos desertos do Norte da África, ou são impulsionados por miséria cada vez mais feroz e pela lógica sempre destrutiva dos governos da ex-Françáfrica? As zonas rurais dos países do Sahel permaneceram, apesar delas mesmas, nos últimos anos, em situação de miséria profunda, que alimenta o êxodo da população e a desestabilização das grandes cidades. Frente a isso, as estatísticas macroeconômicas mostram a existência de um “falso” desenvolvimento vinculado à atual corrida pela extração de minérios em direção àqueles territórios ricos desses recursos: o Mali, por exemplo, é o terceiro produtor mundial de ouro, rico em urânio, e prevê-se que seja também muito rico em hidrocarbonetos.
O jihadismo entra nesses territórios não pelo fanatismo de alguns e não os submete a partir da ‘barbárie terrorista’ (como dizem à opinião pública ocidental), mas, sim, porque nesses países as instituições continuam a dissolver-se, dada a fragilidade econômica e civil. Por isso, o êxito dos “invasores” que não são invasores está praticamente garantido.
O Mali é só mais um país do Sahel – os demais também estão em situação crítica semelhante. A dúvida sobre o aprofundamento da crise em cada um deles depende só de alguns fatores casuais que ainda contêm o desabamento recém iniciado do “dominó”. No Mali, que em certo momento foi “vitrine da democracia”, o governo estava em crise há bastante tempo, asfixiado pela corrupção, por repetidos golpes de Estado e pela rebelião popular dos tuaregues no norte. Os tuaregues querem a independência do Azawad (vasta região desértica do norte do Mali). Essa revolta encontrou ocasião de triunfar porque, com a queda do governo do coronel Gaddafi, muitos tuaregues voltaram ao seu país natal com armas (em grande e sofisticada quantidade) e equipamentos (logísticas regionais e alianças com parte do exército maliense). Deve-se ter em mente que a intervenção francesa (e da OTAN) na Líbia produziu naquele país a implosão de mil facções locais, ideológicas, étnicas, as quais, depois de Gaddafi, ficaram sem qualquer autoridade capaz de ostentar força legítima.
A rebelião tuaregue armada encontrou, além disso, apoio forte e provavelmente decisivo em grupos salafistas e jihadistas que já em 2002, ao terminar a guerra civil argelina, haviam instalado os fundamentos da al-Qaeda no Magreb. Há cerca de dez anos, esses grupos vinham construindo (aproveitando a “indústria dos sequestros” e o apoio aos “traficantes’ ilegais que operam nesse amplo território) bases e redes de apoio à guerrilha. O perigo era evidente. Há três, quatro anos, está em andamento uma cooperação bilateral França-EUA para combater o que alguns chamam de “eixo Kandahar-Dakar”. Recentemente, o New York Timesrevelou que o Departamento de Estado investira cerca de 500 milhões de dólares nessa região, nessa estratégia de antiterrorismo. Já no início de 2012, o comando norte-americano na África, AFRICOM, deu-se conta de que boa parte das tropas malienses adestradas pelos norte-americanos haviam-se unido à revolução no norte do país.
Agora, vimos a intervenção francesa, em resposta a pedido urgente do governo de Bamako (ou do que resta dele) formalmente apoiado por extensa coalizão de países africanos e governos europeus. Mas a guerra francesa já parece estender-se como mancha de azeite para grande número de países vizinhos. O que se viu acontecer na Argélia na última semana, quando a gentil intervenção daquele governo e de seu exército já produziu centenas de assassinatos, é só o começo desse amargo desenvolvimento.
Por enquanto, consolam-se a imprensa e a opinião pública francesa com a crença de que não se trataria de guerra de usura (como a guerra no Iraque ou no Afeganistão) cujos protagonistas movem-se “entre as populações”; tratar-se-ia de guerra clássica no puro deserto, guerra de posições e de movimentos. As coisas não demorarão a mudar muito. Talvez os franceses, com as tropas de outros países africanos (que permanecerão sob comando dos franceses, enquanto os EUA continuarem reticentes e resistirem a envolver-se na mudança) consigam a vitória em campo. Mas em seguida... como governar no deserto, em situação de paz que não é paz, numa “guerra nômade” que começa, em quadro de histeria frente a eventuais ataques terroristas na França continental e, sobretudo, em face da memória da vergonha colonial e do despotismo pós-colonial mantido pela potência francesa? Mas, sobretudo, como considerar, na situação atual e em situação de pós-guerra – aspectos que nos permitimos chamar “aspectos bons” da Primavera Árabe, ou, melhor dizendo, daquela “Primavera Africana” que parecia estar começando a apontar também no Sahel?
É inútil – e vale a pena repetir – culpar o extremismo de um islamismo salafista radical, quando se está sufocando a única alternativa verdadeira que realmente teria chances de concretizar-se: o amadurecimento – já iniciado nesses territórios – de elites jovens, democráticas, anticapitalistas. É necessário atacar as causas socioeconômicas dessa crise.
Se se ouvem os especialistas, dizem que, para desenvolver um programa de reconstrução e de desenvolvimento, seria necessário intervir nesses territórios nos setores agrícolas, de reflorestamento, de criação de animais, na melhoria de estradas e do transporte, no acesso à água, na promoção da energia solar e eólica, etc. E logo reiniciar os programas de produção de algodão e de cereais nessas regiões... Em resumo: tudo. Por fim e especialmente, “as populações devem beneficiar-se da renda da mineração; do ouro, para começar, primeiro produto de exportação”.
Não é solução, de fato, cômica? E na risada não aparece, evidente, o cinismo, no mínimo hipócrita, que há em tanto insistir na mesma execrável sede de dinheiro que arrasta esses governos liberais a combater terroristas pelas impiedosas terras desérticas do Sahara e do Sahel como se fossem trunfos a distribuir entre os inimigos (porque é muito difícil identificar quem é terrorista e quem é camponês pobre ou proletário metropolitano agora sublevados). Ainda mais: não lhes parecem lágrimas de crocodilo – e na Itália todos as confundem – as lágrimas que nossos democratas tanto choram?
Pesado fardo de nossa civilização, que nos obriga a intervir! Sagrada obrigação da soberania, dessa vez exercida em nome da Europa ! Atenção! Até os EUA já pararam de repetir essas estupidezes, depois das terríveis derrotas no Oriente Médio! Reconheçamos, isso sim, que só modificando radicalmente nossa consciência política, só rompendo radicalmente com formas de governos harmônicas e funcionais em relação ao capital, poderemos voltar a nos orientar corretamente.
No marco da globalização, não se pode raciocinar como raciocinam os Parlamentos nos países da Europa e o Parlamento Europeu, com homens e “mídia ou imprensa-empresa” votando a favor da intervenção francesa (e foi particularmente odiosa, em Estrasburgo, a atitude belicosa dos Verdes europeus).
Gilles Kepel – talvez o maior especialista em temas árabes conhecido no ocidente – destaca que “o que está em jogo no Mali é um desafio à civilização na época da globalização. O Sahel é, ao mesmo tempo, vítima por excelência e lugar da incandescência”.
Acrescentamos: a resistência e a guerrilha anti-imperialista naquele desesperado local despossuído e devastado são luta anticapitalista. Não gostaremos de ter de reconhecer que os islâmicos têm razão.
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O que está acontecendo na República Democrática do Congo?
O desfecho do conflito em curso pode fazer RD Congo deixar de existir
Por José Antonio Lima
Nos últimos dias, um grupo de rebeldes conhecido como M23 assumiu o controle de Goma, capital provincial no oeste da República Democrática do Congo, e da cidade vizinha de Sake. Nos próximos dias, deve rumar para Bukavu, outra cidade também na fronteira com Ruanda. O M23 exige que o governo do presidente Joseph Kabila aceite participar de diálogos oficiais a respeito da situação dos membros de sua etnia (a tutsi). Caso Kabila não aceite, o grupo promete cruzar o país e chegar até a capital do Congo, Kinshasa. O confronto tem pouca repercussão política, mas pode acabar modificando o mapa da África. Pode fazer com que a RD Congo deixe de existir.
Oficialmente, Kabila conta com o apoio de Ruanda e Uganda, dois vizinhos importantes. Nesta quarta-feira 22, Kabila e os presidentes desses países, Paul Kagame e Yoweri Museveni, respectivamente, divulgaram um manifesto conjunto dizendo que o M23 deveria recuar e cessar as hostilidades. De forma clandestina, no entanto, Ruanda e, em menor medida, Uganda, financiam os rebeldes. Um relatório divulgado pelas Nações Unidas também nesta quarta-feira acusa o governo de Ruanda de criar o braço político do M23, além de dar armas, tropas e facilitar o recrutamento pelos rebeldes. A ligação entre o governo ruandense e o M23 é tão umbilical que o general James Kabarebe, ministro da Defesa de Ruanda, é tido como a autoridade máxima do M23, segundo a ONU.
A ofensiva de Ruanda e Uganda contra o governo Kabila parece ser a repetição de uma história recente. Paul Kagame, um líder tutsi, mesma etnia do M23, assumiu o governo de Ruanda em 1994, quando suas tropas acabaram com o genocídio de tutsis e hutus moderados realizado por hutus radicais. Em 1996, Kagame invadiu o então Zaire (nome antigo da RD Congo) para combater as milícias que haviam promovido o genocídio. Com apoio de Uganda e outros seis países africanos, Ruanda derrubou o ditador Mobutu Sésé Seko e colocou em seu lugar o líder rebelde Laurent-Désiré Kabila (pai de Joseph Kabila). Em 1998, a guerra na RD Congo foi retomada. Desta vez, no entanto, Ruanda e Uganda se voltaram contra Kabila. O conflito, oficialmente encerrado em 2003, é o mais mortífero desde a Segunda Guerra Mundial. As mortes provocadas pelo conflito e doenças e fome que se seguiram passam de 5 milhões.
Como conta Anjan Sundaram em artigo no site da revista Foreign Policy, Ruanda é a grande força desestabilizadora do leste do Congo. O governo Kagame financiou diversos grupos rebeldes no Congo, entre eles o de Laurent Nkunda, antecessor do M23, responsável por inúmeras atrocidades, entre elas o estupro coletivo de 16 mil mulheres em uma semana em Bukavu. Por trás das ações de Ruanda estão dois interesses: os riquíssimos recursos minerais do leste do RD Congo e uma reivindicação histórica dos territórios que fazem parte do leste do Congo. Segundo muitos em Ruanda, essas regiões foram retiradas de Ruanda durante a colonização realizada pela Bélgica, país que também inventou a separação entre tutsis e hutus.
A instabilidade no leste da RD Congo pode ser apenas o início da fragmentação do país e de mais violência. A insatisfação com a fraqueza demonstrada por Kabila é crescente e há risco de que os militares tentem realizar um golpe militar com o objetivo de combater o M23. Seria algo semelhante ao que ocorreu no Mali recentemente. Soma-se a isso o possível separatismo de outras regiões. Segundo reportagem do jornal The New York Times, a região sul da RD Congo, rica em cobre e cuja maior cidade é Lubumbashi, também pode deixar a república uma vez que o governo central comece a ruir.
E por qual motivo a comunidade internacional não faz nada? Por uma mistura de pragmatismo e peso na consciência, como afirma Timothy Longman, diretor do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Boston, à agência Associated Press. O genocídio em Ruanda, que matou 800 mil pessoas em apenas três meses, ocorreu sob o silêncio das grandes potências. O Conselho de Segurança da ONU não autorizou uma intervenção para evitar o massacre e o governo da França, então comandado pelo socialista François Miterrand, apoiava os hutus radicais que cometeram os assassinatos em massa.
Foram as tropas de Kagame que acabaram com a tragédia (também cometendo graves crimes). Mais importante que isso é o papel que Ruanda passou a desempenhar no cenário africano. Sob Kagame, que se tornou uma espécie de ditador, o país africano virou modelo de desenvolvimento e passou a contribuir com missões internacionais, como a que atua em Darfur, no Sudão. Em troca, Ruanda recebe cerca de 1 bilhão de dólares em ajuda externa das grandes potências e de instituições multilaterais.
Outro impedimento de críticas a Ruanda é o fato de o país ocupar hoje uma das dez cadeiras rotativas no Conselho de Segurança da ONU. Recentemente, a entidade fez críticas ao M23, mas nem citou o governo de Paul Kagame. Dificilmente a comunidade internacional buscará uma solução militar para a crise. Está na RD Congo a maior missão de paz da ONU, com mais de 22 mil soldados. Apesar de grande, ela é insuficiente para cuidar do imenso país, o 12º maior do mundo, com área equivalente à dos estados do Pará e do Amazonas juntos ou à de toda a Europa Ocidental. Não há vontade política e econômica para fazer um investimento deste tipo. Ao que tudo indica, os problemas serão resolvidos como sempre são naquela região: por violentos combates, marcados por execráveis violações aos direitos humanos e uma paz provisória que servirá apenas para marcar o tempo até uma nova guerra.
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A China é imperialista?
Por Michael Klare
A China, que se autoclassifica como “país em via de desenvolvimento”, promete às nações do Sul que não reproduzirá os mesmos comportamentos predadores das antigas potências coloniais. Durante o Fórum de Cooperação China-África, sediado em Pequim em 9 de julho, o presidente Hu Jintao anunciou: “A China é o maior dos países em desenvolvimento, e a África é o continente que contém mais nações nesse estágio. Os povos chineses e africanos nutrem relações de igualdade, sinceridade e amizade, e se apoiam mutuamente em seu desenvolvimento comum”.1
Essa declaração faz parte de certo protocolo e do exercício do estilo diplomático da China para com as nações africanas, mas carrega implícita a memória das humilhações sofridas por esses países quando estavam submetidos às potências europeias e ao Japão. Contudo, os dirigentes estão diante de um dilema: para manter e aumentar o atual crescimento econômico (sua prioridade), precisam obter de seus fornecedores estrangeiros mais matérias-primas, das quais a China se tornou muito dependente após sua guinada econômica, na década de 1980. Para assegurar o abastecimento ininterrupto desses recursos, o país se envolveu com governos em geral corruptos e autoritários – relações do mesmo tipo que as empreendidas antes deles pelas grandes potências ocidentais.
Alguns países pobres conhecem a “maldição dos recursos naturais”: são governados por regimes autoritários preocupados com o lucro da mineração e mantidos em seus postos graças a forças armadas bem equipadas e remuneradas.
De seu lado, os principais países compradores não escapam da “maldição de recursos investidos”, porque terminam como cúmplices da continuidade de Estados autocráticos.2Quanto mais dependência há das matérias-primas dos fornecedores, mais se assegura a sobrevivência de seus governos.
Esse esquema prevaleceu nas relações entre Estados Unidos e as monarquias petrolíferas do Golfo, por exemplo. O presidente Franklin Delano Roosevelt (1933-1945) experimentou uma aversão profunda ao imperialismo e ao feudalismo. Contudo, quando alertado pelos conselheiros sobre o baixo nível das reservas de petróleo norte-americanas e a necessidade de encontrar outra fonte de abastecimento, ele aceitou, durante a Segunda Guerra Mundial, aproximar-se da Arábia Saudita, então único produtor do Oriente Médio que escapava ao controle britânico.
Se tivessem escolha, os Estados Unidos prefeririam, sem dúvida, comprar seus hidrocarbonetos de países amigos, estáveis e seguros, como Canadá, México, Reino Unido ou outros membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mas a dura realidade da geologia os impediu. A maioria das jazidas se situa na África, no Oriente Médio e na ex-União Soviética. Segundo a gigante do setor, a British Petroleum (BP), 80% das reservas petrolíferas estão fora da zona da OCDE.3Washington, então, buscou abastecer-se em nações instáveis e teve de misturar-se com as políticas locais, negociando alianças com os dirigentes da vez e garantindo a tranquilidade energética por diversas formas de apoio militar.
No início do século XX, para assegurar o controle sobre países ricos em petróleo, carvão, borracha e diversos minerais e para facilitar a extração desses recursos naturais, as grandes potências imperiais criaram ou franquearam empresas gigantes de direito público ou privado. Após as independências, essas corporações seguiram com suas atividades ao construir relações sólidas com as elites locais e mantiveram a posição da qual se beneficiavam sob administração colonial. É o caso da BP, da francesa Total e da italiana ENI.
Os chineses adorariam escapar desse esquema.4 No último Fórum China-África, o presidente Hu anunciou um empréstimo aos países africanos de US$ 20 bilhões em três anos, destinados a agricultura, infraestrutura e pequenas empresas. Os altos responsáveis chineses excluem qualquer ingerência nos assuntos internos dos países fornecedores. Por outro lado, penam para escapar da engrenagem experimentada pelas nações africanas quando estavam sob domínio do Japão e potências ocidentais.
Até 1993, a China pôde contar com seus próprios recursos petrolíferos. Em seguida, porém, a necessidade do ouro negro decolou, passando de 1,5 milhão de barris por dia em 2000 para 5 milhões de barris por dia em 2010 – alta de 330%. E, com a rápida expansão de seu parque industrial automotivo, alguns analistas preveem que o consumo chinês será equivalente ao dos Estados Unidos em 2040.5 Porém, enquanto estes são autossuficientes em dois terços de suas necessidades (contando a produção do vizinho Canadá), a China garante apenas um quarto de seu consumo com os próprios recursos.
Além disso, se Pequim mantém seu objetivo de triplicar a produção de eletricidade nos próximos 25 anos, as importações de gás, que não existiam em 2005, chegarão a 87 bilhões de metros cúbicos por dia em 2020, advindos principalmente do Oriente Médio e do Sudeste Asiático sob a forma de gás natural liquefeito (GNL), e da Rússia e do Turcomenistão por gasodutos.6 A China poderia satisfazer suas necessidades de carvão, mas os gargalos internos na produção e no transporte tornam mais interessante economicamente que esse mineral seja trazido da Austrália e da Indonésia para as províncias chinesas costeiras, em pleno desenvolvimento. Inexistentes em 2009, as importações atingiram 183 milhões de toneladas dois anos depois.7 A demanda por minerais importados (ferro, cobre, cobalto, cromo, níquel...), indispensáveis à indústria eletrônica de ponta e à fabricação de ligas de metal de alta resistência, também aumentou.
Prospectando matérias-primas
À medida que essa dependência cresce, o fornecimento contínuo dessas provisões torna-se a principal preocupação dos dirigentes. “O dever da China é assegurar uma vida decente aos seus 1,3 bilhão de habitantes. É possível imaginar o desafio e a enorme pressão sobre o governo que representa essa prerrogativa. Nada importa mais: tudo deve estar subordinado a essa prioridade nacional”,8 declarou Le Yucheng, vice-ministro de Relações Exteriores. Reforçar os laços com os fornecedores internacionais de matérias-primas passa a ser, dessa forma, um objetivo central da política estrangeira.
As autoridades são conscientes dos riscos de rupturas no fornecimento desses insumos por motivos de guerras civis, mudanças nos regimes governamentais ou conflitos regionais. Para precaver-se, a China toma emprestado o mesmo caminho de longa data traçado pelos ocidentais: esforça-se para diversificar suas fontes, desenvolver relações políticas amistosas com os principais fornecedores e garantir participação em jazidas minerais e de hidrocarbonetos.
No caso do petróleo, o governo pressionou as três estatais – China National Petroleum Corporation (CNPC), China Petrochemical Corporation (Sinopec) e China National Offshore Oil Corporation (CNOOC) – a investir em campos petrolíferos no exterior, em parceria com empresas nacionais locais como Saudi Aramco, Petróleos de Venezuela SA (PDVSA) ou a Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola (Sonangol). A mesma política é usada na mineração: as estatais China Minmetals Corporation (CMC) e China Nonferrous Metals Mining Group (CNMIG) multiplicaram seus investimentos em minas estrangeiras. Para favorecer essas operações, os dirigentes empreenderam grandes manobras diplomáticas, em geral acompanhadas da promessa de benefícios, empréstimos a juros baixos, jantares suntuosos em Pequim e assistência militar. Concederam um empréstimo de US$ 2 bilhões a juros baixos ao governo angolano para “facilitar” a aquisição da metade de uma forragem costeira promissora pela Sinopec. Outros países, como o Sudão e o Zimbábue, receberam apoio militar em troca de acesso a suas riquezas naturais.
Esse tipo de acordo conduz Pequim, inevitavelmente, a implicar-se em assuntos políticos e militares dos Estados em questão. No Sudão, a China, preocupada em proteger os investimentos da CNPC, foi acusada de apoiar o regime brutal de Omar al-Bashir fornecendo-lhe armas e apoio diplomático na ONU. A China é “o maior investidor do Sudão. Sua vontade é proteger os investimentos e garantir sua segurança energética, objetivos combinados à sua tradicional política de não ingerência, o que contribui para preservar o Sudão das pressões internacionais”,9 analisava o International Crisis Group em junho de 2008.
Talvez se esquecendo de que a própria China não é um modelo de governo democrático e íntegro, critica-se o apoio de Pequim a regimes autoritários ou corruptos, como o do Irã ou do Zimbábue. Além da ajuda militar ao Irã, a China oferece auxílio diplomático, em particular em relação às Nações Unidas. No Zimbábue, a China teria apoiado o regime repressivo de Robert Mugabe com armas e treinamento de suas forças de segurança, com a esperança de obter em troca terras cultiváveis, tabaco e minerais preciosos.
Mesmo no caso de países menos isolados no cenário internacional, Pequim tende a tratar com as empresas estatais dos governos parceiros, contribuindo inevitavelmente para o enriquecimento das elites locais em vez do resto da população, que raramente se beneficia desses acordos. Em Angola, construíram-se laços estreitos com a Sonangol, empresa estatal controlada por duas personalidades próximas ao presidente José Eduardo dos Santos. De um lado, os principais quadros da empresa se beneficiam com a aproximação; de outro, a maioria dos angolanos sobrevive com menos de US$ 2 por dia.10
Apesar da natureza tirânica ou feudal dos regimes com os quais a China negocia não incomodá-la muito, o gigante asiático gostaria de redimir-se de sua conduta com acordos direcionados a pequenos agricultores e outros microempreendedores das camadas mais desfavorecidas. Em regiões onde está mais implicada, como na África subsaariana, a China investiu maciçamente na construção de estradas de ferro, portos e oleodutos. Entretanto, à espera de um dia aproveitar-se de outros setores de atividade, essas infraestruturas servem principalmente às necessidades das empresas de petróleo e mineração associadas.
Mudança de modelo
“À primeira vista, o apetite chinês pelas riquezas naturais figura como um benefício à África”, considera um relatório comandado pela Comissão de Desenvolvimento do Parlamento Europeu.11 Pequim teria, de fato, contribuído para o crescimento econômico do continente africano. Uma análise mais profunda revela, contudo, uma imagem mais contraditória. Em 2005, catorze países, todos produtores de petróleo e minerais, apresentavam uma balança comercial positiva – baseada principalmente na exportação de matérias-primas – com a China. Por outro lado, trinta países apresentavam uma balança comercial deficitária com o gigante asiático, com seus mercados inundados de tecidos chineses e outros bens de consumo muito baratos – e prejudiciais aos produtores locais. Nessas trocas entre China e África, o fosso entre os países que ganham e os que perdem aumentou consideravelmente, provocando ressentimentos.
Se a China continuar a colocar o acesso a matérias-primas acima de tudo, cada vez mais se comportará como as antigas potências coloniais ao aproximar-se de “governos rentistas” de países dotados de riquezas naturais abundantes sem fazer esforços para fomentar o desenvolvimento local. O presidente sul-africano Jacob Zuma não deixou de mencioná-lo durante o fórum de julho último: “O comprometimento da China com o desenvolvimento da África” consistiria em, segundo ele, “abastecer-se de matérias-primas” – situação que ele considera “insustentável a longo prazo”.12
Mas qualquer mudança significativa nas relações comerciais entre Pequim e a África – ou entre os países em desenvolvimento em geral – necessita de uma transformação profunda na estrutura econômica chinesa, modificações nas indústrias de energia para produções mais econômicas e voltadas a serviços locais, e substituição de energia proveniente de combustíveis fósseis para energias renováveis. Os dirigentes parecem conscientes desse imperativo: o 12º plano quinquenal (2010-2015) enfatiza a expansão de meios de transporte alternativos, as energias renováveis, novos materiais e outras atividades propícias a transformações dessa natureza.13 Sem essas medidas, os dirigentes chineses correm o risco de se enredar em relações pouco reluzentes com os países em desenvolvimento
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Michael Klare é professor de estudos sobre paz e segurança mundiais no Hampshire College, em Amherst, Masachusetts, e autor do recém lançado Rising powers, shrinking planet; the new geopolitics of energy, publicado nos Estados Unidos pela Metropolitan Books, e no Reino Unido pela One World Publications.
1 Hu Jintao, “Open up new prospects for a new type of China-Africa strategic partnership” [Novas perspectivas para um novo tipo de estratégia conjunta entre China e África], Ministério de Relações Exteriores, Pequim, 19 jul. 2002. Disponível em: www.fmprc.gov.cn/eng.
2 Cf. Michael L. Ross, The oil curse: how petroleum wealth shapes the development of nations [A maldição do petróleo: como a riqueza petrolífera modela o desenvolvimento de nações], Princeton University Press, 2012.
3 “Statistical review of world energy” [Relatório estatístico da energia mundial], British Petroleum, Londres, jun. 2012.
4 Ler Colette Braeckman, “Pékin brise le tête-à-tête entre l’Afrique et l’Europe” [Pequim abala relações entre África e Europa], Atlas 2013 do Le Monde Diplomatique, Libraire Vuibert, Paris, 2012.
5 “The rise of China and its energy implications: executive summary” [O despertar da China e suas implicações energéticas: relatório executivo], Fórum sobre Energia, Baker Institute, Houston, 2011.
6 Cf. “China”, Agência de Informação dos Estados Unidos sobre Energia (EIA), Relatório Analítico de País, nov. 2010. Disponível em: www.eia.gov.
7 “China to boost coal imports on wider price gap” [China eleva importação de carvão e aumenta valor da commodity], Bloomberg, 23 abr. 2012.
8 Le Yucheng, “China’s relations with the world at a new starting point” [As relações da China com o mundo em um novo ponto de partida], discurso pronunciado diante do Fórum do Instituto Chinês de Estudos Internacionais (ICEI), 10 abr. 2012.
9 “China’s thirst for oil” [A sede da China por petróleo], International Crisis Group (ICG), Relatório da Ásia, n.153, 9 jun. 2008.
10 Ler Alain Vicky, “Contestation sonore en Angola” [Resposta sonora em Angola], Le Monde Diplomatique, ago. 2012.
11 Jonathan Holslag et al., “Chinese resources and energy policy in Sub-Saharan Africa” [Recursos chineses e política energética na África subsaariana], relatório à Comissão de Desenvolvimento do Parlamento Europeu, 19 mar. 2007.
12 “Zuma warns on Africa’s trade ties to China” [Zuma alerta para as amarras comerciais entre África e China], The Financial Times, Londres, 19 jul. 2012.
13 Ler Any Bourrier, “La Chine malade de son charbon” [A China está doente por seu carvão], Le Monde Diplomatique, nov. 2011.
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Postado por
ERick
em
11/08/2012
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