Mostrando postagens com marcador Imperialismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Imperialismo. Mostrar todas as postagens

Noam Chomsky: Crise na Ucrânia e o pânico dos EUA em perder a dominação global


A linha vermelha dos EUA está firmemente localizada nas fronteiras russas… E a anexação da Crimeia a violou

Por Noam Chomsky


A atual crise na Ucrânia é séria e perigosa, tanto, que até alguns comentaristas chegam a compará-la com a Crise dos Mísseis Cubanos de 1962.

A atualidade de Rosa Luxemburgo: uma economista política



Por Michael Krätke

Assim vocês a conhecem! Foi uma grande oradora, intervinha com discursos e discussões nas campanhas políticas do movimento social-democrata. Foi uma célebre e temida polemista. E foi uma jornalista tão famosa quanto formidável.  

A Ucrânia no caminho das superpotências


Por Jeferson Miola


No conflito interno ucraniano, um pesado jogo geoestratégico está em andamento. E tem a participação de interesses e atores externos que incidem fortemente, com poder de desenhar os contornos que podem levar finalmente a uma guerra.
Apesar do noticiário internacional aparentar o papel externo exclusivo da União Européia [UE] no conflito, os EUA não só tem interesse direto nos encaminhamentos para a Ucrânia, como atua fortemente para proteger suas prioridades geoestratégicas.

Protestos contra ação na Síria leva milhares às ruas no mundo


Cerca de 200 pessoas se reuniram na frente da Casa Branca, em Washington, neste sábado (7). Ali começou uma cruzada que, em efeito viral, foi seguida ao redor do mundo. "Nós somos contra à guerra", bradaram os manifestantes em referência à possível intervenção militar na Síria.


Além da capital norte-americana, Nova York, Los Angeles, San Francisco e outras metrópoles europeias e asáticas reuniram milhares de pessoas. "Eles dizem mais guerra, nós dizemos não" foi o grito oficial da marcha mundial, que acredita que uma novo ataque ao Oriente Médio seria "construído em uma mentira".

As "Guerras humanitárias"


Por Emir Sader

A Otan foi a expressão militar da hegemonia norte-americana no marco da guerra fria. Foi construída para a “contenção da União Soviética” na perspectiva de que haveria um projeto de expansionismo soviético, que teve como resposta a teoria da contenção. A Otan reunia aos países europeus, sob o comando militar dos EUA.

Terminada a guerra fria, com a vitória do bloco ocidental, o que fazer com a Otan? Terminado seu objetivo inicial, deveria desaparecer. Mas as potências ocidentais passaram a descobrir ou inventar novos inimigos globais, sem os quais suas aventuras militares não se sustentariam. 

Evo Morales: "Eu, sequestrado na Europa"


Neste artigo publicado no jornal francês Le Monde Diplomatique, Evo Morales narra a sua viagem de Moscou com destino à Bolívia, interrompida por ordem dos governos europeus submissos aos EUA. Para o presidente boliviano, os governos do Velho Continente traíram os valores democráticos que inspiraram gerações. Morales diz que os governos que não autorizaram a sua passagem "perderam até a capacidade de se reconhecer como colonizados".


Europeus colocam em risco vida de Evo Morales


A covardia europeia contra o presidente Evo Morales

Por Eduardo Febbro

Os europeus são incorrigíveis. Para não ficar mal com o império norteamericano são capazes de violar todos os princípios que defendem nos fóruns internacionais. O presidente boliviano Evo Morales foi o último a experimentar as consequências dessa política de palavras solidárias e gestos mesquinhos. Um rumor infundado sobre a presença no avião presidencial boliviano do ex-membro da Agência Nacional de Segurança (NSA) norteamericana, o estadunidense Edward Snowden, conduziu a um sério incidente diplomático aeronáutico entre Bolívia, França, Portugal e Espanha. 

Voltando de Moscou, onde havia participado da segunda cúpula de países exportadores de gás, realizada na capital russa, Morales se viu forçado a aterrissar no aeroporto de Viena depois que França, Portugal e Espanha negaram permissão para que seu avião fizesse uma escala técnica ou sobrevoasse seus espaços aéreos. Os “amigos” do governo norteamericano avisaram os europeus que Morales trazia no avião Edward Snowden, o homem que revelou como Washington, por meio de vários sistemas sofisticados e ilegais, espionava as conversações telefônicas e as mensagens de internet da maioria do planeta, inclusive da ONU e da União Europeia.

O certo é que Edward Snowden não estava no avião de Evo Morales. No entanto, ante a negativa dos países citados em autorizar o sobrevoo do avião presidencial, Morales fez uma escala forçada na Áustria. As capitais europeias coordenaram muito bem suas ações conjuntas para cortar a rota de Evo Morales. Surpreende a eficácia e a rapidez com que atuaram, tão diferente das demoradas medidas que tomam quando se trata de perseguir mafiosos, traficantes de ouro, financistas corruptos ou ladrões do sistema financeiro internacional.


A nova corrida pela África


Por  Márcio Sampaio de Castro

Nos anos que se seguiram à queda do Muro de Berlim e ao “Fim da História”, nos dizeres do ideólogo neoliberal Francis Fukuyama, o continente africano foi abandonado à sua própria sorte. Regimes como o apartheid sul-africano, retoricamente criticado, mas na prática tolerado pelas potências ocidentais e encarado como um mal necessário frente à ameaça comunista, caíram por falta do discreto apoio antes recebido. Países como Angola, Moçambique, Zimbábue e Ruanda – de triste memória, foram esquecidos.

Somente a Nigéria, por suas significativas reservas de petróleo, mereceu alguma atenção naquele período.

Quando a máquina de guerra francesa desembarcou no Mali, no início de 2013, com o surrado discurso de defesa do Ocidente contra os terroristas da Al-Qaeda, muita gente se perguntou: o que realmente os franceses desejam em um país com um dos menores IDHs do mundo? É preciso observar o que ocorreu no continente africano durante o vácuo que se seguiu ao fim da Guerra Fria para iluminar alguns elementos que levem a possíveis respostas para esta pergunta.
Este espaço pós-Guerra Fria foi ocupado por Muammar Kaddafi e seu projeto de pan-africanismo e, principalmente, pelos investimentos chineses no continente, que saltaram de 10 bilhões de dólares em 2000 para 107 bilhões de dólares a partir de 2008. Em comum, os dois novos atores jamais desenvolveram a prática de perguntar a seus parceiros comerciais como eles conduziam suas políticas internas, limitando-se, principalmente no caso chinês, a trocar investimentos em agricultura e infraestrutura por recursos naturais, como petróleo, zinco, ouro, diamante e cobre. O melhor exemplo desse movimento é Angola. Com a parceria dos chineses, o país, com o fim da guerra civil que lhe rasgou ao meio ao longo de três décadas, tornou-se progressivamente, a partir de 2002, uma das economias com crescimento mais vertiginoso no mundo, atingindo nos últimos cinco anos uma média de expansão de seu Produto Interno Bruto da ordem de 9% ao ano.
Atentos a este movimento de expansão chinesa no “continente esquecido”, os EUA e seus aliados adotaram algumas medidas para recuperar o terreno perdido. Em 2007, além das costumeiras ações de caridade empreendidas por ONGs dos mais diversos matizes ou das tradicionais promessas de financiamentos em troca de compromissos com os valores da democracia de mercado, surgiria o Africom, o Comando Militar da África, como fruto de uma proposta de ação mais incisiva na região.
Seus idealizadores não contavam, contudo, que os países do continente, liderados por Kaddafi, se recusassem a fornecer uma sede para o órgão diretamente ligado ao Pentágono. Em meados de 2009, a então secretária de Estado, Hillary Clinton, visitou sete países (Quênia, África do Sul, Angola, Congo, Nigéria, Libéria e Cabo Verde), pleiteando um local para a instalação do quartel general do novo Comando. De todos os interlocutores, entre sorrisos diplomáticos e tilintar de copos, ouviu a mesma resposta: não.
Como agora se sabe, os dias de Kaddafi estavam contados e, coincidência ou não, a morte do ditador sepultou o discurso pan-africano e os investimentos líbios, como a aquisição em julho de 2010 de um satélite de comunicações pela União Africana, financiado em grande parte pelo Fundo Soberano da Líbia. Rapidamente após a morte do ditador as consultorias militares, treinamentos e ações humanitárias prestadas por homens uniformizados se espalharam por países como Djibuti, Uganda, Somália, Sudão do Sul, Argélia, Quênia, Etiópia e Congo. O Africom, que se movia com dificuldade no continente, tem agora atuação destacada no combate ao terrorismo, às calamidades humanitárias, etc., etc.
Nesta queda de braço em nome da democracia e da liberdade, 30 mil chineses fugiram às pressas da Líbia em 2011, e a China, além de perder seus investimentos, deixou de ter acesso à maior reserva de petróleo do continente, precisará recomeçar do zero, observando de longe o progresso das empresas dos países que apoiaram a queda do antigo ditador. Assim como outros emergentes, registre-se.
A última volta do parafuso também envolve as operações na região do Saara, onde a França do socialista François Hollande revive suas experiências coloniais em nome da defesa da civilização ocidental. O governo norte-americano mantém conversas bem adiantadas com o governo do Níger, rico em urânio, para a instalação de uma base de drones (aviões não-tripulados) no país vizinho ao Mali, com o alegado objetivo de monitorar possíveis ações terroristas.
Vale a pena destacar que toda aquela região do Saara vem se revelando rica, não só em urânio, mas também em petróleo, maganês, bauxita e o nada desprezível diamante. O “continente esquecido” como um todo produz hoje mais de 8 milhões de barris de petróleo por dia. Uma produção equiparável à Arábia Saudita. O Congo sozinho possui 80% das reservas mundiais de cobalto, fundamental para a indústria eletrônica. As reservas de gás natural na região do chifre africano se revelam a cada dia mais promissoras e os chamados metais raros, fundamentais para a indústria de ponta, também apresentam reservas nada desprezíveis na região subsaariana.
Com pouco mais de cem anos de diferença, a África revive hoje a corrida das potências coloniais do final do século XIX. À época, dizia-se que o fardo do homem branco era levar a civilização aos “povos atrasados”; em troca, explorava-se aquilo que a economia do período demandava. Atualmente, a guerra ao terror e os enxovalhados valores humanitários disfarçam muito mal aquilo que os números escancaram à luz do dia.
.

Mali: desafio à civilização que temos que rejeitar

Soldado francês com máscara de caveira no Mali

Por Antonio Negri


A intervenção francesa no Mali reflete uma crise política que tende a generalizar-se na África saariana e subsaariana depois da “Primavera Árabe” do Magreb. “Manifesta-se o lado perigoso da Primavera Árabe”, escreve em manchete o New York Times, e acrescenta: “tinha razão o coronel Gadafi, quando previa que, se ele caísse, o pessoal de Bin Laden chegaria por terra e mar para ocupar as margens do Mediterrâneo”.

Mas, é isso que, realmente, impulsiona à rebelião os novos guerrilheiros nos desertos do Norte da África, ou são impulsionados por miséria cada vez mais feroz e pela lógica sempre destrutiva dos governos da ex-Françáfrica? As zonas rurais dos países do Sahel permaneceram, apesar delas mesmas, nos últimos anos, em situação de miséria profunda, que alimenta o êxodo da população e a desestabilização das grandes cidades. Frente a isso, as estatísticas macroeconômicas mostram a existência de um “falso” desenvolvimento vinculado à atual corrida pela extração de minérios em direção àqueles territórios ricos desses recursos: o Mali, por exemplo, é o terceiro produtor mundial de ouro, rico em urânio, e prevê-se que seja também muito rico em hidrocarbonetos.
jihadismo entra nesses territórios não pelo fanatismo de alguns e não os submete a partir da ‘barbárie terrorista’ (como dizem à opinião pública ocidental), mas, sim, porque nesses países as instituições continuam a dissolver-se, dada a fragilidade econômica e civil. Por isso, o êxito dos “invasores” que não são invasores está praticamente garantido.

O Mali é só mais um país do Sahel – os demais também estão em situação crítica semelhante. A dúvida sobre o aprofundamento da crise em cada um deles depende só de alguns fatores casuais que ainda contêm o desabamento recém iniciado do “dominó”. No Mali, que em certo momento foi “vitrine da democracia”, o governo estava em crise há bastante tempo, asfixiado pela corrupção, por repetidos golpes de Estado e pela rebelião popular dos tuaregues no norte. Os tuaregues querem a independência do Azawad (vasta região desértica do norte do Mali). Essa revolta encontrou ocasião de triunfar porque, com a queda do governo do coronel Gaddafi, muitos tuaregues voltaram ao seu país natal com armas (em grande e sofisticada quantidade) e equipamentos (logísticas regionais e alianças com parte do exército maliense). Deve-se ter em mente que a intervenção francesa (e da OTAN) na Líbia produziu naquele país a implosão de mil facções locais, ideológicas, étnicas, as quais, depois de Gaddafi, ficaram sem qualquer autoridade capaz de ostentar força legítima.

A rebelião tuaregue armada encontrou, além disso, apoio forte e provavelmente decisivo em grupos salafistas e jihadistas que já em 2002, ao terminar a guerra civil argelina, haviam instalado os fundamentos da al-Qaeda no Magreb. Há cerca de dez anos, esses grupos vinham construindo (aproveitando a “indústria dos sequestros” e o apoio aos “traficantes’ ilegais que operam nesse amplo território) bases e redes de apoio à guerrilha. O perigo era evidente. Há três, quatro anos, está em andamento uma cooperação bilateral França-EUA para combater o que alguns chamam de “eixo Kandahar-Dakar”. Recentemente, o New York Timesrevelou que o Departamento de Estado investira cerca de 500 milhões de dólares nessa região, nessa estratégia de antiterrorismo. Já no início de 2012, o comando norte-americano na África, AFRICOM, deu-se conta de que boa parte das tropas malienses adestradas pelos norte-americanos haviam-se unido à revolução no norte do país.

Agora, vimos a intervenção francesa, em resposta a pedido urgente do governo de Bamako (ou do que resta dele) formalmente apoiado por extensa coalizão de países africanos e governos europeus. Mas a guerra francesa já parece estender-se como mancha de azeite para grande número de países vizinhos. O que se viu acontecer na Argélia na última semana, quando a gentil intervenção daquele governo e de seu exército já produziu centenas de assassinatos, é só o começo desse amargo desenvolvimento.

Por enquanto, consolam-se a imprensa e a opinião pública francesa com a crença de que não se trataria de guerra de usura (como a guerra no Iraque ou no Afeganistão) cujos protagonistas movem-se “entre as populações”; tratar-se-ia de guerra clássica no puro deserto, guerra de posições e de movimentos. As coisas não demorarão a mudar muito. Talvez os franceses, com as tropas de outros países africanos (que permanecerão sob comando dos franceses, enquanto os EUA continuarem reticentes e resistirem a envolver-se na mudança) consigam a vitória em campo. Mas em seguida... como governar no deserto, em situação de paz que não é paz, numa “guerra nômade” que começa, em quadro de histeria frente a eventuais ataques terroristas na França continental e, sobretudo, em face da memória da vergonha colonial e do despotismo pós-colonial mantido pela potência francesa? Mas, sobretudo, como considerar, na situação atual e em situação de pós-guerra – aspectos que nos permitimos chamar “aspectos bons” da Primavera Árabe, ou, melhor dizendo, daquela “Primavera Africana” que parecia estar começando a apontar também no Sahel?

É inútil – e vale a pena repetir – culpar o extremismo de um islamismo salafista radical, quando se está sufocando a única alternativa verdadeira que realmente teria chances de concretizar-se: o amadurecimento – já iniciado nesses territórios – de elites jovens, democráticas, anticapitalistas. É necessário atacar as causas socioeconômicas dessa crise.

Se se ouvem os especialistas, dizem que, para desenvolver um programa de reconstrução e de desenvolvimento, seria necessário intervir nesses territórios nos setores agrícolas, de reflorestamento, de criação de animais, na melhoria de estradas e do transporte, no acesso à água, na promoção da energia solar e eólica, etc. E logo reiniciar os programas de produção de algodão e de cereais nessas regiões... Em resumo: tudo. Por fim e especialmente, “as populações devem beneficiar-se da renda da mineração; do ouro, para começar, primeiro produto de exportação”.

Não é solução, de fato, cômica? E na risada não aparece, evidente, o cinismo, no mínimo hipócrita, que há em tanto insistir na mesma execrável sede de dinheiro que arrasta esses governos liberais a combater terroristas pelas impiedosas terras desérticas do Sahara e do Sahel como se fossem trunfos a distribuir entre os inimigos (porque é muito difícil identificar quem é terrorista e quem é camponês pobre ou proletário metropolitano agora sublevados). Ainda mais: não lhes parecem lágrimas de crocodilo – e na Itália todos as confundem – as lágrimas que nossos democratas tanto choram?

Pesado fardo de nossa civilização, que nos obriga a intervir! Sagrada obrigação da soberania, dessa vez exercida em nome da Europa! Atenção! Até os EUA já pararam de repetir essas estupidezes, depois das terríveis derrotas no Oriente Médio! Reconheçamos, isso sim, que só modificando radicalmente nossa consciência política, só rompendo radicalmente com formas de governos harmônicas e funcionais em relação ao capital, poderemos voltar a nos orientar corretamente.
No marco da globalização, não se pode raciocinar como raciocinam os Parlamentos nos países da Europa e o Parlamento Europeu, com homens e “mídia ou imprensa-empresa” votando a favor da intervenção francesa (e foi particularmente odiosa, em Estrasburgo, a atitude belicosa dos Verdes europeus).

Gilles Kepel – talvez o maior especialista em temas árabes conhecido no ocidente – destaca que “o que está em jogo no Mali é um desafio à civilização na época da globalização. O Sahel é, ao mesmo tempo, vítima por excelência e lugar da incandescência”.

Acrescentamos: a resistência e a guerrilha anti-imperialista naquele desesperado local despossuído e devastado são luta anticapitalista. Não gostaremos de ter de reconhecer que os islâmicos têm razão.
.

Dez fatos chocantes sobre os Estados Unidos



1. Maior população prisional do mundo
Elevando-se desde os anos 80, a surreal taxa de encarceramento dos EUA é um negócio e um instrumento de controle social: à medida que o negócio das prisões privadas alastra-se como uma gangrena, uma nova categoria de milionários consolida seu poder político. Os donos destas carcerárias são também, na prática, donos de escravos, que trabalham nas fábricas do interior das prisões por salários inferiores a 50 cents por hora. Este trabalho escravo é tão competitivo, que muitos municípios hoje sobrevivem financeiramente graças às suas próprias prisões, aprovando simultaneamente leis que vulgarizam sentenças de até 15 anos de prisão por crimes menores como roubar chicletes. O alvo destas leis draconianas são os mais pobres, mas, sobretudo, os negros, que representando apenas 13% da população norte-americana, compõem 40% da população prisional do país.
2. 22% das crianças americanas vive abaixo do limiar da pobreza.
Calcula-se que cerca de 16 milhões de crianças norte-americanas vivam sem “segurança alimentar”, ou seja, em famílias sem capacidade econômica para satisfazer os requisitos nutricionais mínimos de uma dieta saudável. As estatísticas provam que estas crianças têm piores resultados escolares, aceitam piores empregos, não vão à universidade e têm uma maior probabilidade de, quando adultos, serem presos.
3. Entre 1890 e 2012, os EUA invadiram ou bombardearam 149 países.
O número de países nos quais os EUA intervieram militarmente é maior do que aqueles em que ainda não o fizeram. Números conservadores apontam para mais de oito milhões de mortes causadas pelo país só no século XX. Por trás desta lista, escondem-se centenas de outras operações secretas, golpes de Estado e patrocínio de ditadores e grupos terroristas. Segundo Obama, recipiente do Nobel da Paz, os EUA conduzem neste momente mais de 70 operações militares secretas em vários países do mundo. O mesmo presidente criou o maior orçamento militar norte-americano desde a Segunda Guerra Mundial, superando de longe George W. Bush.
4. Os EUA são o único país da OCDE que não oferece qualquer tipo de subsídio de maternidade.
Embora estes números variem de acordo com o Estado e dependam dos contratos redigidos por cada empresa, é prática corrente que as mulheres norte-americanas não tenham direito a nenhum dia pago antes ou depois de dar à luz. Em muitos casos, não existe sequer a possibilidade de tirar baixa sem vencimento. Quase todos os países do mundo oferecem entre 12 e 50 semanas pagas em licença maternidade. Neste aspecto, os Estados Unidos fazem companhia à Papua Nova Guiné e à Suazilândia.

5. 125 norte-americanos morrem todos os dias por não poderem pagar qualquer tipo de plano de saúde.
Se não tiver seguro de saúde (como 50 milhões de norte-americanos não têm), então há boas razões para temes ainda mais a ambulância e os cuidados de saúde que o governo presta. Viagens de ambulância custam em média o equivalente a 1300 reais e a estadia num hospital público mais de 500 reais por noite. Para a maioria das operações cirúrgicas (que chegam à casa das dezenas de milhar), é bom que possa pagar um seguro de saúde privado. Caso contrário, a América é a terra das oportunidades e, como o nome indica, terá a oportunidade de se endividar e também a oportunidade de ficar em casa, torcendo para não morrer.
6. Os EUA foram fundados sobre o genocídio de 10 milhões de nativos. Só entre 1940 e 1980, 40% de todas as mulheres em reservas índias foram esterilizadas contra sua vontade pelo governo norte-americano.
Esqueçam a história do Dia de Ação de Graças com índios e colonos partilhando placidamente o mesmo peru em torno da mesma mesa. A História dos Estados Unidos começa no programa de erradicação dos índios. Tendo em conta as restrições atuais à imigração ilegal, ninguém diria que os fundadores deste país foram eles mesmos imigrantes ilegais, que vieram sem o consentimento dos que já viviam na América. Durante dois séculos, os índios foram perseguidos e assassinados, despojados de tudo e empurrados para minúsculas reservas de terras inférteis, em lixeiras nucleares e sobre solos contaminados. Em pleno século XX, os EUA iniciaram um plano de esterilização forçada de mulheres índias, pedindo-lhes para colocar uma cruz num formulário escrito em idioma que não compreendiam, ameaçando-as com o corte de subsídios caso não consentissem ou, simplesmente, recusando-lhes acesso a maternidades e hospitais. Mas que ninguém se espante, os EUA foram o primeiro país do mundo oficializar esterilizações forçadas como parte de um programa de eugenia, inicialmente contra pessoas portadoras de deficiência e, mais tarde, contra negros e índios.
7. Todos os imigrantes são obrigados a jurar não ser comunistas para poder viver nos EUA.
Além de ter que jurar não ser um agente secreto nem um criminoso de guerra nazi, vão lhe perguntar se é, ou alguma vez foi membro do Partido Comunista, se tem simpatias anarquista ou se defende intelectualmente alguma organização considerada terrorista. Se responder que sim a qualquer destas perguntas, será automaticamente negado o direito de viver e trabalhar nos EUA por “prova de fraco carácter moral”.
8. O preço médio de uma licenciatura numa universidade pública é 80 mil dólares.
O ensino superior é uma autêntica mina de ouro para os banqueiros. Virtualmente, todos os estudantes têm dívidas astronômicas, que, acrescidas de juros, levarão, em média, 15 anos para pagar. Durante esse período, os alunos tornam-se servos dos bancos e das suas dívidas, sendo muitas vezes forçados a contrair novos empréstimos para pagar os antigos e assim sobreviver. O sistema de servidão completa-se com a liberdade dos bancos de vender e comprar as dívidas dos alunos a seu bel prazer, sem o consentimento ou sequer o conhecimento do devedor. Num dia, deve-se dinheiro a um banco com uma taxa de juros e, no dia seguinte, pode-se dever dinheiro a um banco diferente com nova e mais elevada taxa de juro. Entre 1999 e 2012, a dívida total dos estudantes norte-americanos cresceu à marca dos 1,5 trilhões de dólares, elevando-se assustadores 500%.
9. Os EUA são o país do mundo com mais armas: para cada dez norte-americanos, há nove armas de fogo.
Não é de se espantar que os EUA levem o primeiro lugar na lista dos países com a maior coleção de armas. O que surpreende é a comparação com outras partes do mundo: no restante do planeta, há uma arma para cada dez pessoas. Nos Estados Unidos, nove para cada dez. Nos EUA podemos encontrar 5% de todas as pessoas do mundo e 30% de todas as armas, algo em torno de 275 milhões. Esta estatística tende a se elevar, já que os norte-americanos compram mais de metade de todas as armas fabricadas no mundo.
10. Há mais norte-americanos que acreditam no Diabo do que os que acreditam em Darwin.
A maioria dos norte-americanos são céticos. Pelo menos no que toca à teoria da evolução, já que apenas 40% dos norte-americanos acreditam nela. Já a existência de Satanás e do inferno soa perfeitamente plausível a mais de 60% dos norte-americanos. Esta radicalidade religiosa explica as “conversas diárias” do ex-presidente Bush com Deus e mesmo os comentários do ex-pré-candidato republicano Rick Santorum, que acusou acadêmicos norte-americanos de serem controlados por Satã.

Artigo originalmente publicado no portal galego Diário Liberdade

A China é imperialista?


Por Michael Klare


A China, que se autoclassifica como “país em via de desenvolvimento”, promete às nações do Sul que não reproduzirá os mesmos comportamentos predadores das antigas potências coloniais. Durante o Fórum de Cooperação China-África, sediado em Pequim em 9 de julho, o presidente Hu Jintao anunciou: “A China é o maior dos países em desenvolvimento, e a África é o continente que contém mais nações nesse estágio. Os povos chineses e africanos nutrem relações de igualdade, sinceridade e amizade, e se apoiam mutuamente em seu desenvolvimento comum”.1
Essa declaração faz parte de certo protocolo e do exercício do estilo diplomático da China para com as nações africanas, mas carrega implícita a memória das humilhações sofridas por esses países quando estavam submetidos às potências europeias e ao Japão. Contudo, os dirigentes estão diante de um dilema: para manter e aumentar o atual crescimento econômico (sua prioridade), precisam obter de seus fornecedores estrangeiros mais matérias-primas, das quais a China se tornou muito dependente após sua guinada econômica, na década de 1980. Para assegurar o abastecimento ininterrupto desses recursos, o país se envolveu com governos em geral corruptos e autoritários – relações do mesmo tipo que as empreendidas antes deles pelas grandes potências ocidentais.
Alguns países pobres conhecem a “maldição dos recursos naturais”: são governados por regimes autoritários preocupados com o lucro da mineração e mantidos em seus postos graças a forças armadas bem equipadas e remuneradas.
De seu lado, os principais países compradores não escapam da “maldição de recursos investidos”, porque terminam como cúmplices da continuidade de Estados autocráticos.2Quanto mais dependência há das matérias-primas dos fornecedores, mais se assegura a sobrevivência de seus governos.
Esse esquema prevaleceu nas relações entre Estados Unidos e as monarquias petrolíferas do Golfo, por exemplo. O presidente Franklin Delano Roosevelt (1933-1945) experimentou uma aversão profunda ao imperialismo e ao feudalismo. Contudo, quando alertado pelos conselheiros sobre o baixo nível das reservas de petróleo norte-americanas e a necessidade de encontrar outra fonte de abastecimento, ele aceitou, durante a Segunda Guerra Mundial, aproximar-se da Arábia Saudita, então único produtor do Oriente Médio que escapava ao controle britânico.
Se tivessem escolha, os Estados Unidos prefeririam, sem dúvida, comprar seus hidrocarbonetos de países amigos, estáveis e seguros, como Canadá, México, Reino Unido ou outros membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mas a dura realidade da geologia os impediu. A maioria das jazidas se situa na África, no Oriente Médio e na ex-União Soviética. Segundo a gigante do setor, a British Petroleum (BP), 80% das reservas petrolíferas estão fora da zona da OCDE.3Washington, então, buscou abastecer-se em nações instáveis e teve de misturar-se com as políticas locais, negociando alianças com os dirigentes da vez e garantindo a tranquilidade energética por diversas formas de apoio militar.
No início do século XX, para assegurar o controle sobre países ricos em petróleo, carvão, borracha e diversos minerais e para facilitar a extração desses recursos naturais, as grandes potências imperiais criaram ou franquearam empresas gigantes de direito público ou privado. Após as independências, essas corporações seguiram com suas atividades ao construir relações sólidas com as elites locais e mantiveram a posição da qual se beneficiavam sob administração colonial. É o caso da BP, da francesa Total e da italiana ENI.
Os chineses adorariam escapar desse esquema.4 No último Fórum China-África, o presidente Hu anunciou um empréstimo aos países africanos de US$ 20 bilhões em três anos, destinados a agricultura, infraestrutura e pequenas empresas. Os altos responsáveis chineses excluem qualquer ingerência nos assuntos internos dos países fornecedores. Por outro lado, penam para escapar da engrenagem experimentada pelas nações africanas quando estavam sob domínio do Japão e potências ocidentais.
Até 1993, a China pôde contar com seus próprios recursos petrolíferos. Em seguida, porém, a necessidade do ouro negro decolou, passando de 1,5 milhão de barris por dia em 2000 para 5 milhões de barris por dia em 2010 – alta de 330%. E, com a rápida expansão de seu parque industrial automotivo, alguns analistas preveem que o consumo chinês será equivalente ao dos Estados Unidos em 2040.5 Porém, enquanto estes são autossuficientes em dois terços de suas necessidades (contando a produção do vizinho Canadá), a China garante apenas um quarto de seu consumo com os próprios recursos.
Além disso, se Pequim mantém seu objetivo de triplicar a produção de eletricidade nos próximos 25 anos, as importações de gás, que não existiam em 2005, chegarão a 87 bilhões de metros cúbicos por dia em 2020, advindos principalmente do Oriente Médio e do Sudeste Asiático sob a forma de gás natural liquefeito (GNL), e da Rússia e do Turcomenistão por gasodutos.6 A China poderia satisfazer suas necessidades de carvão, mas os gargalos internos na produção e no transporte tornam mais interessante economicamente que esse mineral seja trazido da Austrália e da Indonésia para as províncias chinesas costeiras, em pleno desenvolvimento. Inexistentes em 2009, as importações atingiram 183 milhões de toneladas dois anos depois.7 A demanda por minerais importados (ferro, cobre, cobalto, cromo, níquel...), indispensáveis à indústria eletrônica de ponta e à fabricação de ligas de metal de alta resistência, também aumentou.

Prospectando matérias-primas
À medida que essa dependência cresce, o fornecimento contínuo dessas provisões torna-se a principal preocupação dos dirigentes. “O dever da China é assegurar uma vida decente aos seus 1,3 bilhão de habitantes. É possível imaginar o desafio e a enorme pressão sobre o governo que representa essa prerrogativa. Nada importa mais: tudo deve estar subordinado a essa prioridade nacional”,8 declarou Le Yucheng, vice-ministro de Relações Exteriores. Reforçar os laços com os fornecedores internacionais de matérias-primas passa a ser, dessa forma, um objetivo central da política estrangeira.
As autoridades são conscientes dos riscos de rupturas no fornecimento desses insumos por motivos de guerras civis, mudanças nos regimes governamentais ou conflitos regionais. Para precaver-se, a China toma emprestado o mesmo caminho de longa data traçado pelos ocidentais: esforça-se para diversificar suas fontes, desenvolver relações políticas amistosas com os principais fornecedores e garantir participação em jazidas minerais e de hidrocarbonetos.
No caso do petróleo, o governo pressionou as três estatais – China National Petroleum Corporation (CNPC), China Petrochemical Corporation (Sinopec) e China National Offshore Oil Corporation (CNOOC) – a investir em campos petrolíferos no exterior, em parceria com empresas nacionais locais como Saudi Aramco, Petróleos de Venezuela SA (PDVSA) ou a Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola (Sonangol). A mesma política é usada na mineração: as estatais China Minmetals Corporation (CMC) e China Nonferrous Metals Mining Group (CNMIG) multiplicaram seus investimentos em minas estrangeiras. Para favorecer essas operações, os dirigentes empreenderam grandes manobras diplomáticas, em geral acompanhadas da promessa de benefícios, empréstimos a juros baixos, jantares suntuosos em Pequim e assistência militar. Concederam um empréstimo de US$ 2 bilhões a juros baixos ao governo angolano para “facilitar” a aquisição da metade de uma forragem costeira promissora pela Sinopec. Outros países, como o Sudão e o Zimbábue, receberam apoio militar em troca de acesso a suas riquezas naturais.
Esse tipo de acordo conduz Pequim, inevitavelmente, a implicar-se em assuntos políticos e militares dos Estados em questão. No Sudão, a China, preocupada em proteger os investimentos da CNPC, foi acusada de apoiar o regime brutal de Omar al-Bashir fornecendo-lhe armas e apoio diplomático na ONU. A China é “o maior investidor do Sudão. Sua vontade é proteger os investimentos e garantir sua segurança energética, objetivos combinados à sua tradicional política de não ingerência, o que contribui para preservar o Sudão das pressões internacionais”,9 analisava o International Crisis Group em junho de 2008.
Talvez se esquecendo de que a própria China não é um modelo de governo democrático e íntegro, critica-se o apoio de Pequim a regimes autoritários ou corruptos, como o do Irã ou do Zimbábue. Além da ajuda militar ao Irã, a China oferece auxílio diplomático, em particular em relação às Nações Unidas. No Zimbábue, a China teria apoiado o regime repressivo de Robert Mugabe com armas e treinamento de suas forças de segurança, com a esperança de obter em troca terras cultiváveis, tabaco e minerais preciosos.
Mesmo no caso de países menos isolados no cenário internacional, Pequim tende a tratar com as empresas estatais dos governos parceiros, contribuindo inevitavelmente para o enriquecimento das elites locais em vez do resto da população, que raramente se beneficia desses acordos. Em Angola, construíram-se laços estreitos com a Sonangol, empresa estatal controlada por duas personalidades próximas ao presidente José Eduardo dos Santos. De um lado, os principais quadros da empresa se beneficiam com a aproximação; de outro, a maioria dos angolanos sobrevive com menos de US$ 2 por dia.10
Apesar da natureza tirânica ou feudal dos regimes com os quais a China negocia não incomodá-la muito, o gigante asiático gostaria de redimir-se de sua conduta com acordos direcionados a pequenos agricultores e outros microempreendedores das camadas mais desfavorecidas. Em regiões onde está mais implicada, como na África subsaariana, a China investiu maciçamente na construção de estradas de ferro, portos e oleodutos. Entretanto, à espera de um dia aproveitar-se de outros setores de atividade, essas infraestruturas servem principalmente às necessidades das empresas de petróleo e mineração associadas.

Mudança de modelo
“À primeira vista, o apetite chinês pelas riquezas naturais figura como um benefício à África”, considera um relatório comandado pela Comissão de Desenvolvimento do Parlamento Europeu.11 Pequim teria, de fato, contribuído para o crescimento econômico do continente africano. Uma análise mais profunda revela, contudo, uma imagem mais contraditória. Em 2005, catorze países, todos produtores de petróleo e minerais, apresentavam uma balança comercial positiva – baseada principalmente na exportação de matérias-primas – com a China. Por outro lado, trinta países apresentavam uma balança comercial deficitária com o gigante asiático, com seus mercados inundados de tecidos chineses e outros bens de consumo muito baratos – e prejudiciais aos produtores locais. Nessas trocas entre China e África, o fosso entre os países que ganham e os que perdem aumentou consideravelmente, provocando ressentimentos.
Se a China continuar a colocar o acesso a matérias-primas acima de tudo, cada vez mais se comportará como as antigas potências coloniais ao aproximar-se de “governos rentistas” de países dotados de riquezas naturais abundantes sem fazer esforços para fomentar o desenvolvimento local. O presidente sul-africano Jacob Zuma não deixou de mencioná-lo durante o fórum de julho último: “O comprometimento da China com o desenvolvimento da África” consistiria em, segundo ele, “abastecer-se de matérias-primas” – situação que ele considera “insustentável a longo prazo”.12
Mas qualquer mudança significativa nas relações comerciais entre Pequim e a África – ou entre os países em desenvolvimento em geral – necessita de uma transformação profunda na estrutura econômica chinesa, modificações nas indústrias de energia para produções mais econômicas e voltadas a serviços locais, e substituição de energia proveniente de combustíveis fósseis para energias renováveis. Os dirigentes parecem conscientes desse imperativo: o 12º plano quinquenal (2010-2015) enfatiza a expansão de meios de transporte alternativos, as energias renováveis, novos materiais e outras atividades propícias a transformações dessa natureza.13 Sem essas medidas, os dirigentes chineses correm o risco de se enredar em relações pouco reluzentes com os países em desenvolvimento

-

Michael Klare é professor de estudos sobre paz e segurança mundiais no Hampshire College, em Amherst, Masachusetts, e autor do recém lançado Rising powers, shrinking planet; the new geopolitics of energy, publicado nos Estados Unidos pela Metropolitan Books, e no Reino Unido pela One World Publications.


1 Hu Jintao, “Open up new prospects for a new type of China-Africa strategic partnership” [Novas perspectivas para um novo tipo de estratégia conjunta entre China e África], Ministério de Relações Exteriores, Pequim, 19 jul. 2002. Disponível em: www.fmprc.gov.cn/eng.
2 Cf. Michael L. Ross, The oil curse: how petroleum wealth shapes the development of nations [A maldição do petróleo: como a riqueza petrolífera modela o desenvolvimento de nações], Princeton University Press, 2012.
3 “Statistical review of world energy” [Relatório estatístico da energia mundial], British Petroleum, Londres, jun. 2012.
4 Ler Colette Braeckman, “Pékin brise le tête-à-tête entre l’Afrique et l’Europe” [Pequim abala relações entre África e Europa], Atlas 2013 do Le Monde Diplomatique, Libraire Vuibert, Paris, 2012.
5 “The rise of China and its energy implications: executive summary” [O despertar da China e suas implicações energéticas: relatório executivo], Fórum sobre Energia, Baker Institute, Houston, 2011.
6 Cf. “China”, Agência de Informação dos Estados Unidos sobre Energia (EIA), Relatório Analítico de País, nov. 2010. Disponível em: www.eia.gov.
7 “China to boost coal imports on wider price gap” [China eleva importação de carvão e aumenta valor da commodity], Bloomberg, 23 abr. 2012.
8 Le Yucheng, “China’s relations with the world at a new starting point” [As relações da China com o mundo em um novo ponto de partida], discurso pronunciado diante do Fórum do Instituto Chinês de Estudos Internacionais (ICEI), 10 abr. 2012.
9 “China’s thirst for oil” [A sede da China por petróleo], International Crisis Group (ICG), Relatório da Ásia, n.153, 9 jun. 2008.
10 Ler Alain Vicky, “Contestation sonore en Angola” [Resposta sonora em Angola], Le Monde Diplomatique, ago. 2012.
11 Jonathan Holslag et al., “Chinese resources and energy policy in Sub-Saharan Africa” [Recursos chineses e política energética na África subsaariana], relatório à Comissão de Desenvolvimento do Parlamento Europeu, 19 mar. 2007.
12 “Zuma warns on Africa’s trade ties to China” [Zuma alerta para as amarras comerciais entre África e China], The Financial Times, Londres, 19 jul. 2012.
13 Ler Any Bourrier, “La Chine malade de son charbon” [A China está doente por seu carvão], Le Monde Diplomatique, nov. 2011.

.

Evo Morales "Ter relações com os EUA é um cocô"


O presidente da Bolívia, Evo Morales, afirmou nesta sexta-feira (12/10) que “ter relações com os Estados Unidos é como um cocô”. A declaração foi feita durante um ato em comemoração ao Dia da Descolonização.

Durante seu discurso, Morales argumentou que, desde o início de sua administração, tentava implementar práticas para descolonizar seu país.

“Quem tinha boas relações com a embaixada dos Estados Unidos sempre foi admirado. Porém, agora, desculpem a expressão, ter relações com a embaixada dos Estados Unidos é um cocô.”


No decorrer de seu discurso, o presidente boliviano destacou a importância da descolonização, ainda que “não seja simples nos separarmos das potências, como não é fácil tirar a mamadeira” de uma criança.


Após o evento, o ministro da Presidência da Bolívia, Juan Ramón Quintana, afirmou que a expressão usada por Morales diz respeito à arrogância com que os norte-americanos tratam os bolivianos.

Nos últimos anos, as relações diplomáticas entre os dois países têm sido marcadas por diversos problemas, incluindo a expulsão de embaixadores de parte a parte.


Fonte: Opera Mundi

As ilusões fatais das potências decadentes


Por Immanuel Wallerstein



Blowback [algo como revertério, ou tiro pela culatra] é um termo criado pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA). Referia-se originalmente às consequências negativas não intencionais, infligidas a um país por suas próprias operações de espionagem. Por exemplo, se uma operação secreta da CIA levasse a um ataque de represália contra cidadãos norte-americanos que não estavam cientes da iniciativa, isso era considerado umblowback. Mas hoje, muitas operações não são secretas (por exemplo o uso de drones no Paquistão ou no Iêmen). E os ataques de represália são muitas vezes assumidos publicamente. No entanto, alguns países parecem não deixar de se envolver em tais operações.
Precisamos de uma definição mais útil de blowback, para explicar como e por que eles estão ocorrendo em muitos lugares. Penso que o primeiro elemento é que os países envolvidos com operações desse tipo são, sim, poderosos – mas menos poderosos do que se acostumaram a ser. Quando estavam no ápice de seu poder, podiam desprezar os blowbacks, por serem desdobramentos limitados e não-intencionais. Mas agora que são menos poderosos, as consequências não são tão reduzidas. Ainda assim, parecem sentir necessidade de lançar tais operações com ainda mais força e ainda mais abertamente.
Vamos analisar dois casos famosos de blowback. Um deles envolve os Estados Unidos. Nos anos 80, Washington queria expulsar o exército da União Soviética do Afeganistão. Para isso, apoiou os mujahidin. Um dos líderes mais famosos dos grupos que os EUA apoiaram era Osama Bin Laden. Assim que as tropas soviéticas se retiraram, Osama Bin Laden criou a Al-Qaeda e voltou-se contra os Estados Unidos.
Um segundo caso diz respeito a Israel. Nos anos 70, Telaviv considerava Yasser Arafat e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) seus principais oponentes. Buscando enfraquecer a organização, financiou-se um braço palestino da Irmandade Muçulmana, conhecido como Hamas. O Hamas cresceu, e de fato enfraqueceu a OLP de alguma forma. Mas em certo ponto, tornou-se um oponente mais efetivo ao Estado israelense que a própria OLP havia sido.
Hoje, todos sabem desses acontecimentos. Outros, envolvendo Grã-Bretanha e França, também poderiam ser citados, e a lista de países que sofreram blowbacks é ainda maior. Então, pergunta-se: por que eles continuam agindo de forma que parece enfraquecer seus próprios objetivos? Fazem isso exatamente porque seu poder está declinando.
Precisamos enxergar o tema como uma questão de temporalidade nas políticas de Estado. Osblowbacks ocorrem quando as potências em declínio envolvem-se em ações que, a curto prazo, alcançam os objetivos imediatos; mas, a médio prazo, apressam ainda mais o declínio – portanto, a longo prazo, são derrotas auto-impostas. A decisão mais óbvia das potências declinantes seria não reiniciar o ciclo. As operações secretas já não funcionam para alcançar os objetivos do país a longo prazo.
Voltando aos exemplos: será que o presidente Obama e o primeiro-ministro Netanyahu não entendem as consequências do que fazem? E se entendem, por que continuam essas operações, até mesmo vangloriando-se delas? Na realidade, penso que os dois chefes de governo, e também os serviços de inteligência dos dois países, entendem a ineficácia das operações. Mas eles enfrentam dilemas imediatos.
Primeiro, eles são políticos, interessados em permanecer no poder. Ambos enfrentam, em seus países, forças para as quais suas políticas não são suficientemente agressivas. E nenhum confronta-se com movimentos políticos fortes que reivindiquem uma revisão radical das políticas nacionais. Em outras palavras, a extrema direita é, nos dois países, muito forte; e a esquerda, mesmo que moderada, é fraca. A razão de fundo para isso é que a opinião pública não aceita, em nenhum dos dois países, a realidade do declínio relativo de poder.
O que os líderes podem fazer é esconder – até certo ponto – que empurram os problemas com a barriga. Mas como as atividades de inteligência tornaram-se, na prática, muito mais transparentes, eles só podem fazer isso por algum tempo. Quando a possibilidade se esgota, eles passam a acreditar que, para se manterem no poder no curto prazo, devem conservar políticas que, conforme sabem, não vão dar certo a longo prazo.
Há outra razão. Obama ainda não desistiu de um sonho impossível – restaurar a posição de hegemonia inquestionada dos Estados Unidos. E Netanyahu não desistiu de outra quimera – um Estado judaico-israelense muito ampliado, abrangendo as fronteiras do antigo Mandato Britânico na Palestina. E se eles não desistirem desses sonhos, certamente não poderão ajudar os cidadãos a entenderem as novas realidades geopolíticas do sistema-mundo e a própria realidade de que o poder de seus países está em declínio.
Tradução: Daniela Frabasile
.

Coisas que os brancos apreciam: a 135ª intervenção humanitária



Por Marc Michael


Em geral entendo-me bem com brancos. Para começar, fui criado em país de brancos. Alguns dos meus melhores amigos são brancos. Na minha longa história de amizade com brancos, aprendi uma coisa: se você quer que seus amigos brancos continuem a ser seus amigos, é preciso seguir algumas regras sacrossantas, dentre as quais a principal é: não falar mal das coisas que os brancos apreciam. Para os que não estejam habituados a esse cânone, há na internet uma página bem útil, que leva exatamente esse nome: “Coisas que os brancos apreciam. Embora já tenham praticamente esgotado o conceito, em verbetes que cobrem questões variadíssimas, que vão das TED Conferences ao Campeonato de Frescobol e à gastronomia asiática Fusion, falta lá uma importantíssima questão, que, sim, é coisa que os brancos apreciam: intervenção militar humanitária. Aqui, tento remediar essa lamentável omissão.



Ao abordar amigos brancos em potencial, boa dica para quebrar o gelo é alguma frase curta sobre como resolver a crise du jour do Terceiro Mundo. Mas a intervenção militar humanitária, por mais que seja hobby exclusivo de brancos, também é questão espinhosa, difícil de manejar, porque implica conhecer a fundo todos os complexos códigos conversacionais, comparáveis às complexidades docroquet ou do bridge.

Na conversa que sempre se segue, evite manifestar qualquer dúvida clara sobre o valor ou as intenções da intervenção humanitária e de sua prima pobre, menos militarizada, a ajuda humanitária. “Intervenção” sempre é, pela própria natureza, nobre. Exclui necessariamente qualquer tipo de interesse financeiro ou geoestratégico. E mesmo que adiante, no processo, seja impossível não ver esses interesses, não comprometem nem deslegitimam a empreitada. São detalhes que ensinam que tudo sempre pode ser melhorado. Discordar disso, por pouca e superficial que seja a discordância, é o caminho mais curto para que seus amigos e conhecidos brancos ponham-se a falar mal de você pelas costas (teórico conspiracionista sem-noção); dependendo de o quanto você discorde, falam também na sua cara. Então, seja a favor de intervenção humanitária.

Diga você o que disser, a escolha da região do mundo que, em sua opinião, mais mereça intervenção humanitária, sempre revelará muito sobre o seu caráter. Por exemplo, se você recomendar intervenção humanitária na Palestina, mostrará personalidade com tendências tradicionalistas, limítrofe, quase orientalista. Mas se recomendar que se faça intervenção humanitária na Síria, você é do tipo mais Kosovo-intervencionista sensível. Nesse caso, você teme que se repita o massacre de Srebrenica. Por sua vez, se você manifestar preocupação com as crianças-soldados na África, estará dizendo aos brancos potencialmente seus amigos que você não só é extremamente devotado à felicidade dos condenados da Terra, mas, também, que é bem informado e sabe das coisas sobre partes do mundo que raramente aparecem no radar da empresa-imprensa de infoentretenimento.

Nessa confusão, os calouros aspirantes a amigos de brancos sempre erram numa coisa: apoiam indiscriminadamente todas as intervenções humanitárias, todas, sem diferença. Errado. É indispensável manifestar preferências, opinião, bom gosto, nessas questões sensíveis. Algumas intervenções são boas por questões geotopológicas, de terreno – por exemplo: planícies e desertos são bons cenários para intervenção humanitária, como na Líbia; a uniformidade étnica também, porque alta diversidade de etnias pode facilmente levar a guerra civil, como no Iraque; e os brancos são pacifistas. Qualquer outra linha de seleção de preferências a favor de intervenção humanitária criará problemas para seus amigos brancos, que descartarão suas preferências e você em pessoa, como sujeito sem serventia prática. Por exemplo: países ricos em petróleo, com governos que mantêm os interesses dos brancos sempre bem junto ao coração, como os Emirados Árabes Unidos ou a Arábia Saudita, absolutamente não são caso de intervenção humanitária; tampouco as colônias de colonizadores brancos contemporâneos, como Israel, onde o governo pensa que democracia seja modelo recém-inventado de arma de destruição em massa.

Com a “primavera árabe” no cardápio, o ápice do bom gosto branco sofisticado esse ano é introduzir na conversa a noção de “tipos de intervenção”. Embora para alguns o tópico exija trabalhosa pesquisa em blogs especializados e assinatura da revista The Economist, explicar com riqueza de detalhes o tipo de intervenção que pareça a você mais apropriado para cada contexto em torno do qual role o papo revela personalidade sutil, afinada com as nuances microscópicas da arte de matar não brancos, bem longe de casa. Os ataques devem ser preventivos? Ou o melhor será esperar que se acumulem certo número de cadáveres de inocentes oprimidos não brancos, antes de mandar para lá os Marines

Decidida a questão da tipologia, é preciso escolher entre (a) intervenções que visam a cercar defensivamente algumas áreas específicas de específico interesse para os brancos, e optar por ataques cirúrgicos que destroem a capacidade de fogo do inimigo, capacidade de fogo a qual algum governo branco e/ou empresa branca vendeu ao hoje inimigo, semana passada; e (b) intervenção militar física, direta, a qual, contudo, pode implicar que seu atual presidente não continue nem atual nem presidente eleito para segundo mandato. Há a alternativa, sim, de elogiar as virtudes pouco ortodoxas de sanções econômicas, as quais asseguram que crianças nativas morram morte digna, de fome, e tenham a privacidade perfeitamente preservada contra a superexposição na imprensa internacional.


Agora então, que você já incluiu com sucesso seus novos amigos brancos no Facebook, você começa a pensar que pode parar de falar sobre o significado de matar gente que você não conhece em terras sobre as quais sabe pouco – chamando o morticínio de “salvar” os carinhas. Errado.

Defender o seu voto e o político que você ajudou a eleger saiu de moda. Mas entraram em moda a intervenção no ciberespaço e a intervenção do ciberespaço nos jantares. O ativismo digital substituiu os bilhetes e os telefonemas, como arma preferencial, no arsenal disponível contra a injustiça global. Quase sempre se trata de ter assistido a vídeos militantes em YouTube e recomendá-los, para aprofundar a conscientização dos seus amigos e deputados e senadores brancos; mas muitos “gostei” (“curtir”) no Facebook valem praticamente a mesma coisa, na ciberguerrilha contra a consciência-zero.

Para os que se sintam um pouco limitados pela falta de alternativas, o ativismo digital afinal permite que os brancos ponham seu dinheiro onde põem os debates. Depois dos momentos “adote um órfão não branco faminto” e/ou “adote uma especiezinha ameaçada”, os e-revolucionários brancos veem ampliarem-se consideravelmente as suas perspectivas de justiça global, com o momento “adote um movimento revolucionário”.

Filha bastarda do compromisso de H. Clinton com os direitos humanos à comunicação e com o movimento “adote um monge tibetano”, a internet permite hoje que os cidadãos brancos conscientes do mundo ganhem amigos ou conhecidos – como presente de aniversário ou de Natal, por exemplo – e “adicionem” um ativista revolucionário sírio: basta oferecer-se para pagar, por exemplo, a conta telefônica do ativista, por um mês ou dois. Infelizmente já não é possível adotar “combatentes da liberdade” árabes, exceto no caso dos carcereiros da prisão da baía de Guantánamo.

Coisas que os brancos não apreciam muito 

Nenhum guia decente de etiqueta branca que trate de o que dizer sobre “intervenção humanitária” estará completo, se não mencionar a regra central, pétrea, absoluta, cuja violação põe em risco até as mais sinceras amizades brancas: nunca, never, em nenhum caso pergunte a um amigo branco por que a “intervenção humanitária” é hobby exclusiva e especificamente de brancos.

Essa pergunta é tabu. Pode levar à morte súbita de um, dois, três, quatro ou cinco mitos fundacionais: o mito do privilégio dos brancos, o mito do “sofrimento do colonizador”, o mito da supremacia dos brancos, o mito de que os brancos não são racistas e o mito de que nunca perdem a compostura branca.
Comprova-se facilmente, se você gosta de experimentos perigosos. Tente perguntar a amigo branco se ele consideraria inteligente recomendar ataque preventivo, pela ONU, cirúrgico, comdrones, contra as fábricas que produziam armas para os EUA, na primavera de 2003; para tentar evitar, por exemplo, que morressem um milhão de iraquianos, na guerra do Iraque. Não se surpreenda se seu amigo branco puser-se imediatamente a listar diferenças entre Bush e Saddam ou Gaddafi: Bush até talvez fosse meio dedo-nervoso no gatilho, mas jamais desceria a ponto de massacrar o próprio povo, o que só gerentões não brancos fazem. Questão de estilo. Nas democracias corporativas brancas ocidentais, governos provêm serviços (exceto eutanásia) ao próprio povo. Governo que mate manifestantes pacíficos do próprio povo é tão impossível quanto acionistas do Wal-Mart abrirem fogo de verdade contra fregueses, entrincheirados atrás do balcão de informações ou do setor de pães; seria absurdo em termos de marketing & Relações Públicas. Em liberalês, a língua que só os liberais brancos falam, o privilégio dos brancos implica necessariamente governo dotado de altos saberes de senso comum gerencial.

Há cerca de 12 anos, o Sul Global deu-se conta de que os brancos padecem de umplus de privilégio que os impede de ver com lucidez as próprias fraquezas. Por isso, emitiram Declaração assinada por 133 países, aproximadamente dois terços do globo e 100% do mundo não branco, em que gentilmente explicam que matar o próprio povo e lutar pela liderança política no próprio país são ações interpretadas em geral como política soberana, e que interferir nesse tipo de decisão não é exatamente o que se considera legal. Os brancos imediatamente esqueceram o lembrete.

O ministro francês de Relações Exteriores, Bernard Kouchner, por exemplo, lançou campanha em prol do “referendo putativo” [no Brasil, se diz mais frequentemente, “suposto”, que é sinônimo de “putativo” [1]: “suposto bandido”, “suposto ladrão”, “suposto kurrupto”, “suposta lei”, “suposto honesto”, “suposto ético”, mas nunca “suposto jornalista”, “suposto jornalismo”, “suposta fonte”, “suposta notícia” ou “suposto fato” (NTs)].

A intervenção humanitária passava a ser justa, se os brancos imaginassem os iraquianos a dizerem “sim” ao bombardeio-detonação do próprio país até ser convertido em amontoado de ruínas, num referendo apenas suposto, hipotético, jamais perguntado – cujo fundamento é o hino dos necrófilos: “Quem cala consente”. Assim ficou evidente que não se tratava propriamente de os brancos sentirem-se com algum “direito à intervenção humanitária”, o que seria uma modalidade de privilégio, mas, mais, de que se autoinvestiam num “dever de proteger” os pobres do mundo.

Esse desenlace nos devolve aos bons velhos tempos coloniais, quando o “dever de proteger”, “o peso sob o qual arca o colonizador branco” eram muito regularmente invocados para apoiar intervenções militares. Só não se entende por quê. Por que o peso sob o qual arca o colonizador branco é tão branco?

É sabedoria corrente no norte, que os brancos são geneticamente predispostos à empatia, à generosidade. Que cuidam melhor dos que oprimem. Não demora, e um cientista branco descobrirá que os brancos têm um gene que os capacita melhor para a solidariedade, para a compaixão pelos que sofrem, do que se lê todos os dias na primeira página do New York Times. Contra esse argumento genético, o melhor é tratar a coisa como fenômeno de fundamento histórico, uma especificidade cultural. O “dever de proteger” que incumbe aos de pele branca explica-se como se explica a “missão civilizatória” tão cara ao projeto colonial: os brancos governam melhor.

Essa forma de supremacia branca contemporânea sofre ligeira distorção na imaginação, o suficiente para que não se a entenda completamente, mas ainda assim é aproveitável como ferramenta de análise: governos brancos não massacram o próprio povo; as democracias (vale dizer: as políticas de brancos, por brancos, para brancos) não guerreiam entre elas.

O impecável silogismo segundo o qual os brancos fantasiam a própria supremacia e o peso que carregam às costas reza que os brancos têm um dever de proteger a vida, porque protegem melhor. De reservas naturais a protetorados, de zebras a tuaregues, de desastres ecológicos a poços de petróleo, a cantoria humanitária é sempre a mesma:

1) Todos os seres humanos têm igual direito à vida;
2) Governos brancos preservam melhor a vida;
3) Ergo, só os brancos merecem governar.

No frigir dos ovos, a intervenção humanitária estipula que há um direito humano à vida, e ninguém tem melhores atributos que os brancos para tomar conta da vida, essa preciosíssima mercadoria. Os brancos mantêm a vida viva por mais tempo.

A discussão não tem fim, porque, se se aceita que os brancos são naturalmente mais bem dotados para fazer o management da vida; e que a soberania dos estados-nação nada vale, se se trata de salvar vidas... não há qualquer imperativo moral que obrigue a resistir contra a volta da administração colonial sobre os interesses dos nativos. Afinal de contas, as estatísticas estão aí, a demonstrar sem sombra de dúvida que governos brancos cuidam muito melhor da vida dos respectivos cidadãos brancos – e daí, portanto, que tenham de assumir o dever de cuidar, logo, de vez, do resto dos cidadãos do resto do mundo.

O tabu que cerca essa questão – e razão pela qual você não pode perguntar a amigo branco por que a intervenção humanitária é hobby branco e de brancos – resulta desse fato tantas vezes encoberto: só as guerras e as intervenções humanitárias tocam bem fundo nas gozosas raízes dos sentimentos suprematistas dos brancos.

Soldados do Exército de Resistência de Deus
Conclusão: O que fazer?

Assim sendo, pois: você deseja salvar o mundo e ter amigos brancos, mas sabe que assistir a vídeos de YouTube e participar de quermesses de venda de bolo para fazer finanças para comprar armas para o governo de Uganda em luta contra o Exército da Resistência de Deus  [orig. Lord's Resistance Army (LRA)] não bastará.
Você teme Deus e teme guerras, e já começa a desconfiar de que seu governo está mais interessado em resgatar banqueiros que fábricas de armas. Você deseja participar e promover justiça para todos, mas você não é branco perfeito, branco puro. E, mais importante, você já está de saco totalmente cheio de envolver-se apaixonadamente em invasões de países (qualquer um) árabes, tanto quanto já morre de tédio ao ver seu time favorito vencer mais um jogo decisivo do campeonato universal de futebol americano.

Temos então a solução perfeita para o seu caso: seja você mesmo a mudança. Passe a mão numa metralhadora e embarque para a Síria. Você consegue. Você estará arriscando a própria vida por ideais nos quais você não sabe se acredita muito. Mas... pense pelo lado bom. Você será a matéria-prima que os brancos mais apreciam: sem braços nem pernas. E livre. 


Notas de rodapé
*Marc Michael é sociólogo e vive no Cairo. Está concluindo sua tese de PhD na Universidade de Cambridge. Escreve sobre saúde pública, finanças, direito, política internacional e desenvolvimento

[1] Putativo. Adj. Acepções: 1) falsamente ou erradamente atribuído a (alguém ou algo); supositício, suposto (Ex.: filho putativo). 2) Rubrica: termo jurídico. Diz-se daquilo que, embora ilegítimo, é objeto de suposição de legitimidade, fundada na boa-fé (ou não) (Ex.: casamento putativo).

Traduzido pela Vila Vudu
.