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Obrigado, Rachel!
Morreu Rachel Clemens, a garotinha da foto acima que virou símbolo da luta contra a ditadura militar.
Na época da foto, ela tinha apenas cinco anos de idade: Rachel se recusou a cumprimentar o presidente-ditador general João Baptista Figueiredo, em sua visita a Belo Horizonte, em 1979.
A cena, registrada pelo fotógrafo Guinaldo Nicolaevsky foi publicada por vários jornais e revistas no Brasil e no exterior, convertendo-se em uma imagem símbolo da resistência a ditadura.
Rachel teve morte súbita no último sábado (12/04), depois de uma parada cardíaca. Estava com 41 anos.
Seu ato silencioso, espontâneo e sincero embalou a imaginação de muitos, cansados de um regime autoritário que teimava em não acabar. Rachel sem intenção, fez História e produziu um dos momentos mais belos e marcantes da luta contra a ditadura.
Em razão disso, fica nosso registro e agradecimento: Obrigado, Rachel!
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Sobre o fim da Justiça Militar
Por Erick da Silva
Se muitos foram os avanços democráticos que o Brasil conseguiu construir nestas últimas décadas, também são muitos os impasses e desafios que seguem sem encontrar uma resolução. No campo da justiça, seguramente, temos um longo caminho ainda inconcluso para ser trilhado. Recentemente o país recebeu o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), um marco histórico que repõe a verdade sobre fatos que oficialmente o Estado negava-se a reconhecer sua responsabilidade ou mesmo esclarecer a respeito dos crimes praticados pelo Estado durante a ditadura inaugurada em 1964.
Além de trazer luzes sobre muitos destes crimes cometidos pela ditadura, o CNV traz também uma série de recomendações que, se realizadas em conjunto, consistiriam uma das maiores reformas na área de segurança pública ocorridas na história do Brasil. A CNV ecoa sugestões feitas anteriormente por outros organismos internacionais, e sugere alterar estruturas remanescente do período militar que nem o processo de redemocratização se propôs a realizar.
Entre as 29 recomendações do documento, oito delas são diretamente relacionadas à segurança pública: a desmilitarização da Polícia Militar; a reforma curricular nas academias de polícia; o fim dos autos de resistência; a desvinculação do Instituto Médico Legal (IML) das secretarias de segurança pública e da estrutura policial; a ampliação da Defensoria Pública; a extinção da Justiça Militar estadual; a exclusão de civis da jurisdição da Justiça Militar federal; o fim da Lei de Segurança Nacional, de 1983.
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12/23/2014
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Infância roubada: as crianças vitimas da ditadura brasileira
Uma das faces menos conhecidas na Ditadura instalada no Brasil pós-1964 é seus efeitos junto aos filhos de militantes de esquerda. O fato de serem crianças, para o regime, não lhes eximia de uma possível culpa ou "ameaça a segurança nacional". A foto acima vemos crianças filhas de perseguidos pela ditadura militar no Brasil fichadas pelo Dops.
Documentário: Memória Para Uso Diário
Memória Para Uso Diário é um filme que documenta a luta do grupo Tortura Nunca Mais a partir de pessoas comuns que, apesar das memórias traumáticas, fazem questão de lembrar e de fazer com que suas histórias não sejam esquecidas.
Ivanilda, cuja história é acompanhada ao longo de todo o filme, busca evidências para a prisão de seu marido pelo governo brasileiro. Ele está desaparecido desde 1975.
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7/14/2014
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Salário mínimo na ditadura e hoje
Por João Sicsú
Ele é um vetor de enorme importância para a sociedade brasileira. Quando é reduzido, promove degradação distributiva e desigualdade social
O salário mínimo foi instituído por Getúlio Vargas em 1940. A cada 1º de maio é comemorado o dia do trabalhador e também o dia do salário mínimo. Há 74 anos, em discurso na cidade do Rio de Janeiro, o presidente anunciou: “...assinamos hoje um ato de incalculável alcance social e econômico: a lei que fixa o salário mínimo para todo o país”.
Desde a sua criação até o golpe de 1964, três presidentes defenderam o valor real do salário mínimo: Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart. Neste período, Eurico Gaspar Dutra, que governou o Brasil de 1946 a 1951, foi o grande adversário do salário mínimo, deixando o seu valor ser corroído pela inflação. No governo de Gaspar Dutra, não foi concedido qualquer reajuste ao salário mínimo, que perdeu 40% do seu valor real.
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4/30/2014
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Emir Sader: A esquerda e a ditadura
Por Emir Sader
O golpe militar foi um choque muito maior do que o esperado, mesmo pelos que anunciavam que o governo do Jango seria interrompido por uma ação golpista dos militares. Era uma geração que não conhecia praticamente ditadura, salvo alguns comunistas remanescentes do período getulista, que mesmo assim teve um caráter diferente.
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4/02/2014
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Ditadura: Teoria dos dois demônios é apenas farsa histórica
Por Breno Altman
O cinquentenário do golpe militar traz à baila narrativa que a direita gloriosamente fabrica para enquadrar o episódio. Núcleo fundamental do teorema: os militares romperam a Constituição e tomaram o poder, com amplo apoio da burguesia brasileira, para se anteciparem a supostos planos golpistas de João Goulart e seus aliados.
Setores mais lúcidos e malandros do conservadorismo (entre os quais, obviamente, não estão correntes abertamente fascistas) até reconhecem crimes e atropelos da ditadura. Mas a alternativa fardada é apresentada como um demônio que a outro se contrapunha.
Cidadão Boilesen
Documentário de 2009, dirigido por Chaim Litewski, Cidadão Boilesen, através de diversos depoimentos, o documentário revela as ligações de Henning Albert Boilesen (1916-1971), presidente do famoso grupo Ultra, da Ultragaz, com a ditadura militar. Seu apoio financeiro, assim como de muitos outros empresários, ao movimento de repressão violenta e também a sua participação na criação da temível Oban – Operação Bandeirante, espécie de pedra fundamental do Doi-Codi. Expõe uma faceta, por vezes negligenciada, da brutal história recente brasileira.
Assista abaixo o documentário na íntegra:
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3/31/2014
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Lousa, giz e chumbo: O legado do golpe no conceito de ensino
Subfinanciamento da escola pública e privatização do setor estão entre os principais legados das políticas educacionais da ditadura.
Por Cida de Oliveira e Sarah Fernandes
Em meio a um emaranhado de fusões de escolas e concentração de conglomerados universitários, o ensino superior privado brasileiro segue de vento em popa. Um levantamento da consultoria Hoper Educação, com base em dados de 2013, constatou crescimento de faturamento de 30% entre 2011 e 2013, de R$ 24,7 bilhões para R$ 32 bilhões. Conforme a consultoria, estão matriculados hoje no ensino superior privado 5 milhões de alunos.
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3/27/2014
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Ditadura Militar e a questão indígena: cadeias com trabalhos forçados e torturas
Uma das faces esquecidas dos anos de ditadura civil-militar no Brasil pós-1964 foi a sistemática perseguição do regime aos povos indígenas. Acusações de vadiagem, consumo de álcool e pederastia eram usadas com pretexto para jogarem índios em prisões durante o regime militar; até mesmo cadeias para índios com trabalhos forçados foram criadas. Sem contar o treinamento de índios soldados para reprimir o seu próprio povo. Como pano de fundo, a disputa pela terra e uma visão de desenvolvimento nacional, onde não havia espaço para os índios. A Agência Pública nos traz no vídeo abaixo um importante registro destes crimes perpetrados pelo estado brasileiro durante o período ditatorial. Longe de serem fatos isolados, eram uma prática sistemática. É dever do estado e da sociedade reconhecê-los como presos políticos.
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3/20/2014
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Sete lições sobre o golpe de 1964 e sua ditadura
Por Antonio Lassance
Há 50 anos, o Brasil foi capturado pela mais longa, mais cruel e mais tacanha ditadura de sua história.
Meio século é mais que suficiente tanto para aprendermos quanto para esquecermos muitas coisas.
É preciso escolher de que lado estamos diante dessas duas opções.
Cachaça de derrubar general
Uma rica história da esquerda no período da redemocratização, pescado do blog do Paulo Markun, que exemplifica formas alternativas (e festivas) que a esquerda se valia na resistência a ditadura militar.
Na campanha das diretas, Elenara Vitoria Cariboni e seus companheiros resolveram produzir uma cachaça especial. Ela diz que sobrou só um rótulo e relembra essa historinha:
Caro Markun
te mandei por tuiter o rótulo da Cachaça das Diretas, aquela que derruba general, alto teor de combatividade, amadurecida na lutas… é realmente um prazer falar sobre isso, pois fazíamos parte de uma organização clandestina da 4ª internacional, a Democracia e Socialismo, mas éramos um pouco descentralizados do centralismo democrático, hehehe… quer dizer, fazíamos coisas tipo extra-classe, e a cachaça foi uma dessas funções… compramos toneis de cachaça, se não me engano de algum lugar em canoas/rs, levamos para dentro da sede do jornal em tempo, e passamos umas duas noites engarrafando e rotulando… o rotulo da cachaça foi feito em serigrafia, o mago das artes visuais, o saudoso Helinho Torres, é o criador da nossa ideia coletiva… rotulamos e engarrafamos, ou seja, a cachaça das diretas foi feita por nossas mãos… no dia do comicio, ainda tínhamos um tonel de cachaça na sede do jornal, mas a demanda foi tão absurda que tivemos que levar o tonel pra esquina democratica e seguir nossa linha de produção ali mesmo na esquina democratica… maior sucesso… cachaça da boa, ardia na goela, hehehehe… bem, posso contar mais em detalhes, mas daí vou encontrar os que ainda existem, pois dois já faleceram, Helinho e Marco Amaral, eramos cinco no total, coisa de filosofia punk, faça você mesmo, qdo a gente sente que a boa ideia pode deixar alguns contrariados, hehehehe. besos
Almas penadas da ditadura
Por Leandro Fortes
Na sessão de devolução simbólica do mandato presidencial de João Goulart, realizada ontem no Congresso Nacional, um episódio lamentável foi registrado por todos, embora o assunto tenha sido deixado de lado para não ofuscar o brilho do evento.
Na hora em que o presidente do Congresso, senador Renan Calheiros, entregou o diploma a João Vicente, filho de Jango, todos aplaudiram, à exceção de três convidados e um deputado.
Os três convidados eram os comandantes das Forças Armadas do Brasil. Por antiguidade: almirante Julio Soares de Moura Neto, da Marinha; general Enzo Peri, do Exército; e brigadeiro Juniti Saito, da Aeronáutica.
O deputado, claro, era Jair Bolsonaro, essa patética figura que, a cada eleição, as viúvas da ditadura militar mandam para a Câmara.
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12/19/2013
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Globo assume que apoiou Golpe de 1964: de que serve a culpa sem responsabilidade?
Por Erick da Silva
Globo assumiu publicamente que apoiou Golpe de 1964. O editorial publicado no jornal "O Globo" no sábado (31/08). No texto, a empresa da família Marinho aponta o apoio ao golpe – noticiado pelo Globo, em 1964, como "a restauração da democracia" – como um "erro". Um "incômodo para o jornal".
Não deixa de ser relevante o fato do jornal publicar um editorial que reconhece seu "apoio editorial" ao golpe de 1964. Esse reconhecimento tardio, não se dá devido a alguma "crise de consciência" pelo fato ocorrido a quase 50 anos atrás e que "a luz da História" precisa ser resgatado. Os reais motivos são outros e os objetivos nada tem haver com justiça e reparação histórica.
A Globo sentiu a força dos protestos nas ruas e inicia uma ofensiva canhestra para tentar "limpar a sua barra". Dizer que a Globo fez um "mea culpa" é um exagero, o que ela faz é reconhecer um fato: a sua profunda crise de legitimidade. Como ela mesmo aponta ao iniciar em seu editorial que: "desde as manifestações de junho, um coro voltou às ruas: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura".
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9/01/2013
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Parentes de vítimas criticam Comissão da Verdade
Ex-companheira do jornalista Luiz Eduardo Merlino, morto nos porões do DOI-Codi em 1971, diz que condução de depoimento de Ustra pelo colegiado é 'inaceitável'. Coordenadora concorda com observações
A ex-companheira do jornalista Luiz Eduardo Merlino, morto nos porões do DOI-Codi, Angela Maria Mendes de Almeida, disse na tarde de hoje, em audiência da Comissão da Verdade Rubens Paiva, na Assembleia Legislativa de São Paulo, ser “inaceitável” a maneira como foi feita a oitiva da Comissão Nacional da Verdade que colheu o depoimento do coronel da reserva Carlos Alberto Brilhante Ustra, em maio passado. “Naquela audiência, não foi convidado ninguém torturado pelo Brilhante Ustra. Só o vereador (de São Paulo) Gilberto Natalini (PV), que foi mas sem ser convidado.”
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8/19/2013
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A Guerrilha de Caparaó
Não mais de vinte homens, quase todos ex-militares, formaram a Guerrilha de Caparaó, ocorrida entre fins de 1966 e início de 1967, provavelmente o primeiro movimento no país de resistência armada à ditadura.
Dois anos depois do golpe de 1964, apoiados por Leonel Brizola, então exilado no Uruguai, tentaram estabelecer um foco na serra do Caparaó, na divisa entre Espírito Santo e Minas Gerais. Uma tentativa de recriar, no Brasil, uma Sierra Maestra, uma guerrilha como a cubana, que a partir de um pequeno grupo bem articulado promoveu uma revolução.
Caparaó seria a primeira guerrilha do Brasil, mas uma série de fatos transformou numa das mais frustrantes tentativas da nossa história.
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7/24/2013
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L.F. Veríssimo: Os cães de guerra
Por L.F. Veríssimo
A Convenção de Genebra pode ser vista como um monumento à hipocrisia. Ela propõe regras para a barbárie e infere que o que Shakespeare chamou de “os cães da guerra”, uma vez soltos, podem ser controlados.
E que guerras podem ser cavalheirescas, desde que regulamentadas. Um conceito que por pouco não morreu na II Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, as convenções de Genebra, desde a primeira, no século 19, tentam preservar o que, numa guerra, nos distingue de cachorros raivosos. No caso, a hipocrisia é necessária. É outro nome para civilização.
Uma das regras explícitas na atual Convenção de Genebra diz respeito ao tratamento de prisioneiros. O argumento principal de quem defende a repressão e seus excessos durante a ditadura militar no Brasil é que se tratava de uma guerra aberta entre o regime e seus contestadores armados, que sabiam no que estavam se metendo.
Só aos poucos estamos conhecendo as atrocidades cometidas na luta contra a guerrilha no Araguaia, da qual a maioria não sobreviveu e nem seus corpos foram encontrados. Mas, quanto ao que aconteceu nas salas de tortura da repressão, não existem dúvidas ou apenas suposições, está vivo na memória dos torturados e suas famílias.
Foi quando os cães sem controle da guerra estraçalharam o que poderia haver de simples humanidade no tratamento de prisioneiros, ou o simples respeito a regras convencionadas por um Estado civilizado.
Se a discussão entre os que sustentam que salvaram o Brasil com seus excessos e os que querem que o Brasil conheça a verdade enterrada sem lápide daqueles tempos parece um diálogo de surdos, o grande mudo desta história toda é a instituição militar, que nunca fez uma autocrítica consequente, nunca desarquivou voluntariamente seus arquivos ou colaborou nas investigações sobre o passado, o dela e o nosso, para evitar a cobrança atual.
E o que foi feito não era inevitável. Na Itália, por exemplo, na mesma época, o governo enfrentou uma violenta contestação armada sem sacrificar um direito civil, ameaçar uma instituição democrática ou recorrer ao seu próprio terror. Sem, enfim, soltar os cachorros.
A diferença, claro, é que lá era um governo legítimo.
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6/25/2013
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Luis Fernando Verissimo
WikiLeaks lança biblioteca de documentos diplomáticos
Site disponibiliza 2 milhões de documentos dos EUA sobre geopolítica global, incluindo a ditadura brasileira
Por Natalia Viana
“Espero não ler essa conversa daqui a 25 anos na mídia”, disse o ex-secretário-geral do Itamaraty Jorge de Carvalho e Silva, a um diplomata americano no começo de 1973, em plena ditadura militar. Carvalho e Silva estava reclamando da política americana de liberação de documentos oficiais, quase 40 anos antes da Lei de Acesso à Informação brasileira ser aprovada. O tema da desclassificação de documentos era “muito sensível” para a ditadura brasileira, relatou o então embaixador americano John Crimmins em um despacho diplomático no qual comentava o diálogo. Segundo Crimmins, o Itamaraty e o Conselho de Segurança Nacional haviam decidido que documentos secretos do Brasil só deveriam ser liberados após 50 anos, e ainda assim, os pedidos seriam analisados “caso a caso”.
Carvalho e Silva não podia imaginar que, quatro décadas depois, não apenas sua conversa poderia ser publicada pela mídia, mas estaria disponível para 2 bilhões de usuários da internet pelo mundo. O relato em questão pode ser facilmente acessado através do projeto PlusD, Biblioteca de Documentos Diplomáticos dos EUA, lançado pelo WikiLeaks em parceria com 18 veículos internacionais, incluindo as agências de notícias AP e AFP e os jornais La Repubblica, da Itália, La Jornada, do México, Página 12, da Argentina – e a Agência Pública, no Brasil.
Pela primeira vez, a organização de Julian Assange traz não um vazamento, mas uma nova maneira de buscar documentos que já estavam em domínio público. O PlusD agrega 1,7 milhão de documentos diplomáticos de 1973 a 1976 – quando Henry Kissinger dirigia a política externa americana – e 250 mil de 2003 a 2010, constantes no vazamento mais famoso da organização, oCablegate. ”Não se pode confiar no governo americano para registrar a história das suas interações no mundo. Ainda bem que uma organização com tradição de resistir à censura agora tem uma cópia dos arquivos”, diz Julian Assange, fundador do WikiLeaks.
Os documentos da era Kissinger constantes no PlusD foram desclassificados e colocados online pelo National Archives and Records Administration (NARA), o arquivo nacional americano, a partir de 2006, após passarem por uma detalhada revisão do Departamento de Estado e do próprio National Archives. Cerca de 320 mil são documentos originalmente classificados – cerca de 250 mil confidenciais e 70 mil, secretos.
Dentre 1,7 milhão de documentos, mais de 300 mil estão em formato microfilme na sede do National Archives em Washington (não disponíveis no site); e há entre eles 250 mil “cartões de retenção”, indicando os documentos que não foram liberados para desclassificação por serem, ainda hoje, considerados sensíveis para os EUA.
Para o Brasil, o novo projeto do WikiLeaks tem especial importância. Embora parte dos documentos já tenha sido publicada pela imprensa brasileira, o arquivo completo expõe em detalhe as ações de Kissinger em relação à ditadura brasileira entre 1973 e 1976 – em especial, durante o governo do general Ernesto Geisel. Até agora não se sabia a real dimensão deste arquivo. São mais de 8.500 documentos enviados pelo Departamento de Estado dos EUA para o Brasil e mais de 13.200 documentos enviados da embaixada americanas em Brasília e consulados a Washington – mais de 1.400 são confidenciais, e mais de 115 secretos.
Dezenas de despachos mostram que a missão americana acompanhava de perto os relatos de tortura e de censura à imprensa. Também há dezenas de registros de treinamentos policias e militares, sempre encorajados pelo próprio Crimmins e por Henry Kissinger, que primava por ter uma relação próxima com o Brasil – em especial nos temas hemisféricos, como o embargo a Cuba. Também há detalhes sobre como a embaixada lidou com a prisão e tortura de dois cidadãos americanos, o ex-deputado estadual Paulo Stuart Wright, que tinha dupla cidadania, e o missionário Frederick Morris.
Facilitando a liberação de novos documentos americanos
“Esses documentos são difíceis de acessar, então, na verdade, ainda estão envoltos em uma cortina de segredo”, explica o porta-voz do WikiLeaks, Kristinn Hrafnsson. “Eles também dão uma visão geral do que ainda está escondido”. O PlusD traduz na prática premissas defendidas pelos ativistas de dados governamentais abertos – em suma, que as informações devem ser disponibilizadas a todos, de maneira aberta, não proprietária e em formato facilmente pesquisável e manuseável na web. “Isso deveria ser trabalho dos governos, mas eles têm tendência de fazer o oposto”, diz.
Segundo a equipe do WikiLeaks, além dos documentos do National Archives estarem disponíveis em arquivos de PDFs isolados – de difícil busca e manuseio – havia imperfeições técnicas que dificultavam a busca por um público amplo. No site do NARA, grafias diferentes para as mesmas palavras levavam a erros na busca. Kissinger, por exemplo, estava escrito de 10 formas diferentes.
A equipe do WikiLeaks realizou uma “engenharia reversa” de todos os PDFs, além de uma análise de campos individuais, através de programas desenvolvidos para lidar com o grande volume de dados e corrigir os erros. “É uma expansão do Cablegate. O projeto mostra que o WikiLeaks aprimorou sua capacidade técnica para processar e apresentar ao público grandes bases de dados”, explica o porta-voz.
O PlusD permite busca em formato de texto, permitindo uma maior variedade de campos de pesquisa, como por tipo de documento (despachos diplomáticos, memorandos, relatórios de inteligência), agência que o produziu, classificação original e tamanho do texto. Os telegramas contêm links para todas as outras comunicações que fazem parte da correspondência. O Plus D também está aberto para pessoas que possuem documentos diplomáticos dos EUA e queiram incorporar a essa biblioteca, através do email plusd@wikileaks.org.
“Esses documentos cobrem um período muito turbulento da história contemporânea – em especial em países que sofreram com ditaduras diretamente apoiadas ou endossadas pelos EUA, como na América Latina. É importante que esses países tenham um acesso rápido e fácil para todas as informações relevantes na busca de entender o que acontecer”, diz Kristinn. “O WikiLeaks quer ver isso acontecer no Brasil e em outros países”.
No Brasil
Um dos principais objetivos do PlusD é facilitar os pedidos pela Lei de Acesso à Informação americana para liberar documentos que ainda são mantidos em segredo, o que pode ser feito através das informações nos milhares de “cartões de retenção” constantes no site.
Entre os documentos da embaixada no Brasil ainda não liberados – o total é de 2.108 – que podem ser úteis à Comissão da Verdade estão, por exemplo, um telegrama secreto de Brasília, de 26 de abril de 1973, intitulado “Aumento em prisões relacionadas a subversão e alegações de tortura”; outro, do consulado do Rio de Janeiro de 15 de dezembro de 1976 intitulado “Terrorismo da direita: acontecimentos relativos à aliança anti-comunista no Brasil”, de 15 de dezembro de 1976; e outro, do consulado de São Paulo de 6 de agosto de 1975, chamado “Mortes e desaparecimentos de extremistas chilenos”.
Os documentos já liberados sobre o Brasil traçam uma detalhada narrativa histórica das relações bilaterais. Há por exemplo dezenas de trocas de correspondência entre Henry Kissinger e o ministro do exterior Azeredo da Silveira, além de relatos de conversas com altos membros do governo militar, como o ministro da Justiça Armando Falcão, jornalistas e religiosos como o Cardeal de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns.
O público pode ver na íntegra o documento que relata as ameaças recebidas pelo adido político do consulado dos EUA em São Paulo Claris Halliwell, que costumava frequentar a sede do Departamento de Ordem Política e Social entre 1971 e 1973. Halliwell era identificado como “cônsul”, segundo o registro de visitas do DOPS e chegou a ir ao prédio no Largo General Osório – onde ocorriam torturas – duas vezes por mês. A ligação foi feita por um anônimo com sotaque paulista, segundo um telegrama de 26 de outubro de 1973, que disse: “se você não parar de nos atacar, nós vamos tomar medidas contra você”. A Comissão Estadual da Verdade de São Paulo pediu ao Itamaraty que interceda junto aos EUA para pedir mais informações sobre Halliwell.
Outros documentos são particularmente intrigantes, como um breve e ríspido despacho confidencial enviado pelo embaixador americano durante o período, John Crimmins, ao Departamento de Estado em 22 de dezembro de 1976, com o aviso “não distribuir”, no qual ele afirma que “um oficial da embaixada viu Vernon Walters no estacionamento do Ministério do Exterior ontem”. Segundo Crimmins, “o oficial conhece Walters bem e não há absolutamente nenhuma dúvida da sua cabeça de que a pessoa que ele viu foi Walters”. Indignado, o ex-embaixador pergunta a Kissinger: “Walters não deu a conhecer sua presença à embaixada. Qual é o propósito da sua visita?”.
Vernon Walters, que foi adido militar da embaixada brasileira entre 1962 e 1967 – em pleno golpe militar – acabava de deixar o cargo de vice-diretor da CIA, que ocupou de maio de 1972 a julho de 1976. Não há nenhum registro oficial de sua visita ao Brasil em dezembro daquele ano.
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ERick
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4/08/2013
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