Ao tempo do camarada Nikita




Por Flávio Aguiar


Depois da “Nota de Março” de 1952, do camarada Koba, a reunificação da Alemanha voltaria a ser assunto de proa – igualmente secreto – ao tempo do camarada Nikita Krushchev como chefe de governo soviético. Mas a iniciativa não partiria dele, embora haja indícios de que ele possivelmente tenha sabido dela e tenha inclusive encorajado políticas e propostas do seu mentor. Este era o chanceler alemão Ludwig Erhard, que ocupou o posto de 1963 a 1966, sucedendo a Konrad Adenauer, que caíra do poder depois de um escândalo envolvendo um de seus ministros e conhecido como o “caso Spiegel” algum tempo antes. Neste caso, jornalistas da revista alemã foram presos, acusados de “traição”, escritórios dela foram invadidos e documentos confiscados, numa série de atos que foram declarados atentados à liberdade de imprensa e ilegais pelas cortes alemãs. Adenauer não estava implicado no “caso”, mas sua sustentação inicial ao ministro envolvido, da Defesa, Franz Josef Strauss, custou-lhe perda de prestígio e ao fim e ao cabo, o cargo.

Contra sua vontade, Adenauer entregou o cargo de chanceler a Erhard, que fora seu ministro da Economia. Uma das discordâncias entre Adenauer e Ehrard estava no modo de tratar a União Soviética e a Alemanha Oriental. Adenauer era mais duro, privilegiando a integração da Alemanha Federal ao Ocidente em todos os sentidos, político e militar, ao invés de promover uma aproximação com o Leste. Erhard depois seria descrito pelo então embaixador norte-americano George McGhee como alguém que privilegiava visões econômicas, ao invés de políticas em todos os campos, inclusive na Guerra Fria.

Documentos secretos da CIA e do Departamento de Estado norte-americano, recentemente revelados (ver Spiegel International, 04/10/2011, “Former German Chancellor Considered Buying East Germany”; além disso os documentos estão disponíveis no site do Departamento de Estado norte-americano
e seguintes, sob o título “The Berlin Crisis 1962 – 1963”) confirmaram amplamente a existência de uma proposta de Ehrard no sentido de “comprar” a reunificação alemã dos soviéticos por algo em torno de 25 bilhões de dólares, além de outros benefícios.

Na Alemanha, poucas souberam do plano de Ehrard. Entre elas estavam seu chefe de Pessoal e confidente, Ludger Westrick, o futuro chanceler Willy Brandt (do SPD) e o embaixador McGhee. Este, no entanto, fez detalhados relatórios sobre a idéia já desde o tempo em que Erhard era ministro da Economia, a partir de suas conversas pessoais com ele.

Na avaliação de Ehrard (de passagem: apontado como o grande responsável pelo “milagre alemão” no pós-guerra), a União Soviética enfrentava dois grandes problemas naquele tempo: desenvolver uma Guerra Fria em duas frentes, contra os Estados Unidos e contra uma China Comunista progressivamente hostil, e problemas econômicos graves, com o esgotamento de suas reservas em ouro e dificuldades crescentes para obter empréstimos no mercado internacional. Isso poderia ser usado como instrumento de barganha com Krushchev, achava ele, sendo melhor barganhar do que confrontar.

McGhee achava a proposta “mal cozida” e “ingênua”, mas, ao que tudo indica, ela progrediu, ao ponto dele ter trocado idéias com Kennedy sobre o assunto.

A base de sua proposta era garantir um empréstimo à União Soviética no valor de 25 bilhões de dólares. Na prática, esse empréstimo jamais seria pago. Além disso, a Alemanha Ocidental ajudaria a industrialização da Sibéria, com a transferência de equipamentos e tecnologia, e garantiria empréstimos anuais para a Alemanha Oriental de 2,5 bilhões de dólares durante dez anos, depois da reunificação.

Não se sabe (ainda pelo menos) o quanto Nikita Krushchev sabia dessa proposta. É possível e até provável que algo soubesse ou pelo menos farejasse. Em todo caso, é certo que ele, secretamente, apoiava e estimulava essa política de “distensão” entre Oeste e Leste formulada pelo menos teoricamente por Ehrard.

Analistas do Departamento de Estado norte-americano levantaram toda a sorte de objeções, no entanto, afirmando (talvez sem conhecimento de causa, ou ainda, com conhecimento de causa, para sabotar a tentativa) que Krushchev jamais consideraria uma proposta que não fosse global, envolvendo a desnuclearização da Alemanha e a retirada das tropas estrangeiras. Por isso, insistiam, a proposta tinha de ser levada também à consideração da França e da Grã-Bretanha antes de ser levada aos soviéticos e a Alemanha Oriental.

No fundo, Ehrard temia que os norte-americanos e os soviéticos chegassem a um acordo que mantivesse eternamente o status quo da divisão alemã. Na prática, foi o que aconteceu no curto prazo, ainda que não eternamente.

Muita coisa mudou em pouco tempo, “desativando” a idéia de Ehrard. Kennedy foi assassinado e substituído por Lyndon Johnson. Ehrard, que assistiu ao funeral do presidente assassinado em novembro de 1963, visitou Johnson no ano seguinte, sendo recebido, aliás, com o primeiro churrasco (barbecue) presidencial para um visitante de Estado na história dos Estados Unidos. Mas ele encontrou um Lyndon Johnson muito mais preocupado com a sua próxima reeleição e com a escalada da guerra no Vietnã do que com a reunificação da Alemanha.

Na União Soviética, Krushchev caiu em 1964, sendo substituído pela dupla Brezhnev/Kossygin, que não tinha a largueza de vista nem a coragem política do camarada Nikita.

Ele próprio, Erhard, deixou a chancelaria em 1966, em meio a uma crise de sua coligação (ele era, como Adenauer, da União Democrata Cristã) com o FDP. Sucedeu-lhe uma coligação entre a CDU e o SPD, que abriu caminho para Willy Brandt chegar à chancelaria em 1969, pondo fim à linhagem ininterrupta de chanceleres da CDU desde a criação da Alemanha Ocidental.
Willy Brandt continuaria uma linha de distensão com o Leste europeu, sendo famoso seu gesto de se ajoelhar no Gueto de Varsóvia e pedir perdão pelos crimes de guerra dos nazistas.

Mas a idéia de Ehrard já fora engavetada para a História.

O preço também: quando as tropas soviéticas deixaram Berlim e a Alemanha Oriental depois da queda do muro, em 1989, a Alemanha pagou à agonizante URSS 15 bilhões de dólares. Houve, portanto, uma economia de 10 bilhões de dólares. É possível que Ehrard, se estivesse vivo, aprovasse a redução do custo.

Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.
.

Nenhum comentário: