O espírito da Marselhesa


Flávio Aguiar

Produzido em 1942, o filme Casablanca, com Humphrey Bogart, Ingrid Bergman e mais grande elenco, dirigido por Michael Curtiz, estréia no Brasil no ano seguinte, em 1943. O Brasil já declarara guerra ao Eixo. No filme, um refugiado tcheco (Victor Lazlo) com a mulher (Ilse Lund) se refugia em Casablanca, no Marrocos, então colônia francesa. Lá Ilse encontra Rick, soldado da fortuna encalhado num café, o Rick's, o mais importante da cidade. Rick e Ilse tinham se enamorado em Paris, quando ela, fugitiva, pensava que Victor fora assassinado na tortura pelos nazistas. Mas no momento em que ambos decidem fugir da França ocupada, Ilse descobre que Victor está vivo, e fica com ele. Rick, sem saber o que está acontecendo, foge amargurado, na companhia do fiel pianista Sam: ele lutara na Guerra Civil Espanhola, e seria morto pelos nazistas, prestes a tomar Paris. Casablanca está sob o governo de Vichy, os nazistas estão em toda a parte. Victor quer fugir para a América, Ilse redescobre sua paixão por Rick, Rick termina por redescobri-la também, enfim, para quem viu, um melodrama inesquecível, para quem não viu, o convite para que corra à loja mais próxima e compre, não alugue, o seu DVD.


Há uma cena antológica, entre as muitas do filme, que quero recordar aqui: no café de Rick encontram-se oficiais nazistas, o dono, Ilse, Victor, uma garota de programa (antigamente o nome era outro) que saía com um oficial alemão, o chefe de polícia francês e corrupto, Sam, enfim, todo mundo e mais alguns passantes. Os oficiais nazistas começam a cantar canções marciais; num ímpeto, Victor se põe diante da orquestra do café e manda que toquem a Marselhesa. Com um aceno de cabeça Rick consente (Acho que ele já queria impressionar Ilse de novo. Ou estaria se lembrando de seu passado ainda recente nas brigadas internacionais, lutando do lado republicano na Espanha, contra os fascistas? Ou tudo junto incluído?). A orquestra puxa o hino francês e de todas as revoluções no mundo (talvez até mais do que a Internacional: os socialistas e comunistas, inclusive eu, que me perdoem), as notas enchem o café, todos cantam, inclusive a garota de programa que com esse gesto rompe com o oficial nazista que a acompanhava. Durante alguns minutos trava-se uma batalha musical no café, entre as canções nazistas e a Marselhesa, tão importante quanto as batalhas aéreas naquele momento entre a Luftwaffe e a British Royal Air Force no Canal da Mancha, ou aquela entre soviéticos e nazistas em Stalingrado. Afinal, vencidos, os nazistas cedem o espaço aéreo para a Marselhesa, e em todo o café (que será imediatamente fechado) ecoam gritos de Vive la France!





No Brasil, nesta cena, as platéias dos cinemas em 1943 se levantavam o cantavam junto a Marselhesa, e quando ecoavam os Vive la France! na tela, o mesmo grito de liberdade ecoava nas platéias, eletrizante e eletrizando-as.


É esse espírito da Marselhesa que precisamos reerguer das cinzas do desânimo, agora que se trava nova batalha fundamental para a humanidade entre Ségolène Royal e Nicolás Sarkozy nas ruas de Paris e de toda a França. Não devemos de modo nenhum enfraquecer o espírito crítico, deixar de observar as capacidades e incapacidades políticas das lideranças e frentes contendoras à direita e à esquerda. Mas também não adiante ficar choramingando ou esbravejando (no fundo é a mesma coisa) que Ségolène não é Rosa Luxemburgo nem a célebre Dolores Ybarruri, a célebre Pasionaria do Exército Republicano, que imortalizou frases como “no pasarán” e “é preferível morrer de pé do que sobreviver de joelhos”. Até porque porque se Ségolène, e é verdade, não é a sonhada Rosa do Povo, Sarkozy de fato é Sarkozy, um político que sabe ser habilidoso e truculento nas suas declarações, que neste momento catalisa o mais odioso ideário de direita na Europa e no mundo, mobilizando inclusive a Sombra racista que nunca abandonou completamente o Velho Mundo.


Um novo painel simbólico se agita na Europa. É certo que as políticas das sociais-democracias foram se aproximando mais e mais das balizas neoliberais depois da retumbante queda comunista. Isso ajudou a criar aquela sensação de dissolução, cantada na mídia em prosa e versa, da “direita” e da “esquerda”. Isso de “esquerda” e “direita” parecia coisa da “América Latina atrasada”, a “América Latina de poncho e conga”, como já se disse por aqui (pra quem não sabe ou esqueceu “Conga” era um tipo de tênis muito comum entre os jovens da década de 60), da América Latina às voltas com esses “dinossauros” da história, como Chávez, Fidel, Evo, etc. Na Europa o espírito de 68, chamado internacionalmente de “soixante-huitard”, “sessentaeôitico”, o espírito da Marselhesa, a polarização decisiva, o reconhecimento de que há momentos decisivos em que batalhas decisivas se dão, fora dado como morto, peça de museu, nostalgia embrulhada em brumas dos que se preparam para suas batalhas decisivas com seus planos de saúde.





Mas algo muda, e a polarização francesa aponta para isso. Zapatero, o primeiro ministro espanhol, e Prodi, o italiano, já deram seu apoio a Ségolène; Angela Merckel, a alemã, conservadora, apóia Sarkozy. Grande parte da esquerda francesa anuncia seu apoio a Ségolène. Pode ser um apoio crítico de tantos graus a bombordo, a estibordo ou aquele bordo, não importa. A Europa se latino-americaniza um pouco neste momento. Podemos até perder esta eleição. Mas o mais importante é retirar do sarcófago da história o espírito de luta, o espírito de solidariedade internacional, o espírito da Marselhesa que ressoava nos cinemas brasileiros e no mundo inteiro naquele longínquo 1943.

Publicado originalmente em: www.cartamaior.uol.com.br

Nenhum comentário: