Occupy as ruas e as praças do mundo



Por Erick da Silva

O ano de 2011 foi um divisor de águas: se após a crise de 2008 parecia que o mundo estava em um beco sem saída, onde o esgotamento do ideário neoliberal se escancarou sem encontrar uma efetiva e imediata resposta alternativa, veio das ruas um novo ativismo disposto a encontrar estas respostas.
Acampamento na Praça Tahrir no Egito.
Este novo ativismo surgiu do lugar menos provável: a chamada “Primavera Árabe” veio a sacudir e derrubar regimes ditatoriais que há décadas oprimiam seus povos. Eclodido primeiramente na Tunísia e rapidamente espalhando-se pelo norte da África e pelo Oriente Médio, este movimento foi caracterizado pela pluralidade, descentralização e a ausência de lideranças de atores políticos tradicionais. Promovendo formas alternativas de organização, duas características foram marcantes nestas manifestações: o uso da internet e das redes sociais como forma de comunicação e mobilização; e a ocupação de praças e espaços públicos. Estas mesmas características veríamos depois no movimento dos “Indignados” na Espanha, que colocou milhares de pessoas na Puerta del Sol em Madrid e por todo o país, servindo de inspiração para outros indignados pela Europa. Os protestos denunciaram os efeitos da crise econômica sobre o cotidiano da população e a cumplicidade da democracia representativa tradicional diante os mesmos.
Quando surgiu o movimento “Occupy Wall Street” nos EUA, país que há décadas não vivenciava grandes manifestações populares, o impacto foi ainda maior. A escolha do parque Zuccotti, em Nova York, como espaço de ocupação pelos ativistas foi emblemática. Localizada próxima ao coração financeiro de Wall Street e do “ground zero” (local do antigo World Trade Center), o parque foi em 2006 privatizado e renomeado - antes se chamava Liberdade. A ocupação do parque significou justamente o resgate desta noção de liberdade e reapropriação do espaço público.
Manifestante do Occupy Wall Street
Este simbolismo causou grande efeito e rapidamente deu uma dimensão nacional ao Occupy: “Quem poderia prever o Occupy Wall Street e a sua repentina proliferação, ao estilo de uma planta selvagem, em cidades grandes e pequenas?” aponta Mike Davis na coletânea Occupy, lançado pela editora Boitempo em parceria com Carta Maior. Reunindo artigos de autores como Slavoj Zizek, Immanuel Wallerstein, David Harvey, Mike Davis, Tariq Ali, Emir Sader, Vladimir Safatle, entre outros, o livro traz um importante apanhado do que foi e representou este conjunto de movimentos de protesto que tomaram as ruas em todo o mundo.
Da leitura de grande parte dos artigos, depreende-se que não podemos esperar encontrar nestes novos movimentos um programa e uma tática política muito nítida e definida. Talvez o que seja mais marcante é a negação do que está posto, juntamente com a crítica contra a esquerda social-democrata europeia - que executou a mesma política econômica da direita em suas experiências de governo, como o caso do PSOE na Espanha ou do PASOK na Grécia. Este dilema entre os novos movimentos e a democracia liberal ainda é problemática, sendo o caso espanhol exemplar neste sentido. Milhares de indignados tomaram as ruas e não tiveram capacidade ou possibilidade de impedir que o candidato da direita Mariano Rajoy ganhasse as eleições presidenciais e colocasse em prática políticas ainda mais regressivas e antipopulares.
Vladimir Safatle, afirma: "Talvez os manifestantes tenham entendido que a democracia parlamentar é incapaz de impor limites e resistir aos interesses do sistema financeiro". Esse cansaço em relação aos partidos convencionais "não é sinal do esgotamento da política", mas de "uma demanda de politização da economia". Quando o Occupy Wall Street proclama “somos os 99%” da população, enquanto apenas o “1%” tem ditado os rumos da economia global, é justamente isto que estão fazendo. Um libelo contra aquilo que Zizek apontou, citando Badiou, que são os riscos da “ilusão democrática”, qual seja, “a aceitação dos mecanismos democráticos como a moldura fundamental de toda mudança, que evita a transformação radical das relações capitalistas.”
As práticas democráticas estabelecidas de forma horizontal pelos movimentos de ocupações que varreram o mundo demonstra que outras formas de aprofundamento das relações democráticas não só são possíveis como necessárias. Quais os caminhos e formas de organização que darão conta destes impasses é uma questão em aberto. Equivocam-se aqueles que afirmam que os partidos políticos e os sindicatos estão superados como formas de organização. A questão colocada se trata do abismo entre representados e representantes; mais especificamente, da representação que privilegia os interesses do capital em detrimento dos interesses populares. Um exemplo da possibilidade de síntese entre os “novos” e os “velhos” movimentos de esquerda se deu nos EUA, onde uma ação conjunta entre o Occupy e os sindicatos paralisou o porto de Oakland (Califórnia).
O mais importante deste novo ativismo é a sua capacidade de convergir movimentos, organizações e indivíduos distintos, em suas trajetórias e propostas. Esta é a riqueza fundamental destes novos movimentos que ao mesmo tempo dificulta o “passo seguinte. É somente na síntese e superação das divergências momentâneas que poderá se dar novas perspectivas para a esquerda. Como apropriadamente aponta Wallerstein, sem este esforço de síntese é pouco provável “que a esquerda mundial possa ganhar, nos próximos vinte ou quarenta anos, a batalha fundamental. E nela se definirá que tipo de sistema sucederá o capitalismo quando este entrar definitivamente em colapso.” É exatamente este o desafio que está colocado.
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