O Impeachment do Collor e o golpe contra Lugo: um abismo de diferenças


Por Erick da Silva

Comparar o golpe contra o presidente Fernando Lugo, no Paraguai, com o Impeachment do Collor no Brasil, é um grande equívoco. Este tipo de comparação só é explicável devido a desinformação ou a mais pura má-fé.
Estes tipos de comentário exóticos, de tenta igualar situações completamente diversas, não é uma novidade e com grande frequência vemos figurar em opiniões relacionadas aos temas mais diversos e inapropriados. O caso da deposição do Lugo não é diferente. Não faltaram aqueles que tentaram, em um malabarismo confuso e com bases frágeis, igualar a saída de Lugo com a de Collor. Mesmo entre indivíduos que, em tese, deveriam respeitar um maior rigor analítico, não faltaram aqueles que enveredassem para esta visão deturbada dos fatos, como um certo professor universitário que a imprensa do Rio Grande do Sul deu algum espaço.
Reescrever a história, ainda mais a partir de fatos tão recentes, chega a ser um exercício ridículo. Vamos aos fatos: Collor teve um amplo e democrático processo de defesa, que durou meses. Ao final deste processo, Collor não foi deposto, ele renunciou. Lugo não teve espaço algum para defesa, entre a abertura do processo de afastamento e sua deposição, correram menos de 48h. 
As "acusações" que foram desferidas contra Lugo eram todas, de caráter eminentemente político, e portanto, de avaliação subjetiva e passível de interpretações diversas e questionáveis. 
Uma delas, acusava Lugo de ter "ligações com movimentos sociais", se isso é um crime, porque não inverter a lógica deles e passarmos a destituir todos os presidentes que tenham ligações com banqueiros, por exemplo? Além do mais, foi justamente esta ligação e trajetória de Lugo que o levou a presidência do Paraguai.
Collor, por sua vez, foi destituído por sua ligação com esquemas de corrupção, que foram amplamente divulgados, debatidos e investigados. Collor foi considerado culpado pela Polícia Federal, que encontrou vários indícios de corrupção e troca de favores. Não houve, durante todo o processo de Impeachment, um julgamento político do governo Collor que tenha pesado contra a sua permanência na presidência, pelo contrário, as políticas neoliberais, que começaram a ser postas em prática em seu governo foram aprofundadas durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso que o sucederam. 
No Paraguai tivemos um golpe, com tintas de falsa legitimidade, no caso brasileiro, tivemos um amplo processo democrático que levou a interrupção de um governo. A única semelhança entre Collor e Lugo é o fato de ambos se chamarem Fernando, fora isso, um grande abismo separa a trajetória política e o processo de destituição dos dois. 
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4 comentários:

Carlos Eduardo da Maia disse...

A oposição acusa Lugo de ter ligações com movimentos sociais, mas o fato que desencadeou o impeachment foi o massacre pela polícia paraguaia de sem terras numa invasão de uma fazenda, o que ocorreu uma semana antes.

Segundo a oposição Lugo foi incompetente na administração desse episódio que gerou mortes.


Seria o mesmo que afastar FHC por conta do massacre de Carajás, o que , convenhamos, é um absurdo.


Collor caiu por conta de um Fiat Elba, registrado em seu nome, que PC Farias comprou, quem levantou isso foi a tão criticada Veja. Esse foi o estopim que motivou o impeachment.

Hoje a VEja é detestada por Collor e o PT. Sinal dos tempos.

Tal como Collor, Lugo tinha poucos representantes no parlamento e também, como se pode ver até agora, não tem também o apoio popular que se imaginava.

O que aconteceu no Paraguai foi um atentado contra a democracia.

Anônimo disse...

Como bem apontou chanceler argentino Héctor Timerman, em entrevista ao Página 12: “Praticaram uma execução sumária. Darem duas horas de defesa a um presidente democraticamente eleito – um tempo menor que o se concede a quem recorre de uma multa por avançar um sinal vermelho”.
Um absurdo o que ocorreu no Paraguai,

Hector

ALLmirante disse...

Um Presidente é eleito por motivos políticos. E deve ser destituído, quando frustrar o eleitor, por motivos políticos. É uma questão de conveniência,não de justiça. Ele foi apenas afastado de um patrimônio que não lhe pertence de modo algum. Não precisa justa-causa para dispensar seus serviços. Se ainda assim se achar com direito a alguma indenização, terá tempo de pleiteá-la, ai sim, num processo judicial, cujo trâmite requer anos à sentença. O rito paraguaio é exemplar ao mundo. O do Brasil, mais redícuilo impossível: PC foi morto, Collor agora é senador, candidato favorito às eleições de 2014. Beleza pura.

ALLmirante disse...

FHC mereceria uns tres impeachment. Salvouse de todos porque usou o dinheiro da Nação para comprar a preço vil os mensaleiros que agora comandam o país.