2011: o ano da rebeldia global



Por Erick da Silva


Se pudéssemos resumir o ano de 2011 a uma única palavra, ela seria protesto. Não houve lugar no mundo que os protestos não se fizeram ecoar. As mobilizações foram uma resposta dos povos a crise econômica iniciada em 2008. Crise que prolonga-se com um final incerto.
A crise não foi um evento “inexplicável”, mas sim resultado do esgotamento do sistema econômico vigente. O neoliberalismo acelerou um processo de desregulamentação do sistema financeiro e de assombrosa concentração de riqueza. Hoje, os vinte maiores bancos do mundo entrelaçam o mercado global formando um poder financeiro superior ao de dezenas de países. As dez maiores empresas gestoras de fundos de investimentos controlam a assombrosa soma de US$ 17,4 trilhões, uma riqueza 20% superior ao PIB dos EUA e cerca de oito vezes a do Brasil.
O foco gerador da crise segue intocável até o momento, a incapacidade de respostas efetivas aos cruéis efeitos da crise tem colocado os países ricos em um verdadeiro “beco sem saída”. Os protestos ao redor de todo o mundo, tendo a juventude a frente, recolocaram a perspectiva de mudanças na agenda política, fugindo a simples "gestão da crise" que os governos dos países ricos tem adotado. O grito por mudanças coloca-se como um imperativo necessário.
A “Primavera Árabe”, derrubando as ditaduras de Ben Ali na Tunísia e Hosni Mubarak no Egito, serviram como um vitorioso exemplo que espalhou-se por um conjunto de países do norte da África e do Oriente Médio. Em Madrid, uma multidão de “indignados” ocupou o centro da capital espanhola, a Porta do Sol, e rapidamente espalhou-se por outras cidades, causando um profundo impacto na conjuntura política da Espanha. 
A Europa, em profunda crise econômica, virou um grande turbilhão de manifestações de rua contra este estado coisas. A mobilização em rede, tendo o auxílio da internet (redes sociais, blogs, sites, etc.), como elemento de divulgação e organização das ações foram um elemento inovador. Não mudaram apenas a capacidade de comunicação entre os diferentes indignados de todos a Europa, mas foram uma resposta a crise da própria esquerda europeia. Partidos sociais-democratas e socialistas europeus, diretamente responsáveis pelo atual estado de coisas, encontram-se em um estado de esgotamento político.
Como bem apontou Vladimir Safatle, "em Túnis, Cairo, Tel Aviv, Santiago, Madri, Roma, Atenas, Londres e, agora, Nova York, eles foram às ruas levantar pautas extremamente precisas e conscientes: o esgotamento da democracia parlamentar e a necessidade de criar uma democracia real, a deterioração dos serviços públicos e a exigência de um Estado com forte poder de luta contra a fratura social, a submissão do sistema financeiro a um profundo controle capaz de nos tirar desse nosso "capitalismo de espoliação".
O caráter espontâneo, e muitas vezes contraditório, compõe a paisagem dos protestos globais e é, ao mesmo tempo, sua virtude e limite. Virtude por ter um caráter amplo, horizontal, com capacidade de ousadia que, em outra configuração talvez não fosse possível e que explica a capacidade de crescimento e adesão que os “indignados” e "acampados" tem angariado ao redor do mundo. Mas também se coloca como um limite, na medida que dificulta (em alguns casos até inviabiliza) a construção de alternativas e ações politicas imediatas, que interfiram e incidam na conjuntura. Exemplo disso, o anseio de mudanças e crítica ao sistema político espanhol dos indignados, ainda que tenha demonstrado uma força inédita viu a direita vencer as eleições.
Ainda não está claro quais serão os rumos que este movimento terá e nem a forma que ele deverá evoluir no médio prazo. O certo é que este "movimento" representou uma positiva mudança na conjuntura global. Ainda longe de ter força suficiente para promover profundas e necessárias mudanças, ele por si só já é vitorioso, ao romper com a apatia e falta de soluções para a crise global. Não há dúvidas que uma nova e importante perspectiva se abre e que ela poderá ser decisiva para as grandes transformações que o mundo necessita. Se o ano de 2011 foi o ano da rebeldia e do protesto em rede, que 2012 seja o inicio de uma nova fase destes protestos. 
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3 comentários:

Vinicius disse...

Mas, assim como Zizek sem pontua, é necessário ver "o dia seguinte". Os excessos da revolução são normais, o problema é quando eles permanecem no dia seguinte, sob a carapaça de aparelho regulamentador.

Então, se a tomada do poder estatal não envolver drásticas mudanças nas relações sociais, não dá pra comemorar muito.

Anônimo disse...

Concordo com o Vinicius
É necessário mudanças mais profundas e radicais!
Precisamos de democracia real já!

Zick.

Anônimo disse...

Este é um debate fundamental. Inegavelmente os partidos, em suas formas tradicionais de organização, entraram em descrédito na Europa e nos EUA. Na América Latina este fenômeno ainda tem uma baixa incidência.
No entanto, acredito que se o PT e os demais partidos da esquerda não se reinventarem, com mais democracia direta e participação da base, logo logo os "indignados" estarão batendo na porta e aí, ninguém mais segura.

#Anon15