Por Ronaldo Zulke
Acompanhei durante a sexta-feira e o sábado últimos o insano processo de impeachment para cassar os mandatos da prefeita Rita Sanco e do vice-prefeito Cristiano Kingeski, ambos do PT, em Gravataí. A decisão foi um atentado ao bom senso, sem respaldo nas alegações e, menos ainda, na opinião pública local. Diante do absurdo impetrado pelo legislativo municipal, lembrei do ensinamento de um dos maiores intérpretes intelectuais do país: Sérgio Buarque de Holanda que, no clássico “Raízes do Brasil”, defendeu a ideia de que o brasileiro é um “homem cordial”. A expressão, quando tomada como sinônimo de bondade, suscita justas controvérsias sobretudo ao ser confrontada com as chagas de violência que marcaram nossa história, do que dão testemunho o largo período de escravidão, a persistente super-exploração da mão de obra e a imoral indiferença das elites econômicas para com o sofrimento do povo.
O que, no entanto, o pai do Chico pretendeu dizer ao salientar nosso principal traço de caráter é que somos movidos pelo “couer” (coração), palavra que está na raiz etimológica de cordialidade. Comportamo-nos no cotidiano segundo os imperativos da emotividade, e não conforme às leis abstratas, válidas para todos sem exceção, próprias de uma república. A grande dificuldade para alcançar e consolidar os valores democráticos inerentes às instituições republicanas estaria em que costumamos agir impulsionados sobretudo pelos sentimentos e pelas preferências pessoais, e não pelo respeito às regras estabelecidas igualitariamente na Constituição.
Os vereadores que cassaram a representação política e legal do município de Gravataí foram movidos pelo coração, ou melhor, pelos humores de seu fígado, sem nenhum respaldo nos fatos que depusessem contra os legítimos porta-vozes eleitos pela consciência da população. Protagonizaram, assim, um gangsterismo em prejuízo da vontade dos eleitores e da verdade processual. O rancor idiossincrático e não a razão pública prevaleceu entre os edis, mesmo sabendo que as acusações não justificavam o ato extremo. Caberá à Justiça, agora, fazer o que a Câmara Municipal não soube: zelar pela democracia e pelos interesses gerais. O movimento que vemos na Europa e nos Estados Unidos, onde os representados não se reconhecem mais em seus representantes, chegou ao Rio Grande do Sul através de um golpe sujo, sem precedentes. Perde a política, perdem os políticos.
Ronaldo Zulke é deputado Federal do PT/RS.
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Um comentário:
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