A luta pelo direito ao aborto: caso emblemático #legalizaroaborto





Por Maria Lúcia Silveira




No Brasil, que possui uma cultura política de tradição autoritária e conservadora, ainda estamos muito longe de visualizar um Estado que seja, de fato, laico, democrático e republicano. Seria assim, se houvesse dentre os elementos de equilíbrio entre Estado e sociedade civil, um regime de gênero que respeitasse os direitos sexuais e reprodutivos.Como defendem algumas teóricas do feminismo, o Estado Moderno foi construído a partir de um contrato social que excluiu as mulheres. Carol Pateman (1988, 1993) nos fala do contrato sexual que deixou as mulheres subordinadas na hierarquia de gênero. Mais recentemente, Carol Pateman escreveu sobre o contrato social onde o
patriarcado foi substituído por uma ordem liberal democrática, num contrato fraternal entre homens, no qual as mulheres ainda permanecem em condição de subordinação.
Assim, é preciso desconstruir as relações de gênero, de classe e de raça/etnia que permeiam o Estado formalmente democrático. A permanência da subordinação resulta na limitação do direito básico das mulheres de disporem do próprio corpo, e de reconhecê-lo como base da identidade.
O Estado sempre legislou em torno da família e, por meio da família, controlou a sexualidade das mulheres. Assim, a definição de políticas pró-natalidade ou de controle de natalidade, que atingem especialmente mulheres pobres e mulheres negras, exemplificam interesses conjunturais ou estratégicos.
Muitas vezes o Estado prejudica a saúde das mulheres optando por políticas de saúde que resultam seja em uma medicalização excessiva, seja no uso de métodos anticoncepcionais duvidosos (Silver, L. 2000). No Peru, por exemplo, o governo Fujimori esterilizou mulheres indígenas com um método de esterilização química; nos EUA se fazem implantes hormonais (implanon, norplan) em adolescentes e jovens negras.
Mas o Estado também pode interferir positivamente, quando torna acessíveis métodos anticoncepcionais discutidos com as próprias mulheres. É preciso controle social sobre os programas de saúde da mulher. Por exemplo, indagar como é para uma mulher pobre ser usuária de um implante hormonal, que ela não pode retirar sozinha, caso não se sinta bem, se ela não tem acesso a consultas médicas regulares? Como se garante que essa mulher está decidindo sobre a sua anticoncepção?
O Estado também interfere indiretamente na família, sobretudo na vida das mulheres, quando enxuga os programas sociais, como ocorreu com as políticas neoliberais da década de 1990, ou quando não oferece creches e acesso a outros equipamentos públicos e sociais. Então, a ação do Estado se reflete na vida privada. As fronteiras entre o público/privado são bastante móveis e as relações de poder transitam do público para o privado. Além disso, o privado não é sempre o espaço da intimidade e da honestidade, mas às vezes é o espaço da violência.
Então, como se alcança um Estado que seja realmente laico, republicano e democrático? Quando as mulheres conquistaram o direito ao aborto, em vários países do mundo, foi porque construíram uma ampla coalizão de organizações sindicais, populares e de esquerda (como na Itália, onde se legalizou o aborto, apesar do Papa). As feministas, as centrais sindicais e as entidades populares construíram, junto com os partidos de esquerda, uma coalizão ampla para conquistar o direito ao aborto. Mas, como discutir isso no terreno do Estado laico?
A Marcha Mundial de Mulheres tem feito esse debate dentro do eixo “Pobreza, violência contra a mulher e autonomia”, da Carta das Mulheres Brasileiras, construída por diversas organizações populares. A autonomia é trabalhada do ponto de vista da necessidade das mulheres de terem auto-determinação, controle da própria sexualidade e do próprio corpo.
Se o Estado faz suas políticas de modo a levar em conta as mulheres como sujeito de direitos, supondo que a reprodução e que o serviço doméstico invisível sobrecarregam as mulheres, as políticas públicas tendem a contemplar a necessidade de suporte social a essas tarefas. Se, por outro lado, apóia políticas de mercado que medicalizam o corpo das mulheres, tem-se como conseqüência a imposição de tecnologias médicas como bem de consumo, que podem secundarizar a saúde das mulheres. Um indicador disso é a propaganda abusiva de medicamentos nos meios de comunicação de massa.
No entanto, o debate essencial diz respeito ao aborto. Esse debate nos remeterá para a discussão do papel do feminismo frente às relações de gênero vigentes em nossa sociedade tão conservadora, e que expressam a não neutralidade do Estado diante da influência de instituições religiosas patriarcais sobre os direitos sexuais e reprodutivos.
A objetificação e mercantilização da imagem das mulheres pela mídia contraditoriamente as endeusam em seu papel materno e impõem a maternidade como destino. A discussão sobre o direito ao aborto, levada nesse contexto de poderosas tecnologias de gênero (Lauretis, T. 1994), pode mostrar isso criticamente e autorizar espaços onde as mulheres desconstruam o discurso dominante de que seu único papel é ser mãe, o que as impede de se verem como seres integrais e coloca em jogo a integridade corporal, a autonomia e a auto-determinação.
Do ponto de vista da apropriação mercantil do corpo das mulheres, observa-se que o que está em jogo, na discussão do aborto, é o controle da sexualidade feminina. Quando predomina o ideal da maternidade, a mulher não pode escolher e tem que se ver como reprodutora. Uma outra face dessa mercantilização, oriunda da dominação e da subordinação das mulheres, são as novas tecnologias reprodutivas que incidem, sem questionamentos, sobre o corpo da mulher.

É importante fortalecer o movimento de mulheres, construir uma ampla coalizão, criar espaços para que as mulheres dos setores populares possam desconstruir essa lógica de controle de seus corpos e tornar o movimento de mulheres um catalisador dos debates. Sem isso, há pouco avanço na efetivação dos direitos sexuais e reprodutivos.O lobby na mídia e no parlamento tem sido insuficiente. É preciso uma estratégia do tripé com apoio, sobretudo, no movimento amplo de mulheres. Embora na batalha pela descriminalização do aborto tenhamos também que buscar fortalecer e visibilizar as ações na mídia, o movimento de mulheres é que deve tornar-se o catalisador da opinião pública e do parlamento. Dessa forma vamos construir o Estado laico, porque
o Estado vai ser movido a partir da força da sociedade civil, no caso o movimento de
mulheres e o movimento feminista.
Basta lembrar que em um determinado momento, no início dos anos de 1990, centrais sindicais, inclusive a CUT, colocaram a legalização do aborto nas suas plataformas e congressos após as disputas internas de suas feministas. A Central de Movimentos Populares, que tem entidades ligadas a Igrejas, também colocou o tema na sua carta. Entretanto, não podemos parar nesse ponto. Temos que construir, de novo, o compromisso do movimento de mulheres e dos movimentos populares e sociais com as estratégias que nos levarão a atingir esta meta.
Essas estratégias não podem ser traçadas por especialistas ou por pequenos grupos de articulações institucionais. Para conquistarmos o direito ao aborto será preciso que as mulheres possam participar com a sua própria voz. Para que elas sejam sujeito coletivo e catalisadoras dessa disputa, que é árdua e difícil, e possam empurrar o parlamento um pouco mais para frente, é preciso retomar o processo de construção e fortalecimento do movimento e das organizações populares e de outras organizações amplas onde as mulheres participam. Como a África do Sul, que consolidou uma coalizão popular e de organizações feministas, de mulheres e populares para legalizar o aborto em um governo progressista, o Brasil também tem esse potencial.
Mesmo no âmbito da Marcha Mundial de Mulheres essa discussão não tem sido fácil, mas as mulheres devem construir conjuntamente essas estratégias, assim como precisam desconstruir essa lógica de controle da sexualidade feminina. Embora o debate entre lideranças do movimento de mulheres e setores do governo tenha sido praticamente consensual, ainda estamos com pouco poder de transformar essa diretriz em objetivo concreto de luta, seja porque a laicidade do Estado ainda é
em nosso país uma ilusão e a questão do aborto se torna moeda de chantagem eleitoral (e os políticos evitam debatê-la), seja porque as feministas adotaram uma estratégia institucionalizada e gradualista.
Um balanço no campo do feminismo quanto às estratégias adotadas com relação ao aborto está por ser feito. Nos últimos 10 anos, privilegiou-se a implantação dos serviços de aborto legal (em casos de estupro e risco de vida da mãe) nos hospitais. Essa foi uma medida importante para chamar a atenção para com a saúde das mulheres e do dever do Estado de garantir o cumprimento da lei. Mas, a maioria das mulheres que faz aborto ilegal ainda sofre opressão e corre graves riscos. Um debate ainda circunscrito a especialistas, por mais positivo que seja, tem sido insuficiente para sairmos do terreno da resistência aos avanços dos setores religiosos e conservadores.
Aliás, o que tem ocorrido nos últimos anos é a aprovação de ações retrógradas como a instituição do “Dia do Nascituro” comemorado nas escolas do Rio de Janeiro, fato esse reproduzido em projetos de lei nos legislativos estaduais e municipais em diversas regiões do país.
Arrefeceram-se, no final dos anos de 1990, as manifestações públicas pelo direito ao aborto nos momentos tradicionais de luta do movimento de mulheres. O debate ficou restrito a seminários internos com médicos/as e advogados/as e especialistas em direitos reprodutivos.
Segundo Nalu Faria (2004) o privilegiamento pelo feminismo institucionalizado, nos anos 1990, da estratégia discursiva de legitimação ancorada nas Declarações das Conferências da ONU, que se pautam pelo consenso, dificultou que se enfrentasse os direitos sexuais e reprodutivos no seu núcleo concreto em cada país, de modo específico, quanto à estratégia da descriminalização e legalização do aborto, em um contexto global desfavorável que dificulta a autonomia e poder de decisão às mulheres.
Hoje, no Brasil, há debate em torno do judiciário em criar jurisprudência para permitir abortos em casos de anencefalia fetal, que mobiliza favoravelmente setores médicos e do judiciário. A polêmica central é responder à questão do caminho a seguir: pela ampliação do arco de setores progressistas e do movimento de mulheres para definir democraticamente a estratégia para uma retomada da luta pela legalização do aborto de forma ampla ou persistir no gradualismo (ampliar os permissivos legais gradativamente, tergiversando quanto ao aborto como direito da mulher), no lobby na mídia e no Congresso cujos parlamentares são cada vez mais influenciados pelo conservadorismo religioso.
Há muitas armadilhas no caminho. Um desafio a tratar é no terreno das políticas públicas: qual o peso da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres (SPM), seus limites e possibilidades em influir nas ações do governo para alterar as desigualdades de gênero no contexto atual referente ao aborto? Aí se coloca a definição do reforço de sua estratégia via processo mobilizatório das mulheres com os setores democráticopopulares.
A laicidade do Estado é algo a ser construído efetivamente, junto à desconstrução do caráter patriarcal das instituições jurídicas do país que não reconhecem, na prática, as mulheres como sujeito pleno de direitos. Segundo Nalu Faria, da Coordenação Nacional da MMM, “um aspecto importante é quanto ao eixo do debate. De fato, o aborto é um problema de saúde pública, que
deixa seqüelas e provoca muitas mortes e que poderiam e deveriam ser evitadas. E esse é um problema das mulheres pobres que não têm acesso às clínicas clandestinas. Mas é importante enfatizar, nessa retomada, que é nessa luta pelo direito ao aborto que encontramos a maior resistência por parte da direita e também onde se concentra a maior hipocrisia”.
No dia 08 de março de 2005, 30.000 mulheres do país inteiro de diversos setores sociais, manifestaram-se em São Paulo na partida da Carta Mundial das Mulheres para a Humanidade, que percorrerá mais de 50 países. Na ocasião deram destaque ao direito aborto e enfatizaram a reivindicação de que o Estado deve proteger a autonomia das mulheres para decidir sobre o aborto. Cabe à mulher decidir como, quando e com quem, se desejar compartilhar essa decisão, de acordo com o contexto de suas vidas como sujeito de direitos reprodutivos e sexuais.
Somente assim, retomando a luta pela liberdade reprodutiva em meio à criação de espaços públicos onde possam apresentar-se como sujeito integral, e não apenas útero hospedeiro, o direito civil de dispor do próprio corpo e de sua vida há muito conquistado pelas mulheres do primeiro mundo poderá tornar-se realidade. Nossa participação como movimento de mulheres, disputando nas entidades da sociedade civil as nossas propostas feministas e de transformação das condições econômicas e políticas do país que permitam melhorar a vida de milhares de mulheres é uma sinalização positiva e demonstra que nossa resistência possibilita que tenhamos nossa própria agenda política de lutas na direção de um outro mundo possível e que nós mulheres teremos que estar à frente das transformações necessárias em nossas vidas e em nosso país.


Maria Lúcia Silveira é Socióloga, professora da UNIFMU, integrante da Marcha Mundial de Mulheres e da SOF.
.

Nenhum comentário: