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França: de polo progressista a conservador na Europa
Por Emir Sader
Num dos seus mais extraordinários ensaios (O pensamento morno, London Review of Books, setembro de 2004),Perry Anderson traça o percurso intelectual e cultural da França, de polo progressista a bastião conservador na Europa. Afinal a França foi considerada, por Engels, como o laboratório de experiências politicas, o berço das grandes lutas emancipatórias contemporâneas, de 1789, passando por 1848 e pela Comuna de 1871, até chegar ao governo de Frente Popular e às barricadas de 1968.
Aí terminou o ciclo progressista da França, que começou um processo de direitização em todos os níveis – do intelectual e ideológico ao social e ao politico. Fator fundamental foi a passagem da classe operaria francesa, de classe que se representava essencialmente nos partidos comunista e socialista, a classe que passou, já há décadas, a votar pela extrema direita, primeiro partido na classe trabalhadora francesa.
Como foi possível essa mudança radical da classe operária francesa, da esquerda à extrema direita?
Historiador francês suicida-se em protesto contra casamento gay
Por Erick da Silva
Que todo o reacionário sofre de algum tipo de distúrbio psíquico é um fato consumado. Mas este historiador e jornalista francês se superou.
Dominique Venner suicidou-se nesta terça (21/05) no interior da catedral de Notre-Dame, em Paris, em protesto contra a legalização do casamento de homossexuais.
Venner, escritor, jornalista e historiador francês, deu um tiro na boca em frente ao altar da catedral.
O autor, que foi um ativo militante da extrema-direita, nascido em 16 de abril de 1935, Dominique Venner era historiador especializado em História política e militar, conhecido em França pela sua grande atividade política de extrema direita, pela qual foi detido 18 meses, em 1961.
Em 1962 o seu manifesto Pour une critique positive (por uma crítica positiva) escrito imediatamente após ser libertado da prisão, tornou-se um texto fundamental para uma parte da extrema direita.
Antes de acabar com a própria vida, Venner deixou uma mensagem de protesto contra o casamento gay no seu blogue foi encontrada uma carta junto ao corpo do escritor com o mesmo teor.
O suicídio é uma clara tentativa patética de converter-se em mártir dos reacionários anti-gay franceses, simbolizando a causa deles, causa essa que claramente converteu-se em fanatismo.
Com informações RTP e Lux
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Postado por
ERick
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5/22/2013
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A Comuna de Paris
No dia 18 de março de 1871, o mundo conhecia a Comuna de Paris, a primeira experiência de governo operário da história.
Foram poucas semanas de existência, a recém nomeada Comuna de Paris introduziu mais reformas do que todos os governos nos dois séculos anteriores combinados. Entre as medidas adotadas, tivemos a redução da jornada de trabalho, os sindicatos foram legalizado, a pena de morte foi abolida, instituiu-se a igualdade entre os sexos, o Estado e a Igreja foram separados, a Igreja deixou de ser subvencionada pelo Estado e os espólios sem herdeiros passaram a ser confiscados pelo Estado, o serviço militar obrigatório e o exército regular foram abolidos, etc.
O poder comunal manteve-se durante cerca de quarenta dias. Seu esmagamento revestiu-se de extrema crueldade, estimasse que mais de 20 000 communards foram executados pelas forças de Thiers.
Karl Marx, comentando sobre o trágico desfecho, afirmou: "A Paris dos operários de 1871, a Paris da Comuna será para sempre celebrada como a precursora de uma sociedade nova. A memória de seus mártires viverá, como num santuário, no âmago do coração da classe operária. Seus exterminadores, a História já os pregou a um pelourinho eterno e todas as preces de seus padres não bastarão para resgatá-los."
Os dias da Comuna
Bertold Brecht*
Bertold Brecht*
Considerando nossa fraqueza os senhores forjaram
Suas leis, para nos escravizarem.
As leis não mais serão respeitadas
Considerando que não queremos mais ser escravos.
Suas leis, para nos escravizarem.
As leis não mais serão respeitadas
Considerando que não queremos mais ser escravos.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e com canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.
Com fuzis e com canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.
Consideramos que ficaremos famintos
Se suportarmos que continuem nos roubando
Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças
Que nos separam deste bom pão que nos falta.
Se suportarmos que continuem nos roubando
Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças
Que nos separam deste bom pão que nos falta.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos, de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.
Com fuzis e canhões
Nós decidimos, de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.
Considerando que existem grandes mansões
Enquanto os senhores nos deixam sem teto
Nós decidimos: agora nelas nos instalaremos
Enquanto os senhores nos deixam sem teto
Nós decidimos: agora nelas nos instalaremos
*Extraído do texto "Os Dias da Comuna", de Bertold Brecht, tradução de Fernando Peixoto.
Mali: desafio à civilização que temos que rejeitar
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| Soldado francês com máscara de caveira no Mali |
Por Antonio Negri
A intervenção francesa no Mali reflete uma crise política que tende a generalizar-se na África saariana e subsaariana depois da “Primavera Árabe” do Magreb. “Manifesta-se o lado perigoso da Primavera Árabe”, escreve
Mas, é isso que, realmente, impulsiona à rebelião os novos guerrilheiros nos desertos do Norte da África, ou são impulsionados por miséria cada vez mais feroz e pela lógica sempre destrutiva dos governos da ex-Françáfrica? As zonas rurais dos países do Sahel permaneceram, apesar delas mesmas, nos últimos anos, em situação de miséria profunda, que alimenta o êxodo da população e a desestabilização das grandes cidades. Frente a isso, as estatísticas macroeconômicas mostram a existência de um “falso” desenvolvimento vinculado à atual corrida pela extração de minérios em direção àqueles territórios ricos desses recursos: o Mali, por exemplo, é o terceiro produtor mundial de ouro, rico em urânio, e prevê-se que seja também muito rico em hidrocarbonetos.
O jihadismo entra nesses territórios não pelo fanatismo de alguns e não os submete a partir da ‘barbárie terrorista’ (como dizem à opinião pública ocidental), mas, sim, porque nesses países as instituições continuam a dissolver-se, dada a fragilidade econômica e civil. Por isso, o êxito dos “invasores” que não são invasores está praticamente garantido.
O Mali é só mais um país do Sahel – os demais também estão em situação crítica semelhante. A dúvida sobre o aprofundamento da crise em cada um deles depende só de alguns fatores casuais que ainda contêm o desabamento recém iniciado do “dominó”. No Mali, que em certo momento foi “vitrine da democracia”, o governo estava em crise há bastante tempo, asfixiado pela corrupção, por repetidos golpes de Estado e pela rebelião popular dos tuaregues no norte. Os tuaregues querem a independência do Azawad (vasta região desértica do norte do Mali). Essa revolta encontrou ocasião de triunfar porque, com a queda do governo do coronel Gaddafi, muitos tuaregues voltaram ao seu país natal com armas (em grande e sofisticada quantidade) e equipamentos (logísticas regionais e alianças com parte do exército maliense). Deve-se ter em mente que a intervenção francesa (e da OTAN) na Líbia produziu naquele país a implosão de mil facções locais, ideológicas, étnicas, as quais, depois de Gaddafi, ficaram sem qualquer autoridade capaz de ostentar força legítima.
A rebelião tuaregue armada encontrou, além disso, apoio forte e provavelmente decisivo em grupos salafistas e jihadistas que já em 2002, ao terminar a guerra civil argelina, haviam instalado os fundamentos da al-Qaeda no Magreb. Há cerca de dez anos, esses grupos vinham construindo (aproveitando a “indústria dos sequestros” e o apoio aos “traficantes’ ilegais que operam nesse amplo território) bases e redes de apoio à guerrilha. O perigo era evidente. Há três, quatro anos, está em andamento uma cooperação bilateral França-EUA para combater o que alguns chamam de “eixo Kandahar-Dakar”. Recentemente, o New York Timesrevelou que o Departamento de Estado investira cerca de 500 milhões de dólares nessa região, nessa estratégia de antiterrorismo. Já no início de 2012, o comando norte-americano na África, AFRICOM, deu-se conta de que boa parte das tropas malienses adestradas pelos norte-americanos haviam-se unido à revolução no norte do país.
Agora, vimos a intervenção francesa, em resposta a pedido urgente do governo de Bamako (ou do que resta dele) formalmente apoiado por extensa coalizão de países africanos e governos europeus. Mas a guerra francesa já parece estender-se como mancha de azeite para grande número de países vizinhos. O que se viu acontecer na Argélia na última semana, quando a gentil intervenção daquele governo e de seu exército já produziu centenas de assassinatos, é só o começo desse amargo desenvolvimento.
Por enquanto, consolam-se a imprensa e a opinião pública francesa com a crença de que não se trataria de guerra de usura (como a guerra no Iraque ou no Afeganistão) cujos protagonistas movem-se “entre as populações”; tratar-se-ia de guerra clássica no puro deserto, guerra de posições e de movimentos. As coisas não demorarão a mudar muito. Talvez os franceses, com as tropas de outros países africanos (que permanecerão sob comando dos franceses, enquanto os EUA continuarem reticentes e resistirem a envolver-se na mudança) consigam a vitória em campo. Mas em seguida... como governar no deserto, em situação de paz que não é paz, numa “guerra nômade” que começa, em quadro de histeria frente a eventuais ataques terroristas na França continental e, sobretudo, em face da memória da vergonha colonial e do despotismo pós-colonial mantido pela potência francesa? Mas, sobretudo, como considerar, na situação atual e em situação de pós-guerra – aspectos que nos permitimos chamar “aspectos bons” da Primavera Árabe, ou, melhor dizendo, daquela “Primavera Africana” que parecia estar começando a apontar também no Sahel?
É inútil – e vale a pena repetir – culpar o extremismo de um islamismo salafista radical, quando se está sufocando a única alternativa verdadeira que realmente teria chances de concretizar-se: o amadurecimento – já iniciado nesses territórios – de elites jovens, democráticas, anticapitalistas. É necessário atacar as causas socioeconômicas dessa crise.
Se se ouvem os especialistas, dizem que, para desenvolver um programa de reconstrução e de desenvolvimento, seria necessário intervir nesses territórios nos setores agrícolas, de reflorestamento, de criação de animais, na melhoria de estradas e do transporte, no acesso à água, na promoção da energia solar e eólica, etc. E logo reiniciar os programas de produção de algodão e de cereais nessas regiões... Em resumo: tudo. Por fim e especialmente, “as populações devem beneficiar-se da renda da mineração; do ouro, para começar, primeiro produto de exportação”.
Não é solução, de fato, cômica? E na risada não aparece, evidente, o cinismo, no mínimo hipócrita, que há em tanto insistir na mesma execrável sede de dinheiro que arrasta esses governos liberais a combater terroristas pelas impiedosas terras desérticas do Sahara e do Sahel como se fossem trunfos a distribuir entre os inimigos (porque é muito difícil identificar quem é terrorista e quem é camponês pobre ou proletário metropolitano agora sublevados). Ainda mais: não lhes parecem lágrimas de crocodilo – e na Itália todos as confundem – as lágrimas que nossos democratas tanto choram?
Pesado fardo de nossa civilização, que nos obriga a intervir! Sagrada obrigação da soberania, dessa vez exercida em nome da Europa ! Atenção! Até os EUA já pararam de repetir essas estupidezes, depois das terríveis derrotas no Oriente Médio! Reconheçamos, isso sim, que só modificando radicalmente nossa consciência política, só rompendo radicalmente com formas de governos harmônicas e funcionais em relação ao capital, poderemos voltar a nos orientar corretamente.
No marco da globalização, não se pode raciocinar como raciocinam os Parlamentos nos países da Europa e o Parlamento Europeu, com homens e “mídia ou imprensa-empresa” votando a favor da intervenção francesa (e foi particularmente odiosa, em Estrasburgo, a atitude belicosa dos Verdes europeus).
Gilles Kepel – talvez o maior especialista em temas árabes conhecido no ocidente – destaca que “o que está em jogo no Mali é um desafio à civilização na época da globalização. O Sahel é, ao mesmo tempo, vítima por excelência e lugar da incandescência”.
Acrescentamos: a resistência e a guerrilha anti-imperialista naquele desesperado local despossuído e devastado são luta anticapitalista. Não gostaremos de ter de reconhecer que os islâmicos têm razão.
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Postado por
ERick
em
2/16/2013
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A França entre Danton e Depardieu
Por Mauro Santayana
Em atrito com Robespierre e aconselhado a fugir, enquanto havia tempo, Danton repeliu a ideia com a pergunta dura: alguém pode levar a pátria na sola dos sapatos?
Conduzido à guilhotina teve, diante da visão da lâmina armada, seu momento de medo. Estava recém-casado com mulher bem mais jovem, e muito bela, e foi golpeado pela idéia de que a deixaria aos outros. Confessou aos circunstantes o seu desespero. A honra o conteve, ainda a tempo. Em voz poderosa, recriminou-se: Seja homem, Danton, morra com dignidade!
Conduzido à guilhotina teve, diante da visão da lâmina armada, seu momento de medo. Estava recém-casado com mulher bem mais jovem, e muito bela, e foi golpeado pela idéia de que a deixaria aos outros. Confessou aos circunstantes o seu desespero. A honra o conteve, ainda a tempo. Em voz poderosa, recriminou-se: Seja homem, Danton, morra com dignidade!
Gerard Depardieu é um dos maiores atores do mundo, e se destacou no papel de Danton. Não se destaca pela aparência, nada apolínea, mas é capaz de viver qualquer personagem diante da câmera. É dos homens mais ricos da França. Inconformado pelo projeto de François Hollande (já rejeitado pelo Conselho Constitucional) que visava a aumentar o imposto sobre as maiores rendas, Depardieu pediu e obteve a cidadania russa. Partiu para Moscou, levando a sua pátria no bolso.
Levar a pátria no bolso é um velho costume daqueles que fazem do dinheiro a sua razão de viver. Os artistas, normalmente, não agem como está agindo o excelente ator. Muitos deles costumam agir preocupados com a Humanidade. Ao assumir as emoções atribuídas aos personagens pelos dramaturgos, delas sempre sobram sentimentos que conduzem a própria atitude política. Mas nem sempre é assim. Nem todos eles são - como os poetas lembrados por Fernando Pessoa - fingidores capazes de fingir a dor que deveras sentem. Às vezes fingem as dores e as alegrias que não sentem.
Fingir vem do verbo latino que significava, em seu início, fazer objetos de barro, como os vasos. Está, assim, associado, à realidade do mundo. Da mesma forma que o oleiro molda o vaso, separando um espaço vazio do vazio que o circunda, o ator cria seu personagem, separando-o da Humanidade que o cerca, mas, dentro desse espaço criado, resume os sentimentos do mundo. E, se for como foi Danton, resume a sua pátria.
Há muito que a ideia de pátria se vem desmoronando. É provável que os sociólogos tenham razão, quando atribuem às comunicações instantâneas, que fizeram o planeta minguar, o esboroar desse sentimento, que dava grandeza aos homens.
Não podemos levar a pátria na sola dos sapatos. E os que, como Depardieu, creem levá-la em sua conta bancária, nunca a tiveram. Tampouco a têm aqueles que, mesmo vivendo dentro das fronteiras de seu país, só cuidam de seus próprios interesses.
Pagar impostos, sobretudo neste momento em que a França procura reerguer-se, depois do assalto dos grandes banqueiros, é um dever de patriotismo. Ao negar-se a fazê-lo, o ator rejeita a pátria, e se assemelha aos bancos que espoliaram seu povo e enviaram dinheiro para os paraísos fiscais – que obtiveram do BIS, de Basiléia – que funciona como banco central do mundo – licença para continuar o saqueio.
Levar a pátria no bolso é um velho costume daqueles que fazem do dinheiro a sua razão de viver. Os artistas, normalmente, não agem como está agindo o excelente ator. Muitos deles costumam agir preocupados com a Humanidade. Ao assumir as emoções atribuídas aos personagens pelos dramaturgos, delas sempre sobram sentimentos que conduzem a própria atitude política. Mas nem sempre é assim. Nem todos eles são - como os poetas lembrados por Fernando Pessoa - fingidores capazes de fingir a dor que deveras sentem. Às vezes fingem as dores e as alegrias que não sentem.
Fingir vem do verbo latino que significava, em seu início, fazer objetos de barro, como os vasos. Está, assim, associado, à realidade do mundo. Da mesma forma que o oleiro molda o vaso, separando um espaço vazio do vazio que o circunda, o ator cria seu personagem, separando-o da Humanidade que o cerca, mas, dentro desse espaço criado, resume os sentimentos do mundo. E, se for como foi Danton, resume a sua pátria.
Há muito que a ideia de pátria se vem desmoronando. É provável que os sociólogos tenham razão, quando atribuem às comunicações instantâneas, que fizeram o planeta minguar, o esboroar desse sentimento, que dava grandeza aos homens.
Não podemos levar a pátria na sola dos sapatos. E os que, como Depardieu, creem levá-la em sua conta bancária, nunca a tiveram. Tampouco a têm aqueles que, mesmo vivendo dentro das fronteiras de seu país, só cuidam de seus próprios interesses.
Pagar impostos, sobretudo neste momento em que a França procura reerguer-se, depois do assalto dos grandes banqueiros, é um dever de patriotismo. Ao negar-se a fazê-lo, o ator rejeita a pátria, e se assemelha aos bancos que espoliaram seu povo e enviaram dinheiro para os paraísos fiscais – que obtiveram do BIS, de Basiléia – que funciona como banco central do mundo – licença para continuar o saqueio.
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Luis Fernando Veríssimo - Camus Superstar
Nos últimos anos criou-se um novo tipo de intelectual francês, produto da televisão e misto de filósofo e pop celebridade. Eles aparecem nos painéis de discussão política ou debate cultural na televisão - e como tem painéis de discussão política e debate cultural na televisão francesa! - são bem articulados, muitas vezes controvertidos e acima de tudo fotogênicos. Na sua maioria são jovens e têm uma quantidade assustadora de cabelo.
Eu estava vendo um desses programas em que eles aparecem e me ocorreu o seguinte: o Albert Camus nasceu na época errada. Tinha tudo para ser uma estrela da mídia, só que não existia a mídia, pelo menos não na maneira avassaladora com que existe hoje. Era um homem bonito, e devia muito do seu destaque no mundo intelectual de Paris - e certamente sua vantagem na comparação com o outro filósofo público da época, Jean-Paul Sartre - ao seu ar de galã "noir". Segundo maldosa fofoca contemporânea, os dois tinham sorte com as mulheres, o Sartre só precisava se esforçar mais um pouquinho.
Tanto Camus quanto Sartre eram celebridades, mas de um círculo restrito. Suas diferenças mais evidentes, e as opiniões políticas que acabaram determinando o fim da sua amizade, foram expostas em artigos e réplicas e tréplicas na imprensa de esquerda, com escassa repercussão fora do círculo. Pode-se imaginar os dois debatendo suas ideias num programa de televisão moderno. Como no debate entre Kennedy e Nixon, que, segundo se diz, definiu a eleição de Kennedy e inaugurou o uso efetivo da televisão como arma eleitoral, Camus e Sartre talvez empatassem nas ideias mas Camus ganharia longe nos quesitos imagem e simpatia. Como o carismático Kennedy ganhou do lúgubre Nixon.
Por menor que seja o público dos seus debates, os novos filósofos eletrônicos têm sempre uma plateia algumas centenas de vezes maior do que a que ouvia Sócrates, por exemplo, na Grécia, ou a dos admiradores de Camus ou Sartre em volta de uma mesa de café em Paris. No caso de Camus, só se pode lamentar seu nascimento precoce. Se há um filósofo que mereceria uma projeção e um público de superstar é ele. Bom, Sócrates também, mas duvido que ele se acostumasse com as luzes.
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A vitória de François Hollande sob a maldição de Mitterrand
Por J. Carlos de Assis
Por mais importante que a França seja na Europa, a eleição de François Hollande para a presidência não dever trazer, no momento, grandes mudanças na política econômica europeia. A Alemanha contracionista continuará no comando e a França, como os demais países da zona do euro, continuará refém dos mercados, pelo menos enquanto o BCE não puder comprar títulos públicos diretamente dos governos numa escala superior à simples rolagem da dívida a fim de possibilitar a retomada do investimento público.
Essa alternativa é inaceitável para a ortodoxa Alemanha. Pode-se prever um forte embate entre Hollande e Merkel, pelo menos até as eleições gerais na própria Alemanha que porão em jogo o poder da Chanceler. Até lá, a marcha real da crise muito provavelmente enfraquecerá a posição alemã, embora o desfecho do embate sofrerá a fortíssima influência de um fator externo tradicionalmente decisivo para a política europeia: a reeleição ou não de Barack Obama e a composição partidária do Congresso americano.
Da eleição de Hollande pode-se dizer o que o provérbio popular diz das posições solitárias num contexto adverso: uma andorinha só não faz verão. Lembre-se a primeira eleição de um socialista, François Mitterrand, no início dos aos 80. Ele se apresentara ao eleitorado com uma plataforma progressista, centrada na estatização de empresas e bancos considerados estratégicos para a economia e a sociedade. Estava na exata contramão do neoliberalismo então capitaneado por Thatcher e Reagan.
O “mercado” e a ideologia neoliberal em plena ascensão, baseada no princípio da liberalização financeira, levaram Mitterrand à capitulação. Em meados de 1982, seu ministro da Fazenda, Giscard d´Estaing, comunicou ao Presidente, numa reunião de gabinete, que a França, sob um severo ataque especulativo, tinha reservas não para meses, ou para muitas semanas, mas para alguns dias. No meio do pânico geral, Mitterrand deu uma virada de 180 graus na política econômica e aumentou espetacularmente os juros, seguindo o rastro do neoliberalismo triunfante.
Eu testemunhei essa virada cobrindo a reunião dos Sete Grandes em Bonn em 1985. Fiquei desolado ao ver Mitterrand e o premiê italiano, também socialista, Betino Craxi, subscreverem um documento final que trazia todos os elementos básicos da ideologia neoliberal: globalização financeira, liberalização, primado absoluto do privado sobre o público. Esse momento foi decisivo na uniformização das políticas dos países industrializados avançados em torno dos princípios neoliberais; o Consenso de Washington, alguns anos depois, representou apenas uma formalização acadêmica.
O que se pode esperar, então, objetivamente, da eleição de Hollande? Certamente ela tem aspectos positivos. Haverá um aumento de pressão, junto com a Itália e a Espanha, para que a Europa retome os investimentos públicos. Para financiá-los, pode-se recorrer à fórmula já defendida no âmbito da Comissão Europeia de se lançar um título europeu com a garantia do bloco. O problema com essa fórmula é que ela pode deprimir ainda mais o valor dos títulos dos governos nacionais, elevando a níveis insuportáveis o custo do refinanciamento da sua dívida pública corrente.
O que se pode prever que vá efetivamente ocorrer? Primeiramente, há uma questão técnica, pouco levada em conta por políticos: não é possível, em termos contábeis, aumentar o investimento público líquido e reduzir o déficit e a dívida pública. O investimento relevante para a retomada do desenvolvimento é o investimento deficitário, isto é, aquele que representa um gasto público financiado por dívida (ou receita de senhoriagem), não por tributo, que é contracionista. Significa mobilizar recursos privados ociosos para investimentos concretos sem elevação de impostos.
O “mercado” não gosta disso. Quer que a dívida e o déficit público sejam reduzidos. Embora isso não impeça investimentos públicos, impede investimentos novos. Uma queda de braços em torno da questão do investimento público novo entre “mercado” e o governo Hollade é perfeitamente previsível. A única defesa que o novo governo francês tem é o BCE, que pode comprar seus títulos, diluindo o poder do “mercado”. Claro, para que isso aconteça, seránecessário falar com a Merkel, ou esperar que ela seja derrubada pelo voto no próximo ano.
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O renascimento da esquerda francesa
Por Erick da Silva
A França não teve grandes movimentos de “indignados” ocupando as praças e avenidas, ao contrário de países europeus mais duramente afetados pela crise. As eleições francesas deste ano tinham tudo para repetir a mesma pasmaceira de outros pleitos, onde conservadores e moderados disputariam a gerência de uma política, que no central, não se diferencia.
O Partido Socialista (PS), há muito deixou de ser uma real alternativa mudancista para a sociedade francesa. O conjunto de governos do PS adotaram um conjunto de políticas muito distantes de um programa de esquerda. Estes retrocessos políticos provocaram um forte desencanto e perda de legitimidade social junto a setores críticos da sociedade.
Mesmo assim, não perdeu sua densidade eleitoral. O “cálculo pragmático” de muitos eleitores franceses ajuda a explicar a permanência de sua força eleitoral. A fragmentação das forças situadas no campo da esquerda francesa (comunistas, trotskistas, anti-capitalistas, ecologistas radicais, etc.) jamais conseguiram representar uma real alternativa de poder para a disputa presidencial. O candidato do PS, Francois Hollande, projeta-se como a principal alternativa eleitoral para impedir a reeleição do direitista Nicolas Sarkosy.
Mas esta eleição reservou uma importante novidade. A força e o impacto da Frente de Esquerda e da candidatura de Jean-Luc Mélenchon. A dinâmica da Frente de Esquerda transformou a campanha eleitoral em um movimento popular e de massas com notáveis amplitude, energia e força. Após décadas de retrocesso da esquerda e de campanhas eleitorais rotineiras protagonizadas pela direita, extrema direita e pela social-democracia, surge uma candidatura e uma força política que, mesmo não tendo ainda o perfil de candidatura vitoriosa, transforma-se em um fator decisivo para a mudança do quadro político.
Surpreendente para muitos foi a sua notável aceitação no eleitorado francês: em janeiro, Mélenchon tinha 6% dos votos; as últimas pesquisas já indicavam um notável crescimento, chegando a casa dos 15%, já se credenciado a ser o voto de minerva no 2º turno. Este despenho da Frente de Esquerda representa um importante sopro de renovação para esquerda francesa. Apresentando um programa político radical, na atual adversidade de forças que enfrentam os progressistas, se impor como fator de esperança através desse programa, e conseguindo ampliar para além dos desiludidos do PS ou das organizações sectárias, mobilizando abstencionistas e indivíduos que tradicionalmente não se engajavam, já se converte em novo e formidável patrimônio político que não deve ser menosprezado.
A campanha de Mélenchon tem buscado, corajosamente apresentar uma saída de esquerda para a crise do capitalismo e que busque renovar o programa da esquerda pós-neoliberal. É com esta ousadia que se apresenta a Frente de Esquerda. Como ele afirmou em entrevista a Carta Maior: “Eu diria aos camaradas que quisessem nos imitar que às vezes há que se pegar o velho vocabulário, deixá-lo de lado, voltar a começar desde o zero, como se acabássemos de nascer. Através das palavras podemos criar uma nova gramática, uma síntese nova de convergências extraordinárias.”
Mais notável ainda é o reconhecimento de que hoje o polo dinâmico da esquerda mundial está situado na América Latina. A esquerda europeia, de um modo geral, sempre adotou uma postura marcadamente eurocêntrica, pouco observando as construções alternativas que ocorriam ao seu redor. Quando Mélenchon afirma que “(...) os modelos que tomamos como inspiração são os da América Latina, eu me inspirei no que aconteceu lá.” é possível compreender esta construção inovadora para a esquerda francesa. Mélenchon demonstra de que forma esta experiência se materializou na construção francesa, onde afirma, “a Frente de Esquerda é uma fórmula política que liga partidos muito diferentes. Agora temos até ecologistas oriundos das tendências mais radicais. Na mesma Frente temos partidários do não crescimento, partidários do crescimento e comunistas.
Todos chegaram a uma intersecção. Este caso, o modelo que se pode evocar é o da Frente Ampla uruguaio. Para mim foi uma fonte de inspiração, há muitos anos. A revolução cidadã é um projeto federativo, porque inclui a ideia do poder cidadão. Essa palavra permitiu a convergência de tradições revolucionárias muito distintas. Pois bem, esta ideia eu a tomei do Equador. A maneira de enfrentar o sistema dos meios de comunicação eu a tomei de Néstor e Cristina Kirchner. Aqui, na França, atribuíram esse estilo ao meu mau humor, a minhas dificuldades, mas na realidade, não é assim: eles me manipulam e eu os manipulo. Agora os trato a pão seco, assim como o fizeram o ex-presidente Néstor Kirchner e a presidenta Cristina Kirchner. Em suma, inspiro-me muito na tradição revolucionária da América Latina. Nossa consigna é: que se vayan todos! Esta consigna eu a tirei da crise argentina de 2001.” Esta é uma mudança paradigmática significativa.
Uma das principais lições que campanha de Mélenchon tem apontado é que não basta ser anti-neoliberal para representar um projeto de transformação da sociedade. As soluções para a grave crise do capitalismo, deve buscar lançar pontes com um projeto de mudanças profundas na sociedade. Incorporando a necessária centralidade da ecologia na estratégia de superação do capitalismo e buscando, neste processo, renovar e constituir uma nova e dinâmica síntese política e organizativa para a esquerda do século XXI. Saudemos a renovação da esquerda francesa!
A França não teve grandes movimentos de “indignados” ocupando as praças e avenidas, ao contrário de países europeus mais duramente afetados pela crise. As eleições francesas deste ano tinham tudo para repetir a mesma pasmaceira de outros pleitos, onde conservadores e moderados disputariam a gerência de uma política, que no central, não se diferencia.
O Partido Socialista (PS), há muito deixou de ser uma real alternativa mudancista para a sociedade francesa. O conjunto de governos do PS adotaram um conjunto de políticas muito distantes de um programa de esquerda. Estes retrocessos políticos provocaram um forte desencanto e perda de legitimidade social junto a setores críticos da sociedade.
Mesmo assim, não perdeu sua densidade eleitoral. O “cálculo pragmático” de muitos eleitores franceses ajuda a explicar a permanência de sua força eleitoral. A fragmentação das forças situadas no campo da esquerda francesa (comunistas, trotskistas, anti-capitalistas, ecologistas radicais, etc.) jamais conseguiram representar uma real alternativa de poder para a disputa presidencial. O candidato do PS, Francois Hollande, projeta-se como a principal alternativa eleitoral para impedir a reeleição do direitista Nicolas Sarkosy.
Mas esta eleição reservou uma importante novidade. A força e o impacto da Frente de Esquerda e da candidatura de Jean-Luc Mélenchon. A dinâmica da Frente de Esquerda transformou a campanha eleitoral em um movimento popular e de massas com notáveis amplitude, energia e força. Após décadas de retrocesso da esquerda e de campanhas eleitorais rotineiras protagonizadas pela direita, extrema direita e pela social-democracia, surge uma candidatura e uma força política que, mesmo não tendo ainda o perfil de candidatura vitoriosa, transforma-se em um fator decisivo para a mudança do quadro político.
Surpreendente para muitos foi a sua notável aceitação no eleitorado francês: em janeiro, Mélenchon tinha 6% dos votos; as últimas pesquisas já indicavam um notável crescimento, chegando a casa dos 15%, já se credenciado a ser o voto de minerva no 2º turno. Este despenho da Frente de Esquerda representa um importante sopro de renovação para esquerda francesa. Apresentando um programa político radical, na atual adversidade de forças que enfrentam os progressistas, se impor como fator de esperança através desse programa, e conseguindo ampliar para além dos desiludidos do PS ou das organizações sectárias, mobilizando abstencionistas e indivíduos que tradicionalmente não se engajavam, já se converte em novo e formidável patrimônio político que não deve ser menosprezado.
A campanha de Mélenchon tem buscado, corajosamente apresentar uma saída de esquerda para a crise do capitalismo e que busque renovar o programa da esquerda pós-neoliberal. É com esta ousadia que se apresenta a Frente de Esquerda. Como ele afirmou em entrevista a Carta Maior: “Eu diria aos camaradas que quisessem nos imitar que às vezes há que se pegar o velho vocabulário, deixá-lo de lado, voltar a começar desde o zero, como se acabássemos de nascer. Através das palavras podemos criar uma nova gramática, uma síntese nova de convergências extraordinárias.”
Mais notável ainda é o reconhecimento de que hoje o polo dinâmico da esquerda mundial está situado na América Latina. A esquerda europeia, de um modo geral, sempre adotou uma postura marcadamente eurocêntrica, pouco observando as construções alternativas que ocorriam ao seu redor. Quando Mélenchon afirma que “(...) os modelos que tomamos como inspiração são os da América Latina, eu me inspirei no que aconteceu lá.” é possível compreender esta construção inovadora para a esquerda francesa. Mélenchon demonstra de que forma esta experiência se materializou na construção francesa, onde afirma, “a Frente de Esquerda é uma fórmula política que liga partidos muito diferentes. Agora temos até ecologistas oriundos das tendências mais radicais. Na mesma Frente temos partidários do não crescimento, partidários do crescimento e comunistas.
Todos chegaram a uma intersecção. Este caso, o modelo que se pode evocar é o da Frente Ampla uruguaio. Para mim foi uma fonte de inspiração, há muitos anos. A revolução cidadã é um projeto federativo, porque inclui a ideia do poder cidadão. Essa palavra permitiu a convergência de tradições revolucionárias muito distintas. Pois bem, esta ideia eu a tomei do Equador. A maneira de enfrentar o sistema dos meios de comunicação eu a tomei de Néstor e Cristina Kirchner. Aqui, na França, atribuíram esse estilo ao meu mau humor, a minhas dificuldades, mas na realidade, não é assim: eles me manipulam e eu os manipulo. Agora os trato a pão seco, assim como o fizeram o ex-presidente Néstor Kirchner e a presidenta Cristina Kirchner. Em suma, inspiro-me muito na tradição revolucionária da América Latina. Nossa consigna é: que se vayan todos! Esta consigna eu a tirei da crise argentina de 2001.” Esta é uma mudança paradigmática significativa.
Uma das principais lições que campanha de Mélenchon tem apontado é que não basta ser anti-neoliberal para representar um projeto de transformação da sociedade. As soluções para a grave crise do capitalismo, deve buscar lançar pontes com um projeto de mudanças profundas na sociedade. Incorporando a necessária centralidade da ecologia na estratégia de superação do capitalismo e buscando, neste processo, renovar e constituir uma nova e dinâmica síntese política e organizativa para a esquerda do século XXI. Saudemos a renovação da esquerda francesa!
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Ocidente equipa serviços de espionagem de países que condena
Por Eduardo Febbro
As democracias ocidentais têm grandes dificuldades para esconder o rabo do diabo. As potências que no interior do Conselho de Segurança da ONU promovem resoluções em defesa dos Direitos Humanos ou para condenar o regime sírio, egípcio, líbio ou iraniano são as mesmas que venderam a esses regimes - e a outros - o material tecnológico necessário para vigiar e reprimir a oposição. A hipocrisia é uma regra de ouro: a comunidade internacional invoca os valores por um lado e, pelo outro, entrega com chaves nas mãos os instrumentos tecnológicos usados para submeter os povos.
Narus – uma filial da Boeing - no Egito, Nokia-Siemens no Irã e Bahrein, a francesa Bull, a chinesa ZTE Corp e a sul-africana VASTech na Líbia, as norte-americanas Cisco e Nortel na China, a lista e a relação das multinacionais tecnológicas com os governos que infringem as liberdades ou condenados pela ONU é extensa. E como nunca falta uma nova oportunidade de fazer suculentos negócios, a essa lista se agrega agora a Síria.
A comunidade internacional adotou um pacote de medidas contra Damasco onde figura a proibição da venda de armas, mas esse pacote exclui as tecnologias de ponta que permitem, entre outras violações, controlar a Internet ou vigiar os telefones móveis. A empresa italiana Area SPA vendeu à Síria um conjunto de programas de origem norte-americana, francesa e alemã para realizar um scanner, tanto das atividades dos usuários da Internet como de suas comunicações telefônicas. O contrato, por um montante de 13 milhões de euros, contou com a participação da empresa Californiana NetApp, a alemã Ultimaco Safeware AG e, segundo o portal de investigações econômicas Bloomberg, até a Hewlett-Packard entrou na entrega de componentes. O quarto participante nesta estrutura é Qosmos, uma empresa com sede em Paris e cuja tecnologia permite analisar as comunicações através das redes móveis por meio da inspeção de pacotes (DPI, Deep Packet Inspection). Trata-se do mesmo dispositivo que a empresa norte-americana Narus havia vendido ao derrubado Hosny Mubarak, no Egito.
A democracia empresarial não tem fronteiras. As ONGs defensoras dos direitos humanos e das liberdades ligam, com justa razão, essas tecnologias à “cumplicidade com crimes de guerra” porque, através delas é que se espiona a dissidência, se perseguem e se localizam indivíduos, possibilita-se sua prisão, ou mesmo sua morte e se limita toda forma de liberdade. A Qosmos detalha com rigorosa concisão a capacidade de seus produtos. Em sua página web pode ser lido esta apresentação: “A Qosmos fornece uma tecnologia de inteligência de rede que identifica e analisa em tempo real os dados que transitam na rede”. No concreto, é perfeitamente possível “reconstruir” tudo o que acontece pela tela de um computador. Os correios eletrônicos ou Skype deixam de ser lugares de privacidade. Assim, as companhias ocidentais colaboram estreitamente com os governos autoritários.
Dupla linguagem, duplo jogo: acusadora na ONU por um lado, fornecedora de tecnologia avançada pelo outro. No caso sírio, a astúcia consistiu em vender o material para Itália e não diretamente à Síria. A Area SPA fez-se assim de intermediário entre Damasco e o resto do mundo. O material de vigilância foi instalado no bairro Mouhajireen, onde uma sala especialmente preparada para isso controlava as comunicações através de 40 terminais. A operação é conhecida com o nome código de “Asfador”. Em um comunicado emitido no final de 2001, a Qosmos explicou que seu “negócio não é a venda de material de vigilância”. Segundo a Qosmos, “a sociedade vende a empresas ou associados que integram nossos componentes às suas próprias aplicações e assumem a comercialização. Isso é o que aconteceu com o projeto sírio”.
O exemplo da Síria não é mais que o último de uma interminável série de colaborações entre as empresas que manejam tecnologia de ponta e as autocracias ou regimes autoritários que fazem da espionagem dos cidadãos a melhor arma de repressão. A Nokia-Siemens se notabilizou a partir de 2007 com a venda ao regime iraniano de um sofisticado dispositivo de espionagem global: Internet, emails, VoIP, Twitter, MySpace, Facebook, comunicações por móveis, SMS, nada escapava à joia vendida pela multinacional finlandesa. A Líbia do falecido Coronel Khadafi foi outro campo semeado com as sementes tecnológicas de ocidente, desta vez, paradoxalmente, oriundas da França.
O presidente Nicolas Sarkozy foi o principal promotor da resolução das Nações Unidas que autorizou o uso da força na Líbia. Os primeiros aviões que bombardearam o território líbio foram também franceses. Paris foi também o primeiro país que reconheceu o Conselho Nacional de Transição líbio – a oposição - como o “interlocutor legítimo do povo líbio”. Entretanto, Khadafi espionava, perseguia e prendia os opositores que a França apoiava com tecnologia vendida pela empresa francesa i2e/Amesys, uma filial da Bull. O principio é o mesmo: o famoso e temível Deep Packet Inspection, por meio do qual tudo o que atravesse uma tela deixa de ser segredo. O DPI é a arma mais eficaz para esmagar qualquer resistência. Quando o bunker onde Khadafi havia montado o sistema de vigilância foi bombardeado, os opositores encontraram entre os escombros cópias das mensagens que os ativistas enviavam entre si. Mais ilustrativo ainda, na porta do Bunker estava colado o logo de Amesys.
Narus, a filial da Boeing que vendeu a Hosny Mubarak o mesmo produto, fecha este cínico capítulo de dois gumes: em 2011, enquanto as bombas caíam sobre a Líbia e neutralizavam parte do material que o Ocidente havia vendido a Khadafi, a Narus negociava em segredo, em Barcelona, com o regime do coronel, novos contratos tecnológicos para aperfeiçoar seu próprio sistema, complementar ao da Amesys. O diabo sacode o rabo por baixo do manto da democracia ocidental.
Tradução: Libório Junior
Postado por
ERick
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3/27/2012
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Capitalismo de desastre: abutres sobre a Líbia
O neonapoleônico Nicolas Sarkozy da França e o britânico David das Arábias Cameron acreditam que estarão especialmente bem posicionados para lucrar com a vitória da OTAN.
Por Pepe Escobar
Pensem na nova Líbia como último espetacular capítulo da série “Capitalismo de Desastre”. Em vez de armas de destruição em massa, tivemos a R2P (“responsabilidade de proteger”). Em vez de neoconservadores, imperialistas humanitários.
Mas o alvo é sempre o mesmo: mudança de regime. E o projeto é o mesmo: desmantelar e privatizar uma nação que não se integrou ao turbo-capitalismo; abrir mais uma (lucrativa) terra de oportunidades para o neoliberalismo super turbinado. E a coisa vem em boa hora, porque acontece em momento já próximo de plena recessão global.
Demorará um pouco. O petróleo líbio não voltará ao mercado antes de 18 meses. Mas há o negócio da reconstrução de tudo que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) bombardeou (sim, sim, nem tudo que o Pentágono bombardeou em 2003 foi reconstruído no Iraque...)
Seja como for – do petróleo à reconstrução – brotam oportunidades para negócios sumarentos. O neonapoleônico Nicolas Sarkozy da França e o britânico David das Arábias Cameron acreditam que estarão especialmente bem posicionados para lucrar com a vitória da OTAN. Mas nada garante que a nova bonança baste para arrancar da recessão as duas ex-potências coloniais (neocoloniais?).
O presidente Sarkozy em particular mamará nas oportunidades comerciais para empresas francesas o mais que possa – parte de sua ambiciosa agenda de “reposicionamento estratégico” da França no mundo árabe. Uma imprensa francesa complacente decidiu armar os ‘rebeldes’ com armamento francês, em íntima cooperação com o Qatar, incluindo uma unidade de comandos ‘rebeldes’ mandada por mar de Misrata para Trípoli sábado passado, no início da “Operação Sirene”.[1]
Bem, já se viram movimentos de abertura desses desenvolvimentos, desde quando o chefe de protocolo de Muammar Gaddafi fugiu para Paris, em outubro de 2010. Foi quando todo esse drama de mudança de regime começou a ser incubado.
Bombas em troca de petróleo
Como já observado (ver “Bem-vindos à ‘democracia’ líbia”, em http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/08/pepe-escobar-bem-vindos-democracia.html), os abutres já voejam sobre Trípoli para devorar (e monopolizar) os despojos. E, sim – grande parte da ação tem a ver com negócios de petróleo, como disse Abdeljalil Mayouf, gerente de informações da Arabian Gulf Oil Company ‘rebelde’, em declaração nua e crua: “Não temos problemas com países ocidentais como empresas italianas, francesas e britânicas. Mas podemos ter algumas questões políticas com Rússia, China e Brasil.”
Esses três são membros crucialmente importantes do grupo BRICS das economias emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), países que estão crescendo, enquanto as economias atlanticistas e OTAN-bombardeantes estão afundadas em estagnação ou recessão. Os quatro principais BRICSs também se abstiveram na votação que aprovou a Resolução n. 1.973 do Conselho de Segurança da ONU, a mascarada daquela ‘zona aérea de exclusão’ que depois se metamorfoseou em bombardeio cerrado, pela OTAN, para forçar, de cima para baixo, uma ‘mudança de regime’. Esses países viram corretamente o que havia para ver, desde o início.
Para piorar (para eles) ainda mais as coisas, só três dias antes de o Africom (Comando Africano) do Pentágono lançar seus primeiros 150 (ou mais) Tomahawks contra a Líbia, o coronel Gaddafi deu entrevista à televisão alemã, na qual destacou que, se o país fosse atacado, todos os contratos de energia seriam transferidos para empresas russas, indiana e chinesas.
Assim sendo, os vencedores da bonança do petróleo já estão designados: membros da OTAN mais monarquias árabes. Dentre as empresas envolvidas, a British Petroleum (BP), a francesa Total e a empresa nacional de petróleo do Qatar. Do ponto de vista do Qatar – que investiu jatos de combate e soldados na linha de frente, treinou ‘rebeldes’ em táticas de combate exaustivo e já está negociando vendas de petróleo no leste da Líbia – a guerra se comprovará muito esperta decisão de investimento.
Antes da crise que já dura meses e está agora nos movimentos finais, com os ‘rebeldes’ já na capital, Trípoli, a Líbia estava produzindo 1,6 milhões de barris/dia de petróleo. Quando recomeçar a produzir, os novos senhores de Trípoli colherão alguma coisa como US$50 bilhões/ano. Estima-se que as reservas líbias cheguem a 46,4 bilhões de barris.
Melhor farão os ‘rebeldes’ da nova Líbia se não se meterem com a China. Há cinco meses, a política oficial chinesa já era exigir um cessar-fogo; tivesse acontecido, Gaddafi ainda controlaria mais da metade da Líbia. Pequim – que jamais foi fã de ‘mudança de regime’ violenta – está exercitando, por hora, a arte da moderação extrema.
Zhongliang, chefe do Ministério do Comércio, observou, otimista, que “a Líbia continuará a proteger os interesses e direitos dos investidores chineses, e esperamos manter os investimentos e a cooperação econômica”. Abundam as declarações oficiais que enfatizam a “mútua cooperação econômica”.
Semana passada, Abdel Hafiz Ghoga, vice-presidente do sinistro Conselho Nacional de Transição, disse à rede de notícia Xinhua que serão respeitados todos os negócios e contratos firmados com o regime de Gaddafi. – Mas Pequim não quer saber de correr riscos.
A Líbia forneceu apenas 3% do petróleo que a China consumiu em 2010. Angola é fornecedor muito mais crucial. Mas a China ainda é o principal consumidor de petróleo líbio na Ásia. Além disso, a China pode ser muito útil no front da reconstrução da infraestrutura, ou na exportação de tecnologia – nada menos que 75 empresas chinesas, com 36 mil empregados já trabalhavam na Líbia antes do início da guerra civil/tribal (e foram evacuados, com eficiência e sem alarde, em menos de três dias).
Os russos – da Gazprom à Tafnet – tinham bilhões de dólares investidos em projetos na Líbia; as brasileiras Petrobras, gigante do petróleo e a empresa construtora Odebrecht também tinham interesses lá. Ainda não se sabe exatamente o que acontecerá com eles. O diretor geral do Conselho de Comércio Rússia-Líbia, Aram Shegunts, está extremamente preocupado: “Nossas empresas perderão tudo, porque a OTAN impedirá que façam negócios na Líbia.”
A Itália logo entendeu que lá teria de ficar, “com ‘rebeldes’ ou sem”. A gigante italiana ENI, parece, não será afetada, dado que o primeiro-ministro Silvio “Bunga Bunga” Berlusconi pragmaticamente abandonou seu ex-íntimo amigo Gaddafi, logo no início do bombardeio EUA-Africacom/OTAN.
Os diretores da ENI italiana estão confiantes de que o petróleo líbio recomeçará a fluir para o sul da Itália ainda antes do inverno. E o embaixador da Líbia na Itália, Hafed Gaddur, disse a Roma que os contratos da era Gaddafi serão honrados. Por via das dúvidas, Berlusconi se reunirá com o primeiro-ministro do Conselho Nacional de Transição, Mahmoud Jibril, na próxima quinta-feira, em Milão.
Bin Laden os salvará[2]
O ministro das Relações Exteriores da Turquia Ahmet Davutoglu – da famosa política de “zero problemas com nossos vizinhos” – também já andou elogiando os ex-‘rebeldes’ convertidos em poder de fato. Também de olhos postos na bonança de negócios da era pós-Gaddafi, Ankara – que é o flanco oriental da OTAN – terminou por ajudar a impor um bloqueio naval contra o regime de Gaddafi, cultivou atentamente o Conselho Nacional de Transição e, em julho, reconheceu-o formalmente como governo da Líbia. Business “recompensa” os ardilosos.
Chegamos afinal ao coração desse script: o que a Casa de Saud lucrará por ter sido instrumento para implantar um regime amigável na Líbia, possivelmente salpicado de salafitas notáveis; uma das razões chaves para o massacre imposto pelos sauditas – que incluiu um voto inventado na Liga Árabe – foi o ódio furioso que separou Gaddafi e o rei Abdullah, desde as primeiras escaramuças que levaram à guerra contra o Iraque em 2002.
Nunca será demasiado destacar a hipocrisia cósmica de uma monarquia/teocracia medieval absoluta ultra reacionária – que invadiu o Bahrain e reprimiu com brutalidade os xiitas locais – apoiar o que se apresenta como movimento pró-democracia no Norte da África.
Seja como for, é hora de celebrarem. Em breve, lá estará o grupo saudita Bin Laden Construtora, para reconstruir feito doido em toda a Líbia – é possível que transformem Bab al-Aziziyah (que foi saqueado) em hotel-shopping center de luxo monstro da Tripolitânia.
NOTAS
Demorará um pouco. O petróleo líbio não voltará ao mercado antes de 18 meses. Mas há o negócio da reconstrução de tudo que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) bombardeou (sim, sim, nem tudo que o Pentágono bombardeou em 2003 foi reconstruído no Iraque...)
Seja como for – do petróleo à reconstrução – brotam oportunidades para negócios sumarentos. O neonapoleônico Nicolas Sarkozy da França e o britânico David das Arábias Cameron acreditam que estarão especialmente bem posicionados para lucrar com a vitória da OTAN. Mas nada garante que a nova bonança baste para arrancar da recessão as duas ex-potências coloniais (neocoloniais?).
O presidente Sarkozy em particular mamará nas oportunidades comerciais para empresas francesas o mais que possa – parte de sua ambiciosa agenda de “reposicionamento estratégico” da França no mundo árabe. Uma imprensa francesa complacente decidiu armar os ‘rebeldes’ com armamento francês, em íntima cooperação com o Qatar, incluindo uma unidade de comandos ‘rebeldes’ mandada por mar de Misrata para Trípoli sábado passado, no início da “Operação Sirene”.[1]
Bem, já se viram movimentos de abertura desses desenvolvimentos, desde quando o chefe de protocolo de Muammar Gaddafi fugiu para Paris, em outubro de 2010. Foi quando todo esse drama de mudança de regime começou a ser incubado.
Bombas em troca de petróleo
Como já observado (ver “Bem-vindos à ‘democracia’ líbia”, em http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/08/pepe-escobar-bem-vindos-democracia.html), os abutres já voejam sobre Trípoli para devorar (e monopolizar) os despojos. E, sim – grande parte da ação tem a ver com negócios de petróleo, como disse Abdeljalil Mayouf, gerente de informações da Arabian Gulf Oil Company ‘rebelde’, em declaração nua e crua: “Não temos problemas com países ocidentais como empresas italianas, francesas e britânicas. Mas podemos ter algumas questões políticas com Rússia, China e Brasil.”
Esses três são membros crucialmente importantes do grupo BRICS das economias emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), países que estão crescendo, enquanto as economias atlanticistas e OTAN-bombardeantes estão afundadas em estagnação ou recessão. Os quatro principais BRICSs também se abstiveram na votação que aprovou a Resolução n. 1.973 do Conselho de Segurança da ONU, a mascarada daquela ‘zona aérea de exclusão’ que depois se metamorfoseou em bombardeio cerrado, pela OTAN, para forçar, de cima para baixo, uma ‘mudança de regime’. Esses países viram corretamente o que havia para ver, desde o início.
Para piorar (para eles) ainda mais as coisas, só três dias antes de o Africom (Comando Africano) do Pentágono lançar seus primeiros 150 (ou mais) Tomahawks contra a Líbia, o coronel Gaddafi deu entrevista à televisão alemã, na qual destacou que, se o país fosse atacado, todos os contratos de energia seriam transferidos para empresas russas, indiana e chinesas.
Assim sendo, os vencedores da bonança do petróleo já estão designados: membros da OTAN mais monarquias árabes. Dentre as empresas envolvidas, a British Petroleum (BP), a francesa Total e a empresa nacional de petróleo do Qatar. Do ponto de vista do Qatar – que investiu jatos de combate e soldados na linha de frente, treinou ‘rebeldes’ em táticas de combate exaustivo e já está negociando vendas de petróleo no leste da Líbia – a guerra se comprovará muito esperta decisão de investimento.
Antes da crise que já dura meses e está agora nos movimentos finais, com os ‘rebeldes’ já na capital, Trípoli, a Líbia estava produzindo 1,6 milhões de barris/dia de petróleo. Quando recomeçar a produzir, os novos senhores de Trípoli colherão alguma coisa como US$50 bilhões/ano. Estima-se que as reservas líbias cheguem a 46,4 bilhões de barris.
Melhor farão os ‘rebeldes’ da nova Líbia se não se meterem com a China. Há cinco meses, a política oficial chinesa já era exigir um cessar-fogo; tivesse acontecido, Gaddafi ainda controlaria mais da metade da Líbia. Pequim – que jamais foi fã de ‘mudança de regime’ violenta – está exercitando, por hora, a arte da moderação extrema.
Zhongliang, chefe do Ministério do Comércio, observou, otimista, que “a Líbia continuará a proteger os interesses e direitos dos investidores chineses, e esperamos manter os investimentos e a cooperação econômica”. Abundam as declarações oficiais que enfatizam a “mútua cooperação econômica”.
Semana passada, Abdel Hafiz Ghoga, vice-presidente do sinistro Conselho Nacional de Transição, disse à rede de notícia Xinhua que serão respeitados todos os negócios e contratos firmados com o regime de Gaddafi. – Mas Pequim não quer saber de correr riscos.
A Líbia forneceu apenas 3% do petróleo que a China consumiu em 2010. Angola é fornecedor muito mais crucial. Mas a China ainda é o principal consumidor de petróleo líbio na Ásia. Além disso, a China pode ser muito útil no front da reconstrução da infraestrutura, ou na exportação de tecnologia – nada menos que 75 empresas chinesas, com 36 mil empregados já trabalhavam na Líbia antes do início da guerra civil/tribal (e foram evacuados, com eficiência e sem alarde, em menos de três dias).
Os russos – da Gazprom à Tafnet – tinham bilhões de dólares investidos em projetos na Líbia; as brasileiras Petrobras, gigante do petróleo e a empresa construtora Odebrecht também tinham interesses lá. Ainda não se sabe exatamente o que acontecerá com eles. O diretor geral do Conselho de Comércio Rússia-Líbia, Aram Shegunts, está extremamente preocupado: “Nossas empresas perderão tudo, porque a OTAN impedirá que façam negócios na Líbia.”
A Itália logo entendeu que lá teria de ficar, “com ‘rebeldes’ ou sem”. A gigante italiana ENI, parece, não será afetada, dado que o primeiro-ministro Silvio “Bunga Bunga” Berlusconi pragmaticamente abandonou seu ex-íntimo amigo Gaddafi, logo no início do bombardeio EUA-Africacom/OTAN.
Os diretores da ENI italiana estão confiantes de que o petróleo líbio recomeçará a fluir para o sul da Itália ainda antes do inverno. E o embaixador da Líbia na Itália, Hafed Gaddur, disse a Roma que os contratos da era Gaddafi serão honrados. Por via das dúvidas, Berlusconi se reunirá com o primeiro-ministro do Conselho Nacional de Transição, Mahmoud Jibril, na próxima quinta-feira, em Milão.
Bin Laden os salvará[2]
O ministro das Relações Exteriores da Turquia Ahmet Davutoglu – da famosa política de “zero problemas com nossos vizinhos” – também já andou elogiando os ex-‘rebeldes’ convertidos em poder de fato. Também de olhos postos na bonança de negócios da era pós-Gaddafi, Ankara – que é o flanco oriental da OTAN – terminou por ajudar a impor um bloqueio naval contra o regime de Gaddafi, cultivou atentamente o Conselho Nacional de Transição e, em julho, reconheceu-o formalmente como governo da Líbia. Business “recompensa” os ardilosos.
Chegamos afinal ao coração desse script: o que a Casa de Saud lucrará por ter sido instrumento para implantar um regime amigável na Líbia, possivelmente salpicado de salafitas notáveis; uma das razões chaves para o massacre imposto pelos sauditas – que incluiu um voto inventado na Liga Árabe – foi o ódio furioso que separou Gaddafi e o rei Abdullah, desde as primeiras escaramuças que levaram à guerra contra o Iraque em 2002.
Nunca será demasiado destacar a hipocrisia cósmica de uma monarquia/teocracia medieval absoluta ultra reacionária – que invadiu o Bahrain e reprimiu com brutalidade os xiitas locais – apoiar o que se apresenta como movimento pró-democracia no Norte da África.
Seja como for, é hora de celebrarem. Em breve, lá estará o grupo saudita Bin Laden Construtora, para reconstruir feito doido em toda a Líbia – é possível que transformem Bab al-Aziziyah (que foi saqueado) em hotel-shopping center de luxo monstro da Tripolitânia.
NOTAS
[1] Orig. “Operation Siren”. A operação foi lançada no sábado à noite, à “hora do Iftar”, que marca o fim do jejum religioso do Ramadan. As “sirenes”, que eram usadas pela Al-Qaeda para convocar manifestações contra o governo de Gaddafi, foram usadas dessa vez como sinal para os pequenos grupos de ‘rebeldes’ de Benghazi (para outros, seriam pequenos grupos de militantes da Al-Qaeda) que já estavam em Trípoli. Esses pequenos grupos iniciaram algumas escaramuças em terra, coordenadas com intenso bombardeio aéreo pelas forças da OTAN (cf. Thierry Meyssan, TARPLEY.net, 21/8/2011, em http://tarpley.net/2011/08/22/nato-slaughter-in-tripoli/). Jornais norte-americanos falam de uma “Operation Mermaid Dawn” [operação Aurora da Sereia] contra a Líbia, acrescentando que “mermaid” [sereia] seria nome em código para “Líbia” (cf. Huffington Post, 22/8/2011, em http://www.huffingtonpost.com/social/April22/libya-rebels-tripoli_n_933092_104238013.html). Em português (não em inglês), há algum deslizamento de significados entre “sereia”, o ser mítico, e “sirene”/”sirena”, o dispositivo que há em carros de bombeiros e ambulâncias, que emite som e, também os aparelhos que emitem alarme de incêndio em prédios. Sem algum comentário, perder-se-ia essa ambigüidade, na tradução [NTs].
[2] Orig. Bin Laden to the rescue, ‘politicamente’ muito difícil de traduzir. A solução que propomos é uma, dentre outras possíveis e pode ser melhorada. Correções e sugestões são bem-vindas. Consideramos também “Só bin Laden salva”, descartada por votos, quer dizer, menos por argumentos, que pela maioria. Traduzir é empreitada cheia de riscos inevitáveis [NTs].
.
Postado por
ERick
em
8/26/2011
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A Primeira Internacional e a Comuna de Paris
Por Eduardo Mancuso
Segundo o Dicionário do pensamento marxista, a Associação Internacional dos Trabalhadores – a Primeira Internacional – “foi uma federação internacional das organizações da classe trabalhadora de vários países da Europa Central e Ocidental, onde o movimento operário estava renascendo, na década de 1860, após as derrotas de 1848-1849. Embora tenha sido fundada pelos esforços espontâneos dos trabalhadores de Londres e Paris, que manifestavam sua solidariedade com o levante nacional polonês de 1863, Marx (de 1864 a 1872) e Engels (de 1870 a 1872) iriam desempenhar o papel chave em sua liderança.”
Ao contrário da Liga dos Comunistas (liderada por Marx e Engels entre 1847 e 1852), a Primeira Internacional apresentava um caráter político bastante amplo. Reunia tanto sindicalistas ingleses, simpatizantes franceses de Proudhon, socialistas alemães, democratas radicais e anarquistas de diversos países. Portanto, quando redige e aprova seu Manifesto Inaugural, que afirma que “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”, Marx teve a preocupação de garantir bases programáticas para a cooperação entre todas as correntes que compunham a Internacional, assim como métodos democráticos de funcionamento, que incluíam a eleição do seu Conselho Geral em congressos anuais. Além disso, os critérios de participação admitiam tanto membros individuais como organizações locais e nacionais dos trabalhadores. Marx dizia inclusive que se deveria “deixar cada seção estruturar livremente seu próprio programa teórico”.
As principais atividades da Internacional em seus primeiros anos de vida incluíam a luta contra a prática organizada pela burguesia de fura-greves, os maus tratos aos prisioneiros irlandeses por parte do império britânico, as guerras, bem como campanhas pelo sufrágio universal para conquistar o direito de voto da classe operária. Mas com o crescimento da Internacional como referência de luta e de solidariedade entre os trabalhadores europeus, Marx consegue incorporar ao programa da organização reivindicações de caráter socialista, como a defesa da propriedade pública das minas, das ferrovias, das terras aráveis e florestas, assim como das comunicações.
A Comuna de Paris de 1871 representa um momento decisivo da história da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Os partidários franceses da Internacional desempenham um papel importante no “assalto ao céu” (nas palavras de Marx), e o Conselho Geral, sediado em Londres, organiza uma campanha de solidariedade internacional em defesa da Comuna, além de aprovar como resolução política a homenagem e justificativa histórica do movimento revolucionário do povo parisiense redigida por Marx - A guerra civil na França. Os fuzilamentos que marcam a repressão sangrenta deflagrada contra a Comuna de Paris, e seus reflexos nos demais países europeus, com perseguições, prisões e exílios massivos dos setores de vanguarda das classes populares, vão selar o destino da luta de classes por todo um período histórico e da própria Internacional.
A França de 1871 politicamente era o resultado da derrota da Revolução de 1848. A correlação de forças entre as classes resultava assim, desses acontecimentos, com uma classe operária debilitada e uma burguesia dividida incapaz de dirigir a sociedade, criando assim as condições para que o aparato de Estado se impusesse como árbitro entre as classes colocando-se acima delas, e dessa forma governasse garantindo estabilidade ao sistema capitalista. Em 1851, Luis Bonaparte (Napoleão III) e suas hostes arrebatam o poder político das frações burguesas em disputa, através de um golpe de Estado que garante a estabilidade da sociedade capitalista amortecendo os enfrentamentos entre as classes dominantes e a classe operária em um contexto em que nenhuma das duas classes era capaz de impor-se sobre a outra. Essa era a síntese do regime bonapartista na definição de Marx. Esse acontecimento histórico é analisado de forma brilhante por Marx, alguns anos antes, no clássico “O Dezoito Brumário de Luis Bonaparte”.
Assim nasce o Segundo Império na França, e sob esse regime se incrementa a atividade industrial e as finanças, como também a corrupção na caricatura de corte imperial em torno de Napoleão III. O chauvinismo francês foi enaltecido pelo regime e a política exterior se caracterizou pela reclamação das fronteiras perdidas em 1814 para as forças da Santa Aliança que derrotaram os exércitos de Napoleão Bonaparte. Dessa forma acontece a guerra com a Prússia em 1870, porém as tropas francesas sofrem uma derrota esmagadora diante do exército prussiano, que aprisiona o próprio imperador na Batalha de Sedan. Quando a notícia chega a Paris a capital se levanta e é proclamada a Segunda República.
Todos os parisienses capazes de empunhar armas, a maioria operários, são organizados na Guarda Nacional, formada para defender a cidade do exército prussiano que estava às suas portas. Os deputados do antigo legislativo de Paris constituem um Governo de Defesa Nacional, mas este tinha mais medo dos operários armados que das tropas prussianas, e assim iniciam as negociações com vistas à rendição com a esperança de desarmar rapidamente o proletariado parisiense. Em 28 de janeiro de 1871 Paris se rende. A Guarda Nacional conserva suas armas e é selado um armistício com os prussianos.
Então o governo tenta desarmar os operários e Paris se subleva. No dia 26 de março é eleita e em 28 de março é proclamada a Comuna de Paris. Surge o primeiro Estado dos trabalhadores da história. A criatividade revolucionária das massas parisienses concretiza a forma de organizar seu controle social e sua gestão política na Comuna de Paris. Segundo Marx a Comuna resolve a incógnita histórica sobre o poder dos trabalhadores. O Estado burguês começa a ser destruído com a abolição do exército permanente: a força armada era a Guarda Nacional, ou seja, o povo em armas.
A Comuna se organiza em assembléias territoriais, por distrito e por bairro, que elegiam seus representantes para o organismo central, que centraliza a administração da cidade. Todos os representantes são eleitos e seus mandatos revogáveis a qualquer momento e os cidadãos que assumem as tarefas nas diversas áreas (judicial, distribuição de alimentos, supervisão da produção) também são eleitos e revogáveis, e o seu salário não supera o de um operário qualificado.
A Comuna toma medidas para tentar ganhar a maioria da classe média de Paris, prorroga o pagamento de dívidas e abole a cobrança de juros nesse período, e também busca o apoio do campesinato francês exigindo que o pagamento dos custos econômicos da guerra recaia sobre os capitalistas e latifundiários e defende a anistia pelas hipotecas sobre as terras. A Comuna de Paris convida toda a França a seguir o exemplo da capital, que a sociedade se organize em comunas associando-se livremente umas com as outras. Porém, a Comuna não logra furar o bloqueio do governo francês sediado em Versalhes e das tropas prussianas nos arredores da cidade. Em maio de 1871 a Comuna de Paris é derrotada, a cidade invadida pelo exército e os fuzilamentos ceifam mais de 30 mil revolucionários. Mas a possibilidade concreta de um governo dos trabalhadores e de um futuro comunista para a humanidade entra em cena pela primeira vez na história.
Em 1872, no Congresso de Haia, na Holanda, a Primeira Internacional consegue reunir delegados de treze países europeus, da Austrália e dos Estados Unidos. O Congresso aprova a inclusão nos Estatutos do entendimento que “a conquista do poder político torna-se o grande dever do proletariado”, além da expulsão dos anarquistas liderados por Bakunin (por tentarem organizar uma sociedade secreta dentro da Internacional), e a proposta (apresentada por Marx e Engels) de mudar a sede da organização da Europa para Nova York. A derrota da Comuna e a mudança de sede marcam, na prática, o fim da AIT, dissolvida formalmente em 1876. Mas a luta pela “constituição da classe operária em partido político”, no sentido histórico, apenas havia começado.
*Eduardo Mancuso é Historiador e membro do comitê organizador do FSM Grande Porto Alegre
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A Líbia será o Iraque do Sarkozy?
Por Cornelius Buarque
No filme “Charlie´s War”, protagonizado por Tom Hanks e Julia Roberts, vemos como a incidência de uma socialite sobre um deputado norte-americano motivou a entrada dos EUA na disputa entre o Afeganistão e a URSS em 1978.
Emblemática é uma cena já quase no final do filme onde o deputado tenta aprovar uma verba para a construção de uma escola e não consegue.
No Afeganistão (2001) e no Iraque (2003) aconteceu isso. As pessoas num primeiro momento "comemoram" a libertação de um regime opressor mas posteriormente vem a desilusão com o completo abandono do país e o império do caos.
Começam as táticas de guerrilha e soldados começam a morrer. Aquilo que gerou grande popularidade, se torna um problema. Caso clássico do feitiço virando contra o feiticeiro.
Em 2003, George W. Bush deu por vencida a guerra contra Saddam apenas 90 dias após o seu início. É muito fácil bombardear um país por via aérea ou marítima onde o risco de baixas é mínimo.
Quando começou a ocupação por terra e a necessidade de entrar em becos e vielas cercados por prédios, o pânico toma conta.
Obama e Sarkozy se deram conta disso e seguirão um conselho de Nicolau Maquiavel quando ele disse que “o melhor exército é o exército mercenário”. Diversos veículos de notícias confirmam a autorização para a atuação da CIA no treinamento e o uso de recursos orçamentários para armar rebeldes.
Semana passada foi publicado o manifesto sobre a insustentabilidade do déficit orçamentário americano. Para o povão não tem dinheiro, para a guerra sim. É muita cara-de-pau.
Infelizmente, temos a retomada da estratégia suja utilizada na época da Guerra Fria. O financiamento dos Contras na Nicarágua se assemelha muito ao que é tentado fazer hoje na Líbia.
Como bem colocou o professor Reginaldo Nasser, "Ao que tudo indica Sarkozy quer repetir a estratégia política da campanha de 2007 quando procurou seguir o conselho de Karl Rove (estrategista de Bush). Em vez de tentar construir uma maioria é mais eficaz promover questões polêmicas como imigração, identidade, criminalidade e islamismo que podem provocar a fragmentação das oposições. O resultado, no longo prazo, é um maior nível de dissenso social ou de violência."
O resultado disso, no longo prazo é incerto e suscetível a grandes instabilidades. A Líbia pode acabar se configurando num grande desastre político para a França, assim como foi o Iraque para os EUA.
Guerra na Líbia - a "ótica" vesga do império
A “ótica” vesga da Alvorada da Odisséia
Por Pepe Escobar
A Operação Alvorada da Odisséia, pelo menos por hora, é a primeira guerra do AFRICOM dos EUA. O Pentágono, via o vice-almirante Bill Gortney, dissipou qualquer dúvida que houvesse, quando disse que “o fio condutor” é norte-americano. O papel de Homero ficou a cargo do general Carter Ham, que comanda de seu gabinete em Stuttgart, Alemanha (nenhum país africano interessou-se por hospedar o AFRICOM). E Ulisses – no que já tem mais cara e som de Ilíada que de Odisséia – é o comandante da Força Tarefa Conjunta Aurora da Odisséia almirante Sam Locklear, a bordo do USS Mount Whitney em algum ponto do Mediterrâneo.
Os estrategistas bélicos da Casa Branca e do Pentágono apostaram as “excepcionais capacidades” deles numa versão remix-reduzida do “choque e pavor” da guerra do Iraque. O único problema é que o coronel Muammar Gaddafi não parece nem chocado nem apavorado; está furioso – na foto dessa 3ª-feira no complexo de Bab al-Aziziya –, mas não vergou. E seu governo resiste, sem se por contra o coronel.
Apesar disso, Washington tenta projetar uma imagem pública, mostrando a fantasia de que estaria louca para livrar-se dessa guerra, vendida como “missão limitada”. Mas os comunicados estão confusos. Dizem, na linguagem do Pentágono, que os senhores da guerra estariam encontrando dificuldades na “transição para um comando da coalizão.”
Washington deveria ter avaliado melhor a “ótica”, antes de evocar Homero. Esqueçam “o peso da missão” (em andamento), “fogo amigo” (virá), “dano colateral” (já aconteceu), “eixo do mal” (expressão favorita perene). O novo neologismo de prestígio em Washington e nos círculos íntimos do poder é “ótica”.
Os militares-de-sempre e seus jornalistas-de-sempre carpindo a fórmula da “ótica emocional” dos mísseis cruzadores plus os briefings assinados pela “coalizão” já repuseram, na cabeça de todos, a guerra do Iraque-2003. Espalha-se nos EUA o medo de mais uma “ótica da guerra sem fim”, mais uma vez contra país muçulmano.
Ilusões de ótica
Até entre os “aliados”, a “ótica”, do tipo lata de lixo. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) é completa confusão. A Turquia exige diálogo – e não admite bombas. A Alemanha é contra qualquer intervenção pela OTAN e destaca que bombas não darão conta do recado. A França, arrastada pela megalomania do neonapoleônico Nicolas Sarkozy, quer manter a ilusão de que estaria no comando.
Até entre os “aliados”, a “ótica”, do tipo lata de lixo. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) é completa confusão. A Turquia exige diálogo – e não admite bombas. A Alemanha é contra qualquer intervenção pela OTAN e destaca que bombas não darão conta do recado. A França, arrastada pela megalomania do neonapoleônico Nicolas Sarkozy, quer manter a ilusão de que estaria no comando.
Com medo de que a França usurpe-lhe o trono de primeiro parceiro comercial da Líbia e na luta para impedir que a política mediterrânea seja ditada em Paris, o governo do grande amigo de Gaddafi, Silvio “Bunga-Bunga” Berlusconi, aderiu com relutância à “coalizão” (e agora, no privado, Bunga Bunga diz horrores contra Sarko). A gigante italiana de energia ENI investiu 50 bilhões de dólares na Líbia; a ENI tem todo o interesse em livrar-se de Gaddafi, depois que o coronel ameaçou abrir as torneiras do gás e petróleo líbios para os BRICs Rússia, Índia e China.
Os principais quatro BRICSs (o quinto membro é a África do Sul) livraram-se, espertamente, de toda a Odisséia. O Brasil exigiu cessar-fogo e diálogo. A China manifestou “profunda preocupação” e alertou para a iminência de um “desastre humanitário”. A Índia disse que “nenhuma potência externa deve intervir” na Líbia. E a Rússia, pelo primeiro-ministro Vladimir Putin, denunciou uma “resolução que permite tudo”.
O mesmo fez a União Africana, de 53 nações. A União Africana quer solução diplomática. Gaddafi tem muitos aliados históricos na União Africana. E ajuda a pagar muitas contas da União Africana.
A Argélia – membro também da Liga Árabe – disse que a intervenção é “desproporcional”. No Chad, o presidente Idriss Deby continua no poder em boa parte graças aos bolsos fundos de Gaddafi. Deby pagou o favor enviando mercenários e armas para Trípoli. E mais: se a zona aérea de exclusão não for estendida até o sul da Líbia (por enquanto só cobre o norte e o litoral mediterrâneo), Gaddafi continuará a poder receber ajuda, armas e mercenários, que lhe chegarão do Chad, Mali, Niger e da Argélia (ver ” Despachem os tuaregues, por favor, urgente!” ”, ver 8/3/2011, Castorphoto).
Não raiou, na Alvorada da Odisseia da cabeça dos estrategistas do Pentágono, que coalizão que não tenha explícito apoio da União Africana implica, sempre, que a União Africana poderá continuar a ajudar o regime de Gaddafi.
E há também a carne no kebab da coalizão – a Liga Árabe. O fato de Washington ter ordenado aos assustados reis do Marrocos e da Jordânia e aos ricos emires em Doha e Abu Dhabi que se engajassem como “aliados” – todos indiferentes ao grotesco indescritível de esses ditadores fazerem pose de salvadores humanitários da democracia – não implica que toda a Liga Árabe esteja a bordo da Alvorada da Odisséia. É isso.
Claro. A menos que se computem os éramos-seis, viramos-quatro, agora-só-dois Mirages 2000 da Força Aérea do Qatar, mais um avião cargueiro C-17 – que entrarão em cena no próximo fim de semana –, como toda a gloriosa contribuição da Liga Árabe para os combates da “coalizão”.
Sem fim de jogo
A “coalizão” não chegara nem perto de ter esgotado “todas as medidas necessárias” que a Resolução n. 1.973 da ONU encarregou-a de adotar, e os Ulisses-EUA já lá estavam, despejando Tomahawks sobre a Líbia. Todos os países do mundo que não estão representados nessa “coalizão de vontades” querem, essencialmente, que uma equipe internacional – Liga Árabe, União Africana e ONU – vá até Trípoli e negocie um pacote: cessar-fogo real, mecanismos eficazes para proteger civis e processo viável que leve a eleições na Líbia. A “ótica” de Washington não viu isso?
A “coalizão” não chegara nem perto de ter esgotado “todas as medidas necessárias” que a Resolução n. 1.973 da ONU encarregou-a de adotar, e os Ulisses-EUA já lá estavam, despejando Tomahawks sobre a Líbia. Todos os países do mundo que não estão representados nessa “coalizão de vontades” querem, essencialmente, que uma equipe internacional – Liga Árabe, União Africana e ONU – vá até Trípoli e negocie um pacote: cessar-fogo real, mecanismos eficazes para proteger civis e processo viável que leve a eleições na Líbia. A “ótica” de Washington não viu isso?
E como se não bastasse a “ótica” vesga, a Alvorada da Odisséia ainda nem conseguiu raiar. No máximo, evitou um possível massacre em Benghazi. Relatos horríveis de Zawiya e Misurata contam sobre civis atacados por tanques e veículos blindados, e das milícias – os “irregulares” de Gaddafi – em jipes e caminhonetes pick-up. É a prova que basta, de que zona aérea de exclusão – até aqui, só feita de choque e horror – não está efetivamente protegendo civis alguns.
O presidente Barack Obama parece convencido de que conseguiu inverter a “ótica”. Os noticiários não se cansam de repetir que Obama, o primeiro-ministro britânico David Cameron e “Sarko” concordaram com que a OTAN tenha “papel central” na Alvorada da Odisséia. Foi como enviesar a “ótica” de modo a dizer que os EUA nada teriam a ver com a implantação militar da zona aérea de exclusão – quando ficaram encarregados de tudo (os 28 membros da OTAN aprovarão tudo, por unanimidade).
Essa saturação ótica contribui para tornar ainda mais evidente o que já era claro desde o início. A guerra passará por uma “transição”: de “coalizão de três vontades” (EUA, Grã-Bretanha e França), para “guerra da OTAN”.
Se o Pentágono realmente aplicasse todas as suas exaltadas “excepcionais capacidades”, o regime de Gaddafi estaria reduzido a pó em alguns minutos. Mas é “missão limitada” conduzida por uma “coalizão” – não é “mudança de regime”, embora mudar o regime seja tudo o que desejam Obama, os europeus e vários ditadores árabes. Para eles, trata-se da “ótica” do alerta vermelho.
O establishment em Washington festeja que, pela primeira vez, “o público árabe” estaria apoiando uma intervenção norte-americana. Cuidado com a “ótica”. O “público árabe” também está vendo que Gaddafi atira contra o próprio povo e, em seguida, é bombardeado pelos EUA e pelo ocidente. Por que não se providencia a mesma solução contra os ditadores no Iêmen e no Bahrain?
O “público árabe” também sabe identificar claramente os métodos que EUA e europeus usam para tentar roubar, do mesmo público árabe, a sua grande revolta árabe de 2011.
Por hora, com tanta “ótica” confusa, nenhum think-tank atreve-se a prever o que a “coalizão” tirará da manga, quando nenhuma zona aérea de exclusão detiver Gaddafi. Armar os “rebeldes”, exército de farrapos, mas valentes e ultramotivados – o que já está sendo feito – é ação autorizada pela Resolução n. 1.973 da ONU. Washington, Londres e Paris esperam que os rebeldes logo partam da defesa ao ataque, marchem sobre Trípoli, derrubem o tirano e garantam à audiência um final feliz Hollywoodiano.
Nunca acontecerá. O conselho de transição em Benghazi pediu uma zona aérea de exclusão – não intervenção estrangeira. A Alvorada da Odisséia só faz bombardear pesadamente Trípoli – no outro extremo do país. A população de Trípoli já começa a ver aí o início de nova guerra colonial. O que significa que nenhuma transição política pós-Gaddafi jamais será pacífica. Muito perversamente, a Alvorada da Odisseia prepara o terreno para dividir a Líbia. Alvorada, no máximo, da balcanização.
Qualquer analista militar decente, que valha o que custa ao Estado em uísque on the rocks, sabe que guerras vencem-se no chão. O impulso humanitário é cortina de fumaça: por que a Líbia, e não o Iêmen, o Bahrain, Gaza?. Tudo faz temer outro, novo, muito perigoso teatro de guerra no chamado MENA [ing. Middle East e Norte da África), Odisséia desnorteada, distorcida, sem fim de jogo nem final à vista. Aparece, desaparece; agora você vê, agora você não vê.
Postado por
ERick
em
3/23/2011
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Relações Internacionais
Na França, Kassab é surpreendido por protesto
Solidários aos ativistas contrários ao aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, um grupo de manifestantes aproveitou a visita oficial do prefeito Gilberto Kassab (DEM) a Paris para protestar em frente à entrada da Feira Internacional dos Profissionais do Setor Imobiliário.
A manifestação ocorreu na terça-feira 8. Nesta quarta 9, Kassab apresentou na feira dois projetos, o Nova Luz e o Centro de Convenções que pretende construir em Pirituba, conhecido como Piritubão.
Na capital paulista, manifestantes foram às ruas em uma série de manifestações contra o aumento da tarifa de R$ 2,70 para R$ 3. A última passeata reuniu 1.500 pessoas e percorreu a Avenida Paulista, caminhando depois para o centro da cidade, sede da Prefeitura. Na quinta-feira 10, o movimento promete fazer um ato diante da residência de Kassab (DEM), com concentração na frente do Shopping Iguatemi a partir das 17h.
*Matéria publicada originalmente na Rede Brasil Atual
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