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Guerra pornô: O novo sexo seguro




O início do século 21 é viciado em guerra pornô, um nobre esporte consumido por ‘batatas’ globais, digitais e de sofá [o autor se refere aos couch potatoes, os espectadores passivos do mundo]. A guerra pornô assumiu o palco na noite de 11 de setembro de 2001, quando o governo de George W. Bush lançou a “Guerra ao Terror”– que foi interpretada por muitos dos seus praticantes como uma forma sutil de legitimação do terror de estado dos Estados Unidos predominantemente contra muçulmanos.
Era também a guerra DE terror — como manifestação de terror de estado, em que o poder high tech, urbano, basicamente enfrentou a astúcia rural. Os Estados Unidos não tinham o monopólio disso; Beijing praticou esta guerra na província [muçulmana] de Xinjiang e a Rússia praticou na Chechênia.
Como a pornografia, a guerra pornô não pode existir sem se basear em uma mentira — numa representação grosseira. Mas, diferentemente da pornografia, a guerra pornô é pra valer; em vez de figurantes em filmes grosseiros e baratos, na guerra pornô as pessoas morrem de verdade — e aos montões.
A mentira para acabar com todas as mentiras no centro desta representação foi definitivamente estabelecida com o vazamento de um memorando de 2005 da Downing Street [a sede do governo britânico], no qual o chefe do serviço secreto M16 confirmou que o governo Bush queria derrubar Saddam Hussein ligando o terrorismo islâmico a armas (inexistentes) de destruição em massa. Assim, como estava no memorando, “as informações de inteligência e os fatos estão sendo ajustados em torno da política”.
No fim, George “ou conosco ou contra nós” Bush estrelou em seu próprio super-pornô — que foi tanto a invasão quanto a destruição do flanco leste da nação árabe.
A nova Guernica
O Iraque pode ser visto como o Guerra das Estrelas das guerras pornô — uma apoteose de sequências. Considerem a segunda ofensiva contra Fallujah no final de 2004. Na época eu descrevi como a nova Guernica. Também tomei a liberdade de parafrasear Jean-Paul Sartre, que escreveu sobre a guerra [do colonialismo francês] na Argélia; depois de Fallujah nunca mais dois norte-americanos poderiam se encontrar sem um cadáver entre eles. Para citar o Apocalypse Now, do Coppola, havia corpos, corpos por todo lado.
O Francisco Franco de Fallujah foi Iyad Allawi, o premier instalado no Iraque pelos Estados Unidos. Foi Allawi quem “pediu” ao Pentágono para bombardear Fallujah. Em Guernica — assim como em Fallujah — não houve distinção entre civis e guerrilheiros: valeu a lei do “Viva la muerte!”.
Comandantes dos fuzileiros navais dos Estados Unidos disseram abertamente que Fallujah era a casa do Satã. Franco negou o massacre de Guernica e culpou a população local — assim como Allawi e o Pentágono negaram qualquer morte de civis e insistiram que os “insurgentes” eram culpados.
Fallujah foi reduzida a escombros, pelo menos 200 mil residentes se tornaram refugiados e milhares de civis foram mortos, para “salvá-la” (ecos do Vietnã). Ninguém na mídia corporativa ocidental teve colhões para dizer que, de fato, Fallujah foi a Halabja norte-americana.
Quinze anos antes de Fallujah, em Halabja, Washington foi a muito entusiasmada fornecedora das armas químicas para Saddam, que as usou para matar milhares de curdos. Na época a Central de Inteligência Americana (CIA) disse que não foi Saddam, mas o Irã de Khomeini. Ainda assim, foi Saddam e foi deliberado, assim como os Estados Unidos fizeram em Fallujah.
Médicos em Fallujah identificaram corpos inchados e amarelados sem ferimentos, assim como “corpos dissolvidos”– vítimas do napalm, o coquetel de poliestireno e combustível de jato. Os moradores que conseguiram escapar denunciaram bombardeios com “gases venenosos” e “bombas estranhas que soltavam fumaça como se fosse um cogumelo… depois disso pequenos projéteis voavam deixando para trás longas colunas de fumaça. Os pedaços daquelas estranhas bombas explodiam em chamas que queimavam a pele ainda que se atirasse água sobre ela”.
É exatamente o que acontece com pessoas bombardeadas por napalm ou fósforo branco. As Nações Unidas baniram o bombardeio de civis com napalm em 1980. Os Estados Unidos são o único país do mundo que ainda usam napalm.
Fallujah também resultou num mini hit pornô; a execução sumária de um homem iraquiano ferido, sem defesa, dentro de uma mesquita, por um fuzileiro naval dos Estados Unidos. A execução, capturada em vídeo e vista por milhões no You Tube, soletrou de forma clara as regras “especiais” de engajamento. Os comandantes dos fuzileiros navais, na época, diziam a seus subordinados para “atirar em tudo o que se move e em tudo o que não se move”; para dar “dois tiros em cada corpo”; no caso de ver homens em idade de serviço militar nas ruas de Fallujah, para “derrubá-los”; e para metralhar e usar tanques contra todas as casas antes de adentrá-las.
As regras de engajamento no Iraque foram codificadas em um manual de campo de 182 páginas distribuído para cada soldado, pelo Pentágono, em outubro de 2004. Este manual de contra-insurgência enfatizava cinco regras; “proteger a população; estabelecer instituições políticas locais; reforçar o governo local; eliminar a capacidade dos insurgentes; e explorar informação obtida de fontes locais”.
Agora, de volta à realidade. A população de Fallujah não foi protegida: foi bombardeada para fora da cidade e transformada em massa de milhares de refugiados. As instituições políticas já estavam lá: a shura [espécie de conselho] de Fallujah governava a cidade. Nenhum governo local  é capaz de comandar um monte de escombros com uma população em fuga, o que dizer de “reforçar o governo”. As “capacidades dos insurgentes” não foram eliminadas; a resistência se dispersou em 22 outras cidades que estavam fora do controle da ocupação dos Estados Unidos e se espalhou na direção de Mosul, ao norte; e os norte-americanos continuaram sem informações de “fontes locais”, já que antagonizaram todos os corações e mentes.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, a maioria da população já tinha sido imunizada contra a guerra pornô. Quando surgiu o escândalo de Abu Ghraib, na primavera de 2004, eu dirigia em rodovias do Texas, visitando a Bushland. Praticamente todas as pessoas com as quais conversei a respeito atribuiram a humilhação dos prisioneiros iraquianos a “algumas maçãs podres”, ou defenderam o que aconteceu em básicas patrióticas (“precisamos dar lição em ‘terroristas’”).
Amo um homem uniformizado
Em tese, existe um mecanismo aprovado no século 21 para defender civis da guerra pornô. É o R2P — a doutrina da “responsabilidade de proteger”. É uma ideia que existe desde 2001 — na verdade, desde algumas semanas depois da guerra contra o terror ter sido declarada –, formulada pelo governo do Canadá e algumas fundações. A ideia era de que o concerto das nações tinha o “dever moral” de intervenção humanitária em casos como o de Halabja, para não mencionar o Khmer Rouge no Camboja, na metade dos anos 70, ou o genocídio em Ruanda, na metade dos anos 90.
Em 2004, uma comissão da ONU codificou a ideia — crucialmente autorizando o Conselho de Segurança a decretar “intervenção militar” apenas “como último recurso”. Então, em 2005, a Assembleia Geral das Nações Unidas endossou a resolução de apoio ao R2P e em 2006 o Conselho de Segurança passou a resolução 1674 sobre “proteção de civis em conflitos armados”; eles deveriam ser protegidos contra “genocídio, crimes de guerra, limpeza étnica e crimes contra a humanidade”.
Agora pulemos para o fim de 2008, início de 2009, quando Israel — usando jatos norte-americanos — detonou um ataque em grande escala contra a população civil da faixa de Gaza.
Olhem a reação oficial dos Estados Unidos; “Israel obviamente decidiu se proteger e ao seu povo”, disse o então presidente Bush. O Congresso dos Estados Unidos votou por 390 a 5 para reconhecer “o direito de Israel de se defender dos ataques que partem de Gaza”. O governo de Barack Obama, que estava a caminho de assumir, ficou silencioso. Apenas a futura secretária de Estado, Hillary Clinton, disse que “apoiamos o direito de defesa de Israel”.
Pelo menos 1.300 civis — inclusive mulheres e crianças — foram mortas pelo terror de estado em Gaza. Ninguém invocou a R2P. Ninguém apontou para o fracasso de Israel em sua “responsabilidade de proteger” os palestinos. Ninguém pediu uma “intervenção humanitária” tendo como alvo Israel.
A mera noção de uma superpotência — e outros poderes menores — tomar decisões de política externa baseda em questões humanitárias, como proteger pessoas sob cerco, é uma piada. Já naquela época deu para entender como a R2P seria instrumentalizada. Não se aplicava aos Estados Unidos no Iraque ou no Afeganistão. Não se aplicava a Israel na Palestina. Seria eventualmente aplicável somente a governantes “bandidos”, que não fossem “nossos bastardos” — como Muamar Gaddafi, na Líbia, em 2011. Intervenção “humanitária”, sim; mas apenas para se livrar dos “bandidos”.
E a beleza da R2P é que ela pode ser colocada de cabeça pra baixo a qualquer momento. Bush pediu a “libertação” das mulheres afegãs — especialmente das que vestiam burca — dos “diabólicos” Talibã, de fato configurando a invasão do Afeganistão como uma intervenção humanitária.
E quando as ligações falsificadas de Saddam com a al-Qaeda e com armas de destruição em massa, inexistentes, ficaram claras, Washington passou a justificar a invasão, ocupação e destruição do Iraque via… R2P; “responsabilidade de proteger” os iraquianos de Saddam e em seguida de proteger os iraquianos deles próprios.

O matador acordou antes do sol nascer
O mais recente capítulo da série de episódios da guerra pornô foi o massacre de Kandahar quando, de acordo com a versão oficial do Pentágono  (ou complô para esconder), um sargento do exército norte-americano, atirador de elite e veterano da guerra no Iraque — um assassino altamente treinado — atirou em 17 civis afegãos, inclusive em nove mulheres e quatro crianças, em dois vilarejos distantes três quilômetros um do outro, e queimou alguns dos corpos.
Como em Abu Ghraib, houve a usual onda de negativas do Pentágono — como “isso não somos nós” ou “não agimos desta forma”; sem mencionar o tsunami de reportagens da mídia corporativa dos Estados Unidos que humanizaram o herói-tornado-assassino-em-massa, como em “ele é um cara bacana, de família”. Em contraste, nem uma única palavra sobre o Outro — as vítimas afegãs. As vítimas não têm rosto; ninguém sabe o nome delas.
Uma investigação afegã séria estabeleceu que 20 soldados podem ter tido participação no massacre — como em My Lai, no Vietnã; e que incluiu o estupro de duas das mulheres. Faz sentido. A guerra pornô é uma subcultura de grupo letal — completa com assassinatos-alvo, vingança, dessecração de cadáveres, colheita de troféus (dedos e orelhas cortados), incêndio do Corão e urinar em corpos. É, essencialmente, um esporte coletivo.
Equipes de execução dos Estados Unidos deliberadamente mataram civis afegãos, a maioria adolescentes, como esporte, plantaram bombas em seus corpos e depois posaram com os cadáveres como se fossem troféus. Não foi acidente que algumas destas equipes operavam a partir de uma base perto da área do massacre de Kandahar.
E não deveríamos nos esquecer do ex-comandante dos Estados Unidos no Afeganistão, general Stanley McChrystal, que em 10 de abril de 2010 admitiu, francamente, “atiramos num número impressionante de pessoas” que não eram ameaça aos Estados Unidos ou à civilização ocidental.
O Pentágono vende a guerra do Afeganistão como vendeu a do Iraque (e mesmo, lá atrás, a do Vietnã); a ideia de que esta é uma contrainsurgência com foco na população — ou COIN — destinada a conquistar “corações e mentes” e parte de um grande esforço para construir uma nação.
É uma mentira monumental. O reforço de tropas de Obama no Afeganistão — baseado na COIN — foi um fracasso total. O que veio depois foi guerra clandestina, obscura, liderada por “equipes de matança” das Forças Especiais. Isso implica em uma inflação de ataques aéreos e noturnos. Sem mencionar a guerra de aviões não-tripulados, tanto no Afeganistão quanto nas áreas tribais do Paquistão, cujo alvo favorito são os casamentos da etnia Pashtun.
Incidentalmente, a CIA alega que desde maio de 2010, aviões não-tripulados superinteligentes mataram mais de 600 alvos humanos “cuidadosamente selecionados” — e, miraculosamente, nenhum civil.
Espere para ver este filme pornô de guerra celebrado numa orgia de produções conjuntas do Pentágono com Hollywood. Na vida real, isso é promovido por gente como John Nagl, que era da equipe do general David Petraeus no Iraque e que agora dirige o instituto pró-Pentágono Center for New American Security.
O novo macho estelar pode ser representado pelos soldados do Comando Conjunto de Operações Especiais (JSOC). Mas esta é uma produção do Pentágono, que criou, de acordo com Nagl, “uma máquina contraterrorista de matar em escala industrial”.
A realidade, no entanto, é muito mais prosaica. As técnicas da COIN, aplicadas por McChrystal, se sustentam em apenas três componentes; vigilância 24 horas baseada em aviões não-tripulados; monitoramento da telefonia celular; localização física dos telefones a partir dos sinais emitidos por eles.
Isso significa que qualquer pessoa na área sob o avião não-tripulado que estiver usando um celular pode ser definida como “terrorista” ou pelo menos como “simpatizante do terrorismo”. E então o foco dos ataques noturnos no Afeganistão passou de “alvos de alto valor” — integrantes de alto ou médio escalão da al-Qaeda e do Talibã — para qualquer pessoa acusada de ajudar o Talibã.
Em maio de 2009, antes da chegada de McChrystal, as Forças Especiais dos Estados Unidos faziam 20 ataques por mês. Em novembro, eram 90 por mês. Na primavera de 2010, eram 250 por mês. Quando McChrystal foi demitido — por causa de uma reportagem da [revista] Rolling Stone (ele estava competindo com a Lady Gaga pela capa; a Lady Gaga venceu) — e Obama o trocou por Petraeus, no verão de 2010, já eram 600 ataques por mês. Em abril de 2011 já eram mil ataques por mês.
É assim que funciona. Nem pense em usar um telefone celular em Kandahar ou outros províncias afegãs. Caso contrário, os “olhos no céu” vão te pegar. Você no mínimo será mandado para a cadeia, junto com milhares de outros civis taxados de “simpatizantes do terrorismo”; e analistas de inteligência vão usar suas informações para compilar novas listas de “matar/capturar” na rede para caçar civis.
Quanto aos “danos colaterais” civis dos ataques noturnos, eles sempre foram apresentados pelo Pentágono como “terroristas”. Exemplo; num ataque em Gardez em 12 de fevereiro de 2010, dois homens foram mortos; um promotor de justiça de um governo local e um oficial de inteligência afegão, assim como três mulheres (duas delas grávidas). Os matadores disseram ao comando conjunto Estados Unidos-OTAN em Cabul que os dois homens eram “terroristas” e que as mulheres foram encontradas amarradas e amordaçadas. E então o homem que era o alvo do ataque se apresentou dias depois para interrogatório e foi libertado sem sofrer qualquer acusação.
É apenas o começo. Assassinatos-alvo — como praticados no Afeganistão — serão a tática do Pentágono em todas as futuras guerras dos Estados Unidos.
Passe a camisinha, querida
A Líbia foi uma grande exibição da guerra pornô — completa com um toque romano de um chefe “bárbaro” derrotado, sodomizado e executado nas ruas, diretamente para o YouTube.
Isso, por sinal, é exatamente o que a secretária de Estado Hillary Clinton, numa visita-relâmpago a Trípoli, tinha anunciado 48 horas antes do fato.  Gaddafi deveria ser “capturado ou morto”. Quando ela viu a imagem na tela de seu BlackBerry ela só conseguiu reagir com o terremoto semântico de um “Uau!”.
No minuto em que a resolução da ONU impôs uma zona de exclusão aérea na Líbia usando como cobertura a R2P, foi a luz verde para a troca de regime. O plano A sempre foi capturar e matar Gaddafi — no estilo de um assassinato-alvo afegão. Esta era a política oficial do governo Obama.  Não havia plano B.
Obama disse que a morte de Gaddafi significou “a força da liderança norte-americana em todo o mundo”. Foi tão próximo de um “pegamos” (ecos da captura de Saddam pelo governo Bush) quanto se poderia esperar.
Com um bônus extra. Embora Washington tenha pago nada menos que 80% dos custos operacionais dos retardados da OTAN (grosseiramente, 2 bilhões de dólares), foi troco. Ainda assim, é estranho que tenham dito “fizemos”, já que a Casa Branca sempre disse que não era uma guerra; que era alguma coisa “cinética”. E que não tinha controle de nada.
Só os perdidamente ingênuos engoliram a propaganda dos 40 mil ataques aéreos “humanitários” da OTAN, que devastaram a infraestrutura da Líbia de volta à idade da pedra, como um Choque e Espanto em câmera lenta. Isso nada teve a ver com R2P.
Foi tão R2P quanto sexo seguro — com a “comunidade internacional” no papel de camisinha. A “comunidade internacional”, como todos sabem, é composta por Washington, alguns poucos membros da OTAN e os poderes democráticos do Golfo Pérsico, como Qatar e Emirados Árabes Unidos, mais a Casa de Saud nas sombras. A União Europeia, que até a prorrogação fazia a barra das saias de Gaddafi, rapidamente tropeçou em editorais que denunciavam o reino de 42 anos do “bufão”.
Quanto ao conceito de lei internacional, foi jogada na tubulação, tão suja quanto aquela em que Gaddafi foi encontrado. Saddam pelo menos teve um julgamento encenado num tribunal improvisado antes de enfrentar o carrasco (ele também acabou no YouTube). Osama bin Laden foi simplesmente apagado, em estilo-assassinato, depois da invasão territorial do Paquistão (sem YouTube, por isso muitos nem acreditam). O Gaddafi foi embora numa mistura de guerra aérea com assassinato. Eles são os Três Graciosos Escalpos da Guerra Pornô.
Doce emoção
A Síria é apenas mais uma narrativa da guerra pornô. Se você não pode R2P, simule.
E pensar que tudo isso foi codificado tanto tempo atrás. Já em 1997, a revista do Colégio de Guerra do Exército dos Estados Unidos definiu o que chamou de “futuro das guerras”. Foi descrito como “o conflito entre os mestres da informação e as vítimas da informação”.
Eles estavam certo de que “já somos mestres na guerra de informações… Hollywood está ‘preparando o campo de batalha’… A informação destrói empregos tradicionais e culturas tradicionais; seduz, trai e se mantém invulnerável… Nossa sofisticação no manejo da informação nos capacita a sobreviver e sobrepujar todas as culturas hierárquicas… Sociedades que temem ou que não conseguem gerenciar o fluxo de informação simplesmente não serão competitivas. Elas podem dominar a tecnologia para ver os vídeos, mas nós vamos escrever os roteiros, produzí-los e coletar os direitos autorais. Nossa criatividade é devastadora”.
Guerra de informação pós-tudo não tem relação com geopolítica. Como o proverbial produto de Hollywood, deve ser gerada a partir de emoções brutas; “ódio, inveja e cobiça — emoções em lugar de estratégias”.
Na Síria é exatamente como a mídia corporativa ocidental já escreveu o script de todo o filme; são as táticas da guerra de informação do Colégio de Guerra, na prática. O governo sírio nunca teve qualquer chance diante dos que “escrevem os roteiros, produzem e coletam os direitos autorais”.
Por exemplo, a oposição armada, os assim-chamados integrantes do Exército Livre Sírio (um coquetel impressionante de desertores, oportunistas, jihadistas e mercenários estrangeiros), levaram jornalistas ocidentais até Homs e depois insistiram em tirá-los de lá, em condições extremamente perigosas — com gente sendo morta — via Líbano, em vez de usar a ajuda da Crescente Vermelha. Era apenas a forma de escrever/impor um “corredor humanitário” até Homs. Foi teatro puro — ou guerra pornô empacotada como drama de Hollywood.
O problema é que a opinião pública ocidental agora é refém desta marca de guerra de informação. Esqueça a possibilidade de negociações pacíficas entre partes adultas. O que sobra é o roteiro binário de bons contra maus, onde o Grande Homem Mau deve ser destruído a qualquer custo (e junto com ele a esposa, puta esnobe que adora consumir!).
Só os terminalmente ingênuos para acreditar que os jihadistas — inclusive os rebeldes da OTAN na Líbia — financiados pelo Clube da Contrarrevolução do Golfo Pérsico, também conhecido como Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) são um monte de reformistas democráticos queimando em boas intenções. Mesmo a Human Rigths Watch foi forçada a admitir que estes “ativistas” armados foram responsáveis por “sequestros, detenções e tortura”, depois de receber informações sobre execuções cometidas por grupos de oposição contra civis e soldados leais ao governo sírio.
O que esta narrativa pornô (leve e pesada) esconde, no fim, é a verdadeira tragédia síria; a impossibilidade do festejado “povo sírio” de se livrar de todos estes bandidos — o sistema Assad, a Irmandade Muçulmana controlada pelo Conselho Nacional Sírio, e o Exército Livre Sírio infestado de mercenários.
Ouçam o som do caos
Este parcial catálogo de vilezas invevitavelmente nos traz até o campeão de bilheteria da guerra pornô — o psicodrama do Irã.
2012 é o novo 2002; Irã é o novo Iraque; e qualquer que seja a estrada, para usar o novo lema neocon, homens de verdade vão a Teerã via Damasco, ou diretamente a Teerã, sem escalas.
Talvez apenas sob o Ártico seríamos capazes de escapar do cortejo cacófono de direitistas norte-americanos — e seus cães amestrados europeus — que salivam sangue e distribuem seu festival de falácias como “o Irã quer eliminar Israel do mapa”, “já deu de diplomacia”, “as sanções já deram o que tinham de dar”, ou “o Irã dentro de um ano, de seis meses, de uma semana, de um dia ou de um minuto vai montar sua bomba”.
Naturalmente estes cães de guerra nunca se importariam em acompanhar o que a Agência Internacional de Energia Atômica está fazendo, sem mencionar a Estimativa Nacional de Inteligência divulgada pelas 17 agências de inteligência dos Estados Unidos.
Porque, em grande medida, eles estão “escrevendo os roteiros, produzindo e coletando os direitos autorais” nos termos da mídia corporativa, eles podem sair ilesos de uma impressionante e tóxica fusão de arrogância e ignorância — sobre o Oriente Médio, a cultura persa, a questão nuclear, a indústria petrolífera, a economia global, sobre “o Resto” comparado com “o Ocidente”.
Assim como no Iraque em 2002, o Irã é sempre desumanizado. A “narrativa” insistente, totalmente histérica e fomentadora do medo, de “devemos bombardear agora ou depois”, é sempre sobre as tão inteligentes bombas destruidoras de bunkers e mísseis precisos, que vão inflingir devastação superlimpa em grande escala sem produzir um só “dano colateral”. Como sexo seguro.
E mesmo quando uma voz do establishment como o New York Times admite que nem a inteligência dos Estados Unidos, nem a de Israel acredita que o Irã decidiu construir uma bomba (uma criança de 5 anos poderia chegar à mesma conclusão), a histeria continua intergalática.
Enquanto isso, enquanto se prepara — “todas as opções estão na mesa”, Obama não cansa de repetir — para outra guerra no que já chamou de “arco de instabilidade”,  o Pentágono encontrou tempo para reempacotar a guerra pornô. Levou apenas 60 segundos, num vídeo que agora está no YouTube, chamado Em Direção ao Som do Caos (Toward the Sound of Chaos), divulgado dias depois do massacre de Kandahar. Note qual é o público-alvo: o grande mercado dos pobres, desempregados e politicamente ingênuos jovens norte-americanos.
Ouçam o que diz a voz no mini-filme: “Onde o caos ameaça, os Poucos emergem. Fuzileiros navais se movem em direção aos sons da tirania, da injustiça e do desespero — com a coragem e a determinação para silenciá-los. Ao acabar com os conflitos, instalar a ordem e ajudar aqueles que não conseguem se ajudar, os fuzileiros navais enfrentam as ameaças de nosso tempo”.
Talvez, neste universo orwelliano, deveríamos pedir aos afegãos mortos, nos quais os fuzileiros navais urinaram, ou aos milhares de mortos em Fallujah, que fizessem uma resenha do filme. Bem, homens mortos não escrevem. Talvez pudessemos pensar no dia em que a OTAN vai instalar uma zona de exclusão aérea sobre a Arábia Saudita para proteger os xiitas das províncias do leste, enquanto os aviões não-tripulados do Pentágono disparam mísseis Hellfire contra os milhares de príncipes da Casa de Saud, arrogantes, medievais e corruptos. Não, não vai acontecer.
Mais de uma década depois do início da guerra contra o terror, é a isso o que o mundo chegou: uma audiência virtualmente mundial de preguiçosos, exaustos, atordoados, conduzidos de distração em distração, impotentemente viciados na desprezível atrocidade das guerras pornô.
Tradução Luiz Carlos Azenha
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Ocidente equipa serviços de espionagem de países que condena



Por Eduardo Febbro


As democracias ocidentais têm grandes dificuldades para esconder o rabo do diabo. As potências que no interior do Conselho de Segurança da ONU promovem resoluções em defesa dos Direitos Humanos ou para condenar o regime sírio, egípcio, líbio ou iraniano são as mesmas que venderam a esses regimes - e a outros - o material tecnológico necessário para vigiar e reprimir a oposição. A hipocrisia é uma regra de ouro: a comunidade internacional invoca os valores por um lado e, pelo outro, entrega com chaves nas mãos os instrumentos tecnológicos usados para submeter os povos. 

Narus – uma filial da Boeing - no Egito, Nokia-Siemens no Irã e Bahrein, a francesa Bull, a chinesa ZTE Corp e a sul-africana VASTech na Líbia, as norte-americanas Cisco e Nortel na China, a lista e a relação das multinacionais tecnológicas com os governos que infringem as liberdades ou condenados pela ONU é extensa. E como nunca falta uma nova oportunidade de fazer suculentos negócios, a essa lista se agrega agora a Síria. 

A comunidade internacional adotou um pacote de medidas contra Damasco onde figura a proibição da venda de armas, mas esse pacote exclui as tecnologias de ponta que permitem, entre outras violações, controlar a Internet ou vigiar os telefones móveis. A empresa italiana Area SPA vendeu à Síria um conjunto de programas de origem norte-americana, francesa e alemã para realizar um scanner, tanto das atividades dos usuários da Internet como de suas comunicações telefônicas. O contrato, por um montante de 13 milhões de euros, contou com a participação da empresa Californiana NetApp, a alemã Ultimaco Safeware AG e, segundo o portal de investigações econômicas Bloomberg, até a Hewlett-Packard entrou na entrega de componentes. O quarto participante nesta estrutura é Qosmos, uma empresa com sede em Paris e cuja tecnologia permite analisar as comunicações através das redes móveis por meio da inspeção de pacotes (DPI, Deep Packet Inspection). Trata-se do mesmo dispositivo que a empresa norte-americana Narus havia vendido ao derrubado Hosny Mubarak, no Egito. 

A democracia empresarial não tem fronteiras. As ONGs defensoras dos direitos humanos e das liberdades ligam, com justa razão, essas tecnologias à “cumplicidade com crimes de guerra” porque, através delas é que se espiona a dissidência, se perseguem e se localizam indivíduos, possibilita-se sua prisão, ou mesmo sua morte e se limita toda forma de liberdade. A Qosmos detalha com rigorosa concisão a capacidade de seus produtos. Em sua página web pode ser lido esta apresentação: “A Qosmos fornece uma tecnologia de inteligência de rede que identifica e analisa em tempo real os dados que transitam na rede”. No concreto, é perfeitamente possível “reconstruir” tudo o que acontece pela tela de um computador. Os correios eletrônicos ou Skype deixam de ser lugares de privacidade. Assim, as companhias ocidentais colaboram estreitamente com os governos autoritários. 

Dupla linguagem, duplo jogo: acusadora na ONU por um lado, fornecedora de tecnologia avançada pelo outro. No caso sírio, a astúcia consistiu em vender o material para Itália e não diretamente à Síria. A Area SPA fez-se assim de intermediário entre Damasco e o resto do mundo. O material de vigilância foi instalado no bairro Mouhajireen, onde uma sala especialmente preparada para isso controlava as comunicações através de 40 terminais. A operação é conhecida com o nome código de “Asfador”. Em um comunicado emitido no final de 2001, a Qosmos explicou que seu “negócio não é a venda de material de vigilância”. Segundo a Qosmos, “a sociedade vende a empresas ou associados que integram nossos componentes às suas próprias aplicações e assumem a comercialização. Isso é o que aconteceu com o projeto sírio”. 

O exemplo da Síria não é mais que o último de uma interminável série de colaborações entre as empresas que manejam tecnologia de ponta e as autocracias ou regimes autoritários que fazem da espionagem dos cidadãos a melhor arma de repressão. A Nokia-Siemens se notabilizou a partir de 2007 com a venda ao regime iraniano de um sofisticado dispositivo de espionagem global: Internet, emails, VoIP, Twitter, MySpace, Facebook, comunicações por móveis, SMS, nada escapava à joia vendida pela multinacional finlandesa. A Líbia do falecido Coronel Khadafi foi outro campo semeado com as sementes tecnológicas de ocidente, desta vez, paradoxalmente, oriundas da França. 

O presidente Nicolas Sarkozy foi o principal promotor da resolução das Nações Unidas que autorizou o uso da força na Líbia. Os primeiros aviões que bombardearam o território líbio foram também franceses. Paris foi também o primeiro país que reconheceu o Conselho Nacional de Transição líbio – a oposição - como o “interlocutor legítimo do povo líbio”. Entretanto, Khadafi espionava, perseguia e prendia os opositores que a França apoiava com tecnologia vendida pela empresa francesa i2e/Amesys, uma filial da Bull. O principio é o mesmo: o famoso e temível Deep Packet Inspection, por meio do qual tudo o que atravesse uma tela deixa de ser segredo. O DPI é a arma mais eficaz para esmagar qualquer resistência. Quando o bunker onde Khadafi havia montado o sistema de vigilância foi bombardeado, os opositores encontraram entre os escombros cópias das mensagens que os ativistas enviavam entre si. Mais ilustrativo ainda, na porta do Bunker estava colado o logo de Amesys. 

Narus, a filial da Boeing que vendeu a Hosny Mubarak o mesmo produto, fecha este cínico capítulo de dois gumes: em 2011, enquanto as bombas caíam sobre a Líbia e neutralizavam parte do material que o Ocidente havia vendido a Khadafi, a Narus negociava em segredo, em Barcelona, com o regime do coronel, novos contratos tecnológicos para aperfeiçoar seu próprio sistema, complementar ao da Amesys. O diabo sacode o rabo por baixo do manto da democracia ocidental.

Tradução: Libório Junior

Três impasses na primavera árabe





Por Esam Al-Amin



Com a queda do quartel-general de Muammar Gaddafi em Bab Al-Aziziyyah em Trípoli, dia 23/8, a Líbia tornou-se o terceiro país em que o ditador de muitos anos foi deposto, depois da Tunísia e do Egito — onde caíram Zein Ben Ali e Hosni Mubarak, no início do ano.
Um atentado fracassado, para matar Ali Abdullah Saleh do Iêmen, dia 3/6, manteve mais esse ditador fora do país, recuperando-se de ferimentos na Arábia Saudita. Simultaneamente, ampliaram-se as manifestações pacíficas de dezenas de milhares de iemenitas em várias cidades e províncias do país, exigindo que parentes e protegidos de Saleh deixassem o governo.
Na Síria, Bashar Al-Assad resiste há mais de seis meses, enfrentando protestos populares diários e mantém-se no poder para salvar seu regime cada dia mais enfraquecido e isolado.
Apesar disso, os levantes populares que varreram grande parte do mundo árabe enfrentam três dificuldades cruciais. Como os diferentes lados em cada cenário político lidarem com essas questões cruciais determinará o futuro de suas respectivas sociedades, que passam por revoluções populares genuínas e mudanças nas lideranças, pela primeira vez em décadas.
Problemas que em geral acompanham grandes agitações sociais, como caos político, relativa insegurança, corrupção endêmica e graves dificuldades econômicas na vida diária são sintomas de questões maiores. Não podem ser efetivamente enfrentados até que se resolvam os grandes desafios nacionais.
Embora cada país viva suas próprias condições locais e circunstâncias específicas, há vários fatores comuns nos levantes da primavera árabe. Há, especialmente, três principais desafios intrincados que persistem nas revoltas árabes desde o início.
1. Os revolucionários não chegaram ao poder
São raras as revoluções populares, porque enfrentam a tarefa gigantesca de estabelecer uma nova ordem política e socioeconômica, baseada na vontade do povo.
Revoluções bem sucedidas em geral dão poder aos revolucionários para instituir a nova ordem — primeiro, mediante o desmonte da velha, com desenraizamento de seus apoiadores e aderentes. As revoluções americana, francesa, soviética, cubana e iraniana são bons exemplos de sistema que foi realmente deixado para trás, livrado de seus remanescentes e substituído por nova ordem.
Mas as revoluções tunisiana e egípcia foram abortadas. Pouco antes de terem realmente conseguido derrubar os ditadores, nos dois países as alavancas do poder foram assumidas por gente que, ou participara do antigo regime ou não abraçara com suficiente espírito de compromisso os objetivos das revoluções populares.
Na Tunísia, por exemplo, partidários e afilhados de Ben Ali ou de seu predecessor, Habib Bourgiba, mantiveram o controle da vida política, e em algumas instâncias ainda viram aumentar o seu poder. Apresentam-se, apesar dos currículos tenebrosos, como salvadores da revolução popular. Assim, muitos dos funcionários associados ao execrado ministro do Interior e à polícia secreta mantiveram os postos e reorganizaram seus feudos.
No Egito, o Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF, em inglês) repaginou-se e se apresentou como salvador da revolução. Mas, à medida em que foi assumindo o controle do país, muitos dos revolucionários e das demandas populares foram ou adiadas ou instituídas com muita relutância, sempre sob intensa pressão das ruas.
Ao tomar o poder, depois da renúncia forçada de Mubarak, o conselho militar prometeu período de transição de não mais de seis meses, depois do qual haveria eleições livres e limpas. Desde então, as eleições já foram duas vezes adiadas, e agora não há data prevista para eleições parlamentares ou presidenciais.
Mas, desde março, mais de 12 mil civis já foram julgados em julgamentos sumários, em tribunais militares, muito mais, até, do que Mubarak jamais fez durante trinta anos de ditadura (a ditadura de Mubarak mandou no máximo mil casos para julgamento por tribunais militares). O Comissário de Direitos Humanos da ONU criticou duramente esses tribunais militares, exigindo que o comando do SCAF ordenasse que  pelo menos metade dos casos fossem julgados em tribunais civis, não secretos.
Num episódio recente, milhares de jovens egípcios foram à rua, exigindo manifestação adequada do SCAF, no caso do assassinato, por israelenses, de cinco soldados egípcios na fronteira Gaza-Egito.Os manifestantes denunciavam que os assassinatos foram resultado de as Forças Especiais terem-se posicionado a favor de Israel e EUA, ignorando a opinião pública egípcia; e que a resposta militar foi idêntica à que se via nos tempos de Mubarak.
Em fúria, os manifestantes atacaram a embaixada de Israel no Cairo, pondo abaixo o muro de contenção, chegando à entrada principal do prédio e pondo fogo à bandeira israelense que ali encontraram. No mesmo ataque, a multidão tomou posse de milhares de documentos que expuseram o grau de cooperação entre os dois países em questões sensíveis e políticas impopulares, como a manutenção do cerco e do bloqueio de Gaza, durante o governo de Mubarak. Como resposta a essa manifestação, as Forças Especiais anunciaram a reimplantação das temidas leis de emergência e da segurança, que preveem ataques contra multidões e longas penas de prisão.
Consequência disso, muitos partidos políticos, movimentos sociais e os principais candidatos à presidência do Egito, alarmados e ofendidos pela ação das Forças Especiais, ameaçaram levar milhões de manifestantes às ruas, a menos que as leis de emergência fossem suspensas e se anunciassem eleições.
Em resumo, revoluções são mudanças fundamentais na estrutura política e nas relações de poder no país, além de determinar que recursos sejam partilhados dentro da sociedade. Não se pode falar de revolução se só mudam algumas personalidades e algumas modalidades de ação.
Até agora, só se viram mudanças cosméticas e superficiais. A menos que os que lideraram as revoluções árabes, com sacrifício de seu sangue e da própria vida, sejam eleitos e cheguem legitimamente ao poder, para liderar as reformas e responder com eficácia às exigências populares, não se pode falar de mudanças genuínas.
2. O papel do Islã na sociedade
No calor da luta pra derrubar os regimes, em cada caso, a tensão entre os movimentos islâmicos, por um lado, e as tendências seculares e liberais, por outro, permaneceu encoberta sob a superfície, com todas as oposições políticas unidas no objetivo de derrubar cada ditadura, em cada caso. Mas, derrubados os regimes, reemergiram velhas rivalidades e os debates ideológicos, gerando discordâncias e desconfianças.
Ao longo de anos, secularistas e liberais temeram que os movimentos políticos islamistas visassem a impor um estado religioso, e não dessem real importância aos princípios democráticos, por mais que falassem a favor deles. Embora muitos islâmicos afirmem seu compromisso com a democracia, não deixam de acusar os opositores que se apresentam como seculares e democráticos que serem candidatos antirreligião e fantoches da propaganda pró-ocidente.
Essa desconfiança entre os dois lados, no Egito, cresceu tanto, que em vários casos houve graves acusações públicas dos dois lados, com grupos pregando o boicote a manifestações populares dos adversários.
O campo secular e liberal crê que os grupos islamistas sejam muito mais organizados, mais bem posicionados para vencer eleições e, assim, para fazer aprovar uma nova Constituição pró-islamista. Consequentemente, iniciaram uma campanha para conseguir que as Forças Especiais emitam um decreto que se sobreponha a qualquer futura Constituição, com vistas a garantir que certos princípios não sejam feridos.
Esse decreto, dito “superior à Constituição”, visa garantir que a Carta não possa jamais ser alterada. Querem também que o exército sirva como “protetor” do estado contra qualquer risco de a religião invadir os negócios oficiais, mais ou menos como na Turquia, onde os militares desempenharam papel semelhante ao longo de toda a segunda metade do século 20.
O campo islâmico argumenta que haver princípios considerados “superiores à Constituição” é prática antidemocrática. Muitos dos líderes religiosos insistem em que buscam construir estado civil, com Constituição moderna e democrática, que consagre o pluralismo e os direitos civis básicos.
Apesar de os dois campos concordarem com que a sharia deve ser a fonte básica da legislação, há diferenças de opinião sobre como esse princípio deva ser aplicado de fato, e com a amplitude de interpretação que se possa admitir, na “releitura” dita “democrática” da sharia. Também na Tunísia, ouvem-se discussão e pronunciamentos semelhantes, enquanto o país prepara-se para eleger uma assembleia encarregada de redigir a futura Constituição do país.
Na Líbia, na luta armada entre o Conselho Nacional de Transição (NTC, em inglês) e os partidários do regime de Gaddafi, os dois grupos, os seculares pró-ocidente e os campos islâmicos, cooperaram na luta para depor Gaddafi. E os dois lados lutaram juntos, durante meses, contra os soldados fiéis a Gaddafi, apesar de, internamente, nada haver que aproximasse aqueles estranhos aliados contra Gaddafi.
Os islamistas líbios acusam os secularistas pró-ocidente reunidos no Conselho Nacional de Transição de estar negociando com os países da OTAN, contra os interesses nacionais líbios. Acusam-nos também de conspirarem contra, afinal, a própria Líbia. Em julho passado, por exemplo, o comandante militar pró-secularistas da oposição líbia, general Abdelfattah Younis, foi assassinado por seus comandados de orientação islâmica, em retaliação a uma alegada associação entre o comandante e a OTAN, para atacar os grupos armados de orientação religiosa.
Falando sob condições de anonimato, veterano oficial líbio recentemente indicado como representante do Conselho Nacional de Transição num importante país europeu, afirmou que Younis costumava dar à OTAN as coordenadas das posições de membros de seu próprio contingente, para que fossem bombardeados, por considerá-los “islâmicos demais”.
Por isso, em muitas instâncias, a OTAN várias vezes declarou ter bombardeado “alvos errados”; esses erros podem não ter sido simples erros técnicos, mas alvos deliberadamente atacados, indicados por informações viciadas de inteligência. O mesmo veterano oficial líbio diz que mais de 70% dos “rebeldes” líbios que combateram em campo são islamistas que absolutamente não apóiam a intervenção pela OTAN e forças estrangeiras na Líbia.
Imediatamente depois da queda de Trípoli, essa disputa veio à tona, quando o primeiro-ministro de facto, Mahmoud Jibril, admitiu que o Conselho Nacional de Transição não tinha pleno controle sobre seus grupos armados. Ao mesmo tempo, Sheikh Ali Sallabi, importante e respeitado líder religioso, exigiu que Jilbril e vários de seus colegas ministros renunciassem, inclusive os ministros das Finanças, das Comunicações e do Petróleo. Todos foram acusados de serem corruptos, trabalhando a favor da ganância ocidental, que estariam “roubando a revolução líbia”.
Por sua vez, o principal comandante militar da Brigada de Trípoli, Abdel Hakim Belhaj, e Ismail Sallabi, de Benghazi, encarregados, respectivamente, da segurança e defesa dessas duas principais cidades, foram acusados por oficiais da OTAN de serem islâmicos anti-ocidente. Belhaj, como se sabe, foi vítima de uma das remoções clandestinas de prisioneiros, pela CIA (a CIA entregou prisioneiros seus a serviços secretos estrangeiros para serem interrogados [torturados] fora deterritório dos EUA). Belhaj foi preso pelos EUA, entregue pela CIA ao serviço secreto da Líbia, durante o governo Bush, e torturado.
Em entrevista recente, o secretário da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, alinhou-se, como era de esperar-se, com os liberais pró-ocidente, manifestando preocupação com a possibilidade de “extremistas islâmicos” tentarem “aproveitar-se da situação” na Líbia. Sentimentos e preocupações semelhantes apareceram contra os levantes populares no Iêmen, Síria e Bahrain.
Mas o papel do Islã nessas sociedades não deveria ser fonte de tensão e discórdia entre grupos políticos. O Islã, como religião e cultura, sempre teve papel de destaque na modelagem da identidade e da história da região, há mais de mil anos. Essa herança e esse legado sempre terão papel significativo na modelagem do futuro político na região, presente na natureza democrática do estado civil.
Assim, no que tenha a ver com alcançar os objetivos das revoluções árabes, os dois campos políticos devem comprometer-se com os princípios do governo democrático e respeitar o desejo do povo, sem que um grupo tente impor suavisão ao outro.
3. O papel das potências estrangeiras
Não há dúvidas de que a Primavera Árabe colheu de surpresa o ocidente. Nos primeiros dias dos levantes na Tunísia e no Egito, os EUA e a Europa apoiaram os ditadores que lá havia, antes de, pouco convincentemente, passar a manifestar apoio aos que lutavam para derrubá-los.
Na Líbia, o ocidente rapidamente posicionou-se contra Gaddafi, tentando aproveitar a oportunidade e empurrar a revolução na direção de implantar-se lá um regime favorável ao ocidente, em país riquíssimo em recursos naturais. Simultaneamente, potências ocidentais, principalmente os EUA, movimentaram-se nos bastidores, com a Arábia Saudita e outros países do Golfo, tentando salvara ditadura de Saleh no Iêmen, protegendo-o contra as massivas manifestações de protesto que agitavam todo o país.
Os principais objetivos que sempre moveram as políticas do ocidente contra o Oriente Médio ao longo de 60 anos não mudaram. São elas: (1) controlar o acesso ao petróleo e a outros recursos naturais, aos portos e às fortunas gigantescas de umas poucas famílias do Golfo; (2) garantir proteção militar a política a Israel – nação ocupante e perene causa de insegurança e instabilidade na região;e (3) preservar a estabilidade regional, para assegurar acessibilidade plena aos mercados da região, mercados de compra de armamento e de outros produtos oferecidos por grandes corporações econômicas multinacionais.
Assim sendo, a tentativa, pelo ocidente, de manter as políticas das ditaduras que havia na região, é indiscutível. Quando o governo egípcio levantou o bloqueio de Gaza, em meados de maio, logo surgiram os primeiros senadores e deputados dos EUA, a declarar que a ajuda militar dos EUA poderia ser suspensa, e que estavam ameaçadas as relações EUA-Egito, pressionando o comando militar egípcio a reverter a decisão anterior e voltar a fechar a passagem de Rafah, o que foi feito três dias depois.
Na decisão de manter a ajuda militar dos EUA ao Egito, o Congresso dos EUA – desconsiderando completamente o desejo do povo egípcio – incluiu uma cláusula humilhante, que exigia que “o secretário de Estado do Egito declare que o país não é controlado por organização terrorista estrangeira”, e que declarasse que o Egito “está tomando as providências necessárias para localizar e destruir a rede de contrabando e túneis entre o Egito e a Faixa de Gaza”. Exigiu ainda que o Egito usasse o dinheiro da ajuda militar oferecida pelos EUA “em programas para melhorar a segurança das fronteiras e atividades no Sinai, esperando que os militares egípcios continuem comprometidos com manter e implementar o tratado de paz entre Israel e Egito”.
Na essência, a principal preocupação dos políticos dos EUA e de outros governos ocidentais é saber como manter os países do Oriente Médio presos à órbita de influência dos EUA, e manter controle sobre aquelas economias, como mandam o FMI, o Banco Mundial e as grandes empresas transnacionais. O Congresso dos EUA já previu em orçamento cerca de 120 milhões de dólares para “promover a democracia” no Egito e na Tunísia, dinheiro suficiente para influenciar, com impacto real, o resultado das eleições – o que será interferência direta em assuntos internos de nações soberanas.
A continuação da interferência externa nos negócios internos das nações do Oriente Médio, principalmente nos países nos quais os cidadãos já declararam o que desejam e tomaram as ruas para derrubar ditadores, continuará a indispor a opinião pública, no mundo árabe, contra o ocidente. Por causa dessa interferência sem justificativa democrática, é de duvidar-se que os EUA e outros países ocidentais tenham qualquer respeito ou trabalhem para honrar a vontade do povo árabe e sua luta por liberdade e autodeterminação.
Tradução Vila Vudu
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