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A Itália à beira da ingovernabilidade


Por Eduardo Febbro

A Itália colocou um pé na fronteira da ingovernabilidade. Ao final das eleições legislativas realizadas domingo e segunda-feira, o Partido Democrático, movimento de centro-esquerda liderado por Luigi Bersani, ganhou as eleições, mas não o poder. A direita ressuscitada de Silvio Berlusconi e a poderosa emergência de uma força política contestadora que cresceu fora dos esquemas tradicionais da prática política deixaram a tímida esquerda italiana com uma escassa maioria para governar. Ninguém sabe hoje quem estará no poder amanhã. A centro-esquerda de Pier Luigi Bersani obteve 29,75% dos votos na Câmara de Deputados. Com isso, consegue o abono de 55% das cadeiras em jogo que o sistema outorga ao ganhador. No entanto, o caminho para o governo tropeça no Senado, onde o Povo da Liberdade, do patético Silvio Berlusconi, em coalizão com a racista Liga do Norte, faz sombra ao PD com 28,96% dos votos. Logo em seguida vem o Movimento Cinco Estrelas, do comediante genovês Beppe Grillo, que obteve 25,5% na Câmara de Deputados e 23,7% no Senado. O atual presidente do Conselho italiano, Mario Monti, ficou distante com cerca de 11% dos votos e perde assim muitas possibilidades de respaldar a centroesquerda em um futuro governo de coalizão.

As eleições não resolveram o dilema italiano e muitos prognosticaram segunda-feira à noite um retorno às urnas para dirimir a incerteza. As duas maiores surpresas desse pleito foram protagonizadas pelo movimento Cinco Estrelas e por Silvio Berlusconi. O primeiro porque conseguiu atrair centenas de milhares de eleitores enojados com o sistema político. O segundo é, indiscutivelmente, a potência eleitoral que Berlusconi ainda detém. Após vinte anos de escândalos de toda índole e há apenas alguns meses de ter deixado o país à beira do abismo moral e financeiro, Berlusconi, segue sendo o árbitro da política nacional. Pior ainda, não é improvável que seja ele quem consiga governar. Acossado pela justiça, com denúncias de conteúdo sexual e acusações de corrupção, Berlusconi sai das urnas com um êxito angustiante. As pessoas seguem acreditando em que as enganou e as manipulou como ninguém. Entre a oferta da centro-direta apresentada por Mario Monti e a direita escandalosa do “Cavaleiro”, a Itália preferiu o último.

Em porcentagens absolutas, o vencedor é a centro-esquerda do Partido Democrático, mas os números desenham um futuro nebuloso. A Itália é, no momento, um país ingovernável. A Câmara de Deputados é da coalizão de centro-esquerda, mas o Senado pertence a Berlusconi. Isso trava praticamente todas as decisões que um futuro governo possa tomar. Todos os caminhos que restam são instáveis: formar um governo estável parece um milagre. Pode-se também pensar em um acordo entre Bersani e o movimento Cinco Estrelas, mas não para governar e sim para mudar a lei dos partidos e, com uma legislação menos diabólica como método, voltar a votar.

O grande herói da noite eleitoral é indiscutivelmente Beppe Grillo. Nela recai um poder que abre um rombo na sólida frente dos partidos de governo italianos. O comediante zombou daqueles que governam e desprezam a sociedade. A Itália ingressou na noite de segunda-feira no seleto grupo de países europeus que, ao cabo de processos eleitorais celebrados em plena crise, terminam com partidos anti-sistema que obtém resultados parlamentares consequentes. O caminho foi aberto pela Grécia no ano passado, quando o movimento da esquerda radical Syriza, dirigido por Alexis Tsipras, esteve a ponto de formar o governo e depois, nas novas eleições realizadas em maio, obteve cerca de 20% dos votos. Syriza ficou como a segunda força política da Grécia, na frente do histórico e corrompido partido socialista grego, Pasok.

Quase simultaneamente, na França, a Frente de Esquerda, de Jean-Luc Mélenchon protagonizou uma penetração eleitoral espetacular par uma formação praticamente nova e em cujo interior há desde socialistas dissidentes, anarquistas libertários, ecologistas e comunistas. De uma maneira distinta, mas com um resultado mais espetacular, a Itália entrou na dissidência política. O movimento Cinco Estrelas, liderado pelo humorista Beppe Grillo, se içou a níveis desafiadores frente a uma casta política que funciona como esses sistemas de irrigação automática: só vive para si mesma, para preservar suas prerrogativas e benefícios. Cinco Estrelas rompeu o esquema. Beppe Grillo estragou a festa dos partidos de governo: o Partido Democrático, de Luigi Bersani, e o Povo da Liberdade, do sobrevivente de todas as batalhas e golpes baixos nos últimos 20 anos, o ex-presidente do Conselho Silvio Berlusconi. Esse movimento é uma mistura ousada, uma espécie de “bíblia junto al calefón”, como diz a letra do célebre tango. Se perguntarem a qualquer italiano que decidiu votar neste partido que se define como uma “comunidade”, sua resposta é inequívoca: porque quero que as coisas mudem.

A mudança é, nas sociedades ocidentais, como a irrenunciável aspiração human ao amor. Algo desejado com uma permanência física e metafísica e sempre postergado por essa tendência à incrustação e ao imobilismo que caracteriza os partidos uma vez que se instalam no poder. Contestadora, aberta e declaradamente anti-sistema, Cinco Estrelas é exatamente igual ao slogan com o qual lançou sua campanha: “o Tsunami tour”. Um tsunami cuja verdadeira capacidade de ação e de construção ainda está por se ver. Disparatado para alguns, populista para outros, Cinco Estrelas, seja como for, é a demonstração de um cansaço infinito que se volta contra a política neste século XXI, uma empresa insaciável de mentiras, manipulações, enganos, uma indústria ao serviço de uma corporação de engravatados e não ao povo que foi tentado com propostas que jamais se cumpriram. A socialdemocracia moderada do presidente francês François Hollande é uma prova amável disso: palavras, palavras, palavras.

Beppe Grillo ingresso por essa brecha de desencanto, de orfandade representativa de uma sociedade onde 8 milhões de pessoas vivem com menos de mil euros por mês – é um índice baixo na Europa – e onde um em cada três jovens não tem trabalho. Força destruidora do sistema que se propõe reparar os esquecimentos interessados da governabilidade acomodada e corrigir o sacrifício a que o neoliberalismo europeu submete a milhões e milhões de indivíduos para não perder as suas já grandiosas margens de lucro. Melhor um milhão de desempregados a mais do que 3% de lucros a menos. Com um blog, uma conta no twitter e sem jamais ter pisado num canal de televisão em um país onde os políticos dão a vida para aparecer na frente das câmeras, Beppe Grillo conquistou as massas. Há alguns anos, este humorista genovês organizou o “Vaffanculo Day”, um dia de protesto global contra os políticos. Agora o Vaffanculo passou dos protestos ás urnas e a Itália entrou em uma incerta dissidência contra o sistema.

Tradução: Katarina Peixoto

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A queda de Berlusconi

Em frente ao parlamento, regado a espumante e panetone, povo comemora a iminente queda de Berlusconi.

O primeiro-ministro Silvio Berlusconi já não reúne a menor condição de seguir à frente do governo italiano. Com um princípio de crise que promete se tornar uma avalanche batendo às portas da economia do país (e, em consequência, de toda a Europa), a prova ao premier foi dada na votação na Câmara dos Deputados, do orçamento referente a 2010.
As contas foram aprovadas, mas por apenas 308 votos, bem abaixo dos 316 necessários para uma maioria absoluta – que, num sistema parlamentarista, é praticamente a condição de existência de um primeiro-ministro. A oposição ao premier se absteve na votação. O revés deverá ser fatal.
Cedendo a crescentes pressões da oposição e de lideranças da zona do euro, o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, renunciará ao cargo após a aplicação das medidas de austeridade para reduzir o deficit público do país, segundo nota oficial da Presidência divulgada nesta terça-feira. O premiê se reuniu com o presidente italiano, Giorgio Napolitano, no palácio do Quirinale, sede da Presidência da Itália, junto a lideranças do partido direitista Liga Norte, da base do governo.
Segundo o comunicado da Presidência, Berlusconi teria dito que tem consciência das implicações da votação de hoje expressou preocupação com a necessidade de dar respostas aos parceiros europeus. Logo após a votação, o ministro da Defesa, Ignazio La Russa, afirmou que, independente do resultado, os números teriam que ser levados para o chefe de Estado do país.
Resumindo, a contagem regressiva para a queda de Berlusconi começou hoje, para o alívio geral do povo italiano!


Informações da Carta Capital, Folha e agências de notícias
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A crise europeia também chega ao futebol



Por Fernando Vives


O próximo sábado 10 deve marcar o início do Campeonato Italiano de futebol após semanas de greve dos jogadores, que não se entendiam com os clubes sobre as condições trabalhistas. Com isso, todos as grandes competições do continente terão começado na temporada 2011/2012. O problema é que a crise financeira cada vez mais escancara que os modelos do futebol europeu precisam ser revistos.


Tomemos os três grandes campeonatos da Europa, o inglês, o espanhol e o italiano, como exemplos.



Inglaterra: o falso sucesso com pitada neoliberal
A Premier League inglesa era até bem pouco tempo o exemplo a ser seguido em qualquer país que tenha uma liga de futebol que foque em ser rentável. Refundada em 1992 após anos de mortes em estádios por conta das más condições dos palcos de futebol e brigas de torcidas, naquele ano passou a ser gerida pelos próprios clubes e não mais pela federação de futebol nacional. Até o fim dos anos 1990, os clubes ingleses aumentaram consideravelmente os lucros e voltaram a disputar os títulos da Liga dos Campeões, a principal competição europeia. Na década seguinte, alçaram a Liga Inglesa à condição de melhor do planeta, com os maiores salários e boa parte dos melhores jogadores. Manchester United, Chelsea, Arsenal e Liverpool passaram a ter a maior fatia de seus elencos de jogadores convocados por suas seleções nacionais.
A Liga Inglesa colocava em campo uma espécie de modelo neoliberal, na qual os próprios clubes controlavam o espetáculo, vendiam suas marcas e negociam a cota para a transmissão de tevê. O mundo passou a copiá-los. Só que as coisas não iam tão bem assim como pareciam.
Primeiro, para afastar as brigas entre torcedores e aumentar os lucros, os gerentes da Premier League aumentaram muito o valor dos ingressos. Ver o futebol no estádio tornou-se um programa de classe média alta até para os padrões britânicos. E os problemas não param por aí.
Como a lei britânica é conivente e os organizadores da Premier League pouco se importam, magnatas passaram a comprar clubes de futebol para fazer deles seu bibelô pessoal e angariar prestígio. Daí para a lavagem de dinheiro é um pulo. O russo Roman Abramovich foi um dos pioneiros ao comprar o Chelsea no início da última década. Alçou o clube londrino da condição de médio para um dos mais fortes. Abramovich, que construiu fortuna sobre o petróleo na Rússia em condições suspeitas, é visto como um “vencedor” por muita gente no País. Em sua esteira vieram outros: o bilionário egípcio Mohamed Al Fayed comprou o Fulham. O ex-premiê tailandês Thaksin Shinawatra, que depois caiu por denúncias de corrupção, comprou o Manchester City, posteriormente vendido ao Abu Dhabi United Group, conglomerado dos ricaços dos Emirados Árabes com foco no petróleo.
Entre os principais anunciantes da Liga Inglesa estão casas de apostas. O futebol inglês segue rico, mas na mão de quem está este dinheiro? Paralelamente, os pobres veem o campeonato pela tevê.
Espanha: aos gigantes, tudo. Aos outros, a crise
A situação espanhola é até pior que a inglesa. Quem acompanhava a liga do país nos anos 1990 se recorda sempre dos duelos entre Real Madrid e Barcelona, mas tem também boas lembranças do Atlético de Madri, La Coruña e Valencia, ao menos, equipes que eventualmente surpreendiam os dois gigantes.
No entanto, de 2004 para cá, só dá Real e Barça. A diferença de tamanho de ambos para os demais passou da categoria “grande” para “abissal”: a dupla tem direito a metade da cota de transmissão de tevê e ganha tudo de lá para cá. A outra metade é dividida entre os demais clubes que, nestes tempos de crise, têm extrema dificuldade para conseguir um patrocinador, regional que seja. Na primeira rodada da Liga 2011/12, o Real Madrid enfiou 6 a 0 no Zaragoza fora de casa. O Barça goleou o Villarreal, quarto colocado do último campeonato, por 5 a 0. Revoltado com a discrepência, José Maria del Nido, presidente do Sevilla (outro importante clube médio da Espanha), declarou que o futebol do país “é a maior porcaria da Europa, talvez a do mundo”. A médio prazo, a ausência de competição no campeonato espanhol tem tudo para causar um estrago profundo.
Itália: O coma técnico continua
O futebol italiano viveu uma forte crise no início dos anos 1980. Escândalos de manipulação de resultados estouraram no país, clubes importantes foram rebaixados à segunda divisão e dirigentes e jogadores foram presos. Mas  esta crise deu impulso para a modernização do futebol italiano, que em poucos anos passou a ter os principais jogadores do planeta, os clubes mais fortes e uma liga muito competitiva.
O problema é que, com a ascensão dos campeonatos inglês e espanhol nos anos 1990, o Calcio não se modernizou e teve sua importância reduzida. Os clubes italianos foram aos poucos perdendo espaço na Liga dos Campeões. O único que se destacava era o Milan, do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, que vivia do mecenato de seu dono. O caso de Berlusconi virou tendência: vários milionários compraram os clubes, e alguns deles faliram, como foi o caso da família Cragnotti, na Lazio, e de Franco Sensi, na Roma, na virada dos anos 1990 para os 2000.
A partir daí virou uma bagunça: até Muammar Kaddafi andou investindo na Juventus e no Peruggia (o filho do ditador líbio chegou a jogar por este último). Novos escândalos de compra de resultados e manipulação de arbitragem relacionadas a casas de apostas estouraram em 2006. Hoje o Campeonato Italiano é pouco mais que um produto para divertimento dos próprios italianos.  Este ano, o campeonato começa atrasado por conta de uma greve dos jogadores.
Em meio a tanta orgia de dinheiro, a única luz no futebol europeu de primeiro nível parece ser a Bundesliga, liga alemã. A lei germânica dificulta que investidores usem clubes de futebol para lavar dinheiro, o que evita a entrada de magnatas em um ramo que não é o deles. Os preços de ingressos para as partidas é bastante honesto para a classe média baixa e, nos estádios, é ainda possível beber cerveja e levar bandeiras e faixas, o que não ocorre, por exemplo, na Inglaterra. Claro que ter uma economia forte, que sofreu menos com o impacto da crise financeira atual, ajuda a Bundesliga a estar equilibrada. Mas a estratégia de não deixar o futebol nas mãos erradas e manter o povo nos estádios parece ser um toque social democrata que a Alemanha dá ao futebol. Que vire tendência pelo mundo.
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Tarso Genro e o caso Battisti: “Itália tratou o Brasil como uma colônia”



Responsável pela concessão do refúgio político ao ex-ativista italiano Césare Battisti, o governador Tarso Genro comentou com o jornalista André Machado, do site Esquina Democrática, a decisão do STF. Tarso era ministro da Justiça do governo Lula quando houve o pedido de extradição. Além de comemorar a decisão do Supremo Tribunal Federal, o governador fez críticas ao governo italiano.

Confira a entrevista:

ESQUINA DEMOCRÁTICA – Como a decisão do STF sobre Cesare Battisti se relaciona com a sua decisão como ministro da Justiça de haver concedido refúgio político ao ex-ativista italiano?

TARSO GENRO – O pedido de extradição do Battisti foi um ato de arrogância do governo italiano em uma situação de decadência reconhecida internacionalmente. Atitude que ele nunca tomou quando o Battisti foi considerado refugiado político na França durante mais de dez anos. Este pedido feito pelo governo italiano cai nas mãos do ministro da Justiça que decide conceder o refúgio pelo fato dele ser um criminoso político. Os crimes que ele cometeu estavam na ordem da criminalidade política que permite a concessão do refúgio. Naquele momento o Supremo Tribunal Federal deveria ter interrompido o processo de extradição e liberado o Battisti como ocorreu com outros diversos italianos na mesma situação no Brasil.

ESQUINA DEMOCRÁTICA – …no momento em que o senhor como ministro da Justiça concedeu o refúgio político?

TARSO GENRO – Exatamente. A lei é clara. Ela diz que a concessão do refúgio por parte do ministro da Justiça equivale a uma decisão soberana do Presidente da República. Ele age por delegação do presidente. Mas o STF entendeu naquele momento que não deveria libera-lo na oportunidade e julgou – avaliando o pedido de extradição – que o Battisti deveria ser extraditado por que o seu delito não seria de natureza política, contrariando decisões anteriores sobre outras pessoas nas mesmas circunstâncias.

ESQUINA DEMOCRÁTICA – O senhor já leu o processo mais de uma vez. O senhor segue convencido de que o crime de Battisti foi meramente um crime político?

TARSO GENRO – Não sou eu que digo. Dentro do processo tem uma declaração do ex-ministro italiano da Justiça na época, Francesco Cossiga, que diz exatamente isto. Que ele era um criminoso político que queria instaurar uma ditadura de esquerda na Itália. Acusações que são muito semelhantes a algumas acusações que foram feitas também no Brasil na época do regime militar. Eu não entro sequer no mérito da razão, a persecução que o estado italiano fez naquele momento às pessoas que alçaram em armas foi justa e adequada. O estado reagiu como deveria ter reagido. Só que o fato do estado ter agido de maneira adequada e de acordo com as suas leis não quer dizer que aqueles rapazes que eram delinqüentes políticos na época não devam ser considerados criminosos políticos. Foi um ato de arrogância do governo italiano que quis tratar o Brasil como uma colônia, debochou do nosso sistema judiciário, ofendeu a um ministro do Supremo como se o Brasil fosse um país de segunda categoria. Então esta decisão do STF que devolve ao presidente da República a decisão foi uma decisão correta, equilibrada e digna de um tribunal de um país maduro e que tem um estado de direito a ser preservado.

ESQUINA DEMOCRÁTICA – Esta decisão que coloca Césare Battisti agora em liberdade no Brasil afeta de alguma maneira as relações com a Comunidade Européia em geral e com a Itália em particular?

TARSO GENRO – Em absoluto, inclusive os próprios estados europeus na oportunidade em que ocorreram estas violências concederam refúgios a pessoas que estavam nesta situação. Como a França que não pode ser acusada de não ser um estado de direito. A Espanha abrigou também refugiados políticos de outros países que se alçaram em armas, inclusive na América Latina.O Brasil é um exemplo de concessão de refúgio. Concedemos refúgio para um terrorista de extrema direita como o general (George) Bidault que tentou matar o De Gaulle (ex-presidente da França). O Brasil tem uma tradição de acolhimento. Acolheu o Stroessner (ex-presidente do Paraguai) como criminoso político e reconhecido como um ditador nefasto internacionalmente. Quando um país concede um refúgio – e foi este o meu despacho – o país não está avalizando o que foi feito. Está apenas dizendo que se inscreve nas normas internacionais de proteção ao refúgio.

ESQUINA DEMOCRÁTICA – O senhor tem uma opinião pessoal sobre se Battisti tinha ou não razão nos atos que cometeu?

TARSO GENRO – O Battisti se insurgiu, juntamente com centenas e milhares de jovens na Itália naquela oportunidade, de uma forma completamente equivocada. Como vários que cometeram atos de violência naquela oportunidade. Isto, de outra parte, não justifica que o próprio estado italiano tenha violado a sua legalidade. Colocou o serviço secreto da OTAN a combater as pessoas que estavam fazendo ações subversivas contra a democracia naquela época. Então houve uma violação recíproca do direito. Do estado italiano que se socorreu do serviço secreto da OTAN – e tem denúncias na Anistia Internacional de torturas que foram cometidas naquela época nos porões da própria democracia – o que obviamente não justifica o que as pessoas fizeram, mas também não justifica que o Battisti e os outros sejam tratados como criminosos comuns.
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STF apóia Lula, derrota Berlusconi e Gilmar Mendes e solta Battisti



Por André Barrocal (Carta Maior)

Preso há quatro anos num presídio do Distrito Federal, o ativista político italiano Cesare Battisti deve ser solto nesta quinta-feira (09/06) e, logo em seguida, pedir ao Conselho Nacional de Imigração um visto para permanecer de forma definitiva no Brasil. Depois, decidirá se fica em Brasília, muda-se para o Rio de Janeiro, onde tem amigos, ou para São Paulo, onde está a editora de livros com a qual trabalhava antes da detenção e pela qual quer retomar a atividade de escritor.

O alvará de soltura de Battisti foi assinado na noite desta quarta-feira (08/06) pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Cezar Peluso, depois de um julgamento de mais de seis horas em que o STF apoiou o direito do ex-presidente Lula de conceder refúgio ao ativista e rejeitou a tentativa do primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, de obter a extradição do compatriota.

O Supremo libertou Battisti por 6 votos a 3, numa decisão em que os ministros se dividiram entre duas posições. A vitoriosa defendeu encarar o caso como uma questão política. Como presidente da República, Lula tinha soberania para decidir dar ou não abrigo ao italiano, e depois que arcasse com as consequências políticas – reação internacional negativa, processo no Tribunal Internacional de Haia ou por crime de responsabilidade no Congresso Nacional, por exemplo.

Essa tese prevaleceu mesmo diante do fato de que a própria Corte opinara, no ano passado, e também por maioria, que Battisti, acusado de quatro assassinatos, não merecia refúgio. “O ato do presidente da República é um ato de soberania, e é ele quem conduz a política internacional [do Brasil]”, disse o ministro Marco Aurélio Mello, que votou pela libertação de Battisti.

A Corte havia se reunido para discutir a situação do italiano por causa de uma reclamação do governo Berlusconi contra o asilo concedido por Lula em 31 de dezembro de 2010, último dia do mandato do ex-presidente. Mesmo depois do refúgio, há mais de cinco meses, Battisti continuava preso, devido a esta reclamação.

Favorável à contestação de Berlusconi, o relator do caso, ministro Gilmar Mendes, liderou a corrente derrotada, que preferiu encarar o assunto como algo “jurídico”. Nesta interpretação, Lula tinha obrigação de cumprir a postura pró-extradição manifestada pelo Supremo em 2010, e não de considerá-la apenas como uma opinião na sua (dele, Lula) tomada de decisão.

Mendes amparou o voto no fato de existir um tratado entre Brasil e Itália que aborda o tema "refúgio". Para ele, o tratado tem valor legal dentro no Brasil e devia ser seguido como uma lei qualquer. “Para inventar um espaço livre para o presidente da República, tem de reescrever a Constituição”, afirmou Mendes.

“O que está em jogo aqui não é o presente ou o futuro de um homem, é a soberania do país”, disse o ministro Luiz Fux, que votou contra o relator. Para o ministro Carlos Ayres Brito, outro voto oposto a Gilmar Mendes, Lula decidiu, sim, com base no tratado, cuja observância é voluntária. Ou seja, o país que o assina segue enquanto achar conveniente, e o outro lado pode ficar insatisfeito e desistir do tratado também.

Até quem tinha opinado pela extradição de Battisti no julgamento do ano passado, como o ministro Ricardo Lewandowski, que entendia haver o italiano praticado crimes comuns, e não políticos, defendeu que Lula tinha "soberania" para decidir como achasse melhor.

Gilmar Mendes foi derrotado junto com a ministra Ellen Gracie e o próprio do presidente do STF, Cezar Peluso. Os três rejeitaram a idéia de que a Corte estava diante de uma questão política e defenderam que seria preciso “limitar” o poder do presidente da República.

Após o julgamento, acompanhado do lado de fora do STF por simpatizantes de Battisti que gritavam contra Gilmar Mendes, o advogado do militante, Luis Roberto Barroso, comemorou a decisão do Supremo de reconhecer o direito do ex-presidente de decidir de forma “soberana” pelo refúgio.

Barroso lamentou a perseguição política de que seu cliente foi vítima durante anos. "Ele é uma figura menor de uma organização de esquerda menor, é quase inacreditável que a Itália tenha tornado ele um símbolo de terrorista”, afirmou. “O uso da expressão terrorista é uma ofensa parta um velho militante comunista", completou.

O advogado disse estar otimista quanto à obtenção de visto permanente por Battisti já que, se o Brasil concedeu refúgio, é porque o aceitaria tê-lo vivendo aqui. Já o primeiro advogado do italiano, Luiz Eduardo Greenhalgh, que estava presente ao STF, informou que Battisti vai decidir com calma qual será seu destino – Brasília, Rio ou São Paulo – e que o ativista tem a intenção de escrever um livro sobre seu caso.

Decisão sobre Battisti é ato indigno de nação civilizada, diz ministra italiana


STF decidiu nesta quarta-feira não extraditar Cesare Battisti. Supremo também decidiu soltar o ativista italiano, em uma prova que, ao contrário do "choro" da ministra, o Brasil é sim um país democrático e "civilizado".


A direita está em polvorosa com a  a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de libertar Cesare Battisti, ao ponta da ministra italiana da Juventude, Giorgia Meloni, qualificar o de "ato indigno de Nação civilizada e democrática". E o que sobra para a Itália de Berlusconi e suas aventuras sexuais?

O Supremo recusou nesta quarta a extradição de Cesare Battisti para a Itália, confirmando a decisão do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, adotada no final de dezembro passado. O tribunal também decidiu pela libertação do ex-ativista italiano de extrema esquerda, detido no Brasil há quatro anos.
O presidente do STF, Cezar Peluso, firmou a ordem de libertação de Battisti, e o documento segue para a Polícia Federal (PF). O italiano está detido na penitenciária da Papuda, em Brasília.
O advogado de Battisti, Luis Roberto Barroso, revelou que seu cliente já foi informado da decisão, e que deverá sair da prisão na manhã desta quinta-feira (9)

Seis votos a três

A extradição foi negada por seis ministros do Supremo: Luiz Fux, Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski, Joaquim Barbosa, Ayres Britto e Marco Auréio Mello. Mas Gilmar Mendes, Cezar Peluso e Ellen Gracie defenderam a análise do pedido.

Informações da AFP

Guerra na Líbia - a "ótica" vesga do império



A “ótica” vesga da Alvorada da Odisséia

Por Pepe Escobar


A Operação Alvorada da Odisséia, pelo menos por hora, é a primeira guerra do AFRICOM dos EUA. O Pentágono, via o vice-almirante Bill Gortney, dissipou qualquer dúvida que houvesse, quando disse que “o fio condutor” é norte-americano. O papel de Homero ficou a cargo do general Carter Ham, que comanda de seu gabinete em Stuttgart, Alemanha (nenhum país africano interessou-se por hospedar o AFRICOM). E Ulisses – no que já tem mais cara e som de Ilíada que de Odisséia – é o comandante da Força Tarefa Conjunta Aurora da Odisséia almirante Sam Locklear, a bordo do USS Mount Whitney em algum ponto do Mediterrâneo.
Os estrategistas bélicos da Casa Branca e do Pentágono apostaram as “excepcionais capacidades” deles numa versão remix-reduzida do “choque e pavor” da guerra do Iraque. O único problema é que o coronel Muammar Gaddafi não parece nem chocado nem apavorado; está furioso – na foto dessa 3ª-feira no complexo de Bab al-Aziziya –, mas não vergou. E seu governo resiste, sem se por contra o coronel.
Apesar disso, Washington tenta projetar uma imagem pública, mostrando a fantasia de que estaria louca para livrar-se dessa guerra, vendida como “missão limitada”. Mas os comunicados estão confusos. Dizem, na linguagem do Pentágono, que os senhores da guerra estariam encontrando dificuldades na “transição para um comando da coalizão.”
Washington deveria ter avaliado melhor a “ótica”, antes de evocar Homero. Esqueçam “o peso da missão” (em andamento), “fogo amigo” (virá), “dano colateral” (já aconteceu), “eixo do mal” (expressão favorita perene). O novo neologismo de prestígio em Washington e nos círculos íntimos do poder é “ótica”.
Os militares-de-sempre e seus jornalistas-de-sempre carpindo a fórmula da “ótica emocional” dos mísseis cruzadores plus os briefings assinados pela “coalizão” já repuseram, na cabeça de todos, a guerra do Iraque-2003. Espalha-se nos EUA o medo de mais uma “ótica da guerra sem fim”, mais uma vez contra país muçulmano.

Ilusões de ótica


Até entre os “aliados”, a “ótica”, do tipo lata de lixo. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) é completa confusão. A Turquia exige diálogo – e não admite bombas. A Alemanha é contra qualquer intervenção pela OTAN e destaca que bombas não darão conta do recado. A França, arrastada pela megalomania do neonapoleônico Nicolas Sarkozy, quer manter a ilusão de que estaria no comando.
Com medo de que a França usurpe-lhe o trono de primeiro parceiro comercial da Líbia e na luta para impedir que a política mediterrânea seja ditada em Paris, o governo do grande amigo de Gaddafi, Silvio “Bunga-Bunga” Berlusconi, aderiu com relutância à “coalizão” (e agora, no privado, Bunga Bunga diz horrores contra Sarko). A gigante italiana de energia ENI investiu 50 bilhões de dólares na Líbia; a ENI tem todo o interesse em livrar-se de Gaddafi, depois que o coronel ameaçou abrir as torneiras do gás e petróleo líbios para os BRICs Rússia, Índia e China.
Os principais quatro BRICSs (o quinto membro é a África do Sul) livraram-se, espertamente, de toda a Odisséia. O Brasil exigiu cessar-fogo e diálogo. A China manifestou “profunda preocupação” e alertou para a iminência de um “desastre humanitário”. A Índia disse que “nenhuma potência externa deve intervir” na Líbia. E a Rússia, pelo primeiro-ministro Vladimir Putin, denunciou uma “resolução que permite tudo”.
O mesmo fez a União Africana, de 53 nações. A União Africana quer solução diplomática. Gaddafi tem muitos aliados históricos na União Africana. E ajuda a pagar muitas contas da União Africana.
A Argélia – membro também da Liga Árabe – disse que a intervenção é “desproporcional”. No Chad, o presidente Idriss Deby continua no poder em boa parte graças aos bolsos fundos de Gaddafi. Deby pagou o favor enviando mercenários e armas para Trípoli. E mais: se a zona aérea de exclusão não for estendida até o sul da Líbia (por enquanto só cobre o norte e o litoral mediterrâneo), Gaddafi continuará a poder receber ajuda, armas e mercenários, que lhe chegarão do Chad, Mali, Niger e da Argélia (ver ” Despachem os tuaregues, por favor, urgente!” ”,  ver 8/3/2011, Castorphoto).
Não raiou, na Alvorada da Odisseia da cabeça dos estrategistas do Pentágono, que coalizão que não tenha explícito apoio da União Africana implica, sempre, que a União Africana poderá continuar a ajudar o regime de Gaddafi.
E há também a carne no kebab da coalizão – a Liga Árabe. O fato de Washington ter ordenado aos assustados reis do Marrocos e da Jordânia e aos ricos emires em Doha e Abu Dhabi que se engajassem como “aliados” – todos indiferentes ao grotesco indescritível de esses ditadores fazerem pose de salvadores humanitários da democracia – não implica que toda a Liga Árabe esteja a bordo da Alvorada da Odisséia. É isso.
Claro. A menos que se computem os éramos-seis, viramos-quatro, agora-só-dois Mirages 2000 da Força Aérea do Qatar, mais um avião cargueiro C-17 – que entrarão em cena no próximo fim de semana –, como toda a gloriosa contribuição da Liga Árabe para os combates da “coalizão”.

Sem fim de jogo


A “coalizão” não chegara nem perto de ter esgotado “todas as medidas necessárias” que a Resolução n. 1.973 da ONU encarregou-a de adotar, e os Ulisses-EUA já lá estavam, despejando Tomahawks sobre a Líbia. Todos os países do mundo que não estão representados nessa “coalizão de vontades” querem, essencialmente, que uma equipe internacional – Liga Árabe, União Africana e ONU – vá até Trípoli e negocie um pacote: cessar-fogo real, mecanismos eficazes para proteger civis e processo viável que leve a eleições na Líbia. A “ótica” de Washington não viu isso?
E como se não bastasse a “ótica” vesga, a Alvorada da Odisséia ainda nem conseguiu raiar. No máximo, evitou um possível massacre em Benghazi. Relatos horríveis de Zawiya e Misurata contam sobre civis atacados por tanques e veículos blindados, e das milícias – os “irregulares” de Gaddafi – em jipes e caminhonetes pick-up. É a prova que basta, de que zona aérea de exclusão – até aqui, só feita de choque e horror – não está efetivamente protegendo civis alguns.
O presidente Barack Obama parece convencido de que conseguiu inverter a “ótica”. Os noticiários não se cansam de repetir que Obama, o primeiro-ministro britânico David Cameron e “Sarko” concordaram com que a OTAN tenha “papel central” na Alvorada da Odisséia. Foi como enviesar a “ótica” de modo a dizer que os EUA nada teriam a ver com a implantação militar da zona aérea de exclusão – quando ficaram encarregados de tudo (os 28 membros da OTAN aprovarão tudo, por unanimidade).
Essa saturação ótica contribui para tornar ainda mais evidente o que já era claro desde o início. A guerra passará por uma “transição”: de “coalizão de três vontades” (EUA, Grã-Bretanha e França), para “guerra da OTAN”.
Se o Pentágono realmente aplicasse todas as suas exaltadas “excepcionais capacidades”, o regime de Gaddafi estaria reduzido a pó em alguns minutos. Mas é “missão limitada” conduzida por uma “coalizão” – não é “mudança de regime”, embora mudar o regime seja tudo o que desejam Obama, os europeus e vários ditadores árabes. Para eles, trata-se da “ótica” do alerta vermelho.
O establishment em Washington festeja que, pela primeira vez, “o público árabe” estaria apoiando uma intervenção norte-americana. Cuidado com a “ótica”. O “público árabe” também está vendo que Gaddafi atira contra o próprio povo e, em seguida, é bombardeado pelos EUA e pelo ocidente. Por que não se providencia a mesma solução contra os ditadores no Iêmen e no Bahrain?
O “público árabe” também sabe identificar claramente os métodos que EUA e europeus usam para tentar roubar, do mesmo público árabe, a sua grande revolta árabe de 2011.
Por hora, com tanta “ótica” confusa, nenhum think-tank atreve-se a prever o que a “coalizão” tirará da manga, quando nenhuma zona aérea de exclusão detiver Gaddafi. Armar os “rebeldes”, exército de farrapos, mas valentes e ultramotivados – o que já está sendo feito – é ação autorizada pela Resolução n. 1.973 da ONU. Washington, Londres e Paris esperam que os rebeldes logo partam da defesa ao ataque, marchem sobre Trípoli, derrubem o tirano e garantam à audiência um final feliz Hollywoodiano.
Nunca acontecerá. O conselho de transição em Benghazi pediu uma zona aérea de exclusão – não intervenção estrangeira. A Alvorada da Odisséia só faz bombardear pesadamente Trípoli – no outro extremo do país. A população de Trípoli já começa a ver aí o início de nova guerra colonial. O que significa que nenhuma transição política pós-Gaddafi jamais será pacífica. Muito perversamente, a Alvorada da Odisseia prepara o terreno para dividir a Líbia. Alvorada, no máximo, da balcanização.
Qualquer analista militar decente, que valha o que custa ao Estado em uísque on the rocks, sabe que guerras vencem-se no chão. O impulso humanitário é cortina de fumaça: por que a Líbia, e não o Iêmen, o Bahrain, Gaza?. Tudo faz temer outro, novo, muito perigoso teatro de guerra no chamado MENA [ing. Middle East e Norte da África), Odisséia desnorteada, distorcida, sem fim de jogo nem final à vista. Aparece, desaparece; agora você vê, agora você não vê.

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Estudantes protestam contra as reformas educacionais do governo italiano.

Bolonha - Itália
Gianfilippo Oggioni/AP