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Žižek: Como o Wikileaks abriu nossos olhos para a ilusão da liberdade


Por Slavoj Žižek
Nós nos lembramos dos aniversários de eventos importantes de nossa época: 11 de setembro (não apenas o ataque às Torres Gêmeas em 2001, mas o golpe contra Salvador Allende, no Chile, em 1973), o Dia D etc. Talvez outra data deva ser adicionada a esta lista: 19 de junho.
A maioria de nós gostaria de dar um passeio durante o dia para tomar uma lufada de ar fresco. Deve haver uma boa razão para aqueles que não podem fazê-lo – talvez eles tenham um trabalho que os impede (mineiros, mergulhadores), ou uma estranha doença que faz com que a exposição à luz solar seja um perigo mortal. Mesmo prisioneiros têm a sua hora diária de caminhada ao ar fresco.
Faz dois anos desde que Julian Assange foi privado deste direito: ele está confinado permanentemente ao apartamento que abriga a embaixada equatoriana em Londres. Se sair, seria preso imediatamente. O que Assange fez para merecer isso? De certa forma, pode-se entender as autoridades: Assange e seus colegas denunciantes [whistleblowers] são frequentemente acusados de serem traidores, mas são algo muito pior (aos olhos das autoridades).

Milhões de “Selfies” e “fotos de perfil” são interceptados para espionagem dos EUA


Nem mesmos os inofensivos "selfies" estão livres da poderosa máquina de espionagem cibernética dos EUA, comandada pela NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA, na sigla em inglês). São interceptados milhões de imagens nas redes sociais para abastecer um programa de reconhecimento facial, apontam novos documentos vazados por Edward Snowden, divulgados neste domingo (01/06) pela imprensa norte-americana.

Angry Birds e outros aplicativos são utilizados pelas agências de espionagens


Agências de espionagens utilizam aplicativos para rastreamento de suspeitos

Ao executar o aplicativo Angry Birds - baixado por mais de 1 bilhão de pessoas em todo mundo - qualquer um pode ter seus dados (localização, idade, sexo) acessados pela NSA (National Security Agency) e seu homólogo britânico, a GCHQ (Government Communications Headquarters).
É o que apontam documentos confidenciais entregues aos jornais The Guardian, The New York Times e ao site ProPublica, pelo delator e ex-funcionário da NSA, Edward Snowden. As agências têm trabalhado juntas desde 2007 na coleta de cada vez mais dados de suspeitos de terrorismo e outros alvos, e nos últimos anos os smartphones têm sido cada vez mais utilizados na tarefa.

Assange vs. Snowden: semelhanças e diferenças


Dois personagens, duas revelações, duas relações com a imprensa; duas imagens completamente diferentes. Porém, não estão tão distantes como poderia parecer

Por José Cervera

Ambos ganharam fama no mundo inteiro por suas revelações de segredos sobre o funcionamento interno do governo Americano. Ambos colaboraram com jornais famosos e de projeção mundial para tornarem públicas informações antes desconhecidas. Ambos têm sido tema de livros, filmes e inúmeros artigos de jornais em todo mundo, incluindo o The New York Times e The Guardian. Mas um deles, o ex-técnico da NSA Edward Snowden, os diários consideram um whistleblower (membro de uma organização que revela abusos) e pedem para que receba anistia e lhe permitam voltar aos EUA.

No entanto, o tratamento nas mesmas páginas de Julian Assange, fundador do Wikileaks, não poderia ser mais diferente. Não é normal que o The New York Times fale que uma fonte cheira mal e é arrogante em uma reportagem assinada por seu diretor, ou que publique um perfil pouco favorecedor que descreve seu estilo como “ditatorial, excêntrico e malandro”, nem o The Guardian publicar em seu livro que ele “se disfarçou de velhinha”. Quais são as diferenças e semelhanças entre estes dois personagens que geraram um tratamento jornalístico tão desigual?

Software livre é a saída para fugir da espionagem oficial


Os documentos revelados por Edward Snowden confirmam as suspeitas de longa data de que as agências conspiram secretamente com empresas de tecnologia para irem diretamente aos arquivos que eles querem bisbilhotar. Mas os mortais comuns, que precisam usar a internet rotineiramente, têm como fugir dos olhos do "Grande Irmão"? Artigo publicado no site Inovação Tecnológica

Zizek: Snowden, Manning e Assange são nossos novos heróis

Snowden, Manning e Assange são nossos novos heróis: Eles revelaram algo que não só os EUA, mas todos os grandes poderes estão fazendo.
Por Slavoj Zizek
Todos nos lembramos do rosto sorridente do presidente Obama, cheio de esperança e confiança, em sua primeira campanha: “Yes, we can!” — nós podemos nos livrar do cinismo da era Bush e trazer justiça e bem-estar para o povo americano. Agora que os EUA continuam suas operações secretas e expandem sua rede de inteligência e espionagem até mesmo na direção de seus aliados, podemos imaginar manifestantes gritando para Obama: “Como você pode usar os drones para matar? Como você pode espiar nossos aliados?” Obama murmura com um sorriso zombeteiro: “Yes, we can.
Mas a personalização perde o sentido: a ameaça à liberdade revelada pelos whistleblowers tem raízes mais profundas, sistêmicas. Edward Snowden deve ser defendido não só por que seus atos envergonharam os serviços secretos dos EUA; ele revelou algo que não só os EUA, mas também todos os grandes (e não tão grandes) poderes – da China à Rússia, da Alemanha a Israel – estão fazendo (na medida em que são tecnologicamente capazes de fazê-lo).

Wikileaks revela a dimensão dos arquivos espiões


O Wikileaks publicou cerca de 200 documentos de aproximadamente 80 empresas da indústria privada de espionagem. Os arquivos mostram que as novas tecnologias permitem espiar em tempo real as comunicações de milhões de pessoas. Desde chats até comunicações via satélite, tudo pode ser espiado.


A reportagem é de Santiago O’Donnell e publicada no jornal argentino Página/12, 05-09-2013. A tradução é de André Langer.

Google admite que usuários do Gmail não têm privacidade


O Google admitiu, por meio de um documento apresentado por seus advogados em uma ação judicial nos Estados Unidos, que os usuários do Gmail não podem ter uma expectativa razoável de que a confidencialidade de seus e-mails seja respeitada, segundo o jornal britânico The Guardian.

Asilo para Snowden: “É a lei, estúpido!”


Por Richard Falk


A imprensa-empresa mais influente nos EUA tem usado três meios para reforçar seu viés a favor do governo, no caso Snowden:

Primeiro, refere-se sempre a Snowden como “vazador” [orig. lit.leaker], em vez de “alertador” [orig. whistleblower, lit. “tocador de apito”] ou “dissidente [do estado] de vigilância”, designações mais precisas e mais respeitosas.

Segundo, a imprensa-empresa dominante ignora completamente o quanto o gesto dos russos, de dar status de refugiado temporário a Snowden por um ano está em perfeito acordo com o nível normal de proteção a ser dada a qualquer pessoa acusada de crimes políticos não violentos em país estrangeiro, e perseguida diplomaticamente e legalmente por governo que busque indiciá-la e processá-la.
A Rússia entregar Snowden aos EUA nessas condições seria moralmente e politicamente escandaloso, considerando-se a natureza dos crimes de que os EUA acusam Snowden.

Terceiro, a imprensa-empresa dominante recusa-se a reconhecer que espionagem, a principal acusação feita contra Snowden, é a principal e maior, a “ofensa política” essencial, na lei internacional, e como tal é rotineiramente excluída de qualquer lista de ofensas que geram extradição.

Assim sendo, ainda que existisse tratado de extradição entre EUA e Rússia, seria preciso deixar absolutamente claro que não há nenhum dever legal, para os russos, de entregar Snowden às autoridades dos EUA para ser processado criminalmente e, sim, haveria um dever moral e político de não o entregar, sobretudo nas circunstâncias que cercam a controvérsia sobre Snowden.

Manning, condenado; criminosos de guerra, à solta


Manning traiu os "Senhores Imperiais do Universo" e, dado que não se trata de um filme arrasa-quarteirões dos Clássicos Marvel, Manning teria de ser detonado.

Por Pepe Escobar

Em tribunal espetaculoso, julgamento-show com pitadinha de EUA, digno da Revolução Cultural da China nos anos 1960s, Bradley Manning foi declarado culpado, como já se previa, de inúmeras violações da Lei Antiespionagem [orig. Espionage Act].
Se, pelo menos, Walter Benjamin estivesse vivo para ver o Anjo da História, mais uma vez, lançar outro de seus raios marca-registrada de ironia: Manning foi declarado culpado em crime de espionagem – por juiz do Pentágono –, na porta ao lado da Central de Espionagem, o quartel general da Agência Nacional de Segurança dos EUA, em Fort Meade, Maryland.

Brasil está exposto à espionagem graças a Paulo Bernardo, diz ex-presidente da Telebrás



O Brasil poderia estar mais protegido da espionagem dos Estados Unidos denunciada pelo ex-agente da CIA Edward Snowden se o governo não tivesse abandonado a ideia de revigorar a Telebras, acredita o ex-presidente da estatal Rogério Santanna. A recuperação da companhia e seu uso estratégico eram pilares do Plano Nacional de Banda Larga lançado em maio de 2010. Segundo o PNBL, a Telebras assumiria a rede de órgãos públicos, por exemplo (após três anos, só a Presidência e o Exército têm o serviço). Também seria um ponto de apoio a empresas brasileiras de telecomunicações como a Petrobras faz no petróleo.

Santanna foi o primeiro presidente da nova Telebras, mas deixou o cargo em maio de 2011, após se ver enfraquecido em Brasília. Segundo ele, o PNBL está emperrado por força do lobby das ope­radoras privadas de telefonia, crescente desde a nomeação de Paulo Bernardo para o Ministério das Comunicações.

Em entrevista a Carta Capital, realizada pelo jornalista Andre Barrocal e reproduzida abaixo aqui no blog, Santanna explica melhor como se deu este processo.

Julian Assange: A América Latina na era das cyberguerras


"A luta pela autodeterminação latino-americana é importante para muito mais gente do que os que vivem na América Latina, porque mostra ao resto do mundo o que pode ser feito"

Por Julian Assange


Os cypherpunks originais eram, na maioria, californianos libertaristas*. Eu vim de tradição diferente, onde todos nós buscávamos proteger a liberdade individual contra a tirania do Estado. Nossa arma secreta era a criptografia. Já se esqueceu o quanto isso foi subversivo. A criptografia, então, era propriedade exclusiva dos Estados, para uso em suas muitas guerras. Ao escrever nossos próprios programas e distribuí-los o mais amplamente possível, liberamos a criptografia, a democratizamos e a espalhamos pelas fronteiras da nova internet.
A reação contra, sob várias leis “de tráfico de armas”, falhou. A criptografia se difundiu nos browsers da rede e em outros programas que, hoje, as pessoas usam diariamente. Criptografia forte é ferramenta vital na luta contra a opressão pelo Estado. Essa é a mensagem do meu livro Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet. Mas o movimento para disponibilizar universalmente uma criptografia forte tem de trabalhar para obter mais do que isso. Nosso futuro não está apenas na liberdade para os indivíduos.

Espionagem americana se espalhou pela América Latina


De janeiro a março passado, de acordo com os documentos, agentes da NSA realizaram ações de espionagem na América Latina usando ao menos dois programas: "Prism" (no período de 2 a 8 de fevereiro) e "Boundless Informant" (de janeiro a março).

O "Prism" possibilita acesso a e-mails, conversas online e chamadas de voz de clientes de empresas como Facebook, Google, Microsoft e YouTube. Através dele, a NSA levantou dados sobre petróleo, energia e narcóticos do México. Esse programa, no entanto, não permite o acesso a todo o universo de comunicações. Grandes volumes de tráfego de telefonemas e de dados na internet ocorrem fora do alcance da NSA e seus parceiros no uso do Prism.

Para ampliar seu raio de ação, a agência desenvolveu outros programas com parceiros corporativos capazes de lhe abrir acesso às comunicações internacionais. É o caso do "Boundless Informant", para catalogação de telefonemas e acessos à internet.

EUA tiveram base de espionagem em Brasília


Funcionou em Brasília, pelo menos até 2002, uma das estações de espionagem nas quais agentes da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) trabalharam em conjunto com a Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos. Não se pode afirmar que continuou depois desse ano por falta de provas.

Documentos da NSA a que jornal O GLOBO teve acesso revelam que Brasília fez parte da rede de 16 bases dessa agência dedicadas a um programa de coleta de informações através de satélites de outros países. Um deles tem o título “Primary Fornsat Collection Operations” e destaca as bases da agência.

Satélites são vitais aos sistemas nacionais de comunicações, tanto quanto as redes de fibras óticas em cabos submarinos. O Brasil não possui nenhum, mas aluga oito, todos do tipo geoestacionário – ou seja, que permanecem estacionados sobre uma região específica da Terra, em geral na linha do Equador.

Há também um conjunto de documentos da NSA, de setembro de 2010, cuja leitura pode levar à conclusão de que escritórios da Embaixada do Brasil em Washington e da missão brasileira nas Nações Unidas, em Nova York, em algum momento teriam sido alvos da agência.Não foi possível confirmar a informação e nem se esse tipo de prática prossegue.

Brasil está entre os países mais espionados pelos EUA


País aparece como alvo na vigilância de dados: EUA espionaram milhões de e-mails e ligações de brasileiros
O jornal O Globo, informa na sua edição deste sábado  que o Brasil “aparece destacado em mapas da agência americana [NSA] como alvo prioritário no tráfego de telefonia e dados (origem e destino), ao lado de nações como China, Rússia, Irã e Paquistão”. Apesar de dizer ser incerto o número de pessoas e empresas visadas no Brasil, o jornal afirma que “há evidências de que o volume de dados capturados pelo sistema de filtragem nas redes locais de telefonia e internet é constante e em grande escala”. O artigo é assinado por Glenn Greenwald – o jornalista do britânico Guardian que revelou ao mundo a fuga de informação promovida por Edward Snowden – e por dois jornalistas brasileiros, Roberto Kaz e José Casado.
Edward Snowden
Para aceder às redes de telecomunicações e Internet do Brasil, a Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos usa programas com parceiros empresariais capazes de lhe fornecer acesso às comunicações internacionais. Um desses programas, revela agora O Globo, é o Fairview, que viabilizou a recolha de dados em redes de comunicação no mundo todo. A NSA, através de uma parceria com uma grande empresa de telecomunicações americana, que, por sua vez, mantém relações de negócios com outros serviços de telecomunicações, no Brasil, consegue assim acesso às redes de comunicações brasileiras.
O documento a que O Globo teve acesso descreve o sistema da seguinte forma: “Os parceiros operam nos EUA, mas não têm acesso a informações que transitam nas redes de uma nação, e, por relacionamentos corporativos, fornecem acesso exclusivo às outras [empresas de telecomunicações e fornecedores de serviços de internet].”
Os documentos a que o jornal teve acesso, porém, não esclarecem qual a empresa americana que tem sido usada pela NSA como uma espécie de “ponte”. Também não está claro se as empresas brasileiras estão cientes de como a sua parceria com a empresa dos EUA vem sendo utilizada. “Certo mesmo é que a NSA usa o programa Fairview para aceder diretamente ao sistema brasileiro de telecomunicações. E é este acesso que lhe permite recolher registos detalhados de telefonemas e e-mails de milhões de pessoas, empresas e instituições”, diz o artigo.
“Espionagem nesse nível, e em escala global, era apenas uma suspeita até o mês passado, quando começaram a ser divulgados os milhares de documentos internos da agência coletados por Snowden dentro da NSA” afirma o artigo. “Desde então, convive-se com a reafirmação de algumas certezas. Uma delas é a do fim da era da privacidade, em qualquer tempo e em qualquer lugar”, conclui.
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Ocidente equipa serviços de espionagem de países que condena



Por Eduardo Febbro


As democracias ocidentais têm grandes dificuldades para esconder o rabo do diabo. As potências que no interior do Conselho de Segurança da ONU promovem resoluções em defesa dos Direitos Humanos ou para condenar o regime sírio, egípcio, líbio ou iraniano são as mesmas que venderam a esses regimes - e a outros - o material tecnológico necessário para vigiar e reprimir a oposição. A hipocrisia é uma regra de ouro: a comunidade internacional invoca os valores por um lado e, pelo outro, entrega com chaves nas mãos os instrumentos tecnológicos usados para submeter os povos. 

Narus – uma filial da Boeing - no Egito, Nokia-Siemens no Irã e Bahrein, a francesa Bull, a chinesa ZTE Corp e a sul-africana VASTech na Líbia, as norte-americanas Cisco e Nortel na China, a lista e a relação das multinacionais tecnológicas com os governos que infringem as liberdades ou condenados pela ONU é extensa. E como nunca falta uma nova oportunidade de fazer suculentos negócios, a essa lista se agrega agora a Síria. 

A comunidade internacional adotou um pacote de medidas contra Damasco onde figura a proibição da venda de armas, mas esse pacote exclui as tecnologias de ponta que permitem, entre outras violações, controlar a Internet ou vigiar os telefones móveis. A empresa italiana Area SPA vendeu à Síria um conjunto de programas de origem norte-americana, francesa e alemã para realizar um scanner, tanto das atividades dos usuários da Internet como de suas comunicações telefônicas. O contrato, por um montante de 13 milhões de euros, contou com a participação da empresa Californiana NetApp, a alemã Ultimaco Safeware AG e, segundo o portal de investigações econômicas Bloomberg, até a Hewlett-Packard entrou na entrega de componentes. O quarto participante nesta estrutura é Qosmos, uma empresa com sede em Paris e cuja tecnologia permite analisar as comunicações através das redes móveis por meio da inspeção de pacotes (DPI, Deep Packet Inspection). Trata-se do mesmo dispositivo que a empresa norte-americana Narus havia vendido ao derrubado Hosny Mubarak, no Egito. 

A democracia empresarial não tem fronteiras. As ONGs defensoras dos direitos humanos e das liberdades ligam, com justa razão, essas tecnologias à “cumplicidade com crimes de guerra” porque, através delas é que se espiona a dissidência, se perseguem e se localizam indivíduos, possibilita-se sua prisão, ou mesmo sua morte e se limita toda forma de liberdade. A Qosmos detalha com rigorosa concisão a capacidade de seus produtos. Em sua página web pode ser lido esta apresentação: “A Qosmos fornece uma tecnologia de inteligência de rede que identifica e analisa em tempo real os dados que transitam na rede”. No concreto, é perfeitamente possível “reconstruir” tudo o que acontece pela tela de um computador. Os correios eletrônicos ou Skype deixam de ser lugares de privacidade. Assim, as companhias ocidentais colaboram estreitamente com os governos autoritários. 

Dupla linguagem, duplo jogo: acusadora na ONU por um lado, fornecedora de tecnologia avançada pelo outro. No caso sírio, a astúcia consistiu em vender o material para Itália e não diretamente à Síria. A Area SPA fez-se assim de intermediário entre Damasco e o resto do mundo. O material de vigilância foi instalado no bairro Mouhajireen, onde uma sala especialmente preparada para isso controlava as comunicações através de 40 terminais. A operação é conhecida com o nome código de “Asfador”. Em um comunicado emitido no final de 2001, a Qosmos explicou que seu “negócio não é a venda de material de vigilância”. Segundo a Qosmos, “a sociedade vende a empresas ou associados que integram nossos componentes às suas próprias aplicações e assumem a comercialização. Isso é o que aconteceu com o projeto sírio”. 

O exemplo da Síria não é mais que o último de uma interminável série de colaborações entre as empresas que manejam tecnologia de ponta e as autocracias ou regimes autoritários que fazem da espionagem dos cidadãos a melhor arma de repressão. A Nokia-Siemens se notabilizou a partir de 2007 com a venda ao regime iraniano de um sofisticado dispositivo de espionagem global: Internet, emails, VoIP, Twitter, MySpace, Facebook, comunicações por móveis, SMS, nada escapava à joia vendida pela multinacional finlandesa. A Líbia do falecido Coronel Khadafi foi outro campo semeado com as sementes tecnológicas de ocidente, desta vez, paradoxalmente, oriundas da França. 

O presidente Nicolas Sarkozy foi o principal promotor da resolução das Nações Unidas que autorizou o uso da força na Líbia. Os primeiros aviões que bombardearam o território líbio foram também franceses. Paris foi também o primeiro país que reconheceu o Conselho Nacional de Transição líbio – a oposição - como o “interlocutor legítimo do povo líbio”. Entretanto, Khadafi espionava, perseguia e prendia os opositores que a França apoiava com tecnologia vendida pela empresa francesa i2e/Amesys, uma filial da Bull. O principio é o mesmo: o famoso e temível Deep Packet Inspection, por meio do qual tudo o que atravesse uma tela deixa de ser segredo. O DPI é a arma mais eficaz para esmagar qualquer resistência. Quando o bunker onde Khadafi havia montado o sistema de vigilância foi bombardeado, os opositores encontraram entre os escombros cópias das mensagens que os ativistas enviavam entre si. Mais ilustrativo ainda, na porta do Bunker estava colado o logo de Amesys. 

Narus, a filial da Boeing que vendeu a Hosny Mubarak o mesmo produto, fecha este cínico capítulo de dois gumes: em 2011, enquanto as bombas caíam sobre a Líbia e neutralizavam parte do material que o Ocidente havia vendido a Khadafi, a Narus negociava em segredo, em Barcelona, com o regime do coronel, novos contratos tecnológicos para aperfeiçoar seu próprio sistema, complementar ao da Amesys. O diabo sacode o rabo por baixo do manto da democracia ocidental.

Tradução: Libório Junior