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Com o terror racional podemos dialogar?


Por Reginaldo Nasser

Do alto de sua sabedoria e de seu “realismo humanista”, experientes jornalistas, analistas internacionais, professores e diplomatas brasileiros estão em estado de indignação após o discurso da presidenta Dilma Rousseff na ONU.

Tudo isso porque a presidenta condenou o uso da força por parte dos EUA como meio de resolução de conflitos armados que acontecem, atualmente, na Síria e no Iraque, ao mesmo tempo em que solicitou o diálogo com a comunidade internacional e apelou para o uso do direito e das instituições internacionais como instrumentos mais adequados para a paz. Os “indignados” dizem ser favoráveis ao diálogo e apoiam a utilização do direito internacional, mas ressalvam que isso não serve para esses “fanáticos islâmicos”. Segundo um experiente jornalista brasileiro, “nem à força esse tipo de fanáticos se dobra”. Se eu entendi corretamente, o jornalista quer dizer que eles não são passiveis de dissuasão. Bem, neste caso sou obrigado a concluir que é preciso eliminá-los. É isso mesmo?

Robert Fisk: Não houve vitória de Israel


Por Robert Fisk

Bom, de fato, Hamas, o horrível, sem escrúpulos e terrorista Hamas que nós (isto é o Ocidente, Tony Blair, Israel, Estados Unidos e todos os homens e mulheres honrados) não queremos nem sequer mencionar que saiu vitorioso.

Israel disse que o Hamas tem que ser desarmado. Não foi desarmado. Israel disse que devia ser esmagado, destruído e erradicado, e não foi nem esmagado nem destruído nem erradicado. Os túneis serão arrasados, proclamou Israel, mas não foi assim. Todos os mísseis serão confiscados, mas não foram. Morreram 65 soldados israelenses e para quê? Do subsolo, literalmente, trepou na terça-feira a liderança política do Hamas (e da Jihad Islâmica) cujos irmãos participaram nas conversas de paz no Cairo, muito contra a vontade de Israel, Estados Unidos e Egito.

Robert Fisk: A verdadeira história de Gaza


Por Robert Fisk

OK, só nessa tarde, o escore de dois dias de mortes é 40 mortos palestinos e nenhum morto israelense. Passemos agora à história de Gaza de que ninguém falará nas próximas horas.

É terra. A questão é terra. Os israelenses de Sderot estão recebendo tiros de rojões dos palestinos de Gaza, e agora os palestinos estão sendo bombardeados com bombas de fósforo e bombas de fragmentação pelos israelenses. É. Mas e como e por que, para início de conversa, há hoje 1 milhão e meio de palestinos apertados naquela estreita Faixa de Gaza?

Quando Jerusalém de 2014 faz lembrar Berlim de 1933

Jornalista israelense escreve: cenários não são iguais, mas surto de ódio antipalestino estimulado por Telaviv envergonha história judaica

Os velhos jornais no Ocidente não terão coragem de publicar essa matéria. Críticas muito duras ao governo israelense vêm da própria imprensa liberal do país. Precisam ser conhecidas, para que setores interessados em paz e justiça no Oriente Médio saibam que podem encontrar apoio em importantes setores da sociedade israelense. Talvez estejam ainda apáticos, por se sentirem isolados em meio à manada que segue a propaganda oficial e a mídia, hegemonizada pelos setores mais sectários (o diárioHaaretz, onde foi publicado o texto a seguir tem 10% dos leitores; os demais jornais são controlados por magnatas estrangeiros da mídia conservadora).

O artigo faz analogias entre o ambiente de histeria em Israel, estimulado de forma oportunista por políticos da direita, e o que a Alemanha respirou, nos estágios iniciais do nazista. A publicação de artigos como esse em Israel, embora chocantes, pode ser vista com esperança de que setores existentes na própria sociedade israelense poderão, um dia, virar o jogo. Mas isso só ocorrerá se houver também forte pressão internacional.

Trata-se de salvar Israel do fascismo, do isolamento internacional, e de estabelecer entre este país e os palestinos bases para um futuro de paz e boa vizinhança, única forma de ambos escaparem da tragédia humanitária que avança no Oriente Médio. (Sérgio Storch)

Copa do mundo no Qatar em 2022 deverá ser regada a sol e sangue


O calor extremo não é único problema em realizar a Copa do Mundo de 2022 no Qatar. A Confederação Sindical Internacional (CSI) estimou que o auge da construção precedendo o Mundial de 2022 no Qatar possa levar à morte de 4000 ou mais trabalhadores migrantes.

A evolução contínua da Al-Qaeda 3.0


As organizações ligadas a Al-Qaeda e suas ideias estão prosperando em praticamente todo o mundo árabe como nunca antes, devido ao fracasso da Primavera Árabe em criar governos reformistas competentes. A contrarrevolução, seja mantendo velhos autocratas no poder ou colocando novos autocratas, já está criando a próxima geração da Al-Qaeda.

Protestos contra ação na Síria leva milhares às ruas no mundo


Cerca de 200 pessoas se reuniram na frente da Casa Branca, em Washington, neste sábado (7). Ali começou uma cruzada que, em efeito viral, foi seguida ao redor do mundo. "Nós somos contra à guerra", bradaram os manifestantes em referência à possível intervenção militar na Síria.


Além da capital norte-americana, Nova York, Los Angeles, San Francisco e outras metrópoles europeias e asáticas reuniram milhares de pessoas. "Eles dizem mais guerra, nós dizemos não" foi o grito oficial da marcha mundial, que acredita que uma novo ataque ao Oriente Médio seria "construído em uma mentira".

Síria: Às vésperas de uma guerra obscena


Por Tariq Ali

O objetivo da “guerra limitada” organizada pelos EUA e seus vassalos europeus é simples. O regime sírio estava lentamente restabelecendo seu controle sobre o país, contra a oposição armada pelo Ocidente e seus Estados tributários na região (Arábia Saudita e Qatar). Essa situação exigia correção. Nessa deprimente guerra civil, era preciso fortalecer militar e psicologicamente a oposição.
Desde quando Obama afirmou que as armas químicas era a “linha-limite”, era claro que elas seriam utilizadas. Cui prodest? como costumavam perguntar os romanos. Quem se beneficia? Claramente, não o regime sírio.

Situação de refugiados sírios na Jordânia é crítica, afirma ONU


A Jordânia enfrenta uma situação crítica devido ao número cada vez maior de sírios que cruzam a fronteira do país, alertou a ONU nesta quinta-feira 24. Sem mais recursos para receber refugiados da Síria, em fuga da guerra civil entre rebeldes e as tropas do regime do presidente Bashar al-Assad, o reino árabe cogita fechar sua fronteira caso haja um fluxo em massa de migração forçada vindo da nação vizinha.


Cerca de 3 mil sírios chegam à Jordânia por dia e ao menos 50 mil esperam para realizar a travessia. Neste contexto, o primeiro-ministro Abdullah Ensour disse na última semana que, ao receber cerca de 280 mil refugiados, exauriu seus poucos recursos para o sistema de saúde, educação, água e energia.
Segundo o ACNUR, agência da ONU para refugiados, mais de 26,5 mil sírios entraram no país desde o início do ano, além de outros 30 mil entre outubro e dezembro de 2012.
O conflito na Síria, que deixou mais de 60 mil mortos e 2 milhões de deslocados internos, espalhou 670 mil refugiados na Jordânia, Turquia, Líbano, Iraque e Egito. As previsões indicam que esse número ultrapassará 1 milhão de pessoas até junho.  Por isso, o ACNUR ampliou suas atividades nas regiões atingidas e reforçou o apelo para ajuda internacional. Em dezembro, a agência e seus parceiros pediram 1 bilhão de dólares para dar apoio na área, mas apenas 18% do valor foi alcançado até o momento.
A  situação dos refugiados pode ficar ainda mais difícil. Além da chegada de um rigoroso inverno na Síria e nos países vizinhos, uma enchente atingiu o campo de Za’atri, na Jordânia. A ONU precisou enviar casas pré-fabricadas, 1 mil cobertores, 500 colchões e roupas, além de carregamentos de cascalho para elevar o nível do solo e melhorar o escoamento da água.
A situação no Líbano não é muito diferente. A população de refugiados aumentou para cerca de 200 mil, enquanto as temperaturas têm se mantido próximas do congelamento. Os campos foram atingidos pela neve e por enchentes. No Iraque, também houve nevadas.
Atualmente há 73,150 mil refugiados no Iraque, 156,8 mil na Turquia e 280 mil na Jordânia. A maioria é de origem síria.

Fonte: Carta Capital
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Noam Chomsky - A maior ameaça à paz mundial


Por Noam Chomsky

Há alguns meses, ao informar sobre o debate final da campanha presidencial nos Estados Unidos, o The Wall Street Journal observou que “o único país mais mencionado (que Israel) foi o Irã, o qual a maioria das nações de Oriente Médio vê como a principal ameaça à segurança da região”.

Os dois candidatos estiveram de acordo em que um Irã nuclear é a maior ameaça à região, se não ao mundo, como Romney sustentou explicitamente, reiterando uma opinião convencional.

Sobre Israel, os candidatos rivalizaram em declarar sua devoção, mas nem assim os as autoridades israelenses se deram por satisfeitas. Esperavam “uma linguagem mais ‘agressiva’ de Romney”, segundo os repórteres. Não foi suficiente que Romney exigisse que não se permitisse que o Irã “alcance um ponto de capacidade nuclear”.

Também os árabes estavam insatisfeitos, porque os temores árabes sobre o Irã se “debateram sob a ótica da segurança israelense, não da região”, e as preocupações dos árabes não foram contempladas: uma vez mais, o tratamento convencional.

O artigo do Journal, como incontáveis outros sobre o Irã, deixa sem resposta perguntas essenciais, entre elas: Quem exatamente vê o Irã como a ameaça mais grave à segurança? O que os árabes (e a maior parte do mundo) acham que se pode fazer diante dessa ameaça, existindo ou não?

A primeira pergunta é fácil de responder. A ameaça iraniana é uma obsessão totalmente do Ocidente, compartilhada por ditadores árabes, embora não pelas populações árabes.

Como mostraram numerosas pesquisas, mesmo que os cidadãos dos países árabes em geral não simpatizem com o Irã, não o consideram uma ameaça muito grave. Na verdade percebem que a ameaça são Israel e Estados Unidos, e vários, muitas vezes maiorias consideráveis, veem nas armas nucleares iranianas um contrapeso para essas ameaças.

Em altas esferas dos Estados Unidos, alguns estão de acordo com a percepção das populações árabes, entre eles o general Lee Butler, ex-chefe do Comando Estratégico. Em 1998 ele disse: “É extremamente perigoso que, no caldeirão de animosidades que chamamos Oriente Médio”, uma nação, Israel, deva contar com um poderoso arsenal de armas nucleares, “que inspira outras nações a tê-lo também”.

Ainda mais perigosa é a estratégia de contenção nuclear da qual Butler foi o principal formulador por muitos anos. Tal estratégia, escreveu em 2002, é “uma fórmula para uma catástrofe sem remédio” e convidou os Estados Unidos e outras potências atômicas a aceitar os compromissos contraídos dentro do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e fazer esforços de “boa fé” para eliminar a praga das armas atômicas.

As nações têm a obrigação legal de levar a sério esses esforços, decretou a Corte Mundial em 1996: “Existe a obrigação de avançar de boa fé e levar a termo as negociações orientadas ao desarmamento nuclear em todos seus aspectos, conforme um controle internacional estrito e efetivo”. Em 2002, o governo de George W. Bush declarou que os Estados Unidos não estão comprometidos com essa obrigação.

Uma grande maioria do mundo parece compartilhar a opinião dos árabes sobre a ameaça iraniana. O Movimento de Países Não Alinhados (MNA) apoiou com vigor o direito do Irã de enriquecer urânio; sua declaração mais recente aconteceu na cúpula de Teerã, em agosto passado.

A Índia, membro mais populoso do MNA, encontrou formas de evadir às onerosas sanções financeiras dos Estados Unidos ao Irã. Executam planos para vincular o porto iraniano de Chabahar, recondicionado com assistência indiana, com a Ásia Central, através do Afeganistão. Também se informa que as relações comerciais se incrementam. Se não fosse pelas fortes pressões de Washington, é provável que estes vínculos naturais tivessem uma melhoria substancial.

A China, que tem estatuto de observadora no MNA, faz o mesmo, em boa medida. Expande seus projetos de desenvolvimento para o Ocidente, entre eles iniciativas para reconstituir a antiga Rota da Seda para a Europa. Uma linha ferroviária de alta velocidade conecta a China com o Cazaquistão e além. É provável que chegue ao Turcomenistão, com seus ricos recursos energéticos, e que se conecte com o Irã e se estenda até a Turquia e a Europa.

A China também tomou o controle do importante porto de Gwadar, no Paquistão, que lhe permite obter petróleo do Oriente Médio evitando os estreitos de Ormuz e Malaca, saturados de tráfico e controlados pelos Estados Unidos. A imprensa paquistanesa informa que “as importações de petróleo cru do Irã, dos estados árabes do Golfo e da África poderiam ser transportadas por terra até o noroeste da China através deste porto”.

Em sua reunião de agosto, em Teerã, o MNA reiterou sua velha proposta de mitigar ou pôr fim à ameaça das armas nucleares no Oriente Médio estabelecendo uma zona livre de armas de destruição em massa. Os passos nessa direção são, sem dúvida, a maneira mais direta e menos onerosa de superar essas ameaças, o que é apoiado por quase o mundo inteiro.
Uma excelente oportunidade de aplicar essas medidas se apresentou recentemente, quando se planejou uma conferência internacional sobre o tema em Helsinki.

Foi realizada uma conferência, mas não a que estava planejada. Só organizações não governamentais participaram da reunião alternativa, organizada pela União pela Paz, da Finlândia. A conferência internacional planejada foi cancelada por Washington em novembro, pouco depois que o Irã concordou em comparecer.

A razão oficial do governo Obama foi “a turbulência política na região e a desafiante postura do Irã sobre a não proliferação” segundo a agência Associated Press, junto a uma falta de consenso sobre como enfocar a conferência. Essa razão é a aprovada referência ao fato de que a única potência nuclear da região, Israel, se negou a comparecer, alegando que a solicitação para fazê-lo era “coerção”.

Aparentemente, o governo de Obama mantém sua postura anterior de que “as condições não são apropriadas, a menos que todos os membros da região participem”. Os Estados Unidos não permitirão medidas para submeter as instalações nucleares de Israel a inspeção internacional. Também não revelará informação sobre “a natureza e alcance das instalações e atividades nucleares israelenses”.

A agência de notícias do Kuwait informou imediatamente que “o grupo árabe de Estados e os estados membros do MNA concordaram em continuar negociando uma conferência para o estabelecimento de uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio, assim como de outras armas de destruição em massa”.

Recentemente, a Assembleia Geral da ONU aprovou, por 174 votos a seis, uma resolução na qual convida Israel a aderir ao TNP. Pelo não, votou o contingente acostumado: Israel, Estados Unidos, Canadá, as Ilhas Marshall, Micronésia e Palau.

Dias depois, em dezembro, os Estados Unidos realizaram um teste nuclear impedindo, uma vez mais, aos inspetores internacionais, o acesso ao local do teste, em Nevada. O Irã protestou, assim como o prefeito de Hiroshima e alguns grupos pacifistas japoneses.

Claro que, para estabelecer uma zona livre de armas atômicas, se requer a cooperação das potências nucleares: no Oriente Médio, isso incluiria os Estados Unidos e Israel, que se negam a cooperar. O mesmo acontece em outros lugares. As zonas da África e do Pacífico aguardam a aplicação do tratado porque os Estados Unidos insistem em manter e melhorar as bases de armas nucleares nas ilhas que controla.

Enquanto se levava a cabo a conferência de ONGs em Helsinki, em Nova York se realizava um jantar com o patrocínio do Instituto sobre Políticas sobre o Oriente Próximo, de Washington, ramificação do conselho israelense.
Segundo uma matéria entusiasta sobre essa “cerimônia” na imprensa israelense, Dennis Ross, Elliott Abrams e outros “ex-conselheiros de alto nível de Obama e Bush” asseguraram aos presentes que “o presidente atacará (o Irã) se a diplomacia não funcionar”: um presente de festas de fim de ano muito atrativo.

É difícil que os estadunidenses estejam cientes de como a diplomacia voltou a falhar, por uma simples razão: virtualmente não se informa nada nos Estados Unidos sobre o destino da forma mais óbvia de lidar com “a mais grave ameaça”: estabelecer uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio.

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A foto que está chacoalhando as mulheres do mundo árabe


Por Paulo Nogueira

Uma imagem de mulher jovem está provocando uma formidável controvérsia mundial no Facebook.

É uma foto banal e ao mesmo tempo extremamente provocativa.

Banal porque não há nudez nem completa e nem parcial, a não ser que você considere braços de fora alguma coisa no gênero.

Provocativa porque a foto é de uma síria de 21 anos, Dana Bakdounis. Dana postou há poucas semanas uma foto sem véu num grupo criado no Facebook por mulheres árabes em busca de igualdade de direitos.

Nela, segura sua identidade e um bilhete manuscrito que é um pequeno manifesto, intitulado “A primeira coisa que senti quando tirei meu véu”. Nele afirma: “Estou com o Movimento de Liberação da Mulher Árabe porque, ao longo de 20 anos, não me permitiram sentir o vento em meu cabelo e em meu corpo”.

A foto, ninguém sabe explicar por que, foi uma sensação instantânea. Em pouco tempo, atraiu 1 600 likes, foi compartilhada 600 vezes e foi objeto de 250 comentários.

Com isso, o grupo ganhou uma visibilidade que ainda não tinha. Os debates se acirrariam ainda mais pouco depois, quando o Facebook simplesmente tirou a foto do ar, sem explicações, e também bloqueou a conta pessoal de Dana.

Censura? Um ataque à liberdade de expressão? Os protestos tomaram a página do grupo no Facebook, hoje com 70 000 integrantes e transformado num fórum vivo de debates de jovens mulheres ávidas insatisfeitas com sua situação. Uma delas disse: “Se vocês fazem este tipo de censura então não podem reivindicar os méritos pela Primavera Árabe.”

O Facebook acabaria, depois de idas e vindas, liberando a foto, e também a conta de Dana. “Minha vida mudou depois que tirei o véu”, diz ela. “Recebi muitas manifestações de solidariedade de outras mulheres com véu. Elas diziam ter vontade de fazer a mesma coisa, mas acrescentavam que faltava a audácia que tive.”

Meses atrás, quando o então presidente da França Nicolas Sarkozy iniciou na França uma cínica e eleitoreira caça às burcas sob o argumento de que estava ajudando as mulheres árabes, escrevi que era uma falácia.

Todos os movimentos históricos de conquista de direitos nasceram das próprias vítimas de injustiça, e não de tutores.

Sempre foi assim, das sufragettes, as mulheres inglesas que lutaram pelo direito ao voto no começo do século passado, aos negros americanos que combateram por sua inclusão social, para ficar em apenas dois casos.

A foto de Dana pode ser um sinal de que as mulheres árabes estão efetivamente decididas a batalhar, elas também, por sua própria Primavera. Se for isso, a imagem entrará para a história da humanidade.


Fonte: Diário do Centro do Mundo


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Um feio impasse - A revolta na Síria


Por Tariq Ali


Irritado pela propaganda unilateral incessante da CNN e da BBC World, que geralmente são um prelúdio às campanhas de bombardeamentos da OTAN (incluindo a investida contra a Líbia que durou seis meses e cujas baixas continuam escondidas da opinião pública) ou à ocupação direta, pediram que explicasse o meu ponto de vista na RTV. Foi o que fiz, denunciando a promoção do Conselho Nacional Sírio por parte dos meios de comunicação ocidentais, e apontando que uma parte da oposição armada era perfeitamente capaz de perpetrar os seus próprios massacres e imputá-los ao regime.
Havia dúvidas sobre Houla e, na altura, eram apenas isso. Já não há. Agora tornou-se claro que o regime foi o responsável. Isso de modo algum invalida a minha tese geral, mas provocou muita confusão sobre as minhas opiniões, e recebi e-mails preocupados e, por vezes, irados, de amigos sírios, sendo também alvo de uma difamação aberta por parte de outros (com acusações de ser um “apologista de Assad” provenientes de sectários raivosos num acesso de ignorância, igual à dos idiotas belicistas que nos apelidavam de “apologistas de Saddam” durante os primeiros tempos da ocupação do Iraque).
Como pode uma entrevista de TV de seis minutos ser outra coisa senão curta e incompleta e, dado o contexto, demasiado retórica para ter muita importância. De fato, foi pouco mais que uma resposta à notícias dos últimos dias. Assim, poderá valer a pena deixar uns quantos pontos claros, de forma a que os críticos tenham algo para contra-argumentar.
Desde o início, apoiei pública e abertamente o levante popular contra a organização baathista familiar que domina Damasco. Oponho-me a esse regime desde que o golpe militar de Assad que derrubou o seu muito mais esclarecido antecessor, cujos dirigentes e ativistas conheci depois da Guerra dos Seis Dias e que contava com alguns dos melhores intelectuais do mundo árabe nas suas fileiras. Para ser honesto, não imaginava que a Síria iria sublevar-se como aconteceu no Egito, mas fiquei muito contente quando aconteceu. Esperava que as dimensões do levantamento e a sua popularidade evidente obrigassem o regime a negociar um plano acordado conjuntamente para eleger uma Assembleia que tomaria decisões sobre uma nova Constituição. Há provas que sugerem que eram poucos os que, dentro do regime, estavam a favor de seguir esse rumo. Muito poucos. Não era suposto serem. A estupidez e a brutalidade, as duas principais características do regime, não podiam ser varridas para o lado. Ambas foram institucionalizadas e Bashar Al-Assad manteve a convicção de que qualquer concessão seria fatal. Durante muitos meses, a sublevação popular foi pacífica e a sua força cresceu progressivamente, de um modo semelhante ao da primeira intifada popular palestina contra os seus senhores israelitas. A minha opinião era clara: solidariedade total com o povo. Abaixo a ditadura. Esta continua a ser a minha posição. Não há nada neste regime que seja sequer vagamente progressista. Mas quem vai derrubá-lo e como? Não é uma questão frívola.
No Egito, o movimento de massas conquistou tudo porque os chefes militares tinham decidido que não poderiam continuar a apoiar Mubarak e havia o temor de que soldados e jovens oficiais não obedecessem às ordens. As principais cidades tinham sido testemunhas de como as massas punham em fuga o aparato de segurança do regime desfalecente. E quando os EUA retiraram o seu apoio aos ditador, era apenas uma questão de tempo.
Na Síria, durante o primeiro período, o alto comando militar manteve-se firme, pois está erigido sobre linhas sectárias. Não obstante, houve algumas deserções para o lado do povo. Uma vez que se desencadeou a repressão em todo o país, alguns decidiram que a natureza pacífica da luta já não bastava, e apareceram os militares e civis próximos das agências de espionagem ocidentais, tal como na Líbia.
O Ocidente começou a preparar o seu “governo no exílio”, usando a Turquia como a sua principal base e a Arábia Saudita e o Qatar como subsidiárias. A oportunidade de enfraquecer os iranianos era demasiado boa para se resistir e como bónus extra, o Hezbollah, a única força no mundo árabe que derrotou politicamente Israel por duas vezes, seria gravemente ameaçado. [Ainda que possa dizer-se que, se um novo censo – o último foi feito em 1936 – fosse feito, o mapa político do Líbano mudaria da noite para o dia. Mas, no interesse da “democracia”, a “comunidade internacional” não permitirá que uma verdadeira democracia funcione nesta franja costeira que separou da Síria para manter uma presença imperial].
Opor-se a Assad não deveria conduzir ao apoio a uma intervenção ocidental e a um regime imposto seguindo o modelo líbio, com umas eleições rapidamente organizadas, como uma folha de parra preparada pelas relações públicas. E, no entanto, muitas vozes importantes da oposição dentro do país sentem que a intervenção é hoje a única resposta. “Onde está a 'comunidade internacional'?”, perguntam em tom de queixume. Outro continuam firmemente contra uma intervenção ocidental. Não é fácil avaliar a partir do exterior o exato equilíbrio de forças e um movimento de massas com um objetivo comum requer necessariamente que não surjam diferenças entre eles.
Mas, tal como no Egito, quando se evapora a euforia do levante e do seu êxito em derrubar um déspota odiado, emerge a política. Qual é a maior força política no cenário sírio de hoje? Qual seria o maior partido parlamentar se houvesse eleições livres? Provavelmente, a Irmandade Muçulmana e, nesse caso, a experiência será educativa, pois o neoliberalismo e a aliança com os EUA são a pedra angular do modelo turco que Morsi e outros colegas da região procuram copiar. Durante a segunda metade do século passado, nacionalistas árabes, socialistas, comunistas e outros, envolveram-se numa batalha com a Irmandade Muçulmana pela hegemonia do mundo árabe. Podemos não gostar dela (e eu evidentemente não gosto), mas a batalha foi ganha pela Irmandade.
O seu futuro dependerá da capacidade de levar a cabo uma mudança social. A classe trabalhadora egípcia e síria desempenharam um grande papel em ambas as sublevações. Tolerarão o neoliberalismo laico ou islâmico durante muito tempo? Os palestinianos que se manifestam a favor da justiça social contra o regime fantoche da OLP e são espancados pelos brutamontes da segurança da OLP e do IDF (Exército de Israel) são um sinal de que a turbulência poderá não ser facilmente contida.
Uma intervenção da OTAN instauraria um governo semi-fantoche. Tal como argumentei no caso da Líbia, quando a OTAN entrou no confronto: ganhe quem ganhe, o povo perderá. O mesmo aconteceria na Síria. Nisto estou em completo acordo com a declaração dos Comités de Coordenação Locais Sírios, publicado em 29 de Agosto de 2011.
O que acontecerá se a situação atual continuar? Um feio impasse. O modelo que vem à memória é a Argélia depois de o exército, fortemente apoiado pela França e os seus aliados ocidentais, ter intervido para impedir o segundo turno eleitoral que iria dar o triunfo à FIS (Frente Islâmica de Salvação). Esta intervenção deu origem a uma guerra civil de desgaste na qual ambas as partes perpetraram atrocidades, enquanto as massas se retiravam para uma amarga passividade.
Esta é a razão pela qual continuo a insistir que, mesmo neste momento tardio, uma solução negociada é a melhor forma possível de se livrar de Assad e seus acólitos. A pressão de Teerã, de Moscou e de Pequim poderia a ajudar a conseguir este objetivo mais cedo que a postura militar do sultão Erdogan, dos seus aliados sauditas e dos seus representantes na Síria.
Publicado originalmente na Counterpunchem 16/09/12
Tradução de Sofia Gomes para o Esquerda.net
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A próxima reviravolta no Oriente Médio


Por Immanuel Wallerstein


Ao analisarmos a geopolítica do Oriente Médio, qual deveria ser o foco principal? Há pouco consenso na resposta, mas ainda assim esta é a questão-chave. O governo israelense tenta, constantemente e de modo diligente, fazer com que o foco seja o Irã. A maior parte dos observadores vê neste esforço uma tentativa de desviar atenções de sua falta de vontade em buscar negociações sérias com a Palestina.
De qualquer maneira, o esforço israelense falhou espetacularmente. O primeiro-ministro Benyamin Netanyahu foi incapaz de conseguir que o governo norte-americano se comprometesse com o apoio a um ataque israelense a Teerã. E a habilidade do Irã de reunir a maior parte do mundo não-ocidental — incluindo Paquistão, Índia, China, Palestina e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon — em uma reunião do Movimento Não-Aliado (NAM, em inglês) esta semana, evidencia a impossibilidade política de os israelenses  concentrarem a atenção no Irã.
No último ano, o centro das atenções voltou-se para a Síria, não o Irã, mesmo que haja uma ligação entre os dois. Os primeiros a lutar para isso foram a Arábia Saudita e o Catar. Tiveram considerável sucesso. Alguns observadores sentem que foi um esforço para desviar as atenções dos problemas internos da Arábia Saudita e da opressão anti-xiita praticada nos países do Golfo, especialmente Bahrein.
O foco na Síria, no entanto, está prestes a chegar ao fim, por duas razões. Em primeiro lugar, o governo e sua principal oposição, o Exército Livre Sírio, estão mais ou menos travados em seu combate militar. Não parece que nenhum dos lados seja capaz de destruir completamente o outro. Significa que o aquilo que se pode chamar hoje de guerra civil continuará por um período longo e indefinido.
Obviamente, o que poderia terminar rapidamente com a guerra é uma intervenção militar externa. Mas nem os Estados Unidos, Europa Ocidental, Turquia, Arábia Saudita nem mais ninguém está pronto a mandar tropas para a Síria. Estão dispostos apenas a fazer ameaças — e isso não é o bastante para acabar os conflitos.
Mas, em segundo lugar, há a reentrada espetacular do Egito na cena geopolítica. O país tem agora um governo dominado pela Irmandade Muçulmana. O presidente, Mohamed Morsi, parece construir uma agenda bem diferente da de seus precedentes. E Morsi mostrou ser um político muito mais capaz de manobras astutas do que se supunha. O jornal Le Monde registrou isto em um editorial intitulado: “O astuto e surpreendente Morsi.”
O presidente voou a Teerã para a reunião dos não-alinhados, parando em Beijing no caminho. Ao fazê-lo, adiou para setembro o convite de Obama para uma visita oficial aos Estados Unidos — um compromisso que visava evitar a viagem efetivamente realizada. Morsi alega que o objetivo de suas visitas é ajudar a resolver a questão síria.
Se era mesmo a Síria que estava em sua cabeça, ele tem um jeito curioso de demonstrar. Começou com uma proposta criativa — que o Egito juntasse forças com a Turquia, a Arábia Saudita e o Irã, para formar um grupo com a intenção de resolver os problemas políticos que dividem os dois grupos em luta da Síria. Isso é inclusive construtivo, mas certamente Morsi sabe que, pelo menos no momento, a rejeição da Arábia Saudita (e talvez da Turquia) é certa.
Então, por que ele se preocupou em fazer a proposta? Primeiro de tudo, é claro, ele procura posicionar tanto o Egito quanto a Irmandade Muçulmana na condição dos negociadores políticos mais poderosos do Oriente Médio. Nada incomodaria mais os sauditas, é claro. A centralidade egípcia os deslocaria desse papel; e entre eles e a Irmandade Muçulmana já há uma relação hostil histórica.
Em segundo lugar, tendo oferecido a proposta como uma “solução” para o problema sírio, Morsi está evidenciando que, por enquanto, não há saída para a questão. Isso prepara o terreno para a grande mudança — da Síria para a Palestina.
Devemos lembrar de duas coisas sobre a relação do Egito com Israel e a Palestina. Uma é que o Hamas foi fundado por membros da Irmandade Muçulmana. As ligações entre ambos são reais, ainda que o Hamas deseje ter um papel independente na região.
Mas além disso, e ainda mais importante, o pacto egípcio-israelense é muito, muitíssimo impopular no Egito. Morsi não está planejando rompê-lo. Sente — e provavelmente tem razão — que não é forte o bastante, nacional e internacionalmente, para fazer isso. E nem vê necessariamente, neste passo, grande vantagem para o Egito.
Porém, ele está certamente interessado em revisar os termos do pacto de modo relevante. Em particular, quer mudar as regras sobre como o Egito relaciona-se com a guerra na Palestina. Os egípcios vão continuar tentando mediar as diferenças entre a Autoridade Palestina e o Hamas. E certamente tentarão criar fronteiras mais abertas com Gaza. Depois, talvez ofereçam-se diretamente aos israelenses como intermediários honestos — reivindicando um papel que os Estados Unidos clamam ser sua propriedade exclusiva há algum tempo.
Parece ao menos um bom chute apostar que, em 2013, o Egito vai ter silenciado a discussão mundial sobre a Síria e assegurado que seja substituída por um debate internacional sobre a Palestina. Os israelenses demonstram estar profundamente contrariados. Os sauditas estarão marginalizados e, em seguida, precisarão afirmar mais vigorosamente suas credenciais pró-Palestina. E os Estados Unidos — seja seu próximo presidente Romney ou Obama — irão se encontrar em uma posição de muito pouca influência no que acontece, tanto em Israel/Palestina  quanto no Egito, Arábia Saudita ou Irã.
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A guerra santa da OTAN


A Guerra Santa do Ocidente contra o Oriente (versão original)

A secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton está ficando sem munição retórica, na Guerra Santa dos EUA contra a Síria. Talvez seja o estresse de declarar uma guerra da OTAN, pelas costas do Conselho de Segurança da ONU. Talvez, o estresse de ser almoçada e jantada, todos os dias, pelo ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov.
Hillary acaba de convocar “as potências ocidentais” e seus fantoches árabes – o CCGOTAN, aglomerado de Conselho de Cooperação do Golfo plus Organização do Tratado do Atlântico Norte, que ela apresenta como se fosse alguma “comunidade internacional” – para que “deixem claro que Rússia e China pagarão, por impedir o progresso” (da mudança armada de regime na Síria).

Em não-novilíngua, significa: “Se impedirem nossa nova guerra, haverá retaliação”.

Não obstante as gargalhadas ouvidas pelos corredores do Kremlin e do Zhongnanhai, a coisa mostra o quão desesperado está o conglomerado CCGOTAN para forçar a mudança de regime na Síria, a ser usado como meio para interromper a conexão privilegiada que liga o Irã ao mundo árabe. Isso tudo, enquanto o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan da Turquia – no comando do flanco oriental da OTAN – comicha de vontade de atacar a Síria, mas não encontra jeito de vender a ideia à opinião pública turca.

Nesse contexto incandescente, aparece WikiLeaks – que divulgou grande quantidade de mensagens de e-mail contra, simultaneamente, o sistema de Assad e os “rebeldes” da OTAN. Um dos efeitos colaterais possíveis, os e-mails talvez inspirem ondas de chamados “progressistas” em todo mundo, que se porão a defender a Guerra Santa contra a Síria. Efeito mais realista, talvez evidenciem o quanto, de fato, os dois lados são horríveis: tanto o estado policial de Assad quanto a oposição armada.
Soldados americanos da "nova" guerra santa

Explosão de carro de turismo: alguém se interessa? 

Útil, nesse momento, é examinar o preço que a própria Washington, para nem falar nos seus estados fantoches na OTAN, está pagando por tanto insistir esse neo-ramo de guerra santa guerreada contra – nada mais, nada menos – que o mesmo bando de “terroristas” que, até ontem, ameaçavam destruir a civilização ocidental, convertendo-a num Califato tamanho gigante.
Washington, Londres e Paris tentaram – duas vezes – arrancar do Conselho de Segurança da ONU a “licença” para mais uma guerra. Foram bloqueadas pela Rússia e pela China. O plano B, então, é esquecer a ONU e deflagrar guerra da OTAN. O problema é que a OTAN não tem estômago – nem dinheiro – para meter-se em guerra de alto risco contra país capaz de se defender.

Plano C: se nem A nem B, o plano C é apostar tudo numa longa guerra civil, usando para tal fim o Exército Sírio (nada) Livre, que pulula de mercenários e jihadis, e o bando exilados oportunistas que atende pela sigla de Conselho Nacional Sírio (CNS).

O CNS já pediu uma zona aérea de exclusão ao estilo líbio, sobre a Síria – expressão que é sinônima de “guerra da OTAN”. A Turquia também requisitou formalmente à OTAN a dita zona aérea de exclusão. Os comandantes da OTAN são incompetentes, mas até eles aprenderam alguma coisa com as grandes enrascadas em que se meteram e o correspondente embaraço que lhes causam (no Afeganistão, por exemplo). Responderam “não” aos pedidos do CNS e da Turquia.

Nada menos representativo que o Conselho Nacional Sírio e o Exército Sírio (nada) Livre. Os “Amigos da Síria” – “Hillary & seus Patetas” – nem tomam conhecimento da existência do Corpo Nacional de Coordenação para Mudança Democrática [orig. National Coordination Body for Democratic Change (NCB)], principal movimento de oposição verdadeira, composto de 13 partidos políticos, a maioria dos quais da esquerda, nacionalistas árabes e um partido curdo. Esse NBC denuncia insistente e firmemente todas as formas de militarização do conflito e desautoriza absoluta e radicalmente o Exército Sírio (nada) Livre.
 ministro de Relações Exteriores do Iraque, Hoshyar Zebari – que é curdo – alertou que jihadis salafistas de molde copiado da al-Qaeda estão-se mudando aos magotes para a Síria. Aparentemente, esses magotes ainda ouvem muito atentamente o que prega o ideólogo “invisível” da al-Qaeda, Dr. Ayman al-Zawahiri. Há cinco meses, al-Zawahiri deu ordem de marcha aos jihadis no Iraque, Jordânia, Líbano e Turquia. E acontece também que muitos deles estão recebendo armas – por diferentes redes – da Casa de Saud e do Qatar.

Já há meses, todos sabem que o Grupo de Combate Islâmico Líbio [orig. Libyan Islamic Fighting Group (LIFG)] de Abdul Hakim Belhaj, ligado à al-Qaeda, está ativo na Síria; como todos também sabem que há remanescentes da al-Qaeda no Iraque, responsáveis por explosões de carros até em Damasco.

No caso de uma Síria pós-Assad dominada por sunitas linha-dura infiltrados por jihadis wahhabitas e salafistas, a retaliação garantida fará a jihad antissoviética no Afeganistão pós-80’s parecer Disneylândia em Hong Kong.

Aceitam-se Yuan e Rublos

Quanto à China, ri do desespero de Hillary no caminho até o banco. Enquanto cresce a paranóia na Casa de Saud contra o que os sauditas veem como flerte de Obama com a democracia no mundo árabe, Pequim aquece as turbinas comerciais e entrega a Riad um buquê de novos mísseis.
E, enquanto o “ocidente” flerta com a Guerra Santa, as empresas estatais chinesas compram mercadorias feito doidas, por todo o Oriente Médio, Norte da África e América do Sul – além de ampliar seus estoques de terras raras nas reservas estratégicas. A China produz nada menos que 97% das terras raras do planeta – necessárias para tudo, de iPads àqueles novos mísseis que lá fritam hoje, sob o sol do deserto da Arábia.

Outros efeitos colaterais em matéria de “o preço a pagar” por atropelar a ONU e pela obsessão com a OTAN como Robocop global serão inevitáveis para os EUA. Não se deve esquecer que a Guerra Santa contra a Síria é pit stop na estrada para Teerã. Por exemplo: pode estar nascendo um novo sistema de seguro marítimo, além de um novo mecanismo de câmbio internacional – que ignorará o diktat do ocidente.

Mesmo assim, o elemento mais importante parece ser o movimento, de Rússia, Irã e China, para reorganizar o mercado global de energia, via transações que marginalizam o petrodólar.

Quer dizer: Washington corta o Irã do sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication)? O banco central iraniano contra-ataca: se vocês quiserem negociar conosco, podem pagar em qualquer moeda, exceto o dólar norte-americano; também aceitamos ouro.
Esse é o Santo Graal da Guerra Santa – não a Síria. Uma coisa, para Teerã, é aceitar euros em pagamento pelo óleo e gás iranianos; outra coisa é aceitar ouro. E, como se não bastasse, com pleno apoio de Rússia e China.

Em resumo: toda a síndrome da Guerra Santa está apressando o fim do dólar norte-americano como moeda global de reserva.

E então? Agora, acontecerá o quê? Uma Primavera Norteamericana? Ou as elite

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
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Primavera Árabe: ameaça aos direitos da mulher?



“A Primavera Árabe é uma grande chance para os direitos das mulheres. Mas também existe o risco real de que conquistas do passado sejam revertidas.” Em que direção irá, segundo Liesl Gernholtz, diretora de direitos da mulher da Human Rights Watch, é imprevisível.
Ainda é muito cedo para fazer comentários fundamentados, acredita Gerntholz, que é advogada especialista em direitos da mulher, mas há vários indícios. “Existe a chance de que as mulheres não possam colher os frutos da democracia que substituirá os regimes derrubados.”
O motivo para isso é que os partidos islâmicos conservadores tiveram vitória substancial nas eleições no Egito e na Tunísia. “Eles defendem tradições que nem sempre apoiam os direitos da mulher. Há preocupação e mesmo medo de que estas forças conservadoras queiram voltar atrás nos limitados progressos que as mulheres conseguiram fazer nesses países.”
Clima desfavorável
Um outro ponto é que nem todos os países têm um forte movimento feminino. “Na Líbia os movimentos sociais foram proibidos por 42 anos. Agora têm que ser construídos do zero. Não há nenhuma experiência na luta pelos direitos da mulher. As mulheres ainda não têm habilidades para estabelecer organizações, tomar parte no debate público ou para serem eleitas para o parlamento. É difícil encontrar confiança e coragem para enfrentar essa aventura. Tradicionalmente, elas sempre foram mantidas fora do debate social e da política.”
Gerntholz constata que em muitos países falta um clima favorável para as mulheres, que têm grande dificuldade em exercer seus direitos.
“No dia 8 de março mulheres egípcias fizeram uma marcha na praça Tahrir, no Cairo, para celebrar o Dia Internacional da Mulher. Elas foram atacadas, insultadas e intimidadas. Lhes disseram que não tinham nada que procurar na rua e que deveriam ficar em casa. A revolução tinha acabado. E isso foi só um mês depois dos protestos populares, nos quais se pedia mais liberdade, e não muito depois da queda de Mubarak. Mas quando as mulheres pedem a mesma liberdade, são mandadas para casa.”
Emancipação feminina
Apesar disso, Gerntholz também vê sinais que dão esperança. As mulheres estão tentando mudar a maré. Egito e Tunísia têm movimentos fortes de emancipação feminina. “É possível que elas se fortaleçam com a transição para a democracia. Na Tunísia, pelo menos, já foi estabelecido um sistema de quotas. Metade das cadeiras no parlamento são ocupadas por mulheres. Elas também estão participando da elaboração da nova constituição.”
Mas Gerntholz está principalmente impressionada com as mulheres na Líbia. Um mês depois da queda de Kadhafi elas já haviam organizado uma conferência sobre direitos da mulher, da qual Gerntholz participou. “Elas discutiram sobre o que querem conquistar, quais são suas expectativas e principais desafios. Portanto, as mulheres com certeza vão lutar por seus direitos e estão se organizando. Embora não seja fácil, porque elas não têm acesso fácil ao poder e aos tomadores de decisão.”
Sharia
É certo, constatou Gerntholz durante sua visita à Líbia, que muitas mulheres lá optam por direitos compatíveis com a sharia, a legislação islâmica. “Elas acreditam que a sharia deve ser a base para a constituição. São em primeiro lugar muçulmanas. Sua religião deve ser determinante para a maneira como vivem. Este é um sentimento generalizado de um grupo de mulheres que certamente não é homogêneo. São mulheres de diferentes camadas da população, com pouca ou muita escolaridade, e de todas as idades.”
As mulheres líbias acham que a sharia não vai contra os direitos da mulher. Se as leis islâmicas forem interpretadas da maneira correta, elas apoiam estes direitos. “Segundo elas, a sharia não trata do apedrejamento de mulheres e de poligamia. Nem sobre o casamento de crianças. Para elas, estas não são leis islâmicas, mas atos ligados à tradição e à cultura.”
Direitos humanos
De acordo com Gerntholz, não há nada errado com este feminismo islâmico. Ele apenas é interpretado de um ângulo religioso, assim como também acontece com feministas católicas. “Se você é capaz de aplicar coisas como religião, cultura e tradição de uma maneira positiva e não discriminatória, acho que não é mau. Mas se isso for usado para excluir pessoas e reprimir, aí é realmente ruim.”
A introdução da sharia não traz necessariamente problemas, acredita Gerntholz. Desde que atenda aos princípios dos direitos humanos universais, nos quais as mulheres são iguais aos homens. Para isso é preciso assegurar que países como a Líbia, que assinaram estes direitos, também cumpram estes princípios.
Mas só o tempo dirá que influência a eventual introdução da sharia terá sobre os direitos das mulheres.
Fonte: RNW

Como o Ocidente desdemocratizou o Oriente Médio



Por Irfan Ahmad, na Al-Jazira


Com o Oriente Médio em convulsão, disparada pela autoimolação de Mohamed Bouazizi em janeiro de 2011, é hora de perguntar que fim terá levado a pergunta que, por muito tempo dominou todo o discurso do Ocidente sobre o Oriente Médio: “O Islã é compatível com a democracia?” Por muitos anos, a resposta dominante foi “não”.


Dentre outros, Elie Kedourie, MS Lipset e Huntington defenderam essa ideia. Bernard Lewis, “o mais influente historiador do Islã e do Oriente Médio” no pós-guerra, que forneceu “a munição ideológica para a Guerra do Iraque”, foi quem mais falou na defesa dessa posição. O principal argumento desses todos foi que, ao contrário do Cristianismo, o Islã não separa religião e estado e, portanto, a democracia seria impossível nas políticas islâmicas. 

Aqui, argumento contra esse opinionismo, a partir de três pontos: 

Primeiro, a posição de que o Islã seria incompatível com a democracia sempre foi falsa, desde o início, porque foi usada para servir às ambições imperiais do Ocidente e, desde o início, desconsidera a autopercepção dos muçulmanos, para os quais o Islã é compatível com a democracia e, além disso, o Islã é uma das melhores ferramentas para a capacitação democrática dos povos para viverem sob democracia. 

Segundo, argumento que o discurso da ‘democratização do Oriente Médio’ é falso. não merece confiança, porque oculta e sempre ocultou os meios pelos quais, de fato, o Ocidente desdemocratizou o Oriente Médio. Minha posição é que, dos anos 1940s em diante, sempre houve experimentos democráticos em andamento no Oriente Médio; e o Ocidente sempre os subverteu com vistas a atender aos seus próprios interesses.

Apresento três exemplos de desdemocratização: 

1. o golpe arquitetado pela CIA contra o governo eleito da Síria em 1949; 
2. o golpe arquitetado por EUA e Reino Unido contra o Irã democrático em 1953; e 
3. a subversão da democracia no Barein, nos anos 1970s. 
 
E comento também as recentes desdemocratizações do Iraque e do Afeganistão, pelo Ocidente. 

Terceiro, explico que o Oriente Médio foi desdemocratizado, porque o Ocidente raramente o viu como conjunto de povos com história e texturas dinâmicas e socioculturalmente ricas. As elites ocidentais sempre viram Oriente Médio como região onde se acumulam ricos e variados recursos naturais, para onde convergem os interesses estratégicos ocidentais; daí que o objetivo do Ocidente sempre tenha sido manter o Oriente Médio “estável” e “manobrável”. 

Para Ernest Bevin, secretário do Exterior (1945-51) do Império Britânico, sem “o petróleo e outros recursos potenciais [do Oriente Médio], não há qualquer esperança de que algum dia alcancemos o padrão de vida que [desejamos] para o Reino Unido”. 

Irã: anatomia de uma revolução




Em 1953, um golpe apoiado por EUA e Reino Unido mudou o regime democraticamente eleito do Irã.

O falso debate 

A visão ocidental, segundo a qual o Islã seria incompatível com a democracia, tem raízes no Iluminismo que, diferente da sabedoria revelada, era carregado de preconceitos – e que, citando John Trumpbour, “atirou com a arma da islamofobia”. Assim, Alexis de Tocqueville dizia que o Corão enfatiza a fé, não os feitos heroicos, razão pela qual o Islã seria irreconciliável com a democracia. Em tempos de pós-2ª Guerra Mundial, Kedouri, Huntington, Lewis e outros exibiram diferentes versões desse argumento. 

Essa visão ocidental, contudo, várias vezes foi endossada por muçulmanos que acreditavam que o Islã e a democracia eram perfeitamente compatíveis. Já em 1912, o filósofo indiano Abul Kalam Azad (nascido em 1888) escrevia: “O Islã vê todas as formas de governo não constitucionais e não parlamentares como o maior dos pecados humanos.” Para o turco Mustafa Fazil Pasha (nascido em 1829), o Islã determinou o destino de cada um depois da vida, mas “não limita os direitos do povo”. Abdullah Abdurrahman da África do Sul (nascido em 1870) observou que, sem plena igualdade, “não pode haver e não há qualquer tipo de instituição democrática”. Sem precisar estender-nos nos exemplos, basta observar que a noção de soberania divina introduzida pelo indiano Maududi e por Qutb do Egito são complexos desenvolvimentos que só surgiram muito depois. 

Diferente da autopercepção dos muçulmanos, o debate sobre uma alegada incompatibilidade entre Islã e democracia prosseguiu no era pós-guerra. Encapsulado sob uma “modernização”, esse debate foi parte integrante da dominação ocidental sobre o Oriente Médio, porque o império mantém-se não só pela força bruta, mas também porque se apresenta a serviço de retóricas como a retórica da democracia. 

Nos EUA, isso tomou forma institucional em 1983, quando o governo criou o Fundo Nacional para a Democracia [orig. National Endowment for Democracy (NED)]. Embora atualmente a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional [orig. United States Agency of International Development (USAID)], estabelecida em 1961 por John F Kennedy, diga que os EUA “têm longa história de estender a mão para ajudar os povos em terras distantes que lutam para viver em país livre e democrático” e que a ajuda externa oferecida pelos EUA “sempre teve o objetivo de expandir a democracia”. Quando a USAID foi constituída, o objetivo não era promover a democracia, mas afastar o comunismo mediante desenvolvimento e ajuda econômica. 

Já em 1997, muito depois de constituído o NED, Fareed Zakaria – hoje editor-correspondente da revista Newsweek (e então diretor-administrativo da revista Foreign Policy) e apologista neorrealista das políticas dos EUA – ainda agredia a democracia, justificando as ações autoritárias dos ditadores no Oriente Médio, com o seguinte argumento: “Em muitas partes do mundo, como Tunísia, Marrocos, Egito e em alguns dos estados do Golfo, onde amanhã haverá eleições, os regimes que serão provavelmente eleitos serão ainda menos liberais que os que hoje estão no poder”. 

Nem Zakaria nem a USAID, contudo, dizem como os EUA, e seus aliados, entre os quais o Reino Unido, foram responsáveis, não pela promoção, mas pela destruição da democracia. Isso, precisamente, é o que quero dizer com “desdemocratização do Oriente Médio promovida pelo Ocidente”. Ofereço então alguns exemplos. 

Desdemocratização de Síria, Irã, Barein, Afeganistão e Iraque

Síria

O provavelmente primeiro cenário de desdemocratização foi a Síria. Coerentes com a lógica do colonialismo, como Reino Unido e França haviam desmembrado e dividido o Império Otomano para ali instalar o sistema do Mandado com a cobertura da Liga das Nações, a Síria caiu sobre domínio francês, do qual só se tornou independente em 1946. Ainda sob domínio dos franceses, houve eleições presidenciais na Síria, depois das quais um governo eleito (em eleições organizadas pelo princípio do voto universal masculino), liderado por Shukri al-Quwatly, chegou ao poder, para mandato de cinco anos, iniciado em agosto de 1943. O governo sírio, depois da independência, era governo constitucional e legitimado por princípios democráticos. 

Em março de 1949, os EUA organizaram um golpe de estado contra o governo de al-Quwatly, para instalar no poder um governo militar, presidido pelo coronel Husni al-Zaim. A partir de pesquisa em documentos só agora liberados para consulta pública, sabe-se já sem qualquer dúvida que Stephen Meade, agente da CIA, teve papel central na montagem daquele golpe. Meade encontrou-se pelo menos seis vezes com al-Zaim. Para Miles Copland, diplomata dos EUA em Damasco, al-Zaim era um dos “America’s boy”.

Os EUA desdemocratizaram a Síria, porque o governo democrático de al-Quwatly era nacionalista e não aceitou viver sob ordens dos EUA. Ele informou Washington que a Síria não aceitaria nenhuma política que ameaçasse a segurança e a soberania do país, mesmo que isso implicasse “desafiar a América”. Dentre várias exigências, os EUA queriam que a Síria cumprisse pelo menos duas, o que o coronel al-Zaim fez rapidamente e alegremente. Al-Zaim legitimou Israel, assinando um armistício; e ratificou o projeto do oleoduto TAPLINE (Trans-Arabian Pipeline Company), que permitiu à empresa ARAMCO (Arabian-American Oil Company) bombear petróleo saudita através da Síria, até o Mediterrâneo. Antes, o parlamento sírio já rejeitara as duas demandas, pelo que se sabe, dentre outras razões, porque o Ocidente e os EUA apoiavam a partição da Palestina e a criação de Israel e apoiavam Israel na guerra árabe-israelense de 1948. 

Entre 1949, quando foi derrubado o governo democrático de al-Quwatly, e 1955, foram organizados mais cinco golpes. As bases de sustentação da desdemocratização da Síria não poderiam ser mais fortes. 

Irã 

O segundo grande teatro de desdemocratização foi o Irã, cujo governo eleito foi derrubado, em 1953, por uma aliança EUA-Reino Unido. Mohammad Mossadegh era primeiro-ministro eleito do Irã. Tinha o apoio do parlamento iraniano para o seu programa de nacionalização. EUA e Reino Unido organizaram um golpe, posto em prática pela CIA, para depor Mossadegh – porque o Irã recusou-se a assinar concessões de petróleo para o ocidente. Durante a 2ª Guerra Mundial, o Reino Unido assumiu o controle militar no Irã, para impedir que fornecesse óleo à União Soviética, aliada do Irã. Através da empresa Anglo-Iranian Oil Company, o Reino Unido continuou a controlar o petróleo iraniano, mesmo depois da guerra. 

Mossadegh, formado na França, era altamente contrário à drenagem dos recursos iranianos para o ocidente. Pouco depois de eleito primeiro-ministro, em março de 1951, Mossadegh e sua aliança da Frente Nacional, cuidaram de nacionalizar o petróleo iraniano e tirar os campos de petróleo do controle estrangeiro. Uma das refinarias nacionalizadas foi a de Abadan, naquele momento a maior que havia no mundo. 

A Reino Unido retaliou e impôs sanções econômicas, apoiada em sua massiva presença naval na região. Mossadegh não cedeu; quanto mais resistia, mais aumentava sua popularidade entre os iranianos. Ante a resistência de Mossadegh, a alianço Reino Unido-EUA organizou e executou o golpe para “mudar o regime” de Mossadegh. 

O Chile relembra o seu 11 de Setembro 

O golpe de 1953 no Irã teve ecos significativos também para a América Central e América do Sul. De fato, daquele momento em diante, passou a ser modelo de mudança de regime. Apenas um ano depois, em 1954, como o New York Times observou em 2000, a CIA organizou e executou outro golpe bem sucedido na Guatemala. E a CIA, sem dúvida possível, arquitetou e executou o 11 de Setembro, não o 11 de Setembro sobre o qual sempre se pensa, mas o 11 de Setembro de1973. Naquela ocasião, a CIA derrubou o governo democrático de Salvador Allende no Chile, para substituí-lo pela ditadura do general Pinochet, que governou, com brutalidade raras vezes vistas no mundo, por 17 longos anos.

Barein

Outro teatro de desdemocratização ativa no Oriente Médio foi o Barein, ex-protetorado britânico. Em 1971, o Barein tornou-se independente. Em dezembro de 1973, houve as primeiras eleições (voto universal masculino) para eleger os 30 membros da al-majlis al-watani, a Assembleia Nacional. Essa assembleia desafiou a autoridade sem qualquer controle constitucional da família al-Khalifa que governava o Barein desde 1783. Um dos principais desafios ao poder do clã apareceu sob a forma de exigência de que os EUA deixassem imediatamente a base naval dos EUA que há no Barein. 

Deve-se observar que os EUA permanecem no Barein desde 1949. Depois que as tropas britânicas retiraram-se de lá, a presença norte-americana aumentou. Legalmente, a assembleia do Barein tinha pleno direito de exigir que a Marinha dos EUA se retirasse daquela base. Mas o al-Khalifa que estava no poder dissolveu a Assembleia, dia 26 de agosto de 1975. E nunca houve lá qualquer democracia, até 2002. Inúmeras vibrantes instituições sociais civis, como todos os sindicatos, foram esmagadas.

Bem evidentemente, os EUA não estavam preocupados com as vozes e as aspirações democráticas do povo do Barein; aos EUA só preocupavam seus próprios interesses, naquele caso, manter lá aquela base militar. O almirante Crow justificou tudo isso, dizendo que “baseada em princípios gerais (...) a Marinha [EUA] não deseja abandonar um local onde já está fixada”. Pode-se dizer que, nesse caso, não houve intervenção “externa” e que a família al-Khalifa tomou decisão “soberana interna” de dissolver a Assembleia eleita. 

Verdade é que, no Oriente Médio (e por toda a parte) separar precisamente as linhas internas de externas de ação não é empreitada simples.

Afeganistão


A ação ocidental de desdemocratizar o Oriente prosseguiu no Afeganistão. Depois da queda do governo dos Talibã, aconteceu em Bonn, uma conferência patrocinada pela ONU para decidir o futuro do Afeganistão. O objetivo declarado foi implantar a democracia e a liberdade das mulheres no Afeganistão. Deixando sem comentar a questão de se os delegados afegãos convidados para ir a Bonn seriam representativos da população afegã, vale lembrar que o líder Abdul Satar Sirat, eleito por maioria de votos para liderar o governo de transição, foi descartado, e forçado a ceder o lugar a Hamid Karzai. Até a decisão de implantar a “democracia” no Afeganistão foi tomada por vias antidemocráticas e desdemocratizatórias. 

O objetivo não era implantar ali alguma democracia; o objetivo era implantar ali Karzai, “our man”, ansioso para atender ao que o ocidente exigisse. Uma década depois daqueles eventos, jornalistas como James Fergusson, autor de A million bullets e Taliban, reclama que Karzai “absolutamente não dá qualquer sinal de interesse pelos princípios democráticos”. 

Mas quem, afinal, estaria interessado em que Karzai desse algum sinal de interesse pelos princípios democráticos? O ex-primeiro ministro australiano John Howard, admitiu depois que o ocidente não desejava ver-se envolvido na reconstrução do Afeganistão, nem no processo de ‘construir-nação’ nesses locais confusos e difíceis. No Afeganistão, o principal objetivo eram as intervenções “cirúrgicas”. 

Iraque 

A história da desdemocratização foi semelhante, também no Iraque. Depois da invasão ocidental no Iraque, com a queda do governo em Abril de 2003, muita gente, em locais tão diferentes como Mosul (cidade curda), Samara (cidade de maioria árabe sunita), Hilla e Najaf (ambas cidades xiitas) e também em Bagdá, organizaram reuniões espontâneas, locais, pensando em eleger representantes que organizassem a reconstrução, a segurança, a provisão de uma infraestrutura essencial. 

Foi iniciativa popular e democrática no melhor sentido da palavra. Mas os EUA distorceram todas essas iniciativas democráticas, fazendo anular as decisões e os planos dos representantes eleitos dos vários conselhos populares; e, para substituí-los impuseram gente (não eleita) de confiança dos EUA, inclusive vários membros do (ex-) Partido Baas. 

O “porquê” da desdemocratização 


Por que o ocidente desdemocratiza o Oriente Médio? Desdemocratiza, penso eu, porque as elites do poder ocidental veem a região como terra sem qualquer textura sociocultural diversa e dinâmica, como terra que é, só, repositório de inúmeros recursos e interesses estratégicos. Por isso, o ocidente só pensa em manter o Oriente Médio “estável” e “manobrável”. 

Em 1984, Robert W Stookey, destacado membro do serviço diplomático dos EUA (com postos no Oriente Médio e um doutorado em ciência política), publicou The Arabian Peninsula: Zone of Ferment, editado pela Hoover Institution da Stanford University. Os livros publicados pela Hoover Institution eram “preocupados com o envolvimento dos EUA na política regional e mundial”. Stookey começa assim a Introdução do seu livro: “Considerando a significação econômica e estratégica de nossos interesses nacionais, a península Arábica ainda não é bem conhecida do público em geral.” E foi assim, no quadro conceitual dos interesses nacionais dos EUA, que ele tornou o Oriente Médio “conhecido” ao seu público ocidental. A Arábia Saudita, observou Stookey, está na “posse de um quarto das reservas de petróleo do mundo não comunista”; a Arábia Saudita, como também o Kuwait, são locais “com petróleo”. Os (então) dois Iêmens, por sua vez, são locais “sem petróleo”. É bem evidente que o Oriente Médio só tem algum sentido para Stookey, como espaço que se divide em áreas “com” e áreas “sem” petróleo. 

Essa conceitualização do Oriente Médio foi articulada pelo Reino Unido imperial, cujo vice-rei da Índia, Lord Curzon, escreveu, no século 19: “Turquestão, Afeganistão, Transcaspia, a Pérsia – para muitos, essas palavras só trazem um senso de mundo remoto, ou uma lembrança de estranhas vicissitudes de romance moribundo. Para mim, confesso, são peças sobre um tabuleiro de xadrez sobre o qual está sendo jogado um jogo de dominação do mundo.” 

De fato, até a expressão “Oriente Médio” é, ela mesma, imperial. “Médio”, entre quais dois pontos de localização? E, sim, “oriental”, em relação a quê? Ao leste de onde? Claramente, é uma designação geográfica que põe o Oeste, o ocidente, no centro do mundo. No final do século 19, Alfred Mahan, oficial da Marinha dos EUA inventou a expressão “Oriente Médio” e usou-a em seu livro The Influence of Sea Power Upon History [A influência do poder naval sobre a história]. Halford Mackinder, liberal e imperialista britânico, popularizou, adiante, a expressão. 

Argumentei para demonstrar que a conversa segundo a qual o Ocidente estaria disseminando alguma democracia no Oriente Médio é conversa fiada. Contra o que o Ocidente diga, apontei aí vários casos em que se vê que o Ocidente continuamente opera no Oriente Médio para desdemocratizar, país após país. 

Como a Índia, a maior democracia do mundo, desinteressou-se quase completamente – e indiretamente passou a hostilizar – os movimentos democráticos no Butão e em Burma, assim também o ocidente tem sido em larga medida hostil a qualquer movimento de democracia genuína no Oriente Médio, e há muito tempo trata lá exclusivamente de seus próprios interesses – geopolíticos e estratégicos – mantendo por lá, sempre “estáveis”, só os Mubaraks e os Xás.

*É professor de Antropologia Política da Monash University, Austrália. É autor de Islamism and Democracy in India: The Transformation of Jamaat-e-Islami (Princeton University Press, 2009).

Fonte: Redecastorphoto. Traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

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