O ministro francês de Relações Exteriores, Bernard Kouchner, por exemplo, lançou campanha em prol do “referendo putativo” [no Brasil, se diz mais frequentemente, “suposto”, que é sinônimo de “putativo” [1]: “suposto bandido”, “suposto ladrão”, “suposto kurrupto”, “suposta lei”, “suposto honesto”, “suposto ético”, mas nunca “suposto jornalista”, “suposto jornalismo”, “suposta fonte”, “suposta notícia” ou “suposto fato” (NTs)].
A intervenção humanitária passava a ser justa, se os brancos imaginassem os iraquianos a dizerem “sim” ao bombardeio-detonação do próprio país até ser convertido em amontoado de ruínas, num referendo apenas suposto, hipotético, jamais perguntado – cujo fundamento é o hino dos necrófilos: “Quem cala consente”. Assim ficou evidente que não se tratava propriamente de os brancos sentirem-se com algum “direito à intervenção humanitária”, o que seria uma modalidade de privilégio, mas, mais, de que se autoinvestiam num “dever de proteger” os pobres do mundo.
Esse desenlace nos devolve aos bons velhos tempos coloniais, quando o “dever de proteger”, “o peso sob o qual arca o colonizador branco” eram muito regularmente invocados para apoiar intervenções militares. Só não se entende por quê. Por que o peso sob o qual arca o colonizador branco é tão branco?
É sabedoria corrente no norte, que os brancos são geneticamente predispostos à empatia, à generosidade. Que cuidam melhor dos que oprimem. Não demora, e um cientista branco descobrirá que os brancos têm um gene que os capacita melhor para a solidariedade, para a compaixão pelos que sofrem, do que se lê todos os dias na primeira página do New York Times. Contra esse argumento genético, o melhor é tratar a coisa como fenômeno de fundamento histórico, uma especificidade cultural. O “dever de proteger” que incumbe aos de pele branca explica-se como se explica a “missão civilizatória” tão cara ao projeto colonial: os brancos governam melhor.
Essa forma de supremacia branca contemporânea sofre ligeira distorção na imaginação, o suficiente para que não se a entenda completamente, mas ainda assim é aproveitável como ferramenta de análise: governos brancos não massacram o próprio povo; as democracias (vale dizer: as políticas de brancos, por brancos, para brancos) não guerreiam entre elas.
O impecável silogismo segundo o qual os brancos fantasiam a própria supremacia e o peso que carregam às costas reza que os brancos têm um dever de proteger a vida, porque protegem melhor. De reservas naturais a protetorados, de zebras a tuaregues, de desastres ecológicos a poços de petróleo, a cantoria humanitária é sempre a mesma:
1) Todos os seres humanos têm igual direito à vida;
2) Governos brancos preservam melhor a vida;
3) Ergo, só os brancos merecem governar.
No frigir dos ovos, a intervenção humanitária estipula que há um direito humano à vida, e ninguém tem melhores atributos que os brancos para tomar conta da vida, essa preciosíssima mercadoria. Os brancos mantêm a vida viva por mais tempo.
A discussão não tem fim, porque, se se aceita que os brancos são naturalmente mais bem dotados para fazer o management da vida; e que a soberania dos estados-nação nada vale, se se trata de salvar vidas... não há qualquer imperativo moral que obrigue a resistir contra a volta da administração colonial sobre os interesses dos nativos. Afinal de contas, as estatísticas estão aí, a demonstrar sem sombra de dúvida que governos brancos cuidam muito melhor da vida dos respectivos cidadãos brancos – e daí, portanto, que tenham de assumir o dever de cuidar, logo, de vez, do resto dos cidadãos do resto do mundo.
O tabu que cerca essa questão – e razão pela qual você não pode perguntar a amigo branco por que a intervenção humanitária é hobby branco e de brancos – resulta desse fato tantas vezes encoberto: só as guerras e as intervenções humanitárias tocam bem fundo nas gozosas raízes dos sentimentos suprematistas dos brancos.
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| Soldados do Exército de Resistência de Deus |
Conclusão: O que fazer?
Assim sendo, pois: você deseja salvar o mundo e ter amigos brancos, mas sabe que assistir a vídeos de YouTube e participar de quermesses de venda de bolo para fazer finanças para comprar armas para o governo de Uganda em luta contra o Exército da Resistência de Deus [orig. Lord's Resistance Army (LRA)] não bastará.
Você teme Deus e teme guerras, e já começa a desconfiar de que seu governo está mais interessado em resgatar banqueiros que fábricas de armas. Você deseja participar e promover justiça para todos, mas você não é branco perfeito, branco puro. E, mais importante, você já está de saco totalmente cheio de envolver-se apaixonadamente em invasões de países (qualquer um) árabes, tanto quanto já morre de tédio ao ver seu time favorito vencer mais um jogo decisivo do campeonato universal de futebol americano.
Temos então a solução perfeita para o seu caso: seja você mesmo a mudança. Passe a mão numa metralhadora e embarque para a Síria. Você consegue. Você estará arriscando a própria vida por ideais nos quais você não sabe se acredita muito. Mas... pense pelo lado bom. Você será a matéria-prima que os brancos mais apreciam: sem braços nem pernas. E livre.
Notas de rodapé
*Marc Michael é sociólogo e vive no Cairo. Está concluindo sua tese de PhD na Universidade de Cambridge. Escreve sobre saúde pública, finanças, direito, política internacional e desenvolvimento
[1] Putativo. Adj. Acepções: 1) falsamente ou erradamente atribuído a (alguém ou algo); supositício, suposto (Ex.: filho putativo). 2) Rubrica: termo jurídico. Diz-se daquilo que, embora ilegítimo, é objeto de suposição de legitimidade, fundada na boa-fé (ou não) (Ex.: casamento putativo).
Traduzido pela Vila Vudu
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