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EUA e Cuba anunciam retomada das relações diplomáticas após 53 anos


2014 encerra-se com um momento de grande importância para o continente Americano: EUA e Cuba anunciaram nesta quarta-feira (17/12) a retomada de um diálogo histórico de aproximação diplomática.

O líder cubano Raúl Castro discursou ao mesmo tempo que Obama anunciando a retomada das relações entre os dois países.

Zizek: "Quem são os responsáveis pela paralisia do governo nos EUA? Os mesmos idiotas responsáveis pela crise de 2008"




Em abril de 2009 eu estava descansando num quarto de hotel em Syracuse, alternando entre dois canais: um documentário da PBS sobre Pete Seeger, o grande cantor americano de música country da esquerda; e uma reportagem da Fox News sobre o anti-tributário Tea Party, com um cantor de música country apresentando uma canção populista sobre como Washington está tributando os cidadãos comuns e trabalhadores para financiar os financistas de Wall Street. Havia uma estranha similaridade entre os dois cantores: ambos articulavam acusações anti-estabilishment e populistas contra os ricos exploradores e seu Estado; ambos clamavam por medidas radicais, incluindo a desobediência civil.

Síria: Às vésperas de uma guerra obscena


Por Tariq Ali

O objetivo da “guerra limitada” organizada pelos EUA e seus vassalos europeus é simples. O regime sírio estava lentamente restabelecendo seu controle sobre o país, contra a oposição armada pelo Ocidente e seus Estados tributários na região (Arábia Saudita e Qatar). Essa situação exigia correção. Nessa deprimente guerra civil, era preciso fortalecer militar e psicologicamente a oposição.
Desde quando Obama afirmou que as armas químicas era a “linha-limite”, era claro que elas seriam utilizadas. Cui prodest? como costumavam perguntar os romanos. Quem se beneficia? Claramente, não o regime sírio.

Asilo para Snowden: “É a lei, estúpido!”


Por Richard Falk


A imprensa-empresa mais influente nos EUA tem usado três meios para reforçar seu viés a favor do governo, no caso Snowden:

Primeiro, refere-se sempre a Snowden como “vazador” [orig. lit.leaker], em vez de “alertador” [orig. whistleblower, lit. “tocador de apito”] ou “dissidente [do estado] de vigilância”, designações mais precisas e mais respeitosas.

Segundo, a imprensa-empresa dominante ignora completamente o quanto o gesto dos russos, de dar status de refugiado temporário a Snowden por um ano está em perfeito acordo com o nível normal de proteção a ser dada a qualquer pessoa acusada de crimes políticos não violentos em país estrangeiro, e perseguida diplomaticamente e legalmente por governo que busque indiciá-la e processá-la.
A Rússia entregar Snowden aos EUA nessas condições seria moralmente e politicamente escandaloso, considerando-se a natureza dos crimes de que os EUA acusam Snowden.

Terceiro, a imprensa-empresa dominante recusa-se a reconhecer que espionagem, a principal acusação feita contra Snowden, é a principal e maior, a “ofensa política” essencial, na lei internacional, e como tal é rotineiramente excluída de qualquer lista de ofensas que geram extradição.

Assim sendo, ainda que existisse tratado de extradição entre EUA e Rússia, seria preciso deixar absolutamente claro que não há nenhum dever legal, para os russos, de entregar Snowden às autoridades dos EUA para ser processado criminalmente e, sim, haveria um dever moral e político de não o entregar, sobretudo nas circunstâncias que cercam a controvérsia sobre Snowden.

A posse de Obama e a mídia colonizada



Por Altamiro Borges

A imprensa nativa parece uma sucursal rastaquera da mídia estadunidense. Ontem, as emissoras “privadas” de televisão deram um show na transmissão da posse de Barack Obama. Comentaristas embasbacados gastaram horas para endeusar a “democracia nos EUA”. Hoje, os principais jornalões deram total destaque para o ritual. O Globo utilizou quase toda a sua capa. “Obama prega igualdade para gays e imigrantes”, foi a sua manchete. Folha e Estadão repetiram a bajulação, num típico pensamento único imperial.

Bem diferente é a cobertura da mídia das posses dos presidentes latino-americanos, principalmente quando eles se opõem à política imperialista dos EUA na região e pregam a integração soberana do continente. No caso de Hugo Chávez, da Venezuela, ela nem sequer escondeu a torcida macabra pela sua morte. As posses de Cristina Kirchner (Argentina), Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador), entre outros, também mereceram coberturas “jornalísticas” negativas, depreciativas e até preconceituosas.

O comportamento servil da mídia nativa lembra uma frase de Chico Buarque, em outubro de 2010, durante o encontro de intelectuais e artistas em apoio a então candidata Dilma Rousseff. Na ocasião, ele ironizou os que “falam fino com Washington e falam grosso com a Bolívia e o Paraguai”. A imprensa brasileira segue exatamente este padrão de subserviência. E olha que os EUA nem estão com esta bola toda na atualidade. O império decadente afunda na crise econômica e se atola nas guerras em várias partes do mundo.

A regressão social nos EUA é algo impressionante – mas os “calunistas” preferem bajular a posse de Barack Obama. O país é hoje um dos mais desiguais e injustos do planeta. Um em cada sete estadunidenses depende de assistência do governo federal para comer. São cerca de 46,5 milhões de pessoas incluídas no programa “Food Stamps” (cupons de comida). Outros milhões não contam com qualquer tipo de assistência pública à saúde; outros foram despejados de suas casas e hoje residem em trailers.

Na bajulada “democracia ianque”, enquanto milhões vegetam na miséria e não acreditam mais na balela da “terra das oportunidades”, uma minoria residual – o 1% criticado pelo movimento Ocupe Wall Street – continua esbanjando fortunas. Em 2010, apesar da brutal crise que vitimou o país, estes ricaços voltaram a acumular riquezas. A participação na renda dos 1,6 milhão do topo da pirâmide subiu de 18% para 19,8%. Mesmo assim, a mídia colonizada faz festa para a posse de Barack Obama. Haja servilismo!
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A reeleição de Obama

Foto de Barack Obama abraçado à mulher Michelle que ele divulgou pouco depois de saber da reeleição. A foto teve o recorde de compartilhamentos no Facebook  (mais de 3 milhões no momento desta postagem).

Por Erick da Silva

Barack Obama é reeleito presidente dos EUA para mais quatro anos de mandato.
Foi uma vitória por uma boa margem no colégio eleitoral – obteve pelo menos 303 votos, mais do que George W. Bush em 2000, que teve 271 votos. Obama venceu também, ainda que por uma ligeira vantagem, no voto popular - 50,2% contra 48,3%.
Esta vitória carrega consigo um sentimento ambíguo, que mistura por um lado alívio; afinal uma vitória de Romney certamente tornaria o mundo um lugar mais perigoso; e por outro, uma certeza que "grandes mudanças", não deverão ocorrer.
Quando venceu pela primeira vez em 2008, derrotando o republicano John McCain, sua vitória carregou a insignia da mudança, sintetizada no slogan "Yes We Can", que a uma só feita buscava superar o que representou o desastre George W. Bush e apresentar uma possibilidade de mudança pelo protagonismo das pessoas. Sua campanha, de fato, engajou americanos de uma forma inédita em uma campanha e gerou um notável envolvimento (e torcida) de pessoas ao redor de todo o mundo. Nunca um candidato a presidente dos EUA contou com tanto apoio fora dos EUA. 
Esta proposta de mudança, no entanto, se deu com base em uma plataforma efêmera, sem um programa político mais definido. Logo, não tardou a gerar inúmeras frustrações. Mesmo as poucas propostas concretas levantadas por Obama, muitas não lograram exito, como por exemplo, a promessa de fechar a prisão na base de Guantánamo, em Cuba. 
Apresentar Obama, no entanto, como um "traidor" ou um "fracasso político" seria simplificar o que foi o seu mandato e a conjuntura em que ele se deu. A herança deixada por Bush (duas guerras e uma crise econômica), foi pesada, o engessamento causado pelo sistema político e pelo complexo militar americano, reduziram enormemente a margem de ação de Obama. Mas não podemos, é claro, reduzir a responsabilidade pelas escolhas e erros políticos feitos por Obama e pelos democratas.
Substancialmente, os programas políticos de Obama e Rommey não apresentavam grandes diferenças aparentes. As semelhanças e convergências entre republicanos e democratas são notórias e históricas. No entanto, a evolução política americana, no último período, gerou diferenças entre os dois partidos que não podem ser desconsideradas. O surgimento e fortalecimento do Tea Party contribuiu para uma radicalização de um discurso ultraconservador no interior do partido republicano, sem que houvesse, pelo lado democrata, uma contrapartida à esquerda. Movimentos como o Occupy Wall Street não tiveram o devido acolhimento e recepção pelos democratas. O que poderia ter representado um contraponto ao Tea Party e um importante elemento para alterar a qualidade do debate político na campanha.
A campanha teve como foco principal qual dos dois candidatos era o mais indicado para acelerar a recuperação do país após a crise financeira de 2008 e a recessão que a seguiu. Obama afirmava que herdou uma economia em frangalhos e que o cenário teria piorado ainda mais não fosse seu esforço para mantê-la – relembrando do pacote federal de estímulo econômico, que resgatou a indústria automobilística e, segundo Obama, salvo milhões de empregos e diminui gradativamente, embora devagar, a taxa de desemprego, agora em 7,9%.
Obama destacou também suas conquistas, como a assinatura para a lei de reforma no sistema de saúde, o Affordable Care Act, o "fim" da Guerra do Iraque (ainda que a presença militar americana deva permanecer),  a morte do líder da Al Qaeda Osama bin Laden e o fim das restrições contra gays entre os militares, a Don’t Ask, Don’t Tell (“Não Pergunte, Não Conte”).
Este tema, talvez, seja exemplar das diferenças entre os dois candidatos. Enquanto Obama afirmava: "Os gays tem os mesmos direitos dos héteros", Romney, por sua vez: "Deus criou homem e mulher." Outro exemplo é a política com relação aos imigrantes, onde Rommey adotou um discurso claramente segregacionista, assimilando o discurso do Tea Party, Obama, por sua vez, buscou estreitar sua base de apoio junto aos eleitores imigrantes, ainda que seu governo tenha apresentado tímidos avanços nesta área (para dizer o mínimo).
Esta é a diferença entre eles. O mapa da votação de ambos expressa bem esta diferença. Romney venceu entre os homens por 52 a 48. As mulheres votaram em Obama, 55 a 45. Obama teve o apoio quase absoluto do eleitorado afro-americano, 93%, quatro em cada cinco LGBTs e 69% dos latinos votaram em Obama.
Estes dados dão dimensão do simbolismo político da vitória de Obama. Mesmo com todos os problemas que houveram em seu primeiro mandato, a vitória de Obama deve ser festejada. Mesmo que seja com o cálculo pragmático de que venceu o "menor dos problemas". 
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A política externa dos EUA e a opinião pública americana


Por Immanuel Wallerstein


À medida que se aproximam as eleições nos Estados Unidos, a política externa do país está lentamente a tornar-se uma das questões mais importantes. Não é segredo que no último meio século houve uma certa consistência de longo prazo na política externa dos EUA. As divergências internas mais agudas ocorreram quando George W. Bush assumiu a Presidência e desencadeou uma tentativa deliberadamente unilateral e superviril de restaurar o domínio dos Estados Unidos no mundo através das invasões do Afeganistão e do Iraque.
Bush e os neoconservadores esperavam intimidar toda a gente pelo mundo, usando a força militar para mudar regimes considerados hostis pelo governo dos EUA. Como parece hoje claro, a política neoconservadora falhou o seu próprio objetivo. Em vez de intimidar todos, esta política transformou um lento declínio do poderio dos EUA num declínio abrupto. Em 2008, Obama candidatou-se com uma plataforma de reversão desta política, e em 2012 está a afirmar que cumpriu a promessa e assim desfez os danos causados pelos neocons.
Mas será que desfez realmente os danos? Poderia tê-lo feito? Duvido. Mas a minha intenção aqui não é discutir quão bem-sucedida é ou não neste momento a política externa dos EUA. O que sim quero discutir é o que pensa dela o povo americano.
O elemento mais importante na atual opinião pública norte-americana acerca da política externa do seu país é a incerteza e a falta de clareza. Sondagens recentes mostram que pela primeira vez uma maioria de cidadãos dos EUA pensa que as intervenções militares que Bush empreendeu no Médio Oriente foram um erro. O que estas pessoas parecem ver é que houve um enorme gasto de vidas americanas e de dinheiro que obtiveram resultados que lhes parecem negativos.
Apercebem-se de que o governo iraquiano está mais próximo em sentimento e politicamente do governo iraniano que de Washington. Apercebem-se de que o governo afegão está a pisar terrenos movediços – com um exército infiltrado por simpatizantes taliban suficientes para matar soldados dos EUA com quem trabalham. Querem a retirada das tropas dos EUA em 2014, como foi prometido. Mas não acreditam que, assim que estas tropas saírem, fique no poder um governo estável, um governo de certa forma amigo dos Estados Unidos.
É significativo que, no debate entre os dois candidatos à vice-presidência, o democrata Joe Biden tenha afirmado com vigor que as tropas americanas não seriam enviadas para o Irã. E o republicano Paul Tyan disse que ninguém do seu lado estava a pensar mandar tropas para lá. Ambos podem ou não ter dito a verdade acerca das suas posições. O importante a notar é que ambos pareciam pensar que qualquer ameaça de enviar tropas terrestres prejudicaria as hipóteses dos seus partidos diante dos eleitores.
E então? Essa é precisamente a questão. As mesmas pessoas que dizem que as intervenções dos EUA foram um erro, ainda não estão de forma alguma preparadas para aceitar a ideia de que os Estados Unidos não deveriam continuar a manter, e mesmo a expandir, o âmbito das suas forças militares. O Congresso dos EUA continua a votar orçamentos para o Pentágono maiores que o pedido pelo próprio Pentágono. Em parte, isto é o resultado do desejo dos legisladores de manter postos de trabalho em distritos onde há empregos relacionados com as forças armadas. Mas também porque o mito da superforça americana ainda é um forte compromisso emocional em virtualmente todo o lado.
A perspetiva é de um isolacionismo assustador? Até certo ponto, sem dúvida. Há na verdade eleitores na extrema esquerda e na extrema direita que começam a defender mais fortemente a necessidade de reduzir o compromisso militar dos EUA no resto do mundo. Mas acredito que, de momento, ainda não têm muita força.
Em vez disso, podemos esperar uma lenta e silenciosa, mas nem por isso menos importante, revisão do que pensam os americanos acerca de certos grupos de aliados. O afastamento da Europa, seja como for que a Europa seja definida, está a ocorrer há muito tempo. A Europa é vista como “ingrata” de certa forma, por tudo o que os Estados Unidos fizeram por ela nos últimos setenta anos, militar e economicamente. Para muitos cidadãos dos EUA, a Europa parece ter pouca vontade de apoiar as políticas dos EUA. As tropas americanas estão atualmente a retirar da Alemanha e de outros lugares.
Evidentemente que a Europa é uma grande categoria. Será que o cidadão americano comum tem pontos de vista diferentes acerca da Europa do Leste (os ex-satélites soviéticos)? Ou acerca da Grã-Bretanha, com quem é suposto os Estados Unidos terem uma “relação especial”? A “relação especial” é mais um mantra dos britânicos que dos americanos. Os Estados Unidos premiam a Grã-Bretanha quando esta segue a linha, e não quando esta se desvia dela. Um cidadão americano comum dificilmente tem conhecimento deste compromisso geopolítico.
A Europa do Leste é diferente. Houve pressões reais de ambos os lados para manter uma relação próxima. Do lado dos EUA, houve interesse por parte do governo em usar a ligação europeia oriental como forma de conter as tendências europeias ocidentais de agir independentemente. E houve pressões dos descendentes dos imigrantes destes países para que as ligações se expandissem. Mas a Europa do Leste começa a sentir que o compromisso militar dos EUA está a emagrecer e por isso é pouco confiável. Também começa a sentir que as ligações econômicas com a Europa ocidental, e com a Alemanha em particular, são mais cruciais para eles.
O antagonismo com o México, devido aos migrantes "ilegais", veio desempenhar um papel importante na política dos EUA e tem vindo a minar as relações, em teoria muito próximas, com o México. Quanto ao resto da América Latina, o crescimento da sua postura geopolítica independente tem sido uma fonte de frustração para o governo dos EUA e uma fonte de impaciência para o povo dos Estados Unidos.
Na Ásia, o chamado “China-bashing” (retórica anti-chinesa) é um jogo crescentemente popular, apesar de todos os esforços do governo dos EUA de refreá-lo. As empresas chinesas são impedidas de fazer alguns tipos de investimentos nos Estados Unidos que até a Grã-Bretanha acolhe.
E finalmente, há o Médio Oriente, uma área de preocupação central para os EUA. Atualmente, o foco é posto no Irã, Tal como na América Latina, o governo parece frustrado devido às suas limitadas opções. Foi constantemente pressionado por Israel para fazer mais, apesar de ninguém estar muito certo do que significa “mais”.
O apoio a Israel de todas as formas possíveis tem sido uma peça central da política externa dos EUA desde 1967, pelo menos, senão antes. Poucos se atrevem a desafiá-lo. Mas os “poucos” estão a começar a ter mais apoio aberto de personalidades militares, que sugerem que as políticas de Israel são perigosas em termos de interesses militares norte-americanos.
Será que o disseminado apoio a Israel vai continuar sem contestação nas próximas décadas? Duvido. Israel pode ser o último compromisso emocional dos EUA a desfalecer. Mas é quase certo que é isso o que vai acontecer.
Por volta de 2020, provavelmente, e certamente em 2030, a política externa norte-americana terá começado a digerir a realidade de os Estados Unidos não serem a única superpotência todo-poderosa., mas simplesmente uma das poucas sedes do poder geoestratégico. A mudança de perspetiva terá sido imposta pela evolução da opinião dos americanos comuns, que continua a preocupar-se mais com o seu bem-estar social do que com os problemas além-fronteiras. À medida que o “sonho americano” atrai cada vez menos não-americanos, volta-se para o interior dos Estados Unidos.
Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net
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Chuck Norris e os evangélicos contra Obama


O obscurantismo renitente nos EUA (e em outros cantos do mundo) não cansa de me surpreender. Obama enfrentou, ao longo de todo o seu mandato, uma oposição raivosa e obtusa permanentemente. Seu governo não promoveu ações alguma que justificassem o rotulo de governo "comunista", pelo contrário, está muito distante disto. Entre os inúmeros motivos que justificariam esses ataques, de forma velada, está o fato de Obama ser negro. O simbolismo de um presidente negro, ainda que seu governo não tenha promovido grandes ações que promovessem a igualdade racial, é algo que incomoda profundamente uma certa direita conservadora norte-americana, ao qual o ator Chuck Norris é apenas mais um exemplo patético.


Ator Chuck Norris convoca evangélicos contra Obama: ‘país não pode virar socialista!’

Com a mulher Gina, astro de filmes de artes-marciais pede apoio ao republicano Mitt Romney nas eleições presidenciais de novembro. “O país não pode ir para o caminho do socialismo ou algo pior”, afirma
Famoso pelos diversos filmes de luta, o ator norte-americano Chuck Norris publicou um vídeo no YouTube no último sábado clamando para que os milhões de evangélicos do país, assim como ele, votem contra a reeleição do presidente Barack Obama nas eleições presidenciais de novembro.
“Nós não podemos mais ficar sentados quietos ou parados nos cantos assistindo nosso país ir para o caminho do socialismo ou algo muito pior”, ataca o astro dos cinemas, ao lado de sua esposa, Gina.

A mulher de Norris faz as contas e concluiu que, se não tivessem ficado em casa há quatro anos, os evangélicos poderiam ter evitado a vitória de Obama.“É estimado que nas eleições de 2008, 30 milhões de cristão evangélicos ficaram em casa no dia da votação e Obama ganhou por 10 milhões de votos”. Em tom apocalíptico, o casal cristão alerta que se não agirem, os americanos enfrentarão “mil anos de escuridão” e diz que tudo pode estar perdido para sempre, “se não mudarmos de rumo”.

Assista ao vídeo:


 
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Pepe Escobar: Guerra e “cheeseburgers”




Um espectro ronda a Europa. Não, não é o comunismo. São as agências norte-americanas de avaliação de risco. A Grécia está quebrada; a Eurozona está a ponto de rachar; o banco JP Morgan comete “erros” de bilhões de dólares; empregos, não há (nem futuro) para as novas gerações. E, mesmo assim, o braço armado do 0,1% das elites ocidentais ocupa Chicago – convertida em cidade-estado policial orweliana – para discutir uma “defesa inteligente” [orig. smart defense].
No Afeganistão, a “inteligente” Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) prepara-se, de fato, para uma fuga humilhante. “Defesa inteligente” é palavra em código para “o dinheiro sumiu”. Só cinco, dos 28 estados-membros da OTAN gastam 2% dos respectivos PIBs com os militares – como quer a OTAN. Um desses era – surpresa! – a Grécia. Eis a trilha rumo ao desastre certo, para o neoliberalismo armado. Primeiro, a Grécia foi mais ou menos obrigada a comprar submarinos caríssimos, de franceses e alemães; depois, foi obrigada a fazer cortes no orçamento. É o plano de ajuda da OTAN: “food for subs”, vocês nos dão comida, nós lhes vendemos submarinos.
Os EUA pagam nada menos que 75% das contas da OTAN – mais uma demonstração cabal de que a OTAN é o braço europeu, armado, do Pentágono. Mas, em 2011, os membros da União Europeia (EU) gastaram nada menos que $180 bilhões, em Defesa. Agora, acabou. Ninguém mais tem dinheiro. Quer dizer: doravante, o Pentágono, sozinho, terá de manter a máquina em operação.
E mantê-la-á – com folga. Como esperado, ontem, domingo, na Chicago ocupada, a OTAN aprovou – melhor ainda: o presidente Barack Obama dos EUA e seus aliados “acabam de decidir” – dar prosseguimento à primeira das quatro fases do escudo norte-americano antimísseis para a Europa.
Na prática, significa um navio de guerra dos EUA armado com interceptores ancorado no Mediterrâneo; e um sistema de radar da OTAN, instalado na Turquia e controlado do quartel-general em Ramstein, na Alemanha. A vasta (e crescendo) base militar em Ramstein é comandada por um general norte-americano. Mas, segundo o jornal turco Zaman, haverá um general turco, lá, como subcomandante. É a cenoura que coube à Turquia, por ter feito campanha a favor de mudança de regime na Síria.
Os que acreditam no que a OTAN diz pelos veículos da imprensa-empresa – que o tal escudo nada tem a ver com a Rússia e é defesa contra os mísseis do Irã “do mal” – melhor fariam se se aliassem a Alice no País das Maravilhas. Para todos os objetivos práticos, o comandante do exército russo, general Nikolai Makarov, já disse que a Rússia responderá, com uma base de mísseis Iskander de curto-alcance em Kaliningrad, junto à fronteira com a Polônia. É fácil tirar a OTAN de dentro da Guerra Fria, mas ninguém tira a Guerra Fria de dentro da OTAN.

No ponto, nem mal-passado nem bem-passado, sem ketchup

Sobre o Afeganistão, o que a Casa Branca espalha pelos veículos da mídia-empresa é que Obama recomendou ao presidente afegão Hamid Karzai que “implemente a reforma eleitoral, ponha fim à corrupção e pressione os Talibã para um acordo”. É além de delírio desejante: acreditar que o sistema super corrompido de Karzai se “autorreformará” é como crer que a Casa de Saud seja amante da democracia jeffersoniana. Se houver qualquer coisa semelhante a “reforma eleitoral”, os aliados de Washington perderão, por muito tempo, todas as eleições que se inventem. E é o Talibã quem pode obrigar Karzai a fazer algum acordo, não o contrário.

Assim sendo, o que sobra, para salvar a civilização ocidental? Com batatas fritas à francesa, não à moda “liberdade”.
Dessa nova diplomacia cheeseburger, selada no Salão Oval, entre Obama e o novo presidente da França, François Hollande, espera-se que salve a Grécia, erga a Eurozona e dê nova partida, afinal, na economia dos EUA, bem a tempo para as eleições presidenciais de novembro nos EUA. Como é que os indômitos "Cinco", da cadeia EUA de búrgueres, não pensaram nisso antes?

Eis o cálculo de Obama:

Se o Republicano Mitt Romney for eleito em novembro, estaremos ainda mais ferrados do que estamos hoje. Preciso de empregos. Preciso de economia em recuperação. Preciso que os malditos europeus ponham ordem na casa. Não posso ficar sentado aqui, à espera de que eles resolvam o problema grego: tenho de vencer uma eleição!

Eis o cálculo de Hollande:

Minha eleição está vencida. Prometi empregos e crescimento. Agora, preciso de uma coalizão de vontades só minha – para o crescimento; ou seremos atropelados pela extrema direita, em todas as urnas. Mon Dieu, por que “Onxelá” – codinome, chanceler alemã Angela Merkel – não entende isso?


Para o duo franco-americano, é situação de ganha-ganha. A política econômica de Hollande é, de fato, a economia política do Obama Team. Com certeza já expuseram a (nova) lei a “Onxelá”, no plácido retiro de Camp David, no G-8 – protegidos das agruras do mundo real por um exército suficiente para executar qualquer mudança de qualquer regime em qualquer lugar, em cinco minutos. 
Problema é que, nem Barack, nem François avisaram o Deus do Mercado – nem os bancos europeus e norte-americanos – sobre seus projetos. Os Mestres do Universo não dão bola alguma para a Grécia, berço da democracia; querem é a grana deles, de volta.
Obama tem pressa. O atual Supremo Interventor italiano, Mario Monti – ex-Goldman Sachs – talvez tenha credibilidade de mercado, para convencer Berlim e a Troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional) de que, ou a Europa cresce, ou não haverá dinheiro para ninguém. Mas Obama também precisa de um aliado estratégico político. E, com certeza, não será “Onxelá”, a dominatrix da austeridade.

Prefiro um bife

O problema é que essescheeseburgers estão encharcados de óleo. Petróleo iraniano. Obama faz-se de durão contra o Irã, essencialmente por razões eleitorais. Nos próximos cinco meses, bem poderia conseguir redirecionar o debate, não fossem os europeus que – obedecendo ordens suas, de fato – podem fazer valer o boicote contra o petróleo do Irã, a iniciar-se dia 1º de julho p.f.. Obama teme a consequência inevitável do boicote: os preços do petróleo, na estratosfera. Se isso acontecer, bye bye recuperação europeia, a ser seguido, claro, por bye bye reeleição de Obama. 
Isso é que torna ainda mais sumarenta a próxima rodada de conversações em Bagdá, essa semana, entre o Irã e as nações do P5+1. Do ponto de vista do Obama Team, o melhor cenário possível seria... Vamos concordar que temos de conversar um pouco mais.
Com isso, Obama ganharia uma janela pela qual pressionar – com a ajuda de Hollande – a favor da ideia de a Europa esquecer o boicote ao Irã, pelo menos enquanto prosseguirem as conversações entre as partes e, no mínimo, pelos próximos seis meses. Afinal, o pacote de sanções ultra debilitantes lá está e lá continua – e não há dúvidas de que está fazendo sofrer a população iraniana, muito mais do que a liderança em Teerã. 
A única coisa que importa ao Obama Team, acima de tudo no mundo, é garantir a vitória, dia 4/11. Essa diplomacia cheeseburger funcionará? Ou Mitt Romney contra-atacará, prometendo política de “nenhum bife abandonado na retaguarda”, com muito ketchup iraniano?

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
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Manifestantes do 'Occupy Wall Street' interrompem discurso de Obama




Os gritos dos manifestantes chamavam a atenção para os mais de 4 mil detidos nos protestos espalhados pelo país


Membros do movimento 'Occupy Wall Street' interromperam nesta terça-feira um discurso do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na cidade de Manchester, no estado de New Hampshire.
Os gritos dos manifestantes chamavam a atenção para os mais de 4 mil detidos nos protestos espalhados pelo país, e começaram assim que Obama iniciou seu discurso sobre seu plano de emprego, em uma escola de ensino médio. Em seguida, os estudantes que desejavam ouvir as palavras do presidente se opuseram aos manifestantes com gritos de 'Obama, Obama'.
Depois de alguns instantes, o presidente pediu ao grupo que se acalmasse. 'Aprecio o fato de vocês exporem seu ponto de vista. Deixem-me continuar e expor o meu', disse.
'Mais de 4 mil manifestantes pacíficos foram detidos, enquanto os banqueiros continuam a destruir a economia americana. É preciso deter o ataque aos direitos da primeira emenda. Seu silêncio (o do presidente) envia a mensagem de que a brutalidade policial é aceitável. Os bancos conseguiram ser resgatados, a nós, nos venderam', dizia um panfleto dos manifestantes, segundo a rede de televisão 'ABC News'.
Obama, que disse que o movimento 'Occupy Wall Street' representa as vozes de frustração generalizada da população com o sistema financeiro do país, mencionou os protestos em seu discurso.
'Muitas das pessoas que estiveram em Nova York e em todo o país com o movimento 'Occupy' têm um profundo sentimento de frustração pelo fato de que a essência do sonho americano parece estar escapando', disse Obama.




Informações: Reuters e Cuba Debate

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Vinte anos para mudar o mundo



Por Immanuel Wallerstein


Há uma década, quando eu e alguns outros falamos do declínio dos Estados Unidos no sistema-mundo, fomos recebidos no máximo com sorrisos de pena por nossa ingenuidade. Os EUA não eram o superpoder, envolvidos em cada canto remoto do planeta, capazes de obter o que queriam em quase todas as ocasiões? Essa era uma visão difundida em todo o cenário político.
Hoje, a visão de que os Estados Unidos declinaram, e declinaram seriamente, é uma banalidade. Todos dizem isso, com exceção de alguns políticos norte-americanos que temem ser culpados pela decadência, se a debaterem. O fato é que hoje quase todos acreditam na realidade desse declínio.
O que, entretanto, é muito menos discutido é quais foram, e quais serão as consequências mundiais desse fato. O declínio tem raízes econômicas, é claro. Mas a perda do quase-monopólio de poder geopolítico, que os Estados Unidos já exerceram, tem conseqüências políticas importantes em todo o mundo.
Vamos começar com uma história contada na seção de negócios do The New York Times em 7 de agosto. Um administrador de fortunas em Atlanta “apertou o botão de pânico” em nome de dois clientes ricos que o encarregaram de vender todas as ações e investir o dinheiro em algum fundo mútuo de alguma maneira isolado da crise. O administrador contou que, em 22 anos de trabalho, nunca tinha ouvido um pedido desses. “Isso não tem precedentes”. Os jornais chamaram a decisão de o equivalente de Wall Street ao “botão nuclear”. Foi algo inteiramente contra o conselho tradicional santificado, de “evitar o pânico” diante das turbulências do mercado.
A Standard & Poor`s reduziu o rating de crédito dos Estados Unidos de AAA para AA+, outro fato “inédito”. Mas isso é uma ação relativamente leve. A agência equivalente na China, Dagong, já reduziu a credibilidade dos Estados Unidos para A+ em novembro, e agora para A-. O economista peruano Oscar Ugarteche declarou que os Estados Unidos tornaram-se uma “república de bananas”. Ele diz que o país “escolheu a política da avestruz, como modo de não perder as esperanças [de melhora]”. Em Lima, nessa última semana, o encontro dos ministros de Finanças dos países sul-americanos discutiu medidas urgentes para isolar a região dos efeitos do declínio econômico dos Estados Unidos.
O problema que todos enfrentam é que é muito difícil isolar-se dos efeitos do declínio dos Estados Unidos. Apesar da severidade de seu declínio político e econômico, os Estados Unidos continuam um gigante no cenário mundial, e qualquer coisa que acontecer lá ainda provoca grandes ondas no resto do mundo.
É claro que o maior impacto do declínio é, e vai continuar sendo sentido, nos próprios Estados Unidos. Políticos e jornalistas estão falando abertamente da “disfuncionalidade” da situação política no país. Mas o que mais essa situação pode ser, além de disfuncional? O fato mais elementar é que os cidadãos dos Estados Unidos estão chocados pelo simples fato do declínio. Não é apenas que os estejam sofrendo materialmente com esse declínio, temam sofrer ainda mais, com o tempo. Eles acreditaram que os EUA eram a “nação escolhida”, designada por Deus ou pela história para ser um modelo para o mundo. E ainda ouvem o presidente Obama assegurar que seu país será sempre um “triplo A”.
O problema para Obama e para todos os políticos é que muito poucas pessoas ainda acreditam nisso. O choque para o orgulho e a auto-imagem nacional é formidável e além de tudo repentino. O país está lidando muito mal com ele. A população busca bodes espiatórios e esbraveja, de modo selvagem e pouco inteligente, contra os suspeitos de sempre. A última esperança parece ser a de descobrir que alguém é culpado e ver, como remédio, mudanças no comando.
Em geral, as autoridades federais são vistas como as mais fáceis de culpar – o presidente, o Congresso, os dois grandes partidos. Há uma tendência forte em direção a cortes no envolvimento militar fora dos Estados Unidos. Culpar o “povo de Washington” por tudo produz volatilidade política e disputas locais ainda mais violentas. Os EUA tornaram-se, eu diria, uma das entidades menos estáveis no sistema-mundo.
Isso torna EUA um país não apenas de disputas políticas disfuncionais, mas, além disso, pouco hábil para exercer poder real na cena internacional. Há uma grande queda na confiança nos Estados Unidos e seu presidente, entre grandes aliados no exterior e entre a própria base política interna do presidente. Os jornais estão cheios de análises sobre os erros políticos de Barack Obama. Quem pode argumentar contra isso? Eu poderia listar facilmente dezenas de decisões de Obama que, segundo meu ponto de vista, foram erradas, covardes e algumas vezes inteiramente imorais. Mas eu me pergunto se teria feito muita diferença, caso ele tivesse agido como sua base desejaria. O declínio dos Estados Unidos não é uma consequência de decisões medíocres de seu presidente, mas de realidades estruturais no sistema-mundo. Obama pode ser o indivíduo mais poderoso no mundo, mas nenhum presidente dos EUA é ou poderia ser hoje tão poderoso como os de antes.
Estamos entrando numa era de turbulências agudas, constantes e rápidas – nas taxas de câmbio, nas taxas de emprego, nas alianças geopolíticas, nas definições ideológicas da situação. A extensão e rapidez destas flutuações torna impossível fazer previsões de curto prazo. E sem alguma estabilidade razoável nas previsões de curto prazo (três anos, digamos), a economia-mundo estanca. Todos os países terão de ser mais protecionistas e voltados para dentro. Os padrões de vida vão cair. Não é um quadro agradável. E embora haja aspectos positivos para muitos, no declínio norte-americano, nada garante que, com os sacolejos do barco mundial, outros países possam tirar da nova situação o proveito que esperam.
É hora para análises muito mais sóbrias e de longo prazo, julgamentos morais muito mais claros sobre o que estas análises revelam, e ação política muito mais efetiva no esforço de criar, nos próximos 20 ou 30 anos, um sistema-mundo melhor do que aquele em que estamos hoje enrascados.


 Tradução: Daniela Frabasile
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Os Estados Unidos cansados de guerra



Por Immanuel Wallerstein

Os Estados Unidos estão atualmente envolvidos em três guerras no Oriente Médio – no Afeganistão, no Iraque e agora na Líbia. Mantêm bases militares em todo o mundo, em mais de 150 países. Têm relações tensas com a Coréia do Norte e com o Irã, e nunca descartaram a possibilidade de ação militar.

Quando começou, em 2002, a guerra do Afeganistão tinha grande apoio da opinião pública estadunidense e em outros países. A guerra no Iraque tinha quase o mesmo apoio da opinião pública norte-americana quando começou, em 2003, mas muito menos defensores em outros países. Agora, os Estados Unidos semi-envolvidos na Líbia. Menos da metade do público estadunidense é favorável, e há muita oposição no resto do mundo.
As pesquisas mais recentes nos EUA mostram oposição não apenas à operação na Líbia, mas também à permanência no Afeganistão. Os pesquisadores estão falando em "desgaste de guerra", tanto quanto possível, uma vez que é difícil argumentar que os Estados Unidos foram vitoriosos em algum desses conflitos.
O conflito na Líbia está indo em direção a um longo pântano. No Afeganistão, todos estão tentando imaginar uma solução política, o que significaria aceitar que o Talibã participe do governo e talvez mesmo controle sozinho o poder, em pouco tempo. No Iraque, os Estados Unidos planejam retirar suas tropas em 31 de dezembro. Ofereceram manter 20 mil soldados por mais tempo, contanto que o governo iraquiano solicite, e que faça isso logo. O primeiro ministro iraquiano Nouri al-Maliki pode estar tentado, mas o movimento liderado por Muqtaba al-Sadr [forte especialmente entre os xiitas pobres (nota da tradução)] afirma que, se ele o fizer, retirá seu apoio, e o governo cairá.
O mais interessante, no entanto, é o que pode acontecer na política interna dos Estados Unidos no ano que vem, frente a uma eleição presidencial. Desde 1945, o Partido Republicano planeja sua campanha como o partido que apoia fortemente o exército, e acusa o Partido Democrata de ser muito suave. Os democratas sempre reagiram procurando provar que não eram. Na prática não havia muita diferença nas políticas verdadeiramente executadas, qualquer que fosse o partido na presidência. De fato, as maiores guerras – Coréia e Vietnã – foram iniciadas com presidentes democratas.
O Partido Democrata sempre teve um grupo, considerado sua ala esquerda, mais crítico em relação a essas guerras, e esse grupo continua existindo e protestando. Porém, entre os políticos eleitos, esses democratas sempre foram minoria, e foram amplamente ignorados.
O Partido Republicano era mais unido em relação ao programa de apoio estável ao exército e às guerras. Raros políticos republicanos sustentavam visões diferentes. Eles vêm da ala ultra-liberais [orig: "libertarian"] do partido, e o político mais conhecida com essa visão foi o deputado Ron Paul, do Arizona. Ele também foi um dos poucos políticos a julgar que o apoio ilimitado dos Estados Unidos a Israel era uma má ideia.
No momento, é este o ponto em que estamos, na corrida presidencial. Barack Obama será o candidato democrata. Ele é incontestável no partido. O quadro no Partido Republicano é o oposto. Existem dez ou doze pré-candidados, e nenhum deles é claramente o favorito. A corrida dentro do partido está totalmente em aberto.
O que isso significa para a política externa? Ron Paul busca a nomeação. Em 2008, ele quase não teve apoio. Agora, sua campanha vai melhor. Isso se deve, em parte, à posição forte quanto às políticas fiscais, mas suas posições em relação à guerra estão chamando atenção. Além disso, um novo candidato entrou na disputa. Ele é Gary Johnson, ex-governador republicano do Novo México. Também é ultra-liberais, e tem visões ainda mais fortes que Paul em relação à guerra. Johnson pede retirada total e imediata do Afeganistão, do Iraque e da Líbia.
Dado o amplo apoio de vários potenciais candidatos, certamente haverá programas de TV em que todos os candidatos republicanos irão falar e debater. Se Johnson fizer de sua opinião sobre a guerra o grande argumento da campanha, isso assegurará que todos os candidatos republicanos terão que abordá-la.
Quando isso acontecer, descobriremos que o chamado Tea Party republicano está profundamente dividido na questão do envolvimento nas guerras. Subitamente, todo o país estará debatendo essa questão. Barack Obama descobrirá que a posição de centro, que está tentando manter, moveu-se de repente para a esquerda. Para permanecer ao centro, ele também terá que caminhar à esquerda.
Esse será um importante ponto de virada na políticas dos Estados Unidos. A ideia de que tropas devem retornar se tornará uma grande possibilidade. Alguns irão se irritar, porque os Estados Unidos estarão exibindo fraqueza. E de certo modo, isso será verdade. É parte do declínio dos Estados Unidos. Irá lembrar aos políticos estadunidenses, no entanto, que entrar em guerras exige grande apoio da opinião pública. E nessa combinação de pressões geopolíticas e econômicas que todos sentem, o "cansaço de guerra" é um grave fator a partir de agora.

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Bin Laden e a última aventura do Super Homem





Por Ariel Dorfman

Pode ser uma suprema coincidência? Ou por acaso tem gato – ou super herói – nesta tuba?

Para entender por que agora, justamente agora, nesta data entre todas as outras possíveis, decidiu-se realizar o “justiçamento” de Bin Laden, talvez seja necessário vincular sua morte repentina e desejada com dois acontecimentos aparentemente desconectados que surgiram na semana passada.

O primeiro, que causou entre os fanáticos da guerra entre o bem e o mal quase tanta consternação como o assassinato do funesto e lúgubre chefe da Al Qaeda, ainda que menos júbilo, foi o anúncio do Super Homem (na história n° 900 do aniversário que celebra suas peripécias) de que pensava ir às Nações Unidas para renunciar à cidadania norteamericana (veja mais aqui). O Homem de Aço que, desde sua primeira aparição inaugural na revista Action, em junho de 1938, veste-se com as cores da bandeira estadunidense e age em nome dos valores norteamericanos, chegou a essa decisão tão drástica depois de sofrer críticas do encarregado de segurança do governo estadunidense (um homem negro parecido com Colin Powell) por ter voado até Teerã para demonstrar, durante 24 horas, sua solidariedade com os manifestantes da Revolução Verde que protestavam contra o despotismo de Ahmadinejad e seus partidários.

O governo do Irã (na história em quadrinhos, é claro, já que duvido que os aiatolás reais se dediquem a ler dissimuladamente as aventuras de Superman) denunciou esse ato – por silencioso que fosse e motivado pela não violência – como uma ingerência do Grande Satã em seus assuntos internos, quase como uma declaração de guerra. Os autocratas do Irã me desagradam muito, mas não se objetar sua lógica de aceitar as palavras do próprio Homem de Aço que encarna há décadas o conjunto “truth, justice and the American way” (verdade, justiça e o modo americano de vida). De modo que o Super Homem, para poder agir daqui em diante para além das fronteiras nacionais e os interesses circunstanciais de qualquer Estado, se viu obrigado a estabelecer sua independência frente a seu país adotivo. Porque, de fato, o Super Homem não nasceu nos Estados Unidos, mas sim no planeta Krypton, chegando bebê (sem passar por aduanas nem imigração) ao Kansas em uma pequena nave espacial, sendo acolhido neste território, no centro dos EUA, pelos Kent, fazendeiros que personificam personificam precisamente o “american way”. Era Ka-El. Virou Clark Kent.

É difícil exagerar a indignação com que este ato audacioso de renunciar à cidadania, esta “bofetada” do Superman, foi recebida pelo povo norteamericano. Eu li blogueiros defendendo seriamente que o novo campeão do internacionalismo fosse deportado para seu planeta de origem (como se fosse um mexicano ilegal), e já circula um abaixo assinado para que os executivos da Time Warner (donos da empresa que comercializa o Super Homem) forcem os autores da história a se retratar. Além disso, vários comentaristas conservadores viram esse insulto do super herói como a prova definitiva da decadência do país mais poderoso da terra: até o ídolo que representa mais universalmente nosso modo de vida está nos dando as costas!.

Não sei se o presidente Obama segue atentamente as aventuras do Super Homem (sabe-se que é um fã do Homem Aranha, de cuja origem nova-iorquina não cabem dúvidas), mas alguém deve ter chamado a sua atenção sobre a perda de prestígio que significa a deserção de um tal titã. O que acontece, por exemplo, se o Homem de Aço, guia dos despossuídos, decide fechar Guantánamo ou usar seus olhos de raios X para liberar alguns Super Wikileaks, agora que já deve lealdade à bandeira norteamericana? O que acontece se ele se põe a serviço de uma potência como a China? – ainda que, pensando bem, não haja muita Verdade ou Justiça neste país, de modo que ele seguramente não aceitaria esse tipo de aliança. Em todo o caso, os conselheiros de Obama devem ter lhe explicado que a defecção de Super Homem deveria ser tratada como uma imensa crise cultural e ideológica que inclusive poderia custar a reeleição ao presidente, uma vez que os republicanos já cozinhavam planos para acusá-lo de ter “perdido” o Super Homem (como ocorreu com Cuba ou Vietnã).

A resposta de Obama foi genial: ao matar Bin Laden, provava que os EUA não necessitava de um homem musculoso que voa e atravessa paredes para defender-se dos terroristas, pois, para isso, tem helicópteros e tropas especiais como os Seals, computadores e armas – como que não – de aço. Um modo de restaurar a confiança nacional que estava machucada e que dificilmente poderia tolerar outro menosprezo à sua auréola.

É claro que, antes de poder realizar aquela operação no Paquistão, Obama tinha que acertar outro assunto, um problema que o rondava há vários anos. Como iria apresentar-se perante o mundo e anunciar o assassinato de Bin Laden em nome dos Estados Unidos se uma insólita porcentagem de seu próprio povo duvidada que seu presidente era, de fato, norteamericano? Como criar o contraste com o trânsfuga Super Homem se Obama mesmo era acusado de ter nascido no estrangeiro, no Quênia, que, como se sabe, está muito mais longe do Kansas do que o planeta Krypton, por mais que os três lugares compartilhem a kafkiana letra K?

Isso levou Obama a divulgar, há alguns dias, sua certidão de nascimento, tapando a boca daqueles que o apontavam como um “alien” (alheio, estrangeiro, mas também extraterrestre, outro significativo paralelo entre o presidente e o super herói). Por certo que um conjunto de seus concidadãos segue acreditando que Obama não nasceu em território norteamericano. Insistem que o documento foi flasificado, que o hospital foi subornado e que a mãe (nascida originalmente nada mais nada menos que no Kansas) trouxe o menino de contrabando para o Wawaí, porque sabia que, dali a quarenta e tantos anos, aquele menino mulato seria presidente. Creio que a única maneira desses recalcitrantes aceitarem que Obama nasceu nos EUA seria ele branquear inteiramente a cara e toda a pele. Aí ele já não seria mais um “alien”.

Mas, para a maioria de seus compatriotas, Obama conseguiu em uma semana uma verdadeira e tripla proeza. Ao provar que era um presidente legítimo, pode, armado de seu certificado de nascimento e também do exército mais poderoso do globo, eliminar o sinistro inimigo número um dos Estados Unidos. E sem precisar da intervenção do Super Homem.

E agora?

Agora, proponho uma façanha de verdade: já que a razão pela qual Bush invadiu o Afeganistão era o apoio que os talibãs ofereciam a Bin Laden, não chegou o momento de retirar todas as forças norte-americanas desse país de montanhas e guerrilhas?

Estou seguro que o Super Homem, em parceria com as Nações Unidas e esgrimindo seu novo passaporte cosmopolita e global, ficaria feliz em ajudar no transporte rápido das tropas. Seria bonito vermos isso nas próximas aventuras do Homem de Aço, seria alentador que Obama e o Superman – ambos com suas origens no Kansas, ambos menosprezados por serem “estrangeiros” – colaborassem para criar pelo menos um pequeno oásis de paz no mundo onde infelizmente escasseiam hoje tanto a verdade como a justiça.

(*) Ariel Dorfman é escritor. Seu romance mais recente é “Americanos: Los passos de Murieta”.

Tradução: Katarina Peixoto

O videogame da morte: Obama assiste ao vivo a execução de Bin Laden


Por Brizola Neto


É estarrecedora a divulgação desta foto, pela Casa Branca, da foto de Barack Obama e seus auxiliares assistindo, ao vivo, a execução de Osama Bin Laden.
Foi uma execução – e os próprios americanos admitiram isso -  porque o objetivo era matar, não prender.
Se o quisessem prender, bastaria cercar a casa onde ele estava acuado, a 200 metros de uma academia militar paquistanesa. Não haveria rota de fuga, nem mesmo um túnel que os sensores ultramodernos dos americanos não fosse capaz de detectar.
Medo de que Obama se explodisse e não houvesse um cadáver para exibir? Um cadáver é tudo o que os americanos não queriam, tanto que há esta história marota do “enterro no mar”.
A execução foi transmitida ao vivo, pessoalmente, para o Presidente dos EUA.
Qual a finalidade? Ele ia dar ordens, orientações, comandos aos militares  que estavam na operação? “Vai por ali, Jack, dê cobertura a ele, John”?
Nem isso, como  seria num videogame, onde soldados virtuais eliminam terroristas virtuais.
O homem que lidera a Nação mais poderosa do mundo, que tem os códigos para acionar uma maleta que dispara centenas de mísseis nucleares, não pode se prestar ao papel de platéia de um assassinato, independentemente de que a vítima seja um terrorista.
Osama Bin Laden deve ter assistido ao vivo os aviões que mandou jogar sobre as Torres Gêmeas.
E talvez tenha dito, em árabe, o “Nós o pegamos” que o assessor de segurança John Brennan atribuiu a Barack Obama, ao consumar-se o objetivo de matar.
Quando os fins justificam os meios, e não resta sequer o gesto piedoso de baixar os olhos diante da morte de alguém, é que a nossa grandeza já se foi.


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Obama e o espetáculo da mesmice


Por Antonio Lassance

O assassinato de Osama Bin-Laden foi planejado há quase uma semana, quando já havia informações seguras do paradeiro do terrorista saudita que aprendeu muito do que sabia, em termos militares, graças ao treinamento que recebeu da CIA, quando era um guerrilheiro lutando no Afeganistão ao lado dos Mujahideen, contra a ocupação soviética.

Após um “breaking news” (“notícia de última hora”) da TV comercial mais oficial do Planeta, a CNN (a preferida por Obama, que trava guerra com a a emissora rival, Fox News, reduto da ultradireita), seguiu-se um imediato pronunciamento do Presidente. Poucas horas depois, o corpo do terrorista já estava debaixo d’água.

O furor causado pela morte de Bin Laden pode ofuscar o essencial: trata-se apenas de mais um ponto na longa lista de tarefas que Obama herdou da agenda republicana, e que a tem cumprido de bom grado.

Analistas de todas as áreas de políticas públicas apontam para a falta de uma agenda distinta, do governo Obama, capaz de honrar o compromisso de mudança apregoado em 2008. Paul Krugman, economista laureado com o Nobel, desde 2009 reclama da obsessão do atual governo com o tamanho do déficit público, a seu ver, exagerada, contraproducente e inadministrável no curto prazo. Não que a dívida não seja grande, mas em 2009 e 2010 ela esteve longe de ser o principal problema, diante da crise que se atravessava e suas consequências mais graves, como o desemprego em massa e o aumento extraordinário da pobreza naquele país.

Mesmo em termos da regulação econômica sobre o mercado financeiro se fez pouco. Apesar de toda a ousadia do discurso de campanha, feito sob medida para Obama conquistar fatias do eleitorado desesperadas com a crise, o que se fez saiu a fórceps, sob pressão da opinião pública. Há indícios de que o mercado financeiro continua cheio de novidades vendidas com a promessa de ganhos fáceis e rápidos.

Na saúde, sua reforma aprovada é um avanço em relação ao governo Bush, mas, cá entre nós, se Obama estivesse em coma, já estaria em vantagem quanto a Bush. O plano de saúde organizado pelo Governo Federal funciona com base nas mesmas regras do sistema privado. O cidadão norte-americano passa agora a ser obrigado a ter um plano de saúde, quer queira, quer não, e terá auxílios ou descontos no imposto de renda para mantê-los. A obrigação é fixa. O apoio do governo, variável, conforme o presidente de plantão.

Parece ótimo quando se vê que o custeio desta ampliação da cobertura de saúde está previsto para ser feito com impostos sobre “os mais ricos”. Mais os ainda mais ricos podem se beneficiar bastante. Lembre-se que a General Motors, um dos símbolos da crise recente, gasta mais com planos de saúde para seus funcionários do que com a compra de chapas metálicas para a fabricação de seus carros. A questão mais importante, que é a ausência de um sistema público de saúde, continua fora do debate.

Na educação, meio-ambiente, energia, dentre tantas outras, Obama tem seguido duas estratégias fundamentais. A primeira é priorizar agendas que por lá são chamadas de “bipartidárias”, ou seja, que podem contar com apoio também dos republicanos. A segunda, mesmo quando não há consenso, é enfrentar o debate com os conservadores com argumentos feitos para liberal algum botar defeito, ou seja, utilizando-se de soluções orientadas pelo mercado.

Com isso, Obama tem aprofundado uma tendência crucial no quadro político dos EUA. Os republicanos, para se diferenciarem, tornam-se cada vez mais ultradireitistas, ultraelitistas, ultramoralistas, ultranacionalistas e mais uma série de atributos começados com “ultra” e terminado com “istas”.

O partido se apegou aos extremamente ricos, que financiam o núcleo duro do movimento de ultradireita (“Tea Party”), e à classe média alta, que está insatisfeita em ter que pagar as cortesias feitas por Obama. Os republicanos têm se valido inclusive da ajuda de empresas que intimidam seus empregados a votarem em candidatos por ela indicados, como recentemente a revista “The Nation” reportou, em acusação às Indústrias Koch .

Os Democratas se fixam na classe média que luta para se manter enquanto tal, ou na ex-classe média, que viu sua renda despencar e quer retornar à posição que ostentava antes da crise. Tudo isso sem desagradar aos muito ricos que financiam suas campanhas eleitorais. Tornaram-se, como se tem dito, republicanos moderados, cumpridores da agenda que seus adversários deixaram pelo meio do caminho.

O debate político gira em torno de quem consegue fazer mais do mesmo.

Neste sentido, Obama acaba de ganhar um belo troféu no quesito “guerra ao terror”, com a morte de Bin Laden. O alerta sobre possíveis atentados que se podem seguir recoloca o tema no centro das preocupações dos americanos, o que minimiza os resultados pífios da administração Obama em várias áreas. E tudo aconteceu no momento certo para aumentar o favoritismo do presidente para as próximas eleições. Tudo com uma ajuda involuntária dos candidatos da oposição, que são pouco competitivos, se metem em encrencas banais, e seu discurso muitas vezes assusta, de tão raivoso.

Ou seja, tudo vai bem no país onde esquecer o povão é, há muitos anos, o principal programa de governo de ambos os partidos.

Antonio Lassance é pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e professor de Ciência Política. As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente opiniões do Instituto.