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Gastos milionários no futebol espanhol são questionados


Mesmo mergulhada em profunda crise econômica, a Espanha é a recordista deste ano em compra e venda de jogadores de futebol, segundo o Football Transfer Review 2014, estudo feito pela consultoria esportiva Prime Time Sport e divulgado recentemente.

De acordo com o estudo, os clubes da La Liga, como é conhecida a primeira divisão do campeonato espanhol, triplicaram o investimento em contratações de jogadores (388 milhões de euros, ou R$ 1,1 bilhão) em relação à temporada passada e bateram o recorde histórico de vendas (480 milhões de euros, ou R$ 1,4 bilhão).

Essas cifras foram atingidas graças, principalmente, à contratação do jogador galês Gareth Bale (foto acima) pelo Real Madri, comprado do clube inglês Tottenham Hotspur por 101 milhões de euros (R$ 305 milhões) a transferência mais cara da história do futebol.

Europeus colocam em risco vida de Evo Morales


A covardia europeia contra o presidente Evo Morales

Por Eduardo Febbro

Os europeus são incorrigíveis. Para não ficar mal com o império norteamericano são capazes de violar todos os princípios que defendem nos fóruns internacionais. O presidente boliviano Evo Morales foi o último a experimentar as consequências dessa política de palavras solidárias e gestos mesquinhos. Um rumor infundado sobre a presença no avião presidencial boliviano do ex-membro da Agência Nacional de Segurança (NSA) norteamericana, o estadunidense Edward Snowden, conduziu a um sério incidente diplomático aeronáutico entre Bolívia, França, Portugal e Espanha. 

Voltando de Moscou, onde havia participado da segunda cúpula de países exportadores de gás, realizada na capital russa, Morales se viu forçado a aterrissar no aeroporto de Viena depois que França, Portugal e Espanha negaram permissão para que seu avião fizesse uma escala técnica ou sobrevoasse seus espaços aéreos. Os “amigos” do governo norteamericano avisaram os europeus que Morales trazia no avião Edward Snowden, o homem que revelou como Washington, por meio de vários sistemas sofisticados e ilegais, espionava as conversações telefônicas e as mensagens de internet da maioria do planeta, inclusive da ONU e da União Europeia.

O certo é que Edward Snowden não estava no avião de Evo Morales. No entanto, ante a negativa dos países citados em autorizar o sobrevoo do avião presidencial, Morales fez uma escala forçada na Áustria. As capitais europeias coordenaram muito bem suas ações conjuntas para cortar a rota de Evo Morales. Surpreende a eficácia e a rapidez com que atuaram, tão diferente das demoradas medidas que tomam quando se trata de perseguir mafiosos, traficantes de ouro, financistas corruptos ou ladrões do sistema financeiro internacional.


Espanha não permite que alguém se chame Lenine



Se o cantor brasileiro Lenine (que se chama Osvaldo Lenine Macedo Pimentel) se naturalizasse espanhol, teria de mudar de nome. É que o Registo Civil do país vizinho não está a aceitar que os sul-americanos cujo nome próprio é o mesmo do líder da Revolução Russa de 1917 o mantenham ao se naturalizarem. São forçados a mudá-lo. Gaspar Llamazares, deputado da Esquerda Unida, quis saber porquê e perguntou ao governo. A resposta foi, no mínimo, curiosa.
O governo de Madrid afirma que “Lenine”, no “sentir popular”, é considerado um apelido, e por isso dá direito a confusões quando é usado como nome próprio. Ora acontece que Lenine não era o nome próprio do revolucionário russo, mas sim o seu pseudónimo.
Vladimir Ilich é permitido
Mas a argumentação do governo continua inabalável: “Esta doutrina [a de que um nome não pode se confundir com um apelido] – estende-se por identidade de razão aos casos onde o nome pretendido se identifica com um pseudónimo que para o sentir popular se pode entender como apelido – independentemente de que o personagem em concreto ostentasse esse pseudónimo”.
O governo argumenta que seria diferente se o que fosse tomado do personagem histórico fosse o seu nome próprio; nesse caso, não haveria nada a objetar. Isto é: a pessoa pode chamar-se Vladimir Ilich Macedo Pimentel, mas não Osvaldo Lenine Macedo Pimentel – para retomar o caso do famoso músico brasileiro.
O mais curioso é que desde 1977 a lei estabeleceu a liberdade de uso de nomes, apenas com o limite do bom senso: “o respeito à dignidade da própria pessoa”. Também estão proibidos os nomes que induzam a confusão quanto ao sexo do bebé; é igualmente proibido pôr o mesmo nome a dois irmãos e são vetados os nomes que tornem confusa a identificação. É a esta última limitação que o governo recorre para proibir o nome Lenine.
Fonte: Esquerda.net
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As lições de Guernica 75 anos depois


Por Amy Goodman


Há 75 anos, a cidade basca de Guernica foi bombardeada e ficou reduzida a escombros. Esse ato brutal inspirou a um dos maiores artistas do mundo a realizar uma pintura para a qual dedicou três semanas de trabalho frenético. Em um óleo de 3,50X7,80 metros, “Guernica”, de Pablo Picasso, mostra de maneira crua os horrores da guerra, refletidos nos rostos das pessoas e dos animais. Não foi o pior ataque da Guerra Civil Espanhola; porém, converteu-se no mais famoso graças ao poder da arte. O impacto de milhares de bombas lançadas sobre Guernica, do fogo das metralhadoras disparadas das aeronaves contra os civis que tentavam fugir do inferno podem ser sentidos até hoje através dos sobreviventes que partilham com entusiasmo suas recordações e também nos jovens de Guernica, que lutam para forjar um futuro para sua cidade, algo distante de sua dolorosa história.


A Legião Condor da Luftwaffe (a Força Aérea Alemã durante a Alemanha nazista) realizou o bombardeio a pedido do General Francisco Franco, que encabeçava uma rebelião militar contra o governo democraticamente eleito da Espanha. Franco procurou a ajuda de Adolf Hitler e de Benito Mussolini, que estavam muito entusiasmados em pôr em prática as modernas técnicas de guerra contra os indefesos cidadãos espanhóis. O ataque contra Guernica foi a primeira vez na história europeia que uma cidade civil foi completamente destruída por um bombardeio aéreo. Apesar de que as casas e as lojas foram destruídas, várias fábricas de armas, uma ponte de importância chave e as linhas férreas ficaram intactos.
Ativo e lúcido aos 89 anos de idade, Luis Iriondo Aurtenetxea sentou-se junto a mim no escritório da organização Gernika Gogoratuz, que, em basco, significa “Recordar a Guernica”. O basco é um idioma antigo e um elemento fundamental da férrea independência do povo basco, que vive há milhares de anos na região fronteiriça entre a Espanha e a França.
Quando Guernica foi bombardeada, Luís tinha 14 anos e trabalhava como assistente em um banco local. Era dia de mercado, pelo que todo o mundo estava na cidade; a praça do mercado estava repleta de gente e de animais. O bombardeio começou às 16:30 horas do dia 26 de abril de 1937. Luís recorda: “Não terminava nunca. O bombardeio continuava e continuava. Umas três horas e meia de bombardeio. Quando terminou, saí do refúgio e todo o povoado estava ardendo; tudo em chamas”.
Luis e outras pessoas fugiram para o povoado vizinho, Lumo, em cima da colina, de onde, ao cair da noite, viram como sua cidade natal queimava e suas casas eram destruídas pelas chamas. Alguém deixou que dormissem em um celeiro. Luís continuou: “À meia-noite, mas não sei bem que horas eram, pois não tinha relógio… algo me despertou. Ouvi que me chamavam. E fui até a porta que dava para a praça e vi a silhueta de minha mãe. Ao fundo, se via Guernica ardendo. Vi minha mãe, que havia encontrado aos outros três filhos (éramos quaro irmãos) e agora me encontrava”. Luís e sua família foram refugiados de guerra durante muitos anos e, finalmente, regressaram a Guernica onde, da mesma forma que Pablo Picasso em Paris, Luis vive e trabalha como pintor.
Luís me levou ao seu estúdio, cujas paredes estão cobertas por pinturas. A que mais se destaca é a que fez sobre aquele momento em Lumo, quando sua mãe o encontrou. Perguntei-lhe como tinha se sentido naquele momento. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Pediu desculpas e disse que não podia falar sobre isso. A umas quadras do estúdio de Luís, encontra-se uma das fábricas de armas que ficou intacta após a destruição: uma planta denominada edifício Astra onde armas químicas e pistolas eram fabricadas. Astra se mudou, mas a empresa de amas continua tendo vínculos com a cidade, já que várias de suas armas automáticas levam o nome de “Guernica” e, segundo indica a empresa, estão “desenhadas por guerreiros, para guerreiros”.
Há alguns anos, um grupo de jovens ocupou a planta abandonada para exigir que fosse transformada em centro cultural. Oier Plaza é um jovem artista de Guernica. De pé, junto à planta, me disse: “Em princípio, a polícia nos expulsou; porém, voltamos a ocupá-la. Finalmente, a prefeitura comprou o edifício, em seguida, começamos esse processo de recuperá-lo para criar o projeto Astra”.
O objetivo do projeto Astra é converter essa fábrica de armas em um centro cultural onde sejam ministrados cursos de arte, vídeo e meios audiovisuais em geral. “Creio que devemos olhar o passado para poder compreender o presente e, se entendemos o presente, poderemos criar um futuro melhor. E creio que Astra é aprte desse processo: faz parte do passado, do presente e do futuro dessa cidade”.
A partir do “Guernica” de Picasso, o autorretrato de Luís Iriondo Aurtenetxa junto à sua mãe, passando pela iniciativa de Oier Plaza e seus jovens amigos, o poder da arte de converter espadas em arados e de resistir à guerra renova-se constantemente.
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A falência da Espanha e seus disfarces


Por Maurício Caleiro



A Espanha quebrou, faliu. Este é o fato, a terrível realidade que se esconde por detrás de uma operação discursiva que lança mão de termos amenos, humanistas e solidários como “ajuda”, “resgate” e “operação de salvamento”. 

Trata-se, na verdade, de uma intervenção na economia e na soberania espanholas, para benefício do mercado financeiro e com duras consequências para a população. 


Rajoy questionado
Tendo imposto suas demandas ao governo do conservador Mariano Rajoy sob sua relutância apenas aparente, a batalha que os arautos do neoliberalismo ora travam é de ordem discursiva: em primeiro lugar, trata-se de convencer os espanhóis que é não apenas aceitável, mas para seu próprio bem desejável que paguem, com carestia, desemprego, cortes nos salários, nas aposentadorias e no acesso a saúde e educação – em suma, com o que resta do Estado de bem-estar social à europeia – as dezenas (talvez centenas) de bilhões de euros que serão utilizadas para tirar as instituições financeiras do buraco por elas mesmas cavado.

A julgar pelas reportagens na imprensa espanhola, agora está ficando claro para muitos de seus ingênuos eleitores que Rajoy - que há dez dias declarou taxativamente que não haveria resgate aos bancos - mentiu. E, a bem da verdade, continua a fazê-lo, já que é lugar-comum entre economistas que cem bilhões de euros são um mero paliativo, e que o setor financeiro, com as cartas na mão, demandará de quatro a oito vezes esse valor para cobrir seus rombos - com a imposição dos cortes sociais correspondentes.
Consequências psicológicas
“A intervenção é um golpe psicológico que constitui um marco na história de nossas relações com a Europa. Em um país onde a identidade nacional e os sentimentos de autoestima coletiva têm estado sempre tão estreitamente vinculados aos feitos alcançados no âmbito europeu, custa crer que tenhamos chegado a este ponto. Entender como e por quê e o que ocorrerá a partir de agora mostra-se imprescindível”, aquiesce uma voz favorável ao "resgate".

Desse quadro decorre um segundo movimento da citada operação discursiva, desta feita para salvaguardar o orgulho nacional, que a menção à condição de quarta economia da Europa costuma alimentar. Nela pontifica, de novo, a promoção do contorcionismo verbal à maneira do 1984, de Orwell, com a adoção de uma novilíngua em que a tragédia torna-se pacto social; a bancarrota, ajuste mercadológico; a humilhação à soberania nacional, solução negociada com os parceiros de bloco.

Nós, latino-americanos, já vimos algumas vezes esse filme, porém em versões em preto e branco, do final do século passado. Trata-se, com o perdão pela redundância, de uma chanchada de má qualidade, protagonizada por canastrões, com um roteiro que tem sérios problemas de verossimilhança e, pior, não tem final feliz: os vilões vencem.


Espanha x Argentina
Essa autorreferência ao nosso continente nos leva ao terceiro movimento da estratégia discursiva neoliberal acima aludida, desta feita de caráter eurocêntrico e, naturalmente, pró-mercado, facilmente identificável no discurso da mídia brasileira relativo à crise espanhola: “Quando o resgate era de pais da periferia, a mídia chamava de falência, quebra. Quando é no centro: resgate, apoio, empréstimo. Ajuda”, resume o professor Emir Sader, em seu Twitter.

Convido os(as) leitores(as) a compararem o tratamento que essa mesma mídia deu ao default argentino – que se recusou a seguir as imposições do sistema financeiro internacional - e o enfoque que ora dispensa à quebra da Espanha – que segue à risca o que manda a Troika. Recomenda-se, ainda, daqui a algum tempo, quando tivermos elementos sobre os desdobramentos da obediência espanhola à banca, que também se leve em conta, nessa comparação, a situação do país ibérico e a da Argentina – que, malgrado todas as ameaças de danação eterna a que fatalmente estava condenada por ousar enfrentar a cartolagem, tem apresentado, sob um governo de centro-esquerda, um desempenho econômico superlativo em meio à crise. 
Confusão conceitual
A persistência do neoliberalismo como modelo orientador das políticas econômicas da Zona do Euro - agravadas por sua prescrição como antídoto que só faz agravar sua maior crise, como se vê na Espanha - nos fornece a medida do quanto a constituição de blocos econômicos transnacionais, apregoada como imprescindível à sobrevivência na globalização, acabou por constituir-se em um fator determinante na submissão dos estados nacionais aos ditames do mercado financeiro.

No âmago de tal problema está uma confusão conceitual, intencionalmente inoculada pelos arautos do neoliberalismo quando da ascensão histórica deste, ao longo dos anos 80, sob os  os eflúvios de Thatcher e Reagan: a concepção de globalização e neoliberalismo como termos indissociáveis e, em larga medida, intercambiáveis, marcados por uma relação pela qual a primeira, por seu caráter estruturante, imporia a adoção de políticas econômicas nos moldes ditados pelo segundo, sob a ameaça de expulsão da então chamada “nova ordem mundial” e decorrente aniquilamento do país enquanto ente autônomo.

Essa confusão e essa crença são um lugar-comum na reflexão teórica sobre o período, levada a cabo inclusive por pensadores que continuam na linha de frente da crítica socioeconômica. É notável, no entanto, que tanto intelectuais brasileiros como Octávio Ianni e Milton Santos quanto uma certa tendência do pensamento franco-europeu agrupada em torno do Le Monde Diplomatique tenham desde sempre, em sua maioria, recusado a aferrar-se ao determinismo teórico do período. 


O retorno da soberania
Este, embora falho, é até certo ponto compreensível, posto que tardiamente desmentido factualmente. Pois, a rigor, a constatação de que a morte do Estado nacional era uma balela e que havia possibilidade de as nações, enquanto ente socioeconômico, sobreviverem – com crescimento, inclusão social e um Estado fortalecido, atuante e que conservasse um bom grau de independência a despeito da interdependência da economia global– só tem lugar com a ascensão e o sucesso das administrações de Lula, Chávez, Kirchner, Morales, Corea, entre outros - e, em alguns casos, de seus sucessores.

Assim, ainda que devamos ter muito claros a persistência insidiosa do poder neoliberal sobre tais administrações e os limites e eventuais equívocos e desacertos destas – como a insensibilidade do governo de Dilma Rousseff para com as demandas do funcionalismo público, que ora fornece um dentre tantos exemplos possíveis -, é preciso atentar com limpidez para as conquistas e as possibilidades propiciadas pelo realinhamento político-ideológico promovido pela democracia brasileira na última década -e lutar para efetivá-las e ampliá-las.

O povo espanhol, por sua vez, já promete voltar a tomar as ruas e a Puerta del Sol, em protesto. Suerte.
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Federico Garcia Lorca

Federico García Lorca em 1925, em foto de Luis Buñuel.

Federico Garcia Lorca nasceu na região de Granada, na Espanha, em 05 de junho de 1898, e faleceu nos arredores de Granada no dia 19 de agosto de 1936, assassinado pelos "Nacionalistas". Nessa ocasião o general Franco dava início à guerra civil espanhola. Apesar de nunca ter sido comunista - apenas um socialista convicto que havia tomado posição a favor da República - Lorca, então com 38 anos, foi preso por um deputado católico direitista que justificou sua prisão sob a alegação de que ele era "mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver." Avesso à violência, o poeta, como homossexual que era, sabia muito bem o quanto era doloroso sentir-se ameaçado e perseguido. Nessa época, suas peças teatrais "A casa de Bernarda Alba", "Yerma", "Bodas de sangue", "Dona Rosita, a solteira" e outras, eram encenadas com sucesso. Sua execução, com um tiro na nuca, teve repercussão mundial.

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Espanha e seu rei matador de elefantes


A Espanha enfrenta uma profunda crise financeira sem perspectivas de solução a curto prazo. O governo conservador tem adotado políticas que devem agravar ainda mais a situação de regressão social que vive o povo espanhol. É com este pano de fundo que causa surpresa o último feito do  rei da Espanha, Juan Carlos. O monarca viajou para a Botsuana, na África, onde caçou elefantes a tiro de espingarda, com direito a foto onde posa orgulhoso de seu feito.
A figura do rei é, por si só, anacrônica. Um resquício medieval que persiste na Espanha. A Espanha, que exportou a "civilização" para as Américas (a custa de sangue, suor e ouro dos povos indígenas) parou no tempo. Pela sua atitude, o rei deve julgar-se que é um eleito de Deus, acima dos demais mortais. Seus histórico recente atestam isso. Em outubro de 2004 o sujeito-divino espanhol já havia indignado os ativistas ambientais depois de matar nove ursos (um dos quais era uma fêmea grávida), na Romênia. Em agosto de 2006, Juan Carlos caçou completamente embriagado na Rússia, segundo informaram autoridades russas.
Este tiro que o rei-divino espanhol disparou contra este elefante pode ter sido mais um tiro a abalar a frágil e combalida legitimidade da monarquia espanhola.
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2011: o ano da rebeldia global



Por Erick da Silva


Se pudéssemos resumir o ano de 2011 a uma única palavra, ela seria protesto. Não houve lugar no mundo que os protestos não se fizeram ecoar. As mobilizações foram uma resposta dos povos a crise econômica iniciada em 2008. Crise que prolonga-se com um final incerto.
A crise não foi um evento “inexplicável”, mas sim resultado do esgotamento do sistema econômico vigente. O neoliberalismo acelerou um processo de desregulamentação do sistema financeiro e de assombrosa concentração de riqueza. Hoje, os vinte maiores bancos do mundo entrelaçam o mercado global formando um poder financeiro superior ao de dezenas de países. As dez maiores empresas gestoras de fundos de investimentos controlam a assombrosa soma de US$ 17,4 trilhões, uma riqueza 20% superior ao PIB dos EUA e cerca de oito vezes a do Brasil.
O foco gerador da crise segue intocável até o momento, a incapacidade de respostas efetivas aos cruéis efeitos da crise tem colocado os países ricos em um verdadeiro “beco sem saída”. Os protestos ao redor de todo o mundo, tendo a juventude a frente, recolocaram a perspectiva de mudanças na agenda política, fugindo a simples "gestão da crise" que os governos dos países ricos tem adotado. O grito por mudanças coloca-se como um imperativo necessário.
A “Primavera Árabe”, derrubando as ditaduras de Ben Ali na Tunísia e Hosni Mubarak no Egito, serviram como um vitorioso exemplo que espalhou-se por um conjunto de países do norte da África e do Oriente Médio. Em Madrid, uma multidão de “indignados” ocupou o centro da capital espanhola, a Porta do Sol, e rapidamente espalhou-se por outras cidades, causando um profundo impacto na conjuntura política da Espanha. 
A Europa, em profunda crise econômica, virou um grande turbilhão de manifestações de rua contra este estado coisas. A mobilização em rede, tendo o auxílio da internet (redes sociais, blogs, sites, etc.), como elemento de divulgação e organização das ações foram um elemento inovador. Não mudaram apenas a capacidade de comunicação entre os diferentes indignados de todos a Europa, mas foram uma resposta a crise da própria esquerda europeia. Partidos sociais-democratas e socialistas europeus, diretamente responsáveis pelo atual estado de coisas, encontram-se em um estado de esgotamento político.
Como bem apontou Vladimir Safatle, "em Túnis, Cairo, Tel Aviv, Santiago, Madri, Roma, Atenas, Londres e, agora, Nova York, eles foram às ruas levantar pautas extremamente precisas e conscientes: o esgotamento da democracia parlamentar e a necessidade de criar uma democracia real, a deterioração dos serviços públicos e a exigência de um Estado com forte poder de luta contra a fratura social, a submissão do sistema financeiro a um profundo controle capaz de nos tirar desse nosso "capitalismo de espoliação".
O caráter espontâneo, e muitas vezes contraditório, compõe a paisagem dos protestos globais e é, ao mesmo tempo, sua virtude e limite. Virtude por ter um caráter amplo, horizontal, com capacidade de ousadia que, em outra configuração talvez não fosse possível e que explica a capacidade de crescimento e adesão que os “indignados” e "acampados" tem angariado ao redor do mundo. Mas também se coloca como um limite, na medida que dificulta (em alguns casos até inviabiliza) a construção de alternativas e ações politicas imediatas, que interfiram e incidam na conjuntura. Exemplo disso, o anseio de mudanças e crítica ao sistema político espanhol dos indignados, ainda que tenha demonstrado uma força inédita viu a direita vencer as eleições.
Ainda não está claro quais serão os rumos que este movimento terá e nem a forma que ele deverá evoluir no médio prazo. O certo é que este "movimento" representou uma positiva mudança na conjuntura global. Ainda longe de ter força suficiente para promover profundas e necessárias mudanças, ele por si só já é vitorioso, ao romper com a apatia e falta de soluções para a crise global. Não há dúvidas que uma nova e importante perspectiva se abre e que ela poderá ser decisiva para as grandes transformações que o mundo necessita. Se o ano de 2011 foi o ano da rebeldia e do protesto em rede, que 2012 seja o inicio de uma nova fase destes protestos. 
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Espanha: Crônica de uma debacle anunciada



Por Emir Sader


Os resultados eleitorais confirmam as piores previsões para o PSOE, que perde mais de 50% da sua bancada parlamentar. Como expressão de que o caráter mais importante do voto foi contra o PSOE e, como consequência, a favor do PP, este conseguiu a maioria absoluta de maneira folgada, mas só aumentou em 20 parlamentares sua bancada. A Izquierda Unida voltou a seu nível anterior às ultimas eleições, passando de 2 a 11 deputados, cortando sua tendência eleitoralmente decrescente.

Desde que Zapatero, depois de resistir, acabou impondo o pacote recessivo, sob forte pressão dos governos da União Europeia e de Obama –que constrangeu publicamente a Zapatero, anunciando à imprensa que o havia pressionado por telefone na noite anterior ao pacotaço - o roteiro da tragédia estava traçado: recessão, desemprego, aumento acelerado do risco espanhol e derrota eleitoral acachapante. Não deu outra.

O PSOE cumpriu à risca o roteiro, cujo teor trágico estava escondido atrás de uma armadilha da unificação europeia. A própria consulta sobre a unificação europeia confessava o seu segredo: perguntava se estavam a favor da moeda única. Era uma unificação antes de tudo monetária e não uma unificação politica, que se dava à reboque daquela. Mais importante que o Parlamento Europeu passou a ser o Banco Central Europeu.

Depois da lua-de-mel da unificação e do lançamento do euro, o processo de unificação teria, na crise iniciada em 2008, sua primeira grande prova de fogo e o resultado não poderia ser pior. Ao invés de surgir como moeda alternativa ao dólar na hora da crise do dólar, o euro reproduziu, de forma ainda mais negativa, os mesmos mecanismos da crise norteamericana. O euro se revelou ser uma armadilha tal, que os países do centro do capitalismo que ainda tem moedas nacionais e portanto podem desenvolver suas políticas monetárias – como os EUA, a Inglaterra, o Japão, a Suécia e os demais países escandinavos – se defendem melhor da crise. Enquanto os países do euro estão aprisionados à moeda única e submetidos aos ditames do Banco Central Europeu, sob a égide da Alemanha.

A Espanha viveu um ciclo expansivo da economia similar ao dos EUA, com um boom imobiliário como locomotiva, com os correspondentes afrouxamentos dos créditos bancários. Com a diferença de que, quando a bolha imobiliária implodiu na Espanha, ela não tinha para onde correr, enquanto os EUA mantem o poder de imprimir a moeda ainda universal para empurrar a crise mais para frente.

Quando a crise de 2008 ja tinha sido desatada, Zapatero continuava a negá-la e resistia à aplicação do pacote de ajuste do Banco Europeu. No ano passado, quando o recessão já era clara na Espanha, o desemprego aumentava, os papéis da Espanha perdiam aceleradamente valor, Zapatero não resistiu mais e decretou, em maio de 2010, seu pacote recessivo.

O resto foi o desenrolar que mecanicamente desembocou na derrota estrepitosa dos socialistas, pelo voto popular de rejeição ao pacote que produziu mais de 22% de desempregados, com 48% de desemprego entre os jovens. Rajoy continuou sendo muito mau avaliado pelos eleitores, assim como o PP, mas nada superava o desprestígio de Zapatero. Que poderia ter convocado as eleições para o primeiro semestre de 2012, mas convocou-a para este mês, ate aqui o pior momento da crise, talvez porque acredite que a situação ainda vai piorar mais.

O resultado não poderia ser pior para o PSOE. O partido entra em um processo profundo de crise. Até porque, como acontece com a social democracia em toda a Europa, um diagnóstico da crise leva à critica da forma que assumiu a unificação, processo de que eles foram os mais entusiastas.

A Espanha entra em um período pior ainda, porque além da crise – até porque Rajoy vai simplesmente obedecer os acordos do pacote recessivo acertado com o Banco Central Europeu, que esta semana voltou a liberar recursos para a Espanha, quando os seus papéis chegaram ao mais índice negativo e está cada vez mais endividada, condenada a uma década de recessão. Estará pior, porque à recessão se somarão outros elementos vinculados ao PP: retomada do processo de privatizações, cortes ainda mais duros do orçamento publico, retrocessos na lei do aborto e no casamento dos homossexuais (estas questões que motivaram o apoio entusiasmado da Igreja espanhola).

Será um período de grandes turbulências sociais, não só dos indignados, mas também dos sindicatos e de outros setores sociais, como as universidades, os movimentos de mulhres, de homossexuais, entre outros. Mas o PP gozará da maioria absoluta para promover retrocessos em todos os planos da sociedade espanhola, incluídos os Tribunais de Justiça, brecando ao mesmo tempo avanços de laicização do Estado espanhol e de ataque aos restos do franquismo – como o Valle de los Caidos, que Zapatero não chegou a mudar.

Como em Portugal e na Grecia, a social democracia aplica um duro ajuste fiscal, perde apoio popular e entrega de volta o governo à direita. Sem que apareça ainda o horizonte de superação da dicotomia direita-social democracia, que tem levado a política europeia ao beco sem saída. 

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#15O Mobilizações gigantes em Madrid e Barcelona




A Porta do Sol, onde se realizou a primeira “ocupação”, ou “acampada” , ficou totalmente cheia. Organizadores falam em 500 mil pessoas.



A Espanha, país onde se realizou a primeira “ocupação”, ou “acampada”, a da Porta do Sol, voltou a ser um dos principais epicentros dos protestos do 15 de Outubro, com manifestações em 60 cidades, com destaque para a gigantesca de Madrid, que encheu totalmente a Porta do Sol.
Madrid: A Porta do Sol, centro da acampada dos Indignados no Verão, voltou a encher-se este sábado com milhares de pessoas que desde o final da tarde de hoje se manifestam nas principais avenidas do centro de Madrid. Os organizadores falaram em meio milhão de pessoas; nem a polícia nem a câmara divulgaram números.
Os manifestantes chegaram à Porta do Sol por várias das ruas de acesso, depois de a grande manifestação, que se concentrou na Praça Cibeles, se ter dividido em várias colunas, dado o grande número de pessoas. Na chegada de cada grupo, os manifestantes batiam palmas e gritavam "que não, que não, que não nos representam".
Antes, uma grande vaia marcou a passagem em frente ao Banco de Espanha, na Praça Cibeles. Já uma boa parte da praça da Puerta del Sol estava cheia e ainda se encontravam milhares de manifestantes na Puerta de Alcalá, a cerca de um quilómetro de distância. Às 22h, começou uma "assembleia do Sol" a que se seguirá a criação de três grupos que analisarão três grandes temas: "Porque estamos aqui?", "Como iniciar a mudança global" e "Como evoluir depois do 15 de Outubro".
Barcelona: cerca de 250 mil pessoas, segundo os organizadores, 60 mil, segundo a polícia, numa marcha encabeçada por um cartaz onde se lia "Da indignação à ação. As nossas vidas ou os benefícios deles.”
Sevilha: 50 mil pessoas, com gritos de “Chamam-lhe democracia, mas não é”, “A solução: banqueiros na prisão” e “Estou até aos ovários de tanto emprego precário”.
Bilbau: 11 mil manifestantes, segundo a polícia.
Valência: entre 30 mil e 40 mil manifestantes, dois quilómetros demorou a manifestação a passar.
Girona: 3 mil pessoas.
Málaga: 20 mil pessoas.
Tarragona: 14 mil pessoas.
Santander: 10 mil pessoas.
Las Palmas: 4.500.
Granada: 7 mil.

Fonte: Esquerda.Net

Buñuel e a guerra civil espanhola



Em seu livro Meu último suspiro, escrito no início da década de 1980, o cineasta Luís Buñuel reserva um capítulo à guerra civil espanhola. É interessante notar que, enquanto muitos artistas e intelectuais renegavam suas posições políticas, pouco antes de morrer, em plena década de 80 – quando o movimento comunista já se encontrava na defensiva (já não estava “na moda”), Buñuel dá um testemunho sincero sobre os acontecimentos que vivenciou cerca de 45 anos antes. Ele esclarece: “Não pretendo escrever por minha vez a história do grande dilaceramento que atingiu a Espanha. Não sou um historiador e não estou certo de ser imparcial. Só quero tentar contar o que vi, o que recordo”. Do livro, que vale uma leitura completa, destacamos alguns trechos em que Buñuel, com sua “simpatia teórica pela anarquia”, relata suas impressões sobre a ação dos anarquistas, comunistas e trotskistas naqueles momentos decisivos.
A imagem acima é de um quadro do pintor (e amigo de Buñel) Salvador Dali em homenagem ao cineasta.



A Guerra da Espanha
1936-1939

"No mês de julho de 1936, Franco desembarcou à frente das tropas marroquinas com a intenção firme de acabar com a república e restabelecer a "ordem" na Espanha.
Minha mulher e meu filho tinham regressado a Paris um mês antes. Eu estava sozinho em Madri. Uma manhã, bem cedo, fui acordado por uma explosão, seguida de muitas outras. Um avião republicano bombardeava o quartel de la Montaña, e ouvi também alguns tiros de canhão.
Nesse quartel de Madri, como em todos os outros quartéis da Espanha, as tropas estavam de prontidão. No entanto, um grupo de falangistas se refugiara nele e havia já alguns dias que partiam tiros do quartel, atingindo os transeuntes. Seções operárias já armadas, apoiadas pelos guardas de assalto republicanos – força de intervenção moderna fundada por Azaña –, atacaram o quartel na manhã de 8 de julho. Às dez horas tudo estava terminado. Os oficiais rebeldes e os membros da Falange foram todos fuzilados. A guerra acabava de começar.
Para mim era um pouco difícil me dar conta da realidade disso. De minha sacada, ouvindo ao longe o barulho da metralha, via passar na rua, debaixo de mim, um canhão Schneider puxado por dois ou três operários e – o que me pareceu assustador – dois gitanos e uma gitana [N.E.]. A revolução violenta que sentíamos preparar-se há alguns anos, e que pessoalmente eu tanto desejara, passava sob minhas janelas, sob meus olhos. Ela me encontrava desorientado, incrédulo.
Uns quinze dias depois, o historiador de arte Elie Faure, que apoiava entusiasticamente a causa republicana, veio passar uns dias em Madri. Fui visitá-lo uma manhã em seu hotel e ainda o vejo junto à janela do quarto, com suas ceroulas presas nos tornozelos, olhando as manifestações de rua que se tornavam diárias. Chorava de emoção ao ver o povo pegando nas armas. Um dia, vimos desfilar uma centena de camponeses, armados de qualquer maneira, alguns com fuzis de caça e revólveres, outros com foices e forcados. Num visível esforço de disciplina, tentavam marchar em filas de quatro. Creio que nós dois choramos com isso.
Nada parecia poder vencer essa força profundamente popular. Mas depressa a incrível alegria, o entusiasmo revolucionário dos primeiros dias cederam lugar a um desagradável sentimento de divisão, de falta de organização e de total insegurança, sentimento que durou até as proximidades do mês de novembro de 1936, quando uma verdadeira disciplina e uma justiça eficaz começaram a estabelecer-se no lado republicano.
Não pretendo escrever por minha vez a história do grande dilaceramento que atingiu a Espanha. Não sou um historiador e não estou certo de ser imparcial. Só quero tentar contar o que vi, o que recordo.” ( p. 210-211)
(...)
“Dentro do campo republicano começavam a surgir graves divisões. Os comunistas e os socialistas queriam antes de mais nada ganhar a guerra, fazer tudo pela vitória. Os anarquistas, ao contrário, considerando-se como tendo triunfado, organizavam já sua sociedade ideal.
Gil Bel, diretor do jornal sindicalista El Sindicalista, um dia marcou encontro comigo no Café Castilla e me disse:
- Fundamos uma colônia anarquista em Torrelodones. Há já umas vinte casas ocupadas. Você deveria pegar uma.
Fiquei muito espantado. Em primeiro lugar, essas casas pertenciam a pessoas expulsas, às vezes fuziladas, ou em fuga. Em seguida, Torrelodones situava-se junto à serra de Guadarrama, apenas a alguns quilômetros das linhas fascistas, e ali, vulneráveis, os anarquistas organizavam tranqüilamente sua utopia!
Outro dia, em companhia do músico Remacha, um dos diretores do Filmsono onde eu trabalhara, almoço num restaurante. O filho do dono foi gravemente ferido combatendo contra os franquistas na serra de Guadarrama. Entram vários anarquistas armados que dirigem um Salud compañeros! em volta deles e imediatamente pedem garrafas de vinho ao dono. Não posso conter minha indignação. Digo-lhes que deveriam estar na serra, lutando, ao invés de esvaziar as adegas de um homem de bem cujo filho estava lutando contra a morte.
Eles me ouvem sem reagir e vão embora, mas levando ainda assim as garrafas. É verdade que deram “bônus” em troca, pedaços de papel que não significam grande coisa.
Todas as noites, brigadas inteiras de anarquistas desciam da serra de Guadarrama, onde se desenrolava a luta, para saquear as adegas dos hotéis. Seu exemplo antes nos estimulava a nos voltarmos para os comunistas.
Bem pouco numerosos no início, mas fortalecendo-se de semana em semana, organizados e disciplinados, os comunistas me pareciam – e ainda me parecem – irrepreensíveis. Colocavam toda a sua energia a serviço de levar adiante a guerra. É triste dizê-lo, porém necessário: os sindicalistas anarquistas os odiavam talvez mais ainda do que aos fascistas.
Esse ódio começara alguns anos antes da guerra. Em 1935, a F.A.I. (Federação Anarquista Ibérica) desencadeou uma greve geral, muito dura, entre os operários de obras. Uma delegação comunista dirigiu-se à F.A.I. – esse episódio foi contado pelo anarquista Ramós Acín, que financiara Las Hurdes – e disse aos responsáveis pela greve:
- Há entre vocês três alcagüetes da polícia.
E citaram nomes. Mas os anarquistas responderam com violência aos delegados comunistas:
E daí? Já sabemos! Mas preferimos os alcagüetes da polícia aos comunistas!
Apesar de minha simpatia teórica pela anarquia, não conseguia suportar seu comportamento arbitrário, imprevisível, seu fanatismo. Em alguns casos, quase bastava ter o título de engenheiro ou um diploma universitário para ser levado à casa campo. Quando ante a aproximação dos fascistas, o governo republicano decidiu deixar Madri para instalar-se em Barcelona, os anarquistas bloquearam a única estrada que permanecia desimpedida, perto de Cuenca. Em Barcelona – um exemplo entre vários – liquidaram o diretor e os engenheiros de uma fábrica de metalurgia, para provar que a fábrica podia funcionar perfeitamente apenas em mãos dos operários. Fabricaram um caminhão blindado e o mostraram, orgulhosamente, a um delegado soviético. Este pediu um parabélum e atirou, danificando facilmente a blindagem.
Acredita-se até – mas há outras versões – que um pequeno grupo de anarquistas foi responsável pela morte do grande Durutti, atingido por uma bala quando descia do carro, na rua de la Princesa, para ir em socorro da Cidade Universitária sitiada. Esses anarquistas incondicionais – que davam a suas filhas o nome de Acratia ("não-poder") ou Quatorze de setembro – não perdoavam a Duritti a disciplina que ele conseguira impor às suas tropas.
Nós tínhamos que temer também as ações arbitrárias do POUM, grupo teoricamente trotskista. No mês de maio de 1937, viram-se os membros desse movimento, aos quais se haviam juntado anarquistas da F.A.I., erguendo barricadas nas ruas de Barcelona contra as tropas republicanas, que tiveram que combatê-los e subjulgá-los.
Meu amigo, o escritor Claudio de la Torre, a quem eu acabava de dar um Marx Ernst como presente de casamento, morava numa casa isolada a pouca distância de Madri. Seu avô tinha sido maçom, o que, aos olhos dos fascistas, era a coisa mais abominável da terra. Os maçons eram tão detestados quanto os comunistas.
Claudio tinha uma cozinheira muito respeitada porque seu noivo combatia com os anarquistas. Um dia, dirijo-me a sua casa para almoçar, quando, de repente, vejo vir em minha direção, em pleno campo, um carro da POUM, perfeitamente identificável pela grande sigla pintada que exibe. Fico intranqüilo, porque só trago comigo documentos socialistas e comunistas que não têm valor algum aos olhos do POUM. Ao contrário, podem até criar-me problemas. O carro pára junto a mim, o chofer me pergunta qualquer coisa – creio que seu caminho – e arrancam novamente. Respiro aliviado.
Volto a repetir que só dou aqui minha impressão pessoal, uma entre milhões, mas creio que ela deve corresponder a um certo número de homens que pertenciam à esquerda naquela ocasião. Acima de tudo dominavam a insegurança e a confusão, agravadas por nossas lutas internas e pelo choque de tendências, apesar de ameaça fascista às nossas portas.
Eu via sob meus olhos um velho sonho realizado e isso só me proporcionava uma certa tristeza.
Um dia, através de um republicano que transpusera o front, tomamos conhecimento da morte de Lorca.” (p. 216-220)
(...)
Paris durante a guerra civil.
“Lá permaneceria até o fim da guerra. Oficialmente, em meu escritório da rua de la Pépinière, ocupava-me de reunir todos os filmes de propaganda republicana rodados na Espanha. Na realidade, minhas funções eram mais complexas. Por um lado, era uma espécie de chefe do protocolo, encarregado de organizar determinados jantares na embaixada e não colocar, por exemplo, André Gide ao lado de Aragon. Além disso, ocupava-me ‘de informações’ e de propaganda.
Durante esse período, e sempre para solicitar apoios de todos os tipos para a causa republicana, viajei muito, para a Suíça, Anvers, Estocolmo, várias vezes para Londres. Em diversas oportunidades retornei também à Espanha em missão.
Em geral, levava comigo valises cheias de milhares de panfletos impressos em Paris. Em Anvers, os comunistas belgas nos ofereciam seu apoio total. Graças à cumplicidade de alguns marujos, nossos panfletos viajaram até num navio alemão com destino à Espanha.” ( p. 224)
...
“Ao contrário do governo francês, que sempre recusou comprometer-se e intervir em favor da república, intervenção que teria modificado rapidamente o curso dos acontecimentos – e isso por covardia, por medo dos fascistas franceses, por medo de complicações internacionais –, o povo francês, e em particular os operários membros da C.G.T., prestava-nos uma ajuda considerável e desinteressada. Não era incomum, por exemplo, que um ferroviário ou um chofer de táxi me procurasse para dizer: “olhe, dois fascistas chegaram ontem à noite pelo trem das 20 e 15; são assim e assim, ficaram em tal hotel”. Eu tomava nota das informações e as transmitia a Araquistaín, que foi certamente nosso melhor embaixador em Paris.
A não-intervenção da França e de outras potências democráticas nos paralisava. Embora Roosevelt se tivesse declarado a favor da República Espanhola, cedia às pressões dos católicos americanos e não intervinha, como também não o fazia Leon Blum na França. Nunca esperamos uma intervenção direta, mas podíamos pensar que a França autorizaria transportes de armas e até expedições de “voluntários”, como fizeram, do outro lado, a Alemanha e a Itália. O desenrolar da guerra teria sido inteiramente diferente.
Devo mencionar também – ainda que brevemente – o destino reservado aos refugiados na França. Muitos, à sua chegada, foram simplesmente encerrados nos campos. Grande quantidade deles caiu mais tarde em mãos dos nazistas e morreu na Alemanha, principalmente em Mauthausen.
Organizadas pelos comunistas, treinadas e disciplinadas, as brigadas internacionais foram as únicas que nos forneceram, ao mesmo tempo, uma ajuda precisa e um bom exemplo. É preciso também render homenagem a Malraux, embora alguns dos aviadores escolhidos por ele não passassem de mercenários, e a todos aqueles que foram combater por iniciativa própria. Eles foram numerosos e de todos os países. Em Paris, forneci salvo-condutos a Hemingway, a dos Passos, a Joris Ivens, que realizou um documentário sobre o exército republicano.” ...(p. 225-226)
(...)
“Rodávamos filmes na Espanha, durante a guerra, com a colaboração – entre outros – de dois operadores soviéticos. Esses filmes de propaganda deviam ser apresentados no mundo inteiro e também na Espanha. Um dia, não tendo nenhuma notícia sobre o material filmado já há alguns meses, marquei uma entrevista com o chefe da delegação comercial russa. Ele me fez esperar mais de uma hora. Insisti junto a um secretário. Finalmente, o homem me recebeu friamente, perguntou meu nome me disse:
- Que está fazendo em Paris? O senhor deveria estar no front, na Espanha.
Respondi-lhe que não lhe competia de modo algum julgar minha atividade, que eu executava ordens e que queria saber o que acontecera com os filmes rodados para a República Espanhola.
Respondeu-me com evasivas. Retirei-me.
Tão logo cheguei a meu escritório, escrevi quatro cartas, uma paraL’Humanité, uma para o Pravda, outra para o embaixador soviético e a última para o ministro espanhol. Nelas denunciava o que me parecia ser sabotagem dentro da própria delegação comercial soviética, sabotagem que me foi confirmada por amigos comunistas franceses que me disseram: “Sim, é um pouco assim em todos os lugares”. A União Soviética tinha inimigos, ou pelo menos adversários, entre seus representantes oficiais. Aliás, algum tempo depois, o chefe de delegação comercial, que me recebera tão mal, foi uma das vítimas dos grandes expurgos de Stalin.” (p. 227-228)
(...)
“Não é de espantar que os republicanos espanhóis, como eu, tenham sido mais ou menos favoráveis ao pacto germano-soviético. Estávamos tão decepcionados com a atitude das democracias ocidentais, que ainda desprezavam a União Soviética, recusando qualquer contato eficaz, que vimos no gesto de Stalin uma maneira de ganhar tempo, de aumentar as forças que, de qualquer modo, seriam lançadas na grande batalha.
O partido comunista francês, em sua maioria, também aprovou o pacto. Aragon o disse em alto e bom tom. Uma das poucas vozes discordantes – dentro do partido – foi a de Paul Nizan, brilhante intelectual marxista, que me convidou para seu casamento (a testemunha era Jean Paul Sartre). Mas todos sentíamos que, qualquer que fosse nossa opinião, esse pacto não iria durar, fracassaria como todo o resto.
Mantive minhas simpatias pelo partido comunista até o fim dos anos 50. Depois disso, fui afastando-me cada vez mais. Seja onde for, o fanatismo me repugna. Todas as religiões encontraram a verdade. O marxismo também. Nos anos 30, por exemplo, as doutrinas marxistas não toleravam que se falasse de inconsciente, de tendências psicológicas profundas do indivíduo. Tudo tinha que obedecer aos mecanismos sócio-econômicos, o que me parecia absurdo. Uma metade do homem era esquecida.
Termino essa digressão. A digressão é minha maneira natural de relatar, um pouco como ocrre no romance picaresco espanhol. No entanto, com a idade, com a diminuição inevitável da memória imediata, antecedente, tenho que tomar cuidado. Começo uma história, abandono-a imediatamente por um parêntese que me parece muito atraente, após o que esqueço meu ponto de partida e me perco. Pergunto sempre aos meus amigos: ‘Por que lhes estou contando isso?’” (p. 233-234)
(...)
“Em 1936, o povo espanhol se manifestou pela primeira vez em sua história. Instintivamente, atacou primeiro a Igreja e os grandes proprietários, representantes de uma opressão ancestral. Queimando as igrejas e os conventos, massacrando os padres, o povo designava claramente seu inimigo hereditário.
Do outro lado, do lado fascista, os crimes eram cometidos por espanhóis mais ricos e mais cultos. Eram cometidos – o exemplo de Calanda pode estender-se a toda a Espanha – em maior quantidade, sem verdadeira necessidade, com uma frieza mortal.
Isso me permite dizer hoje, com certa serenidade, que no fundo o povo sempre é mais generoso. As razões que tinha para revoltar-se não eram ignoradas por ninguém. Se durante os primeiros meses da guerra, no lado republicano, um certo número de excessos me horrorizou (não tentei escondê-los), bem depressa, a partir do mês de novembro de 1936, uma ordem legal foi estabelecida e as execuções sumárias cessaram. Quanto ao mais, estávamos em guerra com rebeldes.
Durante toda a minha vida, impressionou-me muito a famosa fotografia onde se vêem, diante da catedral de Santiago de Compostela, dignitários eclesiásticos, cobertos com seus ornamentos sacerdotais, fazendo a saudação fascista, ao lado de alguns oficiais. Deus e a pátria estão ali, lado a lado. Só nos traziam a repressão e sangue.
Nunca fui adversário fanático de Franco. Em minha opinião, ele não representava o diabo em pessoa. Inclino-me até a acreditar que evitou que a Espanha exangue fosse invadida pelos nazistas. Mesmo no que se refere a ele, incluo certa ambigüidade.
O que digo atualmente, embalado pelos devaneios de meu niilismo inofensivo, é que a abastança e a cultura mais desenvolvidas que havia do outro lado, do lado dos franquistas, deveriam ter limitado o horror. Nada disso ocorreu, pelo contrário. E é por isso que questiono, sozinho diante de meu dry-martini, as vantagens do dinheiro e as vantagens da cultura.” (p.239-240) 
… 

Extraído de: Meu último suspiro / Luíis Buñuel; tradução de Rita Braga. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
[N.E.] Segundo definição do Dicionário Aurélio, gitano é o cigano da Espanha.

Fonte: http://www.cecac.org.br

A crise europeia também chega ao futebol



Por Fernando Vives


O próximo sábado 10 deve marcar o início do Campeonato Italiano de futebol após semanas de greve dos jogadores, que não se entendiam com os clubes sobre as condições trabalhistas. Com isso, todos as grandes competições do continente terão começado na temporada 2011/2012. O problema é que a crise financeira cada vez mais escancara que os modelos do futebol europeu precisam ser revistos.


Tomemos os três grandes campeonatos da Europa, o inglês, o espanhol e o italiano, como exemplos.



Inglaterra: o falso sucesso com pitada neoliberal
A Premier League inglesa era até bem pouco tempo o exemplo a ser seguido em qualquer país que tenha uma liga de futebol que foque em ser rentável. Refundada em 1992 após anos de mortes em estádios por conta das más condições dos palcos de futebol e brigas de torcidas, naquele ano passou a ser gerida pelos próprios clubes e não mais pela federação de futebol nacional. Até o fim dos anos 1990, os clubes ingleses aumentaram consideravelmente os lucros e voltaram a disputar os títulos da Liga dos Campeões, a principal competição europeia. Na década seguinte, alçaram a Liga Inglesa à condição de melhor do planeta, com os maiores salários e boa parte dos melhores jogadores. Manchester United, Chelsea, Arsenal e Liverpool passaram a ter a maior fatia de seus elencos de jogadores convocados por suas seleções nacionais.
A Liga Inglesa colocava em campo uma espécie de modelo neoliberal, na qual os próprios clubes controlavam o espetáculo, vendiam suas marcas e negociam a cota para a transmissão de tevê. O mundo passou a copiá-los. Só que as coisas não iam tão bem assim como pareciam.
Primeiro, para afastar as brigas entre torcedores e aumentar os lucros, os gerentes da Premier League aumentaram muito o valor dos ingressos. Ver o futebol no estádio tornou-se um programa de classe média alta até para os padrões britânicos. E os problemas não param por aí.
Como a lei britânica é conivente e os organizadores da Premier League pouco se importam, magnatas passaram a comprar clubes de futebol para fazer deles seu bibelô pessoal e angariar prestígio. Daí para a lavagem de dinheiro é um pulo. O russo Roman Abramovich foi um dos pioneiros ao comprar o Chelsea no início da última década. Alçou o clube londrino da condição de médio para um dos mais fortes. Abramovich, que construiu fortuna sobre o petróleo na Rússia em condições suspeitas, é visto como um “vencedor” por muita gente no País. Em sua esteira vieram outros: o bilionário egípcio Mohamed Al Fayed comprou o Fulham. O ex-premiê tailandês Thaksin Shinawatra, que depois caiu por denúncias de corrupção, comprou o Manchester City, posteriormente vendido ao Abu Dhabi United Group, conglomerado dos ricaços dos Emirados Árabes com foco no petróleo.
Entre os principais anunciantes da Liga Inglesa estão casas de apostas. O futebol inglês segue rico, mas na mão de quem está este dinheiro? Paralelamente, os pobres veem o campeonato pela tevê.
Espanha: aos gigantes, tudo. Aos outros, a crise
A situação espanhola é até pior que a inglesa. Quem acompanhava a liga do país nos anos 1990 se recorda sempre dos duelos entre Real Madrid e Barcelona, mas tem também boas lembranças do Atlético de Madri, La Coruña e Valencia, ao menos, equipes que eventualmente surpreendiam os dois gigantes.
No entanto, de 2004 para cá, só dá Real e Barça. A diferença de tamanho de ambos para os demais passou da categoria “grande” para “abissal”: a dupla tem direito a metade da cota de transmissão de tevê e ganha tudo de lá para cá. A outra metade é dividida entre os demais clubes que, nestes tempos de crise, têm extrema dificuldade para conseguir um patrocinador, regional que seja. Na primeira rodada da Liga 2011/12, o Real Madrid enfiou 6 a 0 no Zaragoza fora de casa. O Barça goleou o Villarreal, quarto colocado do último campeonato, por 5 a 0. Revoltado com a discrepência, José Maria del Nido, presidente do Sevilla (outro importante clube médio da Espanha), declarou que o futebol do país “é a maior porcaria da Europa, talvez a do mundo”. A médio prazo, a ausência de competição no campeonato espanhol tem tudo para causar um estrago profundo.
Itália: O coma técnico continua
O futebol italiano viveu uma forte crise no início dos anos 1980. Escândalos de manipulação de resultados estouraram no país, clubes importantes foram rebaixados à segunda divisão e dirigentes e jogadores foram presos. Mas  esta crise deu impulso para a modernização do futebol italiano, que em poucos anos passou a ter os principais jogadores do planeta, os clubes mais fortes e uma liga muito competitiva.
O problema é que, com a ascensão dos campeonatos inglês e espanhol nos anos 1990, o Calcio não se modernizou e teve sua importância reduzida. Os clubes italianos foram aos poucos perdendo espaço na Liga dos Campeões. O único que se destacava era o Milan, do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, que vivia do mecenato de seu dono. O caso de Berlusconi virou tendência: vários milionários compraram os clubes, e alguns deles faliram, como foi o caso da família Cragnotti, na Lazio, e de Franco Sensi, na Roma, na virada dos anos 1990 para os 2000.
A partir daí virou uma bagunça: até Muammar Kaddafi andou investindo na Juventus e no Peruggia (o filho do ditador líbio chegou a jogar por este último). Novos escândalos de compra de resultados e manipulação de arbitragem relacionadas a casas de apostas estouraram em 2006. Hoje o Campeonato Italiano é pouco mais que um produto para divertimento dos próprios italianos.  Este ano, o campeonato começa atrasado por conta de uma greve dos jogadores.
Em meio a tanta orgia de dinheiro, a única luz no futebol europeu de primeiro nível parece ser a Bundesliga, liga alemã. A lei germânica dificulta que investidores usem clubes de futebol para lavar dinheiro, o que evita a entrada de magnatas em um ramo que não é o deles. Os preços de ingressos para as partidas é bastante honesto para a classe média baixa e, nos estádios, é ainda possível beber cerveja e levar bandeiras e faixas, o que não ocorre, por exemplo, na Inglaterra. Claro que ter uma economia forte, que sofreu menos com o impacto da crise financeira atual, ajuda a Bundesliga a estar equilibrada. Mas a estratégia de não deixar o futebol nas mãos erradas e manter o povo nos estádios parece ser um toque social democrata que a Alemanha dá ao futebol. Que vire tendência pelo mundo.
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