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Eduardo Galeano: A linguagem, as coisas e seus nomes


Eduardo Galeano

Hoje em dia, não fica bem dizer certas coisas perante a opinião pública.

Na era vitoriana era proibido fazer menção às calças na presença de uma senhorita. Hoje em dia, não fica bem dizer certas coisas perante a opinião pública:

O capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado;

O imperialismo se chama globalização;

Cartum: Para entender o conflito na literatura


Autor: Grant Snider
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125 anos de Fernando Pessoa



Assim como falham as palavras quando querem exprimir
qualquer pensamento, assim falham os pensamentos
quando querem exprimir qualquer realidade. (Antônio Caeiro)

O dia é 13 de Junho de 2013, o aniversário 125 do poeta Fernando Pessoa. O poeta que foi muitos e que foi um. O poeta das 1001 caras.
Nascido em Lisboa, o escritor morreu jovem, aos 47 anos, por meio de seus heterônimos, deixou uma vasta obra. Os heterônimos, diferentemente dos pseudônimos  são personalidades poéticas completas: identidades que, em princípio falsas, se tornam verdadeiras através da sua manifestação artística própria e diversa do autor original. Os três heterônimos mais conhecidos (e também aqueles com maior obra poética) foram Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Um quarto heterônimo de grande importância na obra de Pessoa é Bernardo Soares, autor do Livro do Desassossego.
Sua obra completa está em domínio público, pronta para ser baixada e lida! Acesse aqui: http://bit.ly/rjGrZA
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Mia Couto: "Não há outro caminho que não seja a insubordinação"


O escritor moçambicano venceu a 25ª edição do Prêmio Camões e voltou a defender a urgência de uma insubordinação que questione o atual sistema mundial e abra o caminho para alternativas.

George Orwell


Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudônimo George Orwell, foi um escritor e jornalista inglês, um dos mais influentes do século XX. 
Sua obra é marcada por uma inteligência perspicaz e bem-humorada, uma consciência profunda das injustiças sociais, uma intensa oposição ao totalitarismo e uma paixão pela clareza da escrita. Claramente um escritor de esquerda, o escritor fez uma defesa da auto-gestão ou autonomismo. A sua crença no socialismo democrático foi abalada pelo "socialismo real" que ele denunciou em "A revolução dos bichos".
Juntou-se à luta no POUM (Partido Operário de Unificação Marxista), uma milícia de tendência trotskista contra Francisco Franco e seus aliados Mussolini e Hitler, na Guerra Civil Espanhola. 
No livro 1984 retrata o cotidiano de um regime político totalitário e repressivo no ano homônimo. No livro, Orwell mostra como uma sociedade oligárquica coletivista é capaz de reprimir qualquer um que se opuser a ela. 
O romance se tornou famoso por seu retrato da difusa fiscalização e controle de um determinado governo na vida dos cidadãos, além da crescente invasão sobre os direitos do indivíduo. Desde sua publicação, muitos de seus termos e conceitos, como "Big Brother", "duplipensar" e "Novilíngua" entraram no vernáculo popular. O termo "Orwelliano" surgiu para se referir a qualquer reminiscência do regime ficcional do livro.
George Orwell faleceu em 21 de janeiro de 1950.

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Lembrando da memória de García Márquez



Por Eric Nepomuceno


Ninguém combinou nada com ninguém, nada foi pedido a quem quer que fosse, mas existia uma espécie de pacto silencioso: não mencionar, fora de círculos absolutamente restritos e da mais rigorosa confiança, que Gabriel García Márquez perdia, pouco a pouco no princípio, e rapidamente depois, a memória. 

Começou há alguns anos. Mas foi a partir dos últimos quatro que o processo se acelerou. As declarações emocionadas de seu irmão caçula, Jaime, na semana passada, correram mundo e acabaram escancarando o assunto. Ele não foi o primeiro a romper aquele pacto não declarado: um mês antes, o jornalista colombiano Plínio Apuleyo Mendoza mencionou a perda de memória do escritor. 

Há algum tempo circulam rumores sobre o estado de saúde de García Márquez. São especulações de todo tipo, e o que fizeram Plínio Apuleyo Mendoza primeiro, e Jaime depois, serve ao menos para esclarecer alguns pontos. 

O jornalista, amigo de García Márquez há mais de meio século, seu compadre, foi mais contido. Relatou que durante um longo tempo os dois se falavam por telefone quase todas as semanas. E que, a partir de determinada época – ele não disse quando – García Márquez deixou de ligar. Daí em diante, já não se falaram. Sempre que ele telefonava para o México, ouvia alguma desculpa delicada e viável. A explicação veio, enfim, de um dos filhos de García Márquez, que contou que seu pai não reconhecia mais as pessoas pela voz, só pessoalmente. E que por isso já não atendia as ligações. 

Jaime foi caudaloso em suas declarações. Contou que ele e o irmão mais velho se falam por telefone quase todos os dias, e que o tema das conversas é recorrente: García Márquez pede que o ajude a lembrar fatos passados. 

Disse que o irmão sofre de demência senil, um mal comum na família. Afirmou que há anos ele não escreve nada, e que não tornará a escrever.
Estive com Jaime em Cartagena das Índias outubro de 2010. Numa de nossas muitas conversas ele me disse que a doença do irmão estava em estado avançado. 

Menos de um ano depois, estive com Mercedes e Gabriel García Márquez, em sua casa na Cidade do México. Foi uma conversa longa, de quase três horas. Durante esse tempo, ele falou muito pouco. Entrava em longos silêncios, mas cada vez que eu pressentia que estava alheio ao que Mercedes e eu dizíamos, ele intervinha. Eram comentários curtos, disparados entre sorrisos. A certa altura, perguntou por quê meu filho Felipe, que estava comigo no México e ele conhece desde os quatro anos de idade, não tinha ido vê-lo. E voltou a um silêncio profundo e prolongado.
Não ouvi de ninguém, de nenhum dos amigos realmente próximos, menção alguma a demência senil. O que sim, sei, é que aquela memória prodigiosa de García Márquez não existe mais, e faz tempo. 

Conta Jaime, agora, exatamente o que me contou em Cartagena: o prolongado e intenso tratamento com quimioterapia ao qual García Márquez se submeteu para superar um câncer linfático que o afetou em 1999 acabou de prejudicar de vez sua memória. Os efeitos começaram a se fazer sentir aos poucos, e se agravaram nos últimos seis anos.

Na verdade, tem sido fácil constatar isso. Gabriel García Márquez sempre foi dono de uma memória sem limites, e essa memória se desvaneceu. 

Lembro das muitas vezes que vi como ele interrogava alguém sobre determinado tema – volta e meia aconteceu comigo – e, anos depois, era capaz de rearmar a história ouvida como se tivesse sido vivida por ele dois dias antes. Era capaz de descrever determinada rua de alguma cidade como se estivesse chegando de lá. Discutir com ele era, na imensa maioria das vezes, perder tempo: acabava sempre achando alguma prova inconteste de que sua memória era imbatível.

Assim ele escreveu tudo que escreveu. Disse, ao longo da vida, que não há uma só linha, em toda a sua obra, que não tivesse como ponto de partida um dado da realidade. Ou seja: um dado guardado, intacto, em sua memória. 

Bem: essa memória se acabou. E, com ela, se acabou a escrita mais luminosa das últimas muitas décadas da literatura feita na América de todos nós.

Numa tarde de novembro de 2008 ele me disse, no jardim da sua casa: ‘Não escrevo mais porque já não tenho idéias para escrever’. Brinquei, dizendo que era a mesma coisa que ele havia me dito ao longo de mais de vinte anos.

Já contei essa história em alguns textos que escrevi sobre ele. O que não contei, porém, conto agora: ao ouvir meu comentário, Gabriel García Márquez me olhou e disse num fio de voz: ‘Idéias, eu até que tenho, ou devo ter. Só que na hora de escrever não me lembro de nenhuma’.

Foi quando entendi que já não haveria mais livros do autor que certa vez disse que escrevia para que os amigos gostassem mais dele. 

O pacto que nunca existiu volta a existir. Jaime García Márquez disse o que achou que devia dizer. Nos dias seguintes, Jaime Abello, diretor da Fundação do Novo Jornalismo, criada e mantida por Gabriel García Márquez, resolveu acabar com essa história toda. Negou que o escritor padeça de demência senil, disse que não há nenhum diagnóstico médico indicando a doença, e que García Márquez, aos seus 85 anos de vida, é apenas um ancião esquecediço (a palavra, em castelhano, foi ‘olvidadizo’), e que continua desfrutando dele como amigo.

Melhor assim. Em algum lugar de seus longos silêncios Gabriel García Márquez deve abrigar, em vez daquela memória sem fim, a nostalgia de um tempo em que recordar era viver.

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Jack Kerouac: 90 anos


Hoje (12/03) o escritor norte-americano Jack Kerouac completaria 90 anos. Nasceu em Lowell; Massachusetts, em 12 de março de 1922. Era o mais novo de três filhos de uma família de origem franco-canadense. O autor de On The Road morreu em outubro de 1969. O escritor que foi um dos ícones da Geração Beats sucumbiu frente ao tédio e ao alcoolismo.
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As cartas perdidas de Caio Fernando Abreu

Um tesouro guardado no arquivo do escritor Nei Duclós por 35 anos traz por inteiro o jovem Caio F, então com 27 anos, com suas lutas, medos e sonhos, reportando com lucidez e coragem a época e o país em que vivia, a profissão que abraçou e seus complicados habitantes.




Decidi achar as cartas do Caio Fernando Abreu no meu arquivo (soterrado de papéis, acumulados em décadas). Ele escrevia normalmente para mim nos anos 1970, quando por um tempo fomos muito amigos e nos correspondemos, ele em Porto Alegre, eu em São Paulo. Biógrafos e estudiosos já me pediram essas cartas. Uma biógrafa chegou a duvidar da existência delas, já que eu não ofereço a aparência de um capital simbólico suficiente para convencer os deslumbrados. Mas por algum motivo não cedi.

Agora vou revisitar cada uma delas, sem obedecer a nenhuma cronologia. São todas cartas legítimas, originais, com a assinatura do amigo que já tinha grande prestígio na época e se transformou num escritor cult, numa celebridade nacional, queridíssimo por muitos milhares de leitores. Divulgo para o meu país conforme recebi: com o espírito desarmado e abraçado ao grande amor que os escritores do Brasil tem pela literatura que aqui se faz e aqui se paga com a vida.

Com vocês, o Caio que me escrevia e foi uma personalidade chegada, um amigo por algum tempo próximo, irmão das letras e generoso em sua amizade e talento. A primeira, que divulgo, é do início de agosto de 1976. Foi escrita em papel pardo comum, a máquina e corrigida a caneta. Tem algumas frases antológicas, que poderão ser notadas ao longo do seu texto. (Nei Duclós)
As Cartas
Porto, 2. 8. 76

Nei:
Nosso velho conhecido — Mr. August — chegou ontem, vestido a caráter: aquele velho terno cinza muito molhado, e tão velho que já tem algumas manchas de limo. Agora é preciso hospedá-lo por 29 dias. E resistir, já que ele insiste sempre em nos puxar para dentro e para baixo. Resistiremos.

Junto com ele veio também — graças! — um pouco de luz, acho que para contrabalançar: a Pifa, um pouco mais ruiva e muito mais bonita. Deu notícias de você, da Ida, Daniel e Juliana (as mãos de Juliana já estão famosas aqui no Sul, dizem que são longuíssimas, expressivas, espirituais). Eu tinha recebido os teus BIC de pena (lindos) e a notícia do nascimento dela, fazia algum tempo. Devia ter respondido, mas a barra andou pesando, tremores de terra internos e também bodes de fora — mortes, doenças na família (avôs, avós, tias — essas coisas).

Agora estou recomeçando/refazendo. Batalho emprego COM vontade de achar y me vuelve a la universidad, dia 9. Independência ou morte é a ordem do dia. Tenho escrito bastante, umas coisas muito cruéis, às vezes até meio porcas, genetianas. Por aí você pode supor o estado da cuca. Mas tudo bem: botar o horror pra fora é um dos jeitos de não deixar que ele nos esmague.

Estou mandando procê o recorte duma entrevista com o Mário Quintana, saída no Caderno de Sábado, e onde você — glória!- pinta como um dos poetas preferidos dele. Congratulations efusivas! Acho que é o maior elogio que você já recebeu em toda a sua vida. Confesso, fiquei com inveja. Tá saindo um novo livro dele — “Apontamentos de História Sobrenatural”. Um dos poemas que mais me fez a cabeça é este aqui:
O Morituro (Mario Quintana)

“Por que é que assim, com suas caras imóveis e simiescas,/ os vivos nos devassam num cínico impudor?/ Por que nos olham assim — como se fôssemos cousas —/ quando os nossos traços vão repousando, enfim,/ na tranqüila dignidade da morte?//Por que é que eles, com a sua obscena curiosidade,/ não respeitam o até mais íntimo da nossa vida/ — ato que deveria ser testemunhado apenas pelos Anjos?// Ah, que Deus me guarde na hora da minha morte, amén, / que Deus me guarde da humilhação deste espetáculo/ e me livre de todos, de todos eles:// não quero os seus olhos pousando como moscas na minha cara./ Quero morrer na selva de algum país distante.../Quero morrer sozinho como um bicho!”

Sinto saudade de ti. Sinto falta. Os amigos estão raros, distantes, esquivos. Não deu para viajar em julho, talvez no fim do ano, ou de repente, sempre pode ser.

Que teus três companheiros estejam bem. Um beijo para eles. Até a outra.

Teu
Caio
RETORNO

Foi assim, naquele distante agosto, que Caio me falou de suas leituras, seus planos, seu trabalho, suas faltas e me informou sobre o elogio do Quintana para o poeta estreante. E se despediu beijando as três pessoas da minha família, mulher e um casal de filhos (o terceiro veio dois anos mais tarde). Deus guarde Caio, que entre nós cultivou a amizade sincera e a proximidade solidária e calorosa. (N.D.)
Caio Fernando Abreu: três motivos para uma carta

Compartilho mais uma carta que Caio Fernando Abreu escreveu para mim nos anos 1970. Desta vez, ele enumera três motivos para me enviar suas preciosidades: primeiro, a resenha sobre meu livro de estreia “Outubro”, que saiu na imprensa de Porto Alegre; segundo a alegria de ter participado de um encontro com jovens estudantes de Vacaria, RS, onde reforçou sua certeza na missão de escritor, num trecho antológico sobre nosso ofício; e terceiro, a descoberta de uma poeta mineira então desconhecida, Adélia Prado. O desfecho é mais do que surpreendente: o relato de um sonho castañedistico! Ou seja, é tudo alumbramento. Vamos à carta. (N.D.)
Porto 4.7. 76

Nei:
Te escrevi acho que faz umas duas semanas, um pouco menos. Você ainda não respondeu, e tudo bem, não se preocupe nem se apresse. Soube pelo Dudu (o San Martin, não o “Magic Stone”, que é meio chatinho) que você saiu da Folha de São Paulo — ou que te saíram, digamos assim. Sempre as sacanagens inesperadas, não é? Então imagino que você deva estar um pouco envolvido com a batalha de grana ou de novo emprego, e, sei lá, espero que tudo já tenha se resolvido ou, pelo menos, que você esteja levando na melhor possível, sem bodiar com isso.

Tô te escrevendo por três motivos, principalmente.

Primeiro: enviar esse recorte, do “Caderno de Sábado” de ontem — uma crítica do Antonio Hohfeldt sobre “Outubro”. É UMA CRÍTICA ALTAMENTE ELOGIOSA — e eu fiquei contente. Muita gente pixa o Antonio (inclusive eu), mas, não sei, o Appel diz sempre que “no fundo ele é um sujeito bom e esforçado” — é um cara também que apesar dos seus muitos defeitos, tem uma grande abertura. É muitíssimo menos provinciano e cagador de regras que os Neis Gastais e Cristaldos da vida, o que é um ponto (ou muitos) a favor. Além disso, me parece que ele decodificou muito bem o teu livro, que ele sacou, sentiu. Espero que você também fique contente. O Wladyr Nader disse que teu livro era adolescente. Forças! Eu não concordo. Uma vez você falou uma coisa muito bonita, aquilo que “a gente não deve atraiçoar a própria juventude” — e na minha opinião é exatamente isso que o Nader não sacou no “Outubro”: o compromisso com o novo (que sempre vem, não é Belchior?).

E aqui pinta o segundo motivo desta carta. Seguinte: estive dois dias em Vacaria, fazendo palestras para estudantes do nível colegial, sobre a experiência “Teia” e “Há Margem” e “a novíssima literatura gaúcha”. Nei, foi demais bonito. Não dá para contar tudo, seria assunto pruma carta de 50 páginas. Mas o que aconteceu foi que me dei conta que não estamos escrevendo inutilmente, para ninguém ou para nós mesmos. A molecada (em Vacaria!) estava excitadíssima, na biblioteca do colégio tinha “Teia” e também “Há Margem” (a professora de literatura é muito legal), então eles estavam informados sobre você e o resto do pessoal. Senti que estão muito ávidos de uma literatura que fale do aqui-agora, que fale deles também.

Um garoto me falou que não suportava a literatura antes do meu papo porque pensava que “literatura eram só aqueles caras chatos do livro de português: José de Alencar, Raul Pompéia”. Por aí afora. Me deixou muitas coisas boas, uma delas a certeza que minha missão é exatamente essa: fazer as cabeças alheias. Distribuir, salpicar aqui e ali pitadinhas de inquietação, de sonho, também de luta. Uma certeza objetiva (fora de mim) que existo como escritor, você me entende? E que o nosso recado, através do que escrevemos, sem que a gente saiba, está voando por aí — e que nós temos que ser cada vez melhores, mais verdadeiros e mais conscientes do que podemos dar ao outro que nos lê. Isso aí. Pessoalmente, um dia, te conto como foi tudo.

O terceiro motivo é poesia, também. Encontrei uma poeta chamada Adélia Prado, mineira — acho que já te falei dela —, tem um livro chamado “Bagagem”. E tenho lido os poemas dela sempre pensando em você. Deu a vontade de dividir contigo e, na impossibilidade de te mandar o livro (não me separo dele), te mando também esses poemas: Grande Desejo, Impressionista, Ensinamento, Um Jeito, Bilhete em Papel Rosa, Psicórdica, Clareira, Cabeça.

É isso aí. Tem muito mais, é um livro farto de singelezas, gosto de bolinho, dia de chuva e café preto. Adélia tem me encantado e me feito ver o mundo de um jeito muito mais simples, “sem sérias patologias”, que existe e que a gente já teve e se perdeu.

Ah, queria te contar também de um sonho castañedistico que tive em Vacaria: muitas coisas, uma festa, eu assistindo do portão uma festa que passava sobre a rua, e a rua era rolante, as pessoas não caminhavam, a rua é que carregava eles. Aí entrei na casa branca, grande, colonial, e tinha uma bacia de louça cheia de objetos, principalmente pedras. Mergulhei as mãos dentro da bacia. A voz da minha avó disse: “São objetos de poder”.

Saudade de você. Um beijo pro Daniel, outro pra Ida. Até de repente, do seu
Caio
RETORNO

1. Sobre personalidades: é a opinião do Caio, que deixo aqui na íntegra. 2. Gostei muito da resenha do Antonio Hohfeldt. 3. “Teia” e “Há Margem” são dois livros coletivos de contos e poemas que foram publicados naquela época em Porto Alegre. 4. Pedi demissão da “Folha” para trabalhar na “IstoÉ” onde, aí sim, me saíram. 5. “Outubro” é meu livro de estreia, publicado pelo Instituto Estadual do Livro — RS em que Caio foi um dos consultores: era preciso três aprovações — uma outra foi do Irmão Elvo Clemente, da PUC. 6. Wladyr Nader escancarou as páginas da “Escrita” para minhas resenhas. 7. Caio datilografou todos os poemas citados da Adélia Prado. Não reproduzo aqui porque tomaria muito espaço. 8. Pelo mesmo motivo só reproduzo a primeira, a segunda e a última página da carta. As outras contém reproduções dos poemas de Adélia. Ao todo, são três folhas escritas na frente e no verso. (N.D.)
Karta kaótica de Caio Fernando Abreu

Já tínhamos tempo acumulado, e não era pouco. Das cartas que Caio Fernando Abreu me endereçou em 1976, esta é a mais dark, pesada e absurdamente luminosa. Aqui temos o escritor aos 27 anos, com um livro poderoso na praça, “O Ovo Apunhalado”, sendo alvo de críticas, análises, elogios da grande imprensa e dos veículos especializados e se sentindo um lixo, desconfortável no seu papel de escritor, duvidando agora do seu ofício, se perguntando porque nos metemos nessa e falando sobre surtos, loucuras, internações, psiquiatria, porres. E, ao mesmo tempo, declarando mais uma vez sua fé na dignidade humana. Esta que ele batiza de “karta kaótica” é muito longa (seis páginas), por isso deixo a última parte para a próxima edição. Pois no fundo esta é uma soma de cartas, já que ele deixava o que escrevia para mim na gaveta e no dia seguinte retomava. O início não tem data, mas na continuação, que será publicada aqui, está 26/5 (certamente de 1976).

Dividi o texto (três páginas e meia da carta original) em capítulos, já que a palavra é do Caio, mas a disposição desse trabalho inédito (publicado originalmente no blog Diário da Fonte) obedece à minha edição. Nada foi cortado, nem nesta nem nas cartas anteriores. Com todas as letras, vamos revisitar o Caio dos meus arquivos, que agora vem à tona como um vulcão. Fiquem atentos. É barra. A mais genuína. (N.D.)
I — Ao som de Belchior

Nei:
Salve: hoje to tomando chá com limão e ouvindo Belchior: “eu sou apenas um rapaz latinoamericano/ sem dinheiro no banco/ sem parentes importantes/e vindo do interior”. Eu também. Grilei com a crítica e as cartas-pixativas de “Escrita” — ainda não chegou aqui — sei lá, to numa fase de análise em que fico me achando um lixo (apaga o cigarro no peito), outras putas-velhas-de-divã dizem que é-assim-mesmo and I hope so, daí fica pintando esse tipo de coisa e só piora, não é? Sabe que desde janeiro não escrevo NADA? Foi em janeiro que começou essa badalação em torno do Ovo, que me fez muito mal, tanto a positivo como a negativa — já não tenho naturalidade para escrever. Além disso inútil.

Nair, minha mãe, hoje veio de novo com o velho papo: na sua ronda costumeira por casas espíritas, umbandistas e o que pinta, sempre dizem que “uma mulher fez um trabalho para mim num cemitério”, many years ago — é uma coisa pra me enlouquecer, e que só não enlouqueci porque tenho muita força, mas o tal trabalho bodeia num outro sentido, causando depressões, autodepreciações. O psiquiatra hoje de manhã disse que tenho como uma espécie de “culpa original”: acho que não mereço nada de bom que me acontece, daí nos momentos em que devia estar meio contente é quando estou mais bodiado (vide Laing, “O Eu Dividido”, falso-self & outros bichos). Eu não sei. Sei que tem um negócio errado.

Tua carta, lida quatro vezes, me deu uma vontade absurda de estar em SP. Absurda porque tive a oportunidade de ficar aí em fevereiro e não quis. Você me pergunta pela minha paixão...Saco, acho que aqui to sentindo falta de estímulos-externos: barras mui violentas, batalha por grana, por casa, por emprego, essas coisas. Nas vezes em que estive mais pressionado de fora para dentro foi quando mais produzi. Estou cansado da meia boca daqui: sentimentos mornos —quanto tempo faz que não me apaixono? quanto tempo faz que não sinto ódio? quanto tempo faz que não tenho vontade de morrer? É como um filme de Antonioni fase- antiga, longas tomadas, lentíssimas, mui sacais — & nada acontecendo. Quanto tempo faz que não beijo alguém na boca? Many time, my friend.

Saí a catar o Dudu San Martin ontem —não teve espetáculo, chovia pra caralho (“o maior caldo”, como dizem no IAPI) — daí li os poemas que ele mandou pro livro-coletivo-do-Valdir (que me mandou o livro, tudo bem, escrevi a ele). Wow! Ou uáu, para ser mais nacionalista. São muito fortes? vivos? bons? são fortes-vivos-bons, mas também são mais, têm um FERVOR que fazia tempo eu não sentia em nada escrito. Acho que é o melhor dele que li até agora, me fez muito mal, me baixou ainda mais a moral, porque são extremamente pessimistas (mas, nessa altura do campeonato, pode-se ser otimista?). Depois bebemos cachaça e ouvimos Mercedes Sosa. Levitan — encontrei no teatro, outro dia, ele fez a música duma peça infantil que está em cartaz junto com a nossa, tava de calça listrada e, não sei, meio “controlado” (não sei se é bem isso), como sempre.
II - Intervalo: gagos e vesgos

Parei quase umas 24h, nesse tempo (será que no espaço também?) que separa a última frase coube: uma apresentação do “Sarau” prumas 20 pessoas (amargo, não?), uma tarde de autógrafos do Gabriel de Britto Velho onde a média de idade das pessoas devia ser — sem exagero — uns 60 anos (mas ele é ótimo: gago: sempre gostei muito de gagos, de vesgos também, têm something else); quebra-pau nos camarins (ainda vou escrever uma peça que se passe naquele espaço entre o camarim e o palco).

Incrível, tá mesmo difícil, meu amigo —chegou Caparelli, trovamos, trovamos, aí quando ele ia saindo chegou um cara da UNISINOS com um gravador, querendo me entrevistar. Fui entrevistado. Burríssimo, o moço, mas excelente visual. Ficou me olhando dum jeito esquisito quando perguntei: “Sabe que você poderia estar faturando horrores como mocinho de bangue-bangue italiano?”
III — Esquina maldita

Mas, como eu ia dizendo — depois de mais de um mês, ontem, fui à Esquina Maldita procurar Emílio Chagas. Bem foi inevitável, tomamos um pileque épico. Hoje acordei ruim, gosto de cabo-de-guarda-chuva na boca & culpa: ando bebendo muito. Horrível, não é? Eu acho, também, mas é difícil evitar, principalmente agora que começou a esfriar, de noite dá aquela necessidade de coisas quentes você sai por las calles, aí vêm as brahmas, os vinhos, os conhaques, as cachaças. E é engraçado, quando a gente tá bebendo com alguém chega num ponto em que parece que vai acontecer alguma coisa (ninguém sabe exatamente o que), e que para essa alguma-coisa acontecer mesmo é preciso beber um pouco mais. Daí você pede — e então a coisa começa a se decompor. Nada acontece, o porre começa a pintar & a mosca pousa na sopa fria.

Nei, estou ficando cínico e sem esperanças. Essa é uma fase grave. Você não pode me ajudar. Pode-se ficar cínico numa boa? Já não consigo acreditar muito mais nessa “numa boa”. Apaga o cigarro no peito.

Tenho transado com o Henrique do Valle. Ele é incrível, incrível memso, mas numa ruim. Não é exagero, NUNCA vi ninguém mais drogado, não consegue ficar em pé, quem o ampara é a namorada, que se chama — juro — Misericórdia. Tem marcas de picadas nas VEIAS DOS TORNOZELOS. Veja esses poemas que ele me trouxe: “ninguém acreditou/ quando eu falei dos anjos/ que moram nas estrelas // então eu falei da crise do petróleo/ do preço do dólar/ e falei mal dos outros //nas estrelas/ os anjos morriam de rir”. Ou esta, baudelairiana: “escuta minha prece, Satan/ já que o lótus não nasceu/ deixa eu beber teu vinho/ com os bodes da floresta// já que a vida não é nada/ sem teu sopro// só tu devolves paz/ só tu dás alegria// só tu entregas prazer// enchendo a terra com teu orvalho”, Ele trouxe as respostas de um questionário para a “Escrita”, mais uma pilha de poemas. Alguns vão junto com a matéria mas os outros eu não sei o que fazer. Tem a “Inéditos”, de Belo Horiozonte. Ele é muito muito muito bom. E dói olhar para ele, porque está se matando e sabe disso.
V — Cuca meia-boca

Estou meio tonto, de ressaca. Ontem vi a crítica da Veja sobre “O Ovo” — aprovado, não é? Não fiquei contente, não me pergunte porque (a tal “culpa original”?). Depois vi meu conto na Ficção, aí fiquei contente. Queria que você lesse, é uma coisa muito louca.

Chega o Correio com um livro de Minas (meu deus, como os mineiros escrevem) —“O Globo da Morte”, de Hugo Almeida Souza, um pra mim outro pra Jane (que manda um beijo), abro ao acaso: “Faz assim, cara: diga que tá legal, muito bonito, colorido, sabe como? , (suas mãos mexiam, o cabelo no olho), que o anúncio dá vontade na menina de comprar a porra aí, entende?”. Quem mandou foi o Luiz Fernando Emediato, que me dá um click! — esse-cara-é-bom. Dudu quer ir para Minas, eu quero conhecer Lucienne Samôr, também quero ir pra Minas, Minas não existe mais? Rosane-Luísa internou-se na ala para indigentes do São Pedro, a psiquiatra descobriu e recambiou-a para a Melanie Klain. Procurem, procurem.
Nei, houve um tempo em que a loucura era coisa tão de poucos, lembro dos loucos de rua de Santiago/Itaqui, e gente assim mais fina só tinha uma mulher, Dona Benvinda (!), mãe dum amigo meu, Fernando, que tinha medo de formiga e quase 20 anos depois econtrei no El Mourisco, desmunheecando muito — Benvinda enlouquecia periodicamente e era trazido pro São Pedro. Agora todo mundo enlouquece a toda hora, já estive louco, mas nunca numa clínica, o que é uma desfaçatez da minha parte, às vezes até entro numa que a minha cuca é demais meia-boca, já que nunca mereceu sequer uma clínica. Rosane, eu não tive coragem de amar Rosane como ela me pediu que eu a amasse (sem pedir, entende?)

Nei, os amigos estão enlouquecendo, alguns, outros indo embora, outros se trancando em casa, outros ainda bebendo muito, não interessa falar do meu medo, mas ele existe e eu não sei se o nosso grito adianta alguma coisa contra tudo isso — adianta? Gritarei/gritaremos sempre, mas as coisas mudarão? Esta é uma karta kaótica. Caparelli diz que todo verbo no futuro é imbecil. Houve um tempo em que pensei que tinha asas, houve um tempo em que pensei que comigo seria diferente. Tenho na memória imagens & imagens de solteirões de bombachas tomando mate nos degraus ao sol, no inverno (sempre agosto), eu não sei porque isso me ocorre agora, já caiu a primeira geada e as bergamotas estão muito doces. É isso aí. Ou não. Amanhã continuo.
RETORNO

1. Alguns verbos chamam a atenção, como “bodiar”, gíria para algo baixo astral e que já caiu em desuso (acho eu). “Transar” tem mais de um significado, pois podia, como é o caso aqui, se referir a um encontro recorrente com algum amigo ou pessoa conhecida, um mergulho na amizade, uma conversa que toma tempo etc. E “trovar” é coisa de gaúcho, é conversar muito, mudando assim o sentido original, de declamar versos de improviso numa roda de galpão. 2. Pessoas queridas e amigos meus são citados, como Claudio Levitan, Emilio Chagas, Eduardo San Martin e Sergio Caparelli. Publico como Caio se referiu a eles naquela época distante. Minha intenção aqui é trazer Caio na íntegra e ele era sempre carinhoso, mesmo quando deixava transparecer alguma crítica. 3. Ci­tações: “Apaga o cigarro no peito” é um verso de Gabriel Britto Velho, que o Caio gostava muito de citar; e há o “procurem procurem” drummondiano; ambos são inseridos por Caio nesta sua brilhante karta kaótica, focada principalmente nos escritores. (N.D.) 
Publicado originalmente em: http://www.ojornalopcao.com.br

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Buñuel e a guerra civil espanhola



Em seu livro Meu último suspiro, escrito no início da década de 1980, o cineasta Luís Buñuel reserva um capítulo à guerra civil espanhola. É interessante notar que, enquanto muitos artistas e intelectuais renegavam suas posições políticas, pouco antes de morrer, em plena década de 80 – quando o movimento comunista já se encontrava na defensiva (já não estava “na moda”), Buñuel dá um testemunho sincero sobre os acontecimentos que vivenciou cerca de 45 anos antes. Ele esclarece: “Não pretendo escrever por minha vez a história do grande dilaceramento que atingiu a Espanha. Não sou um historiador e não estou certo de ser imparcial. Só quero tentar contar o que vi, o que recordo”. Do livro, que vale uma leitura completa, destacamos alguns trechos em que Buñuel, com sua “simpatia teórica pela anarquia”, relata suas impressões sobre a ação dos anarquistas, comunistas e trotskistas naqueles momentos decisivos.
A imagem acima é de um quadro do pintor (e amigo de Buñel) Salvador Dali em homenagem ao cineasta.



A Guerra da Espanha
1936-1939

"No mês de julho de 1936, Franco desembarcou à frente das tropas marroquinas com a intenção firme de acabar com a república e restabelecer a "ordem" na Espanha.
Minha mulher e meu filho tinham regressado a Paris um mês antes. Eu estava sozinho em Madri. Uma manhã, bem cedo, fui acordado por uma explosão, seguida de muitas outras. Um avião republicano bombardeava o quartel de la Montaña, e ouvi também alguns tiros de canhão.
Nesse quartel de Madri, como em todos os outros quartéis da Espanha, as tropas estavam de prontidão. No entanto, um grupo de falangistas se refugiara nele e havia já alguns dias que partiam tiros do quartel, atingindo os transeuntes. Seções operárias já armadas, apoiadas pelos guardas de assalto republicanos – força de intervenção moderna fundada por Azaña –, atacaram o quartel na manhã de 8 de julho. Às dez horas tudo estava terminado. Os oficiais rebeldes e os membros da Falange foram todos fuzilados. A guerra acabava de começar.
Para mim era um pouco difícil me dar conta da realidade disso. De minha sacada, ouvindo ao longe o barulho da metralha, via passar na rua, debaixo de mim, um canhão Schneider puxado por dois ou três operários e – o que me pareceu assustador – dois gitanos e uma gitana [N.E.]. A revolução violenta que sentíamos preparar-se há alguns anos, e que pessoalmente eu tanto desejara, passava sob minhas janelas, sob meus olhos. Ela me encontrava desorientado, incrédulo.
Uns quinze dias depois, o historiador de arte Elie Faure, que apoiava entusiasticamente a causa republicana, veio passar uns dias em Madri. Fui visitá-lo uma manhã em seu hotel e ainda o vejo junto à janela do quarto, com suas ceroulas presas nos tornozelos, olhando as manifestações de rua que se tornavam diárias. Chorava de emoção ao ver o povo pegando nas armas. Um dia, vimos desfilar uma centena de camponeses, armados de qualquer maneira, alguns com fuzis de caça e revólveres, outros com foices e forcados. Num visível esforço de disciplina, tentavam marchar em filas de quatro. Creio que nós dois choramos com isso.
Nada parecia poder vencer essa força profundamente popular. Mas depressa a incrível alegria, o entusiasmo revolucionário dos primeiros dias cederam lugar a um desagradável sentimento de divisão, de falta de organização e de total insegurança, sentimento que durou até as proximidades do mês de novembro de 1936, quando uma verdadeira disciplina e uma justiça eficaz começaram a estabelecer-se no lado republicano.
Não pretendo escrever por minha vez a história do grande dilaceramento que atingiu a Espanha. Não sou um historiador e não estou certo de ser imparcial. Só quero tentar contar o que vi, o que recordo.” ( p. 210-211)
(...)
“Dentro do campo republicano começavam a surgir graves divisões. Os comunistas e os socialistas queriam antes de mais nada ganhar a guerra, fazer tudo pela vitória. Os anarquistas, ao contrário, considerando-se como tendo triunfado, organizavam já sua sociedade ideal.
Gil Bel, diretor do jornal sindicalista El Sindicalista, um dia marcou encontro comigo no Café Castilla e me disse:
- Fundamos uma colônia anarquista em Torrelodones. Há já umas vinte casas ocupadas. Você deveria pegar uma.
Fiquei muito espantado. Em primeiro lugar, essas casas pertenciam a pessoas expulsas, às vezes fuziladas, ou em fuga. Em seguida, Torrelodones situava-se junto à serra de Guadarrama, apenas a alguns quilômetros das linhas fascistas, e ali, vulneráveis, os anarquistas organizavam tranqüilamente sua utopia!
Outro dia, em companhia do músico Remacha, um dos diretores do Filmsono onde eu trabalhara, almoço num restaurante. O filho do dono foi gravemente ferido combatendo contra os franquistas na serra de Guadarrama. Entram vários anarquistas armados que dirigem um Salud compañeros! em volta deles e imediatamente pedem garrafas de vinho ao dono. Não posso conter minha indignação. Digo-lhes que deveriam estar na serra, lutando, ao invés de esvaziar as adegas de um homem de bem cujo filho estava lutando contra a morte.
Eles me ouvem sem reagir e vão embora, mas levando ainda assim as garrafas. É verdade que deram “bônus” em troca, pedaços de papel que não significam grande coisa.
Todas as noites, brigadas inteiras de anarquistas desciam da serra de Guadarrama, onde se desenrolava a luta, para saquear as adegas dos hotéis. Seu exemplo antes nos estimulava a nos voltarmos para os comunistas.
Bem pouco numerosos no início, mas fortalecendo-se de semana em semana, organizados e disciplinados, os comunistas me pareciam – e ainda me parecem – irrepreensíveis. Colocavam toda a sua energia a serviço de levar adiante a guerra. É triste dizê-lo, porém necessário: os sindicalistas anarquistas os odiavam talvez mais ainda do que aos fascistas.
Esse ódio começara alguns anos antes da guerra. Em 1935, a F.A.I. (Federação Anarquista Ibérica) desencadeou uma greve geral, muito dura, entre os operários de obras. Uma delegação comunista dirigiu-se à F.A.I. – esse episódio foi contado pelo anarquista Ramós Acín, que financiara Las Hurdes – e disse aos responsáveis pela greve:
- Há entre vocês três alcagüetes da polícia.
E citaram nomes. Mas os anarquistas responderam com violência aos delegados comunistas:
E daí? Já sabemos! Mas preferimos os alcagüetes da polícia aos comunistas!
Apesar de minha simpatia teórica pela anarquia, não conseguia suportar seu comportamento arbitrário, imprevisível, seu fanatismo. Em alguns casos, quase bastava ter o título de engenheiro ou um diploma universitário para ser levado à casa campo. Quando ante a aproximação dos fascistas, o governo republicano decidiu deixar Madri para instalar-se em Barcelona, os anarquistas bloquearam a única estrada que permanecia desimpedida, perto de Cuenca. Em Barcelona – um exemplo entre vários – liquidaram o diretor e os engenheiros de uma fábrica de metalurgia, para provar que a fábrica podia funcionar perfeitamente apenas em mãos dos operários. Fabricaram um caminhão blindado e o mostraram, orgulhosamente, a um delegado soviético. Este pediu um parabélum e atirou, danificando facilmente a blindagem.
Acredita-se até – mas há outras versões – que um pequeno grupo de anarquistas foi responsável pela morte do grande Durutti, atingido por uma bala quando descia do carro, na rua de la Princesa, para ir em socorro da Cidade Universitária sitiada. Esses anarquistas incondicionais – que davam a suas filhas o nome de Acratia ("não-poder") ou Quatorze de setembro – não perdoavam a Duritti a disciplina que ele conseguira impor às suas tropas.
Nós tínhamos que temer também as ações arbitrárias do POUM, grupo teoricamente trotskista. No mês de maio de 1937, viram-se os membros desse movimento, aos quais se haviam juntado anarquistas da F.A.I., erguendo barricadas nas ruas de Barcelona contra as tropas republicanas, que tiveram que combatê-los e subjulgá-los.
Meu amigo, o escritor Claudio de la Torre, a quem eu acabava de dar um Marx Ernst como presente de casamento, morava numa casa isolada a pouca distância de Madri. Seu avô tinha sido maçom, o que, aos olhos dos fascistas, era a coisa mais abominável da terra. Os maçons eram tão detestados quanto os comunistas.
Claudio tinha uma cozinheira muito respeitada porque seu noivo combatia com os anarquistas. Um dia, dirijo-me a sua casa para almoçar, quando, de repente, vejo vir em minha direção, em pleno campo, um carro da POUM, perfeitamente identificável pela grande sigla pintada que exibe. Fico intranqüilo, porque só trago comigo documentos socialistas e comunistas que não têm valor algum aos olhos do POUM. Ao contrário, podem até criar-me problemas. O carro pára junto a mim, o chofer me pergunta qualquer coisa – creio que seu caminho – e arrancam novamente. Respiro aliviado.
Volto a repetir que só dou aqui minha impressão pessoal, uma entre milhões, mas creio que ela deve corresponder a um certo número de homens que pertenciam à esquerda naquela ocasião. Acima de tudo dominavam a insegurança e a confusão, agravadas por nossas lutas internas e pelo choque de tendências, apesar de ameaça fascista às nossas portas.
Eu via sob meus olhos um velho sonho realizado e isso só me proporcionava uma certa tristeza.
Um dia, através de um republicano que transpusera o front, tomamos conhecimento da morte de Lorca.” (p. 216-220)
(...)
Paris durante a guerra civil.
“Lá permaneceria até o fim da guerra. Oficialmente, em meu escritório da rua de la Pépinière, ocupava-me de reunir todos os filmes de propaganda republicana rodados na Espanha. Na realidade, minhas funções eram mais complexas. Por um lado, era uma espécie de chefe do protocolo, encarregado de organizar determinados jantares na embaixada e não colocar, por exemplo, André Gide ao lado de Aragon. Além disso, ocupava-me ‘de informações’ e de propaganda.
Durante esse período, e sempre para solicitar apoios de todos os tipos para a causa republicana, viajei muito, para a Suíça, Anvers, Estocolmo, várias vezes para Londres. Em diversas oportunidades retornei também à Espanha em missão.
Em geral, levava comigo valises cheias de milhares de panfletos impressos em Paris. Em Anvers, os comunistas belgas nos ofereciam seu apoio total. Graças à cumplicidade de alguns marujos, nossos panfletos viajaram até num navio alemão com destino à Espanha.” ( p. 224)
...
“Ao contrário do governo francês, que sempre recusou comprometer-se e intervir em favor da república, intervenção que teria modificado rapidamente o curso dos acontecimentos – e isso por covardia, por medo dos fascistas franceses, por medo de complicações internacionais –, o povo francês, e em particular os operários membros da C.G.T., prestava-nos uma ajuda considerável e desinteressada. Não era incomum, por exemplo, que um ferroviário ou um chofer de táxi me procurasse para dizer: “olhe, dois fascistas chegaram ontem à noite pelo trem das 20 e 15; são assim e assim, ficaram em tal hotel”. Eu tomava nota das informações e as transmitia a Araquistaín, que foi certamente nosso melhor embaixador em Paris.
A não-intervenção da França e de outras potências democráticas nos paralisava. Embora Roosevelt se tivesse declarado a favor da República Espanhola, cedia às pressões dos católicos americanos e não intervinha, como também não o fazia Leon Blum na França. Nunca esperamos uma intervenção direta, mas podíamos pensar que a França autorizaria transportes de armas e até expedições de “voluntários”, como fizeram, do outro lado, a Alemanha e a Itália. O desenrolar da guerra teria sido inteiramente diferente.
Devo mencionar também – ainda que brevemente – o destino reservado aos refugiados na França. Muitos, à sua chegada, foram simplesmente encerrados nos campos. Grande quantidade deles caiu mais tarde em mãos dos nazistas e morreu na Alemanha, principalmente em Mauthausen.
Organizadas pelos comunistas, treinadas e disciplinadas, as brigadas internacionais foram as únicas que nos forneceram, ao mesmo tempo, uma ajuda precisa e um bom exemplo. É preciso também render homenagem a Malraux, embora alguns dos aviadores escolhidos por ele não passassem de mercenários, e a todos aqueles que foram combater por iniciativa própria. Eles foram numerosos e de todos os países. Em Paris, forneci salvo-condutos a Hemingway, a dos Passos, a Joris Ivens, que realizou um documentário sobre o exército republicano.” ...(p. 225-226)
(...)
“Rodávamos filmes na Espanha, durante a guerra, com a colaboração – entre outros – de dois operadores soviéticos. Esses filmes de propaganda deviam ser apresentados no mundo inteiro e também na Espanha. Um dia, não tendo nenhuma notícia sobre o material filmado já há alguns meses, marquei uma entrevista com o chefe da delegação comercial russa. Ele me fez esperar mais de uma hora. Insisti junto a um secretário. Finalmente, o homem me recebeu friamente, perguntou meu nome me disse:
- Que está fazendo em Paris? O senhor deveria estar no front, na Espanha.
Respondi-lhe que não lhe competia de modo algum julgar minha atividade, que eu executava ordens e que queria saber o que acontecera com os filmes rodados para a República Espanhola.
Respondeu-me com evasivas. Retirei-me.
Tão logo cheguei a meu escritório, escrevi quatro cartas, uma paraL’Humanité, uma para o Pravda, outra para o embaixador soviético e a última para o ministro espanhol. Nelas denunciava o que me parecia ser sabotagem dentro da própria delegação comercial soviética, sabotagem que me foi confirmada por amigos comunistas franceses que me disseram: “Sim, é um pouco assim em todos os lugares”. A União Soviética tinha inimigos, ou pelo menos adversários, entre seus representantes oficiais. Aliás, algum tempo depois, o chefe de delegação comercial, que me recebera tão mal, foi uma das vítimas dos grandes expurgos de Stalin.” (p. 227-228)
(...)
“Não é de espantar que os republicanos espanhóis, como eu, tenham sido mais ou menos favoráveis ao pacto germano-soviético. Estávamos tão decepcionados com a atitude das democracias ocidentais, que ainda desprezavam a União Soviética, recusando qualquer contato eficaz, que vimos no gesto de Stalin uma maneira de ganhar tempo, de aumentar as forças que, de qualquer modo, seriam lançadas na grande batalha.
O partido comunista francês, em sua maioria, também aprovou o pacto. Aragon o disse em alto e bom tom. Uma das poucas vozes discordantes – dentro do partido – foi a de Paul Nizan, brilhante intelectual marxista, que me convidou para seu casamento (a testemunha era Jean Paul Sartre). Mas todos sentíamos que, qualquer que fosse nossa opinião, esse pacto não iria durar, fracassaria como todo o resto.
Mantive minhas simpatias pelo partido comunista até o fim dos anos 50. Depois disso, fui afastando-me cada vez mais. Seja onde for, o fanatismo me repugna. Todas as religiões encontraram a verdade. O marxismo também. Nos anos 30, por exemplo, as doutrinas marxistas não toleravam que se falasse de inconsciente, de tendências psicológicas profundas do indivíduo. Tudo tinha que obedecer aos mecanismos sócio-econômicos, o que me parecia absurdo. Uma metade do homem era esquecida.
Termino essa digressão. A digressão é minha maneira natural de relatar, um pouco como ocrre no romance picaresco espanhol. No entanto, com a idade, com a diminuição inevitável da memória imediata, antecedente, tenho que tomar cuidado. Começo uma história, abandono-a imediatamente por um parêntese que me parece muito atraente, após o que esqueço meu ponto de partida e me perco. Pergunto sempre aos meus amigos: ‘Por que lhes estou contando isso?’” (p. 233-234)
(...)
“Em 1936, o povo espanhol se manifestou pela primeira vez em sua história. Instintivamente, atacou primeiro a Igreja e os grandes proprietários, representantes de uma opressão ancestral. Queimando as igrejas e os conventos, massacrando os padres, o povo designava claramente seu inimigo hereditário.
Do outro lado, do lado fascista, os crimes eram cometidos por espanhóis mais ricos e mais cultos. Eram cometidos – o exemplo de Calanda pode estender-se a toda a Espanha – em maior quantidade, sem verdadeira necessidade, com uma frieza mortal.
Isso me permite dizer hoje, com certa serenidade, que no fundo o povo sempre é mais generoso. As razões que tinha para revoltar-se não eram ignoradas por ninguém. Se durante os primeiros meses da guerra, no lado republicano, um certo número de excessos me horrorizou (não tentei escondê-los), bem depressa, a partir do mês de novembro de 1936, uma ordem legal foi estabelecida e as execuções sumárias cessaram. Quanto ao mais, estávamos em guerra com rebeldes.
Durante toda a minha vida, impressionou-me muito a famosa fotografia onde se vêem, diante da catedral de Santiago de Compostela, dignitários eclesiásticos, cobertos com seus ornamentos sacerdotais, fazendo a saudação fascista, ao lado de alguns oficiais. Deus e a pátria estão ali, lado a lado. Só nos traziam a repressão e sangue.
Nunca fui adversário fanático de Franco. Em minha opinião, ele não representava o diabo em pessoa. Inclino-me até a acreditar que evitou que a Espanha exangue fosse invadida pelos nazistas. Mesmo no que se refere a ele, incluo certa ambigüidade.
O que digo atualmente, embalado pelos devaneios de meu niilismo inofensivo, é que a abastança e a cultura mais desenvolvidas que havia do outro lado, do lado dos franquistas, deveriam ter limitado o horror. Nada disso ocorreu, pelo contrário. E é por isso que questiono, sozinho diante de meu dry-martini, as vantagens do dinheiro e as vantagens da cultura.” (p.239-240) 
… 

Extraído de: Meu último suspiro / Luíis Buñuel; tradução de Rita Braga. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
[N.E.] Segundo definição do Dicionário Aurélio, gitano é o cigano da Espanha.

Fonte: http://www.cecac.org.br

Antonio Candido: “O socialismo é uma doutrina triunfante”



Por Joana Tavares (Brasil de Fato)


Crítico literário, professor, sociólogo, militante. Um adjetivo sozinho não consegue definir a importância de Antonio Candido para o Brasil. Considerado um dos principais intelectuais do país, ele mantém a postura socialista, a cordialidade, a elegância, o senso de humor, o otimismo. Antes de começar nossa entrevista, ele diz que viveu praticamente todo o conturbado século 20. E participou ativamente dele, escrevendo, debatendo, indo a manifestações, ajudando a dar lucidez, clareza e humanidade a toda uma geração de alunos, militantes sociais, leitores e escritores.
Tão bom de prosa como de escrita, ele fala sobre seu método de análise literária, dos livros de que gosta, da sua infância, do começo da sua militância, da televisão, do MST, da sua crença profunda no socialismo como uma doutrina triunfante. “O que se pensa que é a face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele”, afirma.

Brasil de Fato – Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?
Antonio Candido – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.

O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?
Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado “Literatura e sociedade” que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como “O cortiço” [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras.

Teria um tipo de abordagem estética que seria melhor?
Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando eu era um jovem crítico eu queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso. Então passei a outra fase em que passei a priorizar a autonomia da obra, os valores estéticos. Depois vi que depende da obra. Mas tenho muito interesse pelo estudo das obras que permitem uma abordagem ao mesmo tempo interna e externa. A minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio.

O que é mais importante ler na literatura brasileira?
Machado de Assis. Ele é um escritor completo.

É o que senhor mais gosta?
Não, mas acho que é o que mais se aproveita.

E de qual o senhor mais gosta?
Gosto muito do Eça de Queiroz, muitos estrangeiros. De brasileiros, gosto muito de Graciliano Ramos... Acho que já li “São Bernardo” umas 20 vezes, com mentira e tudo. Leio o Graciliano muito, sempre. Mas Machado de Assis é um autor extraordinário. Comecei a ler com 9 anos livros de adulto. E ninguém sabia quem era Machado de Assis, só o Brasil e, mesmo assim, nem todo mundo. Mas hoje ele está ficando um autor universal. Ele tinha a prova do grande escritor. Quando se escreve um livro, ele é traduzido, e uma crítica fala que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua grande. A prova de um bom escritor é que mesmo mal traduzido ele é grande. Se dizem: “a tradução matou a obra”, então a obra era boa, mas não era grande.

Como levar a grande literatura para quem não está habituado com a leitura?
É perfeitamente possível, sobretudo Machado de Assis. A Maria Vitória Benevides me contou de uma pesquisa que foi feita na Itália há uns 30 anos. Aqueles magnatas italianos, com uma visão já avançada do capitalismo, decidiram diminuir as horas detrabalho para que os trabalhadores pudessem ter cursos, se dedicar à cultura. Então perguntaram: cursos de que vocês querem? Pensaram que iam pedir cursos técnicos, e eles pediram curso de italiano para poder ler bem os clássicos. “A divina comédia” é um livro com 100 cantos, cada canto com dezenas de estrofes. Na Itália, não sou capaz de repetir direito, mas algo como 200 mil pessoas sabem a primeira parte inteira, 50 mil sabem a segunda, e de 3 a 4 mil pessoas sabem o livro inteiro de cor. Quer dizer, o povo tem direito à literatura e entende a literatura. O doutor Agostinho da Silva, um escritor português anarquista que ficou muito tempo no Brasil, explicava para os operários os diálogos de Platão, e eles adoravam. Tem que saber explicar, usar a linguagem normal.

O senhor acha que o brasileiro gosta de ler?
Não sei. O Brasil pra mim é um mistério. Tem editora para toda parte, tem livro para todo lado. Vi uma reportagem que dizia que a cidade de Buenos Aires tem mais livrarias que em todo o Brasil. Lê-se muito pouco no Brasil. Parece que o povo que lê mais é o finlandês, que lê 30 volumes por ano. Agora dizem que o livro vai acabar, né?

O senhor acha que vai?
Não sei. Eu não tenho nem computador... as pessoas me perguntam: qual é o seu... como chama?

E-mail?
Isso! Olha, eu parei no telefone e máquina de escrever. Não entendo dessas coisas... Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso por literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. O que tem aqui é livro para visita ver. Mas pretendo dar tudo. Não vendo livro, eu dou. Sempre fiz escola pública, inclusive universidade pública, então é o que posso dar para devolver um pouco. Tenho impressão que a literatura brasileira está fraca, mas isso todo velho acha. Meus antigos alunos que me visitam muito dizem que está fraca no Brasil, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos... que a literatura está por baixo hoje em dia. Mas eu não me interesso por novidades.

E o que o senhor lê hoje em dia?
Eu releio. História, um pouco de política... mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.

O senhor é socialista?
Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo... tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias... tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

Por quê?
Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.

O socialismo como luta dos trabalhadores?
O socialismo como caminho para a igualdade. Não é a luta, é por causa da luta. O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.

Para o senhor é possível o socialismo existir triunfando sobre o capitalismo?
Estou pensando mais na técnica de esponja. Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola... não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Acho que o mundo marcha para o socialismo. Não o socialismo acadêmico típico, a gente não sabe o que vai ser... o que é o socialismo? É o máximo de igualdade econômica. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, está bom, é o socialismo.

O que o socialismo conseguiu no mundo de avanços?
O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo. Se você tira os rótulos e vê as realidades, vê como o socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja. No comunismo tem muito fanatismo, enquanto o socialismo democrático é moderado, é humano. E não há verdade final fora da moderação, isso Aristóteles já dizia, a verdade está no meio. Quando eu era militante do PT – deixei de ser militante em 2002, quando o Lula foi eleito – era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda, para cutucar o centro. É preciso ter esquerda e direita para formar a média. Estou convencido disso: o socialismo é a grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano. Podem dizer: a religião faz isso. Mas faz isso para o que são adeptos dela, o socialismo faz isso para todos. O socialismo funciona como esponja: hoje o capitalismo está embebido de socialismo. No tempo que meu irmão Roberto – que era católico de esquerda – começou a trabalhar, eu era moço, ele era tido como comunista, por dizer que no Brasil tinha miséria. Dizer isso era ser comunista, não estou falando em metáforas. Hoje, a Federação das Indústrias, Paulo Maluf, eles dizem que a miséria é intolerável. O socialismo está andando... não com o nome, mas aquilo que o socialismo quer, a igualdade, está andando. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima. Sou muito otimista. (pausa). O Brasil é um país pobre, mas há uma certa tendência igualitária no brasileiro – apesar da escravidão - e isso é bom. Tive uma sorte muito grande, fui criado numa cidade pequena, em Minas Gerais, não tinha nem 5 mil habitantes quando eu morava lá. Numa cidade assim, todo mundo é parente. Meu bisavô era proprietário de terras, mas a terra foi sendo dividida entre os filhos... então na minha cidade o barbeiro era meu parente, o chofer de praça era meu parente, até uma prostituta, que foi uma moça deflorada expulsa de casa, era minha prima. Então me acostumei a ser igual a todo mundo. Fui criado com os antigos escravos do meu avô. Quando eu tinha 10 anos de idade, toda pessoa com mais de 40 anos tinha sido escrava. Conheci inclusive uma escrava, tia Vitória, que liderou uma rebelião contra o senhor. Não tenho senso de desigualdade social. Digo sempre, tenho temperamento conservador. Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário. (risos).

A Teresina, que inspirou um livro com seu nome, o senhor conheceu depois?
Conheci em Poços de Caldas... essa era uma mulher extraordinária, uma anarquista, maior amiga da minha mãe. Tenho um livrinho sobre ela. Uma mulher formidável. Mas eu me politizei muito tarde, com 23, 24 anos de idade com o Paulo Emílio. Ele dizia: “é melhor ser fascista do que não ter ideologia”. Ele que me levou para a militância. Ele dizia com razão: cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político.

E o dever da atual geração?
Ter saudade. Vocês pegaram um rabo de foguete danado.

No seu livro “Os parceiros do Rio Bonito” o senhor diz que é importante defender a reforma agrária não apenas por motivos econômicos, mas culturalmente. O que o senhor acha disso hoje?
Isso é uma coisa muito bonita do MST. No movimento das Ligas Camponesas não havia essa preocupação cultural, era mais econômica. Acho bonito isso que o MST faz: formar em curso superior quem trabalha na enxada. Essa preocupação cultural do MST já é um avanço extraordinário no caminho do socialismo. É preciso cultura. Não é só o livro, é conhecimento, informação, notícia... Minha tese de doutorado em ciências sociais foi sobre o camponês pobre de São Paulo – aquele que precisa arrendar terra, o parceiro. Em 1948, estava fazendo minha pesquisa num bairro rural de Bofete e tinha um informante muito bom, Nhô Samuel Antônio de Camargos. Ele dizia que tinha mais de 90 anos, mas não sabia quantos. Um dia ele me perguntou: “ô seu Antonio, o imperador vai indo bem? Não é mais aquele de barba branca, né?”. Eu disse pra ele: “não, agora é outro chamado Eurico Gaspar Dutra”. Quer dizer, ele está fora da cultura, para ele o imperador existe. Ele não sabe ler, não sabe escrever, não lê jornal. A humanização moderna depende da comunicação em grande parte. No dia em que o trabalhador tem o rádio em casa ele é outra pessoa. O problema é que os meios modernos de comunicação são muito venenosos. A televisão é uma praga. Eu adoro, hein? Moro sozinho, sozinho, sou viúvo e assisto televisão. Mas é uma praga. A coisa mais pérfida do capitalismo – por causa da necessidade cumulativa irreversível – é a sociedade de consumo. Marx não conheceu, não sei como ele veria. A televisão faz um inculcamento sublimar de dez em dez minutos, na cabeça de todos – na sua, na minha, do Sílvio Santos, do dono do Bradesco, do pobre diabo que não tem o que comer – imagens de whisky, automóvel, casa, roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria... Esse desejo da coisa nova é uma coisa poderosa. O capitalismo descobriu isso graças ao Henry Ford. O Ford tirou o automóvel da granfinagem e fez carro popular, vendia a 500 dólares. Estados Unidos inteiro começou a comprar automóvel, e o Ford foi ficando milionário. De repente o carro não vendia mais. Ele ficou desesperado, chamou os economistas, que estudaram e disseram: “mas é claro que não vende, o carro não acaba”. O produto industrial não pode ser eterno. O produto artesanal é feito para durar, mas o industrial não, ele tem que ser feito para acabar, essa é coisa mais diabólica do capitalismo. E o Ford entendeu isso, passou a mudar o modelo do carro a cada ano. Em um regime que fosse mais socialista seria preciso encontrar uma maneira de não falir as empresas, mas tornar os produtos duráveis, acabar com essa loucura da renovação. Hoje um automóvel é feito para acabar, a moda é feita para mudar. Essa ideia tem como miragem o lucro infinito. Enquanto a verdadeira miragem não é a do lucro infinito, é do bem-estar infinito.

Publicado originalmente na edição 435 do Brasil de Fato.
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