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Manuel Castells "Dilma é a primeira líder mundial a ouvir as ruas"


Considerado por muitos o maior especialista contemporâneo em movimentos sociais nascidos na internet. O sociólogo espanhol afirma que as respostas iniciais do governo brasileiro aos protestos apontam grandes perspectivas. A condução da crise no Brasil pela presidenta Dilma mostra que há esperanças de se reconectar instituições e cidadãos.

Em entrevista  a revista ISTOÉ por e-mail, Castells exemplifica os desafios que se colocam pela resistência de políticos tradicionais aos novos movimentos. “As críticas de José Serra (às iniciativas de Dilma) são típicas da incompreensão dos políticos sobre o direito das pessoas de decidir”

Segue a íntegra da entrevista:

Occupy as ruas e as praças do mundo



Por Erick da Silva

O ano de 2011 foi um divisor de águas: se após a crise de 2008 parecia que o mundo estava em um beco sem saída, onde o esgotamento do ideário neoliberal se escancarou sem encontrar uma efetiva e imediata resposta alternativa, veio das ruas um novo ativismo disposto a encontrar estas respostas.
Acampamento na Praça Tahrir no Egito.
Este novo ativismo surgiu do lugar menos provável: a chamada “Primavera Árabe” veio a sacudir e derrubar regimes ditatoriais que há décadas oprimiam seus povos. Eclodido primeiramente na Tunísia e rapidamente espalhando-se pelo norte da África e pelo Oriente Médio, este movimento foi caracterizado pela pluralidade, descentralização e a ausência de lideranças de atores políticos tradicionais. Promovendo formas alternativas de organização, duas características foram marcantes nestas manifestações: o uso da internet e das redes sociais como forma de comunicação e mobilização; e a ocupação de praças e espaços públicos. Estas mesmas características veríamos depois no movimento dos “Indignados” na Espanha, que colocou milhares de pessoas na Puerta del Sol em Madrid e por todo o país, servindo de inspiração para outros indignados pela Europa. Os protestos denunciaram os efeitos da crise econômica sobre o cotidiano da população e a cumplicidade da democracia representativa tradicional diante os mesmos.
Quando surgiu o movimento “Occupy Wall Street” nos EUA, país que há décadas não vivenciava grandes manifestações populares, o impacto foi ainda maior. A escolha do parque Zuccotti, em Nova York, como espaço de ocupação pelos ativistas foi emblemática. Localizada próxima ao coração financeiro de Wall Street e do “ground zero” (local do antigo World Trade Center), o parque foi em 2006 privatizado e renomeado - antes se chamava Liberdade. A ocupação do parque significou justamente o resgate desta noção de liberdade e reapropriação do espaço público.
Manifestante do Occupy Wall Street
Este simbolismo causou grande efeito e rapidamente deu uma dimensão nacional ao Occupy: “Quem poderia prever o Occupy Wall Street e a sua repentina proliferação, ao estilo de uma planta selvagem, em cidades grandes e pequenas?” aponta Mike Davis na coletânea Occupy, lançado pela editora Boitempo em parceria com Carta Maior. Reunindo artigos de autores como Slavoj Zizek, Immanuel Wallerstein, David Harvey, Mike Davis, Tariq Ali, Emir Sader, Vladimir Safatle, entre outros, o livro traz um importante apanhado do que foi e representou este conjunto de movimentos de protesto que tomaram as ruas em todo o mundo.
Da leitura de grande parte dos artigos, depreende-se que não podemos esperar encontrar nestes novos movimentos um programa e uma tática política muito nítida e definida. Talvez o que seja mais marcante é a negação do que está posto, juntamente com a crítica contra a esquerda social-democrata europeia - que executou a mesma política econômica da direita em suas experiências de governo, como o caso do PSOE na Espanha ou do PASOK na Grécia. Este dilema entre os novos movimentos e a democracia liberal ainda é problemática, sendo o caso espanhol exemplar neste sentido. Milhares de indignados tomaram as ruas e não tiveram capacidade ou possibilidade de impedir que o candidato da direita Mariano Rajoy ganhasse as eleições presidenciais e colocasse em prática políticas ainda mais regressivas e antipopulares.
Vladimir Safatle, afirma: "Talvez os manifestantes tenham entendido que a democracia parlamentar é incapaz de impor limites e resistir aos interesses do sistema financeiro". Esse cansaço em relação aos partidos convencionais "não é sinal do esgotamento da política", mas de "uma demanda de politização da economia". Quando o Occupy Wall Street proclama “somos os 99%” da população, enquanto apenas o “1%” tem ditado os rumos da economia global, é justamente isto que estão fazendo. Um libelo contra aquilo que Zizek apontou, citando Badiou, que são os riscos da “ilusão democrática”, qual seja, “a aceitação dos mecanismos democráticos como a moldura fundamental de toda mudança, que evita a transformação radical das relações capitalistas.”
As práticas democráticas estabelecidas de forma horizontal pelos movimentos de ocupações que varreram o mundo demonstra que outras formas de aprofundamento das relações democráticas não só são possíveis como necessárias. Quais os caminhos e formas de organização que darão conta destes impasses é uma questão em aberto. Equivocam-se aqueles que afirmam que os partidos políticos e os sindicatos estão superados como formas de organização. A questão colocada se trata do abismo entre representados e representantes; mais especificamente, da representação que privilegia os interesses do capital em detrimento dos interesses populares. Um exemplo da possibilidade de síntese entre os “novos” e os “velhos” movimentos de esquerda se deu nos EUA, onde uma ação conjunta entre o Occupy e os sindicatos paralisou o porto de Oakland (Califórnia).
O mais importante deste novo ativismo é a sua capacidade de convergir movimentos, organizações e indivíduos distintos, em suas trajetórias e propostas. Esta é a riqueza fundamental destes novos movimentos que ao mesmo tempo dificulta o “passo seguinte. É somente na síntese e superação das divergências momentâneas que poderá se dar novas perspectivas para a esquerda. Como apropriadamente aponta Wallerstein, sem este esforço de síntese é pouco provável “que a esquerda mundial possa ganhar, nos próximos vinte ou quarenta anos, a batalha fundamental. E nela se definirá que tipo de sistema sucederá o capitalismo quando este entrar definitivamente em colapso.” É exatamente este o desafio que está colocado.
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Livro: Occupy - movimentos de protesto que tomaram as ruas


A memória coletiva marcará 2011 como o ano em que as pessoas tomaram as ruas de diversos países em uma onda de mobilizações e protestos sociais: um fenômeno que começou no norte da África, derrubando ditaduras na Tunísia, no Egito, na Líbia e no Iêmen; estendeu-se à Europa, com ocupações e greves na Espanha e Grécia e revolta nos subúrbios de Londres; eclodiu no Chile e ocupou Wall Street, nos EUA, alcançando no final do ano até mesmo a Rússia. Das praças ocupadas por acampamentos às marchas de protesto nas avenidas das principais metrópoles, emergiu uma consciência de solidariedade mútua que resultou em toda sorte de material multimídia sobre o movimento na internet, amplamente compartilhado nas redes sociais.

Inspirada por essa campanha colaborativa, a Boitempo lança, em parceria com a revista eletrônica Carta Maior, a coletânea Occupy – movimentos de protesto que tomaram as ruas, a qual reúne artigos de pensadores críticos deste novo momento da política global em que a voz das ruas passa a ocupar o cenário. Imbuídos não só da lucidez da crítica, mas também da esperança e da paixão pelo engajamento, os textos apresentam alguns consensos, como a certeza do declínio geral do capitalismo; a percepção de uma nova solidariedade social; e a análise da ausência, até o momento, de uma definição estratégica dos movimentos de ocupação.

Ao que tudo indica, o duro inverno do hemisfério norte será seguido por uma primavera politicamente quente em 2012, colocando na ordem do dia o debate sobre a natureza e a evolução dos novos movimentos políticos que floresceram em 2011. Poderá a indignação se tornar revolução?

Sobre os autores
David Harvey é professor da Universidade da Cidade de Nova York (Cuny).

Edson Teles é professor de Ética e Direitos Humanos do curso de Pós-Graduação da Uniban.

Emir Sader é professor aposentado da FFLCH-USP e secretário-executivo do Clacso.

Giovanni Alves é professor da Unesp, campus de Marília.

Henrique Soares Carneiro é professor de História Moderna da USP.

Immanuel Wallerstein é pesquisador-sênior da Universidade Yale.

João Alexandre Peschanski é doutorando em Sociologia na Universidade de Wisconsin-Madison.

Mike Davis é professor na Universidade da Califórnia.

Slavoj Žižek é filósofo e psicanalista, professor da European Graduate School.

Tariq Ali é jornalista, escritor, historiador, cineasta e ativista político.

Vladimir Safatle é professor do Departamento de Filosofia da USP.


Ficha técnica
Título: Occupy
Subtítulo: movimentos de protesto que tomaram as ruas
Autores: David Harvey, Edson Teles, Emir Sader, Giovanni Alves, Immanuel Wallerstein, João Alexandre Peschanski, Mike Davis, Slavoj Žižek, Tariq Ali, Vladimir Safatle.
Apresentação: Henrique Soares Carneiro
Quarta capa: Leonardo Sakamoto
Páginas: 88
ISBN: 978-85-7559-216-8
Preço: R$ 10,00 [preço ebook: R$ 5,00]
Editora: Boitempo e Carta Maior
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2011: o ano da rebeldia global



Por Erick da Silva


Se pudéssemos resumir o ano de 2011 a uma única palavra, ela seria protesto. Não houve lugar no mundo que os protestos não se fizeram ecoar. As mobilizações foram uma resposta dos povos a crise econômica iniciada em 2008. Crise que prolonga-se com um final incerto.
A crise não foi um evento “inexplicável”, mas sim resultado do esgotamento do sistema econômico vigente. O neoliberalismo acelerou um processo de desregulamentação do sistema financeiro e de assombrosa concentração de riqueza. Hoje, os vinte maiores bancos do mundo entrelaçam o mercado global formando um poder financeiro superior ao de dezenas de países. As dez maiores empresas gestoras de fundos de investimentos controlam a assombrosa soma de US$ 17,4 trilhões, uma riqueza 20% superior ao PIB dos EUA e cerca de oito vezes a do Brasil.
O foco gerador da crise segue intocável até o momento, a incapacidade de respostas efetivas aos cruéis efeitos da crise tem colocado os países ricos em um verdadeiro “beco sem saída”. Os protestos ao redor de todo o mundo, tendo a juventude a frente, recolocaram a perspectiva de mudanças na agenda política, fugindo a simples "gestão da crise" que os governos dos países ricos tem adotado. O grito por mudanças coloca-se como um imperativo necessário.
A “Primavera Árabe”, derrubando as ditaduras de Ben Ali na Tunísia e Hosni Mubarak no Egito, serviram como um vitorioso exemplo que espalhou-se por um conjunto de países do norte da África e do Oriente Médio. Em Madrid, uma multidão de “indignados” ocupou o centro da capital espanhola, a Porta do Sol, e rapidamente espalhou-se por outras cidades, causando um profundo impacto na conjuntura política da Espanha. 
A Europa, em profunda crise econômica, virou um grande turbilhão de manifestações de rua contra este estado coisas. A mobilização em rede, tendo o auxílio da internet (redes sociais, blogs, sites, etc.), como elemento de divulgação e organização das ações foram um elemento inovador. Não mudaram apenas a capacidade de comunicação entre os diferentes indignados de todos a Europa, mas foram uma resposta a crise da própria esquerda europeia. Partidos sociais-democratas e socialistas europeus, diretamente responsáveis pelo atual estado de coisas, encontram-se em um estado de esgotamento político.
Como bem apontou Vladimir Safatle, "em Túnis, Cairo, Tel Aviv, Santiago, Madri, Roma, Atenas, Londres e, agora, Nova York, eles foram às ruas levantar pautas extremamente precisas e conscientes: o esgotamento da democracia parlamentar e a necessidade de criar uma democracia real, a deterioração dos serviços públicos e a exigência de um Estado com forte poder de luta contra a fratura social, a submissão do sistema financeiro a um profundo controle capaz de nos tirar desse nosso "capitalismo de espoliação".
O caráter espontâneo, e muitas vezes contraditório, compõe a paisagem dos protestos globais e é, ao mesmo tempo, sua virtude e limite. Virtude por ter um caráter amplo, horizontal, com capacidade de ousadia que, em outra configuração talvez não fosse possível e que explica a capacidade de crescimento e adesão que os “indignados” e "acampados" tem angariado ao redor do mundo. Mas também se coloca como um limite, na medida que dificulta (em alguns casos até inviabiliza) a construção de alternativas e ações politicas imediatas, que interfiram e incidam na conjuntura. Exemplo disso, o anseio de mudanças e crítica ao sistema político espanhol dos indignados, ainda que tenha demonstrado uma força inédita viu a direita vencer as eleições.
Ainda não está claro quais serão os rumos que este movimento terá e nem a forma que ele deverá evoluir no médio prazo. O certo é que este "movimento" representou uma positiva mudança na conjuntura global. Ainda longe de ter força suficiente para promover profundas e necessárias mudanças, ele por si só já é vitorioso, ao romper com a apatia e falta de soluções para a crise global. Não há dúvidas que uma nova e importante perspectiva se abre e que ela poderá ser decisiva para as grandes transformações que o mundo necessita. Se o ano de 2011 foi o ano da rebeldia e do protesto em rede, que 2012 seja o inicio de uma nova fase destes protestos. 
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Alan Moore fala sobre máscaras de V de Vingança em protestos pelo mundo

Um manifestante vestindo a' máscara em Madrid no 15 de Outubro. Fotografia: Action Press / Rex Features

Escritor discute sua criação que tornou-se como um emblema proeminente do ativismo moderno

De Wall Street a Atenas, nos movimentos "ocupem" em todo o mundo, manifestantes usando a máscara de Guy Fawkes - exatamente como criada por Alan Moore e David Lloyd em V de Vingança, clássica HQ de futuro distópico publicada nos anos 80. 
Ainda que a HQ tenha tido grande repercussão e seja quase uma unanimidade como um dos grandes momentos dos quadrinhos contemporâneos, foi após o lançamento da adaptação para o cinema, uma produção que Joel Silver fez (muito mal) em 2006, que o personagem, ou melhor a máscara inspirada em Guy Fawkes se popularizou. Inicialmente a réplica de plástico foi produzida como souvenir  pela Warner Bros para promover o filme e foram entregues em exibições. Nos últimos anos ativistas começaram a usar as máscaras em manifestações políticas. Seja para esconder sua identidade (caso do grupo Anonymous, que atua principalmente via internet). ou nas ruas, junto aos movimentos "Ocupar" deste ano - em Nova York, Moscou, Rio, Roma e em milhares de lugares - assim como nas repetidas ações contra o governo em Atenas e nos protestos realizados nos encontros e conferências do G20 e do G8.
A máscara tem estado sempre presenteJulian Assange recentemente saiu vestindo uma , e na semana passada houve uma espécie de embalsamamento oficial da máscara, como um símbolo do sentimento popular, quando Shepard Fairey alterou o seu famoso "Esperança (imagem famosa na para a campanha presidencial de Barack Obama) para retratar um manifestante vestindo uma, como forma de questionar o apoio do presidente ao Occupy.
Moore já havia se pronunciado que estava contente em ver o símbolo que ajudou a criar se espalhando pelo mundo, e com o propósito que tem. Mas o jornal The Guardian ligou para ele para saber mais do que ele pensa sobre a máscara hoje. 
Moore é conhecido por ser um homem reservado, com cabelos grisalhos e uma barba knotty, que prefere viver sem uma conexão à Internet e que quando está envolvido em algum trabalho não assiste televisão por meses em sua casa, "em um ponto obscuro" de sua cidade natal, Northampton. Ele ainda não havia comentado devidamente sobre o fenômeno da máscara do Vingança.
Diferente de Frank Miller, Moore sempre tendeu notoriamente para as políticas de esquerda. Explicando o seu processo criativo, comenta: "Acho que quando estava escrevendo V de Vingança, lá nas profundezas do meu eu, posso ter pensado: não seria ótimo se estas ideias tivessem algum impacto? Então quando você vê essa vã fantasia entrar no mundo real... É uma coisa peculiar. Parece que um personagem que criei há 30 anos deu um jeito de escapar da ficção."
"Aquele sorriso é tão assustador", diz Moore. "Eu tentei usar a natureza enigmática do mesmo para efeito dramático. Poderíamos mostrar uma imagem do personagem de pé ali, em silêncio, com uma expressão que poderia ter sido agradável, alegre ou mais sinistros." Bem como a máscara, os manifestantes do "Ocupar Wall Street" assumiram como slogan "Somos os 99%", como referência a insatisfação com o 1% mais rico da população dos EUA ter controle tão vasto sobre o país. "E quando você tem um mar de máscaras V, eu suponho que faz os manifestantes parecem ser quase um único organismo - este "99%" que tanto ouvimos sobre isso em si é formidável eu posso ver porque os manifestantes.. têm levado a ele. "
Moore disse que começou a ver a máscara sendo utilizada em protestos de rua em 2008, pelo grupo Anonymous. Na época, achou que ela era interessante para os manifestantes protegerem sua identidade contra a Igreja da Cientologia, "já que eles são conhecidos por processar todo mundo".
Mas com a crescente popularidade da máscara, Moore percebeu que a máscara tem seu um apelo maior do que a proteção da identidade: "Ela transforma os protestos em performances. A máscara é dramática; ela cria uma sensação de romance e drama. Manifestações, marchas, são coisas que podem ser bem cansativas, exaustivas. Desanimadoras, até. Precisam acontecer, mas isso não quer dizer que são divertidas - e deveriam ser. (...) [Com as máscaras,] parece que esse pessoal está se divertindo. E a mensagem que passam com isso é muito forte."

Quanto ao fato da máscara ser um produto licenciado da Warner Bros. - a corporação dona da DC Comics e que retém os direitos sobre V de Vingança, e que segundo o Guardian vendem mais de 100 mil máscaras por ano -, Moore diz adorar a ironia. "É meio vergonhoso para uma corporação tirar lucro de protestos anti-corporativos. Não é uma coisa à qual eles gostariam de ser associados. Mas eles não são do tipo que negam dinheiro - vai contra o instinto deles. Vejo mais graça do que aborrecimento nisso."

Enquanto David Lloyd já participou de uma manifestação em Nova York para ver as máscaras que desenhou em uso, Moore diz que seria "meio estranho, não?" ele vestir uma máscara de V. Mas apoia os movimentos: "Provavelmente seria melhor as autoridades aceitarem esta nova situação, que é a história acontecendo. A história acontece em ondas. Geralmente é melhor pegar a onda, não tentar fazer ela voltar. Espero que os líderes mundiais percebam." afirma em tom otimista.
Informações: Guardian, BBC, Wikipedia e Omelete

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EUA: 'Ocupar Wall Street' reage em todo o país





Mais de 30 mil desfilam em Nova York sobre a ponte do Brooklyn, numa jornada que teve mobilizações em cidades como Los Angeles, Las Vegas, Boston, Washington, Dallas, e Portland.








Por Esquerda.Net



Milhares de pessoas participaram na noite desta quinta-feira em Nova York numa manifestação sobre a ponte do Brooklyn, que culminou uma jornada de protestos do movimento "Ocupar Wall Street", que marcou também o segundo mês de existência do movimento.
Durante a tarde, ativistas tentaram bloquear o acesso à Bolsa de Nova York, impedindo o seu funcionamento. A polícia prendeu quase 200 manifestantes para evitar a ação e permitir pelo menos a passagem dos funcionários de Wall Street.
A jornada de protestos contra a ganância do sistema financeiro foi marcada também por manifestações em cidades como Los Angeles, Las Vegas, Boston, Washington, Dallas, e Portland.
Na última terça-feira, uma ação policial retirou à força manifestantes que estavam acampados há dois meses no Parque Zuccotti, em Nova York, após uma ordem do presidente da câmara, Michael Bloomberg, que alegou razões sanitárias e de segurança.
"Somos indestrutíveis, um mundo diferente é possível", cantava a multidão sobre a ponte, uma das construções emblemáticas de Nova York, enquanto os motoristas buzinavam para mostrar apoio. A mobilização contou com o apoio de sindicalistas e estudantes que desfilaram da Union Square até à Foley Square, a poucos metros da ponte.
Um ponto alto do protesto ocorreu quando a manifestação atingiu o meio da ponte, na altura do arranha-céus da Verizon, considerado o edifício mais feio da cidade. Nessa altura, começou uma projeção gigante sobre as paredes do prédio onde se podia ler: “Somos os 99%”, “Ocupar Wall Street”, “Ninguém consegue nos parar”, “Outro mundo é possível”.
No total, mais de 300 ativistas foram detidos durante a jornada.
Na próxima segunda-feira, o movimento anuncia oficialmente uma iniciativa de recolhimento de um milhão de assinaturas de estudantes dispostos a não pagar os empréstimos universitários até que se façam reformas no sistema financeiro. A dívida média de um estudante que se licencia em Nova York é de 25 mil dólares.
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Juventude Indignada: "Eles sabem o que fazem"



Por Vladimir Safatle 


Um dos mantras preferidos daqueles que chegam aos 40 anos é: os jovens de hoje não têm grandes ideais, eles não sabem o que fazem.


Há algo cômico em comentários dessa natureza, pois os que tinham 18 anos no início dos anos 90 sabem muito bem como nossas maiores preocupações eram: encontrar uma boa rave em Maresias (SP), aprender a comer sushi e empregar-se em uma agência de publicidade. Ou seja, esses que falam dos jovens atuais foram, na maioria das vezes, jovens que não tiveram muito o que colocar na balança.

Por isso, devemos olhar com admiração o que jovens de todo o mundo fizeram em 2011.

Em Túnis, Cairo, Tel Aviv, Santiago, Madri, Roma, Atenas, Londres e, agora, Nova York, eles foram às ruas levantar pautas extremamente precisas e conscientes: o esgotamento da democracia parlamentar e a necessidade de criar uma democracia real, a deterioração dos serviços públicos e a exigência de um Estado com forte poder de luta contra a fratura social, a submissão do sistema financeiro a um profundo controle capaz de nos tirar desse nosso "capitalismo de espoliação".

Mas, mesmo assim, boa parte da imprensa mundial gosta de transformá-los em caricaturas, em sonhadores vazios sem a dimensão concreta dos problemas. Como se esses arautos da ordem tivessem alguma ideia realmente sensata de como sair da crise atual.

Na verdade, eles nem sequer têm ideia de quais são os verdadeiros problemas, já que preferem, por exemplo, nos levar a crer que a crise grega não seria o resultado da desregulamentação do sistema financeiro e de seus ataques especulativos, mas da corrupção e da "gastança" pública.

Nesse sentido, nada mais inteligente do que uma das pautas-chave do movimento "Ocupe Wall Street". Ao serem questionado sobre o que querem, muito jovens respondem: "Queremos discutir".
Pois trata-se de dizer que, após décadas da repetição compulsiva de esquemas liberais de análise socioeconômica, não sabemos mais pensar e usar a radicalidade do pensamento para questionar pressupostos, reconstruir problemas, recolocar hipóteses na mesa. O que esses jovens entenderam é: para encontrar uma verdadeira saída, devemos primeiro destruir as pseudocertezas que limitam a produtividade do pensamento. Quem não pensa contra si nunca ultrapassará os problemas nos quais se enredou.

Isso é o que alguns realmente temem: que os jovens aprendam a força da crítica. Quando perguntam "Afinal, o que vocês querem?", é só para dizer, após ouvir a resposta: "Mas vocês estão loucos".
Porém toda grande ideia apareceu, aos que temem o futuro, como loucura. Por isso, deixemos os jovens pensarem. Eles sabem o que fazem.

*Artigo publicado originalmente na Folha de SP.

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O sucesso fantástico do Ocupar Wall Street





Por Immanuel Wallerstein



O movimento Ocupar Wall Street – por enquanto é um movimento - é o acontecimento político mais importante nos Estados Unidos desde as mobilizações de 1968, das quais é descendente directo ou continuação.
Nunca saberemos com segurança porque começou nos Estados Unidos neste momento – e não três dias, três meses, três anos mais cedo ou mais tarde. As condições estavam lá: um crescente e agudo sofrimento económico não apenas para os realmente miseráveis, mas para um segmento cada vez maior de trabalhadores pobres (também conhecido como “classe média”); exagero incrível (exploração, ganância) dos 1% mais ricos da população dos EUA (“Wall Street"); o exemplo das explosões de indignação em todo o mundo (a "Primavera árabe", os indignados espanhóis, os estudantes chilenos, os sindicatos de Wisconsin, e uma longa lista de outros). Não importa realmente qual foi a faísca que ateou o fogo. O certo é que começou.
No primeiro estágio – os primeiros dias – o movimento era um punhado de audaciosos, na maioria jovens, que estavam a tentar manifestar-se. A imprensa ignorou-os totalmente. Até que alguns estúpidos capitães da polícia pensaram que um pouco de brutalidade poria fim às manifestações. Foram filmados, e o filme tornou-se viral no YouTube.
Isso trouxe-nos para o estágio dois – a publicidade. A imprensa já não podia ignorar inteiramente os manifestantes. Tentou então a condescendência. O que é que esses jovens tolos e ignorantes (e algumas mulheres mais velhas) sabiam de economia? Tinham algum programa positivo? Eram "disciplinados"? As manifestações, disseram-nos, cedo iriam fracassar. O que a imprensa e os poderes constituídos não contavam (eles nunca parecem aprender) é que o tema do protesto repercutisse amplamente e pegasse rapidamente. Cidade após cidade, começaram “ocupações” semelhantes. Começaram a aderir desempregados de 50 anos. Celebridades fizeram o mesmo. Assim como os sindicatos, incluindo nada menos que o presidente da AFL-CIO. Por esta altura, a imprensa fora dos Estados Unidos já começava a acompanhar os acontecimentos. Perguntados sobre o que queriam, os manifestantes responderam: "justiça". Mais e mais pessoas começaram a achar que essa resposta tinha sentido.
Chegámos então à terceira fase – a legitimidade. Académicos de certa reputação começaram a sugerir que o ataque a "Wall Street" tinha alguma justificação. De repente, a principal voz da respeitabilidade centrista, o The New York Times, publicou um editorial em 8 de Outubro onde afirmava que os manifestantes tinham, efectivamente, "uma mensagem clara e propostas políticas específicas" e que o movimento era "mais do que uma revolta juvenil". E o Times prosseguia: “A desigualdade extrema é a marca de uma economia desfuncional, dominada por um sector financeiro impulsionado tanto pela especulação, pela extorsão e pelo apoio estatal, quanto pelo investimento produtivo." Uma linguagem forte para o Times. O Comitê da Campanha Democrata no Congresso começou então a fazer circular uma petição pedindo aos apoiadores do partido que declarassem: “Estou com os protestos Ocupar Wall Street."
O movimento tornara-se respeitável. E com a respeitabilidade veio o perigo – fase quatro. Um grande movimento de protesto que vingou enfrenta em geral duas grandes ameaças. Uma é a organização de uma contra-manifestação significativa da direita nas ruas. Eric Cantor, o líder republicano do Congresso, de linha dura (e bastante astuto) já apelou, na verdade, a que isso fosse feito. Estas contra-manifestações podem ser bastante ferozes. O movimento Ocupar Wall Street precisa estar preparado para isto e pensar numa forma de lidar ou conter essas iniciativas.
Mas a segunda e maior ameaça vem do próprio sucesso do movimento. À medida que atrai mais apoio, amplia a diversidade de pontos de vista entre os manifestantes ativos. O problema aqui é, como sempre é, como evitar o Cila* de ser um culto estreito que se iria perder, devido à sua base reduzida, e o Caríbdis1 de deixar de ter coerência política por ser muito amplo. Não existe uma fórmula simples para evitar qualquer destes extremos. É difícil.
Quanto ao futuro, o movimento pode ir de vento em popa. Pode ser capaz de fazer duas coisas: forçar a reestruturação de curto prazo do que o governo fará realmente para minimizar o sofrimento que as pessoas estão, obviamente, a sentir intensamente; e concretizar uma transformação de longo prazo da forma como grandes segmentos da população americana encaram a realidade da crise estrutural do capitalismo e as grandes transformações geopolíticas que estão a ocorrer, porque estamos a viver num mundo multipolar.
Mesmo que o movimento Ocupar Wall Street começasse a definhar devido ao cansaço ou à repressão, já conseguiu um enorme sucesso e vai deixar um legado duradouro, tal como as mobilizações de 1968. Os Estados Unidos mudaram, e numa direção positiva. Como diz o ditado, “Roma não foi construída num dia.” Construir um novo e melhor sistema-mundo, um novo e melhor EUA, eis uma tarefa que exige esforço constante de sucessivas gerações. Mas um outro mundo é realmente possível (embora não inevitável). E nós podemos fazer a diferença. O Ocupar Wall Street está a fazer a diferença, uma grande diferença.
Comentário nº 315, 15 de Outubro de 2011
Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net
*A expressão «Entre Cila e Caribde» (Grande Dicionário Enciclopédico da Verbo, 1997) ou «entre Cila e Caríbdis» (Dicionário de Frases Feitas, de Orlando Neves, 1991) é uma forma invulgar que corresponde à tão conhecida «entre a espada e a parede» e que representa a sensação de se estar «num dilema, em perigo iminente, em grande dificuldade». Esta expressão deve-se a uma realidade de grande perigo por que passavam os marinheiros quando passavam no estreito de Messina, pois ao fugirem do Caribde (um turbilhão que aí se formava), iam muitas vezes contra Cila, rochedo pouco distante da costa de Itália. Por isso também existe a expressão «fugir de Cila para cair em Caribde» para exprimir a ideia de «evitar um perigo e cair noutro maior» (Grande Dicionário Enciclopédico, in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa)
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15 de Outubro em Porto Alegre: uma mobilização por mudanças globais




O sábado, 15 de outubro, foi marcado por um grande protesto global contra a crise e por mudanças no sistema. O grito dos “indignados” por uma democracia real ecuou por todo o mundo. Foram 1000 cidades em 92 países espalhados por todos os continentes.
Em um conjuntura em que a crise econômica, iniciada em 2008, atinge situações alarmantes, golpeando duramente os países europeus, tendo o seu prolongamento nos EUA e atingindo ao restante do mundo, uma mudança no cenário começa a se gestar. Com os efeitos da “primavera árabe”, as grandes mobilizações de massa na Europa (Espanha, Grécia, Portugal, Itália, Inglaterra, etc.), as mobilizações estudantis no Chile e nos EUA com a Ocupação de Wall Street, este ano de 2011 está sendo marcado pelo desencadear de uma nova fase das mobilizações sociais. A saída da crise passa a ser buscada não mais pelos desacreditados governos dos países ricos ou pelas instituições financeiras, mas sim a partir do próprio povo, ou como dizem na Ocupação de Wall Street, somos os 99% da população buscando alternativas que o 1% mais rico as negaram .
Porto Alegre, cidade que protagonizou experiências ricas e inovadoras para a esquerda mundial, somou-se ao grito dos indignados por mudanças globais. Mais de 2 mil pessoas marcharam do Parque da Redenção até a Praça da Matriz, em frente ao Palácio Piratini (sede do governo estadual).  




A composição do ato contou com uma grande diversidade de opiniões e posições políticas que mobilizaram as pessoas para o ato.  Movimentos sociais, militantes de partidos de esquerda, grupos autônomos, indivíduos indignados, tendo espaço até para alguns conservadores que tentaram se associar ao ato, atendendo aos malfadados apelos midiáticos. É importante frisar que, inquestionavelmente a imensa maioria estava lá conectada ao movimento por mudanças globais. Neste sentido, qualquer semelhança com o Fórum Social Mundial não é mera coincidência. 
Muitos manifestantes aproveitaram o espaço para resgatar as bandeiras de "um outro mundo possível" como alternativa a crise do capitalismo. Vozes estas que defenderam a volta do Fórum Social Mundial para Porto Alegre.
A tomada da Praça da Matriz, o acampamento instalado, os debates e as atividades culturais que ocorreram, fizeram o ato simbolicamente vitorioso. Pessoas que nunca haviam participado de nenhuma organização social encontraram neste espaço um canal para se engajar e expressar seu desejo por mudanças.
Os jovens indignados tem se utilizado da internet (e das redes sociais em especial) como elemento de organização e mobilização. A amplitude destes protestos só é compreendida a partir da velocidade na troca de informações, nos efeitos simbólicos que estes protestos tem produzido ao redor do mundo e na capacidade de aglutinar uma diversidade de indivíduos e coletivos críticos com os rumos da sociedade. Esta diversidade tem conseguido atuar de forma minimamente convergente nestes protestos.
A conjuntura do Brasil, e da América Latina, guarda particularidades e diferenças com relação a Europa, os EUA e com os países Árabes.  Mas está sintonizada por mudanças qualitativas na política. “Democracia real já”, como gritaram os jovens acampados na Espanha, talvez seja o que melhor sintetiza o clamor da juventude brasileira por mais participação direta e transparência na política.
Inegavelmente é um “movimento” ainda bastante difuso, com seu desenvolvimento incerto, mas que carrega grandes potencialidades. Muitos já percebem que, não temos apenas uma crise econômica, mas sim uma crise do próprio capitalismo. Adquirir um caráter antissistêmico, aprofundando a visão anticapitalista deste movimento é um desafio colocado. Mas uma certeza já se coloca: as respostas para a crise mundial só serão possíveis se emergirem das ruas!



Foto: Dj Vivi Reis
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