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Robert Fisk: Não houve vitória de Israel
Por Robert Fisk
Bom, de fato, Hamas, o horrível, sem escrúpulos e terrorista Hamas que nós (isto é o Ocidente, Tony Blair, Israel, Estados Unidos e todos os homens e mulheres honrados) não queremos nem sequer mencionar que saiu vitorioso.
Israel disse que o Hamas tem que ser desarmado. Não foi desarmado. Israel disse que devia ser esmagado, destruído e erradicado, e não foi nem esmagado nem destruído nem erradicado. Os túneis serão arrasados, proclamou Israel, mas não foi assim. Todos os mísseis serão confiscados, mas não foram. Morreram 65 soldados israelenses e para quê? Do subsolo, literalmente, trepou na terça-feira a liderança política do Hamas (e da Jihad Islâmica) cujos irmãos participaram nas conversas de paz no Cairo, muito contra a vontade de Israel, Estados Unidos e Egito.
Boaventura: a extinção do Estado de Israel
Acusemos Israel
Podem simples cidadãos de todo o mundo organizar-se para propor em todas as instâncias de jurisdição universal possíveis uma ação popular contra o Estado de Israel no sentido de ser declarada a sua extinção, enquanto Estado judaico, não apenas por ao longo da sua existência ter cometido reiteradamente crimes contra a humanidade, mas sobretudo por a sua própria constituição, enquanto Estado judaico, constituir um crime contra a humanidade? Podem. E como este tipo de crime não prescreve, estão a tempo de o fazer. Eis os argumentos e as soluções para restituir aos judeus e palestinianos e ao mundo em geral a dignidade que lhes foi roubada por um dos atos mais violentos do colonialismo europeu no século XX, secundado pelo imperialismo norte-americano e pela má consciência europeia desde o fim da segunda guerra mundial.
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ERick
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8/25/2014
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Artistas palestinos transformam fumaça das bombas em imagens de resistência
Enquanto o conflito na faixa de Gaza parece não encontrar o caminho da paz, artistas locais se mobilizam através da arte. A fumaça de explosões vista em algumas imagens de guerra na Palestina ganhou um toque de criatividade e foi transformada em outras figuras, por meio de desenhos feitos por Tawfik Gebreel, Bushra Shanan e Belal Khaled.
As sobreposições respondem às crises no país e procuram enviar uma mensagem humanitária universal, com o uso de símbolos de esperança e outros desenhos, que prestam homenagem aos mortos durante o conflito, à resistência e rebeldia.
Sabe quando ficamos olhando as nuvens em busca de figuras? A ideia partiu disso, seguindo os contornos exatos das fumaças. Só que, neste caso, a busca por conforto e até uma certa fantasia é ainda maior, servindo como um refúgio em meio à guerra e um grito de esperança.
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ERick
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8/01/2014
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No olhar do menino palestino a síntese do horror em Gaza
Por Erick da Silva
Navegando pela rede, me deparei com a foto acima, que de alguma forma sintetiza todo o horror vivido em Gaza. O olhar desta criança, perdido no horizonte, desesperançoso, com uma pilha de cadáveres as suas costas, diz muito sobre as recentes agressões militares de Israel contra o povo palestino na Faixa de Gaza.
Eduardo Galeano: Pouco a pouco, Israel está apagando a Palestina do mapa
Por Eduardo Galeano
Para justificar-se, o terrorismo de Estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe álibis. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo os seus autores quer acabar com os terroristas, conseguirá multiplicá-los.
Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem sequer respirar sem autorização. Têm perdido a sua pátria, as suas terras, a sua água, a sua liberdade, tudo. Nem sequer têm direito a eleger os seus governantes. Quando votam em quem não devem votar, são castigados. Gaza está sendo castigada. Converteu-se numa ratoeira sem saída, desde que o Hamas ganhou legitimamente as eleições em 2006. Algo parecido tinha ocorrido em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador.
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ERick
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7/22/2014
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Robert Fisk: A verdadeira história de Gaza
Por Robert Fisk
OK, só nessa tarde, o escore de dois dias de mortes é 40 mortos palestinos e nenhum morto israelense. Passemos agora à história de Gaza de que ninguém falará nas próximas horas.
É terra. A questão é terra. Os israelenses de Sderot estão recebendo tiros de rojões dos palestinos de Gaza, e agora os palestinos estão sendo bombardeados com bombas de fósforo e bombas de fragmentação pelos israelenses. É. Mas e como e por que, para início de conversa, há hoje 1 milhão e meio de palestinos apertados naquela estreita Faixa de Gaza?
Noam Chomsky: Barbárie em Gaza
Por Noam Chomsky
Às três da madrugada (horário de Gaza), de 9 de julho, em meio ao último exercício de selvageria de Israel, recebi um telefonema de um jovem jornalista palestino em Gaza. Ao fundo, podia ouvir o lamúrio de seu filho pequeno, entre sons de explosões de jatos, atirando sobre qualquer civil que se mova e sobre casas. Ele acabava de ver um amigo, num carro claramente identificado como “imprensa”, voar pelos ares. E ouvia gritos ao lado de sua casa, após uma explosão — mas não podia sair, ou seria um alvo provável. É um bairro calma, sem alvos militares – exceto palestinos, que são presa fácil para a máquina militar de alta tecnologia de Israel, abastecida pelos Estados Unidos. Ele contou que 70% das ambulâncias haviam sido destruídas e, até aquele momento, mais de 70 pessoas [o número subiu para 120 na sexta, 11/7, segundo o Guardian] haviam sido mortas e 300 feridas – cerca de 2/3, mulheres e crianças. Poucos ativistas do Hamas, ou instalações para lançamento de foguetes, haviam sido atingidas. Apenas as vítimas de sempre.
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ERick
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7/14/2014
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Quando Jerusalém de 2014 faz lembrar Berlim de 1933
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| Jornalista israelense escreve: cenários não são iguais, mas surto de ódio antipalestino estimulado por Telaviv envergonha história judaica |
Os velhos jornais no Ocidente não terão coragem de publicar essa matéria. Críticas muito duras ao governo israelense vêm da própria imprensa liberal do país. Precisam ser conhecidas, para que setores interessados em paz e justiça no Oriente Médio saibam que podem encontrar apoio em importantes setores da sociedade israelense. Talvez estejam ainda apáticos, por se sentirem isolados em meio à manada que segue a propaganda oficial e a mídia, hegemonizada pelos setores mais sectários (o diárioHaaretz, onde foi publicado o texto a seguir tem 10% dos leitores; os demais jornais são controlados por magnatas estrangeiros da mídia conservadora).
O artigo faz analogias entre o ambiente de histeria em Israel, estimulado de forma oportunista por políticos da direita, e o que a Alemanha respirou, nos estágios iniciais do nazista. A publicação de artigos como esse em Israel, embora chocantes, pode ser vista com esperança de que setores existentes na própria sociedade israelense poderão, um dia, virar o jogo. Mas isso só ocorrerá se houver também forte pressão internacional.
Trata-se de salvar Israel do fascismo, do isolamento internacional, e de estabelecer entre este país e os palestinos bases para um futuro de paz e boa vizinhança, única forma de ambos escaparem da tragédia humanitária que avança no Oriente Médio. (Sérgio Storch)
Hannah Arendt, o sionismo e a banalização do mal
Por Claudio Daniel
“Em 11 de maio de 1960, às seis e meia da tarde, quando Eichmann desembarcou, como sempre, de um ônibus que o trouxe para casa de seu lugar de trabalho, ele foi agarrado por três homens e, em menos de um minuto, jogado dentro de um carro que estava à espera, e que o levou para uma casa alugada num subúrbio remoto de Buenos Aires.Não foram usadas drogas, nem cordas, nem algemas, e Eichmann reconheceu imediatamente que se tratava de um trabalho profissional, uma vez que não foi usada nenhuma violência desnecessária; ele não foi ferido. Ao lhe perguntarem quem era, ele respondeu instantaneamente: Ich bin Adolf Eichmann” (Arendt, 2013: 262).
Nesta breve passagem, a filósofa alemã Hanna Arendt descreve o rapto do outrora poderoso obersturmbannfuhrer (tenente-coronel) da SS Adolf Eichmann por um comando de agentes do Mossad (o serviço secreto israelense), que o levaram a Tel Aviv para ser julgado por crimes contra a humanidade. A ação israelense gerou controvérsia, uma vez que foi realizada sem comunicação prévia às autoridades argentinas e sem autorização formal do país, que não tinha tratado de extradição com Israel e que já abrigara diversos criminosos nazistas em passado recente, entre eles o tristemente célebre dr. Josef Mengele, responsável por macabras experiências médicas no campo de extermínio de Auschwitz.
A Palestina vai ao Oscar. E é detida no aeroporto
Por Baby Siqueira Abrão
Emad Burnat, diretor de "5 Broken Cameras" [5 câmeras quebradas], filme indicado ao Oscar de melhor documentário estrangeiro, foi detido na noite de 19 de fevereiro ao desembarcar no aeroporto de Los Angeles, Califórnia, para participar da festa do cinema de Hollywood. Ele, a esposa Soraya e o filho Gibril, de 8 anos – que também participam do filme –, foram levados para uma área fechada nas dependências do aeroporto e submetidos a interrogatório. Segundo as autoridades de imigração, Emad não tinha em seu poder o “convite apropriado para o Oscar”, seja lá o que isso for.
Emad enviou uma mensagem, pelo celular, a Michael Moore, o polêmico documentarista de "Tiros em Columbine", "Fahrenheit 11 de setembro" (filme que questiona a versão oficial do atentado ao World Trade Center) e um dos diretores da Academia de Hollywood. Moore denunciou a detenção a seus 1,4 milhão de seguidores no Twitter e acionou o pessoal da Academia, que por sua vez contatou advogados para cuidar do caso. “Pedi a Emad que repetisse meu nome várias vezes aos oficiais da imigração e que lhes desse meus números de telefone”, disse Moore. “Parece que eles não conseguiam entender como um palestino podia ter sido indicado ao Oscar”, completou, irônico.
Moore também deixou claro que faria o que estivesse a seu alcance para impedir a deportação que ameaçava a família Burnat. E foi bem-sucedido, porque uma hora e meia depois eles foram libertados. “Mas só poderão ficar em Los Angeles uma semana, até o Oscar”, esclareceu Moore. E, de novo com ironia, acrescentou: “Bem-vindos aos Estados Unidos!”
Para Emad, a detenção não é nenhuma novidade. “Quando se vive sob ocupação militar, sem nenhum direito, esse é um acontecimento diário”, declarou.
Em cena, a ocupação militar da Palestina
| No documentário, Emad mostra câmeras destruídas - Foto: Reprodução |
O filme "5 Broken Cameras" é o resultado de sete anos de trabalho de Emad, que comprou a primeira câmera quando Gibril nasceu e passou a registrar tudo o que acontecia em sua vila natal, Bil’in, na Cisjordânia, sob ocupação militar de Israel. Ajudado pelo israelense Guy Davidi, que esteve ao lado da resistência de Bil’in desde os primeiros dias, foi responsável pelo pós-roteiro de "5 Broken Cameras" e figura como codiretor, Emad fez um documento fundamental para a compreensão, pelo público externo, do cotidiano palestino sob ocupação. O título do filme faz referência às cinco câmeras que o exército israelense inutilizou ao atingi-las com tiros. Numa dessas ocasiões o equipamento salvou a vida do diretor – a câmera deteve a bala atirada na direção da cabeça de Emad.
Cineasta por acaso – e por necessidade
Emad Burnat nunca pensou em se tornar cineasta. Foi a necessidade de registrar a ocupação – para proteger os vizinhos, pois os soldados, receosos de um dia enfrentar o Tribunal Penal Internacional, evitam agir com muita violência diante das câmeras –, de mostrar ao mundo, pela internet, a realidade na Palestina, até poucos anos atrás oculta pela narrativa sionista, e de ter provas para apresentar aos tribunais de Israel, aos quais o exército conta histórias implausíveis mas levadas a sério, que levaram Emad a filmar.
Ele comprou sua primeira câmera em 2005, ano do nascimento de Gibril, para gravar seu crescimento e a vida em família. Mas era impossível limitar-se a temas domésticos numa vida sob ocupação militar. As incursões noturnas dos soldados, os ataques aos moradores durante as manifestações não violentas, as prisões, as invasões dos colonos, a construção do primeiro muro e seu desmantelamento em 2011, bem como a execução do segundo muro, tudo era muito impactante no cotidiano de Bil’in e merecia ser registrado.
Essa opinião era compartilha por Guy Davidi, professor de cinema, que em 2005 passou a ir com frequência à vila palestina e chegou a morar lá por alguns meses, para sentir como era viver sob ocupação. Guy produziu alguns curtas sobre Bil’in, onde filmou, entre 2005 e 2008, "Interrupted streams" [Fluxos interrompidos], sobre o confisco das fontes de água palestinas por Israel. Muitas vezes Emad e Guy filmavam juntos as manifestações, os ataques dos soldados, as detenções. Corriam os mesmos riscos. Tornaram-se amigos.
Foi ao longo desses anos que Emad começou a pensar em reunir seu material num longa-metragem sobre a resistência em Bil’in. Estimulado pela família, pelos amigos e por Guy, ele conseguiu tocar o projeto. Só não esperava o sucesso que se seguiu ao lançamento. Cineasta por intuição, Emad ganhou o respeito e a admiração de seus pares ao redor do mundo.
Referência ao Brasil e vários prêmios
Uma das cinco câmeras quebradas exibe um adesivo da bandeira brasileira, símbolo também presente na porta da casa da família Burnat, em Bil’in – um modo de demonstrar o carinho que eles sentem por nosso país. Soraya, esposa de Emad, é palestina criada no Brasil. O casal e os filhos mais velhos falam um português impecável e sem sotaque.
"5 Broken Cameras" é o primeiro filme palestino a concorrer a um Oscar. Além de muito elogiado pela crítica, vem tendo uma trajetória de sucesso em todo o mundo. Em 2012, foi indicado para o Asian Pacific Screen Award e ganhou o prêmio de melhor documentário no Jerusalem Film Festival; o de melhor diretor de documentário no Sundance (também foi indicado para o Grande Prêmio do Júri desse festival), nos Estados Unidos, e o Busan Cinephile, do Busan International Film Festival, da Coreia. Em 2011 recebeu o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio Especial do Público no International Documentary Film Festival Amsterdam (IDFA), na Holanda. A. O. Scott, crítico do The New York Times, considerou-o uma “comovente e rigorosa obra de arte”.
Ele tem razão. No documentário, com sensibilidade, Emad funde sua vida e a de sua família com a história da ocupação de Bil’in. É uma história comum à maioria dos milhões de palestinos que nasceram nos hoje dezenas de vilarejos – eram mais de 500 antes que os sionistas os tomassem à força, nos anos 1940 – que circundam as 11 cidades da Cisjordânia, compondo as regiões distritais daquela parte do Estado da Palestina.
Com texto de Guy Davidi e narrado por Emad, o filme nos conduz pelas belas paisagens de Bil’in, mostrando a chegada dos agrimensores israelenses para a medição das terras que seriam confiscadas; as reuniões entre os moradores e o pessoal do grupo Anarquistas Contra o Muro, de Israel, que conseguiu o mapa com o traçado do muro e se uniu aos bilainenses para boicotá-lo; os primeiros enfrentamentos com o exército israelense; as prisões, a progressão dos desafios e da violência; a consolidação da resistência; e o apoio internacional à luta não violenta de Bil’in.
Há cenas geniais, como a do grupo de moradores que barra o avanço dos soldados na área urbana da vila com instrumentos de percussão improvisados, numa “bateria” ruidosa e criativa. Há também cenas difíceis, em que Emad se vê obrigado a filmar a prisão dos irmãos e de um vizinho, um menino; e cenas trágicas, como o assassinato de Bassem Abu-Rahmah, o Fil, até aquele momento um dos líderes da resistência e um dos protagonistas do filme. A sequência é dolorosa, embora o público seja poupado das tomadas mais dramáticas.
| Filho de Emad entrega um ramo de oliveira a um soldado israelense |
O documentário leva o público a participar do cotidiano de Bil’in e a vivenciar um pouco do que significa estar submetido a uma ocupação militar. Trata-se de documento histórico, denúncia viva dos abusos cometidos pelo exército sionista. Por isso mesmo, a cena em que o pequeno Gibril, mal se sustentando em seus primeiros passos, oferece um ramo de oliveira a um dos soldados israelenses – que o aceita, com um sorriso culpado e sem jeito – surpreende e enternece. Num momento assim não há como deixar de questionar o mal que os sionistas têm feito aos seres humanos que vivem de um lado e de outro do muro. Não fossem eles, provavelmente palestinos de todas as religiões teriam continuado a conviver em harmonia na Palestina histórica. Os inimigos e a discórdia vieram de fora. Será possível neutralizá-los e resgatar a antiga harmonia, dessa vez juntando ao antigo grupo os cidadãos de Israel, como propõem palestinos e israelenses que defendem a existência de um único Estado, democrático e secular, com direitos iguais para todos?
O impacto nos jovens de Israel
É difícil responder a essa indagação sem levar em conta as alianças do sionismo e seu papel decisivo nas finanças internacionais, na indústria bélica e na tecnologia nuclear. O movimento praticamente domina os setores estratégicos sobre os quais se desenrola o teatro do mundo. É ele que cuida do caixa, do lucro, da produção e do roteiro do espetáculo. Por isso, o combate não se restringe à ação dos sionistas na Palestina. Ele se espalha cada vez mais, controlando governos, territórios e ramos de atividades nos cinco continentes.
Mas é em Israel que seu controle se estende a toda a sociedade. Lá, o sistema educacional garante apoio e submissão aos princípios sionistas nesta e nas futuras gerações. Assim, quem nasce em Israel aprende, desde a infância, que os palestinos são “árabes que vivem em território israelense” – e inimigos. A maior parte dos livros didáticos faz pouca referência à Palestina – nos mapas, por exemplo, Cisjordânia e Gaza são mostradas como território de Israel – e a sua história. A grande maioria dos jovens israelenses não sabe que seu país ocupa outro, e tem de seu exército uma visão heroica e romântica, fabricada pela propaganda sionista.
Contribui para essa ilusão um programa muito comum nos feriados e nos fins de semana em Israel: os pais costumam levar os filhos pequenos a locais onde são expostos equipamentos de guerra, que as crianças podem experimentar, e veículos nos quais elas entram e fingem controlar. Tudo sob o olhar complacente da família e diante das explicações de jovens soldadas e soldados. Para entender como essa indústria da violência funciona, assista ao vídeo produzido pelo israelense Itamar Rose.
Não é de admirar, portanto, que as crianças de Israel desenvolvam a ideia de que a solução de seus problemas – ou daquilo que lhes é ensinado como “problema” – passa pela via militar. Foi para desfazer essa crença que Guy Davidi decidiu mostrar "5 Broken Cameras" a um grupo de jovens em Israel e filmar suas reações. Suas expressões, durante a exibição do documentário, dizem muito sobre a revelação de como é a vida dos palestinos: indicam surpresa, choque, consternação, revolta, compaixão.
| Jovem palestino é retirado de sua casa por soldados israelenses |
Diante dessa experiência, Davidi resolveu elaborar um projeto maior: levar "5 Broken Cameras" ao público israelense em sessões que permitam reflexões e debates sobre a ocupação, a violência imposta aos palestinos de maneira direta e aos israelenses de modo indireto, o dia a dia dos cidadãos dos dois lados do muro, o próprio muro, o questionamento ao papel do exército e à ideologia dos soldados – que, como eu mesma pude comprovar nas muitas conversas que travei com eles, têm dos palestinos e dos árabes uma imagem deturpada, assimilada em uma existência inteira de educação dirigida e controlada. Conheça a surpreendente experiência de Guy Davidi com os jovens israelenses (link removido).
Será que a arte pode promover compreensão e tolerância, aproximando duas populações separadas pela agenda bélica e expansionista das autoridades sionistas? Será que a mudança necessária pode começar da base de ambas as sociedades, as únicas instâncias portadoras de legitimidade para isso? É uma aposta ousada, a dos diretores de "5 Broken Cameras". Aguardemos os resultados.
Quer assistir a 5 Broken Cameras?
A jornalista Baby Siqueira Abrão tem uma cópia do filme para exibir ao público brasileiro, com legendas em inglês. Se você quiser assisti-lo, reúna os amigos e entre em contato pelo e-mail babyabrao@hotmail.com. Ela levará a cópia até vocês, fará a tradução simultânea e, havendo interesse, pode contar sua experiência como correspondente na Palestina e moradora de Bil’in. A exibição, de acordo com pedido expresso de Emad Burnat, é gratuita.
O trailer oficial está aqui: http://www.kinolorber.com/5brokencameras/.
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"Governo israelense não representa o povo judeu", diz cartunista listado como antissemita
O trabalho do cartunista brasileiro Carlos Latuff está incomodando alguns, prova de que está no caminho certo!
A organização Simon Wiesenthal divulgou nesta quinta-feira (27/12) sua edição anual do ranking dos “10 maiores antissemitas” ao redor do mundo. O cartunista brasileiro Carlos Latuff aparece na terceira posição na lista de 2012 por conta de suas charges críticas à operação Pilar Defensivo, mais recente investida militar israelense na Faixa de Gaza.
"Crítica ou mesmo ataque a entidade política chamada Israel não é ódio aos judeus porque o governo israelense não representa o povo judeu, assim como nenhum governo representa a totalidade de seu povo”, escreveu ele em nota (veja a íntegra abaixo).
A organização Simon Wiesenthal divulgou nesta quinta-feira (27/12) sua edição anual do ranking dos “10 maiores antissemitas” ao redor do mundo. O cartunista brasileiro Carlos Latuff aparece na terceira posição na lista de 2012 por conta de suas charges críticas à operação Pilar Defensivo, mais recente investida militar israelense na Faixa de Gaza.
"Crítica ou mesmo ataque a entidade política chamada Israel não é ódio aos judeus porque o governo israelense não representa o povo judeu, assim como nenhum governo representa a totalidade de seu povo”, escreveu ele em nota (veja a íntegra abaixo).
Latuff diz que o lobby pró-Israel tenta associar questionamentos ao Estado de Israel com o sentimento antijudaico para criminalizar a manifestação de posturas críticas e confundir a opinião pública: “Nenhuma campanha de difamação vai fazer com que eu abra mão da minha solidariedade com o povo palestino”.
Conhecido internacionalmente por suas charges, o artista se aproximou da luta palestina no final dos anos 1990 quando viajou para o país e, desde então, imprime críticas à política israelense.
Conhecido internacionalmente por suas charges, o artista se aproximou da luta palestina no final dos anos 1990 quando viajou para o país e, desde então, imprime críticas à política israelense.
Abaixo da Irmandade Muçulmana do Egito e do líder iraniano Mahmoud Ahmadinejad, o artista brasileiro aparece em terceiro na lista, na frente de torcidas organizadas e partidos políticos neonazistas no ranking, que incluiu também o jornalista e editor alemão Jakob Augstein.
“Durante os conflitos recentes instigados pelo Hamas contra o Estado judaico, o brasileiro criticou Israel e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu por fazer o que qualquer outro líder mundial teria feito para proteger civis inocentes”, afirma o texto da organização.
A menção a Latuff é ilustrada por uma charge (veja ao lado) na qual o premiê aparece torcendo o corpo de uma criança palestina em cima de uma urna. A imagem faz referência às possíveis motivações políticas de Netanyahu, em plena campanha para a eleição legislativa marcada para 22 de janeiro, no ataque ao território palestino em novembro deste ano. A charge, no entanto, não tem nenhuma menção à religião judaica.
O desenho já havia sido criticado publicamente pelo rabino Marvin Hiers, fundador do Centro Simon Wiesenthal, quando foi divulgado pelo site norte-americano Huffington Post no mês passado. O ativista judeu acusou Latuff de “pior que antissemita” e pediu que o site retirasse a charge do ar.
“Estou no caminho certo”
O artista, que classificou sua colocação no ranking de “piada digna de filme de Woody Allen”, disse ao Opera Mundi se sentir “motivado” pelas críticas do centro judaico. “Se organizações do lobby pró-Israel estão incomodadas com minhas charges, é porque estou no caminho certo”, afirmou ele.
Ele lembra que o escritor português José Saramago, o ativista sul-africano Desmond Tutu e o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter, e muitos outros também sofreram com esse tipo de acusações: “Estou em boa companhia”.
Leia a nota do cartunista em resposta ao Instituto Simon Wiesenthal na íntegra.
| Cartum de Latuff |
A minha charge que acompanha o relatório mostra o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu tirando proveito eleitoral dos recentes bombardeios a faixa de Gaza (o ataque foi realizado a 2 meses das eleições em Israel). Em novembro desse ano, o rabino Marvin Hiers, fundador do Centro Simon Wiesenthal, me acusou publicamente na Internet de ser "pior que antissemita" por fazer tal crítica através do desenho.
Não é por acaso que meu nome foi citado junto com o de diversos extremistas e racistas. É uma estratégia do lobby pró-Israel associar de maneira maliciosa críticas ao estado de Israel com ódio racial/religioso, numa tentativa de criminalizar a dissidência.
Crítica ou mesmo ataque a entidade política chamada Israel não é ódio aos judeus porque o governo israelense NÃO representa o povo judeu, assim como nenhum governo representa a totalidade de seu povo. Essa não foi a primeira e nem será a última vez que tal incidente acontece, e por entender que tais acusações são orquestradas por quem apoia a colonização da Palestina, seguirei com minha solidariedade ao povo palestino."
Fonte: Opera Mundi
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Gaza ou a revisão da história
Por José Manuel Pureza
Há sessenta e quatro anos que Israel usa dois discursos para legitimar as suas intervenções nos territórios ilegitimamente ocupados da Palestina: um é o discurso da "eliminação definitiva do terror palestino"; o outro é o da "legítima defesa contra os ataques de que Israel é alvo". Ambos projetam uma revisão ardilosa da História.
Há sessenta e quatro anos que Israel anuncia a vitória definitiva contra os seus inimigos próximos. Para só citar dois momentos recentes, foi assim quando da guerra contra o Hezbollah em 2006 e foi assim de novo na Operação Chumbo Fundido, de 2008-2009, contra o Hamas. Em ambos os casos, o uso claramente desproporcional da força por Israel foi justificado como necessário para pôr fim definitivo às agressões continuadas pelo grupo pró-iraniano no Sul do Líbano ou do grupo dominante na Faixa de Gaza contra o Estado de Israel. Afinal, ambas as eliminações definitivas do terror foram um fiasco absoluto: os foguetes continuam a ser lançados de Gaza e o Hezbollah tem hoje um arsenal de mísseis e uma influência política no Sul do Líbano bem maiores do que os que possuía em 2006.
Falsa é igualmente a narrativa da resposta em legítima defesa. Cada violação dos sucessivos cessar-fogo é invariavelmente apresentada como simples retaliação de ataques anteriores e exteriores. Invariavelmente, Israel projeta dos palestinos a imagem de um povo que faz da agressão o seu modus vivendi, ao passo que Israel será uma vítima inocente que mais não faz do que defender-se. Para ajudar à composição do argumento, os palestinos atacam sempre com poucos mísseis mas maus e agressivos (neste caso, iranianos) e Israel defende-se sempre com muitos mísseis mas bons e defensivos (neste caso, norte-americanos de última geração).
Esta onda de violência que de novo atingiu os 1,7 milhões de pessoas presas no gueto de Gaza voltou a ser explicada da mesma forma enganosa. Faltou dizer, nessa narrativa para consumo preguiçoso, que Netanyahu e Liberman vão a votos em janeiro e que a aliança de governo entre os dois está longe de ter sondagens animadoras. E faltou dizer também que o assassinato do dirigente do Hamas, Ahmed Jabari, associado nesse momento às negociações de um acordo, foi o momento em que a guerra escalou vertiginosamente.
A aposta de Israel num clima de permanente crispação que lhe permita assegurar o apoio dos Estados Unidos e da União Europeia tem no rigor da História o seu grande inimigo. E a História tem três aspetos que nenhuma estratégia israelense de revisionismo conseguirá apagar: primeiro, a ocupação dos territórios palestinianos, contra o Direito Internacional, é a causa primeira e última do conflito; segundo, o povo da Palestina continua privado de ter um Estado, de ter comércio normal, de ter liberdade de movimentos, de ter dignidade; terceiro, a macabra bolsa de mortos (16 palestinos por cada israelense, tendo sido de 111 por 1 em 2009) é como todas as bolsas: alimenta-se a sim própria.
É por isso que este ataque contra Gaza não foi senão o último antes do próximo. Porque, haja calmaria ou não, atacar Gaza dá votos e legitima o imobilismo político de Tel Aviv. E sobretudo desvia a atenção da História real para uma História conveniente.
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Os novos ataques de Israel a Gaza e o silêncio da mídia
A cobertura "jornalistica" dos principais veículos de comunicação dos países ocidentais tem em comum uma incomoda hipocrisia. Como bem colocou o deputado português do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, "há 64 anos que sabemos que "equidistância", "isenção", "equilíbrio", "análise rigorosa", "objetividade" são outras tantas maneiras de dizer "cumplicidade". E, entrando-lhe essa verdade óbvia pelos olhos dentro, há quem insista."
Se resta alguma dúvida, assista a qualquer cobertura na TV ou nos grandes jornais e constate a "imparcialidade" pró-Israel. A contagem de corpos palestinos, vítimas dos ataques israelenses não para de crescer e a imprensa mostra como se houvesse um conflito entre "duas partes". Não é uma guerra entre dois povos, mas uma agressão unilateral de Israel, com uma força desproporcional que tem atingido a um número crescente de civis. Até o momento (18/11) já são mais de 80 mortos e 700 feridos o número de vítimas palestinas dos ataques de Israel.
O silencio midiático sobre mais esta agressão covarde persiste. Até quando?
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A próxima reviravolta no Oriente Médio
Por Immanuel Wallerstein
Ao analisarmos a geopolítica do Oriente Médio, qual deveria ser o foco principal? Há pouco consenso na resposta, mas ainda assim esta é a questão-chave. O governo israelense tenta, constantemente e de modo diligente, fazer com que o foco seja o Irã. A maior parte dos observadores vê neste esforço uma tentativa de desviar atenções de sua falta de vontade em buscar negociações sérias com a Palestina.
De qualquer maneira, o esforço israelense falhou espetacularmente. O primeiro-ministro Benyamin Netanyahu foi incapaz de conseguir que o governo norte-americano se comprometesse com o apoio a um ataque israelense a Teerã. E a habilidade do Irã de reunir a maior parte do mundo não-ocidental — incluindo Paquistão, Índia, China, Palestina e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon — em uma reunião do Movimento Não-Aliado (NAM, em inglês) esta semana, evidencia a impossibilidade política de os israelenses concentrarem a atenção no Irã.
No último ano, o centro das atenções voltou-se para a Síria, não o Irã, mesmo que haja uma ligação entre os dois. Os primeiros a lutar para isso foram a Arábia Saudita e o Catar. Tiveram considerável sucesso. Alguns observadores sentem que foi um esforço para desviar as atenções dos problemas internos da Arábia Saudita e da opressão anti-xiita praticada nos países do Golfo, especialmente Bahrein.
O foco na Síria, no entanto, está prestes a chegar ao fim, por duas razões. Em primeiro lugar, o governo e sua principal oposição, o Exército Livre Sírio, estão mais ou menos travados em seu combate militar. Não parece que nenhum dos lados seja capaz de destruir completamente o outro. Significa que o aquilo que se pode chamar hoje de guerra civil continuará por um período longo e indefinido.
Obviamente, o que poderia terminar rapidamente com a guerra é uma intervenção militar externa. Mas nem os Estados Unidos, Europa Ocidental, Turquia, Arábia Saudita nem mais ninguém está pronto a mandar tropas para a Síria. Estão dispostos apenas a fazer ameaças — e isso não é o bastante para acabar os conflitos.
Mas, em segundo lugar, há a reentrada espetacular do Egito na cena geopolítica. O país tem agora um governo dominado pela Irmandade Muçulmana. O presidente, Mohamed Morsi, parece construir uma agenda bem diferente da de seus precedentes. E Morsi mostrou ser um político muito mais capaz de manobras astutas do que se supunha. O jornal Le Monde registrou isto em um editorial intitulado: “O astuto e surpreendente Morsi.”
O presidente voou a Teerã para a reunião dos não-alinhados, parando em Beijing no caminho. Ao fazê-lo, adiou para setembro o convite de Obama para uma visita oficial aos Estados Unidos — um compromisso que visava evitar a viagem efetivamente realizada. Morsi alega que o objetivo de suas visitas é ajudar a resolver a questão síria.
Se era mesmo a Síria que estava em sua cabeça, ele tem um jeito curioso de demonstrar. Começou com uma proposta criativa — que o Egito juntasse forças com a Turquia, a Arábia Saudita e o Irã, para formar um grupo com a intenção de resolver os problemas políticos que dividem os dois grupos em luta da Síria. Isso é inclusive construtivo, mas certamente Morsi sabe que, pelo menos no momento, a rejeição da Arábia Saudita (e talvez da Turquia) é certa.
Então, por que ele se preocupou em fazer a proposta? Primeiro de tudo, é claro, ele procura posicionar tanto o Egito quanto a Irmandade Muçulmana na condição dos negociadores políticos mais poderosos do Oriente Médio. Nada incomodaria mais os sauditas, é claro. A centralidade egípcia os deslocaria desse papel; e entre eles e a Irmandade Muçulmana já há uma relação hostil histórica.
Em segundo lugar, tendo oferecido a proposta como uma “solução” para o problema sírio, Morsi está evidenciando que, por enquanto, não há saída para a questão. Isso prepara o terreno para a grande mudança — da Síria para a Palestina.
Devemos lembrar de duas coisas sobre a relação do Egito com Israel e a Palestina. Uma é que o Hamas foi fundado por membros da Irmandade Muçulmana. As ligações entre ambos são reais, ainda que o Hamas deseje ter um papel independente na região.
Mas além disso, e ainda mais importante, o pacto egípcio-israelense é muito, muitíssimo impopular no Egito. Morsi não está planejando rompê-lo. Sente — e provavelmente tem razão — que não é forte o bastante, nacional e internacionalmente, para fazer isso. E nem vê necessariamente, neste passo, grande vantagem para o Egito.
Porém, ele está certamente interessado em revisar os termos do pacto de modo relevante. Em particular, quer mudar as regras sobre como o Egito relaciona-se com a guerra na Palestina. Os egípcios vão continuar tentando mediar as diferenças entre a Autoridade Palestina e o Hamas. E certamente tentarão criar fronteiras mais abertas com Gaza. Depois, talvez ofereçam-se diretamente aos israelenses como intermediários honestos — reivindicando um papel que os Estados Unidos clamam ser sua propriedade exclusiva há algum tempo.
Parece ao menos um bom chute apostar que, em 2013, o Egito vai ter silenciado a discussão mundial sobre a Síria e assegurado que seja substituída por um debate internacional sobre a Palestina. Os israelenses demonstram estar profundamente contrariados. Os sauditas estarão marginalizados e, em seguida, precisarão afirmar mais vigorosamente suas credenciais pró-Palestina. E os Estados Unidos — seja seu próximo presidente Romney ou Obama — irão se encontrar em uma posição de muito pouca influência no que acontece, tanto em Israel/Palestina quanto no Egito, Arábia Saudita ou Irã.
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9/11/2012
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As ilusões fatais das potências decadentes
Por Immanuel Wallerstein
Blowback [algo como revertério, ou tiro pela culatra] é um termo criado pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA). Referia-se originalmente às consequências negativas não intencionais, infligidas a um país por suas próprias operações de espionagem. Por exemplo, se uma operação secreta da CIA levasse a um ataque de represália contra cidadãos norte-americanos que não estavam cientes da iniciativa, isso era considerado umblowback. Mas hoje, muitas operações não são secretas (por exemplo o uso de drones no Paquistão ou no Iêmen). E os ataques de represália são muitas vezes assumidos publicamente. No entanto, alguns países parecem não deixar de se envolver em tais operações.
Precisamos de uma definição mais útil de blowback, para explicar como e por que eles estão ocorrendo em muitos lugares. Penso que o primeiro elemento é que os países envolvidos com operações desse tipo são, sim, poderosos – mas menos poderosos do que se acostumaram a ser. Quando estavam no ápice de seu poder, podiam desprezar os blowbacks, por serem desdobramentos limitados e não-intencionais. Mas agora que são menos poderosos, as consequências não são tão reduzidas. Ainda assim, parecem sentir necessidade de lançar tais operações com ainda mais força e ainda mais abertamente.
Vamos analisar dois casos famosos de blowback. Um deles envolve os Estados Unidos. Nos anos 80, Washington queria expulsar o exército da União Soviética do Afeganistão. Para isso, apoiou os mujahidin. Um dos líderes mais famosos dos grupos que os EUA apoiaram era Osama Bin Laden. Assim que as tropas soviéticas se retiraram, Osama Bin Laden criou a Al-Qaeda e voltou-se contra os Estados Unidos.
Um segundo caso diz respeito a Israel. Nos anos 70, Telaviv considerava Yasser Arafat e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) seus principais oponentes. Buscando enfraquecer a organização, financiou-se um braço palestino da Irmandade Muçulmana, conhecido como Hamas. O Hamas cresceu, e de fato enfraqueceu a OLP de alguma forma. Mas em certo ponto, tornou-se um oponente mais efetivo ao Estado israelense que a própria OLP havia sido.
Hoje, todos sabem desses acontecimentos. Outros, envolvendo Grã-Bretanha e França, também poderiam ser citados, e a lista de países que sofreram blowbacks é ainda maior. Então, pergunta-se: por que eles continuam agindo de forma que parece enfraquecer seus próprios objetivos? Fazem isso exatamente porque seu poder está declinando.
Precisamos enxergar o tema como uma questão de temporalidade nas políticas de Estado. Osblowbacks ocorrem quando as potências em declínio envolvem-se em ações que, a curto prazo, alcançam os objetivos imediatos; mas, a médio prazo, apressam ainda mais o declínio – portanto, a longo prazo, são derrotas auto-impostas. A decisão mais óbvia das potências declinantes seria não reiniciar o ciclo. As operações secretas já não funcionam para alcançar os objetivos do país a longo prazo.
Voltando aos exemplos: será que o presidente Obama e o primeiro-ministro Netanyahu não entendem as consequências do que fazem? E se entendem, por que continuam essas operações, até mesmo vangloriando-se delas? Na realidade, penso que os dois chefes de governo, e também os serviços de inteligência dos dois países, entendem a ineficácia das operações. Mas eles enfrentam dilemas imediatos.
Primeiro, eles são políticos, interessados em permanecer no poder. Ambos enfrentam, em seus países, forças para as quais suas políticas não são suficientemente agressivas. E nenhum confronta-se com movimentos políticos fortes que reivindiquem uma revisão radical das políticas nacionais. Em outras palavras, a extrema direita é, nos dois países, muito forte; e a esquerda, mesmo que moderada, é fraca. A razão de fundo para isso é que a opinião pública não aceita, em nenhum dos dois países, a realidade do declínio relativo de poder.
O que os líderes podem fazer é esconder – até certo ponto – que empurram os problemas com a barriga. Mas como as atividades de inteligência tornaram-se, na prática, muito mais transparentes, eles só podem fazer isso por algum tempo. Quando a possibilidade se esgota, eles passam a acreditar que, para se manterem no poder no curto prazo, devem conservar políticas que, conforme sabem, não vão dar certo a longo prazo.
Há outra razão. Obama ainda não desistiu de um sonho impossível – restaurar a posição de hegemonia inquestionada dos Estados Unidos. E Netanyahu não desistiu de outra quimera – um Estado judaico-israelense muito ampliado, abrangendo as fronteiras do antigo Mandato Britânico na Palestina. E se eles não desistirem desses sonhos, certamente não poderão ajudar os cidadãos a entenderem as novas realidades geopolíticas do sistema-mundo e a própria realidade de que o poder de seus países está em declínio.
Tradução: Daniela Frabasile
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6/29/2012
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Chove mísseis em Gaza
Esta foto ilustra a realidade do conflito em Gaza e que os meios de comunicação não mostram. Na foto, vemos somente civis desarmados, há uma ambulância, ao fundo uma escola, edifícios residenciais e um hospital de Gaza. Enquanto uma chuva de mísseis caí dos céus e todos tentam, de alguma maneira, sobreviver.
Não há uma "guerra" com dois lados em condições mínimas de igualdade, mas sim, uma agressão covarde de Israel (que conta com um poderoso exército) contra o desarmado povo da Palestina.
Até quando?
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Não há uma "guerra" com dois lados em condições mínimas de igualdade, mas sim, uma agressão covarde de Israel (que conta com um poderoso exército) contra o desarmado povo da Palestina.
Até quando?
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Irã: o Iraque anunciado?
Por Dr. Rosinha
Há momentos de nossa vida que guardamos como se fossem fotografias. Ficam armazenados na caixa da nossa memória e, quando menos se espera, são lembrados.
Na solidão de uma leitura, de um debate ou de uma visita, abrimos a caixa para, solitariamente, revisitá-las. Ao ler que Hans Blix pediu o fim das ameaças contra o Irã, abri minha “caixa” de fotografias da visita que fiz ao Iraque, entre os dias 4 e 6 de fevereiro de 2003, pouco mais de um mês antes do início da invasão do país pelos Estados Unidos. Rapidamente passaram pela minha memória algumas fotografias de Bagdá:
1) Nos bares e restaurantes não se vendia nenhum tipo de bebida alcoólica. Portanto, não havia o alarido de bêbados ou “animados” pelo álcool em nenhum desses locais, e muito menos nas ruas.
2) Na rua, parei diante de um vendedor de frutas. Observava as frutas da região, frescas ou secas, que vendia. Sem emitir nenhuma palavra (não falo inglês e tampouco árabe), o homem estendeu-me um punhado de pistaches para eu comer.
3) Em outra ocasião, fiquei admirando um homem fazendo pão: com um forno de tijolos aquecido, ele estava enrolando a massa para, em seguida, com uma técnica própria, afiná-la e depois grudá-la no teto do forno. Pelo alto aquecimento do forno e pela textura (muito fina) da massa, o pão assava em menos de um minuto. Terminou de fazê-lo, recolheu-o e estendeu o braço oferecendo-me o pão.
4) Na frente de uma mesquita, havia uma sala com cerca de 20 homens sentados no chão. Todos com tesouras, agulhas, remendos, botões, etc., consertavam roupas. Cena nunca vista por mim. Querendo fazer uma foto, me fiz entender que era do Brasil. Antes de consentir sobre a foto, um deles gritou “Ronaldo” e outro, “Flamengo” (por que logo Flamengo?). Fiz a foto, mas a cena não me sai da memória.
5) Reunião com os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica, cujo ex-chefe foi Hans Blix. Esta reunião ocorreu no Hotel Canal, que sofreu um atentado em agosto de 2003, matando o brasileiro Sérgio Vieira Mello, funcionário da Organização das Nações Unidas (ONU). Nesta reunião, foi-nos dito com todas as letras: o Iraque não possuía armas de destruição massiva.
6) Em Bagdá, as crianças brincavam, corriam, frequentavam as escolas, olhavam para a minha barba e riam. As mais ousadas se aproximavam, passavam a mão na barba e corriam, rindo. Homens e mulheres andavam normalmente pelas ruas.
7) No centro de imprensa de Bagdá, jornalistas do mundo todo e parlamentares europeus e brasileiros assistíamos à exposição feita na sede da ONU por Colin Powell, então secretário de Estado dos EUA. Nosso objetivo era ouvir o militar norte-americano dizer onde o Iraque armazenava (escondia) as armas de destruição em massa. Após a sua fala, iríamos até o local. Na exposição, porém, ele não indicou local algum.
Hoje, me encho de interrogações.
1) Que fim levaram aquele vendedor de frutas que me presenteou com um punhado de pistaches e o que me deu o pão? Continuam vendendo frutas e assando pães? Esses homens são felizes como eram antes da invasão norteamericana? Que dores carregarão para sempre?
2) Quantos daqueles costureiros continuam vivos, conhecendo os jogadores brasileiros e torcendo pelos times do Brasil?
3) As crianças que riram ou passaram as mãozinhas na minha barba continuam vivas? Estão órfãs? As que sobreviveram, que lembranças carregarão para sempre?
Lula, como presidente do Brasil, visualizando a possibilidade de outra guerra, tentou um acordo tríplice (Brasil, Irã e Turquia) sobre o uso de energia nuclear pelo Irã. Foi duramente criticado pelos insensatos de direita (PSDB, DEM e PPS, aliados a setores da mídia) do Brasil e pelos interessados nas guerras, como EUA e Israel.
Cerca de dois anos depois da tentativa feita por Lula, Hans Blix dá o alerta e propõe uma solução negociada. Espera ele que uma reunião entre iranianos e representantes do P5+1 (China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Rússia e Alemanha) desmobilize a sanha guerreira de Israel e dos EUA. Entende Blix que é possível “sentar e sonhar com grandes soluções”.
Na questão do Iraque, os EUA não ouviram Hans Blix. EUA e Israel irão ouvi-lo agora? Tenho dúvidas, pois ambos são movidos economicamente pela guerra e, como donos absolutos da razão, preferem movimentar a economia interna a poupar vidas inocentes, como sempre fizeram e fazem.
Será o Irã, agora, o Iraque anunciado por Hans Blix e pelos homens e mulheres de bom senso?
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2/28/2012
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Assassinato seletivo: isso serve para provocar a guerra
Por Reginaldo Nasser
Esta circulando pelos blogs e redes sociais trecho de um programa de TV paga [Manhattan Conection, ver vídeo acima] em que um dos comentaristas, Sr. Caio Blinder, apóia o “assassinato” de cientistas que participam do “programa de enriquecimento de urânio do Estado Terrorista iraniano”. Argumenta que é “preciso matar gente agora” para evitar mais mortes do futuro, além do que, acrescenta, “você intimida outros cientistas”.
O tema já foi intensamente debatido nos EUA, em 2007, quando o professor de direito Glenn Reynolds criticou o presidente Bush por não fazer o suficiente para parar o programa nuclear iraniano (vejam só Bush acusado de ser soft demais!) e, em seguida, defendeu que os EUA deveriam assassinar líderes religiosos e cientistas nucleares iranianos com o objetivo de intimidar o governo do Irã. Portanto, se nos EUA a justificativa para esse tipo de crime não é algo incomum, no Brasil - salvo engano meu- é a primeira vez que aparece publicamente nos meios de comunicação e por isso julgo necessário tecer algumas considerações.
No dia 11 de janeiro de 2012, Ahmadi Roshan, engenheiro químico da usina de enriquecimento de urânio de Natanz, foi assassinado nas ruas de Teerã após explosão de uma bomba em seu carro. É mais um de uma série de acontecimentos similares. Em dezembro de 2011, sete pessoas morreram em uma explosão em Yazd. Em 28 de novembro, uma bomba explodiu nas instalações nucleares em Isfahan. Em 12 de novembro, 17 pessoas foram mortas por uma explosão perto de Teerã.. Em 29 de novembro de 2010, o cientista Shahriari foi morto da mesma forma como Roshan, com uma bomba plantada em seu carro. Em todos os casos as autoridades dos EUA e de Israel negaram veementemente qualquer envolvimento.
Mas qual é o problema? De forma declarada ou encoberta tanto EUA, como Israel, sempre adotaram a tática do assassinato seletivo. Desde 11 de setembro, o governo dos EUA tem realizado operações similares (“assassinatos seletivos”) mesmo fora dos campos de batalha do Afeganistão e do Iraque, como no Iêmen, Paquistão, Somália, Síria e possivelmente em outros lugares, causando a morte de mais de 2 mil supostos terroristas e de incontáveis vitimas civis. A justificativa está fundamentada numa autorização legal, aprovada na Câmara e no Senado, atribuindo ao Presidente o poder para adotar as medidas que julgue necessárias para impedir ou prevenir atos de terrorismo internacional contra os Estados Unidos.
É importante notar que até pouco tempo atrás a justificativa para assassinar civis pressupunha a participação direta desses nas hostilidades. Quando se diz que um assassinato seletivo é "necessário" entende-se que matar era a única maneira de evitar um ataque iminente. Mas no caso dos cientistas é praticamente impossível afirmar que matá-los era necessário para impedir o Irã de lançar um ataque nuclear iminente contra Israel ou qualquer outro país. A não ser que haja uma nova doutrina em formação: “assassinato seletivo preventivo”.
Voltando ao porta-voz brasileiro dos fundamentalistas norte-americanos, o Sr. Blinder, que é uma pessoa bem informada, sabe que além da quantidade e qualidade de urânio ou plutônio, a produção de armas nucleares também requer os meios para levá-las ao seu destino (mísseis e ogivas). Portanto, é um projeto que envolve grande quantidade de cientistas, engenheiros e operadores. Levando à extremidade lógica o argumento dos fundamentalistas, será preciso assassinar mais algumas centenas ou mesmo milhares de pessoas. Claro, com o nobre objetivo de evitar mais mortes! Aliás, 90% das mortes de norte-americanos no mundo ocorrem devido à utilização de armas e munições produzidas no próprio EUA.
Portanto, somos tentados a concluir que os responsáveis pela indústria bélica (armas leves) nos EUA deveriam ser assassinados, pois evitaria a morte de milhares de norte-americanos? A ser levada a sério essa proposta (assassinato de cientistas), não é improvável que os congressos científicos internacionais acabem se convertendo em um verdadeiro festival de tiroteios e bombas. Aliás, o suposto efeito da intimidação, pressuposto dessas ações, está gerando um efeito oposto. Cerca de 1.300 estudantes universitários iranianos pediram para mudar as suas áreas de estudo para o campo das ciências nucleares após o assassinato. Veja só Sr Blinder! Será preciso eliminar esses estudantes também porque um dia eles serão cúmplices do projeto nuclear iraniano!
Dentro da mesma linha de raciocínio o proprietário do Atlanta Jewish Times, Andrew Adler, pediu desculpas na semana passada depois de sugerir que o assassinato do presidente Obama era uma opção que deveria ser considerada pelo governo israelense, conforme relatado pelo Huffington Post. De acordo com Adler, Israel tem apenas três opções disponíveis para se manter seguro: 1. atacar Hezbollah e o Hamas, 2. destruir as instalações nucleares do Irã; 3. assassinar Obama!
Estranhamente o “assassinato seletivo” ocorreu três dias após a afirmação do secretario de Defesa dos EUA de que era improvável que os iranianos estivessem tentando desenvolver uma arma nuclear e no momento em que governo iraniano reiniciava as negociações com o grupo (P5 +1) para autorizar a realização de uma visita de delegados da Agência Internacional de Energia Atômica em seu pais.
Fica claro que o objetivo do assassinato dos cientistas é provocar uma forte reação da linha dura iraniana justificando, dessa forma, os famosos ataques preventivos. De acordo com reportagem na Foreign Policy, que teve acesso a memorandos elaborados pelo governo Bush, a Mossad usa as credenciais da CIA para recrutar membros da organização Jundallah (considerada terrorista pelo governo dos EUA) para lançar ataques contra o Irã. Como notou o analista internacional, Pierre Sprey, vivemos um daqueles raros e perigosos momentos da história, quando o “Big Oil” e os israelenses estão pressionando a Casa Branca na mesma direção. A última vez que isso aconteceu resultou na invasão do Iraque.
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ERick
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1/23/2012
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