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Wallerstein: Às vésperas de uma nova corrida nuclear


Como a hipocrisia dos tratados internacionais e o declínio moral dos Estados Unidos estão gestando risco de rearmamento atômico generalizado

Por Immanuel Wallerstein


Os Estados Unidos e o Irã estão envoltos em negociações difíceis sobre a possível obtenção, por Teerã, de armas nucleares. A probabilidade de estas negociações resultarem numa fórmula aceita por ambas as partes parece relativamente baixa, porque há, em ambos países, forças poderosas que se opõem frontalmente a um acordo e estão trabalhando com afinco para sabotá-lo.

Noam Chomsky - A maior ameaça à paz mundial


Por Noam Chomsky

Há alguns meses, ao informar sobre o debate final da campanha presidencial nos Estados Unidos, o The Wall Street Journal observou que “o único país mais mencionado (que Israel) foi o Irã, o qual a maioria das nações de Oriente Médio vê como a principal ameaça à segurança da região”.

Os dois candidatos estiveram de acordo em que um Irã nuclear é a maior ameaça à região, se não ao mundo, como Romney sustentou explicitamente, reiterando uma opinião convencional.

Sobre Israel, os candidatos rivalizaram em declarar sua devoção, mas nem assim os as autoridades israelenses se deram por satisfeitas. Esperavam “uma linguagem mais ‘agressiva’ de Romney”, segundo os repórteres. Não foi suficiente que Romney exigisse que não se permitisse que o Irã “alcance um ponto de capacidade nuclear”.

Também os árabes estavam insatisfeitos, porque os temores árabes sobre o Irã se “debateram sob a ótica da segurança israelense, não da região”, e as preocupações dos árabes não foram contempladas: uma vez mais, o tratamento convencional.

O artigo do Journal, como incontáveis outros sobre o Irã, deixa sem resposta perguntas essenciais, entre elas: Quem exatamente vê o Irã como a ameaça mais grave à segurança? O que os árabes (e a maior parte do mundo) acham que se pode fazer diante dessa ameaça, existindo ou não?

A primeira pergunta é fácil de responder. A ameaça iraniana é uma obsessão totalmente do Ocidente, compartilhada por ditadores árabes, embora não pelas populações árabes.

Como mostraram numerosas pesquisas, mesmo que os cidadãos dos países árabes em geral não simpatizem com o Irã, não o consideram uma ameaça muito grave. Na verdade percebem que a ameaça são Israel e Estados Unidos, e vários, muitas vezes maiorias consideráveis, veem nas armas nucleares iranianas um contrapeso para essas ameaças.

Em altas esferas dos Estados Unidos, alguns estão de acordo com a percepção das populações árabes, entre eles o general Lee Butler, ex-chefe do Comando Estratégico. Em 1998 ele disse: “É extremamente perigoso que, no caldeirão de animosidades que chamamos Oriente Médio”, uma nação, Israel, deva contar com um poderoso arsenal de armas nucleares, “que inspira outras nações a tê-lo também”.

Ainda mais perigosa é a estratégia de contenção nuclear da qual Butler foi o principal formulador por muitos anos. Tal estratégia, escreveu em 2002, é “uma fórmula para uma catástrofe sem remédio” e convidou os Estados Unidos e outras potências atômicas a aceitar os compromissos contraídos dentro do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e fazer esforços de “boa fé” para eliminar a praga das armas atômicas.

As nações têm a obrigação legal de levar a sério esses esforços, decretou a Corte Mundial em 1996: “Existe a obrigação de avançar de boa fé e levar a termo as negociações orientadas ao desarmamento nuclear em todos seus aspectos, conforme um controle internacional estrito e efetivo”. Em 2002, o governo de George W. Bush declarou que os Estados Unidos não estão comprometidos com essa obrigação.

Uma grande maioria do mundo parece compartilhar a opinião dos árabes sobre a ameaça iraniana. O Movimento de Países Não Alinhados (MNA) apoiou com vigor o direito do Irã de enriquecer urânio; sua declaração mais recente aconteceu na cúpula de Teerã, em agosto passado.

A Índia, membro mais populoso do MNA, encontrou formas de evadir às onerosas sanções financeiras dos Estados Unidos ao Irã. Executam planos para vincular o porto iraniano de Chabahar, recondicionado com assistência indiana, com a Ásia Central, através do Afeganistão. Também se informa que as relações comerciais se incrementam. Se não fosse pelas fortes pressões de Washington, é provável que estes vínculos naturais tivessem uma melhoria substancial.

A China, que tem estatuto de observadora no MNA, faz o mesmo, em boa medida. Expande seus projetos de desenvolvimento para o Ocidente, entre eles iniciativas para reconstituir a antiga Rota da Seda para a Europa. Uma linha ferroviária de alta velocidade conecta a China com o Cazaquistão e além. É provável que chegue ao Turcomenistão, com seus ricos recursos energéticos, e que se conecte com o Irã e se estenda até a Turquia e a Europa.

A China também tomou o controle do importante porto de Gwadar, no Paquistão, que lhe permite obter petróleo do Oriente Médio evitando os estreitos de Ormuz e Malaca, saturados de tráfico e controlados pelos Estados Unidos. A imprensa paquistanesa informa que “as importações de petróleo cru do Irã, dos estados árabes do Golfo e da África poderiam ser transportadas por terra até o noroeste da China através deste porto”.

Em sua reunião de agosto, em Teerã, o MNA reiterou sua velha proposta de mitigar ou pôr fim à ameaça das armas nucleares no Oriente Médio estabelecendo uma zona livre de armas de destruição em massa. Os passos nessa direção são, sem dúvida, a maneira mais direta e menos onerosa de superar essas ameaças, o que é apoiado por quase o mundo inteiro.
Uma excelente oportunidade de aplicar essas medidas se apresentou recentemente, quando se planejou uma conferência internacional sobre o tema em Helsinki.

Foi realizada uma conferência, mas não a que estava planejada. Só organizações não governamentais participaram da reunião alternativa, organizada pela União pela Paz, da Finlândia. A conferência internacional planejada foi cancelada por Washington em novembro, pouco depois que o Irã concordou em comparecer.

A razão oficial do governo Obama foi “a turbulência política na região e a desafiante postura do Irã sobre a não proliferação” segundo a agência Associated Press, junto a uma falta de consenso sobre como enfocar a conferência. Essa razão é a aprovada referência ao fato de que a única potência nuclear da região, Israel, se negou a comparecer, alegando que a solicitação para fazê-lo era “coerção”.

Aparentemente, o governo de Obama mantém sua postura anterior de que “as condições não são apropriadas, a menos que todos os membros da região participem”. Os Estados Unidos não permitirão medidas para submeter as instalações nucleares de Israel a inspeção internacional. Também não revelará informação sobre “a natureza e alcance das instalações e atividades nucleares israelenses”.

A agência de notícias do Kuwait informou imediatamente que “o grupo árabe de Estados e os estados membros do MNA concordaram em continuar negociando uma conferência para o estabelecimento de uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio, assim como de outras armas de destruição em massa”.

Recentemente, a Assembleia Geral da ONU aprovou, por 174 votos a seis, uma resolução na qual convida Israel a aderir ao TNP. Pelo não, votou o contingente acostumado: Israel, Estados Unidos, Canadá, as Ilhas Marshall, Micronésia e Palau.

Dias depois, em dezembro, os Estados Unidos realizaram um teste nuclear impedindo, uma vez mais, aos inspetores internacionais, o acesso ao local do teste, em Nevada. O Irã protestou, assim como o prefeito de Hiroshima e alguns grupos pacifistas japoneses.

Claro que, para estabelecer uma zona livre de armas atômicas, se requer a cooperação das potências nucleares: no Oriente Médio, isso incluiria os Estados Unidos e Israel, que se negam a cooperar. O mesmo acontece em outros lugares. As zonas da África e do Pacífico aguardam a aplicação do tratado porque os Estados Unidos insistem em manter e melhorar as bases de armas nucleares nas ilhas que controla.

Enquanto se levava a cabo a conferência de ONGs em Helsinki, em Nova York se realizava um jantar com o patrocínio do Instituto sobre Políticas sobre o Oriente Próximo, de Washington, ramificação do conselho israelense.
Segundo uma matéria entusiasta sobre essa “cerimônia” na imprensa israelense, Dennis Ross, Elliott Abrams e outros “ex-conselheiros de alto nível de Obama e Bush” asseguraram aos presentes que “o presidente atacará (o Irã) se a diplomacia não funcionar”: um presente de festas de fim de ano muito atrativo.

É difícil que os estadunidenses estejam cientes de como a diplomacia voltou a falhar, por uma simples razão: virtualmente não se informa nada nos Estados Unidos sobre o destino da forma mais óbvia de lidar com “a mais grave ameaça”: estabelecer uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio.

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A guerra santa da OTAN


A Guerra Santa do Ocidente contra o Oriente (versão original)

A secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton está ficando sem munição retórica, na Guerra Santa dos EUA contra a Síria. Talvez seja o estresse de declarar uma guerra da OTAN, pelas costas do Conselho de Segurança da ONU. Talvez, o estresse de ser almoçada e jantada, todos os dias, pelo ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov.
Hillary acaba de convocar “as potências ocidentais” e seus fantoches árabes – o CCGOTAN, aglomerado de Conselho de Cooperação do Golfo plus Organização do Tratado do Atlântico Norte, que ela apresenta como se fosse alguma “comunidade internacional” – para que “deixem claro que Rússia e China pagarão, por impedir o progresso” (da mudança armada de regime na Síria).

Em não-novilíngua, significa: “Se impedirem nossa nova guerra, haverá retaliação”.

Não obstante as gargalhadas ouvidas pelos corredores do Kremlin e do Zhongnanhai, a coisa mostra o quão desesperado está o conglomerado CCGOTAN para forçar a mudança de regime na Síria, a ser usado como meio para interromper a conexão privilegiada que liga o Irã ao mundo árabe. Isso tudo, enquanto o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan da Turquia – no comando do flanco oriental da OTAN – comicha de vontade de atacar a Síria, mas não encontra jeito de vender a ideia à opinião pública turca.

Nesse contexto incandescente, aparece WikiLeaks – que divulgou grande quantidade de mensagens de e-mail contra, simultaneamente, o sistema de Assad e os “rebeldes” da OTAN. Um dos efeitos colaterais possíveis, os e-mails talvez inspirem ondas de chamados “progressistas” em todo mundo, que se porão a defender a Guerra Santa contra a Síria. Efeito mais realista, talvez evidenciem o quanto, de fato, os dois lados são horríveis: tanto o estado policial de Assad quanto a oposição armada.
Soldados americanos da "nova" guerra santa

Explosão de carro de turismo: alguém se interessa? 

Útil, nesse momento, é examinar o preço que a própria Washington, para nem falar nos seus estados fantoches na OTAN, está pagando por tanto insistir esse neo-ramo de guerra santa guerreada contra – nada mais, nada menos – que o mesmo bando de “terroristas” que, até ontem, ameaçavam destruir a civilização ocidental, convertendo-a num Califato tamanho gigante.
Washington, Londres e Paris tentaram – duas vezes – arrancar do Conselho de Segurança da ONU a “licença” para mais uma guerra. Foram bloqueadas pela Rússia e pela China. O plano B, então, é esquecer a ONU e deflagrar guerra da OTAN. O problema é que a OTAN não tem estômago – nem dinheiro – para meter-se em guerra de alto risco contra país capaz de se defender.

Plano C: se nem A nem B, o plano C é apostar tudo numa longa guerra civil, usando para tal fim o Exército Sírio (nada) Livre, que pulula de mercenários e jihadis, e o bando exilados oportunistas que atende pela sigla de Conselho Nacional Sírio (CNS).

O CNS já pediu uma zona aérea de exclusão ao estilo líbio, sobre a Síria – expressão que é sinônima de “guerra da OTAN”. A Turquia também requisitou formalmente à OTAN a dita zona aérea de exclusão. Os comandantes da OTAN são incompetentes, mas até eles aprenderam alguma coisa com as grandes enrascadas em que se meteram e o correspondente embaraço que lhes causam (no Afeganistão, por exemplo). Responderam “não” aos pedidos do CNS e da Turquia.

Nada menos representativo que o Conselho Nacional Sírio e o Exército Sírio (nada) Livre. Os “Amigos da Síria” – “Hillary & seus Patetas” – nem tomam conhecimento da existência do Corpo Nacional de Coordenação para Mudança Democrática [orig. National Coordination Body for Democratic Change (NCB)], principal movimento de oposição verdadeira, composto de 13 partidos políticos, a maioria dos quais da esquerda, nacionalistas árabes e um partido curdo. Esse NBC denuncia insistente e firmemente todas as formas de militarização do conflito e desautoriza absoluta e radicalmente o Exército Sírio (nada) Livre.
 ministro de Relações Exteriores do Iraque, Hoshyar Zebari – que é curdo – alertou que jihadis salafistas de molde copiado da al-Qaeda estão-se mudando aos magotes para a Síria. Aparentemente, esses magotes ainda ouvem muito atentamente o que prega o ideólogo “invisível” da al-Qaeda, Dr. Ayman al-Zawahiri. Há cinco meses, al-Zawahiri deu ordem de marcha aos jihadis no Iraque, Jordânia, Líbano e Turquia. E acontece também que muitos deles estão recebendo armas – por diferentes redes – da Casa de Saud e do Qatar.

Já há meses, todos sabem que o Grupo de Combate Islâmico Líbio [orig. Libyan Islamic Fighting Group (LIFG)] de Abdul Hakim Belhaj, ligado à al-Qaeda, está ativo na Síria; como todos também sabem que há remanescentes da al-Qaeda no Iraque, responsáveis por explosões de carros até em Damasco.

No caso de uma Síria pós-Assad dominada por sunitas linha-dura infiltrados por jihadis wahhabitas e salafistas, a retaliação garantida fará a jihad antissoviética no Afeganistão pós-80’s parecer Disneylândia em Hong Kong.

Aceitam-se Yuan e Rublos

Quanto à China, ri do desespero de Hillary no caminho até o banco. Enquanto cresce a paranóia na Casa de Saud contra o que os sauditas veem como flerte de Obama com a democracia no mundo árabe, Pequim aquece as turbinas comerciais e entrega a Riad um buquê de novos mísseis.
E, enquanto o “ocidente” flerta com a Guerra Santa, as empresas estatais chinesas compram mercadorias feito doidas, por todo o Oriente Médio, Norte da África e América do Sul – além de ampliar seus estoques de terras raras nas reservas estratégicas. A China produz nada menos que 97% das terras raras do planeta – necessárias para tudo, de iPads àqueles novos mísseis que lá fritam hoje, sob o sol do deserto da Arábia.

Outros efeitos colaterais em matéria de “o preço a pagar” por atropelar a ONU e pela obsessão com a OTAN como Robocop global serão inevitáveis para os EUA. Não se deve esquecer que a Guerra Santa contra a Síria é pit stop na estrada para Teerã. Por exemplo: pode estar nascendo um novo sistema de seguro marítimo, além de um novo mecanismo de câmbio internacional – que ignorará o diktat do ocidente.

Mesmo assim, o elemento mais importante parece ser o movimento, de Rússia, Irã e China, para reorganizar o mercado global de energia, via transações que marginalizam o petrodólar.

Quer dizer: Washington corta o Irã do sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication)? O banco central iraniano contra-ataca: se vocês quiserem negociar conosco, podem pagar em qualquer moeda, exceto o dólar norte-americano; também aceitamos ouro.
Esse é o Santo Graal da Guerra Santa – não a Síria. Uma coisa, para Teerã, é aceitar euros em pagamento pelo óleo e gás iranianos; outra coisa é aceitar ouro. E, como se não bastasse, com pleno apoio de Rússia e China.

Em resumo: toda a síndrome da Guerra Santa está apressando o fim do dólar norte-americano como moeda global de reserva.

E então? Agora, acontecerá o quê? Uma Primavera Norteamericana? Ou as elite

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
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Como o Ocidente desdemocratizou o Oriente Médio



Por Irfan Ahmad, na Al-Jazira


Com o Oriente Médio em convulsão, disparada pela autoimolação de Mohamed Bouazizi em janeiro de 2011, é hora de perguntar que fim terá levado a pergunta que, por muito tempo dominou todo o discurso do Ocidente sobre o Oriente Médio: “O Islã é compatível com a democracia?” Por muitos anos, a resposta dominante foi “não”.


Dentre outros, Elie Kedourie, MS Lipset e Huntington defenderam essa ideia. Bernard Lewis, “o mais influente historiador do Islã e do Oriente Médio” no pós-guerra, que forneceu “a munição ideológica para a Guerra do Iraque”, foi quem mais falou na defesa dessa posição. O principal argumento desses todos foi que, ao contrário do Cristianismo, o Islã não separa religião e estado e, portanto, a democracia seria impossível nas políticas islâmicas. 

Aqui, argumento contra esse opinionismo, a partir de três pontos: 

Primeiro, a posição de que o Islã seria incompatível com a democracia sempre foi falsa, desde o início, porque foi usada para servir às ambições imperiais do Ocidente e, desde o início, desconsidera a autopercepção dos muçulmanos, para os quais o Islã é compatível com a democracia e, além disso, o Islã é uma das melhores ferramentas para a capacitação democrática dos povos para viverem sob democracia. 

Segundo, argumento que o discurso da ‘democratização do Oriente Médio’ é falso. não merece confiança, porque oculta e sempre ocultou os meios pelos quais, de fato, o Ocidente desdemocratizou o Oriente Médio. Minha posição é que, dos anos 1940s em diante, sempre houve experimentos democráticos em andamento no Oriente Médio; e o Ocidente sempre os subverteu com vistas a atender aos seus próprios interesses.

Apresento três exemplos de desdemocratização: 

1. o golpe arquitetado pela CIA contra o governo eleito da Síria em 1949; 
2. o golpe arquitetado por EUA e Reino Unido contra o Irã democrático em 1953; e 
3. a subversão da democracia no Barein, nos anos 1970s. 
 
E comento também as recentes desdemocratizações do Iraque e do Afeganistão, pelo Ocidente. 

Terceiro, explico que o Oriente Médio foi desdemocratizado, porque o Ocidente raramente o viu como conjunto de povos com história e texturas dinâmicas e socioculturalmente ricas. As elites ocidentais sempre viram Oriente Médio como região onde se acumulam ricos e variados recursos naturais, para onde convergem os interesses estratégicos ocidentais; daí que o objetivo do Ocidente sempre tenha sido manter o Oriente Médio “estável” e “manobrável”. 

Para Ernest Bevin, secretário do Exterior (1945-51) do Império Britânico, sem “o petróleo e outros recursos potenciais [do Oriente Médio], não há qualquer esperança de que algum dia alcancemos o padrão de vida que [desejamos] para o Reino Unido”. 

Irã: anatomia de uma revolução




Em 1953, um golpe apoiado por EUA e Reino Unido mudou o regime democraticamente eleito do Irã.

O falso debate 

A visão ocidental, segundo a qual o Islã seria incompatível com a democracia, tem raízes no Iluminismo que, diferente da sabedoria revelada, era carregado de preconceitos – e que, citando John Trumpbour, “atirou com a arma da islamofobia”. Assim, Alexis de Tocqueville dizia que o Corão enfatiza a fé, não os feitos heroicos, razão pela qual o Islã seria irreconciliável com a democracia. Em tempos de pós-2ª Guerra Mundial, Kedouri, Huntington, Lewis e outros exibiram diferentes versões desse argumento. 

Essa visão ocidental, contudo, várias vezes foi endossada por muçulmanos que acreditavam que o Islã e a democracia eram perfeitamente compatíveis. Já em 1912, o filósofo indiano Abul Kalam Azad (nascido em 1888) escrevia: “O Islã vê todas as formas de governo não constitucionais e não parlamentares como o maior dos pecados humanos.” Para o turco Mustafa Fazil Pasha (nascido em 1829), o Islã determinou o destino de cada um depois da vida, mas “não limita os direitos do povo”. Abdullah Abdurrahman da África do Sul (nascido em 1870) observou que, sem plena igualdade, “não pode haver e não há qualquer tipo de instituição democrática”. Sem precisar estender-nos nos exemplos, basta observar que a noção de soberania divina introduzida pelo indiano Maududi e por Qutb do Egito são complexos desenvolvimentos que só surgiram muito depois. 

Diferente da autopercepção dos muçulmanos, o debate sobre uma alegada incompatibilidade entre Islã e democracia prosseguiu no era pós-guerra. Encapsulado sob uma “modernização”, esse debate foi parte integrante da dominação ocidental sobre o Oriente Médio, porque o império mantém-se não só pela força bruta, mas também porque se apresenta a serviço de retóricas como a retórica da democracia. 

Nos EUA, isso tomou forma institucional em 1983, quando o governo criou o Fundo Nacional para a Democracia [orig. National Endowment for Democracy (NED)]. Embora atualmente a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional [orig. United States Agency of International Development (USAID)], estabelecida em 1961 por John F Kennedy, diga que os EUA “têm longa história de estender a mão para ajudar os povos em terras distantes que lutam para viver em país livre e democrático” e que a ajuda externa oferecida pelos EUA “sempre teve o objetivo de expandir a democracia”. Quando a USAID foi constituída, o objetivo não era promover a democracia, mas afastar o comunismo mediante desenvolvimento e ajuda econômica. 

Já em 1997, muito depois de constituído o NED, Fareed Zakaria – hoje editor-correspondente da revista Newsweek (e então diretor-administrativo da revista Foreign Policy) e apologista neorrealista das políticas dos EUA – ainda agredia a democracia, justificando as ações autoritárias dos ditadores no Oriente Médio, com o seguinte argumento: “Em muitas partes do mundo, como Tunísia, Marrocos, Egito e em alguns dos estados do Golfo, onde amanhã haverá eleições, os regimes que serão provavelmente eleitos serão ainda menos liberais que os que hoje estão no poder”. 

Nem Zakaria nem a USAID, contudo, dizem como os EUA, e seus aliados, entre os quais o Reino Unido, foram responsáveis, não pela promoção, mas pela destruição da democracia. Isso, precisamente, é o que quero dizer com “desdemocratização do Oriente Médio promovida pelo Ocidente”. Ofereço então alguns exemplos. 

Desdemocratização de Síria, Irã, Barein, Afeganistão e Iraque

Síria

O provavelmente primeiro cenário de desdemocratização foi a Síria. Coerentes com a lógica do colonialismo, como Reino Unido e França haviam desmembrado e dividido o Império Otomano para ali instalar o sistema do Mandado com a cobertura da Liga das Nações, a Síria caiu sobre domínio francês, do qual só se tornou independente em 1946. Ainda sob domínio dos franceses, houve eleições presidenciais na Síria, depois das quais um governo eleito (em eleições organizadas pelo princípio do voto universal masculino), liderado por Shukri al-Quwatly, chegou ao poder, para mandato de cinco anos, iniciado em agosto de 1943. O governo sírio, depois da independência, era governo constitucional e legitimado por princípios democráticos. 

Em março de 1949, os EUA organizaram um golpe de estado contra o governo de al-Quwatly, para instalar no poder um governo militar, presidido pelo coronel Husni al-Zaim. A partir de pesquisa em documentos só agora liberados para consulta pública, sabe-se já sem qualquer dúvida que Stephen Meade, agente da CIA, teve papel central na montagem daquele golpe. Meade encontrou-se pelo menos seis vezes com al-Zaim. Para Miles Copland, diplomata dos EUA em Damasco, al-Zaim era um dos “America’s boy”.

Os EUA desdemocratizaram a Síria, porque o governo democrático de al-Quwatly era nacionalista e não aceitou viver sob ordens dos EUA. Ele informou Washington que a Síria não aceitaria nenhuma política que ameaçasse a segurança e a soberania do país, mesmo que isso implicasse “desafiar a América”. Dentre várias exigências, os EUA queriam que a Síria cumprisse pelo menos duas, o que o coronel al-Zaim fez rapidamente e alegremente. Al-Zaim legitimou Israel, assinando um armistício; e ratificou o projeto do oleoduto TAPLINE (Trans-Arabian Pipeline Company), que permitiu à empresa ARAMCO (Arabian-American Oil Company) bombear petróleo saudita através da Síria, até o Mediterrâneo. Antes, o parlamento sírio já rejeitara as duas demandas, pelo que se sabe, dentre outras razões, porque o Ocidente e os EUA apoiavam a partição da Palestina e a criação de Israel e apoiavam Israel na guerra árabe-israelense de 1948. 

Entre 1949, quando foi derrubado o governo democrático de al-Quwatly, e 1955, foram organizados mais cinco golpes. As bases de sustentação da desdemocratização da Síria não poderiam ser mais fortes. 

Irã 

O segundo grande teatro de desdemocratização foi o Irã, cujo governo eleito foi derrubado, em 1953, por uma aliança EUA-Reino Unido. Mohammad Mossadegh era primeiro-ministro eleito do Irã. Tinha o apoio do parlamento iraniano para o seu programa de nacionalização. EUA e Reino Unido organizaram um golpe, posto em prática pela CIA, para depor Mossadegh – porque o Irã recusou-se a assinar concessões de petróleo para o ocidente. Durante a 2ª Guerra Mundial, o Reino Unido assumiu o controle militar no Irã, para impedir que fornecesse óleo à União Soviética, aliada do Irã. Através da empresa Anglo-Iranian Oil Company, o Reino Unido continuou a controlar o petróleo iraniano, mesmo depois da guerra. 

Mossadegh, formado na França, era altamente contrário à drenagem dos recursos iranianos para o ocidente. Pouco depois de eleito primeiro-ministro, em março de 1951, Mossadegh e sua aliança da Frente Nacional, cuidaram de nacionalizar o petróleo iraniano e tirar os campos de petróleo do controle estrangeiro. Uma das refinarias nacionalizadas foi a de Abadan, naquele momento a maior que havia no mundo. 

A Reino Unido retaliou e impôs sanções econômicas, apoiada em sua massiva presença naval na região. Mossadegh não cedeu; quanto mais resistia, mais aumentava sua popularidade entre os iranianos. Ante a resistência de Mossadegh, a alianço Reino Unido-EUA organizou e executou o golpe para “mudar o regime” de Mossadegh. 

O Chile relembra o seu 11 de Setembro 

O golpe de 1953 no Irã teve ecos significativos também para a América Central e América do Sul. De fato, daquele momento em diante, passou a ser modelo de mudança de regime. Apenas um ano depois, em 1954, como o New York Times observou em 2000, a CIA organizou e executou outro golpe bem sucedido na Guatemala. E a CIA, sem dúvida possível, arquitetou e executou o 11 de Setembro, não o 11 de Setembro sobre o qual sempre se pensa, mas o 11 de Setembro de1973. Naquela ocasião, a CIA derrubou o governo democrático de Salvador Allende no Chile, para substituí-lo pela ditadura do general Pinochet, que governou, com brutalidade raras vezes vistas no mundo, por 17 longos anos.

Barein

Outro teatro de desdemocratização ativa no Oriente Médio foi o Barein, ex-protetorado britânico. Em 1971, o Barein tornou-se independente. Em dezembro de 1973, houve as primeiras eleições (voto universal masculino) para eleger os 30 membros da al-majlis al-watani, a Assembleia Nacional. Essa assembleia desafiou a autoridade sem qualquer controle constitucional da família al-Khalifa que governava o Barein desde 1783. Um dos principais desafios ao poder do clã apareceu sob a forma de exigência de que os EUA deixassem imediatamente a base naval dos EUA que há no Barein. 

Deve-se observar que os EUA permanecem no Barein desde 1949. Depois que as tropas britânicas retiraram-se de lá, a presença norte-americana aumentou. Legalmente, a assembleia do Barein tinha pleno direito de exigir que a Marinha dos EUA se retirasse daquela base. Mas o al-Khalifa que estava no poder dissolveu a Assembleia, dia 26 de agosto de 1975. E nunca houve lá qualquer democracia, até 2002. Inúmeras vibrantes instituições sociais civis, como todos os sindicatos, foram esmagadas.

Bem evidentemente, os EUA não estavam preocupados com as vozes e as aspirações democráticas do povo do Barein; aos EUA só preocupavam seus próprios interesses, naquele caso, manter lá aquela base militar. O almirante Crow justificou tudo isso, dizendo que “baseada em princípios gerais (...) a Marinha [EUA] não deseja abandonar um local onde já está fixada”. Pode-se dizer que, nesse caso, não houve intervenção “externa” e que a família al-Khalifa tomou decisão “soberana interna” de dissolver a Assembleia eleita. 

Verdade é que, no Oriente Médio (e por toda a parte) separar precisamente as linhas internas de externas de ação não é empreitada simples.

Afeganistão


A ação ocidental de desdemocratizar o Oriente prosseguiu no Afeganistão. Depois da queda do governo dos Talibã, aconteceu em Bonn, uma conferência patrocinada pela ONU para decidir o futuro do Afeganistão. O objetivo declarado foi implantar a democracia e a liberdade das mulheres no Afeganistão. Deixando sem comentar a questão de se os delegados afegãos convidados para ir a Bonn seriam representativos da população afegã, vale lembrar que o líder Abdul Satar Sirat, eleito por maioria de votos para liderar o governo de transição, foi descartado, e forçado a ceder o lugar a Hamid Karzai. Até a decisão de implantar a “democracia” no Afeganistão foi tomada por vias antidemocráticas e desdemocratizatórias. 

O objetivo não era implantar ali alguma democracia; o objetivo era implantar ali Karzai, “our man”, ansioso para atender ao que o ocidente exigisse. Uma década depois daqueles eventos, jornalistas como James Fergusson, autor de A million bullets e Taliban, reclama que Karzai “absolutamente não dá qualquer sinal de interesse pelos princípios democráticos”. 

Mas quem, afinal, estaria interessado em que Karzai desse algum sinal de interesse pelos princípios democráticos? O ex-primeiro ministro australiano John Howard, admitiu depois que o ocidente não desejava ver-se envolvido na reconstrução do Afeganistão, nem no processo de ‘construir-nação’ nesses locais confusos e difíceis. No Afeganistão, o principal objetivo eram as intervenções “cirúrgicas”. 

Iraque 

A história da desdemocratização foi semelhante, também no Iraque. Depois da invasão ocidental no Iraque, com a queda do governo em Abril de 2003, muita gente, em locais tão diferentes como Mosul (cidade curda), Samara (cidade de maioria árabe sunita), Hilla e Najaf (ambas cidades xiitas) e também em Bagdá, organizaram reuniões espontâneas, locais, pensando em eleger representantes que organizassem a reconstrução, a segurança, a provisão de uma infraestrutura essencial. 

Foi iniciativa popular e democrática no melhor sentido da palavra. Mas os EUA distorceram todas essas iniciativas democráticas, fazendo anular as decisões e os planos dos representantes eleitos dos vários conselhos populares; e, para substituí-los impuseram gente (não eleita) de confiança dos EUA, inclusive vários membros do (ex-) Partido Baas. 

O “porquê” da desdemocratização 


Por que o ocidente desdemocratiza o Oriente Médio? Desdemocratiza, penso eu, porque as elites do poder ocidental veem a região como terra sem qualquer textura sociocultural diversa e dinâmica, como terra que é, só, repositório de inúmeros recursos e interesses estratégicos. Por isso, o ocidente só pensa em manter o Oriente Médio “estável” e “manobrável”. 

Em 1984, Robert W Stookey, destacado membro do serviço diplomático dos EUA (com postos no Oriente Médio e um doutorado em ciência política), publicou The Arabian Peninsula: Zone of Ferment, editado pela Hoover Institution da Stanford University. Os livros publicados pela Hoover Institution eram “preocupados com o envolvimento dos EUA na política regional e mundial”. Stookey começa assim a Introdução do seu livro: “Considerando a significação econômica e estratégica de nossos interesses nacionais, a península Arábica ainda não é bem conhecida do público em geral.” E foi assim, no quadro conceitual dos interesses nacionais dos EUA, que ele tornou o Oriente Médio “conhecido” ao seu público ocidental. A Arábia Saudita, observou Stookey, está na “posse de um quarto das reservas de petróleo do mundo não comunista”; a Arábia Saudita, como também o Kuwait, são locais “com petróleo”. Os (então) dois Iêmens, por sua vez, são locais “sem petróleo”. É bem evidente que o Oriente Médio só tem algum sentido para Stookey, como espaço que se divide em áreas “com” e áreas “sem” petróleo. 

Essa conceitualização do Oriente Médio foi articulada pelo Reino Unido imperial, cujo vice-rei da Índia, Lord Curzon, escreveu, no século 19: “Turquestão, Afeganistão, Transcaspia, a Pérsia – para muitos, essas palavras só trazem um senso de mundo remoto, ou uma lembrança de estranhas vicissitudes de romance moribundo. Para mim, confesso, são peças sobre um tabuleiro de xadrez sobre o qual está sendo jogado um jogo de dominação do mundo.” 

De fato, até a expressão “Oriente Médio” é, ela mesma, imperial. “Médio”, entre quais dois pontos de localização? E, sim, “oriental”, em relação a quê? Ao leste de onde? Claramente, é uma designação geográfica que põe o Oeste, o ocidente, no centro do mundo. No final do século 19, Alfred Mahan, oficial da Marinha dos EUA inventou a expressão “Oriente Médio” e usou-a em seu livro The Influence of Sea Power Upon History [A influência do poder naval sobre a história]. Halford Mackinder, liberal e imperialista britânico, popularizou, adiante, a expressão. 

Argumentei para demonstrar que a conversa segundo a qual o Ocidente estaria disseminando alguma democracia no Oriente Médio é conversa fiada. Contra o que o Ocidente diga, apontei aí vários casos em que se vê que o Ocidente continuamente opera no Oriente Médio para desdemocratizar, país após país. 

Como a Índia, a maior democracia do mundo, desinteressou-se quase completamente – e indiretamente passou a hostilizar – os movimentos democráticos no Butão e em Burma, assim também o ocidente tem sido em larga medida hostil a qualquer movimento de democracia genuína no Oriente Médio, e há muito tempo trata lá exclusivamente de seus próprios interesses – geopolíticos e estratégicos – mantendo por lá, sempre “estáveis”, só os Mubaraks e os Xás.

*É professor de Antropologia Política da Monash University, Austrália. É autor de Islamism and Democracy in India: The Transformation of Jamaat-e-Islami (Princeton University Press, 2009).

Fonte: Redecastorphoto. Traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

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Guerra pornô: O novo sexo seguro




O início do século 21 é viciado em guerra pornô, um nobre esporte consumido por ‘batatas’ globais, digitais e de sofá [o autor se refere aos couch potatoes, os espectadores passivos do mundo]. A guerra pornô assumiu o palco na noite de 11 de setembro de 2001, quando o governo de George W. Bush lançou a “Guerra ao Terror”– que foi interpretada por muitos dos seus praticantes como uma forma sutil de legitimação do terror de estado dos Estados Unidos predominantemente contra muçulmanos.
Era também a guerra DE terror — como manifestação de terror de estado, em que o poder high tech, urbano, basicamente enfrentou a astúcia rural. Os Estados Unidos não tinham o monopólio disso; Beijing praticou esta guerra na província [muçulmana] de Xinjiang e a Rússia praticou na Chechênia.
Como a pornografia, a guerra pornô não pode existir sem se basear em uma mentira — numa representação grosseira. Mas, diferentemente da pornografia, a guerra pornô é pra valer; em vez de figurantes em filmes grosseiros e baratos, na guerra pornô as pessoas morrem de verdade — e aos montões.
A mentira para acabar com todas as mentiras no centro desta representação foi definitivamente estabelecida com o vazamento de um memorando de 2005 da Downing Street [a sede do governo britânico], no qual o chefe do serviço secreto M16 confirmou que o governo Bush queria derrubar Saddam Hussein ligando o terrorismo islâmico a armas (inexistentes) de destruição em massa. Assim, como estava no memorando, “as informações de inteligência e os fatos estão sendo ajustados em torno da política”.
No fim, George “ou conosco ou contra nós” Bush estrelou em seu próprio super-pornô — que foi tanto a invasão quanto a destruição do flanco leste da nação árabe.
A nova Guernica
O Iraque pode ser visto como o Guerra das Estrelas das guerras pornô — uma apoteose de sequências. Considerem a segunda ofensiva contra Fallujah no final de 2004. Na época eu descrevi como a nova Guernica. Também tomei a liberdade de parafrasear Jean-Paul Sartre, que escreveu sobre a guerra [do colonialismo francês] na Argélia; depois de Fallujah nunca mais dois norte-americanos poderiam se encontrar sem um cadáver entre eles. Para citar o Apocalypse Now, do Coppola, havia corpos, corpos por todo lado.
O Francisco Franco de Fallujah foi Iyad Allawi, o premier instalado no Iraque pelos Estados Unidos. Foi Allawi quem “pediu” ao Pentágono para bombardear Fallujah. Em Guernica — assim como em Fallujah — não houve distinção entre civis e guerrilheiros: valeu a lei do “Viva la muerte!”.
Comandantes dos fuzileiros navais dos Estados Unidos disseram abertamente que Fallujah era a casa do Satã. Franco negou o massacre de Guernica e culpou a população local — assim como Allawi e o Pentágono negaram qualquer morte de civis e insistiram que os “insurgentes” eram culpados.
Fallujah foi reduzida a escombros, pelo menos 200 mil residentes se tornaram refugiados e milhares de civis foram mortos, para “salvá-la” (ecos do Vietnã). Ninguém na mídia corporativa ocidental teve colhões para dizer que, de fato, Fallujah foi a Halabja norte-americana.
Quinze anos antes de Fallujah, em Halabja, Washington foi a muito entusiasmada fornecedora das armas químicas para Saddam, que as usou para matar milhares de curdos. Na época a Central de Inteligência Americana (CIA) disse que não foi Saddam, mas o Irã de Khomeini. Ainda assim, foi Saddam e foi deliberado, assim como os Estados Unidos fizeram em Fallujah.
Médicos em Fallujah identificaram corpos inchados e amarelados sem ferimentos, assim como “corpos dissolvidos”– vítimas do napalm, o coquetel de poliestireno e combustível de jato. Os moradores que conseguiram escapar denunciaram bombardeios com “gases venenosos” e “bombas estranhas que soltavam fumaça como se fosse um cogumelo… depois disso pequenos projéteis voavam deixando para trás longas colunas de fumaça. Os pedaços daquelas estranhas bombas explodiam em chamas que queimavam a pele ainda que se atirasse água sobre ela”.
É exatamente o que acontece com pessoas bombardeadas por napalm ou fósforo branco. As Nações Unidas baniram o bombardeio de civis com napalm em 1980. Os Estados Unidos são o único país do mundo que ainda usam napalm.
Fallujah também resultou num mini hit pornô; a execução sumária de um homem iraquiano ferido, sem defesa, dentro de uma mesquita, por um fuzileiro naval dos Estados Unidos. A execução, capturada em vídeo e vista por milhões no You Tube, soletrou de forma clara as regras “especiais” de engajamento. Os comandantes dos fuzileiros navais, na época, diziam a seus subordinados para “atirar em tudo o que se move e em tudo o que não se move”; para dar “dois tiros em cada corpo”; no caso de ver homens em idade de serviço militar nas ruas de Fallujah, para “derrubá-los”; e para metralhar e usar tanques contra todas as casas antes de adentrá-las.
As regras de engajamento no Iraque foram codificadas em um manual de campo de 182 páginas distribuído para cada soldado, pelo Pentágono, em outubro de 2004. Este manual de contra-insurgência enfatizava cinco regras; “proteger a população; estabelecer instituições políticas locais; reforçar o governo local; eliminar a capacidade dos insurgentes; e explorar informação obtida de fontes locais”.
Agora, de volta à realidade. A população de Fallujah não foi protegida: foi bombardeada para fora da cidade e transformada em massa de milhares de refugiados. As instituições políticas já estavam lá: a shura [espécie de conselho] de Fallujah governava a cidade. Nenhum governo local  é capaz de comandar um monte de escombros com uma população em fuga, o que dizer de “reforçar o governo”. As “capacidades dos insurgentes” não foram eliminadas; a resistência se dispersou em 22 outras cidades que estavam fora do controle da ocupação dos Estados Unidos e se espalhou na direção de Mosul, ao norte; e os norte-americanos continuaram sem informações de “fontes locais”, já que antagonizaram todos os corações e mentes.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, a maioria da população já tinha sido imunizada contra a guerra pornô. Quando surgiu o escândalo de Abu Ghraib, na primavera de 2004, eu dirigia em rodovias do Texas, visitando a Bushland. Praticamente todas as pessoas com as quais conversei a respeito atribuiram a humilhação dos prisioneiros iraquianos a “algumas maçãs podres”, ou defenderam o que aconteceu em básicas patrióticas (“precisamos dar lição em ‘terroristas’”).
Amo um homem uniformizado
Em tese, existe um mecanismo aprovado no século 21 para defender civis da guerra pornô. É o R2P — a doutrina da “responsabilidade de proteger”. É uma ideia que existe desde 2001 — na verdade, desde algumas semanas depois da guerra contra o terror ter sido declarada –, formulada pelo governo do Canadá e algumas fundações. A ideia era de que o concerto das nações tinha o “dever moral” de intervenção humanitária em casos como o de Halabja, para não mencionar o Khmer Rouge no Camboja, na metade dos anos 70, ou o genocídio em Ruanda, na metade dos anos 90.
Em 2004, uma comissão da ONU codificou a ideia — crucialmente autorizando o Conselho de Segurança a decretar “intervenção militar” apenas “como último recurso”. Então, em 2005, a Assembleia Geral das Nações Unidas endossou a resolução de apoio ao R2P e em 2006 o Conselho de Segurança passou a resolução 1674 sobre “proteção de civis em conflitos armados”; eles deveriam ser protegidos contra “genocídio, crimes de guerra, limpeza étnica e crimes contra a humanidade”.
Agora pulemos para o fim de 2008, início de 2009, quando Israel — usando jatos norte-americanos — detonou um ataque em grande escala contra a população civil da faixa de Gaza.
Olhem a reação oficial dos Estados Unidos; “Israel obviamente decidiu se proteger e ao seu povo”, disse o então presidente Bush. O Congresso dos Estados Unidos votou por 390 a 5 para reconhecer “o direito de Israel de se defender dos ataques que partem de Gaza”. O governo de Barack Obama, que estava a caminho de assumir, ficou silencioso. Apenas a futura secretária de Estado, Hillary Clinton, disse que “apoiamos o direito de defesa de Israel”.
Pelo menos 1.300 civis — inclusive mulheres e crianças — foram mortas pelo terror de estado em Gaza. Ninguém invocou a R2P. Ninguém apontou para o fracasso de Israel em sua “responsabilidade de proteger” os palestinos. Ninguém pediu uma “intervenção humanitária” tendo como alvo Israel.
A mera noção de uma superpotência — e outros poderes menores — tomar decisões de política externa baseda em questões humanitárias, como proteger pessoas sob cerco, é uma piada. Já naquela época deu para entender como a R2P seria instrumentalizada. Não se aplicava aos Estados Unidos no Iraque ou no Afeganistão. Não se aplicava a Israel na Palestina. Seria eventualmente aplicável somente a governantes “bandidos”, que não fossem “nossos bastardos” — como Muamar Gaddafi, na Líbia, em 2011. Intervenção “humanitária”, sim; mas apenas para se livrar dos “bandidos”.
E a beleza da R2P é que ela pode ser colocada de cabeça pra baixo a qualquer momento. Bush pediu a “libertação” das mulheres afegãs — especialmente das que vestiam burca — dos “diabólicos” Talibã, de fato configurando a invasão do Afeganistão como uma intervenção humanitária.
E quando as ligações falsificadas de Saddam com a al-Qaeda e com armas de destruição em massa, inexistentes, ficaram claras, Washington passou a justificar a invasão, ocupação e destruição do Iraque via… R2P; “responsabilidade de proteger” os iraquianos de Saddam e em seguida de proteger os iraquianos deles próprios.

O matador acordou antes do sol nascer
O mais recente capítulo da série de episódios da guerra pornô foi o massacre de Kandahar quando, de acordo com a versão oficial do Pentágono  (ou complô para esconder), um sargento do exército norte-americano, atirador de elite e veterano da guerra no Iraque — um assassino altamente treinado — atirou em 17 civis afegãos, inclusive em nove mulheres e quatro crianças, em dois vilarejos distantes três quilômetros um do outro, e queimou alguns dos corpos.
Como em Abu Ghraib, houve a usual onda de negativas do Pentágono — como “isso não somos nós” ou “não agimos desta forma”; sem mencionar o tsunami de reportagens da mídia corporativa dos Estados Unidos que humanizaram o herói-tornado-assassino-em-massa, como em “ele é um cara bacana, de família”. Em contraste, nem uma única palavra sobre o Outro — as vítimas afegãs. As vítimas não têm rosto; ninguém sabe o nome delas.
Uma investigação afegã séria estabeleceu que 20 soldados podem ter tido participação no massacre — como em My Lai, no Vietnã; e que incluiu o estupro de duas das mulheres. Faz sentido. A guerra pornô é uma subcultura de grupo letal — completa com assassinatos-alvo, vingança, dessecração de cadáveres, colheita de troféus (dedos e orelhas cortados), incêndio do Corão e urinar em corpos. É, essencialmente, um esporte coletivo.
Equipes de execução dos Estados Unidos deliberadamente mataram civis afegãos, a maioria adolescentes, como esporte, plantaram bombas em seus corpos e depois posaram com os cadáveres como se fossem troféus. Não foi acidente que algumas destas equipes operavam a partir de uma base perto da área do massacre de Kandahar.
E não deveríamos nos esquecer do ex-comandante dos Estados Unidos no Afeganistão, general Stanley McChrystal, que em 10 de abril de 2010 admitiu, francamente, “atiramos num número impressionante de pessoas” que não eram ameaça aos Estados Unidos ou à civilização ocidental.
O Pentágono vende a guerra do Afeganistão como vendeu a do Iraque (e mesmo, lá atrás, a do Vietnã); a ideia de que esta é uma contrainsurgência com foco na população — ou COIN — destinada a conquistar “corações e mentes” e parte de um grande esforço para construir uma nação.
É uma mentira monumental. O reforço de tropas de Obama no Afeganistão — baseado na COIN — foi um fracasso total. O que veio depois foi guerra clandestina, obscura, liderada por “equipes de matança” das Forças Especiais. Isso implica em uma inflação de ataques aéreos e noturnos. Sem mencionar a guerra de aviões não-tripulados, tanto no Afeganistão quanto nas áreas tribais do Paquistão, cujo alvo favorito são os casamentos da etnia Pashtun.
Incidentalmente, a CIA alega que desde maio de 2010, aviões não-tripulados superinteligentes mataram mais de 600 alvos humanos “cuidadosamente selecionados” — e, miraculosamente, nenhum civil.
Espere para ver este filme pornô de guerra celebrado numa orgia de produções conjuntas do Pentágono com Hollywood. Na vida real, isso é promovido por gente como John Nagl, que era da equipe do general David Petraeus no Iraque e que agora dirige o instituto pró-Pentágono Center for New American Security.
O novo macho estelar pode ser representado pelos soldados do Comando Conjunto de Operações Especiais (JSOC). Mas esta é uma produção do Pentágono, que criou, de acordo com Nagl, “uma máquina contraterrorista de matar em escala industrial”.
A realidade, no entanto, é muito mais prosaica. As técnicas da COIN, aplicadas por McChrystal, se sustentam em apenas três componentes; vigilância 24 horas baseada em aviões não-tripulados; monitoramento da telefonia celular; localização física dos telefones a partir dos sinais emitidos por eles.
Isso significa que qualquer pessoa na área sob o avião não-tripulado que estiver usando um celular pode ser definida como “terrorista” ou pelo menos como “simpatizante do terrorismo”. E então o foco dos ataques noturnos no Afeganistão passou de “alvos de alto valor” — integrantes de alto ou médio escalão da al-Qaeda e do Talibã — para qualquer pessoa acusada de ajudar o Talibã.
Em maio de 2009, antes da chegada de McChrystal, as Forças Especiais dos Estados Unidos faziam 20 ataques por mês. Em novembro, eram 90 por mês. Na primavera de 2010, eram 250 por mês. Quando McChrystal foi demitido — por causa de uma reportagem da [revista] Rolling Stone (ele estava competindo com a Lady Gaga pela capa; a Lady Gaga venceu) — e Obama o trocou por Petraeus, no verão de 2010, já eram 600 ataques por mês. Em abril de 2011 já eram mil ataques por mês.
É assim que funciona. Nem pense em usar um telefone celular em Kandahar ou outros províncias afegãs. Caso contrário, os “olhos no céu” vão te pegar. Você no mínimo será mandado para a cadeia, junto com milhares de outros civis taxados de “simpatizantes do terrorismo”; e analistas de inteligência vão usar suas informações para compilar novas listas de “matar/capturar” na rede para caçar civis.
Quanto aos “danos colaterais” civis dos ataques noturnos, eles sempre foram apresentados pelo Pentágono como “terroristas”. Exemplo; num ataque em Gardez em 12 de fevereiro de 2010, dois homens foram mortos; um promotor de justiça de um governo local e um oficial de inteligência afegão, assim como três mulheres (duas delas grávidas). Os matadores disseram ao comando conjunto Estados Unidos-OTAN em Cabul que os dois homens eram “terroristas” e que as mulheres foram encontradas amarradas e amordaçadas. E então o homem que era o alvo do ataque se apresentou dias depois para interrogatório e foi libertado sem sofrer qualquer acusação.
É apenas o começo. Assassinatos-alvo — como praticados no Afeganistão — serão a tática do Pentágono em todas as futuras guerras dos Estados Unidos.
Passe a camisinha, querida
A Líbia foi uma grande exibição da guerra pornô — completa com um toque romano de um chefe “bárbaro” derrotado, sodomizado e executado nas ruas, diretamente para o YouTube.
Isso, por sinal, é exatamente o que a secretária de Estado Hillary Clinton, numa visita-relâmpago a Trípoli, tinha anunciado 48 horas antes do fato.  Gaddafi deveria ser “capturado ou morto”. Quando ela viu a imagem na tela de seu BlackBerry ela só conseguiu reagir com o terremoto semântico de um “Uau!”.
No minuto em que a resolução da ONU impôs uma zona de exclusão aérea na Líbia usando como cobertura a R2P, foi a luz verde para a troca de regime. O plano A sempre foi capturar e matar Gaddafi — no estilo de um assassinato-alvo afegão. Esta era a política oficial do governo Obama.  Não havia plano B.
Obama disse que a morte de Gaddafi significou “a força da liderança norte-americana em todo o mundo”. Foi tão próximo de um “pegamos” (ecos da captura de Saddam pelo governo Bush) quanto se poderia esperar.
Com um bônus extra. Embora Washington tenha pago nada menos que 80% dos custos operacionais dos retardados da OTAN (grosseiramente, 2 bilhões de dólares), foi troco. Ainda assim, é estranho que tenham dito “fizemos”, já que a Casa Branca sempre disse que não era uma guerra; que era alguma coisa “cinética”. E que não tinha controle de nada.
Só os perdidamente ingênuos engoliram a propaganda dos 40 mil ataques aéreos “humanitários” da OTAN, que devastaram a infraestrutura da Líbia de volta à idade da pedra, como um Choque e Espanto em câmera lenta. Isso nada teve a ver com R2P.
Foi tão R2P quanto sexo seguro — com a “comunidade internacional” no papel de camisinha. A “comunidade internacional”, como todos sabem, é composta por Washington, alguns poucos membros da OTAN e os poderes democráticos do Golfo Pérsico, como Qatar e Emirados Árabes Unidos, mais a Casa de Saud nas sombras. A União Europeia, que até a prorrogação fazia a barra das saias de Gaddafi, rapidamente tropeçou em editorais que denunciavam o reino de 42 anos do “bufão”.
Quanto ao conceito de lei internacional, foi jogada na tubulação, tão suja quanto aquela em que Gaddafi foi encontrado. Saddam pelo menos teve um julgamento encenado num tribunal improvisado antes de enfrentar o carrasco (ele também acabou no YouTube). Osama bin Laden foi simplesmente apagado, em estilo-assassinato, depois da invasão territorial do Paquistão (sem YouTube, por isso muitos nem acreditam). O Gaddafi foi embora numa mistura de guerra aérea com assassinato. Eles são os Três Graciosos Escalpos da Guerra Pornô.
Doce emoção
A Síria é apenas mais uma narrativa da guerra pornô. Se você não pode R2P, simule.
E pensar que tudo isso foi codificado tanto tempo atrás. Já em 1997, a revista do Colégio de Guerra do Exército dos Estados Unidos definiu o que chamou de “futuro das guerras”. Foi descrito como “o conflito entre os mestres da informação e as vítimas da informação”.
Eles estavam certo de que “já somos mestres na guerra de informações… Hollywood está ‘preparando o campo de batalha’… A informação destrói empregos tradicionais e culturas tradicionais; seduz, trai e se mantém invulnerável… Nossa sofisticação no manejo da informação nos capacita a sobreviver e sobrepujar todas as culturas hierárquicas… Sociedades que temem ou que não conseguem gerenciar o fluxo de informação simplesmente não serão competitivas. Elas podem dominar a tecnologia para ver os vídeos, mas nós vamos escrever os roteiros, produzí-los e coletar os direitos autorais. Nossa criatividade é devastadora”.
Guerra de informação pós-tudo não tem relação com geopolítica. Como o proverbial produto de Hollywood, deve ser gerada a partir de emoções brutas; “ódio, inveja e cobiça — emoções em lugar de estratégias”.
Na Síria é exatamente como a mídia corporativa ocidental já escreveu o script de todo o filme; são as táticas da guerra de informação do Colégio de Guerra, na prática. O governo sírio nunca teve qualquer chance diante dos que “escrevem os roteiros, produzem e coletam os direitos autorais”.
Por exemplo, a oposição armada, os assim-chamados integrantes do Exército Livre Sírio (um coquetel impressionante de desertores, oportunistas, jihadistas e mercenários estrangeiros), levaram jornalistas ocidentais até Homs e depois insistiram em tirá-los de lá, em condições extremamente perigosas — com gente sendo morta — via Líbano, em vez de usar a ajuda da Crescente Vermelha. Era apenas a forma de escrever/impor um “corredor humanitário” até Homs. Foi teatro puro — ou guerra pornô empacotada como drama de Hollywood.
O problema é que a opinião pública ocidental agora é refém desta marca de guerra de informação. Esqueça a possibilidade de negociações pacíficas entre partes adultas. O que sobra é o roteiro binário de bons contra maus, onde o Grande Homem Mau deve ser destruído a qualquer custo (e junto com ele a esposa, puta esnobe que adora consumir!).
Só os terminalmente ingênuos para acreditar que os jihadistas — inclusive os rebeldes da OTAN na Líbia — financiados pelo Clube da Contrarrevolução do Golfo Pérsico, também conhecido como Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) são um monte de reformistas democráticos queimando em boas intenções. Mesmo a Human Rigths Watch foi forçada a admitir que estes “ativistas” armados foram responsáveis por “sequestros, detenções e tortura”, depois de receber informações sobre execuções cometidas por grupos de oposição contra civis e soldados leais ao governo sírio.
O que esta narrativa pornô (leve e pesada) esconde, no fim, é a verdadeira tragédia síria; a impossibilidade do festejado “povo sírio” de se livrar de todos estes bandidos — o sistema Assad, a Irmandade Muçulmana controlada pelo Conselho Nacional Sírio, e o Exército Livre Sírio infestado de mercenários.
Ouçam o som do caos
Este parcial catálogo de vilezas invevitavelmente nos traz até o campeão de bilheteria da guerra pornô — o psicodrama do Irã.
2012 é o novo 2002; Irã é o novo Iraque; e qualquer que seja a estrada, para usar o novo lema neocon, homens de verdade vão a Teerã via Damasco, ou diretamente a Teerã, sem escalas.
Talvez apenas sob o Ártico seríamos capazes de escapar do cortejo cacófono de direitistas norte-americanos — e seus cães amestrados europeus — que salivam sangue e distribuem seu festival de falácias como “o Irã quer eliminar Israel do mapa”, “já deu de diplomacia”, “as sanções já deram o que tinham de dar”, ou “o Irã dentro de um ano, de seis meses, de uma semana, de um dia ou de um minuto vai montar sua bomba”.
Naturalmente estes cães de guerra nunca se importariam em acompanhar o que a Agência Internacional de Energia Atômica está fazendo, sem mencionar a Estimativa Nacional de Inteligência divulgada pelas 17 agências de inteligência dos Estados Unidos.
Porque, em grande medida, eles estão “escrevendo os roteiros, produzindo e coletando os direitos autorais” nos termos da mídia corporativa, eles podem sair ilesos de uma impressionante e tóxica fusão de arrogância e ignorância — sobre o Oriente Médio, a cultura persa, a questão nuclear, a indústria petrolífera, a economia global, sobre “o Resto” comparado com “o Ocidente”.
Assim como no Iraque em 2002, o Irã é sempre desumanizado. A “narrativa” insistente, totalmente histérica e fomentadora do medo, de “devemos bombardear agora ou depois”, é sempre sobre as tão inteligentes bombas destruidoras de bunkers e mísseis precisos, que vão inflingir devastação superlimpa em grande escala sem produzir um só “dano colateral”. Como sexo seguro.
E mesmo quando uma voz do establishment como o New York Times admite que nem a inteligência dos Estados Unidos, nem a de Israel acredita que o Irã decidiu construir uma bomba (uma criança de 5 anos poderia chegar à mesma conclusão), a histeria continua intergalática.
Enquanto isso, enquanto se prepara — “todas as opções estão na mesa”, Obama não cansa de repetir — para outra guerra no que já chamou de “arco de instabilidade”,  o Pentágono encontrou tempo para reempacotar a guerra pornô. Levou apenas 60 segundos, num vídeo que agora está no YouTube, chamado Em Direção ao Som do Caos (Toward the Sound of Chaos), divulgado dias depois do massacre de Kandahar. Note qual é o público-alvo: o grande mercado dos pobres, desempregados e politicamente ingênuos jovens norte-americanos.
Ouçam o que diz a voz no mini-filme: “Onde o caos ameaça, os Poucos emergem. Fuzileiros navais se movem em direção aos sons da tirania, da injustiça e do desespero — com a coragem e a determinação para silenciá-los. Ao acabar com os conflitos, instalar a ordem e ajudar aqueles que não conseguem se ajudar, os fuzileiros navais enfrentam as ameaças de nosso tempo”.
Talvez, neste universo orwelliano, deveríamos pedir aos afegãos mortos, nos quais os fuzileiros navais urinaram, ou aos milhares de mortos em Fallujah, que fizessem uma resenha do filme. Bem, homens mortos não escrevem. Talvez pudessemos pensar no dia em que a OTAN vai instalar uma zona de exclusão aérea sobre a Arábia Saudita para proteger os xiitas das províncias do leste, enquanto os aviões não-tripulados do Pentágono disparam mísseis Hellfire contra os milhares de príncipes da Casa de Saud, arrogantes, medievais e corruptos. Não, não vai acontecer.
Mais de uma década depois do início da guerra contra o terror, é a isso o que o mundo chegou: uma audiência virtualmente mundial de preguiçosos, exaustos, atordoados, conduzidos de distração em distração, impotentemente viciados na desprezível atrocidade das guerras pornô.
Tradução Luiz Carlos Azenha
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