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O jogo geopolítico de Moscou e Pequim


Mal-estar no Ocidente, diante do acordo entre Putin e Xi, revela colonialismo e decadência. Mas Rússia e China pretendem algo distinto do que anunciam…

Por Immanuel Wallerstein

Os governos, os políticos e a mídia do mundo “ocidental” parecem incapazes de compreender os jogos políticos representados por outros atores, em outros lugares. Sua análise do acordo recém-proclamado entre Rússia e China é um exemplo espantoso disso.

Wallerstein: Às vésperas de uma nova corrida nuclear


Como a hipocrisia dos tratados internacionais e o declínio moral dos Estados Unidos estão gestando risco de rearmamento atômico generalizado

Por Immanuel Wallerstein


Os Estados Unidos e o Irã estão envoltos em negociações difíceis sobre a possível obtenção, por Teerã, de armas nucleares. A probabilidade de estas negociações resultarem numa fórmula aceita por ambas as partes parece relativamente baixa, porque há, em ambos países, forças poderosas que se opõem frontalmente a um acordo e estão trabalhando com afinco para sabotá-lo.

Arábia Saudita: cercada e assustada


Por Immanuel Wallerstein


O regime saudita é considerado há muito um pilar da estabilidade política no Médio Oriente, um país que impunha respeito e prudência a todos os vizinhos. Já não é assim, e os primeiros a reconhecê-lo são importantes protagonistas internos do regime. Hoje, sentem-se cercados por todos os lados e bastante temerosos em relação às consequências que a convulsão no Médio Oriente pode trazer para a sobrevivência do regime.

Wallerstein: Crise dos “emergentes” ou do Sistema?


Wallerstein aponta: "Novas turbulências sugerem: vivemos época de bifurcação. Em declínio, capitalismo será superado – por algo bem melhor ou bem pior que ele..."

Por Immanuel Wallerstein

Não faz muito tempo, os “especialistas” e os investidores viam os “mercados emergentes” – um eufemismo para China, Índia, Brasil e alguns outros – como salvadores da economia-mundo. Eram eles que iriam sustentar o crescimento e, portanto, a acumulação de capitais, quando os EUA, a União Europeia e o Japão declinavam, em seu papel tradicional de pilastras do sistema capitalista global.

Por isso, é chocante que, nas duas últimas semanas de janeiro, o Wall Street Journal (WSJ), o Financial Times (FT), o Main Street, a agência Bloomberg, o New York Times (NYT) e o Fundo Monetário Internacional tenham, todos, soado o alarme sobre o “colapso” destes mesmos mercados emergentes; e que tenham advertido, em especial, sobre a deflação, que poderia ser “contagiosa”. Tive a impressão de que estão em pânico, quase indisfarçável.

Wallerstein: Levantes aqui, ali e em toda parte


O sociólogo Immanuel Wallerstein descreve cinco traços comuns aos movimentos políticos que tomam as ruas do mundo. Ele aponta que eles se inserem em um cenário de uma transição estrutural: de uma economia mundial capitalista que está se esgotando para um novo tipo de sistema. Este novo sistema pode ser melhor ou pior. Essa seria a batalha real.

Por Immanuel Wallerstein

O levante, agora persistente, na Turquia foi seguido por uma revolta ainda maior no Brasil, que por sua vez foi acompanhada por manifestações menos noticiadas, mas não menos reais, na Bulgária. Obviamente, esses protestos não foram os primeiros, e muito menos os últimos de uma série realmente mundial de revoltas nos últimos anos. Há muitas maneiras de analisar este fenômeno. Eu o vejo como um processo contínuo de algo que começou com a revolução mundial de 1968.


É claro que todas as revoltas são particulares em seus detalhes e na correlação de forças interna em cada país. Mas existem certas similaridades que devem ser notadas, se quisermos dar sentido ao que está acontecendo e decidir o que todos nós, como indivíduos e como grupos, deveríamos fazer.

Agitação na Tunísia e no Egito: início ou fim das revoluções?


Por Immanuel Wallerstein

Na Tunísia, em dezembro de 2010, um único indivíduo acendeu o rastilho de uma revolução popular contra um ditador corrupto, uma revolta que foi prontamente seguida no Egito, contra um autocrata igualmente corrupto. O mundo árabe estava atónito e a opinião pública mundial ganhou imediatamente simpatia por estas expressões "modelares" das lutas ao redor do planeta por autonomia, dignidade e um mundo melhor.

Hoje, três anos depois, ambos países estão atolados em ferozes lutas políticas, a violência interna cresce e ninguém sabe onde tudo isto vai parar, e em benefício de quem. Há aspetos particulares em cada país, alguns dos quais se refletem em revoltas pelo mundo árabe e árabe-islâmico, e outros que podem ser comparados ao que está a acontecer na Europa - e, até certo ponto, no mundo.

O que aconteceu? Comecemos com o levantamento popular inicial. Como ocorre muitas vezes, foram jovens corajosos que o começaram, em protesto contra o poder arbitrário dos poderosos -- local, nacional, internacionalmente. Nesse sentido, eram anti-imperialistas, anti-exploração e profundamente igualitários. Comparam-se em muito com as manifestações que se espalharam pelo mundo entre 1966 e 1970, a que por vezes chamamos hoje de revolução mundial de 1968. Como naquela época, os protestos tocaram numa corda profunda dentro do país e atraíram vasto apoio popular, muito para além do pequeno grupo que os iniciaram.

O que aconteceu em seguida? Uma revolução antiautoritária generalizada é uma coisa muito perigosa para os que detêm a autoridade. Quando as medidas de repressão iniciais não funcionaram, muitos grupos procuraram domesticar as revoluções unindo-se a elas, ou fingindo que o faziam. Tanto na Tunísia quanto no Egito, o exército entrou em cena, recusando-se a disparar sobre os manifestantes, mas também procurando controlar a situação após a deposição dos dois ditadores.

Em ambos os países, existia há muito um forte movimento islâmico, a Irmandade Muçulmana. Ela fora banida na Tunísia e era cuidadosamente controlada e restringida no Egito. As revoluções permitiram-lhes emergir de duas maneiras. Ofereceram assistência social aos pobres que sofriam com a negligência do Estado. E decidiram formar partidos políticos para conquistar a maioria nos Parlamentos e controlar a redação das novas Constituições. Na primeira eleição de cada país, a Irmandade Muçulmana emergiu como o partido político mais forte.

Atrás deles, havia basicamente quatro grupos a disputar a arena política. Além do partido da Irmandade Muçulmana - Ennahda na Tunísia e Partido da Liberdade e Justiça no Egito -, surgiram três outros atores políticos: as forças laicas mais ou menos à esquerda, as forças salafistas, na extrema direita, lutando pela adoção de uma versão muito mais rigorosa da sharia que a desejada pelos partidos da Irmandade; e os apoiantes, ainda fortes, mas quase clandestinos, dos antigos regimes.

Tanto a Irmandade Muçulmana quanto as forças laicas estão muito divididas internamente, em especial sobre as estratégias que desejam seguir. Os partidos da Irmandade Muçulmana enfrentam os mesmos dilemas com que se defrontaram, nos últimos anos, os partidos de centro-direita na Europa. Os seus países têm severos e persistentes problemas económicos que provocam o crescimento, ou fortalecimento, dos partidos da extrema-direita, o que ameaça a capacidade dos partidos do centro-direita ‘mainstream’ vencerem futuras eleições. Nesta situação, surgem, por todo o lado, aqueles que pretendem conquistar os eleitores da extrema-direita adotando algumas das suas posições e uma postura de "linha dura" em relação à esquerda ou às forças laicas. E há os chamados "moderados", que defendem um movimento para o centro e a reconquista dos votos neste campo.

As forças de esquerda, ou laicas, reúnem por seu lado uma ampla gama de grupos: setores verdadeiramente de esquerda (porém múltiplos) e democratas de classe média, que procuram encorajar laços económicos mais próximos às grandes forças de mercado na Europa e na América do Norte. Nas questões económicas, esses grupos de classe média estão muito próximos, na verdade, daquilo que as forças islamistas moderadas propõem.

Enquanto isso, as forças ainda leais aos antigos regimes corruptos mantêm controlo sobre uma instituição chave: a polícia. É a polícia que dispara sobre as manifestações das forças laicas. Quando estas protestaram contra o assassinato de Chokri Belaid, um importante líder laico, o primeiro-ministro da Tunísia, Hamadi Jebali, um islamista moderado, respondeu que estava igualmente chocado com o assassinato. Diante disso, os grupos laicos responderam que os partidos islamistas, e especialmente a sua linha-dura, são, de qualquer forma, indiretamente responsáveis, por terem criado o ambiente propício a que o assassinato ocorresse.

Além disso, a Tunísia e o Egito não são países isolados. Os seus vizinhos no mundo árabe e além deste vivem também uma grande agitação. A intromissão geopolítica de forças externas é muito grande. Ambos os países são relativamente pobres e precisam de ajuda financeira externa para combater o crescente e persistente desemprego, que se torna ainda mais severo devido à perda das entradas com o turismo, uma fonte central de receita.

Para onde se encaminha tudo isto? Existem apenas duas direções possíveis. Uma é o fim da revolução, pelo menos por enquanto. Os dois países poderiam ter governos de direita fortemente entrincheirados, apoiados (talvez até controlados) pelos militares, com Constituições socialmente conservadoras e políticas externas cautelosas. Outra, é o começo de uma revolução, na qual o espírito inicial de 1968 reconquiste forças, e tanto a Tunísia quanto o Egito se tornem novamente marcos de transformação social para si próprios, para o resto do mundo árabe e para todo o planeta.

Por enquanto, parece que as forças que pressionam pelo fim da revolução estão na frente. Mas, neste mundo caótico, é cedo demais para fechar o pano e pensar que já não há espaço para uma força revolucionária renovada nos dois países.

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Immanuel Wallerstein: Transtornos globais a médio prazo


Por Immanuel Wallerstein

Fazer previsões a curto prazo (para um ou dois anos) é um jogo tonto. Há demasiadas guinadas e giros no mundo real político / econômico / cultural. Mas podemos tentar fazer afirmações plausíveis para o médio prazo (uma década ou mais) baseados num marco teórico trabalhável, combinado com uma análise sólida e pragmática de tendências e limitações. 
O que é que sabemos do sistema-mundo em que estamos vivendo? Primeiro de tudo, que se trata de uma economia-mundo capitalista, cujo princípio básico é a incessante acumulação de capital. Segundo, que é um sistema histórico que, como todos os sistemas (desde o universo como um todo até os mínimos sistemas nanoscópicos), tem vida. Surge à existência, vive sua vida “normal”, de acordo com regras e estruturas que cria e, logo, em certo ponto, o sistema se afasta demais do equilíbrio e entra em uma crise estrutural. Terceiro, que nosso atual sistema-mundo tem sido um sistema polarizador, em que existe uma brecha que cresce, constante, entre os Estados e no interior dos mesmos.

Agora estamos em uma crise estrutural assim, e temos estado nela por uns 40 anos. Continuaremos nesta crise por outros 20 a 40 anos. Este é o tempo aproximado que dura uma crise estrutural em um sistema histórico social. O que ocorre em uma crise estrutural é que o sistema bifurca-se, o que essencialmente significa que emergem dois modos diferentes para finalizar a crise estrutural quando coletivamente se “elege” uma das alternativas.

A principal característica de uma crise estrutural é uma série de flutuações caóticas fortíssimas de tudo -os mercados, as alianças geopolíticas, a estabilidade das fronteiras estatais, o emprego, as dívidas, os impostos. A incerteza, no curto prazo, se torna crônica. E a incerteza tende a congelar a tomada de decisões econômicas, o que, por certo, piora a situação.

Eis aqui algumas das coisas que podemos esperar no médio prazo. Quase todos os Estados enfrentam, e seguirão enfrentando, um aperto entre a redução de arrecadações e o incremento dos gastos. O que quase todos os Estados estão fazendo é reduzir os gastos de duas formas. Uma tem sido cortar (ou inclusive eliminar) muitíssimas das redes de segurança construídas no passado para ajudar as pessoas comuns a lidar com as múltiplas contingências que enfrenta. Mas há um segundo modo também. Quase todos os Estados estão cortando as transferências de dinheiro às entidades estatais subordinadas - as estruturas federativas, se o Estado é uma federação, e os governos locais. O que isto faz é simplesmente transferir a necessidade de incrementar impostos a estas unidades subordinadas. Se isso se mostra impossível, podem ir à falência, o que elimina outras partes das redes de segurança social (notavelmente, as pensões).

Isso tem um impacto imediato nos Estados. Por um lado, os debilita, conforme mais e mais unidades buscam cindir-se se o considerarem vantajoso economicamente. Mas por outro lado, os Estados são mais importantes que nunca, conforme as populações buscam refúgio nas políticas protecionistas (manter nossos empregos, não os seus). As fronteiras estatais sempre mudaram. Mas há a perspectiva de que mudem com muito maior frequência agora. Ao mesmo tempo, as novas estruturas que vinculam os Estados existentes (ou suas subunidades) - como a União Europeia (UE) e a nova estrutura sul-americana (Unasul) - continuarão florescendo e desempenhando um papel geopolítico crescente.

Os malabarismos entre os múltiplos lugares do poder geopolítico se tornam muito mais instáveis em uma situação em que nenhum desses lugares estará em posição de ditar regras interestatais. Os Estados Unidos foram eventualmente um poder hegemônico com pés de barro, mas que segue sendo poderoso o suficiente como para provocar danos por torpeza. A China parece ter a posição econômica emergente mais forte, mas é menos forte do que ela mesma ou os outros pensam. O grau no qual se aproximam Europa ocidental e Rússia segue sendo uma pergunta aberta, e segue estando na agenda em ambos os lados. O modo com que a Índia jogará as suas cartas continua sendo algo que, em grande medida, a própria Índia ainda não decidiu. O que isto significará para as guerras civis como a da Síria até agora tem a ver com como os interventores estrangeiros se cancelam mutuamente e como os conflitos se organizam, mais do que nunca, em torno de grupos de identidade fratricidas.

Reiterarei minha postura largamente arguida. Ao final da década veremos alguns realinhamentos importantes. Um é a criação de uma estrutura confederada que vincule o Japão a uma China (reunificada) e a una Coreia (reunida). O segundo é uma aliança geopolítica entre esta estrutura confederada e os Estados Unidos. Terceiro é uma aliança de facto entre a Unão Europeia e a Rússia. O quarto é a proliferação nuclear a uma escala significativa. Um quinto é um protecionismo generalizado. O sexto é uma deflação mundial generalizada, que pode assumir duas formas - seja uma redução nominal dos preços ou inflações rampantes, que têm a mesma consequência.

Obviamente, estes não são resultados felizes para quase ninguém. O desemprego mundial aumentará, não vai cair. E as pessoas comuns sentirão os beliscões de forma muito severa. As pessoas já mostraram que estão prontas para responder lutando de múltiplas formas, e esta resistência popular crescerá. Encontrar-nos-emos no meio de uma vasta batalha política para determinar o futuro do mundo.

Aqueles que têm riqueza e privilégios hoje não se sentarão, sem fazer nada. Será mais e mais claro para eles que não podem assegurar seu futuro através do sistema capitalista existente. Buscarão implementar um sistema que não se baseie em um papel central do mercado, mas sim em uma combinação de força bruta e enganação. O objetivo chave é assegurar que o novo sistema garanta a continuação de três características principais para o atual sistema - hierarquia, exploração e polarização.

Por outro lado, haverá forças populares por todo o mundo que buscarão criar uma nova classe de sistema histórico, um que ainda não existiu, baseado em uma democracia relativa e uma relativa igualdade. É quase impossível prever o que isso significará em termos das instituições que o mundo poderia criar. Aprenderemos na construção deste sistema, nas décadas vindouras.

Quem ganhará esta batalha? Ninguém pode prever. Será o resultado de uma infinidade de ações nanoscópicas empreendidas por uma infinidade de nano-atores em uma infinidade de nano-momentos. E em algum ponto a tensão entre as duas soluções alternativas se inclinará definitivamente a favor de uma ou outra. Isto é o que nos dá esperança. O que cada um de nós fizer em cada momento sobre cada um dos pontos imediatos conta. Alguns chamam isso de “efeito borboleta”. O bater das asas de uma borboleta afeta o clima de um extremo ao outro no mundo. Neste sentido, hoje todos somos pequenas borboletas.
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A política externa dos EUA e a opinião pública americana


Por Immanuel Wallerstein


À medida que se aproximam as eleições nos Estados Unidos, a política externa do país está lentamente a tornar-se uma das questões mais importantes. Não é segredo que no último meio século houve uma certa consistência de longo prazo na política externa dos EUA. As divergências internas mais agudas ocorreram quando George W. Bush assumiu a Presidência e desencadeou uma tentativa deliberadamente unilateral e superviril de restaurar o domínio dos Estados Unidos no mundo através das invasões do Afeganistão e do Iraque.
Bush e os neoconservadores esperavam intimidar toda a gente pelo mundo, usando a força militar para mudar regimes considerados hostis pelo governo dos EUA. Como parece hoje claro, a política neoconservadora falhou o seu próprio objetivo. Em vez de intimidar todos, esta política transformou um lento declínio do poderio dos EUA num declínio abrupto. Em 2008, Obama candidatou-se com uma plataforma de reversão desta política, e em 2012 está a afirmar que cumpriu a promessa e assim desfez os danos causados pelos neocons.
Mas será que desfez realmente os danos? Poderia tê-lo feito? Duvido. Mas a minha intenção aqui não é discutir quão bem-sucedida é ou não neste momento a política externa dos EUA. O que sim quero discutir é o que pensa dela o povo americano.
O elemento mais importante na atual opinião pública norte-americana acerca da política externa do seu país é a incerteza e a falta de clareza. Sondagens recentes mostram que pela primeira vez uma maioria de cidadãos dos EUA pensa que as intervenções militares que Bush empreendeu no Médio Oriente foram um erro. O que estas pessoas parecem ver é que houve um enorme gasto de vidas americanas e de dinheiro que obtiveram resultados que lhes parecem negativos.
Apercebem-se de que o governo iraquiano está mais próximo em sentimento e politicamente do governo iraniano que de Washington. Apercebem-se de que o governo afegão está a pisar terrenos movediços – com um exército infiltrado por simpatizantes taliban suficientes para matar soldados dos EUA com quem trabalham. Querem a retirada das tropas dos EUA em 2014, como foi prometido. Mas não acreditam que, assim que estas tropas saírem, fique no poder um governo estável, um governo de certa forma amigo dos Estados Unidos.
É significativo que, no debate entre os dois candidatos à vice-presidência, o democrata Joe Biden tenha afirmado com vigor que as tropas americanas não seriam enviadas para o Irã. E o republicano Paul Tyan disse que ninguém do seu lado estava a pensar mandar tropas para lá. Ambos podem ou não ter dito a verdade acerca das suas posições. O importante a notar é que ambos pareciam pensar que qualquer ameaça de enviar tropas terrestres prejudicaria as hipóteses dos seus partidos diante dos eleitores.
E então? Essa é precisamente a questão. As mesmas pessoas que dizem que as intervenções dos EUA foram um erro, ainda não estão de forma alguma preparadas para aceitar a ideia de que os Estados Unidos não deveriam continuar a manter, e mesmo a expandir, o âmbito das suas forças militares. O Congresso dos EUA continua a votar orçamentos para o Pentágono maiores que o pedido pelo próprio Pentágono. Em parte, isto é o resultado do desejo dos legisladores de manter postos de trabalho em distritos onde há empregos relacionados com as forças armadas. Mas também porque o mito da superforça americana ainda é um forte compromisso emocional em virtualmente todo o lado.
A perspetiva é de um isolacionismo assustador? Até certo ponto, sem dúvida. Há na verdade eleitores na extrema esquerda e na extrema direita que começam a defender mais fortemente a necessidade de reduzir o compromisso militar dos EUA no resto do mundo. Mas acredito que, de momento, ainda não têm muita força.
Em vez disso, podemos esperar uma lenta e silenciosa, mas nem por isso menos importante, revisão do que pensam os americanos acerca de certos grupos de aliados. O afastamento da Europa, seja como for que a Europa seja definida, está a ocorrer há muito tempo. A Europa é vista como “ingrata” de certa forma, por tudo o que os Estados Unidos fizeram por ela nos últimos setenta anos, militar e economicamente. Para muitos cidadãos dos EUA, a Europa parece ter pouca vontade de apoiar as políticas dos EUA. As tropas americanas estão atualmente a retirar da Alemanha e de outros lugares.
Evidentemente que a Europa é uma grande categoria. Será que o cidadão americano comum tem pontos de vista diferentes acerca da Europa do Leste (os ex-satélites soviéticos)? Ou acerca da Grã-Bretanha, com quem é suposto os Estados Unidos terem uma “relação especial”? A “relação especial” é mais um mantra dos britânicos que dos americanos. Os Estados Unidos premiam a Grã-Bretanha quando esta segue a linha, e não quando esta se desvia dela. Um cidadão americano comum dificilmente tem conhecimento deste compromisso geopolítico.
A Europa do Leste é diferente. Houve pressões reais de ambos os lados para manter uma relação próxima. Do lado dos EUA, houve interesse por parte do governo em usar a ligação europeia oriental como forma de conter as tendências europeias ocidentais de agir independentemente. E houve pressões dos descendentes dos imigrantes destes países para que as ligações se expandissem. Mas a Europa do Leste começa a sentir que o compromisso militar dos EUA está a emagrecer e por isso é pouco confiável. Também começa a sentir que as ligações econômicas com a Europa ocidental, e com a Alemanha em particular, são mais cruciais para eles.
O antagonismo com o México, devido aos migrantes "ilegais", veio desempenhar um papel importante na política dos EUA e tem vindo a minar as relações, em teoria muito próximas, com o México. Quanto ao resto da América Latina, o crescimento da sua postura geopolítica independente tem sido uma fonte de frustração para o governo dos EUA e uma fonte de impaciência para o povo dos Estados Unidos.
Na Ásia, o chamado “China-bashing” (retórica anti-chinesa) é um jogo crescentemente popular, apesar de todos os esforços do governo dos EUA de refreá-lo. As empresas chinesas são impedidas de fazer alguns tipos de investimentos nos Estados Unidos que até a Grã-Bretanha acolhe.
E finalmente, há o Médio Oriente, uma área de preocupação central para os EUA. Atualmente, o foco é posto no Irã, Tal como na América Latina, o governo parece frustrado devido às suas limitadas opções. Foi constantemente pressionado por Israel para fazer mais, apesar de ninguém estar muito certo do que significa “mais”.
O apoio a Israel de todas as formas possíveis tem sido uma peça central da política externa dos EUA desde 1967, pelo menos, senão antes. Poucos se atrevem a desafiá-lo. Mas os “poucos” estão a começar a ter mais apoio aberto de personalidades militares, que sugerem que as políticas de Israel são perigosas em termos de interesses militares norte-americanos.
Será que o disseminado apoio a Israel vai continuar sem contestação nas próximas décadas? Duvido. Israel pode ser o último compromisso emocional dos EUA a desfalecer. Mas é quase certo que é isso o que vai acontecer.
Por volta de 2020, provavelmente, e certamente em 2030, a política externa norte-americana terá começado a digerir a realidade de os Estados Unidos não serem a única superpotência todo-poderosa., mas simplesmente uma das poucas sedes do poder geoestratégico. A mudança de perspetiva terá sido imposta pela evolução da opinião dos americanos comuns, que continua a preocupar-se mais com o seu bem-estar social do que com os problemas além-fronteiras. À medida que o “sonho americano” atrai cada vez menos não-americanos, volta-se para o interior dos Estados Unidos.
Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net
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A próxima reviravolta no Oriente Médio


Por Immanuel Wallerstein


Ao analisarmos a geopolítica do Oriente Médio, qual deveria ser o foco principal? Há pouco consenso na resposta, mas ainda assim esta é a questão-chave. O governo israelense tenta, constantemente e de modo diligente, fazer com que o foco seja o Irã. A maior parte dos observadores vê neste esforço uma tentativa de desviar atenções de sua falta de vontade em buscar negociações sérias com a Palestina.
De qualquer maneira, o esforço israelense falhou espetacularmente. O primeiro-ministro Benyamin Netanyahu foi incapaz de conseguir que o governo norte-americano se comprometesse com o apoio a um ataque israelense a Teerã. E a habilidade do Irã de reunir a maior parte do mundo não-ocidental — incluindo Paquistão, Índia, China, Palestina e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon — em uma reunião do Movimento Não-Aliado (NAM, em inglês) esta semana, evidencia a impossibilidade política de os israelenses  concentrarem a atenção no Irã.
No último ano, o centro das atenções voltou-se para a Síria, não o Irã, mesmo que haja uma ligação entre os dois. Os primeiros a lutar para isso foram a Arábia Saudita e o Catar. Tiveram considerável sucesso. Alguns observadores sentem que foi um esforço para desviar as atenções dos problemas internos da Arábia Saudita e da opressão anti-xiita praticada nos países do Golfo, especialmente Bahrein.
O foco na Síria, no entanto, está prestes a chegar ao fim, por duas razões. Em primeiro lugar, o governo e sua principal oposição, o Exército Livre Sírio, estão mais ou menos travados em seu combate militar. Não parece que nenhum dos lados seja capaz de destruir completamente o outro. Significa que o aquilo que se pode chamar hoje de guerra civil continuará por um período longo e indefinido.
Obviamente, o que poderia terminar rapidamente com a guerra é uma intervenção militar externa. Mas nem os Estados Unidos, Europa Ocidental, Turquia, Arábia Saudita nem mais ninguém está pronto a mandar tropas para a Síria. Estão dispostos apenas a fazer ameaças — e isso não é o bastante para acabar os conflitos.
Mas, em segundo lugar, há a reentrada espetacular do Egito na cena geopolítica. O país tem agora um governo dominado pela Irmandade Muçulmana. O presidente, Mohamed Morsi, parece construir uma agenda bem diferente da de seus precedentes. E Morsi mostrou ser um político muito mais capaz de manobras astutas do que se supunha. O jornal Le Monde registrou isto em um editorial intitulado: “O astuto e surpreendente Morsi.”
O presidente voou a Teerã para a reunião dos não-alinhados, parando em Beijing no caminho. Ao fazê-lo, adiou para setembro o convite de Obama para uma visita oficial aos Estados Unidos — um compromisso que visava evitar a viagem efetivamente realizada. Morsi alega que o objetivo de suas visitas é ajudar a resolver a questão síria.
Se era mesmo a Síria que estava em sua cabeça, ele tem um jeito curioso de demonstrar. Começou com uma proposta criativa — que o Egito juntasse forças com a Turquia, a Arábia Saudita e o Irã, para formar um grupo com a intenção de resolver os problemas políticos que dividem os dois grupos em luta da Síria. Isso é inclusive construtivo, mas certamente Morsi sabe que, pelo menos no momento, a rejeição da Arábia Saudita (e talvez da Turquia) é certa.
Então, por que ele se preocupou em fazer a proposta? Primeiro de tudo, é claro, ele procura posicionar tanto o Egito quanto a Irmandade Muçulmana na condição dos negociadores políticos mais poderosos do Oriente Médio. Nada incomodaria mais os sauditas, é claro. A centralidade egípcia os deslocaria desse papel; e entre eles e a Irmandade Muçulmana já há uma relação hostil histórica.
Em segundo lugar, tendo oferecido a proposta como uma “solução” para o problema sírio, Morsi está evidenciando que, por enquanto, não há saída para a questão. Isso prepara o terreno para a grande mudança — da Síria para a Palestina.
Devemos lembrar de duas coisas sobre a relação do Egito com Israel e a Palestina. Uma é que o Hamas foi fundado por membros da Irmandade Muçulmana. As ligações entre ambos são reais, ainda que o Hamas deseje ter um papel independente na região.
Mas além disso, e ainda mais importante, o pacto egípcio-israelense é muito, muitíssimo impopular no Egito. Morsi não está planejando rompê-lo. Sente — e provavelmente tem razão — que não é forte o bastante, nacional e internacionalmente, para fazer isso. E nem vê necessariamente, neste passo, grande vantagem para o Egito.
Porém, ele está certamente interessado em revisar os termos do pacto de modo relevante. Em particular, quer mudar as regras sobre como o Egito relaciona-se com a guerra na Palestina. Os egípcios vão continuar tentando mediar as diferenças entre a Autoridade Palestina e o Hamas. E certamente tentarão criar fronteiras mais abertas com Gaza. Depois, talvez ofereçam-se diretamente aos israelenses como intermediários honestos — reivindicando um papel que os Estados Unidos clamam ser sua propriedade exclusiva há algum tempo.
Parece ao menos um bom chute apostar que, em 2013, o Egito vai ter silenciado a discussão mundial sobre a Síria e assegurado que seja substituída por um debate internacional sobre a Palestina. Os israelenses demonstram estar profundamente contrariados. Os sauditas estarão marginalizados e, em seguida, precisarão afirmar mais vigorosamente suas credenciais pró-Palestina. E os Estados Unidos — seja seu próximo presidente Romney ou Obama — irão se encontrar em uma posição de muito pouca influência no que acontece, tanto em Israel/Palestina  quanto no Egito, Arábia Saudita ou Irã.
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Crise do capitalismo: E se não houver saída alguma?


Por Immanuel Wallerstein

A maior parte dos políticos e dos “especialistas” tem um costume arraigado de prometer tempos melhores à frente, desde que suas políticas sejam adotadas. As dificuldades econômicas globais que vivemos não são exceção, neste quesito. Seja nas discussões sobre o desemprego nos Estados Unidos, os custos alarmantes de financiamento da dívida pública na Europa ou os índices de crescimento subitamente em declínio, na Índia, China e Brasil, expressões de otimismo a médio prazo permanecem na ordem do dia.

Mas e se não houver motivos para elas? De vez em quando, emerge um pouco de honestidade. Em 7/8, Andrew Ross Sorkin publicou um artigo no New York Times em que oferecia “uma explicação mais direta sobre por que os investidores deixaram as bolsas de valores: elas tornaram-se uma aposta perdedora. Há toda uma geração de investidores que nunca ganhou muito”. Três dias depois, James Mackintosh escreveu algo semelhante no Financial Times: os economistas estão começando a admitir que a Grande Recessão atingiu permanentemente o crescimento… Os investidores estão mais pessimistas”. E, ainda mais importante, o New York Times publicou, em 14/8, reportagem sobre o custo crescente de negociações mais rápidas. Em meio ao artigo, podia-se ler: “[Os investidores] estão desconcertados por um mercado que não ofereceu quase retorno algum na última década, devido às bolhas especulativas e à instabilidade da economia global.

Quando se constata que muito poucos concentraram montanhas incríveis de dinheiro, pergunta-se: como o mercado de ações pode ter se tornado “perdedor”? Durante muito tempo, o pensamento básico sobre os investimentos afirmava que, a longo prazo, o ganho com ações, corrigido pela inflação, era alto – em especial, mais alto que o dos papéis do Estado (bônus). Esta era a recompensa pelos riscos derivados da grande volatilidade, a curto e médio prazo, das ações. Os cálculos variam, mas em geral admite-se que, no século passado, o retorno das ações foi bem mais alto que o dos bônus, desde, é claro, que a aplicação fosse mantida.

Não se leva tanto em conta que, no mesmo período de um século, os lucros das ações corresponderam mais ou menos a duas vezes o aumento do PIB – algo que levou alguns analistas a falar num “efeito Ponzi”. Ocorre que os maravilhosos ganhos com ações ocorreram, em grande parte, no período a partir do início dos anos 1970, a era do que é chamado de globalização, neoliberalismo e ou financeirização.

Mas o que ocorreu de fato, neste período? Deveríamos notar, de início, que o período pós-1970 seguiu-se à época de maior crescimento (por larga margem) na produção, produtividade e mais-valia global, na história do economia-mundo capitalista. É por isso que os franceses chamam este período de trente glorieuses – os trinta anos (1943-1973) gloriosos. Em minha linguagem analítica, foi uma fase A do ciclo Kondratieff. Quem possuía ações neste período deu-se, de fato, muito bem. Assim como os empresários em geral, os trabalhadores assalariados e os governos, no que diz respeito às receitas. Parecia que o capitalismo, como sistema-mundo, teria um poderoso impulso, após a Grande Depressão e as destruições maciças da II Guerra Mundial.

Porém, tempos tão bons não duraram para sempre, nem poderiam. Por um motivo: a expansão da economia-mundo baseou-se em alguns quase-monopólios, nas chamadas indústrias-líderes. Duraram até serem solapados por competidores que conseguiram, finalmente, entrar no mercado mundial. Competição mais acirrada reduziu os preços (sua virtude), mas também a lucratividade (seu vício). A economia-mundo mergulhou numa longa estaganção nos trinta ou quarenta anos inglórios seguintes (1970s – 2012 e além). Este período foi marcado por endividamento crescente (de quase todo mundo), desemprego global em alta e retirada de muitos investidores (talvez a maior parte) para os títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

Tais papéis são seguros, ou pelo menos mais seguros, mas não muito lucrativos, exceto para um grupo cada vez menor de bancos e hedge funds que manipularam as operações financeiras em todo o mundo – sem produzir valor algum. Isso nos trouxe aonde estamos: um mundo incrivelmente polarizado, com os salários reais muito abaixo de seus picos nos anos 1970 (mas ainda acima de seus pisos, nos 1940) e as receitas estatais significativamente rebaixadas, também. Uma sequência de “crises da dívida” empobreceu uma sequência de zonas do sistema-mundo. Como resultado, o que chamamos de demanda efetiva contraiu-se em toda parte. É ao que Sorkin se referia, quando afirmou que o mercado de ações já não é atrativo, como fonte de lucros para acumular capital.

O núcleo do dilema tem a ver com as contraiçẽos centrais do sistema. O que maximiza os ganhos, a curto prazo, para os produtores mais eficientes (margens de lucro ampliadas), oprime os compradores, a longo prazo. À medida em que mais populações e zonas integram-se completamente à economia-mundo, há cada vez menos margem para “ajustes” ou “renovações” – e cada vez mais escolhas impossíveis para investidores, consumidores e governos.

Lembremos que a taxa de retorno, no século passado, foi o dobro do aumento do PIB. Isso poderia se repetir? É difícil de imaginar – tanto para mim, quanto para a maior parte dos investidores potenciais no mercado. Isso gera as restrições com que nos deparamos todos os dias nos Estados Unidos, Europa e, breve, nas “economias emergentes”. O endividamento é alto demais para se sustentar.

Por isso, temos, por um lado, um apelo político poderoso à “austeridade”. Ela significa, na prática, eliminar direitos (como aposentadorias, qualidade da assistência médica, gastos com educação) e reduzir o papel dos governos na garantia de tais direitos. Porém, se a maioria das pessoas tiver menos, elas gastarão obviamente menos – e quem vende encontrará menos compradores – ou seja, menor demanda efetiva. Portanto, a produção será ainda menos lucrativa (reduzindo os ganhos com ações); e os governos, ainda mais pobres.

É um círculo vicioso e não há saída fácil aceitável. Pode significar que não há saída alguma. É algo que alguns de nós chamamos crise estrutural da economia-mundo capitalista. Produz flutuações caóticas (e selvagens) quando o sistema chega a encruzilhadas, e surgem lutas duríssimas sobre que sistema deveria substituir aquele sob o qual vivemos.

Os políticos e “especialistas” preferem não enfrentar esta realidade e as escolhas que ela impõe. Mesmo um realista, como Sorkin, termina sua análise expressando a esperança que que a economia terá “um impulso”; e a sociedade, “fé a longo prazo”. Se você pensa que será suficiente, posso me oferecer para vender-lhe a Ponte de Brooklin.

Tradução: Antonio Martins/Outras Palavras

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O que há de escandaloso no escândalo Libor?


Por Immanuel Wallerstein

Desde 4 de julho, lemos nos maiores jornais do mundo e nas declarações de deputados, dirigentes de bancos centrais e autoridades judiciais que há um “escândalo” a envolver uma coisa chamada Libor. Antes disso, poucas pessoas, para além do grupo que se interessa por bancos, tinham ouvido falar da Libor. Subitamente, disseram-nos que os maiores bancos da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos, da Suíça, da Alemanha, de França, e provavelmente de um grande número de outros países, estavam envolvidos em ações supostamente “fraudulentas”.

Além disso, explicaram-nos que não se tratava de uma questão de centavos. Derivados financeiros de centenas de trilhões de dólares baseiam-se na taxa Libor. A acusação era de que os bancos “manipulavam” esta taxa, obtendo não só lucros astronómicos; só que, por outro lado, as pessoas que estavam pagando hipotecas e empréstimos, ou os estudantes que estavam pagando empréstimos, pagaram mais do que deveriam. Resumindo: os bancos obtiveram, de fato, lucros enormes à custa de outros, que tiveram perdas pesadas.

Tudo isso suscitou muitas questões. (1) Como isso foi possível? (2) Por que as autoridades reguladoras não interromperam uma prática que agora dizem ser tão fraudulenta; ou seja: quem sabia o quê e quando? E (3) alguma coisa pode ser feita para garantir que isto não aconteça novamente?

Vamos começar com a definição da taxa Libor. É uma abreviação de London Interbank Offered Rate (Taxa Interbancária Praticada em Londres). Não é muito antiga: a versão definitiva é de 1986. Na época, a British Bankers Association (Associação dos Banqueiros Britânicos) pediu que os “maiores bancos” compartilhassem informação diária sobre as taxas de juros que pagariam, se tomassem empréstimos de outros bancos. Depois de eliminados os valores extremos, determinava-se uma taxa média, modificada diariamente. A ideia era que, se os bancos se sentissem confiantes sobre o estado da economia, a taxa seria mais baixa; se estivessem inseguros, a taxa seria mais alta.

Quando a imprensa mundial usou a palavra “escândalo” para falar sobre a Libor, ficou claro que o tema tinha sido debatido muito antes, em ambientes menos visíveis. Parece que o Wall Street Journal tinha divulgado um estudo, em 29 de maio de 2008 (sim, em 2008!), sugerindo que alguns bancos estavam subestimando os custos dos empréstimos. Outros imediatamente disseram que o estudo era impreciso ou, se correto, que os bancos tinham agido de forma inadvertida. Análises acadêmicas subsequentes sugeriram, contudo, que a acusação de subestimação dos custos era de fato verdadeira.

A questão é que quando um banco está a lidar com 50 trilhões de dólares em valores teóricos, uma pequena subestimação de taxas gera imediatamente um aumento significativo dos lucros. Assim, a tentação era óbvia. Acontece que, já no início de 2007, tanto o Federal Reserve quanto o Banco da Inglaterra suspeitaram dessa subnotificação. Nenhum fez muita coisa.

Agora dizem-nos que essas taxas, longe de serem confiáveis ou estáveis, são na verdade meras “suposições”. Desde que o Lehman Brothers entrou em colapso, os bancos em todo o mundo deixaram de realizar empréstimos entre si. Como disse o New York Times, num artigo de 19 de julho de 2012: “As taxas precisas têm pouca base real”. Em 2011, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos começou uma investigação criminal. Graças a fugas de informação, sabemos agora que houve trocas de e-mails entre banqueiros que falavam alegremente da subestimação das taxas, e encorajavam a fazê-lo. Por que não? Estavam a ganhar muito dinheiro.

No meio disto tudo, o Independent publicou uma reportagem de duas páginas sobre os paraísos fiscais, e a quantidade incrível de dinheiro que sai dos países do Sul global para esses lugares, privando-os assim de valores que provavelmente seriam mais que suficientes para financiar as transformações econômicas e a redistribuição de rendimentos que estes países afirmam querer pôr em prática. Ao contrário das manipulações da Libor, os paraísos fiscais são perfeitamente legais.

Então, onde está o escândalo? As duas práticas – manipulação da Libor e transferência de dinheiro para os paraísos fiscais – são absolutamente normais numa economia-mundo capitalista. A finalidade do capitalismo, afinal de contas, é a acumulação de capital – quanto mais, melhor. Um capitalista que não maximiza os ganhos, de uma forma ou de outra, será mais tarde ou mais cedo eliminado do jogo.

O papel dos Estados nunca foi controlar ou limitar estas práticas, mas fazer vista grossa pelo máximo de tempo possível. Uma vez ou outra, as práticas – dos capitalistas e dos Estados – são momentaneamente expostas. Algumas pessoas vão para a cadeia, ou são forçadas a devolver os lucros tecnicamente ilegais. E os políticos falam de reformas – procurando adotar, com grande alarde, o nível mais baixo de “reforma” que puderem.

Mas isto não é um escândalo, porque o que se chama de “escândalo” é, na verdade, o coração do sistema. Algum dia vai isto mudar? Sim, claro. Um dia, o sistema deixará de existir. Claro que isso abre outra questão. O próximo sistema será melhor? É possível, mas não é certo.

Enquanto isso, chamar a manipulação da Libor de escândalo é desviar as atenções do fato de que se trata de mais uma forma normal de acumular capital. Em 1992, James Carville, estrategista da campanha do então candidato Bill Clinton à Presidência dos EUA, saiu-se com um dito que ficou famoso: “É a economia, estúpido”. Frente aos chamados escândalos, deveríamos dizer “É o sistema, estúpido”.

(*) Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net

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As ilusões fatais das potências decadentes


Por Immanuel Wallerstein



Blowback [algo como revertério, ou tiro pela culatra] é um termo criado pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA). Referia-se originalmente às consequências negativas não intencionais, infligidas a um país por suas próprias operações de espionagem. Por exemplo, se uma operação secreta da CIA levasse a um ataque de represália contra cidadãos norte-americanos que não estavam cientes da iniciativa, isso era considerado umblowback. Mas hoje, muitas operações não são secretas (por exemplo o uso de drones no Paquistão ou no Iêmen). E os ataques de represália são muitas vezes assumidos publicamente. No entanto, alguns países parecem não deixar de se envolver em tais operações.
Precisamos de uma definição mais útil de blowback, para explicar como e por que eles estão ocorrendo em muitos lugares. Penso que o primeiro elemento é que os países envolvidos com operações desse tipo são, sim, poderosos – mas menos poderosos do que se acostumaram a ser. Quando estavam no ápice de seu poder, podiam desprezar os blowbacks, por serem desdobramentos limitados e não-intencionais. Mas agora que são menos poderosos, as consequências não são tão reduzidas. Ainda assim, parecem sentir necessidade de lançar tais operações com ainda mais força e ainda mais abertamente.
Vamos analisar dois casos famosos de blowback. Um deles envolve os Estados Unidos. Nos anos 80, Washington queria expulsar o exército da União Soviética do Afeganistão. Para isso, apoiou os mujahidin. Um dos líderes mais famosos dos grupos que os EUA apoiaram era Osama Bin Laden. Assim que as tropas soviéticas se retiraram, Osama Bin Laden criou a Al-Qaeda e voltou-se contra os Estados Unidos.
Um segundo caso diz respeito a Israel. Nos anos 70, Telaviv considerava Yasser Arafat e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) seus principais oponentes. Buscando enfraquecer a organização, financiou-se um braço palestino da Irmandade Muçulmana, conhecido como Hamas. O Hamas cresceu, e de fato enfraqueceu a OLP de alguma forma. Mas em certo ponto, tornou-se um oponente mais efetivo ao Estado israelense que a própria OLP havia sido.
Hoje, todos sabem desses acontecimentos. Outros, envolvendo Grã-Bretanha e França, também poderiam ser citados, e a lista de países que sofreram blowbacks é ainda maior. Então, pergunta-se: por que eles continuam agindo de forma que parece enfraquecer seus próprios objetivos? Fazem isso exatamente porque seu poder está declinando.
Precisamos enxergar o tema como uma questão de temporalidade nas políticas de Estado. Osblowbacks ocorrem quando as potências em declínio envolvem-se em ações que, a curto prazo, alcançam os objetivos imediatos; mas, a médio prazo, apressam ainda mais o declínio – portanto, a longo prazo, são derrotas auto-impostas. A decisão mais óbvia das potências declinantes seria não reiniciar o ciclo. As operações secretas já não funcionam para alcançar os objetivos do país a longo prazo.
Voltando aos exemplos: será que o presidente Obama e o primeiro-ministro Netanyahu não entendem as consequências do que fazem? E se entendem, por que continuam essas operações, até mesmo vangloriando-se delas? Na realidade, penso que os dois chefes de governo, e também os serviços de inteligência dos dois países, entendem a ineficácia das operações. Mas eles enfrentam dilemas imediatos.
Primeiro, eles são políticos, interessados em permanecer no poder. Ambos enfrentam, em seus países, forças para as quais suas políticas não são suficientemente agressivas. E nenhum confronta-se com movimentos políticos fortes que reivindiquem uma revisão radical das políticas nacionais. Em outras palavras, a extrema direita é, nos dois países, muito forte; e a esquerda, mesmo que moderada, é fraca. A razão de fundo para isso é que a opinião pública não aceita, em nenhum dos dois países, a realidade do declínio relativo de poder.
O que os líderes podem fazer é esconder – até certo ponto – que empurram os problemas com a barriga. Mas como as atividades de inteligência tornaram-se, na prática, muito mais transparentes, eles só podem fazer isso por algum tempo. Quando a possibilidade se esgota, eles passam a acreditar que, para se manterem no poder no curto prazo, devem conservar políticas que, conforme sabem, não vão dar certo a longo prazo.
Há outra razão. Obama ainda não desistiu de um sonho impossível – restaurar a posição de hegemonia inquestionada dos Estados Unidos. E Netanyahu não desistiu de outra quimera – um Estado judaico-israelense muito ampliado, abrangendo as fronteiras do antigo Mandato Britânico na Palestina. E se eles não desistirem desses sonhos, certamente não poderão ajudar os cidadãos a entenderem as novas realidades geopolíticas do sistema-mundo e a própria realidade de que o poder de seus países está em declínio.
Tradução: Daniela Frabasile
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Ensino Superior sob ataque


Por Immanuel Wallerstein


Durante muito tempo, existiram no mundo apenas umas poucas universidades. O corpo estudantil total destas instituições era muito pequeno. Este pequeno grupo de estudantes era em grande parte originário das classes mais altas. Frequentar a universidade conferia um grande prestígio e refletia um grande privilégio.

Este quadro começou a mudar radicalmente depois de 1945. O número de universidades começou a expandir-se consideravelmente, e a percentagem de pessoas que frequentavam a universidade começou a crescer. Além disso, não se tratou de uma simples questão de expansão nos países que já tinham universidades importantes. A educação universitária foi lançada num grande número de países que tinham poucas ou nenhuma instituição universitária antes de 1945. O ensino superior tornou-se mundial.
A pressão para a expansão veio de cima e de baixo. De cima, os governos sentiram uma necessidade importante de ter mais licenciados para garantir a sua capacidade de competir nas mais complexas tecnologias essenciais para a expansão explosiva da economia-mundo. E de baixo, grande parcela do extrato médio e mesmo do extrato mais baixo das populações mundiais insistiam em ter acesso ao ensino superior, de forma a melhorar consideravelmente as suas perspetivas económicas e sociais.
A expansão das universidades, notável em tamanho, foi possível graças ao crescimento da economia-mundo depois de 1945, o maior da história do sistema-mundo moderno. Havia muito dinheiro disponível para as universidades, que tinham todo o prazer em usá-lo.
Claro que isto mudou de certa forma os sistemas universitários. As universidades individuais tornaram-se maiores e começaram a perder a qualidade da intimidade que era característica das estruturas menores. A composição de classe do corpo estudantil, e também do docente, evoluiu. Em muitos países, a expansão não só significou uma redução do monopólio das pessoas dos extratos altos como estudantes, professores, administradores, mas também muitas vezes significou que os grupos “minoritários” e as mulheres começaram a ter um acesso mais amplo, que antes fora total ou parcialmente negado.
Este quadro cor-de-rosa começou a passar por dificuldades por volta de 1970. Por um motivo: a economia-mundo entrou numa longa estagnação. E, pouco a pouco, o montante de dinheiro que as universidades recebiam, em grande parte proveniente do estado, começou a diminuir. Ao mesmo tempo, os custos da educação universitária continuaram a subir, e as pressões vindas de baixo no sentido de uma expansão contínua tornaram-se ainda mais fortes. A história, desde então, foi a de duas curvas indo em direções opostas – menos dinheiro e despesas aumentadas.
Quando chegámos ao século XXI, a situação ficou terrível. Como se arranjaram as universidades? Uma das formas foi o que começámos a chamar “privatização”. A maioria das universidades de antes de 1945, e mesmo de antes de 1970, eram instituições estatais. A única exceção significativa foram os Estados Unidos, que tinham um grande número de instituições não-estatais, a maioria das quais evoluíra de instituições de base religiosa. Mas mesmo nestas instituições privadas norte-americanas, as universidades eram geridas como estruturas não-lucrativas.
Em todo o mundo, a privatização começou a significar várias coisas: uma, começaram a existir instituições de ensino superior criadas com o objetivo do lucro. Duas, as instituições públicas começaram a procurar e a obter dinheiro de doadores empresariais, que começaram a intrometer-se no governo interno das universidades. E três, as universidades começaram a procurar registar patentes provenientes de descobertas e invenções que eram fruto do trabalho dos investigadores e da universidade, e assim entraram como operadores na economia, quer dizer, como negócios
Numa situação em que o dinheiro era escasso, ou pelo menos parecia escasso, as universidades começaram a transformar-se em instituições mais semelhantes a empresas. Observou-se este fenómeno de duas formas principais. As posições administrativas de topo das universidades e das suas faculdades, que eram tradicionalmente ocupadas por académicos, começaram a ser ocupadas por pessoas vindas do mundo dos negócios e não da vida universitária. Eles angariavam dinheiro, mas também começavam a estabelecer critérios para o seu uso.
Começaram então a fazer-se avaliações de universidades na sua totalidade e de departamentos universitários em termos de resultados produzidos em relação ao dinheiro investido. Isto podia ser medido pelo número de estudantes que pretendiam seguir estudos particulares, ou por quanto era valorizado o resultado da investigação de dadas universidades ou departamentos. A vida intelectual estava a ser julgada por critérios de pseudo-mercado. Mesmo o recrutamento de estudantes estava a ser medido por quanto dinheiro era carreado através de métodos alternativos de recrutamento.
E, como se isso não fosse suficiente, as universidades começaram a ficar sob os ataques da corrente de extrema-direita anti-intelectual que acha que as universidades são instituições seculares e antirreligiosas. A universidade como uma instituição crítica – crítica dos grupos dominantes e das ideologias dominantes – sempre tinha enfrentado a resistência e a repressão dos estados e das elites. Mas a sua capacidade de sobrevivência sempre encontrou raízes na sua autonomia financeira relativa, baseada no baixo custo real da operação. Esta foi a universidade de ontem, não a de hoje – nem a de amanhã.
Pode-se escrever isto como simplesmente mais um aspeto do caos global no qual estamos a viver. Só que era suposto que o papel das universidades fosse o de serem um dos principais lugares (não evidentemente o único) onde se analisam as realidades do nosso sistema-mundo. É esta análise que pode tornar possível a navegação bem-sucedida nesta transição caótica em direção a uma nova, e oxalá melhor, ordem mundial. De momento, a barafunda dentro das universidades não parece mais fácil de resolver que a barafunda na economia-mundo. E está a receber ainda menos atenção.
Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net

Os EUA na segunda armadilha de Bin Laden




Por Immanuel Wallerstein



Em outubro de 2001, logo depois do 11 de Setembro, escrevi o seguinte:
“Os regimes [do Paquistão e Arábia Saudita] apoiam-se numa coalizão entre as elites modernizantes pró-ocidentais e um establishment islâmico extremamente conservador, com bases populares. Os regimes mantêm-se estáveis por serem capazes de articular esta combinação. E podem alimentá-la graças à ambivalência de suas políticas e pronunciamentos públicos.
“Os Estados unidos dizem agora que chega de ambiguidades. Esta posição pode prevalecer, é claro. Mas no processo, os regimes saudita e paquistanês poderão descobrir que sua base popular está irremediavelmente erodida…
“Considere que este pode ter sido o plano de Bin Laden. O objetivo de sua própria missão suicida pode ter sido conduzir os Estados Unidos a tal armadilha”
Acredito que Bin Laden conseguiu agora o que planejou no Paquistão. O fim das ambiguidades acabou significando que o país já não opera geopoliticamente em favor dos interesses dos Estados Unidos. Bem ao contrário! Tomou distância e está promovendo, no Afeganistão e não só lá, políticas às quais os EUA opõem-se firmemente. Falta, agora, o segundo objetivo.
Que está ocorrendo na Arábia Saudita? Não há dúvidas de que, de alguma maneira, o país passou a agir mais independentemente dos Estados Unidos do que fizera nos últimos 70 anos. Mas não houve, ainda, uma ruptura definitiva, como no Paquistão. Ela ocorrerá, em futuro próximo? Penso que talvez.
Analise os múltiplos dilemas internos do regime. A riqueza de cerca de 10% dos sauditas provocou o crescimento agudo das demandas por “modernização” do Estado. São mais visíveis em temas ligados às mulheres (direito ao emprego e a conduzir carros). Mas tais reivindicações por mais direitos são a ponta de um iceberg, de um clamor mais amplo pelo afrouxamento das restrições impostas pela ortodoxia wahhabista. À medida em que o rei se move numa trajetória contínua, mas cautelosa, para atender a estas demandas, ele antagoniza-se ainda mais com oestablishment religioso – que está se tornando muito inquieto.
Além disso, as elites “modernizantes” têm outras queixas. O governo saudita é, essencialmente, uma gerontocracia, conduzida por homens na faixa dos 70 e 80 anos. No curioso sistema de sucessão o regime lembra o da antiga União Soviética. Há algo similar a uma votação, no processo sucessório – mas ela se dá entre uma dezena de pessoas, ou um pouco mais. A probabilidade de que o poder passe para gente na faixa dos 50 e 60 é extremamente baixa, se não inexistente. Repare, no entanto, que este grupo de “jovens”, mesmo que formado apenas no interior da família real, cresceu consideravelmente em número, e está impaciente. Isso pode levar a uma séria cisão no próprio topo da elite? É bem possível que sim.
O regime saudita maneja algo como um estado de bem-estar social para os cidadãos comuns. Porém, as desigualdades de renda e riqueza estão crescendo, como em toda parte. E pequenas redistribuições, de tempos em tempos, não vão acalmar as camadas inferiores, mas apenas aguçar seu apetite por novas demandas. Os extratos médios e baixos podem inclusive (surpresa, surpresa!) ecoar os apelos da Primavera Árabe por “democracia”.
E há uma minoria xiita. Afirma-se que ele representa apenas cerca de 10% da população; mas é provável que seja maior e – mais importante – está estrategicamente localizada no sudeste do país, sobre as maiores reservas de petróleo. Por que tais xiitas seriam os únicos, nas nações do Oriente Médio dominadas por sunitas, a não lutar por suas reivindicações identitárias?
O regime saudita tem tentado jogar um papel de destaque na geopolítica da região. Está insatisfeito com as políticas e aspirações do Irã e com a intransigência do presidente Assad, na Síria. Mas, no frigir dos ovos, comporta-se de modo muito moderado, em relação a estes temas. Teme as consequências de guinadas bruscas. E julga as políticas norte-americanas orientadas demais pelos interesses internos dos EUA, e por seus infinitos compromissos com Israel.
Os sauditas têm sido muito “razoáveis” também com Israel. Não creem que esta moderação tenha sido bem recompensada – quer por Israel, quer pelos Estados Unidos. Podem estar prontos, agora, para apoiar o Hamas de forma muito mais aberta. Não enxergam nada “razoável” nas políticas do governo israelense, nem perspetiva alguma de que estas políticas sejam alteradas em breve.
Este quadro não contribui para um regime politicamente estável. Certamente, não ajuda a manter as “ambiguidades” que permitiram ao regime ser, no passado, um aliado inabalável dos Estados Unidos na região.
A segunda armadilha irá se fechar?

Tradução: Antonio Martins
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Estados Unidos e China são rivais, mas se tornam cada vez mais colaboradores


Por Immanuel Wallerstein


O relacionamento entre a China e os Estados Unidos é assunto importante para as classes falastronas (blogueiros, mídia, políticos, burocratas internacionais). Suas análises em geral descrevem a relação entre uma superpotência em declínio, os EUA, e um país "emergente" em rápida ascensão, a China.
No mundo ocidental, o relacionamento é quase sempre definido de maneira negativa, com a China vista como "ameaça". Mas ameaça a quem e em que sentido?
É claro que, quando o Partido Comunista conquistou a China, chineses e americanos pareciam ter se transformado em ferozes inimigos. Na Guerra da Coreia, combateram em lados opostos.
Mesmo assim, pouco tempo depois o presidente Richard Nixon fez sua famosa visita a Pequim e estabeleceu uma aliança prática contra a União Soviética. Como parte de seu acordo, os Estados Unidos romperam suas relações diplomáticas com Taiwan (ainda que tenham mantido sua garantia de proteger o país contra uma invasão chinesa).
Embora o colapso da União Soviética tenha tornado irrelevante a aliança, o relacionamento não mudou, na prática. Na verdade, eles se aproximaram ainda mais.
A situação em que o mundo se encontra hoje envolve um grande superavit chinês com os EUA, e boa parte desse excedente ruma para títulos do Tesouro americano, o que ajuda a garantir a capacidade de Washington para continuar a investir recursos pesados em suas múltiplas atividades militares e a se manter como bom comprador de produtos chineses.
Ocasionalmente, os dois governos adotam retórica áspera, ainda assim nunca é muito sábio prestar atenção à retórica.
Nos assuntos globais, a retórica em geral tem por intento primário exercer efeito político no país do qual se origina, em vez de refletir a verdadeira política com relação ao país contra o qual é dirigida.
As ações dos países merecem mais atenção. Atentem ao seguinte: em 2001, pouco antes do 11 de Setembro, um avião chinês e um avião norte-americano colidiram ao largo da ilha de Hainan.
O avião norte-americano provavelmente estava espionando a China. Alguns políticos dos Estados Unidos apelaram por resposta militar. O presidente George W. Bush discordou. Mais ou menos se desculpou com os chineses e obteve a restituição do avião e a libertação dos 24 aviadores americanos capturados.
Nos diversos esforços americanos para obter apoio da ONU às ações do país, em diversas arenas, os chineses muitas vezes dissentiram, mas jamais vetaram uma resolução que os EUA tenham proposto diretamente. A cautela de parte a parte parece vir sendo a atitude preferencial, a despeito da retórica.
Assim, em que ponto estamos? A China, como todas as grandes potências atuais, tem uma política externa multifacetada, que abarca todas as regiões do planeta.
Creio que a prioridade número um seja o relacionamento com o Japão e as duas Coreias. A China é forte, sim, mas o seria muito mais caso fizesse parte de uma confederação do nordeste asiático.
China e Japão precisam um do outro, primeiro como parceiros econômicos e segundo para garantir que não haja confronto militar entre eles. A despeito de ocasionais desentendimentos causados por sentimentos nacionalistas, os dois países vêm avançando nessa direção.
Para a Coreia do Sul, a China serve como elemento crucial na contenção dos nortecoreanos. No caso da China, instabilidade na Coreia do Norte poderia significar ameaça imediata à sua fronteira.
Quanto à percepção americana desses desdobramentos, não seria razoável supor que o país está tentando aceitar uma confederação do nordeste asiático enquanto esta se desenvolve? Seria possível analisar a presença militar dos EUA no nordeste, no sudeste e no sul da Ásia não como postura militar séria, e sim como manobra de negociação no jogo geopolítico que se desenrolará ao longo dos próximos dez anos.
China e Estados Unidos são rivais? Sim, em certa medida. Já são inimigos? Não, não são inimigos. São colaboradores? Já colaboram em grau maior do que admitem e o farão em escala muito maior à medida que a década avança.
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