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40 Anos do Golpe no Chile


Os Estados Unidos articularam a ascensão ao poder de uma das ditaduras mais cruéis, violentas e implacáveis da América Latina, comandada pelo General Augusto Pinochet.

Por Samuel Pinheiro Guimarães

Fora do contexto mais amplo da política dos Estados Unidos para a América Latina, é difícil compreender o golpe no Chile, 40 anos atrás.

Desde a Independência das colônias espanholas e portuguesa, no início do século XIX, e da proclamação da Doutrina Monroe, em 1823, os Estados Unidos consideram, e as potências europeias reconhecem (e muitos latino americanos aceitam), que a América Latina deve estar necessariamente na sua área de influência, isto é, sob a sua hegemonia.

Sobre a América Central e o Caribe os Estados Unidos estabeleceram o seu domínio com a conquista pela força armada de mais da metade do território do México, em 1848; com as seguidas intervenções e longas ocupações militares na Nicarágua, no Haiti, na República Dominicana e outros países; com a conquista de Cuba e de Porto Rico à Espanha; com a promoção da secessão do Panamá, em 1903, e a construção do Canal, com sua Zona de ocupação militar permanente, que perdurou até o ano 2000.

Estava criado o Mar Americano, do novo Povo Eleito.

Repressão no 1º de Maio chileno



Alguns militantes de esquerda, por vezes, tendem a fazer comentários generalizantes, acreditando que os governos pós-neoliberais da América Latina (Brasil, Argentina, Bolívia, Equador, etc.) em nada se diferenciariam dos velhos (ou atuais) governos neoliberais. O Chile é um bom exemplo para estes militantes de que as diferenças existem e são gritantes.

O Dia do Trabalhador no Chile foi marcado por uma grande manifestação que terminou em confronto com a polícia e a prisão de 60 manifestantes em Santiago, conforme informaram as autoridades chilenas, e um número ainda maior de feridos pela repressão.

Uma grande manifestação com 150 mil pessoas - segundo os organizadores do protesto - percorreu de forma pacífica a Avenida Alameda, a principal artéria de Santiago, o ato foi convocado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) do Chile e contou com a participação de sindicalistas, estudantes, partidos de esquerdas, grupos anarquistas, representando uma grande diversidade que, a algum tempo, tem lutado para impedir o avanço das políticas neoliberais do presidente Sebastián Piñera.

Como já ocorreu em outros protestos no Chile, a repressão foi duríssima contra os manifestantes. Um pequeno grupo anarquista, de forma espontânea, partiu para ações radicalizadas (atiram pedras e "coquités molotov" contra lojas e policiais). A resposta da polícia dos Carabineiros foi disproporcional e generalizadas.  Mostrando como governos neoliberais tratam os movimentos sociais.
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Margaret Thatcher se encontra com Pinochet


Margaret Thatcher, a "Dama de Ferro", governou a Inglaterra de 1979 a 1990, o maior período de governo de um primeiro-ministro britânico desde o início do século 19.
Ela, junto com presidente dos EUA Ronald Reagan (também já falecido), foram pilares para a difusão do chamado neoliberalismo e a derrocada do "estado de bem-estar social" na Europa e EUA. No entanto, a mais importante parceria de Thatcher não seria com o ex-ator de filmes B em Hollywood  e dublê de presidente, mas sim, com uma outra figura de triste lembrança, o ditador chileno Augusto Pinochet.
Thatcher e Pinochet, ao seu modo, foram dois pilares para a consolidação do neoliberalismo.
Thatcher sempre apoiou e respaldou as ações da sanguinária ditadura chilena, que vitimou aproximadamente 10 mil pessoas. Esse apoio não era involuntário. Foi no Chile, que pela primeira vez, era posta em prática a doutrina neoliberal.
O Chile foi o laboratório para a grande "experiencia neoliberal" que viria a assolar, posteriormente, boa parte do mundo. Pinochet foi um dos governantes que seguiu de maneira mais radical a ortodoxia neoliberal. Poucos países do mundo souberam combinar de maneira tão "pura" a prerrogativa do "livre mercado", aliado ao uso da força, ou da "Doutrina do Choque", como aponta Naomi Klein (veja mais no documentário, acessando aqui).
Após a queda de Pinochet no Chile, quando este teve sua prisão pedida na Inglaterra, por ação do juiz espanhol Baltasar Garzón, Thatcher moveu todos os esforços possíveis para impedir que seu amigo fosse para traz das grades.
Agora, Thatcher e Pinochet se encontram novamente, no lugar que lhes é devido: o lixo da história.

Em tempo: por uma questão de coerência, circula na rede uma petição pela privatização do funeral de Margareth Thatcher. Afinal, que melhor maneira do governo britânico prestar uma homenagem a "Dama de Ferro", que entregar para a iniciativa privada os gastos pela realização das cerimônias fúnebres da ex-primeira ministra? Confira a petição aqui
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Em plebiscito, 90% dos chilenos apoiam estudantes, mas governo ignora resultado


Por João Paulo Charleaux (Opera Mundi)


Depois do fracasso da mesa de negociações com o governo, na semana passada, e do aumento da repressão policial contra os protestos de rua, os estudantes chilenos recorreram neste fim de semana a um plebiscito nacional, como forma de resolver a crise que já dura cinco meses e mantém o país sob uma de suas mais graves crises políticas desde a redemocratização, em 1990. 


Mais de 1,5 milhão de chilenos votaram na sexta e no sábado. Destes, 90% está a favor do movimento estudantil, segundo a primeira contagem, com 60% das urnas apuradas. Apesar do número expressivo, o governo sequer cogitou utilizar a consulta popular como meio de saída para a crise, nem mesmo de forma consultiva.

O plebiscito foi convocado pelo Movimento pela Consulta e pelos Direitos Cidadãos e pelo Colegio de Profesores do Chile (Sindicato dos Professores), que apoia a mobilização dos estudantes desde o início. Segundo o presidente do Colegio dos Profesores, Jaime Gajardo, foram habilitados mais de 4 mil pontos físicos de votação, em 25 países, além do site www.votociudadano.cl, por meio do qual todos os maiores de 14 anos portando cédula de identidade chilena puderam votar.



A cédula continha quatro perguntas: sobre a garantia de educação pública gratuita para todos, sobre a transferência das escolas municipais ainda existentes para a administração direta do Ministério da Educação, sobre a proibição do lucro nas instituições de ensino que recebem fundos públicos e, por fim, sobre a incorporação de plebiscitos como este como uma ferramenta para resolver problemas de caráter nacional. 


Iniciativa ilegal

A Constituição do Chile – herdada em 1980 da ditadura Pinochet (1973-1990) – não reconhece plebiscitos, referendos ou outras consultas populares como instrumentos deliberativos.

“A opção do plebiscito só existe na Constituição atual em casos de conflito entre o Executivo e o Legislativo”, explicou Claudio  
Fuentes Saavedra, cientista político pela Universidade da Carolina do Norte e diretor do Instituto de Pesquisa em Ciências Sociais da Universidade Diego Portales, de Santiago do Chile, ao Opera Mundi, no mês passado, quando começaram a surgir os primeiros rumores sobre o plebiscito da Educação. 

Choque de posições

No primeiro dia de plebiscito, o Opera Mundi visitou um dos locais de votação na cidade de Temuco, 700 km ao sul de Santiago, um dia depois de a tropa de choque da polícia ter retirado à força dezenas de estudantes que ocupavam o campus da Universidad de la Frontera (Ufro), num violento confronto que terminou com 13 estudantes detidos.

Apesar do clima de tensão na universidade, na noite anterior, dezenas de chilenos compareceram às urnas desde a manhã de sábado.

Pablo Rojas, de 30 anos, foi um dos primeiro a depositar seu voto na urna do Colegio de Profesores de Temuco. “Participar em consultas públicas como esta é uma forma importante de encorajar os chilenos a dar sua opinião e participar das decisões importantes que o país precisa tomar. Num lugar com tantos recursos, é fundamental investir no nosso futuro e nosso futuro é a educação, especialmente a educação pública, gratuita e de acesso para todos”.

Eleitores que se opõem às mudanças também participaram do plebiscito. O professor aposentado Al Nabor Sepúlveda, de 68 anos, disse que “os estudantes estão há cinco meses apostando na via do confronto, sem se dar conta de que, com isso, minam as instituições democráticas, impondo uma visão de mundo que talvez não corresponda à vontade da maioria”. Sepúlveda diz que foi preso político durante a ditadura Pinochet e lamenta que “os mais jovens, hoje, não percebam como foi difícil construir a democracia no Chile”.

O resultado final do plebiscito será entregue pelo Colegio de Profesores ao presidente Sebastián Piñera, ao Ministério da Educação, à Câmara dos Deputados, ao Senado e à Corte Suprema de Justiça. O principal objetivo é fazer com que consultas populares como esta sejam reconhecias pela Constituição.

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Noam Chomsky e os dez anos do 11 de setembro





11 de setembro — havia uma alternativa?


Por Noam Chomsky



Estamos nos aproximando do 10° aniversário das horrendas atrocidades ocorridas em 11 de setembro de 2001, as quais, como frequentemente é sustentado, mudaram o mundo.  No dia 1° de maio, o suposto mentor dos ataques, Osama bin Laden, foi assassinado no Paquistão por um time de elite dos Estados Unidos, o Navy SEALs, depois que foi capturado — desarmado e desprotegido — na Operação Gerônimo.
Alguns analistas observaram que, embora bin Laden estivesse finalmente morto, ele conseguiu algumas grandes vitórias na guerra contra os EUA: “Ele reiteradamente sustentava que o único modo de tirar os Estados Unidos do mundo islâmico e de derrotar seus tiranos era envolver os estadunidenses numa série de pequenas, porém caras guerras que iriam levá-los, enfim, à bancarrota”, escreveu Eric Margolis. “Sangrar os EUA”, em suas palavras. “Os Estados Unidos, primeiro sob o comando de George W. Bush e depois sob Barack Obama, caíram direto na armadilha de bin Laden… Grotescamente, orçamentos militares e ‘débitos viciados’ exagerados… devem ser o legado mais pernicioso do homem que pensou que poderia derrotar os EUA” — particularmente quando a dívida está sendo cinicamente explorada pela extrema direita, em conluio com o establishment democrata, para enfraquecer o que resta dos programas sociais, da educação pública, dos sindicatos e, em geral, das barreiras que ainda existem à tirania corporativa.
Que Washington estava inclinado a preencher os fervorosos desejos de bin Lade era evidente de primeira. Como discuti em meu livro 9-11, escrito logo após que os ataques ocorreram, qualquer um com conhecimento da região podia reconhecer  “(…) que um ataque massivo a uma população muçulmana seria a resposta às orações de bin Laden e seus companheiros e que guiaria os EUA e seus aliados para uma ‘armadilha diabólica’, como ponderou o Ministro das Relações Exteriores francês”.
O analista sênior da CIA, Michael Scheuer, responsável pelo rastreamento de Osama bin Laden desde 1996, escreveu logo após o ataque que “bin Laden foi preciso em dizer aos EUA as razões pelas quais está nos atacando. [Ele] está agindo para alterar drasticamente as políticas dos Estados Unidos e do Ocidente em relação ao mundo islâmico”, e ele, em grande parte, conseguiu:“As tropas e as políticas norte-americanas estão completando a radicalização do mundo islâmico, algo que Osama bin Laden vem tentando fazer com substancial, mas incompleto sucesso desde os anos 1990. Em consequência, acho justo concluir que os Estados Unidos da América permanecem sendo o único aliado indispensável de bin Laden.” E sem dúvida continuam sendo, mesmo após a morte dele.

O primeiro 11 de setembro

Havia uma alternativa? Há toda probabilidade de que o movimento Jihadi, boa parte dele muitíssimo crítico à Bin Laden, pudesse ter sido dividido e enfraquecido após 11 de setembro. O “crime contra a humanidade”, como foi corretamente chamado, poderia ter sido encarado como um crime mesmo, com uma operação internacional para prender os possíveis suspeitos. Isso foi reconhecido à época, mas tal ideia nem mesmo foi considerada.
No livro 9-11, eu assinalei a conclusão de Robert Fisk de que o “horroroso crime” de 11 de setembro foi cometido com “maldade e crueldade incríveis”, uma avaliação acurada. É útil ter em mente que os crimes poderiam ter sido ainda piores. Suponha, por exemplo, que o ataque tivesse ido ao ponto de ter atingido a Casa Branca, matado o presidente, imposto uma brutal ditadura militar que matou milhares e torturou dezenas de milhares enquanto estabelecia um centro de terror internacional que ajudou a impor estados de tortura-e-terrorismo similares em outros lugares e levou a uma campanha internacional de assassinato; e como impulso extra, que tivesse trazido um time de economistas — chame-os de “os garotos de Kandahar”[1] — que rapidamente levou a economia a uma das piores depressões de sua história. Isso, claramente, teria sido bem pior do que o 11 de setembro.
Infelizmente, este não é uma pensamento hipotético. Aconteceu. A única imprecisão deste relato é que os números deveriam ser multiplicados por 25 para produzir equivalentes per capita, a medida adequada. Estou, claro, referindo-me ao que, na América Latina, é frequentemente chamado de “o primeiro 11 de setembro”: 11 de setembro de 1973, quando os Estados Unidos tiveram êxito em seus intensos esforços para derrubar o governo democrático de Salvador Allende no Chile com um golpe militar que colocou no poder o brutal regime do General Pinochet. O objetivo, nas palavras da administração Nixon, era matar o “vírus” que encorajaria todos aqueles “estrangeiros que estão nos apertando” para adquirir seus próprios recursos e de outras maneiras perseguir uma intolerável política de desenvolvimento independente. No pano de fundo estava a conclusão do Conselho Nacional de Segurança de que, se os EUA não podiam controlar a América Latina, não se poderia esperar “atingir uma ordem satisfatória em outros lugares do mundo”.
O primeiro 11 de setembro, diferente do segundo, não mudou o mundo. Foi “nada de grande importância”, como Henry Kissinger (Secretário de Estado à época) assegurou a seu chefe alguns dias depois.
Esses eventos com poucas consequências não se limitaram ao golpe militar que destruiu a democracia chilena e colocou em movimento a horrível história que adveio. O primeiro 11 de setembro foi apenas um ato num drama que começou em 1962, quando John F. Kennedy passou a missão do exército na América Latina de “defesa do hemisfério” — uma posição anacrônica da II Guerra Mundial — para a de “segurança interna”, uma concepção com uma arrepiante interpretação nos círculos latino-americanos dominados pelos EUA.
No recentemente publicado pela Universidade de Cambridge História da Guerra Fria [History of the Cold War], o estudioso de América Latina John Coatsworth escreve que daquele período até “o colapso soviético em 1990, o número de presos políticos, vítimas de tortura e execuções de dissidentes políticos não violentos, na América Latina, largamente excedeu aqueles [números] da União Soviética e dos satélites do Leste Europeu”, incluindo muitos mártires religiosos e massacres também, sempre apoiados por ou iniciados em Washington. O último grande ato violento foi a brutal morte de seis lideranças intelectuais latino-americanas, padres jesuítas, poucos dias depois da queda do Muro de Berlim. Os assassinos eram um batalhão de elite salvadorenho, que já havia deixado um chocante rastro de sangue, recém vindo de um renovado treinamento na Escola de Guerra Especial JFK, agindo com ordens diretas do alto comando do “país sustentado” [client state] pelos EUA.
As consequências desta praga hemisférica, é claro, ainda reverberam.

De sequestro e tortura à assassinato

Tudo isso, e muito mais parecido com isso, é descartado como sendo de pouca relevância, e então esquecido. Aqueles cuja missão é comandar o mundo apreciam uma visão um pouco mais confortável, articulada bem o suficiente no atual número do prestigioso (e valioso) jornal do Royal Institute of International Affairs em Londres. O artigo principal discute “a visionária ordem internacional” da “segunda metade do século vinte” marcado pela “universalização de uma visão americana da prosperidade comercial”. Há algo de verdade no texto, mas ele não chega a transmitir a percepção daqueles no lado errado das armas.
O mesmo é verdade para o assassinato de Osaba bin Laden, que coloca um fim, pelo menos, à“guerra ao terror” redeclarada pelo Presidente George W. Bush no segundo 11 de setembro. Deixe-me focar em alguns pensamentos sobre este evento e seu significado.
Em 1° de maio de 2011, Osama bin Laden foi morto em seu virtual e desprotegido complexo [de edificações] por uma missão de 79 Navy SEALs, que entraram no Paquistão de helicóptero. Depois que muitas histórias tétricas foram fornecidas pelo governo e, então, desmentidas, relatos oficiais tornaram cada vez mais claro que a operação foi um assassinato planejado, múltipla violação de normas elementares do direito internacional, a começar pela invasão em si.
Parece não ter havido tentativa de prender a vítima desarmada, como presumivelmente poderia ter sido feito por 79 soldados enfrentando nenhuma oposição — exceto, eles relatam, da esposa de bin Laden, também desarmada, em quem eles atiraram em autodefesa quando ela “foi para cima deles”, de acordo com a Casa Branca.
Uma reconstrução plausível dos eventos é fornecida pelo veterano correspondente do Oriente Médio Yochi Dreazen e seus colegas do Atlantic. Dreazen, formamelmente correspondente militar para o Wall Street Journal, é correspondente sênior do National Journal Group cobrindo assuntos militares e segurança nacional. De acordo com a investigação deles, o plano da Casa Branca não parece ter considerado a opção de capturar bin Laden vivo: “o governo deixou claro ao secreto Comando de Operações Especiais Conjuntas dos militares que queria bin Laden morto, de acordo com um funcionário público sênior dos EUA a par das discussões. Um militar de alta patente informado sobre a incursão afirmou que os SEALs sabiam que a missão deles não era trazê-lo vivo.”
Os autores acrescentam: “Para muitos no Pentágono e na Agência de Inteligência Central (CIA), que gastaram quase uma década caçando bin Laden, matá-lo era um ato necessário e justificado de vingança.” Mais que isso, “(…) capturar bin Laden vivo ainda colocaria ao governo uma gama de problemas legais e políticos espinhosos”. Melhor, então, assassiná-lo, jogar seu corpo no mar sem a autópsia considerada essencial após uma morte — um ato que previsivelmente provocou tanto raiva quanto ceticismo em boa parte do mundo muçulmano.
Como a investigação do Atlantic observa, “(…) a decisão de matar bin Laden sem delongas foi a ilustração mais nítida até agora de um aspecto pouco notado da política antiterrorismo da adiministração Obama. A de Bush capturou milhares de militantes suspeitos e os enviou para campos de detenção no Afeganistão, Iraque e na Baía de Guantânamo. A administração Obama, ao contrário, focou-se em eliminar terroristas em específico ao invés de tentar pegá-los vivos.”  Essa é uma diferença significativa entre Bush e Obama. Os autores citam o então Chanceller Alemão Helmut Schmidt, que “disse à TV alemã que o ataque dos EUA era ‘muito claramente uma violação do direito internacional’ e que bin Laden deveria ter sido detido e processado”, contrastando-o com o Procurador-Geral dos Estados Unidos, Eric Holder,  que defendeu a decisão de matar bin Laden ainda que ele não representasse uma ameaça imediata ao Navy SEALs, afirmando num painel na Casa Branca… que o ataque foi “legal, legítimo e apropriado de todos os modos”.
A eliminação do corpo sem autópsia também foi criticada por aliados. O largamente reconhecido jurista [barrister] britânico Geoffrey Robertson, que apoiou a intervenção, mas se opôs à execução essencialmente por questões pragmáticas, descreveu, entretanto, a declaração de Obama de que “(…) a justiça foi feita” como um “disparate” que deveria ser óbvio para um professor de direito constitucional. A lei paquistanesa “requer um inquérito para mortes violentas, e a lei internacional de direitos humanos insiste que o ‘direito à vida’ exige uma investigação sempre que uma morte violenta ocorrer por ação do governo ou ação policial. Os EUA estão, portanto, com a obrigação de realizar uma investigação que convencerá o mundo quanto às circunstâncias desta morte”.
Robertson utilmente nos lembra que:
“Nem sempre foi assim. Quando chegou a hora de considerar o destino de homens muito mais versados em crueldade do que Osama bin Laden — o líder nazista — o governo britânico queria-os mortos dentro de seis horas depois da captura. O Presidente Truman discordou, citando a conclusão do Juiz Robert Jackson de que execução sumária ‘não seria aceita facilmente pela consciência americana ou lembrada com orgulho pelas nossas crianças… o único caminho possível é determinar a inocência ou a culpa dos acusados depois de um julgamento tão imparcial quanto o tempo permitirá e com um relatório que deixará nossas razões e motivos claros”.
Eric Margolis comenta que “Washington nunca tornou pública a evidência de sua declaração de que Osama bin Laden estava por trás dos ataques de 11 de setembro”, presumivelmente uma razão por que pesquisas mostram que um terço dos estadunidenses respondentes acreditam que o governo dos EUA e/ou Israel estão por trás do 11 de setembro, enquanto no mundo muçulmano o ceticismo é muito maior. “Um julgamento aberto ou em Haia (Tribunal Penal Internacional) teria trazido tais declarações à luz do dia”, prossegue Margolis, uma razão prática do porquê Washington deveria ter seguido a lei.
Em sociedades que professam algum respeito pela lei, suspeitos são detidos e levados a julgamentos justos. Eu saliento “suspeitos”. Em junho de 2002, o diretor do FBI, Robert Mueller, no que o Washington Post descreveu como “dentre seus comentários públicos mais detalhados acerca das origens dos ataques”, podia dizer apenas que “(…) investigadores acreditam que a ideia dos ataques de 11 de setembro no World Trade Center e no Pentágono vieram de líderes da Al Qaeda no Afeganistão, a principal organização era feita na Alemanha e o financiamento vinha por meio dos Emirados Árabes de fontes no Afeganistão”.
No que o FBI acreditava e aquilo que sabiam em junho de 2002, eles não sabiam oito meses antes, quando Washington descartou ofertas vagas feitas pelo Talibã (quão sérias nós não sabemos) de permitir um julgamento de bin Laden se lhe fossem apresentadas as evidências. Assim, não é verdade, como o Presidente Obama declarou no comunicado na Casa Branca após a morte de bin Laden, que “(…) nós rapidamente aprendemos que os ataques de 11 de setembro foram planejados pela Al Qaeda”.
Nunca houve nenhuma razão para duvidar daquilo em que o FBI acreditava em meados de 2002, mas aquilo nos deixa longe da prova de culpa exigida em sociedades civilizadas —  e fosse qual fosse a evidência, isso não autoriza a morte de um suspeito que poderia, é o que parece, ter sido facilmente preso e levado à julgamento. Quase o mesmo é verdade sobre as evidências fornecidas até agora. Deste modo, a Comissão do 11 de setembro forneceu vastas evidências circunstanciais acerca do papel de bin Laden no 11 de setembro, baseadas principalmente no que lhe foi dito sobre as confissões de prisioneiros em Guantânamo. É discutível se boa parte disso se sustentaria num tribunal independente, considerando-se os meios pelos quais as confissões foram extraídas. Mas em qualquer caso, as conclusões de uma investigação autorizada pelo Congresso, ainda que convençam aquele que a fez, claramente fica aquém de uma sentença dada por uma corte digna de confiança, cujo trabalho transfere a categoria do acusado de suspeito para condenado.
Há muita conversa sobre a “confissão” de bin Laden, mas aquilo foi uma “glorificação”, não uma confissão, com tanta credibilidade quanto a minha “confissão” de que ganhei a maratona de Boston. O fato de ele vangloriar-se diz muito sobre seu caráter, mas nada sobre sua responsabilidade por aquilo que ele reconheceu como uma grande realização, pela qual ele quis levar o crédito.
Novamente, tudo isso é, de modo transparente, completamente independente da opinião de alguém sobre a responsabilidade dele, que parecia clara imediatamente, mesmo antes do inquérito do FBI, e continua sendo.

Crimes de agressão

É válido mencionar que a responsabilidade de bin Laden foi reconhecida em boa parte do mundo muçulmano, e condenada. Um exemplo significativo é o notável clérigo libânes Sheikh Fadlallah, altamente respeitado pelo Hizbollah e por grupos Xiitas em geral, fora do Líbano também. Ele tem certa experiência com assassinatos. Ele foi alvo de um: por um caminhão bomba fora de uma mesquita, numa operação organizada pela CIA em 1985. Ele escapou, mas outras oitenta pessoas morreram, a maioria mulheres e meninas que deixavam a mesquisa — um destes inúmeros crimes que não entram nos anais do terrorismo por causa da falácia da “operação errada”. Sheikh Fadlallah condenou vigorosamente os ataques de 11 de setembro.
Um dos maiores especialistas no movimento Jihadi, Fawaz Gerges, sugere que o movimento poderia ter sido dividido àquela época se os EUA tivessem explorado a oportunidade ao invés de mobilizar o movimento, particularmente ao atacar o Iraque, um grande favor pra bin Laden, o que levou a um aumento acentuado do terrorismo como as agências de inteligência haviam antecipado. Nas audiências de Chilcot que investigaram o pano de fundo da invasão do Iraque, por exemplo, o antigo chefe da agência de inteligência interna britânica, o MI5, atestou que tanto a inteligência britânica quanto a estadunidense estavam cientes de que Saddam não representava nenhuma ameaça séria, que a invasão provavelmente aumentaria o terrorismo e que as invasões do Iraque e do Afeganistão radicalizaram partes de uma geração de muçulmanos que viram as ações militares como um “ataque ao Islã”. Como frequentemente é o caso, a segurança não era uma grande prioridade para a ação estatal.
Pode ser instrutivo nos questionarmos sobre como reagiríamos se agentes iraquianos tivessem pousado na casa de George W. Bush, assassinado-o e jogado seu corpo no Atlântico (após apropriados ritos funerários, é claro). Sem qualquer controvérsia, ele não foi um “suspeito”, mas sim o “comandante” que deu as ordens para invadir o Iraque — isto é, para cometer o “mais grave crime internacional diferindo de outros crimes de guerra apenas na medida em que contém em si mesmo todo o mal acumulado” pelo qual os criminosos nazistas foram enforcados: as centenas de milhares de mortes, milhões de refugiados, destruição de boa parte do país e de seu patrimônio nacional e o sanguinário conflito sectário que agora se espalhou para o resto da região. Igualmente incontroverso, tais crimes largamente excedem qualquer um atribuíduo a bin Laden.
Dizer que tudo isso é incontroverso, como é, não implica que não seja negado. A existência de defensores da “Terra plana” [flat earthers] não muda o fato de que, sem controvérsia, o planeta não é plano. De modo similar, é indiscutível que Stalin e Hitler foram responsáveis por crimes horríveis, ainda que legalistas neguem isso. Tudo isso deveria, novamente, ser óbvio demais para comentar, e seria, exceto numa atmosfera de histeria tão extrema que bloqueasse o pensamento racional.
Analogamente, é incontroverso que Bush e seus colaboradores cometeram o “mais grave crime internacional” — o crime de agressão. Tal crime foi definido de modo claro o suficiente pelo Magistrado Robert Jackson, Chefe do Conselho para as Nações Unidas em Nuremberg. Um“agressor”, Jackson propôs ao Tribunal em seu pronunciamento de abertura, é um Estado que é o primeiro a cometer ações tais como “invasão de suas forças armadas, com ou sem uma declaração de guerra, ao território de outro Estado…” Ninguém, nem mesmo o mais extremado defensor da agressão, nega que Bush e seus associados fizeram isso.
Faríamos igualmente bem em recordar as eloquentes palavras de Jackson, em Nuremberg, acerca do princípio da universalidade: “se certos atos que violam tratados são crimes, eles são crimes se os Estados Unidos os cometem ou se a Alemanha os comete, e não estamos preparados para estabelecer uma regulação de conduta criminosa contra os outros caso não estejamos dispostos a vê-la invocada contra nós.”
Também está claro que intenções anunciadas são irrelevantes, mesmo que sejam verdadeiramente reais. Registros internos revelam que os facistas japoneses aparentemente acreditavam mesmo que devastando a China, eles estavam trabalhando para torná-la um“paraíso terreno”. E embora seja difícil imaginar, é concebível que Bush e cia acreditassem que estavam protegendo o mundo da destruição pelas armas nucleares de Saddam. Tudo irrelevante, ainda que ardentes legalistas de todos os lados tentem se convencer do contrário.
Restam-nos duas alternativas: ou Bush e seus colaboradores são culpados do “mais grave crime internacional”, incluindo-se todos os males decorrentes, ou então nós declaramos que os procedimentos de Nuremberg foram uma farsa e que os Aliados foram culpados deassassinato judicial.

A mentalidade imperialista e o 11 de setembro

Alguns dias antes do assassinato de bin Laden, Orlando Bosch morreu tranquilamente na Flórida, onde residia junto com seu cúmplice Luis Posada Carriles e vários outros associados do terrorismo internacional. Após ter sido acusado de dezenas de crimes terroristas pelo FBI, Bosch recebeu um perdão presidencial do Bush Pai mesmo com as objeções do Departamento de Justiça, cuja conclusão foi de que era “inevitável que fosse prejudicial ao interesse público que os Estados Unidos fornecessem um refúgio seguro para Bosch”. A coincidência destas mortes imediatamente traz à mente a doutrina de Bush Filho — “já… uma norma de facto nas relações internacionais”, de acordo com o distinto especialista de Harvard em relações internacionais, Graham Allison — que revoga “a soberania dos países que oferecem guarida a terroristas”.
Allison refere-se ao pronunciamento de Bush Filho, direcionado ao Talibã, de que “aqueles que abrigam terroristas são tão culpados quanto os próprios terroristas”. Tais países, portanto, perderam a soberania e são alvos para bombardeiro e terrorismo — por exemplo, o Estado que abrigou Bosch e seu associado. Quando Bush declarou essa nova “norma de facto das relações internacionais”, ninguém pareceu notar que ele estava pedindo por invasão e destruição dos EUA e a morte de seus presidentes criminosos.
Nada disso é problemático, é claro, se rejeitamos o princípio da universalidade do Juiz Jackson, e adotamos, no lugar disso, o princípio de que os Estados Unidos são autoimunes contra leis e convenções internacionais — como, aliás, o governo tem frequentemente deixado bem claro.
Também é produtivo pensar sobre o nome dado à operação de captura de bin Laden: Operação Gerônimo. A mentalidade imperialista é tão profunda que poucos parecem capazes de perceber que a Casa Branca está glorificando bin Laden ao chamá-lo de “Gerônimo” — ochefe indígena Apache que liderou a corajosa resistência aos invasores das terras apaches.
A fortuita escolha deste nome é a reminescência da facilidade com que nomeamos nossas armas de assassinato com as vítimas de nossos crimes: Apache, Blackhawk… Reagiríamos de modo diferente se a Luftwaffe (Força Aérea Alemã) nomeasse seus aviões de combate de“Judeu” e “Cigano”.
Os exemplos mencionados enquadrariam-se na categoria do “excepcionalismo dos EUA” se não fosse o fato de que a simples supressão dos crimes de alguém é virtualmente ubíqua entre os Estados poderosos, pelo menos entre aqueles que não são derrotados e forçados a reconhecer a realidade.
Talvez o assassinato tenha sido percebido pela administração central como um “ato de vingança”, como Robertson conclui. E talvez a rejeição à opção legal de um julgamento reflita a diferença entre a cultura moral de 1945 e a de hoje, como ele sugere. Seja qual for o motivo, dificilmente poderia ter sido a segurança. Como no caso do “maior crime internacional” no Iraque, o assassinato de bin Laden é outra ilustração do importante fato de que a segurança frequentemente não é uma alta prioridade para a ação do Estado, ao contrário do que propaga a doutrina.

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11 de setembro por Ken Loach



O grande diretor Ken Loach traça um paralelo entre o ataque das torres e o Golpe Militar no Chile, numa visão humana e poética.
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Entrevista com Camila Vallejo: "A militância é um compromisso para a vida"


Em entrevista publicada no site da União Nacional de Estudantes, a líder estudantil chilena, Camila Vallejo, fala sobre as manifestações em seu país em defesa de uma educação pública de qualidade e o sentido político mais profundo das maior mobilização social no país desde a ditadura do general Augusto Pinochet. "A militância é algo que vai muito além do meu tempo na universidade, é um compromisso para a vida, que sempre significará sacrifícios de toda espécie", afirma. Segue abaixo a entrevista:

Como foi sua aproximação com a política? Como passou a militar no movimento estudantil?

Desde muito jovem, minha família me formou com valores políticos de esquerda, como democracia e justiça social. Com esta sensibilidade à esquerda é difícil manter-se fora da política e dos espaços que permitem fazer a mudança, especialmente em uma sociedade tão desigual e injusta como a do Chile. Foi assim que me interessei em fazer parte da política, desde muito jovem. Tal vontade se acentuou com a entrada na faculdade, de onde, finalmente, veio a adesão à juventude comunista. A partir deste momento, comecei a ser uma parte ativa de um movimento que tem sido gestado com trabalho, empenho e companheirismo.

O movimento que se fortaleceu este ano é herdeiro da Revolução dos Pingüins em 2006? Quais são os elementos de continuidade e diferença?

Eu não o chamaria de um herdeiro, mas, certamente, possuem uma relação. Em 2006, quando eu era caloura na Universidade do Chile, estudantes do ensino médio foram capazes de instalar na agenda política de Bachelet a questão da educação, com demandas que acabaram sendo tão profundas como mudar o modelo educacional que nos foi dado desde a ditadura militar. A principal diferença entre este movimento, é que, agora, podemos ver todos os setores sociais mobilizados. No começo, o movimento surge essencialmente nos setores universitários, depois vai tomando conta e se espalhando por todo país se transformando em uma das maiores mobilizações desde o retorno à democracia no Chile.

Qual é o balanço que você pode fazer como presidente da Fech, a Federação dos Estudantes da Universidade do Chile, especialmente, nos últimos meses? Qual foi o estopim dessa nova onda?

Faria um balanço muito positivo. Por um lado, esta intensa mobilização nos impediu de avançarmos em alguns aspectos do nosso programa interno. Mas, os avanços que tivemos com a Fech são qualitativamente muito superiores ao ano anterior. Retomamos um papel importante para que os estudantes – e nossa Federação – voltassem a ser novamente atores políticos de importância nacional, cujas opiniões têm um impacto real nos debates históricos sobre a sociedade. Desta forma, temos reavaliado o valor da organização dentro de nossa própria universidade, transcendendo as barreiras estudantis e nos permitindo avançar e nos envolver ativamente nos debates. É preciso deixar para trás a ideia de que a política pertence a poucos, e se aproximar rapidamente de um cenário mais democrático a partir do qual poderemos construir e defender propostas pelas transformações que o Chile precisa.

A principal bandeira de luta é a educação de qualidade e gratuita para os jovens, certo? Como você enxerga o cenário ideal, levando em consideração a realidade de hoje no Chile?

É claro que a educação gratuita é uma ideia política que queremos instalar, mas sabemos que não será uma realidade em curto prazo. Antes de tal transformação, é necessário promover uma reforma tributária que impeça que a diferença socioeconômica entre ricos e pobres, hoje no Chile, se aguce. No entanto, lutamos contra um modelo essencialmente neoliberal, que vê a educação como um bem de mercado – como diz o próprio presidente do Chile – e não como um direito, visão intransigentemente defendida pela direita que chegou ao governo através de [Sebastian] Piñera. Esperamos mudar as raízes de um modelo educacional que nos mantém no subdesenvolvimento.

Neste momento, como estão as negociações com o governo, e quais são as principais conquistas do movimento?

Este governo tem se mostrado intransigente na hora de negociar sobre o modelo educacional que instalaram desde a ditadura militar. Não é só isso, tem se demonstrado disposto a levantar a face mais repressiva, não ouvindo as demandas legitimas e respaldadas por um movimento que as próprias pesquisas mostram ter uma aprovação superior a 80%. Até agora uma das grandes conquistas do movimento tem sido consolidar uma aprovação transversal e unificada na sociedade. Agora, depois de muitas pressões da nossa parte, estamos próximos de sentar à mesa e enfrentar cara a cara um diálogo com o presidente. Esperamos que neste espaço possamos avançar em questões concretas sobre nossas reivindicações. E que não voltem a faltar com respeito ao movimento, com uma soma de dinheiro cheia de ambigüidades, que não nos garante nenhum dos princípios que já defendemos nas ruas há três meses. 

Há quanto tempo a Universidade não é mais gratuita no Chile? Explique melhor a questão do endividamento dos alunos.

Desde a ditadura militar, que foi quando mudou o modelo educacional no Chile. O Estado deixou de ser responsável pela educação em todos os níveis e tem um papel meramente subsidiário, deixando o trabalho para o ensino privado, a quem também é concedido o direito de lucrar o dinheiro de todos os chilenos, sob o pretexto de garantir a "liberdade de ensino". Como hoje a educação não é concebida como direito, mas sim como um bem de consumo, para obtê-la é preciso pagar. E como as universidades públicas não recebem aportes do Estado para a altura dos seus orçamentos, elas têm sido forçadas a se envolver em auto-financiamento, o que significa em palavras simples, que o seu faturamento vem principalmente das taxas pagas pelas famílias. Neste contexto, as quantias necessárias para que as universidades possam realizar seu trabalho é muito mais alta em comparação aos rendimentos recebidos por famílias chilenas. Por isso hoje, basicamente, quem quer estudar tem que se endividar, porque somente uma pequena porcentagem da sociedade tem condições de pagar altos preços pelos estudos.

Quais são as outras questões do debate? Dentro do movimento estudantil estas questões já ultrapassaram a questão educacional?

Um movimento social desta magnitude exige ao governo e ao parlamento governar de acordo com as demandas que estão se defendendo nas ruas. Pode-se notar que a democracia no Chile não dá a possibilidade de se fazer uma sociedade verdadeiramente participativa. Desta maneira, surgem automaticamente demandas por mais democracia e reformas constitucionais relevantes para atingir esse objetivo, por exemplo, que nos permitam deliberar como nação por meio de um plebiscito vinculativo. Lembramos que a Constituição chilena foi feita durante a ditadura e sem o apoio da nação. Uma situação terrível para um país que se diz passar vinte anos vivendo em uma democracia.

Ocorreu no começo de agosto, no Uruguai, o 16 º CLAE, com a participação de milhares de estudantes de todo o Continente. Qual a sua opinião sobre um intercâmbio político mais eficaz entre os estudantes da América Latina?

Entendo que é absolutamente necessário. Os estudantes são atores políticos presentes na América Latina. Por isso, é claro que a nossa política deve convergir no mesmo sentido de que os diferentes países deveriam se alinhar em torno de demandas que, evidentemente, nos convocam por igual, dada as semelhanças de uma região em subdesenvolvimento, produto do capitalismo e da opressão que os EUA geram sobre nós até hoje. Instâncias como OCLAE devem ser muito mais presentes, tanto para estudantes como para todos os tipos de organizações latino-americanas. 

A UNE convidou você para a “Marcha dos Estudantes” brasileiros, que irá encerrar o "Agosto Verde e Amarelo", série de manifestações que defendem que 10% do PIB e 50% do fundo social do Pré-sal do Brasil sejam destinados para a educação. Vocês estão defendendo no Chile algo parecido com isso em relação ao cobre, não é?

Na quarta-feira chego a Brasília. De fato, há semelhanças nas reivindicações. O Chile é um país muito rico em recursos naturais, o que não condiz com os baixos níveis de habitação, saúde e educação, entre outros. Isso se deve, principalmente, à privatização dos recursos naturais, e a enorme condescendência que se tem este setor. Trata-se de compensação tributária. Quando exigimos um aumento substancial dos recursos públicos na educação, nos perguntam frequentemente “e onde obteremos esses recursos?” - do cobre, respondemos. Da nacionalização de nossos recursos naturais.

Sabemos que estuda Geografia. Em que período da formação você está? Você consegue conciliar os estudos e a militância?

Já sou graduada em Geografia e sem dúvida ser presidente da FECH significou um custo acadêmico que, desde a minha nomeação para o cargo, estive disposta a assumir. O trabalho político exige bastante tempo e dedicação, mas não inviabiliza o trabalho acadêmico na medida em que você se organiza. No entanto, a militância é algo que vai muito além do meu tempo na universidade, é um compromisso para a vida, que sempre significará sacrifícios de toda espécie. Obviamente, nem todo mundo está disposto a assumir isso, mas de minha perspectiva comunista, creio que não só vale a pena, como é imprescindível na luta por um país mais justo.

Após os primeiros protestos, a mídia manifestou com mais freqüência ou com maior ênfase, a questão da sua beleza física, em detrimento de suas qualidades e habilidades intelectuais. Isso te incomoda?

Esses tipos de ataques vieram principalmente dos setores de direita, que têm o domínio da grande maioria dos meios de comunicação e, em minha opinião, representam uma estratégia bastante covarde, baixa e, sobretudo, fracassada, para desacreditar um movimento que hoje está mais forte do que nunca. Me parece que ainda há meios essencialmente machistas e misóginos que tentam fazer disto um tema. O movimento, a sociedade e o Chile têm sido capaz de avançar, valorizando muito mais clareza de conteúdo e a transversalidade do apoio, do que aquilo que eles chamam de "um rostinho bonito". Como eu disse por meio de outros meios, parece-me um despropósito argumentar que, com os níveis de organização, solidez e transversalidade do debate sobre educação e democratização no Chile, a aparência física ainda seja assunto.

Entrevista realizada por Rafael Minoro e Patricia Blumberg para o site da UNE.

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Vinho Velho em Pipa Nova: Leandro Narloch, Allende e a história da América Latina


Por Arthur Lima de Avila

Recentemente, em entrevista ao programa “Adnet ao Vivo”, veiculado pela MTV, o jornalista Leandro Narloch pôs-se a tecer certos comentários, travestidos de afirmações contundentes, sobre a história do Brasil e da América Latina. A mais nova estrela da mídia conservadora brasileira, Narloch, jornalista com passagem pelas revistas “Veja” e “Superinteressante”, busca, segundo ele, reescrever nossa a história a partir de um viés “politicamente incorreto”, atacando uma “história oficial” que supostamente privilegia os “vencidos” em detrimento dos “vencedores”. Dito de outro modo, ele busca criticar as histórias críticas surgidas nos anos 1970 e 1980 pela América Latina afora. O resultado disto foi dois livros, “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, que rapidamente adentrou as listas dos livros mais vendidos do país, e o “Guia Politicamente Incorreto da História da América Latina”, sua mais nova empreitada. No entanto, sem muito medo de errar, poderíamos simplesmente chamar os dois livros de “guias incorretos” sobre a história de nosso país e do subcontinente, tão grandes são os erros, interpretações problemáticas e afirmações descabidas neles contidos. Como o espaço é pequeno, contudo, focar-me-ei somente numa das mais tenebrosas conclusões de Narloch: a de que existiria uma equivalência entre o presidente chileno Salvador Allende e seu verdugo, o ditador Augusto Pinochet. Segundo o  excelentíssimo jornalista, ambos seriam “picaretas”, com o agravante de que Allende teria “tentado instaurar uma ditadura comunista” no Chile. Desta forma, apesar de seus “métodos cruéis”, Pinochet teria salvado aquele país, corrigido os rumos de sua economia e afastado o temível fantasma de uma revolução marxista em terras chilenas.

Tais afirmações não são somente historicamente incorretas: são moralmente repugnantes. A crítica de Narloch a Allende é baseada em alguns silogismos: “Allende apoiou a eugenia; a eugenia é ruim; logo, a ditadura do Pinochet era justificada” ou “Allende era marxista; o marxismo é ruim; logo, a ditadura do Pinochet valeu a pena”.  Cabem aqui alguns comentários. No primeiro caso, somente os ingênuos ou os néscios acreditam na pureza de todos os homens e mulheres. O apoio de Allende à eugenia é, sem duvidas, uma mácula em sua biografia, mas não é diferente do apoio dado por centenas de outros médicos a esta teoria no começo do século XX. Independente da coloração política de seus integrantes, diversos profissionais da medicina acreditavam que a eugenia era um método válido para a correção de supostos “erros genéticos”. Tanto o governo sueco quanto o norte-americano, para citar dois países democráticos, apoiaram e financiaram a aplicação da eugenia em sua população. Sem esta contextualização, o caso Allende não pode ser entendido. Talvez se Narloch estivesse mais preocupado em pesquisar seriamente do que em tentar criar polêmicas vazias, ele poderia ter oferecido uma interpretação mais equilibrada sobre este problema.

No segundo caso, a afirmação de que Allende teria “apoiado a instauração de uma ditadura comunista” no Chile é empiricamente errônea. Allende governou de acordo com a Constituição de seu país, recusando-se a romper com a democracia, mesmo quando pressionado pelos setores mais radicais da esquerda chilena (o MIR, por exemplo). As acusações de que Allende teria “rompido com a Constituição” vieram dos setores mais reacionários da política chilena – aqueles mesmos que, mais tarde, não teriam problema nenhum em fechar os olhos para as brutalidades do governo Pinochet. Aliás, em mensagem ao Congresso chileno de 24 de setembro de 1973, o próprio Allende respondeu a cada uma das vazias acusações contra seu governo, lembrando que elas não citavam nenhum caso específico de ilegalidades e que aqueles que o acusavam eram os mesmos a bater na porta dos quartéis para exigir a derrubada de um governo legítimo e democraticamente eleito – o futuro, aliás, daria razão a Allende, que, não custa lembrar, resistiu até o final contra o definitivo ataque à democracia chilena. Afirmar, portanto, que Allende queria instaurar uma “ditadura comunista” no Chile é cometer um erro histórico crasso – que seria facilmente corrigido por Narloch, caso ele tivesse se interessado em pesquisar seriamente sobre este assunto e não em repetir os bordões usados pela própria ditadura chilena para difamar a memória de Allende.

Neste caso, entretanto, tal erro é facilmente explicado pela tentativa de Narloch de socar os fatos históricos em uma leitura “politicamente incorreta” da história latino-americana que, na verdade, busca reabilitar interpretações conservadoras do nosso passado. O erro, contudo, ainda é menos grave do que a moral da história contada por Narloch. É simplesmente incabível comparar um governo eleito democraticamente com um regime militar ilegítimo e ilegal, sob qualquer argumento. Quantos morreram para que o Chile pudesse ter seu (discutível) “milagre econômico”? Quantos foram os torturados em nome da “salvação” do Chile de um “picareta”? Como um autor que se diz preocupado com a “liberdade” pode argumentar em prol da derrocada de um presidente eleito? A argumentação de Narloch esvazia a democracia e diminui o sacrifício de todos aqueles homens e mulheres que sofreram na pele e na alma os abusos do terror de Estado. Indo mais adiante: se levada in extremis, a argumentação de Narloch possibilita, inclusive, a reabilitação de Hitler, Franco e outros dos incontáveis ditadores da infame galeria de horrores do século XX. 

Mas, infelizmente, tal irresponsabilidade moral não é gratuita – ela cumpre um propósito bem definido. A mensagem política, neste caso, é clara: diante do avanço de governos de esquerda no subcontinente; diante do avanço de novos movimentos sociais contestadores; diante do surgimento de novos atores históricos que exigem o fim de seu secular esquecimento; diante das tentativas de se punir aqueles que pisotearam nossas Constituições e instauraram a terrível e longa noite do autoritarismo; diante, enfim, do avanço da história, é preciso deslegitimar estas demandas com uma releitura do passado que dê chancela aos projetos políticos de uma direita cada vez mais enfraquecida e desesperada – e que não se conforma com os ataques aos seus privilégios, materiais e simbólicos. Portanto, não se enganem, caros leitores: apesar da propaganda, as interpretações de Narloch são vinho velho em pipa nova. Um vinho bastante amargo, diga-se de passagem.
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A rebelião estudantil no Chile



Rebelião no Chile: Movimento dos estudantes ganha apoio e marca novas manifestações

Por Bárbara Mengardo

Santiago está em ebulição. Em todos os cantos da capital chilena, a qualquer hora é possível encontrar pixações, eventos culturais e atividades de apoio às manifestações que se estendem há três meses por todo o país, e não se limitam mais às demandas dos estudantes.

O movimento cresceu tanto, e tem tanto apoio popular (o jornal La Tercera, que há meses tenta esconder e desqualificar as movimentações, publicou matéria no último sábado afirmando que 76% da população chilena apóia os protestos), que é impossível saber com exatidão quais atividades vão ocorrer pela cidade.

A praça Ñuñoa, localizada a mais ou menos meia hora do centro de Santiago, em um bairro de classe média, é palco todas as noites de manifestações e confrontos com os carabineiros. Cerca de 3.000 pessoas se deslocam diariamente ao local para participar de panelaços e, geralmente, são recebidos pela polícia que se utiliza de gás lacrimogênio e jatos fortes de água para tentar interromper as atividades.

Esses carros que descarregam água na multidão foram apelidados pela população de Guanacos, que são animais parecidos com Lhamas que vivem nos Andes, e costumam a cuspir nas pessoas. Catalina Gamboa, estudante secundarista que acompanhava uma das manifestações na praça Ñuñoa, explica que o líquido expelido pelos Guanacos da polícia não é apenas água “Quando isso cai no rosto arde. Fizeram algumas análises e viram que tinham fezes nessa água”.

Nos sites das Federações de estudantes brotam relatos de casos de extrema violência policial aplicada pelos Carabineiros. O portal da Federação de Estudantes da Universidade de Valparaiso postou a história de um estudante de História que foi pego por policiais enquanto observava um confronto e levado para um ônibus, onde foi violentamente golpeado.

As agressões resultaram em uma grave fratura nasal, e o estudante necessitou de uma cirurgia. Quando viu a gravidade do machucado, um dos policiais, conta o site, perguntou: “O que se passou filho, porque está sangrando?” o garoto respondeu que eles o haviam agredido, e ouviu a resposta “Nós não batemos em ninguém, você sozinho bateu em uma porta”.

As manifestações, entretanto, não estão presentes apenas nos bairros mais ricos da cidade. Ocupações em universidades e colégios de ensino médio e fundamental se estendem também pela periferia. Estudantes estimam que cerca de 700 colégios estejam ocupados, 200 deles só na capital.

Já no ensino superior ninguém soube dizer quantas ocupações estão em andamento no Chile. Sabe-se que todas as universidade chamadas tradicionais, que foram criadas até a década de 1960 e eram gratuitas até o regime ditatorial de Augusto Pinochet (1973-1990), estão ocupadas ou paralizadas. Andando pelas ruas de Santiago, entretanto, é possível se deparar com dezenas de universidades públicas ou privadas cujos portões estão bloqueados por cadeiras ou os muros estão cobertos com cartazes com dizeres como “fim ao lucro”.

Isso porque, na educação superior chilena, o lucro foi proibido durante a ditadura, com uma lei que instituía que todas as universidades, públicas ou privadas, seriam pagas, mas não poderiam obter lucro.

Atualmente, todas as universidades chilenas são pagas, e a maioria recebe ajuda financeira do governo. Neste cenário, muitos donos de universidades acharam brechas na lei, e obtém muito lucro com as instituições de ensino. É comum que os integrantes dos diretórios acadêmicos, que estão acima dos reitores, possuam também imobiliárias, e repassem dinheiro a partir de obras superfaturadas.

O fim do lucro se tornou uma das principais reivindicações dos estudantes que começaram a realizar marchas e manifestações desde junho. A esse ponto somaram-se muitos outros, sendo um dos principais a educação gratuita e de qualidade que, para todos os atores do movimento que já é conhecido como “inverno chileno”, deve acompanhar uma reforma integral da educação no país.

Sobre o assunto, a Federação dos Estudantes da Universidade do Chile, que tem sido muito ativa durante as manifestações, afirmou em um documento onde reúne todas as pautas do movimeno estudantil: “Nos une a firme convicção de que a educação é um componente essencial para alcançar um novo projeto histórico de desenvolvimento democrático que tanto anseia o país para superar as escandalosas brechas de desigualdade que presenciamos hoje. Desta forma, foi exposta a necessidade urgente de recuperar a educação como um direito social e humano universal que deve ser garantido pela Constituição Chilena.”

Outras demandas importantes são a criação de um novo sistema de financiamento, pois o atual faz com que cerca de 40% dos estudantes deixem as universidades endividados e a desmunicipalização da educação, já que Pinochet desmantelou o Ministério da Educacao, passando a responsabilidade administrativa e financeira para as comunas, que, grosso modo, podem ser comparadas a subprefeituras. Esse sistema faz com que a distribuição de verbas seja desigual entre as comunas.

Atualmente, entretanto, não são só os estudantes que pautam suas reivindicações. No dia 8 deste mês, os trabalhadores do Banco de Santiago começaram uma greve por reajustes salariais, e nos últimos meses ocorreram também paralisações de mineiros e taxistas.

Um hospital público de Santiago, Posta Central, interrompe suas atividades toda vez que ocorrem marchas, e são convocadas também panelaços nos quais muitos adultos e idosos batem panelas para manifestar seu apoio aos estudantes.

Até agora, o governo ainda não apresentou nenhuma proposta satisfatória para os manifestantes. A última tentativa, de estabelcer uma mesa de diálogo com o Congresso, foi rechaçada pelos estudantes universitários, mas bem vista pelos secundaristas. Muitos setores que compõem a ala universitária do movimento acreditam que a melhor solução para o impasse colocado é a realização de um plebiscito, e não veem essa mesa de diálogo como capaz de realizar a mudanca estrutural que desejam.

Desta forma, seguem as mobilizações no Chile, e já está fechado um calendário nacional de mobilizações para as próximas semanas. No dia 16 está marcada uma “velaton”, e todos que apóiam o movimento devem colocar velas em suas janelas. Na quinta, dia 18, acontecerá uma jornada de protesto nacional, e estão marcadas marchas e panelaços. Nos dias 24 e 25 haverá uma greve geral, puxada pela CUT (Central Unitária dos Trabalhadores do Chile).

Em Santiago, está marcado um bem humorado protesto na Praça das Armas, no qual todos deverão se reunir para fazer um grande “iiiiiiiii” pela educação, fazendo referência ao prefeito da comuna de Santiago, Pablo Zalaquett, que, devido a um tique, utiliza essas vogais no meio de suas frases.

O governo também se diz preocupado com a possibilidade dos estudantes perderem o ano. Quanto a isso, Patricio Perez, 16 anos, estudante de um colégio ocupado, responde com uma frase que muito está se ouvindo: “Perder o ano, mas ganhar o futuro”.
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