Por Erick da Silva
A visita do Papa
Francisco ao Brasil, durante a Jornada Mundial da Juventude Católica,
no Rio de Janeiro, com toda a já esperada repercussão nacional que
o evento ganhou, pode ser uma boa ocasião para reacender o
necessário debate sobre o papel da religião em nosso país e o
caráter laico do estado brasileiro.
Um estado laico (ou
secular) é um conceito onde o Estado é oficialmente neutro em
relação às questões religiosas, não apoiando nem se opondo a
nenhuma religião. No estado secular, trata-se a todos seus cidadãos
em condição de igualdade, independente de sua escolha religiosa,
não havendo nenhuma espécie de favorecimento ou perseguição a
indivíduos por ser de uma determinada crença. Estado teocrático
(ou teocracia) é o contrário de um estado laico, ou seja, é quando
existe uma única religião oficial, como é o caso do Vaticano
(Igreja Católica), do Irã (República Islâmica) e Israel (Estado
Judeu).
Estado Laico difere-se
da ideia de estado ateu, que seria uma situação onde o estado se
opõe a qualquer prática de natureza religiosa. Entretanto, apesar
de não ser um Estado ateu, em um Estado laico deve-se respeitar
também o direito à descrença religiosa.
O Brasil é considerado
o maior país católico no mundo, a vinda do Papa ocorre em um
momento onde o país passa por uma nítida mudança de sua composição
religiosa. Nos últimos dez anos, o Brasil testemunhou a
representatividade do catolicismo despencar de 83,3% da população
nacional, em 1991, para 64,6% em 2010. A diversidade nas práticas
religiosas, sempre presente na cultura brasileira, tendem a se
ampliar ainda mais, mudando sensivelmente a noção de um país
“exclusivamente católico”.
No entanto, mesmo com
esta mudança visível que ocorre no país, institucionalmente ainda
temos um longo caminho para percorrer. Ainda que na Constituição
brasileira esteja assegurado o caráter laico do estado, como
explicar o conjunto de subvenções financeiras despendida pelos
cofres públicos para a prática religiosa?
Calcula-se que os
gastos totais podem chegar a algo entorno de R$ 120 milhões dos
cofres públicos federais, estaduais e municipais para o evento
organizado pela Igreja Católica. Não é por acaso que muitas
pessoas questionam, legitimamente, este uso do dinheiro público para
privilegiar uma única religião. Este não é o papel que o estado
brasileiro deve exercer no terreno da religiosidade.
O papel do estado
brasileiro deve ser de assegurar plenas condições de liberdade e
democracia para o exercício de toda e qualquer religião, sem
interferência direta que vise beneficiar ou criar obstáculos para
qualquer religião. Os problemas relacionados a liberdade religiosa
no Brasil, longe de ser comparável com as dramáticas situações
que ocorrem em outros cantos do mundo, também está distante da
plena harmonia e tolerância que desejaríamos. A perseguição que
ocorre junto as religiões de matriz africana, o preconceito contra
evangélicos, a verdadeira “demonização” dos ateus e
agnósticos, são alguns exemplos do longo caminho que ainda temos de
percorrer.
Tolerância e respeito
religioso pressupõe não colocarmos uma escala valorativa entre as
formas de religiosidade. Pressupõe reconhecer a legitimidade de
todas em pé de igualdade, sem distinção de nenhuma natureza. Para
além da retórica, o exercício da tolerância religiosa é um
caminho árduo, difícil, porém necessário.
O Estado laico deve
garantir e proteger a liberdade religiosa e filosófica de cada
cidadão, evitando que alguma religião exerça controle ou
influência nas decisões de estado. Não pode, em uma república,
credos religiosos impedirem que questões relacionadas a saúde
pública sejam tratadas como tabu, o aborto é um bom exemplo desta
interferência religiosa direta nas políticas públicas no Brasil. O
estado deve estar acima de conflitos de credo, privilegiando o bem
comum de todos seus cidadãos e cidadãs. Se a visita do Papa
Francisco propiciar que este debate ocorra, sera um grande avanço
para a nossa sociedade.
.

Um comentário:
Parabéns pelo artigo!
Postar um comentário