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A segunda-feira em que perdemos Eduardo Galeano


Por Erick da Silva

Segunda-feira é mundialmente conhecido como o pior dia da semana.

Não a toa que muitos se deprimem ao final de domingo, pois a segunda está se aproximando de maneira incontornável.

A segunda carrega consigo uma indelével ressaca moral. A fantasia e o ócio cedem lugar ao concreto dos compromissos e a alienação da rotina.

Para aqueles e aquelas que, de diferentes formas, se identificam com a esquerda, em seu sentido mais amplo do conceito, esta segunda, 13 de abril de 2015, foi ainda mais dolorosa que o habitual: perdemos Eduardo Galeano.

Eduardo Galeano: A linguagem, as coisas e seus nomes


Eduardo Galeano

Hoje em dia, não fica bem dizer certas coisas perante a opinião pública.

Na era vitoriana era proibido fazer menção às calças na presença de uma senhorita. Hoje em dia, não fica bem dizer certas coisas perante a opinião pública:

O capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado;

O imperialismo se chama globalização;

Eduardo Galeano: Pouco a pouco, Israel está apagando a Palestina do mapa


Por Eduardo Galeano

Para justificar-se, o terrorismo de Estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe álibis. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo os seus autores quer acabar com os terroristas, conseguirá multiplicá-los.

Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem sequer respirar sem autorização. Têm perdido a sua pátria, as suas terras, a sua água, a sua liberdade, tudo. Nem sequer têm direito a eleger os seus governantes. Quando votam em quem não devem votar, são castigados. Gaza está sendo castigada. Converteu-se numa ratoeira sem saída, desde que o Hamas ganhou legitimamente as eleições em 2006. Algo parecido tinha ocorrido em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador.

Eduardo Galeano: Marx e sua relação com o capital



O Capital

Por Eduardo Galeano

Em 1883, uma multidão compareceu ao enterro de Karl Marx, no cemitério de Londres: uma multidão de onze pessoas, contando o coveiro.

A mais famosa de suas frases foi seu epitáfio: Os filósofos interpretaram o mundo, de varias maneiras, mas a questão é mudar o mundo.

Este profeta da transformação do mundo passou sua vida fugindo da polícia e dos credores.

Sobre sua obra-prima, comentou:

- Ninguém escreveu tanto sobre o dinheiro, tendo tão pouco dinheiro. O capital não vai pagar nem os charutos que fumei enquanto escrevia.


Publicado originalmente em 14 de março

Eduardo Galeano: A demonização de Chávez



Por Eduardo Galeano

Hugo Chávez é um demônio. Por quê? Porque alfabetizou 2 milhões de venezuelanos que não sabiam ler nem escrever, mesmo vivendo em um país detentor da riqueza natural mais importante do mundo, o petróleo.

Eu morei nesse país alguns anos e conheci muito bem o que ele era. O chamavam de “Venezuela Saudita” por causa do petróleo. Havia 2 milhões de crianças que não podiam ir à escola porque não tinham documentos… Então, chegou um governo, esse governo diabólico, demoníaco, que faz coisas elementares, como dizer: “As crianças devem ser aceitas nas escolas com ou sem documentos”.

Aí, caiu o mundo: isso é a prova de que Chávez é um malvado malvadíssimo. Já que ele detém essa riqueza, e com a subida do preço do petróleo graças à guerra do Iraque, ele quer usá-la para a solidariedade. Quer ajudar os países sul-americanos, e especialmente Cuba.

Cuba envia médicos, ele paga com petróleo. Mas esses médicos também foram fonte de escândalo. Dizem que os médicos venezuelanos estavam furiosos com a presença desses intrusos trabalhando nos bairros mais pobres. Na época que eu morava lá como correspondente da Prensa Latina, nunca vi um médico.

Agora sim há médicos. A presença dos médicos cubanos é outra evidência de que Chávez está na Terra só de visita, porque ele pertence ao inferno. Então, quando for ler uma notícia, você deve traduzir tudo.

O demonismo tem essa origem, para justificar a diabólica máquina da morte.
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Eduardo Galeano: O prazer de ir


Por Eduardo Galeano

Em 1887, nasceu, em Salta, o homem que foi Salta: Juan Carlos Dávalos, fundador de uma dinastia de músicos e poetas.
Pelo que dizem os dizeres, ele foi o primeiro tripulante de um Ford T, o Ford Bigode, naquelas comarcas do Norte argentino.
Pelos caminhos afora, la' vinha seu Ford T, roncando e esfumaçando.
Vinha lento. As tartarugas paravam e se sentavam para esperar por ele.
Um vizinho se aproximou. Preocupado, cumprimentou, comentou:
- Mas, dom Dávalos... Desse jeito, o senhor não vai chegar nunca...
E ele explicou:
- Eu não viajo para chegar. Viajo para ir.

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Eduardo Galeano - A neta


Por Eduardo Galeano

Soledad, a neta de Rafael Barrett, costumava recordar uma fase do avô:
- Se o Bem não existe, é preciso inventá-lo.
Rafael, paraguaio por escolha própria, revolucionário por vocação, passou mais tempo na cadeia que em casa, e morreu no exílio.
A neta foi crivada a balas no Brasil, no dia de hoje de 1973.
O cabo Anselmo, marinheiro insurgente, chefe revolucionário, foi quem a entregou.
Cansado de ser perdedor, arrependido de tudo o que acreditava e gostava, ele delatou um por um seus companheiros de luta contra a ditadura militar brasileira, e os despachou para o suplício ou o matadouro.
Soledad, que era sua mulher, ele deixou para o fim.
O cabo Anselmo apontou o lugar onde ela se escondia e foi-se embora.
Já estava no aeroporto quando ouviram os primeiros tiros.

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Eduardo Galeano - O foguinho


Por Eduardo Galeano


Nesta manhã do ano de 2010, Mohamed Bouazizi vinha arrastando, como todos os dias seu carrinho de frutas e verduras em algum lugar da Tunísia.
Como todos os dias, chegaram os guardas, para cobrar o pedágio por eles inventado.
Mas esta manhã, Mohamed não pagou.
Os guardas bateram nele, viraram o carrinho e pisaram as frutas e as verduras esparramadas pelo chão.
Então Mohamed se rego com gasolina, da cabeça aos pés, e acendeu o fogo.
E essa fogueira pequenina, não mais alta do que qualquer vendedor de rua, alcançou em poucos dias o tamanho de todo o mundo árabe, incendiado pelas pessoas fartas de serem ninguém.

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Eduardo Galeano - A arte não tem idade


Por Eduardo Galeano


No ano de 1633, mais dia, menos dia, nasceu Gregório de Matos, o poeta que melhor sabia debochar do Brasil colonial.
Em 1969, em plena ditadura militar, o comandante da sexta região denunciou seus poemas, que dormiam o sono dos justos fazia três séculos na biblioteca da Secretaria de Cultura da cidade de São Salvador da Bahia, como sendo "subversivos", e os atirou na fogueira.
Em 1984, num pais vizinho, a ditadura militar do Paraguai proibiu uma peça que ia estrear no teatro Arlequin, por se tratar de "um panfleto contra a ordem, a disciplina, o soldado e a lei".
Fazia vinte e quatro séculos que a peça, As troianas, havia sido escrita por Eurípides.

Galeano: Laura e Paul



Por Eduardo Galeano


Quando Karl Marx leu "O direito à preguiça", sentenciou:
- Se isto for marxista, eu não sou marxista.
O autor, Paul Lafargue, parecia mais anarquista que comunista, e revelava uma suspeita tendência à loucura tropical.
Tampouco o agradava a ideia de ter como genro aquele cubano de cor não muito clara:
- A intimidade excessiva está fora de lugar - advertiu ele, por escrito, assim que Paul começou seus perigosos avanços sobre sua filha Laura, e solenemente acrescentou:
- É meu dever interpor minha razão diante de seu temperamento nativo.
A razão fracassou.
Laura Marx e Paul Lafargue compartilharam a vida durante mais de quarenta anos.
E na noite de hoje (26/11) do ano de 1911, quando a vida já não era vida, em sua cama de sempre viajaram, abraçados, a ultima viagem.
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Eduardo Galeano - Vampiros



No verão de 1725, Peter Blagojevic levantou-se de seu ataúde, na aldeia de Kisilijevo, mordeu a nove vizinhos e bebeu o sangue. Por ordem do governo da Áustria, que naquele tempo mandava naqueles pagos, as forças da ordem o mataram definitivamente cravando-lhe uma estaca no coração. 
Peter foi o primeiro vampiro oficialmente reconhecido e o menos célebre.
O de maior sucesso, o conde Drácula, nasceu da pluma de Bram Stoker, em 1897.
Mais de um século depois, Drácula se aposentou. Nao lhe preocupava em nada a competicao dos vampiros e vampiresas cafonas que Hollywood estava fabricando; mas sim o angustiavam outras façanhas insuperáveis.
Não teve mais remédio que aposentar-se.
Sentia um insuperável complexo de inferioridade diante dos poderosos glutões que fundam e fundem bancos e chupam o sangue do mundo como se fosse pescoço.



Publicado em 29 de maio de 2012 e traduzido por Emir Sader (via Facebook)
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Eduardo Galeano - Heresias



Por Eduardo Galeano

Em 325, na cidade de Nicea, se celebrou o primeiro concilio ecumenico do cristianismo, convocado pelo imperador Constantino.
Durante os 3 meses que durou o concilio, 300 bispos aprovaram alguns dogmas necessarios na luta contra as heresias e decidiram que a palavra "heresia", do grego "hairesis", que significaba "escolha", passaria a significar "erro".
Ou seja: comete erro quem escolhe livremente e desobedece aos donos da fé.

Escrito em Montevidéu em 25 de maio de 2012 e traduzido por Emir Sader (via Facebook)
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Eduardo Galeano: O demônio da Tasmânia


Truganini em 1866.



Por Eduardo Galeano


É famoso no mundo este monstro diabólico, de caninos expostos e dentes afilados.


Mas o verdadeiro demônio da Tasmânia não veio do Inferno: foi o 
império britânico, que exterminou a população dessa ilha, vizinha da Austrália, com o nobre propósito de civiliza-la.


A ultima vitima da guerra inglesa de conquista se chamava Truganini. 
Esta rainha despojada do seu reino morreu no dia de hoje em 1876 e
com ela morreram a língua e a memória de sua gente.




Escrito em Montevidéu e 8 de maio de 2012 e traduzido por Emir Sader (via Facebook)



Eduardo Galeano: como os EUA apagaram a memória do 1º de Maio






Chicago está cheia de fábricas. Existem fábricas até no centro da cidade, ao redor de um dos edifícios mais altos do mundo. Chicago está cheia de fábricas, Chicago está cheia de operários.

Ao chegar ao bairro de Heymarket, peço aos meus amigos que me mostrem o lugar onde foram enforcados, em 1886, aqueles operários que o mundo inteiro saúda a cada primeiro de maio.

– Deve ser por aqui – me dizem. Mas ninguém sabe. Não foi erguida nenhuma estátua em memória dos mártires de Chicago nem na cidade de Chicago. Nem estátua, nem monolito, nem placa de bronze, nem nada.

O primeiro de maio é o único dia verdadeiramente universal da humanidade inteira, o único dia no qual coincidem todas as histórias e todas as geografias, todas as línguas e as religiões e as culturas do mundo; mas nos Estados Unidos o primeiro de maio é um dia como qualquer outro. Nesse dia, as pessoas trabalham normalmente, e ninguém, ou quase ninguém, recorda que os direitos da classe operária não brotaram do vento, ou da mão de Deus ou do amo.

Após a inútil exploração de Heymarket, meus amigos me levam para conhecer a melhor livraria da cidade. E lá, por pura curiosidade, por pura casualidade, descubro um velho cartaz que está como que esperando por mim, metido entre muitos outros cartazes de música, rock e cinema.

O cartaz reproduz um provérbio da África: Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador.

Retirado do "Livro dos Abraços"
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Eduardo Galeano - Mulheres



O escritor uruguaio Eduardo Galeano fala a cerca das mulheres.
Vídeo produzido pelo canal Encuentro.
Áudio em espanhol.
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Documentário: A Ordem Criminosa do Mundo



Documentário exibido pela TVE espanhola, que aborda a visão de dois grandes humanistas contemporâneos sobre o mundo atual: Eduardo Galeano e Jean Ziegler. Pode se dizer que há algo de profético em seus depoimentos, pois o documentário foi feito antes da crise que assolou os países periféricos da Europa, como a Espanha. A Ordem Criminal do Mundo, o cinismo assassino que a cada dia enriquece uma pequena oligarquia mundial em detrimento da miséria de cada vez mais pessoas pelo mundo. O poder se concentrando cada vez mais nas mãos de poucos, os direitos das pessoas cada vez mais restritos. As corporações controlando os governos de quase todo o planeta, dispondo também de instituições como FMI, OMC e Banco Mundial para defender seus interesses. Hoje 500 empresas detém mais de 50% do PIB Mundial, muitas delas pertencentes a um mesmo grupo.
Texto: Docverdade

Poema de Eduardo Galeano para Che Guevara



O Nascedor



Por que será que o Che
Tem este perigoso costume
De seguir sempre renascendo?
Quanto mais o insultam,
O manipulam
O atraiçoam
Mais ele renasce.
Ele é o mais renascedor de todos!
Não será por que Che
Dizia o que pensava e fazia o que dizia?
Não será por isso que segue sendo
tão extraordinário,
Num mundo onde palavras
e atos tão raramente se encontram?
E quando se encontram
raramente se saúdam
Por que não se reconhecem?
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Poema de Eduardo Galeano em homenagem Che
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Vídeo: Depoimento de Eduardo Galeano




Depoimento de Eduardo Galeano na Praça Catalunha, na Espanha, gravado em 24/05/11, durante as manifestações que se iniciaram no mês de maio (15-M) e que tomaram as ruas e praças espanholas.
Vídeo legendado em português!
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Eduardo Galeano e os "ninguéns"



Uma dica da XAD CAMOMILA
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Galeano: Presença dos EUA ofende dignidade e inteligência da AL


Por Fernando Arellano Ortiz


Na Avenida Amazonas, em Quito, a poucos passos do hotel onde se hospedava, encontramos - como qualquer transeunte na noite do domingo, 9 de agosto - Eduardo Galeano, que havia chegado à capital equatoriana para assistir, como convidado especial, ao ato de posse do presidente Rafael Correa, cerimônia realizada em 10 de agosto. O paramos e nos identificamos para solicitar uma entrevista, à qual ele aceitou com gosto.



"Agora não pode ser, mas nos vejamos amanhã, depois da posse de Correa", nos disse o autor de "As veias abertas da América Latina" e de "Espelhos".

Como sempre, Galeano respondeu às perguntas com ironia e não pouco humor, é por isso que suas reflexões saem do comum. Como um latino-americanista, o escritor uruguaio faz uma análise peculiar da realidade sócio-política em nosso hemisfério. Confira abaixo e comente.

"Tempo aberto de esperança"


Após 200 anos de emancipação na América Latina, pode-se falar de uma reconfiguração do sujeito político na região, levando em conta os avanços políticos que se traduzem em governos progressistas e de esquerda em vários países latino-americanos?

Sim, há um tempo aberto de esperança, uma espécie de renascimento que é digno de comemoração em países que não terminaram de se tornar independentes, apenas começaram um pouquinho (a conquistar sua independência). A independência é uma tarefa pendente para quase toda a América Latina.

Com toda a erupção social que tem ocorrido no hemisfério, pode-se assinalar que há uma ênfase da identidade cultural da América Latina?

Sim, eu creio que sim e isso passa, certamente, pelas reformas constitucionais. Me ofendeu a inteligência, além de outras coisas que eu senti, o horror do golpe de Estado em Honduras, que invocou como causa o pecado cometido por um presidente que quis consultar o povo sobre a possibilidade de reformar a Constituição, porque o que queria Zelaya era consultar sobre a consulta, nem sequer era uma reforma direta.

Supondo que fosse uma reforma constitucional, que seja bem-vinda, porque as constituições não são eternas e para que os países possam ser plenamente realizados têm que reformá-las. E eu me pergunto: o que aconteceria aos Estados Unidos se seus habitantes continuassem obedecendo à sua primeira Constituição? A primeira Constituição dos Estados Unidos afirmava que um negro equivalia a três quintos de uma pessoa. Obama não poderia ser presidente porque nenhum país pode ter um governante que seja três quintos de uma pessoa.

Você reivindica a figura do presidente Barack Obama por sua condição racial, mas o fato de ele manter ou expandir a presença norte-americana mediante bases militares na América Latina - como está acontecendo agora na Colômbia, com a instalação de sete plataformas de controle e espionagem - não desmente as verdadeiras intenções deste governante do Partido Democrático, e simplesmente segue ao pé da letra os planos expansionistas e de ameaça de uma potência hegemônica como os EUA?

O que acontece é que Obama até agora não definiu muito bem o que quer fazer em relação à América Latina, às nossas relações - tradicionalmente duvidosas -, ou a outras questões. Em algumas áreas, há um desejo de mudança expresso, por exemplo, no que tem a ver com o sistema de saúde que é escandaloso nos Estados Unidos. Você quebra a perna e paga até o fim dos dias uma dívida por esse acidente. Mas, em outras áreas não. Ele continua a falar de "nossa líderança", "nosso estilo de vida", em uma linguagem muito semelhante à de seus anteriores.

A mim me parece muito positivo que um país tão racista quanto aquele - e com episódios de racismo colossais, descomunais e escandalosos, ocorridos há 15 minutos em termos histórico s- tenha um presidente seminegro. Em 1942, ou seja, a meio século, o Pentágono proibiu as transfusões de sangue negro e o diretor da Cruz Vermelha se demitiu ou foi dispensado porque se recusou a aceitar a ordem, dizendo que todo o sangue era vermelho e era absurdo falar de sangue negro. E ele era negro, foi um grande cientista, que tornou possível a aplicação do plasma em escala universal, Charles Drew.

Então um país que fez um disparate como proibir o sangue negro ter Obama presidente é um avanço. Mas, por outro lado, até agora não vejo nenhuma mudança substancial, aí está por exemplo a forma como seu governo enfrentou a crise financeira. Pobrezinho, eu não queria estar em seu lugar, porém a verdade é que terminaram recompensando os especuladores, os piratas de Wall Strett que são muito mais perigosos que os da Somália, porque estes assaltam nada mais que barquinhos na costa, ao passo que os da Bolsa de Nova York assaltam o mundo.

Eles foram recompensados; eu queria começar uma campanha, ao princípio, comovido pela crise dos banqueiros, com o slogan: "adote um banqueiro", mas abandonei essa ideia porque vi que o Estado assumiu essa tarefa. (Risos).

E o mesmo com a América Latina, como que não tem ainda muito claro o que fazer. Eles têm mais de um século, nos Estados Unidos, dedicados à fabricação de ditaduras militares na América Latina. Então, na hora de defender uma democracia como no caso de Honduras, ante um claríssimo golpe de Estado, vacilam, têm respostas ambíguas, não sabem o que fazer, porque eles não têm prática, lhes falta experiência, estão há mais de um século trabalhando na direção oposta.

Então compreendo que a tarefa não é fácil. No caso de bases militares na Colômbia não só ofende a dignidade coletiva da América Latina, mas também a inteligência de qualquer um. Porque se dizer que sua função será o de combate à droga, por favor, até quando!?

Quase toda a heroína consumida no mundo vem do Afeganistão, quase toda, dados oficiais das Nações Unidas que qualquer pessoa pode ver na internet. E o Afeganistão é um país ocupado pelos Estados Unidos e, como se sabe, os países ocupantes têm a responsabilidade pelo que acontece nos países ocupados, por conseguinte, têm algo a ver com este narcotráfico em uma escala universal e são dignos herdeiros da rainha Vitória que era traficante de drogas.

"Não se pode ser tão hipócrita"

A rainha britânica introduzido por todos os meios, no século XIX, o na China, através de comerciantes da Inglaterra e Estados Unidos...

Sim, a famosa rainha Vitória da Inglaterra impôs o ópio na China mais ao largo de duas guerras de 30 anos, matando uma quantidade imensa de chineses, porque o império chinês se recusou a aceitar essa substância dentro de suas fronteiras. E o ópio é o pai da heroína e da morfina, exatamente. Então aos chineses custou tudo, porque a China era uma grande potência que poderiam ter competido com a Inglaterra no início da revolução industrial, era a oficina do mundo, e a guerra do ópio os arrasou, os transformou em uma bagunça. Daí entraram os japoneses em quinze minutos.

Victoria era uma rainha narcotraficante e os Estados Unidos que tanto usam a droga como um álibi para justificar suas invasões militares, porque é isso, são dignos herdeiros desta feia tradição. Acho que é hora de despertarmos um pouquinho, porque não se pode ser tão hipócrita. Se vão ser hipócritas, que o sejam com mais cuidado. Na América Latina temos bons professores de hipocrisia, se querem podemos em um acordo de ajuda tecnológica mútua fornecer alguns hipócritas próprios.

Há exatamente nove anos, você disse em uma entrevista em Bogotá, concedida a este repórter, a seguinte frase: "Deus salve o a Colômbia do Plano Colômbia." Qual é agora a sua reflexão sobre este país andino que enfrenta um governo autoritário entregue aos interesses dos Estados Unidos, com uma alarmante situação de violação dos direitos humanos e um conflito interno que segue sangrando?

Além de problemas extremamente sérios que foram se intensificando ao longo do tempo. Eu não sei, te digo, não sou alguém para dar conselhos para a Colômbia ou aos colombianos, eu sempre fui contra esse mau hábito de alguns que se sentem capazes de dizer o que cada país deve fazer. Eu nunca cometi esse pecado imperdoável e eu não vou cometer agora com a Colômbia. Só pode-se dizer que espero que os colombianos encontrem o seu caminho, oxalá o encontrem. Ninguém pode impor de fora, nem pela esquerda nem pela direita, nem pelo centro, ou qualquer coisa. Serão os colombianos que vão encontrá-lo.

E eu posso dizer que dou testemunho. Se há um tribunal mundial que vá julgar a Colômbianpelo que se diz da Colômbia - que é violenta, narcotraficante, condenada à violência perpétua -, eu vou dar o testemunho de que não, de que este é um país carinhoso, alegre e que merece melhor destino.

Reivindicando a memória de Raul Sendic


Muitos anos atrás, mesmo há quatro décadas, havia um personagem eme Montevidéu, que se reuniu com um jovem artista chamado Eduardo Hughes Galeano com a finalidade de dar idéias para o desenvolvimento de suas caricaturas, chamado Raúl Sendic, o inspirados da Frente Ampla no Uruguai ...

E líder guerrilheiro dos Tupamaros, embora na época ainda não fosse. É verdade, quando eu era criança, quase quatorze anos, e comecei a desenhar caricaturas, ele ficava olhando e me dava idéias, era um homem bem mais velho que eu, com alguma experiência, e ainda não era o que mais tarde se tornou: o fundador, organizador e líder dos Tupamaros.

Eu me lembro que ele disse a Dom Emilio Frugoni que era então o chefe do Partido Socialista e editor do semanário onde eu publicava caricaturas de início: "Este vai ser ou presidente ou um grande delinquente." Foi uma boa profecia e acabei sendo um grande delinquente..." (risos).

O fato de hoje a Frente Ampla governar o Uruguai e um ex-guerrilheiro como Pepe Mujica ter uma chance de ganhar a eleição presidencial é uma reivindicação à memória de Sendic?

Sim, e de todos aqueles que participaram de uma luta de muito tempo para quebrar o monopólio de dois, o bipólio exercido pelo Partido Colorado e o Partido Nacional durante a maior parte da vida independente do país. A Frente Ampla irrompeu há muito pouco no cenário político nacional e me parece muito positivo que esteja governando agora, apesar de que eu não concordo com tudo o que faz e acho que não faz tudo o que deveria.

Mas isso não tem nada a fazer, porque afinal a vitória da Frente Ampla também foi uma vitória da diversidade política que eu acredito que é o fundamento da democracia. Na frente coexistem vários partidos e movimentos diferentes, unidos por uma causa comum, naturalmente, mas com suas diversidades e diferenças, e eu as reclamar, para mim isso é fundamental.

O que representa para você como Uruguai o fato de que um líder emblemático da esquerda, como Pepe Mujica, ex-guerrilheiro tupamaro, tenha amplas oportunidades para chegar à presidência do seu país?

Tem alguma chance, não vai ser fácil, vamos ver o que acontece, mas eu acho que é um processo de recuperação. As pessoas se reconhecem em Pepe Mujica porque ele é radicalmente diferente de nossos políticos tradicionais, em sua linguagem, mesmo em seu aspecto e tudo, embora ele tenha tentado se vestir como um fino cavalheiro não vão bem, e ele exprime muito bem uma necessidade e uma vontade popular de mudança. Eu acho que seria bom se ele chegasse à Presidência, vamos ver se isso acontece ou não.

Em qualquer caso, o drama do Uruguai como o do Equador, é claro - um país no qual estamos falando agora - é que está sangrando sua população jovem. Ou seja, a nossa é uma pátria peregrina; Em seu discurso de posse, o presidente Rafael Correa falou dos exílados da pobreza e a verdade é que há uma enorme quantidade de uruguaios, muito mais do que eles dizem, porque não são oficiais os números, mas não inferior a 700 mil, 800 mil uruguaios em uma população pequeníssima - porque no Uruguai somos 3 milhões e meio -, é então uma quantidade enorme de pessoas fora.

Todos ou quase todos, jovens. Então ficaram os velhos ou as pessoas que já cumpriram esta etapa da vida, na qual se quer que tudo mude, para se resignar a não mudar nada ou que se mude muito pouca coisa.

Depois de seus famosos livros "As Veias Abertas da América Latina", publicado em 1970, e "Espelhos", publicado em 2008 - que contam as histórias de infâmia, o primeiro sobre nosso continente e o outro sobre a maior parte do mundo - há espaço para continuar acreditando na utopia?

"Espelhos" o que faz é recuperar a história universal em todas as suas dimensões, seus horrores, mas também em suas festas, é muito diferente de "As Veias Abertas da América Latina", que foi o começo de um caminho. As "Veias Abertas" é um ensaio sobre economia política, escrito em uma linguagem não muito tradicional no gênero, por isso ele perdeu o concurso da Casa das Américas, porque o júri não o considerou seriamente.

Foi um momento em que a esquerda só acreditava que o sério era o chato, e como o livro não era chato, não era sério, mas é um livro muito concentrado na história econômica e política e nas barbaridades que essa história significava para nós, como nos deformou, estrangulou.

Em vez disso, "Espelhos" tentar acolher todo o mundo, as noites e os dias, as luzes e as sombras, são todas histórias incrivelmente breves, e também há uma diferença de estilo. As Veias Abertas tem uma estrutura tradicional, e a partir daí eu tentei encontrar uma linguagem minha, própria, que é a do relato curto, pecinhas coloridas para armar grandes mosaicos, um estilo como a dos muralistas, e cada história é uma pequena pedrinha que incorpora uma cor, e um dos últimos relatos de "Espelhos" evoca uma memória da minha infância e é verdadeiro.

É que quando eu era pequeno eu pensava que tudo que estava perdido na terra ia parar na lua, estava convencida disso e fiquei surpreso quando chegaram os astronautas na lua, porque não encontraram nem promessas quebradas, nem ilusões perdidas, esperanças frustradas, e então eu me perguntava: se não estão na lua, onde estão? Será que estão aqui na terra, nos esperando?

Fonte: Rebelión