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A ilha da utopia


Por Daniel Aarão Reis


Era uma vez uma ilha, perdida nos mares do Grande Norte, situada além do que a imaginação possa conceber. Era tão fria que a chamavam Iceland, terra do gelo. Em nossa língua, Islândia. Viviam nela cerca de 300 mil habitantes: um lugar próspero, rico para os padrões da época, uma gente bonita e saudável. Com um regime democrático estável, controlado pela população, dispunha de excelentes sistemas de saúde e de educação, boa alimentação, baixa criminalidade, alta esperança de vida, desenvolvimento econômico sustentável, regulado por diversas agências públicas.
Nada indicava que algo de mal poderia ocorrer naquela Terra da Promissão. No entanto, trágicos fatos ali tiveram lugar e sua recordação talvez possa ajudar a refletir sobre a crise que angustia o mundo atual.
Quando e como exatamente esta história aconteceu? Os arqueólogos mais reputados, com base em evidências e documentos, atestam que as coisas começaram a degringolar na virada no século XX para o século XXI, há centenas de anos...
Disseminaram-se, então, pela ilha, trazidas por mercadores estrangeiros, fantásticas promessas. Baseavam-se em três palavras-chave: desregulamentar, privatizar, internacionalizar. Se fossem capazes de enveredar por este caminho, os ilhéus se tornariam muito ricos, e em pouco tempo.
Persuasivos eram aqueles mercadores, e o povo resolveu segui-los. Os bancos públicos foram privatizados, e as empresas internacionais, autorizadas a explorar os recursos naturais. As agências reguladoras, enfraquecidas, definharam. Os dinheiros agora circulavam em abundância, a Bolsa de Valores galopava e a construção civil alcançava níveis frenéticos. Houve espantosos fenômenos, como o fato de os bancos privatizados contraírem empréstimos equivalentes a dez vezes ao que então se chamava o PNB, ou seja, a soma de todos os bens e serviços produzidos no país.
Vozes prudentes murmuravam: aquilo não podia dar certo.
E não deu.
Num belo dia, no ano de 2008, estourou a crise. Medonha. Os bancos faliram. A Bolsa despencou. Cessaram as atividades econômicas. O desemprego disparou. A ilha descobriu-se endividada até o último fio de cabelo.
Vieram então homens probos e pediram calma. Numa língua ininteligível, explicaram tudo: os antecedentes e os consequentes. As coisas se resolveriam através de uma nova palavra mágica: austeridade. Instituições e bancos internacionais ajudariam. Os problemas seriam equacionados, embora fosse necessário apertar os cintos. Claro, muitos perderiam casas, haveres, empregos, futuro e tudo o mais. As dívidas, porém, seriam pagas, e a honra, salva. O pacote, embrulhado com laço de fita e aprovado pelo Parlamento, virou lei. Em 2009, a fatura parecia liquidada.
Entretanto, as gentes não mais se deixaram persuadir.
Queriam entender melhor como pudera uma terra tão próspera tornar-se em menos de dez anos uma nação de mendigos. Não haveria responsáveis?
Foram às ruas, com apitos e bumbos, batendo talheres em panelas vazias. Pulando e gritando, cercaram o Parlamento, atirando ovos e tomates nos representantes. Não houve polícia capaz de segurar aquela ira.
Corria o ano de 2010 quando a pressão das multidões organizadas impôs um referendo. A Lei do Parlamento foi recusada por 93% dos votos. A dívida, contraída por alguns, não seria paga por todos. Era preciso zerá-la e recomeçar.
E teve início a investigação sobre as responsabilidades. Altos executivos e gerentes dos bancos foram para a cadeia. Os banqueiros que puderam, fugiram, como ratos de um barco à deriva. Ao mesmo tempo, decidiu-se redigir uma nova Constituição, capaz de proteger a nação de outros aventureiros.
Por toda parte, organizavam-se as gentes. Em cada distrito, uma assembleia. Participativa e consciente de que a Coisa Pública deveria ser tratada com atenção e cuidado. Entre pouco mais de 500 candidatos, sem prévia filiação partidária (os antigos partidos tornaram-se suspeitos), elegeram-se 25 representantes. Foram eles que, ouvindo as assembleias locais, autônomas em relação ao Estado e aos partidos, construíram uma nova Carta Magna, a ser aprovada em outro referendo popular. Regulação e controle, palavras esquecidas, retornaram, devidamente valorizadas. A primeira consequência foi a renacionalização dos bancos, baseada no conceito de que o dinheiro de todos é muito importante para ser deixado em mãos de poucos.
Aquele povo mostrou que, por vezes, como dizia E. Morin, o improvável acontece. Demitiu-se um governo. Refez-se o Parlamento. Exercitou-se a autonomia. Foi escrita uma nova Constituição, preocupada com as pessoas e não com os dinheiros. E a prosperidade voltou, atestada por bons resultados em 2011 e 2012.
Uma revolução. Pacífica e democrática.
Mas realizada há tantos séculos e numa terra tão longínqua... Talvez por isso se fale tão pouco dela e dos maravilhosos eventos que aconteceram na bela Islândia. Uma ilha da utopia.
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Fanáticos do mercado perdem de novo na Islândia



Por Paulo Moreira Leite


Há dois motivos para se prestar atenção à política da Islândia mas a maioria das pessoas só costuma prestar atenção num deles.
A primeira ministra é Jóhanna Sigorarddóttir, primeira chefe de governo assumidamente homossexual do planeta. Mãe de dois filhos, divorciada, quando a união entre pessoas do mesmo sexo foi legalizada a primeira ministra oficializou o casamento com uma escritora.
O outro motivo para se prestar atenção na Islândia é político. Seu presidente, o socialista Olafur Ragnar Grimsson, que foi reeleito ontem com mais de 52,7% dos votos, é uma das personalidades mais relevantes da crise econômica mundial.
Enquanto os demais governos europeus caem como dominó, repudiados por eleitores que se recusam a pagar a conta de uma crise criada pelo cassino financeiro, Grimsson recebeu o quinto mandato consecutivo. Sua margem de votos equivale a uma vitória em primeiro turno.
A razão é simples. Recusando-se a sacrificar a população em nome da saúde dos bancos, em duas ocasiões Grimsson vetou uma lei que pretendia obrigar o país a pagar a conta pelos prejuízos do cassino financeiro de 2008, que levou o principal banco do país à falência.
Governos muito mais poderosos e influentes, da Inglaterra e da Holanda, cobravam a conta a população dos 400 000 habitantes da Islândia. Abrigo de um sistema de bem-estar social típico dos países nórdicos, com uma boa renda per capta e uma das sociedades mais equilibradas do planeta, nas décadas anteriores a Islandia fora transformada num paraíso neo-liberal, abandonando a atividade industrial tradicional, em torno da pesca, para se transformar num paraíso financeiro e fiscal sob encomenda para grandes bancos europeus.
A ideia para enfrentar a crise depois da quebra de 2008 era o modelito dos fanáticos do mercado, aplicado na Grécia, na Espanha, em Portugal e Itália: cortar investimentos sociais e aumentar impostos, elevando o desemprego e aumentando as receitas dos bancos.
O presidente islandês Olafur Ragnar Grimsson
Com seu veto, Grimsson abriu caminho para um referendo sobre o tema – venceu a proposta de não pagar a dívida e arrumar a economia, com prioridade a investimentos que gerassem empregos e crescimento. Seus adversários levantaram o previsível espantalho da crise sem fim mas se deram mal, como demonstra a votação de ontem.
Essa trajetória inovadora explica a reação preventiva dos  mercados quando, no final de 2011, então primeiro ministro grego Georges Papandreou resolveu fazer um referendo sobre o plano de austeridade imposto pela União Europeia. Papandreou foi obrigado a renunciar ao cargo em menos de uma semana. O capítulo seguinte da história nós sabemos: o país foi entregue a um homem de confiança do Goldman Sachs, que, após duas eleições apertadas e pouco conclusivas, transferiu o governo para um candidato conservador.
A cena atual na Grécia é previsível: o pacote de austeridade é tão rico em sacrifícios e pobre em perspectivas reais que dias depois da vitória, quando fez campanha a seu favor, o novo governo já pede uma revisão de suas condições. A comparação com a Islândia mostra que há opção.
Você já deve ter lido um bom número de articulistas que se queixam que faltam governantes duros, com coragem de pedir sacrifícios da população. Eles gostam de acusar esses governos de populistas. É puro xingatório de quem apoia políticas que não tem voto — mas prefere se esconder atrás de um conceito político que já teve momentos de maior prestígio no passado.
O sucesso único de Grimsson mostra o contrário. Não faltam autoridades dispostas a servir aos interesses financeiros e  entregar a população à própria sorte. São uma unanimidade – ou quase.
A reeleição de Grimsson apenas confirma uma lição óbvia das democracias: a população rejeita políticos que viram as costas na hora da dificuldade.
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Islândia inicia o julgamento do neoliberalismo



Durante o governo de coligação direitista e social democrata de Geir Haarde, os bancos faliram, a economia entrou em colapso. Mais do que julgar o homem que à frente do governo não conseguiu evitar a dramática situação no pequeno país, os juízes tentam apurar o que se passou e as circunstâncias que provocaram a crise. O tribunal considera que não é possível responsabilizar unicamente o ex-primeiro ministro pelo que se passou.

Da sua acusação constam o fato de não ter feito nada para evitar a debandada dos estabelecimentos financeiros, de não ter feito com que o banco online Icesave tivesse o estatuto de filial britânica, o que teria permitido transferir o problema da falência para Londres e evitado ao país a realização de dois referendos e a decisão dos islandeses de se recusarem a pagar por dívidas que não são suas. Este problema está atualmente no Tribunal Europeu de Justiça.

Juízes e cerca de 60 testemunhas têm refletido durante o julgamento – que não é transmitido ao vivo pela TV mas que está sendo seguido por milhares de islandeses através da internet – sobre as causas de uma situação que não surgiu em 2008 por geração espontânea mas sim pela deriva neoliberal a que o governo sujeitou o país.

Em causa estão, principalmente, a privatização das quotas de pesca que proporcionou aos armadores fortunas incalculáveis, um investimento em cascata no estrangeiro, quase sempre com maus resultados, uma privatização desastrosa dos bancos feita frequentemente segundo métodos corruptos e de clientelismo. A este processo seguiu-se uma onda de concessão de créditos bancários sem critérios nem garantias proporcionando, à escala do país, problemas semelhantes aos que se registaram nos Estados Unidos com a bolha imobiliária e o subprime.

Nesta fase, os bancos concederam um volume global de crédito que superou em 11 vezes o PIB islandês; quando o primeiro ministro decretou a sua falência era impossível salvá-los. Além disso, os islandeses não o permitiram e recusaram-se a assumir as dívidas alheias.

A resposta dos islandeses à crise não alinhou pelos caminhos impostos pela União Europeia aos Estados membros, pelo que hoje a Islândia, apesar de sofrer os efeitos de uma forte austeridade econômica e de uma acentuada quebra no consumo, conseguiu salvaguardar o Estado social, o desemprego está em sete por cento e as entidades patronais não foram além de limitar o trabalho extraordinário para conseguirem evitar os despedimentos.

Geir Haarde, político direitista e considerado um fundamentalista neoliberal, tem 64 anos e abandonou a carreira política. Incorre numa pena de dois anos de prisão. Mais do que um chefe de governo incapaz de dirigir o país – é a acusação a que corresponderá a pena que vier a ser aplicada – no banco dos réus está a política neoliberal.

(*) Artigo publicado no portal do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu

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