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Copa do mundo no Qatar em 2022 deverá ser regada a sol e sangue


O calor extremo não é único problema em realizar a Copa do Mundo de 2022 no Qatar. A Confederação Sindical Internacional (CSI) estimou que o auge da construção precedendo o Mundial de 2022 no Qatar possa levar à morte de 4000 ou mais trabalhadores migrantes.

Occupy Wall Street incorpora luta dos trabalhadores imigrantes


"Nenhum ser humano é ilegal Todos os trabalhadores têm o direito de se organizar, de se sindicalizar!" falou um trabalhador imigrante "ilegal" na manifestação do "Occuppy Wall Street" em Nova York, durante o ato do dia internacional do trabalhador.
O movimento "Ocupar" Wall Street tem ampliado suas pautas e sua organização e avançando para questões que vão além da denúncia da "ditadura dos mercados" comandada por 1% sobre os 99% da população. 
Mais do que afirmar que  “nós somos os 99% e podemos mudar o mundo”, deve o movimento, de fato, envolver este espectro mais amplo no movimento. Ampliando sua organização com outros movimentos locais e nacionais organizados, com o movimento sindical e com os trabalhadores imigrantes, sendo que destes, milhares encontram-se em situação de brutal precarização do trabalho. Despossuídos de cidadania pelo estado, se encontram "ilegais", sem acesso a documentos e trabalho formal e, por consequência, desprovidos de direitos.
Portanto, para fugir do risco da efemeridade que alguns movimentos contestatórios acabam tendo, somente assumindo uma estreita aliança com amplos setores excluídos da sociedade poderá lograr algum exito.  
Tornar o "Occuppy Wall Street" um movimento que de fato incorpore e envolva os "99%" é um grande desafio colocado. Fazendo a inclusão da luta dos trabalhadores em geral, especialmente a dos imigrantes, o "Ocupar" caminha na direção certa para se consolidar como uma alternativa política nos EUA.


Manifestação do Occupy em Los Angeles.
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Reality show na Holanda faz competição entre imigrantes que tiveram asilo negado


Não é só a televisão brasileira que a apelação impera na busca pela audiência. A televisão holandesa estreia nesta quinta-feira (01/09) um programa em que cinco solicitantes de asilo político, que já tiveram os pedidos negados, competem por um prêmio de quatro mil euros. O "Weg van Nederland" (Pra longe da Holanda) testará o conhecimento dos cinco competidores, todos entre 15 e 22 anos, sobre a língua, a cultura, a história, sobre artistas e a família real holandesa. Aquele que mostrar mais conhecimento do país, ganha. Os outros competidores, porém receberão prêmios de consolação, como um saco com bulbos de flores e um colete a prova de balas. O objetivo, segundo o VPRO, canal que transmite o programa, é "criticar" a lentidão da política de imigração, disposta a expulsar jovens e famílias que já vivem há mais de oito na Holanda, e ajudar o vencedor a iniciar sua nova vida no país de origem. Sobre os participantes, pouco se sabe. Um deles estuda engenharia aeronáutica e espera ser deportado para Camarões. Outro, que está quase no fim do curso de licenciatura de línguas eslavas, deve voltar para Chechênia. Mesmo antes da estreia, o Weg van Nederland já causou polêmica no país, principalmente por adotar um tom cômico. A produção optou colocar ao lado do apresentador duas ajudantes de palco vestidas de oficiais de imigração.
  O programa foi visto pela Vluchtelingenwerk – uma organização que atende a refugiados - como uma proposta de "mau gosto". "O programa é duro, mas na verdade a realidade também é dura. É uma realidade que refugiados são recusados na Holanda. Enquanto seus filhos têm boa educação e estão bem integrados ao país", disse o diretor da organização, Wouter van Zandwijk. O próprio editor-chefe do VPRO, Frank Wiering, contou que ao receber a proposta sua primeira reação foi negativa. “Minha primeira reação foi: isso nós não podemos fazer, não vejo nada num programa assim. Até que fui me aprofundar na questão. Aí pensei: temos, sim, que fazer", disse. Para ele, é importante chamar atenção para o fato de que atualmente há muitos jovens refugiados que são recusados no país, entretanto, admite que "o programa poderá render boas risadas".

Com informações do Opera Mundi
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Slavoj Žižek: barbarismo e intolerância "humanizados"


Em sua coluna mensal no Blog da Boitempo, Slavoj Žižek discute as políticas anti-imigração e a intolerância "moderada" contemporânea.


Política anti-imigração - Barbarismo com aparência humana

Por Slavoj Žižek

Fatos recentes – como a expulsão dos ciganos da França, ou o ressurgimento do nacionalismo e do sentimento anti-imigração na Alemanha, ou o massacre na Noruega – devem ser vistos pelo do viés de um rearranjo que vem ocorrendo há bastante tempo no espaço político da Europa oriental e ocidental.

Até recentemente, na maioria dos países europeus dominavam dois principais partidos que agregavam a maioria do eleitorado: um partido de centro-direita (democrata cristão, liberal-conservador, do povo) e um partido de centro-esquerda (socialista, social-democrata), com alguns partidos menores (ecologistas, comunistas) reunindo um eleitorado ainda menor.

Recentes resultados eleitorais na Europa ocidental e no Leste Europeu sinalizam o surgimento gradual de uma polarização diferente. Agora temos um partido predominante, de centro, atuando em prol do capitalismo global, geralmente acolhendo ideias culturalmente liberais (tolerância ao aborto, direitos dos gays, religiosos e minorias étnicas, por exemplo).

Em oposição a esses, tornam-se cada vez mais fortes os partidos populistas anti-imigração que, pelas beiradas, vêm acompanhados de grupos francamente racistas neofascistas. O melhor exemplo disso é a Polônia onde (após o desaparecimento dos ex-comunistas) os principais partidos são o liberal-centrista “anti-ideológico” do Primeiro Ministro Donald Tusk e o conservador Christian Law, e o Partido da Justiça dos irmãos Kaczynski.

Tendências semelhantes podem ser observadas, como já testemunhamos, na Noruega, na Holanda, na Suécia e na Hungria. Mas como chegamos a este ponto?

Após décadas de fé no estado de bem-estar social, quando cortes financeiros eram vendidos como temporários, e sustentados por uma promessa de que as coisas logo voltariam ao normal, estamos entrando numa época em que a crise – ou melhor, uma espécie de estado econômico de emergência, com sua necessidade de atendimento para todo tipo de medida de austeridade (cortando benefícios, diminuindo serviços de saúde e de educação, tornando os empregos mais temporários) – é permanente. A crise está se transformando num estilo de vida.

Depois da desintegração dos regimes comunistas, em 1990, entramos numa nova era na qual predomina a administração despolitizada de especialistas e a coordenação de interesses como exercício do poder de estado.

O único meio de introduzir paixão nesse tipo de política, o único meio de ativamente mobilizar o povo, é através do medo: o medo dos imigrantes, o medo do crime, o medo da depravação sexual ateia, o medo do Estado excessivo (com sua alta carga tributária e natureza controladora), o medo da catástrofe ecológica, assim como o medo do assédio (o politicamente correto é a forma liberal exemplar da política do medo).

Uma política assim se sustenta sobre a manipulação de uma multidão paranoica – a assustadora correria de homens e mulheres amedrontados. Eis porque o grande evento da primeira década do novo milênio se deu quando a política anti-imigração entrou para a prática corrente e cortou enfim o cordão umbilical que conectava-a com os partidos da extrema direita.

Da França à Alemanha, da Áustria à Holanda, no novo modelo de orgulho de sua própria identidade cultural e histórica, os principais partidos veem como aceitável insistir que os imigrantes são hóspedes que devem se acomodar aos valores culturais que definem a sociedade anfitriã – “este é o nosso país, ame-o ou deixe-o” é o recado.

Os liberais progressistas estão, é claro, horrorizados com esse populismo racista. Entretanto, uma olhada mais de perto revela o quanto compartilham sua tolerância multicultural e o respeito às diferenças com esses que opõem imigração à necessidade de manter os outros a uma distância apropriada. “O outro é bacana, eu o respeito”, dizem os liberais, “contanto que não interfiram demais no meu espaço pessoal. Quando fazem isso, eles me incomodam – eu apoio enormemente uma ação afirmativa, mas em momento algum estou disposto a ouvir rap a todo volume”.

A principal tendência dos direitos humanos nas sociedades do capitalismo tardio é o direito de não ser incomodado; o direito de manter uma distância segura em relação aos outros.

Um terrorista cujos planos fúnebres devem ser evitados permanece em Guantânamo, a zona vazia desprovida de regras da lei, e um ideólogo fundamentalista deve ser silenciado porque ele espalha o ódio. Pessoas assim são assuntos tóxicos que perturbam a minha paz.

No mercado atual, encontramos toda uma série de produtos despidos de suas propriedades malignas: café sem cafeína, creme sem gordura, cerveja sem álcool. E a lista continua: que tal sexo virtual, o sexo sem sexo? A doutrina Collin Powell de guerra sem casualidades – para o nosso lado, obviamente – como uma guerra sem guerra?

A redefinição contemporânea de política como arte da administração especializada, política sem política? Isto nos leva ao atual multiculturalismo liberal tolerante como uma experiência do Outro desprovida de sua alteridade – o Outro descafeinado.

O mecanismo dessa neutralização foi melhor formulado em 1938 por Robert Brasillach, o intelectual fascista francês, que via a si mesmo como um antissemita “moderado” e inventou a fórmula do antissemitismo razoável.

“Nós nos concedemos a permissão de aplaudir Charlie Chaplin, um meio-judeu, nos filmes; de admirar Proust, um meio-judeu; de aplaudir Yehudi Menuhin, um judeu; não queremos matar ninguém, nós não queremos organizar nenhum pogrom. Mas também achamos que o melhor meio de impedir as ações sempre imprevisíveis do antissemitismo instintivo é organizar um antissemitismo razoável”.

Não seria esta a mesma atitude que entra em funcionamento quando nossos governantes lidam com a “ameaça imigrante”? Após rejeitar diretamente, à moda da direita, o populismo como “irracional” e inaceitável para nossos padrões democráticos, eles endossam “racionalmente” as medidas de proteção racistas.

Ou, como Brasillachs atuais, alguns deles, mesmo os social-democratas, nos dizem: “Concedemos a nós mesmos permissão para aplaudir atletas da África e do Leste Europeu, doutores asiáticos, programadores de softwares indianos. Nós não queremos matar ninguém, não queremos organizar nenhum pogrom. Mas também achamos que o melhor meio de impedir as sempre imprevisíveis e violentas medidas de defesa anti-imigração é organizar uma proteção anti-imigração razoável.”

Essa ideia de desintoxicação do vizinho sugere uma passagem do franco barbarismo para o barbarismo com uma aparência humana. Revela que estamos saindo do amor ao próximo cristão e caminhando de volta para os privilégios pagãos de nossas tribos em detrimento do Outro, bárbaro. Mesmo que esteja sob a máscara da defesa de valores cristãos, esta é a maior ameaça ao legado cristão.

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Texto publicado originalmente em ABC – Religion and Ethics, dia 26 de julho de 2011.


Traduzido do inglês por Leonardo Gonçalves.

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Uma modesta proposta

Luis Fernando Verissimo

Brasil já fez reforma agrária — dos outros. Muitos dos imigrantes que vieram no século dezenove estavam, nos seus países, na mesma situação dos atuais sem-terra no Brasil. Eram os excedentes de uma estrutura fundiária perversa, sem uma estrutura industrial que os absorvesse. Itália, Alemanha, etc., fizeram a sua reforma com a nossa terra, mas não podemos esperar que nos devolvam o favor. Não existem outros brasis no mundo para receber os sem-terra, já que este está ocupado. Se houvesse, poderíamos incluí-los na nossa pauta de exportações. Depois dos ciclos do café etc., o ciclo dos desesperados. Só teríamos de cuidar para que este ciclo não repetisse os outros.
Fomos os maiores produtores de açúcar do mundo. Não somos mais. O que sobrou do ciclo do açúcar foram usineiros vivendo até hoje de subsídios mas não exportando açúcar. Já produzimos borracha como ninguém. Não produzimos mais. Depois veio o café. Abastecíamos o mundo inteiro de café, sem concorrência. Isso também acabou. Depois veio a bossa-nova. Dominamos o mercado mundial até os bateristas americanos aprenderem a batida. Hoje não precisam mais de nós. A lambada parecia que ia nos redimir. Os franceses a encamparam, depois a esqueceram. Hoje exportamos jogadores de futebol, modelos gaúchas e soja. Poderíamos exportar desesperados. A produção não pára de crescer.
Mas como não há mercado para eles, deveria-se pensar numa alternativa mais radical. Há uns trezentos anos o escritor Jonathan Swift sugeriu aos irlandeses que comessem seus bebês. Ajudaria a diminuir a fome e ao mesmo tempo resolveria o problema da superpopulação no país. No mesmo espírito, e já que a nossa estrutura fundiária não só não muda como partiu para o revide com cobertura da Justiça, no campo eles são supérfluos e na cidade eles não têm empregos e não há outra saída, os sem-terra deveriam ser convencidos a se suicidar. O suicídio coletivo seria um gesto patriótico que daria paz aos campos, sossego aos latifundiários e alívio ao governo. E, ainda por cima, um pedaço de terra para cada um.