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Os protestos no Brasil e o desafio às Ciências Sociais



Duas palavras chaves não podem se perder dos nossos horizontes: democracia e justiça. Afinal, contra quais injustiças as ruas estão realmente lutando?

Por Luciana Ballestrin

As Ciências Sociais possuem singularidades absolutamente distintivas das Ciências Exatas e afins que marcam complexos de inferioridade explicativa ou de superioridade intelectual. Nossa incapacidade de formular “leis” sociais, políticas e culturais atestam para alguns uma clara limitação e impossibilidade científica. O fato de sermos ao mesmo tempo sujeito e objeto nas nossas análises afastam a pretensão positivista da neutralidade, sendo o nosso poder de predição quase nulo diante do laboratório da experiência humana.

Constantemente, a comunidade de cientistas sociais exercem uma espécie de autoanálise que permite compreender e aceitar nossas diferenças no contestável campo científico. Ao identificarmos que a vontade de saber é uma vontade de poder; que a própria construção do que é ciência é inscrita em um processo político e econômico global; que as humanidades institucionalizaram-se com e contra as relações imperiais e coloniais do poder, saber e ser, e que aquilo que é aceito como legitimamente científico produz um tipo de injustiça cognitiva, liberta-nos de comparações inglórias, ao mesmo tempo em que projeta-nos invariavelmente no universo da intelectualidade pública.

Belluzzo: A Constituinte e os donos do Brasil


Por Luiz Gonzaga Belluzzo

No 25º aniversário da Constituição-Cidadã, não posso negar ao improvável leitor de minha coluna as palavras de Ulysses Guimarães na sessão de promulgação da Carta Magna.

"A sociedade foi Rubens Paiva, não os facínoras que o mataram. Foi a sociedade, mobilizada nos colossais comícios das Diretas-já, que, pela transição e pela mudança, derrotou o Estado usurpador. Termino com as palavras com que comecei esta fala: a Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar. A Constituição pretende ser a voz, a letra, a vontade política da sociedade rumo à mudança. Que a promulgação seja nosso grito: - Mudar para vencer! Muda, Brasil!"

Há quem diga que o Brasil, ao promulgar a Constituição de 1988, entrou tardia e timidamente no clube dos países que apostaram na ampliação dos direitos e deveres da cidadania moderna. Submetidos, ao longo de mais de quatro séculos, à dialética do obscurecimento que regia as relações de poder numa sociedade marcada pelo vezo colonial-escravocrata e, depois da Independência, pelo coronelato primário-exportador, os brasileiros subalternos deram na Constituinte passos importantes para alcançar os direitos do indivíduo moderno.

Pensamento mediano


Singularmente perversa e infantilizada, nossa classe média é o suporte de uma visão de mundo que transforma exploração em generosidade

Por Jessé de Souza

Filósofa Marilena Chauí propõe reflexão sobre a classe média - Filipe Araújo/Estadão

Filipe Araújo/Estadão
Filósofa Marilena Chauí propõe reflexão sobre a classe média

A professora Marilena Chauí propõe uma discussão interessante e oportuna acerca da classe média brasileira. Seu julgamento indignado é certeiro, ainda que abstrato e indiferenciado. Mais interessante que o burburinho causado é perceber a "justificação" do privilégio dessa classe para que possamos compreendê-la. Antes de tudo, o que é "privilégio"? E como ele se reproduz? Em todas as sociedades modernas, como a brasileira, os privilégios que asseguram acesso diferencial aos bens ou recursos que todos desejamos, sejam materiais, como carro e casa, sejam imateriais, como o prestígio e o charme que asseguram a conquista de um parceiro erótico, por exemplo, são explicados a partir da apropriação diferencial de certos "capitais" - que vão pré-decidir toda a competição social por todos os bens escassos, materiais e imateriais, que todos desejamos as 24 horas do dia. Esses "capitais impessoais", antes de tudo o capital econômico e o capital cultural, são, portanto, o fundamento opaco e nunca assumido de toda a dominação social injusta.

A regra básica da cegueira na qual todos vivemos é que percebemos o "capital econômico", mas nunca percebemos o "capital cultural". É que o capital cultural não são apenas os títulos escolares de prestígio que garantem à classe média seus empregos bem pagos e reconhecidos. Capital cultural é também e principalmente toda a herança imaterial e invisível, tanto emocional quanto cognitiva e moral, que recebemos desde tenra idade, sem esforço, no convívio familiar, como a habilidade para o pensamento abstrato, o estímulo à concentração - que falta às classes populares e a condenam ao fracasso escolar -, a capacidade de perceber o futuro como mais importante que o presente, etc. Isso tudo somado constrói o indivíduo das classes alta e média como "vencedor" na escola e depois no mercado de trabalho, não por seu "mérito individual", como os indivíduos dessas classes gostam de pensar, mas por uma "vantagem de sangue", familiar e de classe, como em qualquer outra sociedade tradicional do passado.

Estudo compara reality shows da TV a rituais de sofrimento


Testes físicos extenuantes, brigas, intrigas e disputa por espaço e prêmios. A descrição acima tem sido a bula dos reality shows desde sua chegada à TV, no final dos anos 1990. 

Em sua 13ª edição, o "Big Brother Brasil", da Globo, que começou na última terça-feira, não fugiu à regra. 

Logo na estreia, submeteu seus participantes a uma prova que durou 15 horas. 

Na tarefa, os jogadores deveriam permanecer com as duas mãos encostadas em um carro, sem comer, dormir ou ir ao banheiro. 

Em 2009, a atração isolou três "brothers" num cômodo inteiramente branco, submetendo-os à privação de sentidos até que um desistisse. 

"A banalização da crueldade só ocorre na TV porque se tornou estrutural em nosso mundo", diz a socióloga Silvia Viana Rodrigues, autora de "Rituais de Sofrimento". 

No estudo, que chega neste mês às livrarias, ela compara o fascínio por esse tipo de produção com uma espécie de ritual religioso vazio, repetido à exaustão e que se reproduz na vida real. 

"Hoje as pessoas trabalham compulsivamente como se vivêssemos num mundo de escassez, mas nunca houve tanta riqueza. Trabalham para não serem demitidas. Reality shows espelham isso: são como processos seletivos", afirma ela. 

Milena Fagundes, do "BBB 9", sentiu isso na pele: "Tinha raiva quando a prova era de sorte. É preciso mostrar garra. Quem está assistindo gosta de ver o sofrimento alheio. Muita gente gostaria de estar lá; já que não pode, quer que o prêmio vá para quem mostre merecer". 

Para Luís Simonetti, diretor-geral do "BBB", o programa "é uma grande festa". Ele minimiza o fator crueldade nas provas da atração. 

"Elas ficaram mais técnicas. Algumas, que deveriam ser leves, ficaram parecendo mais duras. Mas isso quem cria são eles [os participantes]. Fazemos sem essa intenção." 

Para a pesquisadora, o telespectador de reality show não é sádico, mas se anestesiou. "Nossa sociedade exige que sejamos fortes, que não nos deixemos abalar, que superemos os desafios por mais estúpidos e sem sentido que sejam", conclui. 


Fonte: Blog Boitempo

“A revolução é um belo monstro com mil cabeças”. Entrevista com Michael Löwy



Ainda hoje, encontramos na esquerda esta visão idealista, neo-hegeliana, que faz do filósofo, ou da vanguarda, ou do partido, a “cabeça” da revolução, constata sociólogo.
Questionado a respeito dos principais limites do pensamento marxista e o que explica o fato de que o marxismo seja visto por muitos setores da academia como retrógrado, Michael Löwy, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, frisa que o marxismo é um pensamento em movimento, que trata de superar os limites que estão presentes na própria obra de Marx Engels: “por exemplo, um tratamento muito insuficiente da questão ecológica”.
Para Löwy, alguns setores da academia confundem o marxismo com sua caricatura retrógrada, a ideologia do assim chamado “socialismo real”. E continua: “outros, identificados com a ideologia dominante, pretendem que o desenvolvimento capitalista represente o ‘progresso’, sendo o marxismo ‘arcaico’, por se opor à expansão do mercado e à acumulação do capital”.
Segundo o sociólogo marxista, tinha razão Jean Paul-Sartre ao dizer que o marxismo é o horizonte intelectual de nossa época. Para ele, as tentativas de “superá-lo” – pós-modernidade, pós-marxismo, etc. – acabam sendo regressões políticas e culturais. “Como já diziam Rosa LuxemburgoLukács Gramsci, quando a humanidade suprimir o capitalismo, o marxismo poderá ser substituído por novas formas de pensamento...”.
 Michael Löwy (foto) é sociólogo marxista e filósofo. É diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique – CNRS, tendo sido homenageado em 1994 com a medalha de prata do CNRS em Ciências Sociais. É ainda um dos principais pensadores marxistas da atualidade. Recentemente publicou os livros Revoluções (Boitempo, 2009) e A teoria da revolução no jovem Marx (Boitempo, 2012). Além disso, é autor de livros sobre Karl Marx, Che Guevara, a Teologia da Libertação, György Lukács, Walter Benjamin, Lucien Goldmann e Franz Kafka.
Recentemente ele publicou o livro A teoria da revolução no jovem Marx. São Paulo: Boitempo, 2012.
 Confira a entrevista.
IHU On-Line – Quais são as peculiaridades da revolução na obra do jovem Marx? Em que aspectos sua teoria se modifica em seus escritos posteriores?
Michael Löwy – Nas Teses sobre Feuerbach (1845) – o germe genial de uma nova concepção do mundo, segundoEngels – e na Ideologia alemä (1846), Marx inventa uma nova teoria, que se poderia definir como filosofia da práxis (o termo é de Gramsci). Superando dialeticamente o idealismo neo-hegeliano – para o qual a mudança da sociedade começa com a mudança das consciências – e o materialismo vulgar – para o qual é necessário primeiro mudar as “circunstâncias” materiais –, Marx afirma, na Tese n. III sobre Feuerbach: na práxis revolucionária, coincidem a mudança das circunstâncias e automodificação dos indivíduos.
Como ele explica pouco depois na Ideologia alemã: uma consciência comunista de massas só pode surgir da ação, da experiência, da luta revolucionária das massas; a revolução é não apenas necessária para derrubar a classe dominante, mas também para que a classe subversiva se liberte da ideologia dominante.
Em outras palavras: a única emancipação verdadeira é a autoemancipação revolucionária. Essa tese vai ser um fio vermelho, através de toda sua obra, mesmo que as formulações sejam mais diretamente políticas e menos filosóficas. Por exemplo, no célebre preâmbulo dos Estatutos da Primeira Internacional: “A emancipação dos trabalhadores será a obra dos próprios trabalhadores”. Mas isso vale também para o Manifesto comunista, para os escritos sobre a Comuna de Paris, etc.
IHU On-Line – Como pode ser compreendida a ditadura do proletariado face a democracia que emana da teoria da revolução comunista?
Michael Löwy – A expressão “ditadura do proletariado” foi pouco feliz. Mas como o demonstrou o socialista americanoHal Draper, o que Marx Engels queriam dizer com isso era o poder democrático dos trabalhadores, tal como o conheceu a Comuna de Paris, que teve eleições democráticas, pluripartidarismo, liberdade de expressão, etc. No século XX, essa expressão serviu para justificar políticas autoritárias em nome do comunismo, que não correspondem ao pensamento de Marx.
IHU On-Line – O que mudou na esquerda desde o lançamento da primeira edição de A revolução comunista na obra do jovem Marx?
Michael Löwy – O título da primeira edição (não da tese de doutorado) era A teoria da revolução no jovem Marx,publicado pelas Editions Maspero, em 1971. Desde então muita água correu nas margens do Sena, e a versão estalinista da esquerda, que predominou durante boa parte do século XX, entrou em crise e praticamente desmoronou no mundo inteiro. Fica então confirmada, pela via negativa, a tese de Marx: a única revolução verdadeira é a autoemancipação dos oprimidos.
IHU On-Line – Em termos gerais, o senhor considera que a esquerda em suas diferentes experiências (União Soviética, Leste Europeu, América Latina, Europa e Brasil) compreendeu Marx de forma equivocada? Por quê?
Michael Löwy – Na URSS, em seus primeiros anos, existiu talvez uma compreensão equivocada do marxismo, uma leitura autoritária de certos textos. Mas a partir do stalinismo, em meados dos anos 1920, já não se trata de equívoco, mas de uma ideologia de Estado, pretensamente marxista-leninista, visando justificar o poder totalitário da burocracia e suas políticas oportunistas. Infelizmente, os partidos comunistas da Europa, América Latina e Brasil seguiram, durante muitos anos, a orientação stalinista. Mas já a partir de 1956 e, sobretudo, de 1968 (invasão da Tchecoslováquia), muitos comunistas começaram a questionar esta ideologia. Na América Latina foi a Revolução Cubana que provocou uma profunda crise no movimento comunista.
IHU On-Line – A revolução permanente de Trotsky é uma categoria adequada para se pensar a esquerda hoje? Por quê?
Michael Löwy – A teoria da revolução permanente de Trotsky – que havia sido formulada por José Carlos Mariategui, no contexto latino-americano, desde 1928 – é a única que dá conta da dinâmica das revoluções do século XX: revoluções russa de 1917, chinesa, iugoslava, vietnamita, cubana. Em todos estes países, uma revolução democrática, agrária e/ou anticolonial se transforma num processo ininterrupto – permanente – em revolução socialista. Infelizmente, em todos estes processos – com a exceção parcial de Cuba – acabou se dando uma degeneração burocrática. Isso não é uma fatalidade, mas o produto de circunstâncias históricas. O que vale ainda hoje é a visão estratégica: as revoluções na periferia do sistema serão revoluções socialistas, democráticas, agrárias e anti-imperialistas ao mesmo tempo; ou então serão “caricaturas de revolução”, como dizia Che Guevara. Dito isso, não se pode considerar a teoria de Trotsky como um dogma infalível: ele previa, nestas revoluções, um papel dirigente da classe operária, que só se deu no caso russo de 1917.
IHU On-Line – Como concilia a militância socialista e surrealista? Como essas vertentes se complementam e confluem para o trotskismo?
Michael Löwy – O surrealismo é um movimento romântico revolucionário, de reencantamento do mundo, que tem uma vocação eminentemente subversiva: é, portanto, perfeitamente compatível com a militância socialista. Aliás, muitos surrealistas, como o poeta Benjamin Péret – que esteve vários anos no Brasil – nunca deixou de militar, e combateu em 1936-37, nas fileiras antifascistas na guerra civil espanhola.
Em 1938, André Breton, o fundador do surrealismo, viajou ao México para encontrar Leon Trotsky, então exilado emCoyacan. Os dois redigiram juntos um manifesto, intitulado Por uma arte revolucionária independente, contra qualquer controle de partido ou Estado sobre atividade poética ou artística. Pouco depois, será fundada a Federação Internacional da Arte Revolucionária Independente – FIARI, na qual participam surrealistas, trotskistas, e outros. Mas o surrealismo não se relacionou somente com o trotskismo: teve também vínculos com o anarquismo, em particular nos anos 1950, e chegou a se aproximar de Cuba revolucionária nos anos 1960. Suas simpatias vão a todo movimento autenticamente revolucionário.
IHU On-Line – Quais são os desafios da autoemancipação do proletariado numa sociedade “enfeitiçada” pelo consumo e, por conseguinte, por um trabalho que proporciona a alimentação dessa maquinaria capitalista?
Michael Löwy – O feitiço do consumo e o fetichismo da mercadoria exercem um poder considerável sobre a população, mas em certos momentos decisivos o feitiço se rompe, a magia negra do capitalismo deixa de funcionar e os proletários, a juventude, os oprimidos, se levantam contra o sistema. A história da América Latina das últimas décadas é uma ótima ilustração disso.
IHU On-Line – O filósofo como cabeça e o proletariado como coração da revolução. Até que ponto essa ideia de Marx inspira a esquerda do nosso tempo?
Michael Löwy – Essa ideia, de corte tipicamente neo-hegeliano, foi defendida por Marx no começo de 1844. Mas pouco depois, impactado pelo levante dos tecedores da Silésia (norte da Alemanha), de junho de 1844, ele descobre que o proletariado alemão é “filosófico”, não precisa esperar pelos neo-hegelianos para se sublevar. Ainda hoje, encontramos na esquerda essa visão idealista, neo-hegeliana, que faz do filósofo, ou da vanguarda, ou do partido, a “cabeça” da revolução. A revolução é um belo monstro com mil cabeças.
IHU On-Line – Qual é o significado dos movimentos dos indignados e da primavera árabe? Seriam sopros de uma nova política?
Michael Löwy – A Primavera Árabe foi um magnífico levante da juventude árabe contra ditaduras sanguinárias e anacrônicas. Infelizmente, a vitória dos revolucionários foi confiscada – provisoriamente, esperamos – por forças islamistas conservadoras.
No caso do Movimento dos Indignados, trata-se de outro contexto: a crise do capitalismo na Europa e Estados Unidos, com consequências dramáticas para a população: desemprego, arrocho salarial, redução das pensões, perda de domicílios, etc. Tendo à sua cabeça a juventude, este movimento traz reivindicações antineoliberais, democráticas, igualitárias, muitas vezes anticapitalistas. Seu denominador comum é a indignação, um sentimento essencial, ponto de partida necessário de toda luta e toda transformação social. Sem indignação não se faz nada de grande e de radical.
IHU On-Line – Quais são os principais limites do pensamento marxista? O que explica que o marxismo seja visto por muitos setores da academia como retrógrado?
Michael Löwy – O marxismo é um pensamento em movimento, que trata de superar os limites que estão presentes na própria obra de Marx Engels: por exemplo, um tratamento muito insuficiente da questão ecológica. Alguns setores da academia confundem o marxismo com sua caricatura retrógrada, a ideologia do assim chamado “socialismo real”. Outros, identificados com a ideologia dominante, pretendem que o desenvolvimento capitalista represente o “progresso”, sendo o marxismo “arcaico”, por se opor à expansão do mercado e à acumulação do capital.
Penso que tinha razão Jean Paul-Sartre ao dizer que o marxismo é o horizonte intelectual de nossa época; as tentativas de “superá-lo” – pós-modernidade, pós-marxismo, etc. – acabam sendo regressões políticas e culturais. Como já diziam Rosa LuxemburgoLukács Gramsci, quando a humanidade suprimir o capitalismo, o marxismo poderá ser substituído por novas formas de pensamento...
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Conferência "Do marxismo ao pós-marxismo" com Göran Therborn


O sociólogo sueco Göran Therborn vem ao Brasil a convite da Boitempo para o lançamento do livro "Do marxismo ao pós-marxismo?". Serão três dias de eventos nas capitais de São Paulo, Rio Grande do Sul e Pará: no dia 10/04, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) recebe Therborn no Teatro TUCARENA; no dia 11/04 é a vez da Câmara Municipal de Porto Alegre; e no dia 13/04, o autor se apresenta na Universidade Federal do Pará (UFPA).

Todos os eventos são gratuitos e não há necessidade de inscrição prévia. A programação completa é a seguinte:

10/04 | Terça-feira | 19h30 - São Paulo (SP)
Teatro TUCARENA (PUC-SP)
Rua Ministro Godói, 969 – Perdizes – (11) 3670-8453

Realização: APROPUC, Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP e Boitempo Editorial.

Apoio: PUC-SP e Teatro TUCA.


11/04 | Quarta-feira | 19h - Porto Alegre (RS)
Plenário Otávio Rocha da Câmara Municipal de Porto Alegre
Avenida Loureiro da Silva, 255 – Centro – (51) 3220-4187

Realização: Câmara Municipal de Porto Alegre, Escola do Legislativo Julieta Battistoli, Comissão de Educação, Cultura, Esportes e Juventude (CECE), Seção de Memorial, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS, Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS e Boitempo Editorial.

Apoio: Hotel Everest, Sindicato dos Professores do Ensino Privado do RS e Sindicato Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul.


13/04 | Sexta-feira | 17h - Belém (PA)
Auditório José Vicente Miranda Filho do Instituto de Ciências Jurídicas - ICJ da Universidade Federal do Pará (UFPA) - (91) 3201-7211

Realização: Universidade Federal do Pará (UFPA), Pró-Reitoria de Relações Internacionais (PROINTER), Editora UFPA e Boitempo Editorial 


Sobre a obra
Planejado como um mapa e uma bússola, "Do marxismo ao pós-marxismo?", do sociólogo sueco Göran Therborn, é uma tentativa de entender as mudanças sociais e intelectuais entre os séculos XX e XXI. Não tem a pretensão de ser uma história das ideias, mas apresenta propósitos bem claros: situar os espaços de pensamento e as práticas da esquerda; analisar a trajetória do marxismo no século XX; antecipar seu legado para o pensamento radical no século XXI.

Radicado em Cambridge, Therborn é conhecido pela desenvoltura com temas diversos, que vão do alto nível de especialização exigido pelas estatísticas demográficas até os desdobramentos contemporâneos do pensamento crítico.

“Estamos diante de um sociólogo vocacionado para a pesquisa conceitual, mas que não renuncia ao diálogo com os dados empíricos”, afirma Ruy Braga ao distinguir Therborn de outros teóricos sociais.“Num ambiente universitário cada dia mais especializado, este livro relembra-nos uma antiga lição do marxismo clássico: o contato com audiências extra-acadêmicas enriquece o pensamento crítico.”

Aqueles que conhecem o sociólogo apenas por "Sexo e poder", seu memorável estudo das transformações da instituição familiar no século XX, possivelmente se surpreenderão com Do marxismo ao pós-marxismo?, publicado pela primeira vez em português pela Boitempo.

A pergunta que norteia este livro conciso e panorâmico é: o marxismo ainda é relevante? Para Therborn, o marxismo pode ter um futuro incerto, mas sua principal fonte ainda tem muito a oferecer para a nossa época: “É bastante provável que Marx seja redescoberto muitas vezes no futuro; novas interpretações serão feitas e novas inspirações serão encontradas – embora pouco propícias a identificações ismo-ista. (...) a impressão que tenho é que ele está amadurecendo, como um bom queijo ou um vinho de safra – não recomendável para festas dionisíacas ou pequenos goles na frente de batalha. Ele é, de preferência, uma companhia estimulante para o pensamento profundo sobre os significados da modernidade e da emancipação humana”, afirma o autor, para quem a história da filosofia tende a produzir sempre novas técnicas de leitura.

Estimulante para o especialista e acessível ao público em geral, o livro assume uma visão planetária que observa a economia global, faz o balanço dos sucessos da "esquerda" no século XX e lamenta o que o autor chama de "a guerra de Bush contra o mundo". Depois de apresentar uma breve história do marxismo no século XX, o terceiro e talvez mais impressionante ensaio analisa o espectro de intelectuais de esquerda na virada do século XXI, abordando Habermas, Derrida, Hardt e Negri, entre outros. Suas observações afiadas alcançam as mais recentes tendências da filosofia contemporânea, como a retomada teológica da crença defendida por Alain Badiou e Slavoj Žižek e o utopismo de Fredric Jameson e David Harvey.

Em uma declaração provocativa, Therborn diz que a esquerda precisa redescobrir um senso de diversão e prazer. “O compromisso da esquerda com o trabalho, com os direitos humanos socialmente significativos e com a não violência deveria cogitar também uma sociedade universal de prazer e diversão. A alegria sensual tem sido uma das contribuições brasileiras mais importantes aos Fóruns Sociais Mundiais e à possibilidade de um mundo diferente.”

Sobre o autor
Nascido em 1941 em Kalmar, na Suécia, Göran Therborn é Ph.D. em Sociologia pela Universidade de Lund (Suécia) e, desde 2006, professor-emérito (atualmente aposentado) e diretor de pesquisa na Universidade de Cambridge. Nos anos 1970 e 1980, publicou uma série de obras teóricas marxistas, mas desde o início da década de 1990 seu trabalho foca-se principalmente nos estudos sobre modernidades comparadas, sociedade europeia e processos globais. "Do marxismo ao pós-marxismo?" (Boitempo) é uma retomada dos estudos desenvolvidos nas décadas anteriores.

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Amizade em tempos virtuais



Autor: Angel Boligan

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A Europa está a implodir?



Immanuel Wallerstein

A Europa teve os seus opositores desde o início da longa senda para a unificação. Houve muitos que a acharam impossível. E houve muitos que a consideraram indesejável. Ainda assim, temos de dizer que, no longo e sinuoso caminho que seguiu desde 1945, o projecto de unificação europeia teve um notável sucesso.
Afinal, a Europa fora dilacerada por conflitos nacionalistas durante pelo menos 500 anos, conflitos que culminaram na horrenda Segunda Guerra Mundial. E a vingança parecia ser o sentimento dominante. Em 2010, o que hoje se chama União Europeia (UE) alberga uma moeda única, o euro, usada em 16 países. Tem também uma zona de 25 membros, chamada Schengen, que permite uma forma de livre circulação, sem vistos. Tem uma burocracia central, um tribunal de direitos humanos, e está a caminho de ter um presidente e um ministro de Negócios Estrangeiros.
Não se deveria exagerar a força destas estruturas, mas não se deveria também subestimar até que ponto tudo isto representou, para o bem ou para o mal, a superação da resistência nacionalista por toda a Europa, especialmente em alguns dos estados mais fortes. Contudo, também acontece que neste momento, em certos aspectos importantes, a Europa parece estar a implodir. As palavras-chave desta implosão são "Grécia" e "Bélgica".
A Grécia, como todo o mundo sabe, está a atravessar uma crise severa da sua dívida soberana. A Moody declarou que os títulos gregos estatais são lixo (junk bonds). O primeiro-ministro George Papandreou disse, muito relutantemente, que teria provavelmente de virar-se para o Fundo Monetário Internacional (FMI) para obter um empréstimo, um empréstimo que implica as habituais condições que exigem formas específicas de reestruturação neoliberal. Esta ideia é muito impopular na Grécia - um ataque à soberania grega, ao orgulho grego, e especialmente aos bolsos gregos. Também foi acolhida com desânimo em muitos estados europeus, que consideram que a ajuda à Grécia deveria provir, em primeiro lugar, dos outros membros da UE.
A explicação deste cenário é bastante simples. A Grécia tem um grande défice orçamental. Como o país é parte da zona euro, não pode desvalorizar a moeda para aliviar o problema. Por isso, precisa de ajuda financeira. O país maior e mais rico da Europa, a Alemanha, tem sido muito relutante, para não dizer pior, a dar essa ajuda. O povo alemão opõe-se fortemente a ajudar a Grécia, basicamente por um reflexo proteccionista num momento de tensão europeia. Temem também que a Grécia seja o primeiro de uma fila de outros (Portugal, Espanha, Irlanda, e Itália) que façam pedidos semelhantes se a Grécia obtiver essa ajuda.
O povo alemão parece desejar que todos os problemas desapareçam, ou pelo menos que a Grécia de alguma forma seja expulsa da zona euro. Para além do facto de isto ser legalmente impossível, o país que mais sofreria as consequências disto, a seguir à Grécia, seria certamente a Alemanha, cuja riqueza económica é amplamente baseada no forte mercado exportador que possui no interior da zona euro. Assim, de momento, parecemos estar num impasse. E os abutres do mercado estão a pairar sobre os países da zona euro que estão em dificuldades com a sua dívida soberana.
No meio disto, a agora perene crise belga voltou a manifestar-se de forma particularmente aguda. A Bélgica, como país, chegou à existência como resultado de políticas pan-europeias. O colapso do império Habsburgo de Carlos V resultou na partição dos chamados Países Baixos da Borgonha nas Províncias Unidas no Norte e nos Países Baixos Austríacos no Sul. As Guerras Napoleónicas levaram a que as duas partes se unissem de novo no restaurado Reino dos Países Baixos. E os conflitos europeus de 1830 levaram mais uma vez à divisão das duas partes, com a criação da Bélgica, mais ou menos no que outrora tinham sido os Países Baixos Austríacos, com um rei importado de fora.
A Bélgica sempre foi um composto de "Flamengos" de fala holandesa e de "Valões" de língua francesa, em grande parte, mas imperfeitamente localizados em dois diferentes sectores geográficos (o norte e o sul da Bélgica). Há também uma pequena zona de fala alemã.
Até 1945, os valões eram os mais ricos e educados, e controlavam as principais instituições do país. O nacionalismo flamengo nasceu como a voz dos desfavorecidos lutando pelos seus direitos políticos, económicos e linguísticos. Depois de 1945, a economia belga sofreu uma mudança estrutural. As áreas dos valões perderam e as áreas flamengas ganharam força. A política belga, em consequência, tornou-se uma luta infindável dos flamengos para obter mais direitos políticos - devolução de poderes, com muitos tendo o objectivo final de dissolver a Bélgica em dois países.
Pouco a pouco, os flamengos foram obtendo mais e mais. Hoje, a Bélgica, como país, tem uma monarquia comum, um ministro dos negócios estrangeiros comum, e muito pouco mais. A questão problemática neste acordo é que a Bélgica é hoje um estado confederal, com três, não duas, regiões - Flandres, Valónia, e Bruxelas (a capital).
Bruxelas não é só a capital da Bélgica. É a capital da Europa, a sede da Comissão Europeia. Bruxelas é também uma cidade muito bilingue. E os flamengos insistem em torná-la menos. O problema é que, mesmo que houvesse um acordo para a dissolução da Bélgica, não haveria uma forma fácil de chegar a acordo sobre o destino de Bruxelas.
A última negociação foi tão intratável que o Le Soir, o principal jornal de língua francesa, proclamou que "A Bélgica morreu em 22 de Abril de 2010". O principal editorialista perguntou: "Este país ainda faz sentido?" De momento, o rei está a tentar, talvez em vão, recriar o governo. Pode ser forçado a convocar novas eleições, sem muitas esperanças de que estas produzam um parlamento realmente diferente. Em 1 de Julho, a Bélgica assume a presidência rotativa, de seis meses, da UE, e não é certo que haja um primeiro-ministro belga que a presida.
O problema grego é o problema da propagação. Não haverá uma réplica das dificuldades - será que isso não está já a acontecer - noutros países da Europa? Será que o euro pode sobreviver? O problema belga apresenta contudo, um ainda maior problema de propagação. Se a Bélgica se divide, e ambas as partes serão então membros da UE, não haverá outros estados a pensar em dividir-se? Afinal, existem importantes movimentos secessionistas ou quase secessionistas em muitos países da UE. A crise belga pode facilmente tornar-se a crise da Europa.
Das duas ameaças de implosão, aquela simbolizada pela Grécia é a mais fácil de resolver. Basicamente, é necessário que a Alemanha compreenda que as suas necessidades são melhor preenchidas pelo proteccionismo europeu que pelo proteccionismo alemão.
A crise belga coloca uma questão muito mais fundamental. Se a Europa estivesse disposta, imediatamente, a avançar para um verdadeiro estado federal, poderia acomodar a explosão de qualquer dos seus estados existentes. Mas, até agora, não se mostrou disposta a isso. E as dificuldades económicas mundiais colectivas reforçaram em muito os estreitos elementos nacionalistas em virtualmente cada país europeu, como demonstraram todas as recentes eleições. Sem uma forte federação europeia, seria extremamente difícil que a Europa sobrevivesse a uma corrente de divisões. No meio da destruição política, a Europa poderia ir pelo cano abaixo.
Há uma certa Schadenfreude (alegria mordaz) entre os políticos americanos acerca das dificuldades europeias. Porém, o que pode salvar a Europa da implosão é precisamente a sempre crescente ameaça de implosão dos Estados Unidos. A Europa e os Estados Unidos estão numa gangorra, na qual enquanto um sobe, o outro desce. Que resultado isto vai ter nos próximos dois a cinco anos é tudo menos claro.
Tradução de Luis Leiria, revista pelo autor
Fonte: Esquerda.Net

O Clássico Classe Média



Lelê Teles

O Clássico Classe Média tem os olhos voltados para a Europa e para o Esteites. E fecha os olhos e os ouvidos para os parentes pobres no Brasil. Parente pobre todo mundo tem, mas o Clássico Classe Média tem horror a eles. A empregada doméstica é o único contato que tem com os pobres, embora com ela não tenha contato nenhum, a não ser quando o adolescente resolve encochá-la na cozinha, exatamente como se fazia na Casa Grande.
A empregada usa o elevador de serviço e dorme no único quarto do apartamento que não tem janela. O quarto da empregada, sonho de consumo da Classe Média, fica dentro da cozinha e foi projetado para que ela não circule pela casa entre uma tarefa e outra e morra sufocada pela fumaça.
O Clássico Classe Média prefere uma empregada analfabeta e desdentada, para ele poder rir da forma como ela fala e assim se desculpar pelas próprias escorregadas que dá por não compreender muito bem todas as regras que aprende em cursinhos para se sentir superior ao falar a língua morta e artificial das gramáticas normativas. Aliás, o Clássico Classe Média tem que aprender as normas da gramática, assim ele pode desdenhar de quem escreve um texto que ele não consegue compreender o contexto, mas consegue identificar um erro de concordância, que como se sabe é coisa de gente cafona, grosseira e analfabeta.
Embora tenha TV por assinatura, o Clássico Classe Média assiste à mesma programação que a sua empregada vê no quartinho sem janela. E quando assiste a algo engraçado que ele quer contar para o amigo, ele diz que passou pelo quarto da empregada e viu tal coisa na TV. O Programa do Ratinho, por exemplo, passava em horário nobre, horário caro como se sabe, e os comerciais, caros, vendiam para a Classe Média, mas todo Classe Média, quando ia contar uma piada que viu no Ratinho (“aquele programa ridículo do SBT”), dizia ter visto na TV da empregada ou quando zapeava sem pretensões. No fundo, tem complexo de si mesmo.
O Classe Média precisa de uma TV de Plasma ou de LCD para mostrar pros amigos, e quanto maior a polegada maior o falo e a fala dele. A TV de 14″ (o pequeno 14) ficou para o porteiro. Mas embora ache que a TV de 72″ seja a grande conquista do homem moderno e que TVzinha é coisa de porteiro, o Classe Média paradoxalmente compra um celular porque este vem com uma tela de 3″, onde ele se esforça para mostrar para os outros que está conseguindo assistir alguma coisa.
Mas, paradoxo do paradoxo dessa vida essencialmente paradoxal, embora tenha o empregado doméstico como um vassalo sem valor, o Clássico Classe Média paga escolas caras para o filho e depois o manda para a Europa para cuidar de casa alheia, lavar copos ou lavar cachorro, e sente orgulho do filhão.

Pescado em Amalgama

Os trastes de Brasília e o suicídio altruísta de Durkheim


Luciano Oliveira


Depois das esdrúxulas imagens dos corruptos de Brasília escondendo dinheiro nas meias e cuecas, e da surrealista oração conjunta de três desses cafajestes agradecendo a Deus a existência de um deles, a minha impressão é a de que não adianta esperar que cheguemos ao fundo do poço; que esse poço não tem fundo; que, portanto, qualquer indignação não tem mais sentido; e que, finalmente, para que os políticos brasileiros tomem jeito, é preciso romper a lengalenga das conclamações por “rigorosas punições” para esses trastes - porque todos no país, eles em primeiro lugar, sabem que elas não virão. Que fazer então? Como dizia uma marchinha de carnaval dos anos 50 - “pensar / professor / pensar...”

Pois bem, comecei a fazê-lo. Sabiam os senhores que em outras plagas - nos Estados Unidos, na França e mais recentemente até na Coréia do Sul - acontece vez por outra de um corrupto suicidar-se? Foi por aí que o meu pensamento começou a desenvolver uma reflexão que não sei se classifico no departamento da chanchada ou do drama. O leitor que decida! Os fatos, em primeiro lugar.

Fato nº 1: em 1988, na Pensilvânia, Budd Dwyer, ex-secretário da fazenda daquele estado americano, na véspera de ouvir a sentença judicial num processo de corrupção em que estava enrolado, convocou a imprensa e, na frente das câmeras de televisão, jurou inocência, sacou rapidamente um revolver, enfiou na boca e estourou os miolos.

Fato nº 2: em 1993, na França, num feriado de primeiro de maio, o ex-primeiro-ministro do segundo governo Mitterrand, um desconhecido entre nós chamado Pierre Bérégovoy (pronuncia-se “bêrrêgôvuá”), meteu também uma bala na cabeça por análogas razões: metido em acusações de corrupção, tinha sido duramente atacado pelos oposicionistas e sentia-se pessoalmente responsável pela fragorosa derrota do Partido Socialista nas eleições legislativas daquele ano.

Fato nº 3: em junho deste ano, na Coréia do Sul, um certo Roh Moo-hyun (não sei como se pronuncia), ex-primeiro-ministro daquele país, depois de admitir publicamente ter recebido seis milhões de dólares de uma fabricante de tênis, não conseguiu conviver com a vergonha: pulou de uma ribanceira de 30 metros e morreu. Como fatos, basta. Vamos agora à teoria.

Não sei se o leitor já ouviu falar em Durkheim. Um dos pais da sociologia, ele é autor de um livro instigante, O Suicídio, onde tenta demonstrar a tese de que esse gesto extremo, o mais pessoal que possa haver, também está submetido a determinações sociológicas. Pois bem. Para Durkheim, a auto-imolação de pessoas como Dwyer, Bérégovoy e Moo-hyun entraria na categoria do “suicídio altruísta”, porque eles estariam de tal forma identificados com os valores socialmente aceitos, que não suportariam conviver com a acusação de tê-los infringido. Nesse caso, a inexistência de suicídios desse tipo na sociedade brasileira indicaria a ausência de valores cívicos suficientemente fortes para serem levados a sério.

É nesse sentido que precisamos de uma ruptura, um gesto heróico que seja, e que se torne um marco. Como sou contra a pena de morte, comecei a delirar com a possibilidade de um desses corruptos se matar! Seria um choque, sem dúvida. E indicador de uma mudança cultural da maior importância. O sujeito poderia entrar para a história como um dos vultos importantes do Brasil! Infelizmente não acredito que nenhum deles tope a proposta. Para isso, seria necessário que dessem alguma importância a valores que justamente não têm... Como romper esse nó? Socorra-me, Robespierre!

Depois de ter escrito isso, fiquei pensando na hipótese, altamente improvável, é verdade, de um suicídio altruísta ocorrer na “mundiça” do governo do Distrito Federal. E agora? Será que eu poderia ser criminalmente processado? Remoto bacharel em direito que sou, lembrei-me de que no Código Penal tem um delito de “induzimento ou instigação” ao suicídio. Consultei meus advogados e eles me confirmaram. A pena não é tão horrível assim: de 2 a 6 anos de reclusão. Mas mesmo assim... É verdade que tem um dispositivo que vem em meu socorro: segundo o artigo 65 do mesmo Código, se o crime é cometido em razão de “relevante valor social ou moral”, a pena é reduzida. Nesse caso, com sorte, posso pegar uns 4 anos no máximo, e aí eu poderia me beneficiar das chamadas penas alternativas, que evitam que o sujeito vá parar na cadeia. Um juiz compreensivo poderia me condenar a prestar serviços comunitários. Como sou professor, poderia ser condenado a fazer conferências pelo Brasil relatando minha história... O que acha, leitor? Topo?



Luciano Oliveira é professor da Universidade Federal de Pernambuco.


Pescado na Carta Maior

Sociólogos de SP protestam contra prêmio à FHC

Ainda que com algum atraso, publico o protesto feito pelo Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo a autorga do Prêmio Florestan Fernandes, durante a abertura do XIV Congresso Brasileiro de Sociologia, ao ex-presidente FHC, aquele mesmo que pediu para esquecerem o que ele havia escrito.

Sinsesp protesta contra

Outorga de prêmio à FHC

O Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Sinsesp) vem à público manifestar seu mais profundo desagravo à premiação do ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, pela Sociedade Brasileira de Sociologia, com a entrega do Prêmio Florestan Fernandes, durante a abertura do XIV Congresso Brasileiro de Sociologia, realizado entre os dias 28 e 31 de julho na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O Prêmio Florestan Fernandes, instituído no XI Congresso Brasileiro de Sociologia, em 2003, tem o objetivo de homenagear sociólogos que, por seu empenho na produção do conhecimento e liderança institucional, são marcos de referência na história da disciplina no Brasil.

Um dos agraciados com a premiação, o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, relegou, em anos recentes, o ensino de Sociologia. Há, portanto, o sentimento de que a premiação reflete o desacordo da atual gestão da Sociedade Brasileira de Sociologia com o tempo histórico.

Ao longo da história da SBS, inúmeros intelectuais e sociólogos que contribuíram de forma expressiva para o progresso das Ciências Sociais no Brasil, já receberam o prêmio “Florestan Fernandes” como Manuel Correia de Andrade, Heraldo Pessoa Souto Maior, Octávio Ianni, Neuma Aguiar, José de Souza Martins, Juarez Rubens Brandão Lopes, Wilma de Mendonça Figueiredo, Francisco de Oliveira, Silke Weber, entre outros. Reconhecimento mais que merecido.


Em 8 de outubro de 2001, o sociólogo e presidente Fernando Henrique Cardoso vetou um a lei que incluía as disciplinas Filosofia e Sociologia como disciplinas obrigatórias no currículo das escolas de Ensino Médio no país, o que beneficiaria cerca de dez milhões de jovens. Em 1997, já havia sido apresentado e aprovado na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei (PL 3.178/97), que alterava a LDB incluindo Filosofia e Sociologia como disciplinas obrigatórias. Quando enviado à sanção presidencial, porém, o projeto foi vetado integralmente por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que agora foi homenageado pela SBS.

O Sinsesp, cumprindo uma exigência histórica, engajou-se na luta pela redemocratização e pela inclusão de Sociologia no currículo escolar desde sua fundação em 1982. Quando do veto em 2001, este foi considerado por intelectuais e lideres políticos, como bastante grave para a credibilidade da Sociologia e dos Sociólogos, perante a opinião publica. Nesse sentido, o Sinsesp considera a outorga do prêmio ao ex-presidente e sociólogo um ultraje à memória de Florestan Fernandes e a própria história da entidade científica (SBS), sucessora da Sociedade de Sociologia de São Paulo e que sempre foi nossa parceira nessa luta nacional.

Em principio, tal gesto parece representar uma expressão intolerável de reabilitação de um sociólogo que brindou a sociedade brasileira com o famoso - esqueçam o que escrevi-. Não se trata aqui de preconceito e de intolerância, mas de conformação com valores que modelam o espírito critico do mestre Florestan Fernandes. Torna-se bastante pertinente refletir que a disputa de ideias e espaços devem servir não a aceitação social e reabilitação da velha ordem neoliberal, mas ás transformações sociais alcançadas pela sociedade brasileira no atual momento, com o reconhecimento, inclusive, da Sociologia no Ensino Médio.


Entendemos que a comunidade científica e os sociólogos em particular, devem repudiar a posição e o gesto da Sociedade Brasileira de Sociologia. Nesse sentido, o Sinsesp encaminha esta nota à SBS em nome dos sociólogos paulistas e a outras sociedades científicas, mencionando a nossa manifestação de repúdio ao homem político insensível que renegou a Sociologia ao
qualificar, na época, o projeto de Sociologia no Ensino Médio como "contrário ao interesse público.

São Paulo, 5 de agosto de 2009.

Lejeune Mato Grosso Xavier de Carvalho

Presidente do Sinsesp e em nome da Diretoria do Sinsesp