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Os 'blacksurdos' de todo lugar: sintomas do nosso tempo


Por Flávio Aguiar

Há dois complexos esquizos que polarizam a vida cultural brasileira.
De um lado, temos o "complexo de galinheiro", ou seja, no grande e exótico zoológico mundial, onde pontificam as feras extraordinárias, águias imperialistas, leões colonialistas, ursos alpinos e albinos, tigres asiáticos, touros ibéricos, unicórnios gauleses, impérios do sol nascente, gigantes comunistas convertidos à azia capitalista etc., nós, brasileiros, seríamos um "puxadinho" onde habitam galinhas poedeiras e galinhos garnizés. Este é mantido pela mídia conservadora.
Do outro, o "complexo de império": somos autossuficientes, nos explicamos por nós mesmos, as tendências internacionais se afogam no Atlântico, somos uma autogestão de tendências políticas. Mais lacônico, mas não menos complexo do que o outro. Este também é mantido pela velha mídia. E por vezes pela alternativa também.
O Brasil não foge às tendências mundiais. Pode segui-las retardariamente, ao compasso, ou pode até antecipá-las. Mas segue plugado, desde sempre, no capitalismo internacional de onde não arredará um passo. Pelas próximas décadas, pelo menos.

Noam Chomsky: Ocupemos o futuro

  Noam Chomsky, Boston, 22 de Outubro de 2011 - Foto de Occupy Boston no facebook


Por Noam Chomsky


Dar uma conferência Howard Zinn é uma experiência agridoce para mim. Lamento que ele não esteja aqui para tomar parte e revigorar um movimento que foi o sonho de sua vida. Com efeito, ele pôs boa parte de seus ensinamentos nisso.

Se os laços e associações que se estão estabelecendo nesses acontecimentos notáveis puderem se sustentar durante o longo e difícil período que os espera – a vitória nunca chega logo -, os protestos do Ocupar Wall Street poderão representar um momento significativo na história estadunidense.

Nunca tinha se visto nada como o movimento Ocupa Wall Street, nem em tamanho nem em caráter. Nem aqui nem em parte alguma do mundo. As vanguardas do movimento estão tratando de criar comunidades cooperativas que bem poderiam ser a base de organizações permanentes, de que se necessita para superar os obstáculos vindouros e a reação contra o que já está se produzindo.

Que o movimento Ocupem não tenha precedentes é algo que parece apropriado, pois esta é uma era sem precedentes, não só nestes momentos, mas desde os anos 70.

Os anos 70 foram uma época decisiva para os Estados Unidos. Desde a sua origem este país teve uma sociedade em desenvolvimento, não sempre no melhor sentido, mas com um avanço geral em direção da industrialização e da riqueza.

Mesmo em períodos mais sombrios, a expectativa era que o progresso teria de continuar. Eu tenho idade o suficiente para recordar da Grande Depressão. De meados dos anos 30, quando a situação objetivamente era muito mais dura que hoje, e o espírito bastante diferente. 

Estava-se organizando um movimento de trabalhadores militantes – com o Congresso de Organizações Industriais (CIO) e outros – e os trabalhadores organizavam greves e operações padrão a ponto de quase tomarem as fábricas e as comandarem por si mesmos.

Devido às pressões populares foi aprovada a legislação do New Deal. A sensação que prevalecia era que sairíamos daqueles tempos difíceis.

Agora há uma sensação de desesperança e às vezes desespero. Isto é algo bastante novo em nossa história. Nos anos 30, os trabalhadores poderiam prever que os empregos iriam voltar. Agora, os trabalhadores da indústria, com um desemprego praticamente no mesmo nível que durante a Grande Depressão, sabem que, se as políticas atuais persistirem, esses empregos terão desaparecido para sempre. 

Essa mudança na perspectiva estadunidense evoluiu a partir dos anos 70. Numa mudança de direção, vários séculos de industrialização converteram-se numa desindustrialização. Claro, a manufatura seguiu, mas no exterior; algo muito lucrativo para as empresas mas nocivo para a força de trabalho.

A economia centrou-se nas finanças. As instituições financeiras se expandiram enormemente. Acelerou-se o círculo vicioso entre finanças e política. A riqueza passou a se concentrar cada vez mais no setor financeiro. Os políticos, confrontados com os altos custos das campanhas eleitorais, afundaram profundamente nos bolsos de quem os apoia com dinheiro.

E, por sua vez, os políticos os favoreciam, com políticas favoráveis a Wall Street: desregulação, transferências fiscais, relaxamento das regras da administração corporativas, o que intensificou o círculo vicioso. O colapso era inevitável. Em 2008, o governo mais uma vez resgatou as empresas de Wall Street que eram supostamente grande demais para quebrarem, com dirigentes grandes demais para serem encarcerados.

Agora, para 10% de 1% da população que mais se beneficiou das políticas recentes ao longo de todos esses anos de cobiça e enganação, tudo vai muito bem.

Em 2005, o Citigroup – que certamente foi objeto em ocasiões repetidas de resgates do governo – viu o luxo como uma oportunidade de crescimento. O banco distribuiu um folheto para investidores no qual os convidava a investirem seu dinheiro em algo chamado de índice de plutonomia, que identificava as ações das companhias que atendessem ao mercado de luxo.

Líderes religiosos, principalmente da comunidade de negros, cruzaram a ponte do Brooklyn no último domingo com lonas e tendas para entregá-las aos membros do movimento Ocupar Wall Street que estão acampados no coração econômico da cidade de Nova York.

O mundo está dividido em dois blocos: a plutocracia e o resto, resumiu. Estados Unidos, Grã Bretanha e Canadá são as plutocracias-chave: as economias impulsionadas pelo luxo. 

Quanto aos não ricos, às vezes se lhe chamam de precariado: o proletariado que leva uma existência precária na periferia da sociedade. Essa periferia, no entando, converteu-se numa proporção substancial da população dos Estados Unidos e de outros países. 

Assim, temos a plutocracia e o precariado: o 1% e os 99%, como se vê no movimento Ocupem. Não são cifras literais mas sim, é a imagem exata.

A mudança história na confiança popular no futuro é um reflexo de tendências que poderão ser irreversíveis. Os protestos do movimento Ocupem são a primeira reação popular importante que poderão mudar essa dinâmica. 

Eu me detive nos assuntos internos. Mas há dois acontecimentos perigosos na arena internacional que ofuscam todos os demais.

Pela primeira vez na história há ameaças reais à sobrevivência da espécie humana. Desde 1945 temos armas nucleares e parece um milagre que tenhamos sobrevivido. Mas as políticas do governo Barack Obama estão fomentando uma escalada. 

A outra ameaça, claro, é a catástrofe ambiental. Por fim, praticamente todos os países do mundo estão tomando medidas para fazer algo a respeito. Mas os Estados Unidos estão regredindo.

Um sistema de propaganda reconhecido abertamente pela comunidade empresarial declara que a mudança climática é um engano dos setores liberais. Por que teríamos de dar atenção a esses cientistas?

Se essa intransigência no país mais rico do mundo continuar, não poderemos evitar a catástrofe.

Deve fazer-se algo, de uma maneira disciplinada e sustentável. E logo. Não será fácil avançar. É inevitável que haja dificuldades e fracassos. Mas a menos que o processo estão ocorrendo aqui e em outras partes do país e de todo o mundo continue crescendo e se converta numa força importante da sociedade e da política, as possibilidades de um futuro decente são exíguas.

Não se pode lançar iniciativas significativas sem uma ampla e ativa base popular. É necessário sair por todo o país e fazer as pessoas entenderem do que se trata o movimento Ocupar Wall Street, o que cada um pode fazer e que consequências teria não fazer nada.

Organizar uma base assim implica educação e ativismo. Educar as pessoas não significa dizer em que acreditar; significa aprender dela e com ela.

Karl Marx disse: a tarefa não é somente entender o mundo, mas transformá-lo. Uma variante que convém ter em conta é que, se queremos com mais força mudar o mundo, vamos entendê-lo. Isso não significa escutar uma palestra ou ler um livro, embora essas coisas às vezes ajudem. Aprende-se a participar. Aprende-se com os demais. Aprende-se com as pessoas com quem se quer organizar. Todos temos de alcançar conhecimentos e experiências para formular e implementar ideias. 

O aspecto mais digno de entusiasmo do movimento Ocupar Wall Street é a construção de vínculos que estão se formando em toda parte. Esses laços podem se manter e expandir, e o movimento poderá dedicar-se a campanhas destinadas a porem a sociedade numa trajetória mais humana. 

(*) Este artigo é uma adaptação de uma fala de Noam Chomsky no acampamento Occupy Boston, na praça Dewey, em 22 de outubro. Ele falou numa atividade de uma série de Conferências em Memória de Howard Zinn, celebrada pela Universidade Livre do Ocupar Boston. Zinn foi historiador, ativista e autor de A People’s History of the United States.)





Artigo publicado no jornal mexicano La Jornada, tradução de Katarina Peixoto para Carta Maior
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Como uma música do The Clash





Os distúrbios e o desencanto em Londres trazem a memória da consciência social do "punk" da banda britânica

Por Fernando Navarro

É um pouco paradoxal: o governo britânico tinha escolhido há poucos dias London Calling como a canção oficial da campanha para as Olimpíadas em 2012. Não tinha nada a ver aquela música de punk rock na pompa do maior evento esportivo (e comercial) do mundo. Hoje, as imagens da capital britânica no fogo que revestem as páginas dos jornais e imagens de televisão. Como que escapando de uma camisa de força, a música tomou sobre si todo o seu sentido original na rua, onde a raiva e desencanto social se transformou em violência e agitação.

Certamente, muitos dos jovens encapuzados que saqueiam e assaltam lojas em Londres e outras cidades não tenham nunca ouvido falar do The Clash, embora seja difícil imaginar que eles não receberam qualquer ressonância de London Calling, um dos discos mais lembrados por músicos de todas os gêneros e aparece regularmente nas listas de "os melhores de ...". E contudo, de alguma maneira, é como se os textos Joe Strummer ganhassem vida mais de 30 anos após London Calling do The Clash exaltar não apenas um grupo com um radar musical deslumbrante, mas também como uma referência ideológica. Se os Sex Pistols eram provocantes, acima de tudo, Strummer, Mick Jones e companhia deram a do punk maturidade e consciência social. Seu niilismo aparente sabia o peso da realidade e da história, suas letras estavam olhando para a ação em uma sociedade britânica atolada na depressão econômica.



"Londres chamando as cidades distantes / Agora aquela guerra está declarada e a batalha começa./ Londres chamando para o inferno / Saia do armário todos os garotos e garotas" Com suas guitarras cortantes, assim começa a letra de London Calling, que muitos na internet queriam fazer o hino oficial dos protestos. Neste álbum duplo, quase todas as composições engajadas para a indignação com estas revoltas na Grã-Bretanha. Hateful , Guns of Brixton , Death or Glory ou Train in Vain são o som do desencanto irritado. E, de fato, a paisagem de 1979 se parece muito com 2011.

Embora tenhamos a tendência de dizer que o punk britânico, com o Pistols e The Clash encabeçando, nasceu em resposta ao conservadorismo de Margaret Thatcher, convém recordar que o brutal Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols surgiu em 1977 e que o The Clash já tinha três trabalhos anteriores nas costas (com músicas tão polêmicas e escandalosas para o "pensamento de bem" como White Riot e Tommy Gun ) antes que a "Dama de Ferro" chegasse ao poder em Maio de 1979. Como hoje, grande parte da sociedade foi duramente atingida pela crise econômica em um ambiente de marginalização e discriminação.

O punk do The Clash foi fruto do chamado "Inverno do Descontentamento". Com a ressaca mundial deixada pela crise do petróleo de 1973, o primeiro-ministro britânico trabalhista James Callaghan, teve que renunciar em 1979, quando o país estava a anos caindo a pique e se encontrava em uma paralisia permanente entre greves gerais, alto desemprego e uma inflação galopante. Então como agora, os trabalhistas não souberam dar resposta à depressão econômica e os conservadores chegaram a Downing Street n°10 com um programa de cortes sociais. A tensão cidadã aumentou até saltar a centelha da revolta. Thatcher foi, como agora Cameron, quem não ofereceu garantias, mas pediu mais sacrifícios a milhões de pessoas em uma situação de dificuldades. A violência de rua e racial nos bairros mais pobres ocorreu em vários episódios no início dos anos oitenta como hoje e brotam em diferentes partes do Reino Unido. Tanto Thatcher como Cameron, talvez, dinamitaram o fator psicológico destes insurgentes urbanos que cantou com urgência e sem restrições o Clash, e que representavam na sua qualidade de bandidos do rock.

Eu estou perdido no supermercado / Eu não posso comprar feliz / Eu vim à procura de uma oferta/ atenção garantida / eu nasci, eu caí / ninguém reparou em mim." Quando uma canção como Lost in the supermarket se refere a como pode ser a infância de Mick Jones, no bairro marginal de Brixton, talvez você possa encontrar semelhanças em comum com a realidade de agora, nestas mesmas ruas. A crítica do consumismo que mantém esta composição parece ter explodido em um sarcasmo do destino, enquanto o mundo assiste a multidão, longe de procurar a transformação social ou alterar as regras do jogo político-social, ostentam televisores, eletrodomésticos, telefones celulares ou roupas. É vandalismo, puro e simples que alguns associam as idéias do anarquismo e anti-imperialista promulgada pelo The Clash.

Possivelmente, nunca The Clash e o que representa a sua música se foi. O álbum London Calling fecha com Train in vain, a canção de um trem em vão que representa o sentimento de perda e abandono. Talvez um dos sentimentos que movem a revolta atual. Ainda que o The Clash nada tenha influenciado os protagonistas destes distúrbios, que devem caminhar ouvindo música eletrônica ou rap, com certeza, se Joe Strummer viesse a levantar a cabeça, teria um bom motivo para pegar uma guitarra e, sem parar para pensar sobre as Olimpíadas, compor uma nova canção.


Tradução: Erick da Silva
*Publicado originalmente no El País (http://www.elpais.com)
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