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Cartum: Carnaval infernal


Autor: Allan Sieber
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Che Guevara no carnaval


No desfile da Acadêmicos do Salgueiro, os integrantes da  bateria vestiram roupas vermelhas com estampas de Che Guevara. O líder revolucionário também foi impresso nos instrumentos em um belo desfile.

Divino Cartola


Entre sumiços e retornos triunfais, a trajetória do poeta da Mangueira, nascido há mais de cem anos, ilustra a história do samba no Brasil


Por Maurício Barros de Castro



A história é famosa. Numa noite de meados dos anos 1950, o jornalista Sérgio Porto, que também assinava como Stanislaw Ponte Preta, entrou em um bar em Ipanema para comprar cigarros. Levou um susto ao dar de cara com uma lenda do samba que acreditava já ter morrido. Debruçado no balcão estava Cartola, ilustre compositor que desaparecera do meio musical havia muitos anos. Sérgio Porto teve a imediata consciência de que aquela era uma descoberta histórica – afinal, ele era sobrinho de Lúcio Rangel, o jornalista que tinha apelidado Cartola de “Divino”.
A trajetória do poeta da Mangueira é repleta de episódios como este. Entre períodos de ostracismo e de sucesso, sua vida ilustra a história do samba no Brasil. E com um final feliz.
O menino Angenor de Oliveira nasceu no dia 11 de outubro de 1908 no Catete, Zona Sul do Rio de Janeiro, e até os 11 anos teve uma infância confortável no bairro vizinho, Laranjeiras. Seu avô era cozinheiro do então vice-presidente Nilo Peçanha (1897-1924). O pai do futuro sambista, Sebastião de Oliveira, tocava cavaquinho, e sua mãe, Aída de Oliveira Gomes, era uma dedicada foliã. No carnaval, a família saía no Rancho dos Arrepiados, que desfilava no bairro. Suas cores: verde e rosa.
Com a morte do avô em 1919, os pais de Cartola foram em busca de um lugar mais barato para viver com seus sete filhos. Mudaram-se para o Morro da Mangueira, na Zona Norte, que na época não tinha mais do que cinqüenta barracos, indo morar no “Buraco Quente”, travessa cujo nome oficial é Saião Lobato, onde os sambistas se reuniam para cantar nos botequins. Ali Cartola começou a conviver intensamente com o universo da cultura negra do morro, participando das rodas de samba e de batuque, um jogo de pernadas praticado pelos bambas e valentes.
Logo tornou-se grande amigo de Carlos Cachaça (1902-1999), que viria a ser seu principal parceiro. Como era mais novo, Cartola o seguia pelos becos e vielas da Mangueira, desbravando seus mistérios e segredos. O apelido que o consagrou surgiu no ambiente de trabalho. Vaidoso, em seu ofício de pintor Angenor usava um chapéu-coco inseparável para se proteger da tinta que caía sobre sua cabeça. O trabalho, porém, não estava entre suas maiores paixões. Vivia mesmo era para o samba e o carnaval.
Com outros jovens sambistas, fundou em 1925 o Bloco dos Arengueiros. O grupo não só fazia música, mas também promovia arruaças por onde passava, desafiando até a polícia. Se por um lado eles eram temidos pelos moradores da Mangueira, por outro eram respeitados como ritmistas. Cartola percebeu que o potencial dos arengueiros deveria ser canalizado somente para o samba, deixando de lado as brigas e confusões. Foi quando surgiu a idéia de criar uma escola de samba.
A fundação da Estação Primeira de Mangueira aconteceu em 1928, numa casa do Buraco Quente, reunindo sete antigos arengueiros: Saturnino Gonçalves, Massu, Zé Espinguela, Euclides dos Santos, Pedro Caim, Abelardo Bolinha e o próprio Cartola. A ele coube escolher as cores e o nome da escola. Em homenagem ao Rancho dos Arrepiados de sua infância, decidiu que o estandarte seria verde e rosa. E “Estação Primeira” se explica pelo fato de que a Mangueira era a primeira parada do trem que partia da Central do Brasil em direção à Zona Norte, onde o samba era forte.
Com apenas 20 anos, Cartola era um respeitado mestre de harmonia da escola. E já vivia sozinho: perdera a mãe em 1926, e em seguida o pai, desgostoso, abandonara o morro. Cartola só o reencontraria trinta anos mais tarde, chegando a morar com ele em Bento Ribeiro. Seu Sebastião teria tempo de assistir ao sucesso do filho antes de falecer, em 1977.
Sem pai nem mãe, o jovem Cartola tornou-se desde cedo dono de seu próprio nariz e desfrutava a animada vida noturna do morro. Mas como os excessos da boemia às vezes cobram sua fatura, certo dia ele caiu doente. Para sua sorte, Deolinda, a vizinha da casa ao lado, teve compaixão do rapaz enfermo e passou a visitá-lo todos os dias. Com o tempo, acabou se apaixonando pelo poeta sambista. O problema é que Deolinda era casada, e foi preciso expulsar o marido de casa para poder assumir o novo amor. Em pouco tempo, toda a família da nova esposa de Cartola mudou-se para seu barraco.
Conhecidos como a época de ouro da música brasileira, os anos 1930 começaram bem para Cartola. Com o surgimento do rádio comercial em 1932, o samba passou a ser cada vez mais valorizado pelo mercado. Naquele mesmo ano, seu primo, o guarda civil Clóvis, o procurou para dizer que o famoso cantor de rádio Mário Reis queria comprar um de seus sambas. Na época, essa era uma prática comum. Intérpretes compravam canções e depois assinavam como compositores, ocultando o nome dos verdadeiros autores. Eram os chamados “comprositores”. Cartola não tinha como recusar. Passou então a vender seus sambas, mas exigia que seu nome constasse no disco como autor.
Foi a década em que Cartola se consagrou como compositor, gravado pelos principais cantores do país. Sua composição mais famosa dessa época foi “Divina Dama”, que Francisco Alves gravou em 1933 e lhe rendeu o apelido dado por Lúcio Rangel. Os versos diziam: “Tudo acabado / E o baile encerrado / Atordoado fiquei / Eu dancei com você divina dama / Com o coração queimado em chama”.
O maestro Villa-Lobos (1887-1959) foi responsável por outro episódio inusitado vivido por Cartola, que lhe garantiu a oportunidade de gravar, pela primeira vez, suas composições com a própria voz. A Segunda Guerra Mundial já havia começado e, buscando apoio dos países latino-americanos, os Estados Unidos puseram em prática a chamada política da boa vizinhança. Em 1940, atracou no Brasil o navio Uruguai, que trazia a bordo o maestro inglês Leopold Stokowski. Além de fazer duas apresentações no Rio de Janeiro, o regente reuniu no navio artistas populares, trazidos por Villa-Lobos, com o intuito de fazer gravações para o Congresso Pan-Americano de Folclore. Cartola estava entre os compositores escolhidos e gravou quatro sambas no disco “Columbia presents – native Brazilian music – Leopold Stokowski”, lançado nos Estados Unidos pouco tempo depois.
Mesmo assim, ele não conseguia se sustentar como compositor. Ainda que mantivesse seu nome como autor nos discos, vendia os sambas por pequenas quantias para os cantores do rádio. O sambista continuava vivendo de biscates, pintava paredes, trabalhava como pedreiro, vendia picolé, entre outros trabalhos. A situação piorou em 1946, quando contraiu uma meningite que o impediu de trabalhar e compor. Mais uma vez, Deolinda cuidou da sua saúde até ficar curado, mas foi o coração da esposa de Cartola que não resistiu: no mesmo ano, ela sofreu um infarto e faleceu.
Desamparado, Cartola entregou-se a Donária, uma paixão destrutiva. Por causa dela, o sambista deixou a Mangueira, o violão, e foi morar no Caju. O amigo Carlos Cachaça era um dos poucos que iam visitá-lo no exílio e tentava trazê-lo de volta, sem sucesso. Quem conseguiu repatriá-lo par a Mangueira foi Euzébia Silva do Nascimento (1913-2003), mais conhecida como Zica. Após o fim do relacionamento conturbado de Cartola com Donária, ela conquistou seu coração.
Cartola começou a ensaiar seu recomeço no início da década de 1950. Mas o samba tradicional perdera espaço no mercado. Estavam na moda agora o bolero e a chamada música de fossa, cantada nas boates de Copacabana. Por este motivo, o compositor foi trabalhar num posto de gasolina em Ipanema. Foi nesta situação que ocorreu o encontro com Sérgio Porto. O jornalista tentou reintegrá-lo ao ambiente musical, arrumou para ele um emprego na Rádio Mayrink Veiga, mas a programação da emissora não favorecia sua arte.
Em 1961, Cartola saiu da Mangueira com Zica e seu filho Ronaldo para morar e trabalhar como zelador na Associação das Escolas de Samba, no Centro da cidade. O lugar foi palco de várias rodas de samba, que contavam com a presença de antigos amigos do compositor, como Lúcio Rangel, Lan e Ary Barroso. Também costumavam aparecer por lá um jovem empresário chamado Eugênio Agostini e seus primos, apresentados ao sambista por seu parceiro Nuno Veloso, que, apesar de integrar a Ala de Compositores da verde-e-rosa, era louro, tinha olhos azuis, formação universitária e vinha de uma família abastada.
Como o casarão da Associação das Escolas de Samba estava prestes a ser demolido, Agostini propôs a Zica alugar um espaço onde ela pudesse vender sua comida, e que também servisse de moradia para o casal. Dessa proposta surgiu o mítico Zicartola. A casa de samba funcionou num sobrado da Rua da Carioca, 53. Além de ter influenciado a criação do espetáculo “Opinião” e servir de palco para as primeiras apresentações profissionais de Paulinho da Viola, o lugar foi fundamental para o ressurgimento de sambistas esquecidos. Na casa se apresentaram Nelson Cavaquinho, Ismael Silva e outros velhos bambas. No sobrado também foi realizada a festa de casamento de Cartola e Zica, em 1964.
Apesar de todo o sucesso, o Zicartola funcionou somente entre 1963 e 1965. Após a saída do sócio Agostini, o casal não conseguiu administrar a casa de samba. Deixaram a Rua da Carioca e voltaram para a Mangueira. Mas o Zicartola teve o mérito de trazer de novo à tona o nome do sambista, permitindo que em 1974 ele finalmente produzisse seu primeiro disco solo, pela gravadora do publicitário Marcos Pereira. O sucesso foi estrondoso. Lançou em seguida outro LP pelo mesmo selo, alcançando igual repercussão. Nesse período, surgiram duas composições que se tornariam grandes clássicos: “As rosas não falam” e “O mundo é um moinho”.
Ainda que tardio, o reconhecimento foi importante para que Cartola pudesse viver os últimos anos de sua vida com conforto ao lado de Zica, sua família e seus amigos. Cansado do assédio constante, deixou a Mangueira pela última vez e foi morar em Jacarepaguá. Angenor de Oliveira morreu em 1980, aos 72 anos, longe de sua escola do coração. O que não impediu que fosse lembrado para sempre como o Divino Cartola, mestre da verde-e-rosa.
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Carta aberta para Sandy



Vou te dar um conselho… de mulher pra mulher: você não precisa ser santa, nem puta. Você pode ser livre.

Por Tica Moreno

Quando eu estava no ensino médio, você fez um desserviço pras meninas da minha idade, que é a mesma idade que a sua.

Foi a época da “garota sandy“: uma jovem, bonita, magra, de cabelo liso, a filha que todo pai e mãe queria ter, rica…. e virgem. E que afirmava que queria casar virgem.

A garota sandy era aquilo que nenhuma de nós éramos, mesmo que a gente tivesse uma ou outra característica dessas aí de cima. A verdade é que a gente nem queria ser daquele jeito.

Foi a primeira vez (que eu me lembre) que eu me vi sendo comparada com um modelo de mulher que eu não queria ser. E eram os outros que nos comparavam. Aí a gente foi se sentindo inadequada, umas mais, umas menos.

Qual era (qual é) o problema de não casar virgem? (Isso pra não perguntar qual é o problema de não querer casar…)

Você não acha um problema de fato, até porque há alguns anos você afirmou que não tinha casado virgem. Fico até aliviada por você, porque imagina se não fosse bom com seu marido? Ainda mais se a relação de vocês for monogâmica e conservadora… Não desejo uma vida sem orgasmo nem pro meu pior inimigo.

Mas voltando. O padrão “garota sandy” não foi uma reportagem qualquer que saiu na revista da folha. Reforçou um padrão que faz com que a anorexia e a bulimia estejam entre as principais doenças de jovens mulheres, que faz com que milhões de meninas e mulheres vivam sua sexualidade a vida inteira de forma passiva, em função do desejo e do prazer do cara, que faz as meninas e mulheres que são donas do seu desejo serem consideradas vadias, vagabundas, putas, devassas.

O machismo faz isso: separa as mulheres entre santas e putas, “valoriza” as santas e puras e desqualifica, discrimina, violenta as “putas”.

Deve ter algum motivo pra você se afirmar como santa, e não como puta, numa época da sua vida.

E daí eu vou te dizer, caso você ainda não tenha entendido o porquê dessa carta aberta, seu segundo desserviço pras mulheres. Ser a nova garota devassa.

Pra quê?? De dinheiro você não precisa.

Você não estudou psicologia? [Não, me disseram aí nos comentários que ela estudou Letras, mal aê - mas eu lancei um google e vi que na época do meu ensino médio, de onde eu tirei a memória pra escrever esse post (ano 2000), circulou ainformação da psicologia, rs.] Deveria ter aprendido alguma coisa sobre sexualidade teoricamente, além da prática (que, de novo, espero que seja boa pra você).

Nem as santas, nem as putas, são donas do seu desejo, do seu corpo, da sua sexualidade. O símbolo da devassa, e o imaginário que essa cerveja construiu – e que você vai propagandear – é o de uma mulher feita nos moldes do que a maioria dos homens tem tesão por. Importa o tesão deles, e não o nosso.

As revistas femininas (e as masculinas) fazem isso também. Sabe aquelas dicas da Nova pra fazer qualquer mulher deixar qualquer homem louco na cama? Então. É o mesmo machismo, a mesma submissão.

Você de alguma forma tá querendo apagar a imagem de santa, usando a idéia de que você pode ser devassa?

Vou te dar um conselho… de mulher pra mulher: você não precisa ser santa, nem puta. Você pode ser livre.