Honduras: a lógica do golpe


Flávio Aguiar

Não sei o que foi pior: ler sobre o golpe em Honduras, ou ler, nas seções de cartas da Folha de S. Paulo (deve haver em outros jornais também) na internete, leitores brasileiros justificando o golpe. Os argumentos centrais eram os mesmos de 1964 no Brasil: o presidente ia violar a Constituição, ia implantar uma ditadura de esquerda (pra esses leitores, ditadura de direita pode), ia virar um novo Hugo Chavez, ia, ia, ia. Só ia. Fato, nenhum. Ainda, de quebra, mais uma acusação, desta vez contra o governo brasileiro, que teria aplicado dois pesos e duas medidas ao não condenar a eleição no Irã e ao condenar o golpe em Honduras, como “mais uma prova” do “esquerdismo” da política externa brasileira.

Conceitualmente, nem vale a pena responder a esses argumentos, porque eles se desmentem por si próprios, pela sua incoerência, pela sua inconsistência, pela sua própria existência, enfim. Mas vale a pena recordar que argumentos desse naipe foram cantados em prosa e verso na nossa mídia brasileira e fora dela, em 1964. É o argumento do “ia”. Só pra recordar um pouco mais: historicamente esse argumento foi usado aqui na Alemanha para atenuar a culpa social-democrata pelo assassinato de Rosa Luxemburgo, de Karl Liebknecht, em 1919 e pela sangrenta repressão contra os trabalhadores exercida pelos para-militares dos Freikorps, que se tornaram um dos berços das futuras SS e SA. Eles (Rosa e Karl) “iam” implantar uma ditadura sangrenta, se eles chegassem ao poder a matança “ia” ser igual, só que para o outro lado, etc. Haja “ia”.

Outra semelhança com o Brasil de 64 foi o argumento do novo “presidente”, Roberto Micheletti, às pressas indicado pelo Congresso para legalizar o golpe. “Manuel Zelaya renunciou, então o cargo ficou vago”. Que argumento! Zelaya desmentiu a renúncia. Mas mesmo que tivesse renunciado, para salvar a própria vida e não virar um novo Allende, o ato seria juridicamente nulo, pois obtido sob evidente coação. É como se Pedro Carmona, o golpista venezuelano de 2002, dissesse: “Pois é, o palácio de Miraflores estava vazio, o presidente Hugo Chavez se fora, aí eu entrei e tomei posse”.

Em 1964 o Congresso, para legalizar o golpe, com o apoio de quase toda a mídia e muito mais, declarou a presidência vaga porque o presidente João Goulart “abandonara” a capital federal “sem autorização” do parlamento, e deu posse interina ao presidente da Câmara, Rainieri Mazzili. Também, que argumento notável! É a lógica do golpe: primeiro se dá o golpe, depois se busca alguma lógica que o justifique, para além de seus sórdidos interesses.

Algumas lembranças sobre Honduras. Na última metade do século XX o país abrigou uma série de operações militares de direita, organizadas/apoiadas/levadas a cabo pela CIA. Nos últimos 30 anos do século essas operações foram particularmente aprofundadas pelos governos republicanos. A partir de 1977 (quando Jimmy Carter era presidente e as operações da CIA estavam “congeladas”) instalou-se no país uma “operação Charly”, sob supervisão de militares argentinos ligados ao “Batalhão 601”, que, por sua vez, era diretamente ligado ao general Leopoldo Galtieri que, em 1981, assumiu a presidência com um “golpe dentro do golpe”. Os membros do “601” treinaram, em Honduras, o Batalhão 316, especializado em seqüestros, torturas, assassinatos e “desaparecimentos”. Honduras tornou-se, sobretudo em seu quartel de Lepaterique, um centro irradiador de ações militares anti-esquerdistas no próprio país e nos vizinhos, como em El Salvador e na Nicarágua. Essas operações também contaram com o apoio do governo de Pinochet, do Chile. A partir da posse de Reagan, em 1981, as operações desse tipo foram retomadas e aprofundadas. Nem mesmo a Guerra das Malvinas, em 1982, interrompeu essa “frutífera cooperação” entre a CIA e militares argentinos, ao que parece, durou pelo menos até 1984, e com as bênçãos do papa João Paulo II e o auxílio do embaixador John Negroponte, nomeado por Reagan para Tegucigalpa, que foi o cabeça-de-ponte de sua administração na América Central e depois foi indicado embaixador na ONU! O que colocou aquela colaboração na estante da história foi a restauração da democracia na Argentina, a partir de 1983.

Portanto, vê-se que o presente golpe em Honduras tem longas raízes. Não sei se os golpistas que invadiram a casa do presidente Zelaya foram ou são remanescentes do famigerado “316”, mas sem dúvida seu espírito ia com eles. O que os militares e os golpistas civis não souberam avaliar é que o mundo ao seu redor mudou bastante. A América Latina, a América Central, a América do Sul não são mais as mesmas. Nem mesmo a OEA e os Estados Unidos são os mesmos do ano passado. Já pensaram, caros leitores e leitoras, no que aconteceria se Bush filho e Rice pianista continuassem na Casa Branca?




Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior.

Lula condena golpe em Honduras e diz que Brasil não reconhecerá novo governo



O presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou nesta segunda-feira (29) o que considera um golpe de Estado em Honduras. Segundo ele, a única saída para o país é a democracia. “Não há meio termo. Temos que condenar esse golpe”, disse, em seu programa semanal de rádio Café com o Presidente.

O presidente de Honduras, Manuel Zelaya, foi detido por um grupo de militares ontem (28) – horas antes de o país iniciar uma consulta pública para reformar a Constituição, o que daria ao presidente a possibilidade de reeleição. A consulta pública foi considerada inconstitucional pelo Parlamento e pela Suprema Corte de Honduras.

“Não podemos aceitar ou reconhecer qualquer novo governo que não seja o do presidente Zelaya, porque ele foi eleito diretamente pelo voto, cumprindo as regras da democracia. E nós não podemos aceitar mais, na América Latina, alguém querer resolver o seu problema de poder pela via do golpe”, afirmou Lula.

Para ele, Zelaya deve retomar a Presidência de Honduras. O presidente brasileiro alertou ainda que essa é a “única condição” para que o Brasil possa estabelecer qualquer tipo de relação com o país. “Se Honduras não revir a posição, vai ficar totalmente ilhado no meio de um contingente enorme de países democráticos”, disse.



ABr

Um rábula para a presidência do STF -- Já!


Dr. Rosinha*


A última semana foi repleta de fatos políticos. Um deles foi o discurso do presidente do Senado, senador José Sarney (PMDB-AP), que, mais uma vez, jurou inocência. Com muitas falcatruas a serem investigadas e vários parentes ocupando cargos, Sarney jurou não saber de nada. E o pior: há os que acreditam.

Já o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou e decidiu que, para exercer a função de jornalista, não é preciso diploma universitário. Melhor, não precisa de diploma, basta saber escrever. Ou, pensando bem, nem isso. Basta ter boa dicção, não importando o português, para fazer o jornalismo na rádio e, às vezes, até na TV.

A exigência da formação superior era uma conquista histórica dos jornalistas e da sociedade. O fim dessa exigência significa a perda da qualidade, tanto dos profissionais como do jornalismo. Quando a mais alta corte do país toma esse tipo de decisão, podemos imaginar de tudo. Imagino que a decisão foi uma exigência dos grandes empresários do setor.

O direito ao acesso à informação independente e plural é uma condição indispensável para a verdadeira democracia. E esse direito é garantido, na prática, pelo trabalho de apuração feito por profissionais com formação teórica, técnica e ética. Profissionais capacitados a exercer um jornalismo que dê visibilidade pública aos fatos, debates, versões e opiniões contemporâneas.

Depois de 70 anos da regulamentação da profissão e mais de 40 anos de criação dos cursos superiores de jornalismo, derrubar este requisito à prática profissional significa um retrocesso a um tempo em que o acesso ao exercício do jornalismo dependia de relações de apadrinhamentos.

É falacioso o argumento de que a obrigatoriedade do diploma ameaça as liberdades de expressão e de imprensa. A profissão regulamentada não é impedimento para que pessoas se expressem por meio dos veículos de comunicação. A manifestação de qualquer cidadão depende do caráter democrático ou não do veículo de comunicação. Se este for democrático, há espaço para a manifestação. Tanto é verdade que o autor deste texto, mesmo não sendo jornalista, tem se manifestado através, por exemplo, de artigos em jornais.

Não se pode confundir liberdade de expressão com liberdade de exercício de trabalho. O mesmo artigo 5º da Constituição Federal que prevê a livre expressão das ideias prevê, também, que a legislação deve estabelecer as qualificações técnicas das diferentes profissões.

O ex-procurador-geral da República, Claudio Fonteles, em 2004, declarou-se favorável à exigência do diploma de curso de jornalismo para obtenção do registro profissional que permite o exercício da atividade. "Não estamos diante de uma atividade vulgar, que prescinde de conhecimentos técnicos. Banalizar a questionada profissão a ponto de considerar que não merece regulamentação específica é desmerecer a realidade comum dos fatos", escreveu Fonteles.

O diploma em jornalismo, bem ao contrário de ameaçar a liberdade de expressão, é uma das garantias que ajudam a conferir às empresas de comunicação do Brasil a qualidade e o compromisso com a informação livre e plural.

Na exposição e defesa de seu voto para a cassação do diploma de jornalista, o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, desqualifica os jornalistas profissionais portadores de diploma, ao afirmar que escrever é como cozinhar. Ao fazer isso, Gilmar ignora a realidade: hoje os cozinheiros também frequentam cursos técnicos e alguns de nível superior.

Não bastasse a cassação do diploma de jornalista, no dia seguinte o presidente do STF saiu ameaçando outros profissionais de cassação. Demonstrou Mendes a disposição de cassar o diploma de outros profissionais. Preparem-se, administradores, economistas, contadores, etc. Vocês podem ser os próximos.

Se continuar com a sanha de "caçador", outros profissionais poderão ser vítimas. Continuando nesse ritmo, teremos que nos preparar para a volta dos barbeiros, como era no século XVIII e parte do século XIX, para exercer a função dos médicos. Ou a volta dos práticos para tratar da nossa arcada dentária.

Não podemos esquecer dos rábulas (pessoas que advogam sem diploma) para nos defender nos tribunais. Por falar nisso, aproveito a oportunidade e lanço a campanha: Um rábula para a presidência do STF, já!


* Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR)

Humor

Autor: Bier

A crise de um Senado em crise


Cotidianamente, e de forma seletiva, a grande mídia “elege” algum fato político para elevá-lo ao status de “escândalo” público, e consequentemente “mobilizarem” a opinião pública contra o fato alvo das denúncias.
O alvo da vez é o Senado, presidido pelo Senador José Sarney, figura altamente controvérsia que simboliza a velha política, as enumeras denúncias envolvendo contratações de funcionários com “super-salários”, funcionários fantasmas, laranjas, tratamentos médicos de familiares de senadores pagos pelo senado e etc. sem dúvida são fatos graves e que merecem ser apurados o mais rapidamente possível. A questão que fica no ar, no entanto, é: desde quando tais fatos vêm ocorrendo? E mais, a quanto tempo a grande imprensa já tem conhecimento destas situações?
Não sejamos ingênuos a ponto de acreditar que tais situações só vieram a tona a agora devido a revelação de tais fatos, visto que todos estas acusações são de irregularidades que vinham sendo cometidas já há algum tempo. Da mesma forma que o “escândalo” anterior, envolvendo a Câmara de Deputados, também não eram fatos inéditos. A situação da Câmara, inclusive deixou de ser falada, justamente quando passou a atingir Deputados “amigos da mídia” como o Fernando Gabeira. Quando as denúncias atingem “alvos indesejáveis” a grande mídia adota, de forma repetida, a estratégia de desviar o foco e lançar um novo escândalo.
Os ataques ao legislativo também não é um fenômeno novo, ele corrobora com uma clara intenção de enfraquecer o “elo mais frágil” do sistema político brasileiro. Fragilidade esta que nunca é atacada nas suas causas, apenas denunciadas as conseqüências de uma engrenagem fadada a proporcionar situações de corrupção, ineficiência e descrédito. Tais ataques, ainda que possam ter no mérito alguma justeza, gera de forma direta ou indireta uma separação entre o “povo” e a “política”, cumprindo um importante papel despolitizador. Na medida em que os “políticos” estão sempre envoltos em algum escândalo, logo todos são corruptos, e se todos o são, a tendência a uma rejeição e uma negação da política passa a ser uma conseqüência direta.
E assim, se perpetua uma situação onde, através de um afastamento e uma “despolitização” da política por parte de significativas parcelas da população favorecem uma perpetuação de tal quadro. Esse mesmo afastamento impede que se consiga efetuar mudanças que coíbam e corrijam os atuais problemas. Temas como o da reforma política, teve um tratamento completamente secundarizados pela cobertura midiática, contando com a indiferença de uma parcela significativa do legislativo, mais preocupada em se manter em suas cadeiras do que em produzir mudanças democratizantes no sistema político nacional. Isto que a proposta de reforma que estava em pauta era bastante tímida comparada com as necessidades, mas ainda sim teve o triste destino do “engavetamento”, não devendo ser aprovado em um horizonte próximo.
O presente escândalo envolvendo o Senado poderia ser uma boa oportunidade para se levantar um debate de maior profundidade, fugindo do mero “denúncismo de ocasião”, sobre, por exemplo, para que serve o Senado? Não seria o próprio Senado um grande entrave para um melhor funcionamento do legislativo brasileiro?
O sistema bicameral, onde o Senado funciona como um mero “revisor” da Camara de Deputados, acaba gerando um processo de maior lentidão, e muitas vezes obstrução do processo legislativo. A Camara de Deputados, ainda que seja um espaço de profundas imperfeições e absurdas incongruências, não se comparam as distorções abismais contidas no Senado, pois ela minimamente resguarda algum reflexo da realidade brasileira em sua composição. O Senado, com uma composição de três senadores por estado, gera uma distorção original que emperra um real debate sobre a realidade. Estados com grandes populações acabam sendo subrepresentados.
Tal situação facilita que determinados “coronéis” da política se perpetuem no Senado, onde cada mandato tem oito anos, com reeleição ilimitada, gerando situações de fortalecimento de uma política anti-democrática. Afinal, tais Senadores, ao comandar determinados estados, e estarem em situação de igualdade numérica com Senadores de estados onde as eleições são mais disputadas, garantem um fortalecimento e quase perpetuação de seu poder, bem como passam a exercer um papel de dualidade com o poder executivo, muitas vezes em uma relação de pura chantagem. Com um pequeno universo de “votos” a serem disputados no plenário do Senado, cada Senador passa a ser uma “ilha de poder” própria, autônoma e com condições de literalmente “emperrar” os projetos do executivo.
Essa situação não vem de agora, e esta se arrastando já há algum tempo em nosso país. A verdadeira e profunda solução para esse problema, seria se repensar por completo o funcionamento do poder legislativo. E uma profunda mudança se faz de forma urgente. Um aspecto dessa mudança, que julgo fundamental, seria a extinção do Senado e o fim do sistema bicameral.
Mas tal debate polêmico infelizmente hoje não encontra condições políticas de ser colocado na sociedade. Afinal, os Sarneys e Calheiros da vida iriam permitir a extinção de seu espaço de poder? A direita em geral irá querer mudanças democratizantes no país, visto que até hoje jamais o fizeram? A mídia teria interesse em pautar isso? O executivo suportaria o desgaste de comprar este debate?
Creio que a resposta para todas estas perguntas são óbvias, e por tanto, teremos que agüentar por mais algum período escândalos de tempos em tempos ocorrendo no Senado, um sistema legislativo lento e anti-democrático, completamente afastado dos interesses populares. Apenas mudanças profundas e sistêmicas podem de fato alterar o atual estado das coisas.

RS tem desempenho negativo na geração de empregos


Enquanto o país comemorava o quarto mês consecutivo de crescimento dos empregos formais, o Rio Grande do Sul registrou índices negativos na pesquisa do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados. O número de demissões no estado foi maior do que o número de contratações. O saldo negativo foi de 4 postos de trabalhos. Em maio, 88 mil gaúchos foram demitidos.

Will Eisner para todos

Jorge Furtado

Chegou ao Sul a polêmica dos livros ditos “pornográficos” adquiridos pelo Programa Nacional de Bibliotecas nas Escolas (PNBE), do governo federal. Boa matéria de Marcelo Gonzatto em Zero Hora (sexta-feira, 19/6/09, pág. 50) informa que “esta semana, quando chegou uma nova remessa ao Estado, uma escola de Alvorada relatou à SEC que considerava as obras de (Will) Eisner impróprias”. A Secretaria Estadual da Educação, segundo a matéria de ZH, mandou “remover das estantes três livros do autor norte-americano Will Eisner por serem ‘inadequados’ para adolescentes” .

É uma pena. As obras em questão são três novelas gráficas, em quadrinhos, escritas e desenhadas por Will Eisner. Não li O Jogador, mas afirmo que Um Contrato com Deus (Editora Brasiliense, 1988) e O Nome do Jogo (Editora Devir, 2003) são obras-primas de um grande artista, e seria um grande serviço da escola pública gaúcha disponibilizá -las aos seus alunos.

A matéria de Zero Hora tem como título uma pergunta: “Pedofilia, estupro e adultério são temas para estudante?”. Minha resposta é sim, é claro que são. É óbvio que cada livro deve ser adequado a idade do aluno, ninguém pensaria em sugerir a leitura de Sade ou Pierre Louys a crianças, mas afirmo que os livros de Will Eisner são totalmente adequados a adolescentes. Mais que adequados, necessários. A ideia de que um assunto deva ser sonegado aos estudantes contraria qualquer noção pedagógica, além do bom senso. “Saber sempre é bom”. Familiarizados com temas como a pedofilia, o estupro ou o incesto, jovens brasileiros talvez possam se sentir mais aptos a evitá-los ou mais encorajados a denunciá-los. É para isso, para aprender sobre nós mesmos, que existe a literatura e a arte, divulgá-las é função da escola.

A polêmica do livros “pornográficos” anda rebaixada, como quase todo o debate público, pelo astigmatismo ideológico que “politiza”, na pior acepção da palavra, qualquer conversa. Em São Paulo foram os petistas que caíram de pau no governo Serra por distribuir livros “pornográficos” . Will Eisner, Manoel de Barros e outros depravados foram citados por gente furiosa, que pedia que o governo estadual paulista gastasse dinheiro com “literatura de verdade”. Aqui a crítica parece que mira o governo federal e o MEC, que comprou os livros. Quase todos os críticos falam das obras “em tese”, informam “não ter lido” mas... José Serra, sem ler, afirmou que as obras eram “de baixa qualidade”, e o governo gaúcho “não descarta recorrer a uma medida judicial para impedir a distribuição” dos livros.

Sugiro aos interessados que, para começar, leiam os livros. Garanto que são de altíssima qualidade e, ao contrário do que afirma a secretária Mariza Abreu, a obra de Will Eisner não “estimula a erotização, o comportamento agressivo” e muito menos “uma percepção inadequada das relações afetivo-sexuais” , ao contrário. A obra de Eisner, assim como a Bíblia, Shakespeare, Machado de Assis, Cervantes, ou a obra de qualquer grande autor, utiliza os temas fundamentais que animam o espírito humano, incluindo aí crimes e pecados. Tratar temas como agressão, adultério ou pedofilia não significa “incentivar” a agressão, o adultério, ou a pedofilia. Significa conhecê-los. Não é esta a função da escola?

Jorge Furtado é cineasta, dirigiu, entre outros, “O Homem que Copiava” e “Saneamento Básico, o Filme”

Governo vai indenizar camponeses do Araguaia perseguidos pela Ditadura


Em um julgamento inédito, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça anunciou na quinta-feira (18) que indenizará 44 camponeses - ou seus familiares, se eles já estiverem mortos - que sofreram com a repressão da ditadura militar à guerrilha do Araguaia, entre 1972 e 1974.

As reparações financeiras serão de R$ 80.352 a R$ 142.941à vista, totalizando R$ 4,9 milhões, e mais dois salários mínimos por mês até o final da vida dos contemplados.

As anistias fazem parte de um total de 84 desses casos julgados pela comissão. Até o fim do ano, o colegiado pretende analisar outros 198 casos restantes referentes à guerrilha do Araguaia.

"Estamos fazendo aqui um reconhecimento de um pedido de desculpas", disse o ministro da Justiça, Tarso Genro, durante a cerimônia de anúncio dos resultados dos julgamentos na praça central da cidade.

"Isso não é revanchismo, é afirmação da dignidade da pessoa humana", acrescentou.

A Comissão de Anistia concluiu que essas 44 pessoas foram torturadas, sequestradas, perderam suas terras, lavouras ou criações de animais devido às operações militares que tentavam combater os guerrilheiros.

Já os outros 40 requerimentos foram rejeitados porque seus autores não conseguiram comprovar os danos supostamente sofridos. As pessoas que tiveram o pedido de anistia negado podem recorrer à comissão e à Justiça.

"Não entramos no mérito se as alegações eram falsas ou verdadeiras, mas sim se há documentação ou compatibilidade com outras histórias que nós ouvimos", explicou o presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão.

Formada por militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), a guerrilha do Araguaia estabeleceu-se em região amazônica de aproximadamente 7 mil quilômetros quadrados localizada no sul do Pará, com o objetivo de conquistar o apoio da população local contra o regime militar e fazer uma revolução. A repressão ao movimento deixou cerca de 70 desaparecidos.

Segundo a Comissão de Anistia, a violência contra a população local ocorreu porque os militares consideravam "rede de apoio" aos guerrilheiros qualquer morador que mantivesse relações comerciais ou conhecessem os militantes comunistas.

Citando a importância do evento, Abrão ressaltou em discurso que esta é a primeira vez que o Estado recompensa a população pelas ações do regime militar (1964-1985), já que diversos militantes de esquerda famosos já foram anistiados no país.

Segundo ele, ainda há a cultura do medo entre os habitantes da região, o que tem prejudicado as apurações sobre o caso. Abrão disse que há informações não comprovadas de que agentes de ex-militares que combateram na região rondavam a área a fim de intimidar as pessoas que estavam prestando depoimentos à comissão.

"(A repressão à guerrilha) foi a maior operação militar que o Estado brasileiro promoveu desde a Segunda Guerra Mundial", destacou.

Aplausos censurados, o desespero da mídia


Gilson Caroni Filho


Os governos militares censuravam a imprensa para impedir a denúncia de torturas, de escândalos administrativos e quaisquer notícias que evidenciassem as crises e a divisão interna do regime. A censura política das informações, institucionalizada pela Lei de Imprensa e pela Lei de Segurança Nacional, foi um dos pilares de sustentação da noite dos generais. Esse era o preço imposto pela ditadura.

Passados mais de 20 anos da redemocratização, com a crescente centralidade adquirida no processo político, a grande mídia comercial tomou para si o papel de autoridade coatora. Sem qualquer pretensão de exercer papel decisivo na promoção da cidadania, não mais oculta seu caráter partidário e deixa claro quais políticas públicas devem permanecer fora do noticiário.

A construção negativa da persona política de lideranças políticas do campo democrático-popular tornou-se o seu maior imperativo. Invertendo a equação da história "republicana" recente, há seis anos a imprensa passou a censurar o governo. Esse é o preço imposto pelo jornalismo de mercado; pelas relações de compadrio entre redações e oposição parlamentar, e pela crise identitária dos que foram desmascarados quando se esmeravam para definir qual era a “democracia aceitável”.

Com o esgotamento do modelo neoliberal, sentindo-se cada vez mais ameaçada como aparelho privado de hegemonia, a edição jornalística já não se contenta mais em subordinar a apuração ao julgamento sumário de fatos e pessoas. Censurar registros que sejam incômodos aos seus interesses político-econômicos, deslegitimado uma estrutura narrativa viciada, passou a fazer parte da política editorial do jornalismo brasileiro.

Em recente viagem a Genebra, o presidente Lula foi ovacionado ao discursar no Conselho Nacional de Direitos Humanos da ONU. Depois, segundo relato da BBC, "foi aplaudido seis vezes" ao criticar o Consenso de Washington e o neoliberalismo na plenária da OIT. O silêncio dos portais da grande imprensa e a ausência de qualquer referência ao fato nas edições da Folha de São Paulo, Globo e Estadão foi gritante.
Representou o isolamento acústico dos aplausos recebidos. Uma parede midiática que abafa o “barulho insuportável" na razão inversa com que ampliou as vaias orquestradas na cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos em 2007, no Rio de Janeiro. Nada como um aparelho ideológico em desespero.

Se pesquisarmos as raízes do comportamento dos meios de comunicação, veremos que elas nos dirão o quanto já é forte a desagregação da ordem neoliberal a qual serviram desde o governo Collor, passando pelos dois mandatos de FHC. Durante doze anos (de 1990 a 2002), a sociedade civil sofreu rachaduras sob os abalos devastadores da "eficiência" de mercado. Elas afetaram a qualidade da história, as probabilidades de uma República democrática e de uma nação independente.

Lula aparece como condensação das forças sociais e políticas que se voltaram para a construção de um novo contrato social. O tucanato, com apoio de seus porta-vozes nas redações, figura como ator que tenta reproduzir o passado no presente, anulando ganhos e direitos sociais. O que parece assustar colunistas, articulistas e blogueiros é o crescente repúdio à truculência infamante que produzem diariamente. Salvo, claro, a parcela da classe média que tem no denuncismo vazio e no rancor classista elementos imprescindíveis à sua cadeia alimentar. Aquele restolho que costuma pagar a ração diária com comentários insultuosos, sob a proteção do anonimato.
É preciso ficar claro que estamos avançando. Ou os de cima aprendem a conviver com os de baixo, ou como na fábula da cigarra e da formiga, poderão descobrir o arrependimento tarde demais. Seria interessante para a própria imprensa que trocasse os insultos de seus escribas mais conhecidos pelo debate verdadeiramente político. Aquele que busca compreender as condições sociais, políticas, culturais e econômicas de uma modernização que, por não promover exclusão, representa revolução democrática combinada com mudança social. Isso inclui aplausos, mesmo que abafados.

Humor


Autor: Kayser

Disk Fonte: o jornalismo papagaio de repetição


Otimo post pescado no blog do Sakamoto, vale a pena conferir:

São personagens com opiniões mais que conhecidas sobre determinadas temas, mas sistematicamente procurados por alguns veículos porque dizem exatamente aquilo que esses veículos querem ouvir. Esse joguinho viciado exige duas cenas de fingimento por parte dos veículos. A primeira é que o jornalista busca uma opinião independente, isenta. Falso. Nesses casos, muitas vezes os repórteres selecionam suas fontes já sabendo exatamente o que as fontes irão dizer. Citam só para dar um aspecto de isenção na “reportagem”. Na realidade, estão é dando uma opinião. Só que de forma terceirizada.

O segundo fingimento é não ver que uma parcela cada vez maior de leitores já percebeu como funciona esse joguinho viciado.

Aos nomes:

Contas Públicas? Disk Raul Velloso
(o economista critica os gastos. Qualquer gasto)

Telecom? Disk Ethevaldo Siqueira
(é o jornalista que mais conhece o fascinante mundo da telefonia privatizada, mas, ao citá-lo, só não diga que ele dá consultoria para empresas da área)

Previdência? Disk Fabio Giambiaggi
(aproveite e fale um pouco da perseguição que ele sofreu no “aparelhado” Ipea…)

Reformas estruturantes? Disk Scheinkman
(José Alexandre Scheinkman é o maior especialista nas “lições de casa” que o Brasil precisa fazer. É o nosso maior Chicago Boy)

PT-RS? Disk Rosenfield
(o filósofo Denis Rosenfield, da UFRGS, domina esse nicho há mais de uma década)

MST? Reforma Agrária? Disk Jungmann
(o deputado e ex-ministro Raul Jungmann só abandona sua cruzada quando o assunto é Daniel Dantas)

Educação? Disk Claudio Moura e Castro
(sabe tudo de ensino privado)

Bolsa Família? Disk Frei Betto
(você conhece alguém mais que esteve lá dentro e fala mal do programa?)

Ética? Disk Romano
(O professor de filósofia Roberto Romano)

Ética na política? Disk Gabeira
(O deputado federal Fernando Gabeira, que viaja bastante de avião…)

Pau no governo Lula? Disk Marco Antônio Villa
(Historiador. Tiro e queda. Mais pau no governo Lula? Disk Lúcia Hippólito - com a vantagem de ser uma das meninas do Jô)

Relações internacionais? Disk Rubens Barbosa
(Ex-embaixador. Precisa diversificar? Disk Celso Lafer, o ex-chanceler)

Mercado financeiro? Disk Arminio Fraga, o ex-BC
(Não rolou? Disk Gustavo Loyola? Ocupado? Ah, então vamos no Disk Maílson mesmo)


Partidos? PT especificamente? Disk Bolívar
(O cientista político Bolívar Lamounier, mas, por favor, não diga que ele é filiado ao PSDB)

O post na íntegra confira aqui

Recomendamos: Blog Fatos e Dados

Só o queixume da mídia corporativa e golpista já valeria a visita, no ar já há alguns dias, o blog Fatos & Dados, blog publicado e administrado por uma equipe de profissionais de comunicação da Petrobras. Nele, é apresentado fatos e dados recentes da Companhia e o posicionamento da empresa sobre as questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Leia, comente e divulgue para seus amigos.

http://petrobrasfatosedados.wordpress.com/



Para atingir o déficit zero, governo Yeda não faz nem o essencial

A proposta de Lei de Diretrizes Orçamentárias relativa ao próximo ano encaminhada pelo governo Yeda à Assembleia Legislativa cristaliza abandono de áreas essenciais, como educação, saúde e funcionalismo, e sinaliza dias difíceis para os gaúchos que necessitam do Estado. Confira a análise da proposta feita pela Assessoria Técnica da Bancada do PT:Clique aqui

A marca da maldade


A mídia do Ocidente prega continuamente sobre o atraso da "república islâmica" do Irã, em vários aspectos políticos e comportamentais (no que muitas vezes têm razão). Mas quase sempre omite o papel que os países líderes do Ocidente tiveram e têm nessa consolidação. É nessa moldura – em que o poder de fato está, não nas mãos do presidente da república, mas do corpo e do líder dos aiatolás – que aparece o espaço para um político de ambições próprias como Mohammad Ahmadinejad. A análise é de Flávio Aguiar, que pode ser lida na íntegra acessando aqui

Petrobrás põe em xeque o jornalismo marrom


Artur Henrique e Rosane Bertotti


O blog Fatos e Dados, lançado recentemente pela Petrobrás, é o melhor fato novo na área de comunicação dos últimos tempos. Vai virar case, como dizem os marqueteiros. Vai tornar-se exemplo e ser copiado.
Idéia simples e extremamente eficaz. Sob fogo cerrado do PSDB e do DEMo, e com a imprensa a vasculhar possíveis problemas de administração, a empresa decidiu publicar num blog as perguntas que os jornalistas enviam por escrito e as respostas que a empresa dá a essas mesmas perguntas, na íntegra.
Com isso, a Petrobrás se antecipa a uma prática comum da grande imprensa, e a atrapalha. Quem milita nos movimentos sociais e tem a tarefa de atender essa mídia sabe muito bem o que é prestar informações em longas entrevistas e, no dia seguinte, ver tudo o que falou reduzido a uma ou duas frases, fora de contexto, em reportagens depreciativas que ignoram os dados apresentados.
O blog Fatos e Dados coloca essa prática em xeque, dá uma trucada no esquema dos jornalões, das rádios e das TVs, que elaboram primeiro o título de suas matérias e depois saem a campo para colher entrevistas que confirmem a tese que já estava pronta. Declarações e dados objetivos que contrariem a tese são descartados por jornalistas e editores.
A Associação Nacional de Jornais (ANJ), sindicato que reúne os barões da imprensa, reclamou. Em nota, acusou a Petrobrás de tentar “intimidar jornalistas”. Classificou a iniciativa de “canhestra”. Canhestra, definitivamente, não é, basta notar o barulho que está causando. Para maior desespero da imprensa marrom, advogados especialistas em comunicação dizem que a ferramenta criada pela Petrobrás não fere nenhum princípio legal.
Em ocasiões recentes, a CUT fez algo semelhante com uma revista e dois jornais. Ao notar que as publicações queriam fazer matérias desonestas sobre a Central, e que desprezariam todo e qualquer dado que apresentássemos, decidimos exigir o envio das perguntas por escrito e a garantia que as respostas fossem publicadas na íntegra. Escrevemos cartas com essas exigências, registramos em cartório e as entregamos nas mãos da direção de redação, com protocolo. As publicações recuaram e as “reportagens” foram abortadas. Se as intenções desses veículos fossem justas, o que haveria a temer?
A CUT também tem por hábito publicar em sua página da internet a íntegra de cartas e respostas enviadas às redações, para que se possa compará-las ao que saiu nos jornais. Mas a Petrobrás, ao fazer disso uma prática diária, deu início a uma tática de enfrentamento de crise muito interessante.
Dizer que esse tipo de iniciativa fere a liberdade de imprensa é uma bobagem, uma mentira. Uma cômica contradição fica exposta quando os jornais dizem isso: por que o blog não poderia ter liberdade de expressão? Se informação é bem público, e nós acreditamos que sim, o blog Fatos e Dados atende a um direito do cidadão.
Mais que isso. Por que a grande imprensa está permanentemente livre de responsabilidade quanto a suas práticas? Expor o modo como as reportagens são feitas, de que maneira as perguntas são elaboradas e quais informações ficam de fora, não deixa de ser uma forma de controle externo.
Com certeza, esse é mais um tema para ser abordado pelo nosso V Encontro Nacional de Comunicação da CUT e pela Conferência Nacional de Comunicação.

Artur Henrique, presidente da CUT, e Rosane Bertotti, secretária nacional de Comunicação

Déficit zero: Estado tem os piores índices de educação infantil do Brasil


O Rio Grande do Sul é o 19o Estado do Brasil no ranking que aponta os investimentos em Educação Infantil. Com base no Censo Escolar do ano passado, o levantamento foi elaborado pelo Tribunal de Contas do Estado e mostra que a taxa de crianças atendidas pela Educação Infantil no Estado é de 28,18%, enquanto no Brasil a taxa é superior á 34%.

Para piorar, a taxa de atendimento pré-escolar é de 48,49%, sendo o pior índice do País. A informação é da Agência Chasque.

A governadora se chama Yeda Rorato Crusius, filiada ao PSDB, e apoiada por uma coligação de direita formada pelo PMDB, PP, PPS, PTB, etc., bem como por deputados oportunistas e aproveitadores de outras legendas partidárias do conservadorismo guasca.

Texto: Diário Gauche

Europa à direita, América Latina à esquerda


Emir Sader


Foram os europeus que inventaram a expressão “esquerda”, foram eles que nos exportaram seus grandes teóricos, foram sempre eles as referências para as esquerdas de outras regiões do mundo, durante mais de um século e meio. Agora a Europa se torna um bastião da direita, a esquerda européia vive seu momento de maior debilidade desde que o termo foi inventado, enquanto a esquerda se fortalece na América Latina.

Partidos tradicionais de esquerda desfigurados, com tantos deles tendo aplicado rigorosamente políticas neoliberais – como os casos da Espanha, da França, da Inglaterra, da Alemanha, entre tantos outros. Sindicatos muito debilitados, devido às políticas de “flexibilização laboral”, ao desemprego, à exploração chovinista contra os trabalhadores imigrantes. Esquerda radical isolada, dividida. Cenário ideológico dominado pela direita e até mesmo pela extrema direita.

Um continente que vive bem, mais distante do que nunca do que vive a periferia, que não quer mudar, que culpa suas vítimas pelos seus problemas – imigração, “terrorismo”. Um continente que preferiu consolidar sua aliança subordinada com os EUA, do que aliar-se à periferia na luta por um mundo melhor.

Votam à direita, com hegemonia conservadora, porque são os grandes vencedores da globalização neoliberal, enquanto a América Latina vota à esquerda, porque somos vítimas dessa globalização. Enquanto eles rejeitam a esquerda, a América Latina reivindica e trata de reinventá-la. Enquanto eles rejeitam o marxismo, o pensamento critico latinoamericano busca aplicá-lo criativamente. Enquanto eles reforçam o capitalismo de forma conservadora e autoritária, com políticas duras contra a imigração, países latinoamericanos – como a Bolívia e o Equador – reivindicam a seus imigrantes e elegem representantes seus para suas constituintes e seu sistema política de Estados refundados. Enquanto eles projetam lideres direitistas e autoritários como Sarkozy, Berlusconi, Merkel e se representam neles, a América Latina exibe a imagem dos 5 presidentes latinoamericanos de mão dadas ao alto no Fórum Social Mundial – Evo Morales, Rafael Correa, Lula, Hugo Chavez, Fernando Lugo -, todos outsiders da política tradicional, que começam a construir o “outro mundo possível”.

A Europa se transformou em um bastião do conservadorismo no mundo, substituindo a tradicional postura solidária da esquerda no pós-guerra, pelo egoísmo consumista de agora. Promoveu sua integração para se posicionar melhor no mercado mundial, para virar mais ainda um continente fortaleza, fechado sobre si mesmo.

Enquanto a América Latina promove processos de integração solidária, que permitem terminar com o analfabetismo na Venezuela e na Bolívia, devolver à visão a quase dois milhões de latinoamericanos, formas as primeiras gerações de médicos pobres – através da Alba. Forma um banco da região – o Banco do Sul -, para financiar nossos próprios projetos. Constitui o Conselho Sulamericano de Defesa, para resolver os conflitos internos dentro da própria região e fortalecer a segurança da região frente às ameaças externas.

A eleição e posse recentes de Mauricio Funes, em El Salvador, apenas confirma essa tendência latinoamericano de buscar na esquerda – moderada ou radical – a solução para seus problemas e a vida de superação do neoliberalismo, forjado e exportado do centro do capitalismo para nossos países e assumido por governos aliados do centro do capitalismo. Enquanto a América Latina privilegia a unidade do Sul do mundo, contra o neocolonialismo e a dominação imperial do centro.

A Europa se torna uma espécie de museu, congelada, buscando estar de costas para o novo mundo que procuramos construir. Nós, America Latina, um laboratório de experiências de construção desse novo mundo.

Cartum de autoria de Hasan Fazlic natural da Bósnia Herzegovina

Uruguai: a República das contradições

Eduardo Galeano

Os uruguaios, temos certa tendência a crer que nosso país existe, embora o mundo não o perceba. Os grandes meios de comunicação, aqueles que tem influência universal, jamais mencionam esta nação pequenina e perdida ao sul do mapa.

Por exceção, meses atrás a imprensa britânica ocupou-se de nós, na véspera da visita do príncipe Charles. O conceituado jornal The Times informou aos seus leitores que a lei uruguaia autoriza o marido traído a cortar o nariz da esposa infiel e a castrar o amante. The Times atribuiu à nossa vida conjugal aqueles maus costumes das tropas coloniais inglesas. Agradecemos a amabilidade, mas a verdade é que tão baixo não caímos. Este país bárbaro, que a aboliu os castigos corporais nas escolas 120 anos antes da Grã-Bretanha, não é que parece ser quando visto de cima e de longe. Se os jornalistas descessem do avião, poderiam ter algumas surpresas.

Os uruguaios, somos poucos, nada mais do que três milhões. Cabemos, todos, num só bairro de qualquer das grandes cidades do mundo. Três milhões de anarquistas conservadores: não nos agrada que ninguém nos mande e nos custa mudar.

O Uruguai mantêm-se estacionado em sua própria decadência desde o distante tempo em que constatamos estar na vanguarda de tudo. Os protagonistas se tornaram espectadores. Três milhões de ideólogos políticos, e a política prática nas mãos dos politiqueiros que transformaram os direitos civis em favores do poder; três milhões de técnicos de futebol, e o futebol uruguaio a viver da nostalgia; três milhões de críticos de cinema e o cinema nacional nunca passou de uma esperança.

O país que é vive em perpétua contradição com o país que foi. O Uruguai adotou a jornada de oito horas de trabalho antes dos Estados Unidos e quatro anos antes da França; mas hoje em dia encontrar trabalho é um milagre, e maior milagre encher a panela trabalhando apenas oito horas: só Jesus o conseguiria, se fosse uruguaio e ainda fosse capaz de multiplicar os pães e os peixes.

O Uruguai teve lei do divórcio setenta anos antes da Espanha e voto feminino quatorze anos antes da França; mas a realidade segue tratando as mulheres pior que os tangos, o que bem diz aonde chegamos, e as mulheres brilham por sua ausência no poder político, escassas ilhas femininas num mar de machos.

Este sistema, cansado e estéril, não trai apenas sua memória: sobrevive em contradição perpétua com a realidade. O país depende das vendas de carnes, couros, lãs e arroz para o exterior, mas o campo está nas mãos de poucos. Esses poucos, que pregam as virtudes da família cristã, mas mandam embora os peões que se casam, monopolizaram tudo. E enquanto isso, quem quer terra para trabalhar receber um portaço no nariz; e quem alguma terrinha consegue, depende de créditos que os bancos destinam sempre ao que tem, nunca ao que precisa. Fartos de receber um peso por cada produto que vale dez, os pequenos produtores rurais terminam buscando melhor sorte em Montevidéu. À capital do país, centro do poder burocrático e de todos os poderes, acorrem os desesperados, esperando o trabalho que é negado pelas fábricas cobertas de teias de aranha. Muitos terminam recolhendo lixo; e muitos seguem viagem pelo porto ou aeroporto.

Em matéria de contradições entre o poder e a realidade, ganhamos os campeonatos mundiais que o futebol nos nega. No mapa, rodeado por seus grandes vizinhos, o Uruguai parece anão. Nem tanto. Temos cinco vezes mais terra do que a Holanda, e cinco vezes menos habitantes. Temos mais terra cultivável que o Japão, e uma população quase quarenta vezes menor. No entanto, são muitos os uruguaios que emigram, porque aqui não encontram seu lugar debaixo do sol. Uma população escassa e envelhecida: poucas crianças nascem, nas ruas vêem-se mais cadeiras de rodas do que carrinhos de nenê. Quando essas poucas crianças nascem, o país as expulsa. Exportamos jovens. Há uruguaios no Alasca e no Haiti. Há vinte anos, a ditadura militar empurrou muita gente para o exílio. Em plena democracia, a economia condena ao desterro muita gente mais. A economia é manejada pelos banqueiros, que praticam o socialismo socializando suas fraudulentas bancarrotas e praticam o capitalismo oferecendo um país de serviços. Para entrar pela porta de serviço no mercado mundial, somos reduzidos a um santuário financeiro com segredo bancário, quatro vacas na retaguarda e vista para o mar. Nessa economia, as pessoas ficam de fora, ainda que sejam tão poucas.

Modéstia à parte – é preciso dizer tudo – também por outros motivos merecíamos figurar no Guinness. Durante a ditadura militar, não houve no Uruguai nem um só intelectual importante, nem um só cientista relevante, nem um só artista representativo, único que fosse, disposto a aplaudir os mandões. E nos tempos que correm, já na democracia, o Uruguai foi o único país do mundo que derrotou as privatizações em consulta popular: no plebiscito de fins de 92, 72% dos uruguaios decidiu que os serviços essenciais continuariam sendo públicos. A notícia não mereceu sequer uma linha na imprensa mundial, embora se constituísse numa insólita prova de senso comum. A experiência de outros países latinoamericanos nos ensina que as privatizações podem engordar as contas privadas de alguns políticos, mas duplicam a dívida externa, como aconteceu à Argentina, ao Brasil, Chile e México nos últimos anos; e as privatizações humilham a soberania a preço de banana.

O habitual silêncio dos grandes meios de comunicação evitou qualquer possibilidade de que o plebiscito se disseminasse, por contágio, fronteira afora. Mas fronteira adentro, aquele ato coletivo de afirmação nacional à contracorrente, aquele sacrilégio contra a ditadura universal do dinheiro, anunciou que estava viva a energia de dignidade que o terror militar quisera aniquilar, neste paradoxal onde nasci e tornaria a nascer.

(De O Teatro do bem e do mal, Editora L&PM, Porto Alegre, 2002)

O governo mais rejeitado da história


Marco Aurélio Weissheimer *

O Datafolha revelou que o governo Yeda é o mais rejeitado da história. Não do Rio Grande do Sul, mas do Brasil. Sim, porque segundo o diretor geral do instituto, Mauro Paulino, nunca, antes, na história desse país, tanta gente avaliou como ruim ou péssimo o desempenho de seu governante. Pois Yeda conseguiu: 51% dos gaúchos consideram sua administração malíssima ou ordinária.Mas em se tratando de Yeda, tudo que é ruim sempre pode ficar pior: o Datafolha revelou também que 88% da população gaúcha quer a CPI da Corrupção e, desses, 70% já consideram a hipótese de impeachment da governadora. Sim, impeachment! Isto tudo, dois dias depois de o jornal Zero Hora publicar uma pesquisa com números muito semelhantes.

Parece não haver mais dúvida de que o povo gaúcho não aguenta mais a governadora que se elegeu prometendo um novo jeito de fazer política. A avaliação faz lógica com a realidade pois, passados dois anos e meio, o que se viu do governo tucano foi o que há de mais velho na política brasileira: compadrio, desvio de dinheiro público, falta de transparência e desfaçatez. Novo mesmo só alguns dos personagens envolvidos; parte deles já estava por aí, fazendo as mesmas coisas, há muito tempo.

Também faz sentido que a área de pior avaliação no governo Yeda (afora ela própria) seja a da Segurança Pública. Nesses dois anos e meio, aconteceram quase uma dezena de trocas de comando, seja na cúpula da própria Secretaria da Segurança, seja nos seus principais órgãos, Brigada Militar, Polícia Civil e Susepe. Mesmo que houvesse uma política de segurança estabelecida, a dança das cabeças tornaria muito difícil a execução. O problema é que, nesta área, a combinação entre incompetência, irresponsabilidade e instabilidade resulta em morte. Não foi por acaso que no ano passado o Rio Grande do Sul bateu seu próprio recorde de assassinatos, mais de 1.600. Não é por acaso, então, que o caos está instalado no sistema carcerário gaúcho que vive uma inédita situação: o Judiciário sugerindo um rodízio de presos. O governo Lula colocou à disposição de Yeda 44 milhões de reais para a construção de presídios mas o governo gaúcho não conseguiu erguer nenhum.

Esta incapacidade de realização fica ainda mais evidente quando se descobre que no primeiro quadrimestre de 2009, depois de toda a propaganda que o governo tucano fez em torno do orçamento realista e do déficit zero (que possibilitaria, enfim, investimentos), apenas 10% do previsto foi realizado. São dados que destroem a única retórica que restava aos defensores deste governo, que Yeda seria ruim de política mas boa de administração. Os números estão aí a provar: nem uma coisa, nem outra.

* Texto publicado no blog RS Urgente (http://rsurgente.opsblog.org/ ) em 4 de junho de 2009.

Correio do Povo denuncia campanha pérfida de Zero Hora e critica puxa-saquismo do jornal da RBS


O Correio do Povo publicou editorial, hoje (5), denunciando que Zero Hora vem fazendo uma campanha pérfida contra o jornal “com a publicação de notas e insinuações como a reproduzida ontem em sua coluna de “opinião política” (Rosane de Oliveira), na qual tenta imputar comprometimento partidário ao Correio do Povo”. E isto aconteceu, acrescenta o editorial, “na mesma edição em que aquele jornal omitiu informações importantes sobre a percepção dos gaúchos quanto à possibilidade de corrupção no governo estadual, como a de que uma parcela relevante dos entrevistados defende o impeachment da governadora, no âmbito de uma pesquisa do Instituto Datafolha cujos dados essenciais foram publicados com destaque pelo Correio do Povo”.

Além disso, o jornal do Grupo Record critica “o papel vergonhoso desempenhado por alguns veículos de comunicação que, não satisfeitos com seu próprio puxa-saquismo desenfreado, tentam transformar a bajulação em virtude e a independência de outros em defeito”. “Buscando parecer imparciais o mais perto que chegam do que imaginam serem as tradições gaúchas é agir como o quero-quero, que grita bem longe de onde está o ninho verdadeiro”. E conclui:

“É esta história (de 113 anos de CP) que os gaúchos conhecem e que não precisa ser reescrita, ao contrário de outros, que, talvez por vergonha de seus próprios caminhos, estão sempre à espreita de uma mudança de rumos que coloque o Correio do Povo ao seu lado na senda indigna que eles escolheram”.

Fonte: RS Urgente

Humor

Autor: Bier

FHC e Alckmin depõem como testemunhas de defesa de Roberto Jefferson


Para aqueles "ingênuos" que acham que Roberto Jefferson seria um virtual "paladino da justiça", na quinta-feira que passou (05/06), dois "cardeais" do ninho tucano saíram para o famoso "ajuste de contas" para retribuir os favores feito por Roberto Jefferson em favor dos tucanos. Vale lembrar das ligações que este tem com os tucanos desde os anos de governo FHC. É bom que sirva de lição para certas lideranças da esquerda, e do PT em particular, de que lado está o PTB e cia na luta política real no Brasil, para além de acordos duvidos e sempre frágeis no congresso.

Abaixo a nota da noticia:


Durou cerca de 30 minutos o depoimento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, nesta quinta-feira (4), na 2ª Vara Criminal Federal.
Ele foi foi ouvido, a portas fechadas, pelo juiz Márcio Catapani como testemunha de defesa do presidente do PTB e ex-deputado federal Roberto Jefferson (RJ), acusado dos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no processo que investiga o suposto esquema de pagamento de propina a deputados em troca de apoio ao governo, que ficou conhecido como mensalão.

O ex-presidente entrou no prédio da Justiça Federal, de carro, por uma garagem geralmente reservada para carros policiais com presos e saiu do local sem falar com a imprensa. Assim como Fernando Henrique, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, também ouvido como testemunha de defesa de Jefferson, saiu sem falar com a imprensa.

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Em vez da Europa


Boaventura de Sousa Santos

Num período em que os governos nacionais se mostram reféns do modelo de (des)regulação neoliberal e da pequena elite financeira que causou a profunda crise econômica e social em que nos encontramos, o próximo ato eleitoral bem poderia ser a vez da Europa. Pelo seu voto, os cidadãos europeus teriam a oportunidade de se manifestar a favor de uma outra política e de um outro modelo econômico e social. Esta oportunidade pareceria particularmente imperdível para os portugueses, em cuja memória está bem vincada a profunda transformação, em larga medida positiva, por que passou a sociedade portuguesa em resultado da adesão à União Europeia. Porque não é assim? Porque é que as próximas eleições, longe de serem a vez da Europa, têm lugar em vez da Europa? Porque é que, em vez da Europa, o que vai a votos é tão só a resignação ou a revolta dos cidadãos europeus perante as políticas dos governos nacionais? Porque é que o provável alto grau de abstenção será uma mistura envenenada e paradoxal de altos níveis de resignação e de altos níveis de revolta?

A resposta é complexa mas os seus traços principais são os seguintes. A UE é hoje um fantasma da Europa. Existe em vez da Europa em que os cidadãos europeus acreditavam e para ocultar a verdadeira dimensão da “substituição”. Um exemplo apenas. A UE foi um dos mais fascinantes processos plurinacionais contemporâneos, inspirado numa lógica de inclusão social transnacional, assente num círculo virtuoso entre altos níveis de competitividade e de proteção social, portadora de uma concepção avançada de cidadania em cujo cerne se alojavam os direitos econômicos e sociais dos trabalhadores. Foi este, em suma, o célebre modelo social europeu.

Nos últimos quinze anos, este modelo foi minado por dentro e por fora, através de uma insidiosa convergência entre o neoliberalismo imposto pelos EUA e as elites econômicas e financeiras europeias, desejosas de se verem livres da regulação estatal forte e dos custos das políticas sociais. Paulatinamente, os cidadãos europeus foram sendo “convencidos” de que o Estado era um problema e que o mercado era a solução, que a segurança social era insustentável, que a educação e a saúde públicas eram cerceadoras da autonomia do cidadão-consumidor, que os imigrantes eram um fardo e um fator de insegurança, que, no plano internacional, a Europa devia deixar de ser uma alternativa à globalização predadora protagonizada pelos EUA para ser um seu parceiro incondicional. Tudo isto se foi convertendo na obsessão pela contenção do déficit orçamentário, condensada no Pacto de Estabilidade e Crescimento que nos legou uma cultura de travagem da economia real e de destravada aceleração da economia de casino da alta finança. Foram estas políticas europeias que geraram a crise e que, ao converterem os governos nacionais em mini-europas, os deixaram com pouca margem de manobra para reagir quando a crise estalou.

Nos últimos anos, Durão Barroso foi a imagem mais fársica desta Europa-em-vez-da-Europa e, por isso, o Plano Barroso para enfrentar a crise não podia deixar de ser um embuste: dos 400 bilhões de euros anunciados para ajudas às políticas de resposta só 35 bilhões eram dinheiro fresco; o resto era dinheiro já afetado aos planos nacionais. Podem os cidadãos europeus acreditar numa Europa que, ao manter Durão Barroso, mostra mais dificuldades em se libertar da herança Bush que os próprios EUA?

Nestas eleições, os cidadãos vão ter de esperar pela vez da Europa. A Europa da solidariedade e da interculturalidade; da democracia de alta intensidade; do controle público e participativo dos setores-chave, como o setor financeiro e da energia; da defesa; do direito ao ambiente, à saúde e à educação e do direito ao trabalho com direitos; da política de imigração anti-racista; da política de investigação e de desenvolvimento tecnológico ao serviço dos cidadãos; da política externa assente na cooperação fraterna com os países do Sul global e na recusa da imposição unilateral e da guerra.


Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

Gaúchos querem saída da Yeda, revela pesquisa da Datafolha

Para aqueles poucos mortais que ainda acreditavam que haveria alguma credibilidade do Governo Yeda junto a população, a mais recente pesquisa divulgada na Folha de SP põe por terra. Tirando o "núcleo de governo", meia-dúzia de Deputados com o "rabo preso" com os esquemas da Yeda & cia, e é claro, a sempre parceira RBS, o governo da Yeda acabou.
É só uma questão de tempo para saber como este governo irá "oficialmente" ser encerrado. Se será por impechment, algemada, fugida, etc. Ou a pior das hipóteses, que é ter de agüentar até o final da gestão para podermos nos livrar do pior governo da história recente do RS.
Abaixo segue os principais dados da pesquisa, que entre outros aspectos, cabe destacar que o governo tucano do RS é o pior avaliado em todo o território nacional. Motivo de preocupação a mais para o "ninho tucano" resolver em sua tentativa de retomada ao planalto. Pelo jeito, a vida dessa turma nos pampas não será nada fácil. Ainda mais com o crescimento acelerado da popularidade do governo Lula e da Dilma, mas isso já é assunto para outro post.





Movimento Música para Baixar (MPB) realiza fórum nacional em Porto Alegre



Porto Alegre vai sediar o I Fórum MPB, Música para Baixar, de 24 a 27 de junho. Será o terceiro grande encontro do ano organizado pelo movimento. O primeiro foi no dia 15 de março, em Brasília/DF, onde mais de quarenta pessoas ligadas à música encaminharam o fórum em Porto Alegre, concomitante com o 10° Fórum Internacional de Software Livre. O segundo foi no dia 30 de maio na cidade de Guará/DF, onde 35 mulheres se mobilizaram contra o AI-5 digital e foi articulado por artistas, produtoras, militantes de alguns coletivos e jornalistas na Casa Roxa.


O MPB tem militantes em todo o país. Está entre seus objetivos constituir um espaço presencial de diálogo no sentido de conectar música, tecnologia e comunicação colaborativa e propor alterações na lei de direitos autorais. Outra importante diretriz do movimento aponta para que a cultura livre e compartilhada seja relacionada com o software livre. Militantes do MPB vêm discutindo amplamente a lei de controle da internet, posicionando-se contra a ditadura na rede, em defesa da democratização da comunicação, dos direitos humanos e da livre circulação da produção cultural.

Para saber mais informações sobre esse importante espaço, é só acessar aqui

Google e AOL anunciam adesão ao embargo econômico dos EUA


Downloads de qualquer espécie são considerados exportações

Por Stella Dauer

Na semana passada a Microsoft anunciou o bloqueio de uso do MSN em países embargados economicamente pelos Estados Unidos. Agora, chega a vez de empresas como Google e AOL afirmarem que também integrarão o time das restrições de acesso.

Segundo o site Slashdot, aplicativos baixados da internet também são vistos como exportação dos Estados Unidos, e por isso estão sendo bloqueados. Até mesmo serviços como email, que estão totalmente na “nuvem” da internet, e que poderiam escapar da afirmação, podem estar ameaçados.

Os países são os mesmos que ficaram sem o MSN, como Síria, Irã, Cuba, Sudão e Coréia do Norte. O Sudão não terá mais direito de download ao mensageiro instantâneo da Google, o GTalk, e nem ao seu aplicativo de exploração mundial, o Google Earth. Já a AOL disse ao site Computer World respeita os programas de sanções regulado pelo governo americano, mas não informou quais medidas serão tomadas a respeito.

Um advogado que auxilia companhias que lidam com o embargo declarou que o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros vem prestando mais atenção à internet e suas atividades relacionadas desde 2003.

www.geek.com.br

A estatização da GM



A antes poderosa General Motors (GM), um dos grandes ícones do desenvolvimento econômico norte-americano, foi a bancarrota. E a solução para evitar um eventual "desastre" na economia interna dos EUA foi a "estatização" pelo governo.
Em um processo de lento e contínuo declínio, a outrora maior gigante automobilístico, passou a perder espaço no mercado mundial e no próprio mercado estadunidense (de 45% em 1980 passou a 22% em 2008). Além da perda de espaço no mercado, operações desastrosas no mercado financeiro acumularam um elevado processo de endividamento na empresa, estima-se que o valor chegue US$ 79 bilhões.
Outro fator complicador para a GM são as pensões pagas aos funcionários. Antes recheadas graças a sólidos investimentos, os fundos que abrangem 500.000 americanos, foram drenados pelo declínio no mercado acionário e pela decisão da empresa de aumentar o pagamento de pensões para compensar a redução dos benefícios de saúde e "estimular" os funcionários mais antigos a aposentar-se mais cedo. Política muito corriqueira no receituário neoliberal para "sanar uma empresa".
Bem, os resultados falam por si só. Com a avalanche que atingiu o centro do império, abalando os principais pilares do modelo neoliberal, o caso da GM é simbólico sobre como a financeirização da economia abalou e compromete profundamente a chamada "economia real".
Saídas "por dentro", que tentassem restabelecer o curso das coisas a sua "normalidade" foram todas fracassadas. Bilhões foram alocados pelo governo dos EUA para tentar manter a "competitividade" da empresa, mas todo dinheiro despejado não surtiu efeito, pois o problema que se apresentava é de natureza estrutural. Até mesmo a demissão do Executivo-chefe da GM foi feita em um das enumeras tentativas do Governo Obama em tentar resolver o impasse. Sempre hesitante em construir uma solução fora do receituário ortodoxo do mercado.
Por fim, não restou outra saída que não a estatização. O governo dos EUA irá passar a controlar 60% das ações, o sindicato dos trabalhadores irá ter 17.5%, o governo do Canadá 12,5% e os 10% restante da GM irá ficar com os credores.
No entanto, as intenções iniciais do governo Obama é de sanar as finanças da "nova GM" até o final do ano, através da venda de algumas das marcas (Opel, Pontiac, Saturn, etc), demissões e fechamento de unidades de produção. Para posteriormente "re-privatizar" a empresa, tudo patrocinado pelo dinheiro público.
Restringindo-se a este plano de ação, inevitavelmente a GM, em um médio prazo voltara a apresentar os mesmos problemas, pois é da natureza do sistema.
No entanto, a pressão popular advinda pelas demissões e pelo dinheiro público gasto, a permanência da crise financeira, as dificuldades de implementação da recuperação econômica da empresa, podem vir a retardar esse plano por um tempo muito maior que o previsto. A permanência da GM como uma empresa estatal não pode ser descartada no horizonte próximo, ainda que difícil de ocorrer. O que não deixaria de ser irônico, que justamente no centro irradiador do receituário neoliberal, serão as políticas estatizantes que recuperarão a economia norte-americana. O erro fatal será um retorno as mesmas em um médio prazo, quanto a isso não nos resta dúvida.

Humor


Autor: Quino

A direita brada diante do espectro bolivariano



Atilio Boron*

Nos últimos anos, a relação argentino-venezuelana tem registrado um significativo crescimento no terreno da economia, bem como um importante avanço em matéria política. É por isso que a cada vez mais reacionária direita Argentina bradou ante as nacionalizações dispostas pelo governo bolivariano em cumprimento a um plano largamente anunciado, ratificado eleitoralmente e coerente com o processo de transformação em curso na Venezuela.

A reação histérica da direita leva a várias observações. Em primeiro lugar, como contestar o direito inquestionável do governo venezuelano - na verdade, de qualquer governo -, de dispor da expropriação de empresas consideradas estratégicas para um projeto de desenvolvimento nacional e cujo desempenho não pode ser libertado da ditadura do capital e seu insaciável desejo de lucro?

Contrariamente ao que pensam os homens de Neanderthal, que compartilham sua caverna com Mario Vargas Llosa e seus asseclas, a nacionalização das empresas não foi uma invenção do populismo latino-americano, mas dos governos social-democratas e trabalhistas do período entreguerras e, sobretudo, do período aberto após o final da Segunda Guerra Mundial, e teve resultados extraordinários. Com efeito, os resultados destas políticas de nacionalização sobreviveram em muitos países europeus até hoje. Por que prescindir de semelhante ferramenta?

Em segundo lugar, a formidável expansão da intervenção estatal nos mercados pode assumir diferentes formas. Nacionalizações são uma delas; outras são as políticas de resgate empresarial dispostas por governos tão "revolicionários" e "esquerdistas" como os de Barack Obama e Gordon Brown, que destinaram cifras perto de US$ 1 bilhão para salvar bancos, financeiras e empresas industriais, introduzindo um certo grau de controle público em suas operações.

Os porta-vozes da direita - sempre tão obcecado por preservar o funcionamento dos mercados de qualquer ingerência estranha, como a que pode exercer um Estado democrático - recorreram em massa a Caracas para criticar Chávez por suas nacionalizações e para denunciar publicamente a sua curiosa ditadura - curiosa porque ele ganhou em 14 das 15 eleições realizadas desde 1998 e também porque permite que os ultramontanos debulhem sua pregação destituinte sem quaisquer restrições, inclusive sendo convidados a discutirem com outros intelectuais em nada menos que no Alô Presidente.

Mas rechaçaram o convite porque os ideólogos da direita são bons para pontificar ante os meios de comunicação do establishment, mas se acovardam invariavelmente na hora de discutir com os intelectuais de esquerda.

Na sua incurável incongruência, estes zelosos guardiões da liberdade são "socialistas" na hora de socializar os prejuízos das empresas, enquanto agem com estreito individualismo, quando se trata de embolsar lucros.

Este duplo modelo da direita não é novo: denuncia com tom apocalíptico ameaças à liberdade e aos direitos humanos em países como Venezuela, Bolívia e Equador, mas nem as tortura encomendadas pela Casa Branca, nem os vôos secretos para trasladar prisioneiros ou as atrocidades de Guantânamo ou Abu Ghraib sucitam nela a menor preocupação. O mínimo que se pode concluir é que a direita é moral e intelectualmente desonesta.

Em terceiro lugar, o furor antichavista, exacerbado ao ritmo da atual campanha eleitoral, não conseguiu esconder que a Venezuela e a Argentina são duas economias altamente complementares, o que facilita a sua crescente integração. Não é assim entre nosso país e o Brasil, por exemplo, que está deslocando dos mercados internacionais a insipiente presença dos nossos produtos agrícolas.

Por isso, o intercâmbio comercial com a Venezuela tem crescido significativamente e é do maior interesse da Argentina fortalecer esta relação e, também, exigir de Brasília que, de uma vez por todas, permita a plena incorporação da Venezuela ao Mercosul. Com isso, se encerraria um triângulo de ouro, integrando três países com perfis macroeconómicos altamente complementares em matéria alimentícia, industrial e energética, o que não só robusteceria a cada um deles, como também a toda a região, em momentos em que se revigora a crise capitalista.

Com um acréscimo: a incorporação da Venezuela bolivariana dotaria o Mercosul de uma visão geopolítica vital que está ausente em um processo de integração ainda dominado pela lógica e os valores do neoliberalismo. Tudo isso, evidentemente, é uma má notícia para o imperialismo, cujo último desejo é uma América Latina economicamente fortalecida. Daí o grande esforço da direita para manter a Venezuela fora do Mercosul.

Por último, não pode ser ignorado que, em todos os casos que ocorreram nacionalizações, Caracas esteve sempre disposta a retribuir com a indenização para as empresas afetadas. As empresas que, como antes a Sidor, violavam leis trabalhistas e não cumpriam compromissos assumidos com o governo, o que acrescenta novos elementos para justificar a sua expropriação.

Apesar do coro desafinado que unificou vozes tão discordantes como a UIA, o dirigente da CGT (que assombrou o mundo, declarando que as nationalizações não eram o que havia ensinado Perón, gestor gestor das mais importantes jamais realizadas na história argentina) e os meios de comunicação de massa - verdadeiro intelectual orgânico que articula o fragmentado, incoerente e desunido espaço da direira argentina -, o promissor caminho aberto pela crescente vinculação entre a Argentina e a Venezuela não será encerrado pela gritaria de ontem.

*Atílio A. Boron é Doutor em Ciências Políticas, Professor de Teoria Política(UBA - Universidade de Buenos Aires).