História ao gosto do freguês

Excelente texto publicado na Carta Capital e reproduzido na íntegra abaixo:






Apoiar incondicionalmente as ações israelenses nunca pareceu tão tolo. No caso do jornalista português João Pereira Coutinho, em sua coluna na Folha de S.Paulo de 6 de janeiro, chegou-se aos mais profundos abismos da estupidez. Propôs um exercício de história alternativa, no qual o Brasil foi atacado em 1967 por três potências latino-americanas (sic), uma delas o Uruguai (!), que acaba ocupado. Em 2005, o Brasil se retira do Uruguai, como "primeiro passo para a existência de dois Estados soberanos, o Brasil e o Uruguai" (sic), mas o Rio Grande do Sul é bombardeado por terroristas uruguaios, apoiados por uma Argentina "liderada por um genocida que deseja ter capacidade nuclear para riscar o Brasil do mapa". O Brasil então invade o Uruguai "para terminar, de uma vez por todas, com a agressão de que é vítima".

Difícil imaginar recurso mais patético do que tentar mobilizar o chauvinismo dos brasileiros convidando-os a se imaginarem ameaçados pelo Uruguai e pela Argentina – mesmo que, além disso, essa ficção não falsificasse radicalmente a história e o contexto do conflito. Experimentemos tornar a analogia um pouco mais completa e assumir o ponto de vista do outro lado, por mais que isso possa soar politicamente incorreto.

Suponhamos que na Segunda Guerra Mundial não houvesse ocorrido o Holocausto, mas acabasse em completa destruição, desindustrialização e desmembramento completo da Alemanha (como chegou a propor o chamado plano Morgenthau, em 1944) e que sua consequência fosse o êxodo de milhões de alemães da Europa, impelidos pela destruição de sua indústria a se estabelecerem em outras partes do mundo.

O Brasil, no qual já havia uma importante colônia alemã e que acontecia ter sido ocupado pelos britânicos em uma guerra anterior, é seu destino preferencial. As nações ocidentais penitenciam-se da culpa pelo sofrimento dos refugiados alemães inocentes aprovando um plano para dividir o país entre nativos e imigrantes. Desafiados pelos nativos, em 1948 os imigrantes alemães e os descendentes de alemães que já viviam no Brasil se apoderam de três quartos do País e o transformam em um Estado de Teutônia, ao qual germano-descendentes de todo o mundo são convidados a imigrar, criar "um posto avançado da civilização" e "fazer florescer o sertão".

Uma minoria de brasileiros permanece em Teutônia como cidadãos de segunda classe. A grande maioria é obrigada a implorar asilo na Argentina, Bolívia, Paraguai e Venezuela, ou se aglomerar em campos de refugiados no Rio de Janeiro e Nordeste, que se unem a outras nações latino-americanas. Estas, em 1967, desafiam a Teutônia e são derrotadas, o que resulta na ocupação total do que restava do território brasileiro.

A Teutônia continua a receber imigrantes e incentiva seu estabelecimento nos territórios recém-ocupados, distribuindo essas terras aos recém-chegados. Mas alguns brasileiros reagem à ocupação formando organizações de resistência que cometem atentados contra o governo e civis teutônicos. Algumas dessas organizações exigem a expulsão dos invasores e a restituição total do antigo território do Brasil, outras, conformam-se em aceitar um Estado brasileiro dentro dos limites de 1967 – Estado do Rio e Nordeste.

Os teutônicos não dão mostras de levar a sério essa possibilidade, apesar das pressões internacionais, até que o custo excessivo do conflito e da ocupação leva seu governo a decidir se retirar do Rio de Janeiro, imensa favela de 30 milhões de refugiados, e de municípios áridos, esparsos e superpovoados do interior do Nordeste, cercados de muralhas, postos de vigilância e prósperas fazendas teutônicas.

Apesar da resistência militante de alguns milhares de teutônicos que haviam recebido terras perto de Nova Friburgo, a retirada é efetivada e a administração desses guetos entregue a uma "autoridade brasileira" gerenciada por um partido corrupto e ineficaz, que continua a reivindicar inutilmente a independência dentro dos limites de 1967. Sua sede é um bolsão isolado em torno de Juazeiro do Norte, cercado de tropas teutônicas.

Algum tempo depois, a maioria dos refugiados elege para a autoridade uma facção radical da resistência, como a única capaz de impor alguma ordem e trazer alguma esperança e dignidade, principalmente no inferno no qual se transformou o antigo Estado do Rio. Seus territórios são impedidos de receber recursos e se comunicar com o mundo exterior, seu governo é sistematicamente sabotado e depois dissolvido pelo presidente títere, cuja guarda reprime violentamente a facção radical nos guetos nordestinos. A "autoridade brasileira" não consegue, porém, recuperar o controle do Rio de Janeiro, onde seus partidários são facilmente derrotados pela facção radical. Seus militantes, em protesto contra o bloqueio continuado de seu território, lançam pequenos foguetes que ocasionalmente atingem alvos aleatórios nas cidades "teutônicas" de Neubonn (Juiz de Fora) e Neuköln (Taubaté). Teutônia reage com bombardeios que matam e mutilam dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças e com uma invasão maciça do Rio de Janeiro.

Ah, sim, e os militantes têm a simpatia do governo populista do México, que opera centrais nucleares, pesquisa o enriquecimento de urânio e cujo presidente, dado a bravatas, diz um dia que "o regime que ocupa São Paulo precisa desaparecer das páginas do tempo" – o que a mídia teutônica traduz como "riscar Teutônia do mapa".

Absurdo? Ridículo? Sem dúvida. Mas algo menos que a versão do senhor Coutinho. Fantasia por fantasia, esta se parece mais com o que se passou e continua a se passar no Oriente Médio.

Mas o fato é que história no condicional, seja qual for seu potencial retórico e literário, não tem valor científico, jurídico ou político. Convenhamos em deixar os absurdos retóricos de lado e analisar o mundo real.

Ato em Porto Alegre exige fim do massacre ao povo Palestino


Nesta Terça-feira (13/01) diversos manifestantes de todo o estado, ligado a diversas organizações e a comunidade palestina no Rio Grande do Sul fizeram um ato no Plenarinho da Assembléia Legislativa de formação do Comitê de Soliedariedade ao povo Palestino.
Após o ato, ocorreu uma marcha pela cidade, onde os manifestantes apresentaram suas reivindicações, entre elas a imediata retirada das tropas israelenses de Gaza e o reconhecimento do Estado palestino. Registra-se ainda a ampla adesão e a grande quantidade de manifestações de apoio que os manifestantes ouviram da população pelas ruas da cidade. Mesmo com toda a propaganda pró-israel que o grupo RBS tem feito em sua cobertura da crise, o conjunto da população tem nítido o caráter covarde e desumano desta guerra.

Boicote como protesto a Israel




A jornalista e escritora canadense, Naomi Klein, autora de No Logo e A Doutrina do Choque, está defendendo a criação de um movimento internacional de boicote a produtos de Israel, em moldes similares aquele feito contra o regime do Apartheid na África do Sul.

Em artigo publicado no The Nation, Naomi Klein defende que as sanções econômicas são o instrumento mais eficaz no arsenal da resistência não-violenta à política do Estado de Israel.Maiores informações sobre produtos e empresas israelenses, que já estão sendo alvo de uma campanha internacional de boicote, podem ser obtidas no site da campanha Boycott, Desinvestment and Sanctions for Palestine. Para ver uma lista de empresas que estão sendo boicotadas na Espanha, clique AQUI.

A covardia de Israel contra os Palestinos




Tem coisas que chamam a atenção de forma chocante neste ataque militar do Governo de Israel na Faixa de Gaza. Primeiro a forma brutal e desproporcional com que Israel tem praticado os seus ataques. Não dá para se falar em uma "guerra", como já ouvi alguns jornalistas se referindo neste conflito, pois isso pressupõe que haja dois lados em um conflito, e o que esta ocorrendo é bem diferente disso. Tanto pelos Palestinos não terem um estado constituído, como pela desproporção do poderio das partes. É melhor classificável como um ataque genocida de um Estado Militar contra um povo. E um povo que vem a décadas sendo sistematicamente atacado por Israel.
Os números dessa desproporção falam por si. As ultimas notícias davam conta que já ultrapassava a marca dos 500 mortos do lado palestino e mais de 3 mil feridos, e do lado das tropas israelenses o número de soldados mortos tinha chegado a 6 e a menos de uma centena de feridos. Com uma proporção destas, sobra margem para algum questionamento quanto ao caráter do que esta ocorrendo? Taís números não se assemelham muito a um puro e simples massacre?
E isto que estes números também não são totalmente seguros, provavelmente são ainda piores para o lado palestino, haja visto que o governo de Israel proibiu o acesso da imprensa internacional na faixa de Gaza, o que também tem sido muito pouco questionado pela nossa mídia "imparcial".
Sem contar todos os efeitos "colaterais" que a população palestina esta sofrendo, como a escassez de alimentos, água, remédios e toda a ajuda humanitária internacional, que esta bloqueada desde antes do início dos primeiros bombardeios em Ganza.
As razões destes ataques são estapafúrdias. Justificar este massacre devido ao foguetes lançados pelo Hamas é apenas um subterfúgio para maquiar os interesses eminentemente políticos por trás desta ação. Flavio Aguiar, da Carta Maior, listou cinco razões centrais para este ataque:
1) Há um claro intuito eleitoral, uma vez que a coalizão conservadora no poder, liderada por Tzipi Livin, está ameaçada pelos ultra-conservadores liderados por Benyamin Netanhyau, no pleito antecipado para o próximo 10 de fevereiro.2) Para as intenções de voto é crucial cortejar os colonos israelenses assentados ao sul de Israel, na região próxima à Faixa de Gaza.3) Para isso é necessário elevar o moral militar de Israel, combalido depois da fracassada campanha contra o Hizbollah no Líbano, em 2006.4) Para esses objetivos, o Hamás é um alvo político conveniente, por várias razões: é fraco militarmente; não tem apoio no mundo árabe; não tem o apoio nem mesmo da Fatah, sua co-irmã e rival. Politicamente, embora tenha o apoio até agora da população de Gaza, a posição do Hamás também é frágil e padece de inconsistências, pois sua política de lançar foguetes sobre Israel, mesmo como retaliação pelo bloqueio econômico, político, social e cultural sobre a Faixa, aproxima-se da temeridade de "cutucar a onça com vara curta". É evidente que o objetivo imediato dessa política é diferenciar-se da Fatah, não ameaçar de fato Israel.5) Além disso, há um objetivo de ganhar tempo. Apesar de não se esperar mudanças significativas na política externa norte-americana em relação ao Oriente Médio com a posse próxima de Barack Obama, é evidente que o governo israelense se sentia muito mais confortável com a dupla Bush Filho – Condoleezza Rice no poder. Trata-se de agir agora, antes que qualquer surpresa, mesmo completamente inesperada, possa se armar.
Qual será o desfecho deste ataque israelense não é de todo definido, mas no curto prazo tende a ser desfavorável para o povo palestino e judeu, pois estes ataques tendem apenas a fortalecer as posições mais extremadas e menos favoráveis a um diálogo e uma solução pacifica. E isso piora ainda mais ao observarmos as movimentações que as demais nações estão tendo neste episódio, em geral não assumindo responsabilidade alguma por essa situação, que no "frigir dos ovos" é inteiramente sua. A gênese deste e de boa parte dos conflitos na região se dá justamente pelos erros cometidos pelos países ricos ao intervirem na região, e infelizmente, tais erros seguem acontecendo reiteradamente.

Morre idealizador do Dia da Consciência Negra

Morreu no dia 1º de janeiro, em Porto Alegre (RS), o professor, poeta e pesquisador gaúcho Oliveira Ferreira da Silveira, conhecido nacionalmente por ser o idealizador do Dia da Consciência Negra, em 20 de Novembro.
O pesquisador, que morreu aos 67 anos em decorrência de câncer, estava internado havia 15 dias no Hospital Ernesto Dornelles. Natural de Rosário do Sul (RS), era formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com especialização na língua francesa, e professor aposentado da rede pública.
Integrante de maior projeção do extinto Grupo Palmares, Oliveira Silveira foi porta-voz da data política de 20 de Novembro para o Brasil, que adotava Zumbi dos Palmares como herói nacional.
Estava em jogo a desconstrução do mito da liberdade concedida, simbolizado pelo 13 de Maio e substituído pela combatividade negra durante todo o período de escravização e pela denúncia da ação do racismo, do preconceito e da discriminação racial no Brasil.

EUA e União Européia são cúmplices do massacre em Gaza


Tariq Ali - The Guardian
O assalto a Gaza, em planejamento há mais de seis meses e executado em momento cuidadosamente selecionado, foi feito, como Neve Gordon observou corretamente, como instrumento de campanha eleitoral, com vistas às eleições do mês que vem e para manter no poder os partidos que estão hoje no governo de Israel. Os palestinos assassinados são trunfo eleitoral, numa disputa cínica entre a direita e a extrema-direita israelenses. Seus aliados em Washington e na União Européia, perfeitamente informados de que Gaza estava para ser atacada, exatamente como no caso do Líbano em 2006, sentaram e esperaram.
Washington, como sempre faz, culpa os palestinos favoráveis ao Hamas, com Obama e Bush cantando pela partitura do sempre mesmo AIPAC (American Israel Public Affairs Committee). Os políticos da União Européia souberam dos planos, assistem aos ataques, ao sítio, ao bloqueio, ao castigo coletivo imposto à população em Gaza, aos assassinatos de civis etc. (sobre isso, ver o impressionante ensaio de Sara Roy, de Harvard, na London Review of Books [em português, "Se Gaza cair...").
Apesar de ver e saberem de tudo isso, foram facilmente convencidos de que alguns rojões de quintal teriam "provocado" a reação de Israel. E puseram-se a 'exigir' o fim da violência dos dois lados. Efeito? Zero.
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