Velhice

Virá o dia em que eu hei de ser um velho experiente
Olhando as coisas através de uma filosofia sensata

E lendo os clássicos com a afeição que a minha mocidade não permite.
Nesse dia Deus talvez tenha entrado definitivamente em meu espírito
Ou talvez tenha saído definitivamente dele.
Então todos os meus atos serão encaminhados no sentido do túmuIo
E todas as idéias autobiográficas da mocidade
terão desaparecido:
Ficará talvez somente a idéia do testamento bem escrito.
Serei um velho, não terei mocidade, nem sexo, nem vida
Só terei uma experiência extraordinária.
Fecharei minha alma a todos e a tudo
Passará por mim muito longe o ruído da vida e do mundo
Só o ruído do coração doente me avisará de uns restos de vida em mim.
Nem o cigarro da mocidade restará.
Será um cigarro forte que satisfará os pulmões viciados
E que dará a tudo um ar saturado de velhice.
Não escreverei mais a lápis
E só usarei pergaminhos compridos.
Terei um casaco de alpaca que me fechará os olhos.
Serei um corpo sem mocidade, inútil, vazio
Cheio de irritação para com a vida
Cheio de irritação para comigo mesmo.

O eterno velho que nada é, nada vale, nada teve
O velho cujo único valor é ser o cadáver de uma mocidade criadora.

Vinícius de Moraes

Impasse no transporte escolar no RS

O ano letivo nas Escolas da rede pública estadual se inicia e centenas de estudantes não estão tendo garantido o acesso a escola por falta de transporte.Isso esta ocorrendo devido a Governadora Yeda ter optado por não repassar o valor do transporte escolar (que é uma obrigação legal do Governo do Estado) para os municípios.

E no discursso do governo, o que temos visto é uma tentativa (frustrada) de repassar a responsabilidade para os municípios. A Famurs coloca que os custos com o transporte escolar para o ano letivo de 2007 totalizam R$ 140 milhões. As prefeituras oferecem um auxílio de R$ 60 milhões, desde que o Estado repasse os R$ 80 milhões restantes. O serviço beneficiará 182 mil estudantes em todo o Rio Grande do Sul.

A proposta do governo foi apresentada pelo secretário das Relações Institucionais, Celso Bernardi. O Palácio Piratini propôs somente R$ 33 milhões. O que coloca a situação em um impasse.O custo para os estudantes deste descaso da Yeda com o transporte escolar é imenso. E o quanto antes esta situação não se resolver, continuaremos a assistir a cenas de escolas que estão com professores, mas sem alunos, pois estes teve o seu direito ao acesso a escola negado pela intransigência do Governo Estadual.

Reforma Política em pauta

Foi anunciado que a Reforma Política, finalmente, deverá ser colocada em votação semana que vem.

O presidente da Câmara defende como prioridade na votação o voto fechado em listas partidárias, o financiamento público de campanha e a fidelidade partidária.

O substitutivo de Otoni inclui os três pontos sugeridos por Chinaglia e assegura aos atuais deputados, com prioridade para os eleitos pelo partido pelo qual concorrem à reeleição, a ocupação dos primeiros lugares na lista, na ordem decrescente de votos.


Se de fato tivermos estes pontos aprovados, teremos um significativo avanço para a política brasileira. Não estou muito otimista quanto a aprovação integral da reforma, afinal a imensa maioria dos deputados estão mais preucada com interesses que divergem dos propostos na reforma. Vamos acompanhar atento o desenrolar dos acontecimentos.

Para nos informarmos melhor

Emir Sader

A mídia latino-americana é cada vez mais igual, de um país a outro: age como um bloco político e ideológico de direita, cada vez mais homogêneo. Faz oposição cerrada, em bloco, em países como o Brasil, a Argentina, a Bolivia, a Venezuela, o Equador. Isto é, se opõe frontalmente ao processo de transformações em curso no continente.

No segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, Marco Aurélio Garcia pegou no nervo, quando disse duas coisas aos funcionários dessa mídia em uma entrevista coletiva, ao dizer-lhes duas coisas, absolutamente verídicas e inquestionáveis: que em um país como a Espanha, que quiser ler um jornal de esquerda, compra o El País, quem quiser ler um jornal de direita, compra o ABC. Enquanto que, no Brasil, todos os jornais são da mesma filiação ideológica, de direita. A outra, foi dizer a esses empregados dos órgãos da imprensa oligárquica, que o PT se ocupa da sua democracia interna, que eles se ocupassem da democracia - absolutamente inexistente - nas redações onde trabalham.

Mas cada vez mais podemos contornar essses órgãos -que cada vez mais parecem ser redigidos por uma única pessoa, assemelhando- se todos entre si - e buscar fontes alternativas de informação e discussão. A necessidade de informação local pode nos levar a assinar um jornal - ou mesmo lê-lo pela internet, contribuindo assim para a irresistível decadência de tiragem dos jornais, que este ano descerão da casa dos 200 exemplares diários, também para não contribuir a financiar suas campanhas direitistas -, mas podemos informar-nos pela internet.

Claro que temos os órgãos impressos alternativos, como Carta Capital, Brasil de Fato, Caros Amigos, Forum, entre outros. Mas é bastante útil acessar e ler diariamente ao melhor jornal do continente - o La Jornada, do México (www.jornada. unam.mx), de acesso gratuito, especialmente na sua cobertura internacional e da América Latina em particular, assim como os artigos de debate e a cobertura da situação mexicana.

Da mesma forma é bastante útil a leitura do Página 12, da Argentina ( www.pagina12. com.ar), também de acesso gratuito. Esses jornais são a melhor fonte para seguir cotidianamente a situação na Bolívia, no Equador, na Venezuela, em Cuba - em suma, nos países que perturbam a hegemonia da direita no continente, tanto do império, quanto do oligopólio midiático de cada país e que, por isso, são vítimas especiais das deformações e das campanhas desqualificadoras.

O espanhol El Pais - este de acesso restrito ( www.elpais.com. es) - também é fonte que pode resultar útil, embora sobre a Venezuela e Cuba seja particularmente hostil.

Na internet se pode encontrar muitas páginas alternativas, além de Carta Maior ( www.agenciacartamai or.com.br) , inclusive as de jornalistas que trabalham na mídia tradicional - como Paulo Henrique Amorim (www.ig.com.br) , Luis Nassif , além do blog do próprio Mino Carta, na página da Carta Capital ( www.cartacapital. com.br) entre outros -, que ajudam a diversificar a informação.

Entre as plublicações internacionais, é indispensável a leitura do Le Monde Diplomatique, que pode ser encontrado na página do UOL. Da mesma forma, a revista estadunidense The Nation (www.thenation. com) tem textos muito bons. Como revistas teóricas, há várias boas no Brasil, dentre elas Margem Esquerda ( www.boitempoeditori al.com.br), Crítica Marxista ( www.revan.com. br). Dentre as revistas teóricas internacionais, considero a melhor a New Left Review, que tem edição em inglês e em castelhano, accessíveis na página www.newleftreview. org).

Aqueles que tenham outras sugestões de fontes alternativas, de qualquer tipo, que favoreçam uma informação crítica e plural, além de promover debates frutíferos com visões progressistas, podem escrever, para que enriqueçamos a informação coletiva nesta luta contra o monopólio da palavra e pela criação de consensos democráticos no Brasil.

Fonte: Blog do Emir

Elis Regina canta "Trem Azul"

Uma bela interpretação da Elis que vale a pena conferir.

De volta para o futuro

José Luís Fiori

Chama a atenção a ira dos conservadores. Mas também chama a atenção o desconcerto e a crítica da esquerda ao comportamento e às posições dos novos presidentes sul-americanos, em particular, da Venezuela, Bolívia e do Equador. No caso dos conservadores, por razões óbvias, de interesse imediato, mas no caso da esquerda, por motivos menos explícitos, e com argumentos mais sinuosos, que em geral escondem um preconceito profundo contra estes novos líderes indígenas, sindicalistas ou soldados que não conhecem o manual das boas maneiras, do “esquerdista perfeito”. Quase todos estes intelectuais já gostaram dos personagens e enredos fantásticos de Alejo Carpentier, Garcia Marques, Vargas Llosa, mas muito poucos conseguem entender e se relacionar com o mundo real das sociedades hispano-indígenas, e com seus líderes que não são iluministas, nem intelectuais de salão. De qualquer maneira, durante os primeiros anos, todas as divergências e críticas pareciam reduzir-se a um problema de excentricidades pessoais. Até ali, os novos governos de esquerda da América do Sul pareciam condenados à mesmice, como se todos fossem prisioneiros perpétuos da “verdade científica” da economia neoclássica, e da “modernidade inevitável” das reformas neoliberais.

A origem deste pesadelo é bem conhecida: na década de 90, as teses neoclássicas e as propostas neoliberais se transformaram no senso comum dos governos, e de uma boa parte da intelectualidade sul-americana. Foram os “anos dourados” das privatizações, da desregulação dos mercados, e da crença no fim das fronteiras e na utopia da globalização. Mas mesmo depois das derrotas dos neoliberais, os novos governos de esquerda, recém eleitos, mantiveram o mesmo “modelo econômico”. Eles não tinham objetivos estratégicos próprios e sua política econômica seguia sendo a mesma dos governos anteriores. Mas este quadro começou a mudar depois das nacionalizações do governo de Evo Morales. Num primeiro momento, pareciam medidas pontuais e indispensáveis à fragilidade fiscal do governo boliviano. Mas, depois, foi ficando claro que se tratava de uma ruptura mais profunda e estratégica com o passado neoliberal da Bolívia, e um anúncio do novo projeto de “socialismo do século XXI”, que seria proposto, uns meses depois, pelo presidente Hugo Chávez, da Venezuela. E eis que, de repente, não mais que de repente, acabou a mesmice, e rompeu-se a “concertação por antagonismo” entre a “mão invisível” neoliberal e a “esquerda pasmada”. Goste-se ou não, foi assim que ressurgiu, na América do Sul, a palavra e o projeto socialista, e depois disto, ao contrário do que muitos previam, a esquerda não se dividiu. Pelo contrário, clarificou a sua diversidade interna, e explicitou a multiplicidade dos seus caminhos sul-americanos. Como se pode ver, por exemplo:

i) no caso do projeto “socioliberal”, do governo chileno de Michelle Bachelet, que vem modificando gradualmente o modelo econômico ortodoxo das últimas décadas, mas ainda se mantém muito distante do projeto socialista do governo de Salvador Allende. Assim mesmo, é cada vez maior o seu parentesco com as políticas da Frente Popular, que governou o Chile, entre 1936 e 1948, com o apoio dos socialistas, radicais e comunistas, privilegiando as políticas de universalização “com qualidade” dos serviços públicos universais de saúde e educação.

ii) no caso do projeto de “new deal keynesiano”, do governo argentino de Nestor Kirchner, cada vez mais distante do “modelo econômico” do governo Menem. Depois da moratória argentina, o presidente Kirchner redefiniu suas relações com a “comunidade financeira internacional”, e transformou em prioridade absoluta do seu governo a criação de empregos e a recuperação da massa salarial da população argentina, utilizando-se da formula clássica da social-democracia européia da “concertação social” para conter a inflação. Além disto, voltou a proteger a indústria, estatizou vários serviços públicos e lançou, recentemente, um programa de reestatização opcional da própria Previdência Social.

iii) no caso do projeto de “socialismo do século XXI”, anunciado pelo presidente Hugo Chávez, e apoiado pelos governos da Bolívia e Equador, retomam-se idéias e políticas que vêm da Revolução Mexicana e que fizeram parte dos programas de vários governos revolucionários ou nacionalistas do continente, culminando com a experiência de “transição democrática ao socialismo” do governo de Salvador Allende, no início da década de 70. Em todos os casos, o ponto central foi o mesmo: a criação de um núcleo produtivo estatal com capacidade estratégica de liderar o desenvolvimento do país, na perspectiva da construção de uma sociedade mais igualitária. Uma espécie de “capitalismo organizado de Estado”, onde convivam o grande capital estatal e o privado, com as pequenas cooperativas da economia indígena, dentro de um sistema comunal de participação democrática.

iv) por fim, no caso do “desenvolvimentismo com inclusão social”, do segundo governo Lula, suas primeiras medidas e propostas são muito claras: seu objetivo estratégico não é construir o socialismo, é “destravar o capitalismo” brasileiro, para que ele alcance altas taxas de crescimento capazes de criar empregos e aumentar os salários de forma sustentada, fortalecendo a capacidade fiscal de investimento e proteção social do Estado brasileiro. Com este objetivo, o governo Lula está retomando o velho projeto desenvolvimentista que remonta à década de 30, e que só foi interrompido nos anos 90. Mas, ao mesmo tempo, está querendo criar uma vontade política através de uma grande coalizão social e econômica que reúna as várias vertentes do desenvolvimentismo brasileiro, conservadoras e progressistas, que estiveram separadas durante a ditadura militar.

Resumindo: a ira e o desencanto dos liberais de direita e de esquerda tem sua razão de ser. De repente tudo mudou, e o cenário ideológico latino-americano ficou diversificado e repleto de idéias e propostas. Podem dar certo ou errado, mas não há como impugná-las, como vem acontecendo, pelo simples fato de serem projetos antigos. Todas tem raízes profundas na história latino-americana , e não se pode dizer que fracassaram, porque sempre foram interrompidas pelos golpes da direita liberal.


José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Segurança Gaúcha: sinais de piora

O secretário de Segurança Pública, Enio Bacci (PDT), e a governadora Yeda Crusius (PSDB) garantem que o corte de recursos não afetará a qualidade da segurança pública e de serviços para a população. Após um mês de espetáculo midiático em torno da chamada “ofensiva contra o crime”, o jornal Zero Hora publicou um editorial dizendo que era um fato inquestionável o “aumento da sensação de segurança”. Na madrugada de sexta-feira, moradores do bairro Floresta, em Porto Alegre, imobilizaram um ladrão que tentava invadir uma casa. Ligaram cinco vezes para o telefone 190 pedindo a presença da Brigada Militar e ouviram que não seria possível atender aos chamados por falta de viaturas. Pois bem, os moradores ficaram como ladrão imobilizado por duas horas, até que a polícia aparecesse. Na manhã desta sexta, o comando da Brigada anunciou que fará um “remanejamento de viaturas” em algumas regiões de Porto Alegre. Ou seja, vai tirar de uma área e deslocar para outra. Com os cortes no orçamento, a falta de viaturas persistirá. E a tal de “sensação de segurança”? A conferir.


Fonte: RS Urgente

Humor


Autor: Kayser